Estany de Malniu

05/07/17

Em Agosto nós relaxamos um pouco e acabamos não fazendo trilhas originais. Repetimos algumas pequenas, até chegamos a dromir em um refúgio aberto, mas não havia nada de muito novo para contar. Até que na última terça resolvemos fazer uma caminhada pequena, mas nova, até o Estany de Malniu, só para aquecer e nos prepararmos para um grande plano que temos, de passar 2 dias e meio em trilha. Acontece que, como de costume, passamos do Estany e seguimos caminhando um tanto a mais, e tivemos que adiar nosso grande projeto porque nossas pernas não resistiriam… De qualquer jeito, acabamos fazendo uma boa caminhada em um local inusitado!

Começamos o dia um pouco tarde, já que não tínhamos nada planejado e acabamos fazendo isso pela manhã. Fomos com o carro até o Refugi Malniu, que fica a uma distância pequena do lago homônimo. A distância entre eles é de não mais do que 2,5 km de trilha, com uma subida leve. Este trecho estava bem movimentado, sendo constante a presença de pais e mães com suas crianças, deixando claro a facilidade do caminho. Contornamos o lago pelo lado oeste e começamos a subir novamente em direção ao Prat Fondal, uma área plana um pouco acima do lago. A trilha oficialmente acabaria aí, mas nós vimos a chance de subir a encosta mais alta, que divide a Catalunha da França. Tomamos coragem e, saindo da trilha demarcada, começamos a nossa escalada.

O caminho a partir deste ponto foi lento e bastante inclinado. Nós procurávamos a cada 50 ou 100 metros alternativas viáveis para a passagem, pois às vezes nos encontrávamos de frente com paredões de pedra imensos, brejos lamacentos ou vegetação volumosa demais para passarmos. Eventualmente chegamos em um local mais plano e, para nossa surpresa, o que achamos que seria o fim da trilha era na verdade a metade da subida. Não querendo desistir já tendo subido tanto, paramos para descansar um pouco e logo continuamos o caminho. Neste ponto, fomos surpreendidos por um barulho incomum, alguma coisa grande se movendo por perto. Porém não havia som de motor. A Ju avistou antes um imenso planador passando sobre nós, e da segunda vez que ele passou eu percebi que ele vinha acompanhado. Os dois planadores rodaram sobre nossas cabeças por algum tempo e depois desapareceram… Logo alcançamos uma passagem que dava uma vista melhor, e vimos que o resto da subida seria ainda pior. Só tínhamos uma alternativa, porque o vale a nossa frente era extremamente inóspito, e então contornamos a borda mais próxima de nós, que era menos escarpada. Depois de um trecho que oscilava entre caminhada e escalada, alcançamos o topo!

Para a nossa surpresa, quando conseguimos vista do topo, o local não era uma cadeia estreita de picos, como geralmente acontece. Demos de cara com um platô gigantesco e levemente ondulado, onde trechos de um pasto duro e áreas de pedra bruta se alternavam no terreno. Eu sabia onde nós estávamos, aproximadamente, e achei que seria proveitoso andar até a ponta oposta do platô, pois ali havia um imenso vale, já na França. Neste ponto, a vista aberta do local me enganou um bocado, e eu achei que as distâncias eram muito menores do que na realidade. No meio do caminho achamos um riacho tão limpo quanto frio, e aproveitamos para encher a garrafa, que já estava quase vazia (a Ju tinha uma segunda, mas ainda assim).

Durante esta parte toda pudemos apreciar manadas de vacas e cavalos, que eu imagino que estando ali fiquem fora do alcance dos fazendeiros da região, além de bandos de cervos selvagens. Assim que o Picot percebeu estes animais, saiu correndo o mais rápido possível atrás deles. Sendo a vista aberta, achei que não teria problema deixá-lo exercer seus instintos, sabendo que ele não alcançaria nada! Depois de muita corrida, ele voltou exausto, com um olhar satisfeito! Também vimos alguns locais onde pequenas flores vermelhas se alastravam pelo chão, formando vários pequenos núcleos coloridos ao nosso redor.

Ao chegarmos na ponta norte do platô, pudemos dizer que o esforço foi recompensado. A vista do vale é surpreendente, com uma pequena cadeia de picos dividindo-o no meio. Dali conseguimos ver duas cidades francesas e os caminhos que levam delas à área selvagem de Andorra, pela Portella Blanca. Neste ponto, tivemos o diálogo mais incomum do ano, sobre um helicóptero que passava voando a mais de 1km de altura abaixo de nós, de tão alto que estávamos. Descansamos um pouco neste local, apreciando a vista e o frio que fazia ali, antes de iniciar nossa volta.

Seguimos em direção ao lado catalão mais uma vez, passando por uma vaca morte, da qual só restava o couro e os ossos. Foi um pouco mórbido, mas nos mostrou como o local realmente é inóspito. Ao chegarmos nas escarpas do lado sul, demoramos um pouco para achar um ponto adequado para a descida. Mas eventualmente encontramos um caminho que se não foi fácil, também não foi impossível. Atravessamos depois da descida uma região dominada por grande pedras, sobre as quais tivemos que pular, para o desespero do Picot que muitas vezes não dava conta de escalá-las. Mas ele sempre achava um caminho alternativo e nos alcançava. Atravessamos alguns riachos que passavam por dentro de pedras e cavavam túneis no solo, de onde nós ouvíamos mas não víamos a água. Eventualmente chegamos de novo ao Prat Fondal e, desviando de algumas vacas, voltamos até o Lago. Dali, seguimos o mesmo caminho de volta para o carro.

Apesar do cansaço ter nos impedido de fazer a maior caminhada planejada até agora, que seria neste fim de semana, nós já traçamos outros planos e pretendemos fazê-la até o fim dom mês. E também não podemos dizer que não aproveitamos a trilha que nós mesmo inventamos!

la seu - refugí malniu

La Seu – Refugí Malniu

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Aproximadamente a trilha que fizemos

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Estany de Malniu

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Início da subida de fato, no Prat Fondal

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Ache o planador na foto!

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Nessa foto é possível reparar que o lado esquerdo, pelo qual subimos é menos escarpado e cheio de pedras, enquanto o direito é um paredão de areia, impossível de subir

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Atrás da pedra grande é possível ver a parede lisa e inclinada

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O grande platô

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Ache a cidade no vale lá em baixo! Era sobre ela que voava o helicóptero

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A descida foi em meio a essas pedras

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Picot vigiando a fronteira

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Só couro e ossos

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Vista dos lagos lá de cima

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Descemos esse paredão aí

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Bezerro no pasto ou “boi da cara branca”

 

Dicas de trilha – alimentação

Essa série das dicas de trilha já contou com dois outros posts, o Calçados para trilha e Dicas de trilha – vestuário, e agora resolvi falar um pouco sobre alimentação na trilha. Primeiro tenho que lembrar mais uma vez aqui que não sou nutricionista nem chef, e que você sempre deve consultar o seu profissional da saúde, especialmente se tiver restrições alimentares. Dito isso, lembro ainda que somos lacto-ovo-vegetarianos.

Quando fazemos trilhas costumamos sair cedo e eu sempre tive dificuldade para comer bem logo que acordo. Parece que meu estômago só acorda umas 2h horas depois do cérebro. A solução que encontrei foi ou comer um pouco mais tarde, quando possível, ou tomar uma vitamina se precisar comer algo e sair rápido. No caso das vitaminas gosto de bater uma fruta com chia, linhaça, aveia, ou uma combinação desses. Às vezes acrescento um scoop de proteína vegetal.

Para um dia de trilha levo um pão e queijo, ou já faço os sanduíches em casa ou levamos e fazemos na hora. Um pacote de castanhas, amendoins, amêndoas, etc. Aqui na Catalunha achei um mix maravilhoso, que inclui amendoins, amêndoas, milho peruano, flocos de arroz e outras misturas de nozes e cereais, salgadinho e baratinho! O pão com queijo é geralmente o “almoço” e as castanhas e cereais salgados o “lanche do fim da tarde”. Sempre levo também umas barrinhas de cereais, às vezes proteicas, doces. Para trilha, especificamente, gosto de levar as cobertas de chocolate, pois com a caminhada montanha acima, a gente precisa de uma energia extra e rápida. Umas frutas também costumam ir na mochila, secas ou frescas, uvas passas, damascos, ou maçãs e pêras (bananas eu amo, mas tendem a amassar muito ou estragar com o calor).

Uma outra coisa são biscoitos e bolachas, simples, doces ou salgadas. Eu sugiro evitar as recheadas, que além de serem muito doces, podem “derreter” o recheio ou estragar no calor. As salgadas tipo crakers são ótimas e as doces integrais, com aveia, tipo digestivas, também funcionam muito bem nas trilhas.

Nunca fazemos uma “refeição completa” na trilha, pois encher o estômago na caminhada é um erro. O corpo fica lento e pesado. E a chance de sentir enjoo, gases, e outros desconfortos aumenta. O esquema é comer de pouco em pouco, pequenas quantidades e menos durante a subida. Ao chegar la em cima dá pra fazer um pique-nique de reposição e depois descer, que tende a exigir menos do fôlego. De qualquer forma, a alimentação deve ser leve o dia todo.

Se o clima estiver quente e com sol forte, coma menos ainda. O calor deixa a digestão mais lenta. Nos dias mais quentes compensa levar uma bebida, ou pó de bebida, com reposição de sais, como um gatorade, ou pó de bebida de treino esportivo, que também confere um aporte de energia rápida e sem pesar o corpo.

Na volta, à noite, costumo fazer um macarrão, pois chegamos com bastante fome por ter comido pouco ao longo do dia de esforço. Ou um arroz com grão-de-bico. Às vezes omelete, quando voltamos pra casa no mesmo dia.

Quando acampamos o esquema é o mesmo. Convém lembrar que no acampamento as refeições da noite devem ser de preparo rápido, mas precisam alimentar bem, pois são a única refeição de fato do dia. Se você comer muito pela manhã, o corpo vai ficar pesado, se for pegar estrada de montanha de carro, antes do ponto da trilha, pode enjoar muito. Se tiver estrada de montanha, prefiro nem comer nada, e ao parar o carro, antes de começar a caminhada, tomo a vitamina, que já levo pronta, ou como algo.

Se tivermos fogareiro ou acesso à cozinha coletiva no camping, gosto de fazer macarrão, pois dá pra fazer em uma panela só. Costumo levar um molho pronto só pra colocar por cima. Se forem muitos dias de camping, vou variando com arroz. Levamos também as leguminosas do tipo já prontas, em latas, vidros, ou conserva, como grão-de-bico, feijões, ervilha.

Em caso de camping livre em local onde não é possível ou recomendado fazer fogo, o ideal é levar as leguminosas já prontas e comer frias mesmo. Nesses casos convém também levar mais pão, e comer um sanduíche extra a noite. Não sou a maior fã de “carnes” de soja, mas nesses casos de acampamento frio, elas podem ajudar muito, pois é possível compra-las já prontas, sem precisar cozinhar. Uma latinha de salsichas de soja pode virar um banquete numa noite fria e sem fogo no meio do mato. Lembre de levar um pouco de sal num pacote pequeno. É importante repor o sal e o açúcar do corpo após as caminhadas, especialmente se no dia seguinte tiver mais.

No caso do queijo, evite queijos frescos. Lembre-se, que estará sem geladeira. Prefira os queijos curados, mais duros e que podem ficar sem refrigeração por mais tempo. Para veganos, uma outra boa opção são as capsulas de algas em pó, como clorela e spirulina, que possuem muita proteína e vitaminas, inclusive várias do tipo B. As capsulas não estragam, e podem ser ingeridas como pílulas, para complementação alimentar, além das frutas, pães, barras, bebidas isotônicas, macarrão, arroz e leguminosas.

E água, claro! Não descuide da sua ingestão de água! Evite outros líquidos que não sejam água, ou eventualmente a bebida isotônica. Sucos e refrigerantes são muito doces e não vão saciar a sede. Pesquise as fontes de água natural próximas ao camping e pela trilha. Às vezes é possível pegar mais água em fontes, bicas, ou mesmo em rios e riachos. Nesses casos é possível levar apenas uma garrafa grande de água (entre 1L e 2,5L) e abastecê-la no caminho. Caso contrário você terá de carregar muito peso.

E claro, consulte seu médico sempre. Minhas dicas são só de trilheira pra trilheiros por esse mundão aí!