BPM – Portugal

Para quem não sabe, minha parceria com o BPM começou no ano passado, e desde então venho contribuindo com um texto mensal para a plataforma colaborativa das Brasileiras Pelo Mundo. Até janeiro desse ano publiquei lá textos sobre minha experiência na Espanha. Desde de fevereiro comecei a publicar sobre minhas experiências em Portugal. Por mil motivos, mas o principal deles, a necessidade e me organizar numa vida nova aqui, estava com o Blog da JuReMa meio parado. Agora vou atualizar e quem ainda não me leu no BPM, recomendo.

Vou colocar aqui o teaser dos textos, e o link para terminarem de lê-lo na publicação original. Assim aproveitam e já continuam por conhecer e explorar mais uma fonte deliciosa de informações, desse nosso vasto mundo!

“Cheguei em Braga, e agora?

Cheguei em Braga, Portugal,  depois de um tempo na Espanha, de algo que não era exatamente para ser, mas acabou sendo meu ano sabático, e volto a botar os pés no chão e retomar os rumos da vida. Quando meu marido veio para a Europa, fomos viver na Catalunha, e eu tinha muitos planos de trabalhar, viajar, fazer contatos, escrever, cozinhar, enfim, gosto de um planejamento com opções A, B, C, D… Z, e sonho alto.

A realidade, entretanto, nem sempre acompanha. A burocracia pode ser mais lenta do que os sonhos esperavam, e o dia a dia em um novo país demanda mais do que eu imaginava. Entre altos e baixos, meus altos incluíram muitas trilhas a mais de 2500m de altitude, muita montanha, neve, sol, lagos e mais lago, e os baixos foram lindos, com praias, cachoeiras, passeios na beira do rio, e por fim eu relaxei. Aceitei meu ano sabático, apertei os cintos e vivi de forma frugal e minimalista e deu tudo certo.

Agora viemos para Portugal. Cheguei em Braga, e agora? O primeiro passo foi tentar encontrar moradia, ou morada, como os portugueses costumam chamar… “

Para continuar a ler e saber como foi minha chegada: Cheguei em Braga, e agora?

Tudo bem

Tenho 31 anos. Sou órfã desde os 19 de pai, 25 de mãe. Nesse meio tempo perdi também meus avós, que me criaram. Quem já perdeu os pais sabe a estranha falta que é não ter ninguém que se preocupe especificamente com você. Saber que você é a preocupação maior do mundo de alguém é um tipo de cuidado e amor que só é explicado por quem cria.

Ela dizia que eu não dava trabalho. Nunca dei. Apesar de ter nascido de 7 meses, fiquei doente pouquíssimas vezes na vida, nenhuma grave. Sempre dormi 8h ou mais. Minhas notas na escola eram excelentes e ninguém precisava me mandar estudar. Eu não fiz grandes loucuras na adolescência, só umas bem pequenininhas. Na faculdade fui mais séria ainda. Me joguei nos estudos e trabalho com o afinco de uma adulta plena com família para sustentar. Ainda que não fosse o caso.

Mudei de emprego algumas vezes, mas nunca fiz dívidas. Mudei de casa muitas vezes, e pedi muito pouca ajuda. Mudei de cidade, de país, de continente, de país de novo, e cada vez precisei de menos. Vida minimalista, que cabe no bolso. Leve por opção, por propósito.

Às vezes meu irmão me pergunta se está tudo bem e eu sei que a pergunta dele é de verdade. Que ele pensa em mim e se preocupa, um pouquinho que seja, porque sabe que eu não dou trabalho, mas bate aquela pontadinha de preocupação e eu ganho um “tá tudo bem aí?” que eu sei que é de verdade. Não aquela pergunta por educação ou obrigação.

Eu não fumo, não bebo e não uso drogas. Bebi bem pouco numa fase da vida adulta que acabou logo. Sempre passei mal com menos de 2 doses. Cuido da minha alimentação. Cozinho quase tudo que como. Compro, pago as compras, corto, lavo, pico (ok, meu marido costuma picar mais que eu), mas dou conta do recado.

Essa sempre foi minha “missão na vida”, dar conta do recado. Sempre fui a forte, independente, otimista, tranquila. Nunca dei trabalho. Não precisam se preocupar comigo. Está tudo bem.

Eu sou hoje aquela pessoa independente, forte, corajosa, que desbrava cidades novas, empregos novos, dá a cara a tapa, sem nem se questionar como poderia ser diferente. Sou todinha aquela que meu avô me criou para ser, e se bobear, um pouco mais.

Eu faço Yôga, me exercito, faço trilha, caminhada, acampo, subo montanha. Passeio com meu cão, que é minha vida, todos os dias. Limpo minha própria casa. Até as plantas têm sobrevivido bem. Tenho manjericão na área dos temperos, brinco-de-princesa nas flores, e suculentas na decoração.

Medito, leio filosofia e estudo política nas horas vagas. Participo de dois clubes de leitura. Até costuro minhas próprias roupas quando rasgam ou precisam de uma bainha, luxos de ter crescido ao pé da saia da vó.

Sou consciente das minhas emoções e atenta para aprender com cada detalhe do meu dia. Para sublimar a raiva, e me alimentar de pôr-do-sol, uvas frescas e muito chá quentinho nas mãos.

De fato, eu não sei porque alguém se preocuparia comigo. Eu claramente, sei me cuidar, e me cuido bem. É claro que ninguém precisa saber da frustração de passar mais de um ano resolvendo pendência burocrática por conta das mudanças de país, ou do medo de dar algo errado que me acomete a cada semana.

Ninguém precisa se preocupar com as noites que chorei no travesseiro. Com os quilos que ganhei de ansiedade. Com a crise de enxaqueca que durou uma semana por conta da crise de decepção com a vida acadêmica.

Ninguém contabiliza as horas que eu passo indo e vindo dos mercados, pesquisando, para garantir que a alimentação saudável caiba no orçamento reduzido. As horas planejando e preparando as refeições.

Quando sento para jogar e conversar com os amigos no fim de semana, ninguém sabe da saudade que me aperta o peito. Do vazio que me abraça de madrugada.

O sorriso das fotos esconde que nunca na vida tive um dia dos pais pleno. Sempre dividida entre o amor do que não era pai, mas me criou e a falta do que era e não foi.

E que todo ano agora o dia das mães entrou na lista de dores e não de amores. Quem comemora as datas e até reclama de ter que dar atenção para a família não sabe o que é se sentir desconectado da realidade, porque nenhuma data dessas faz mais sentido.

Eu sei que ainda assim está tudo bem. Ainda assim eu sou forte, independente e corajosa. Continuo sem dívidas nem problemas financeiros. Sigo sendo saudável. E minha alegria é sincera. Aliás, rio muito e quase todos os dias.

Não podia ser diferente, sendo que casei com o cara mais incrível que conheci. Nunca pensei que poderia dizer que se meu avô tivesse conhecido meu marido, não só aprovaria, mas se orgulharia. Mas posso!

Mas isso não diminui o fato de que às vezes eu só queria colo. Queria lembrar de como era aquela paciência eterna da minha mãe de pentear meu cabelo, com minha cabeça no colo, não pela beleza ou arrumação dos pelos, mas pelo amor, intimidade e cuidado, de ficar horas ali, ganhando atenção e carinho.

É claro que tenho tios e tias que sempre me apoiaram, e que, caso eu precise, não hesitarão em ajudar. Mas eu sei que eu não sou a constante preocupação, justificada ou não, de ninguém. Existe uma falta abissal no mundo, quando você percebe que é bom mesmo você não dar trabalho, porque você já não é o trabalho de ninguém mais ali.

E aí, toda a força, independência e coragem, perdem um tiquinho do brilho, pois passam a ser não só mérito, mas necessidade.

E se eu assim não fosse? Nem quero pensar nisso. Não posso me dar o luxo de não ser. Então, sim, respondendo à pergunta clássica de todos os dias, é claro que está tudo bem! Como não estaria?!

Balzac

**Spoiler alert**

Geralmente faço referências difusas em meus reflexos, mas hoje receio citar a frase final de um livro, então, embora não seja novidade e nem capítulo da última série do momento, aviso, para aqueles que preferirem não ler o texto sem ter lido o livro.

Foi no ônibus. Embora seja final de setembro, em São Paulo ainda faz frio. Mas hoje fazia sol, apesar do vento cortante. Quem me lê com frequência sabe como aprendi a amar os poucos e raros dias frios porém ensolarados de SP. São meus novos dias preferidos. E acabo lendo muito no ônibus, melhor jeito que encontrei de lidar com as horas de trânsito dessa cidade. Minha combinação de fone de ouvido anti-ruído + músicas preferidas + livro me transporta para um mundo paralelo e me tira do caos e do stress dessa vida excessivamente urbana.

A trilha hoje era Travis. Estava lendo em português, e para não me distrair sempre inverto o idioma da música com o da leitura, ou ouço instrumentais enquanto leio. O cheiro que me invadia era o dos meus próprios sapatos, botas de chuva da Melissa, pois apesar da tarde ensolarada o dia amanheceu fechado. O sol na nuca, refletido do livro, a música e o cheiro de plástico foram meus companheiros das últimas páginas dessa leitura: A Mulher de Trinta Anos.

Uma gestação. Nove meses. O livro foi adquirido em dezembro de 2015, quando fui a Brasília no fim do ano, para as logo antes das festas. Agora em vinte e poucos de setembro, com os nove meses completos, eis que minha saga chegou ao fim, terminei a leitura. Não pense que demorei tudo isso para ler. Li em cerca de 5 ou 7 dias. O total que consegui em 9 meses dedicar para essa leitura tão pessoal. A vida não é mais a dos meus 13 anos, quando lia 30 livros em 9 meses por gosto. Aos quase 30, devo tempo à vida, enquanto mais um ano se passa.

Mais alguns dias e serei balzaquiana. Já que assim a vida é, e que já compartilhamos tantos verões, decidi lê-lo. O livro é um belo retrato de sua época, ilustrado por alguém muito à frente de seu tempo. Pensando no que era o papel da mulher no século XIX, ler a palavras de um homem que nos admirava e que escreveu uma personagem forte e sofrida, mas com empatia pelo seu sofrimento, é, na minha opinião, algo digno de nota.

De certa maneira me lembrou Chico Buarque, com sua capacidade incrível de ter eu líricos tão distintos e que expressam sentimentos coletivos tão bem. De certa maneira me lembrou Clarice Lispector, com suas personagens introspectivas, que vivem mil infernos enquanto compram ovos para a família. Pensando assim, a mulher do século XIX e a do XX mudaram a roupa e a roupagem, mas nem sempre o sentimento. Acho que a do século XXI está começando a mudar. Sou filha do século passado, da transição entre séculos, mas acho que as filhas desse século já estão mudando mais ainda.

Parei a 3 páginas do fim. Olhei a passagem, tive meu cheiro de Melissa brevemente suplantado pelo fedor do Rio Pinheiros enquanto o ônibus cruzava a marginal. O sol baixando. Uma pausa dramática? A vontade de prolongar os últimos momentos? Não. Apenas muitas reflexões. Eu sou daquelas que demora para entrar nos livros às vezes. Alguns me ganham na primeira página, outros só no terço final. Esse são os que gasto 4 meses para ler o primeiro capítulo, 1 mês para ler os capítulos todos até o meio e 3 dias para terminar. Balzac foi assim. Um pouco pior.

A literatura é definitivamente uma conversa. Nunca um livro é igual para duas pessoas diferentes, ou a mesma pessoa em duas épocas da vida, porque somo pessoas diferentes. E eu quis conversar com Balzac nessa virada para meus trinta anos, porque queria conversar com Balzac nos mesmos termos. Já fui Julie, já fui Juju. Talvez seja sra. d’Aiglemont, ou senhora Marra algum dia. Hoje conversamos de Jurema para Juliette. De Jurema para Hélene. De Jurema para Moina.

Em outro dia, um dia cinza, num outro ônibus da mesma linha, cheguei a sublinhar em caneta laranja as passagens mais significativas sobre a Juliette. Aquelas que estou segura são as mais conhecidas. Aquelas nas quais Balzac descreve e define a mulher de trinta anos. São passagens bonitas. Passagens que mostram uma Juliette com a qual a Jurema certamente conversa. Hoje, posso completar meus trinta verões segura de que compreendo Balzac. Certamente a mulher de trinta anos que sou partilha da força e da superação da inocência tal qual a balzaquiana:

“{…} porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abarcar todo o seu curso, tanto passado como futuro. As mulheres conhecem então todo o preço do amor, do qual desfrutam com o temor de perdê-lo: então sua alma ainda tem a beleza da juventude que as abandona, e sua paixão vai se fortalecendo sempre com um futuro que as apavora”.

Mais como a literatura é uma conversa única e pessoal, a parte que mais conversamos sobre, Balzac e eu, não foi sobre a mulher de trinta anos. Nisso concordamos, dado as diferenças de contexto histórico e sócio-cultural, e seguimos em frente. Paramos para filosofar na frase final. E aqui entra o grande spoiler, meus caros.

“- Perdi minha mãe!”

Foi aqui, na última frase do livro, que ele foi inteiramente resinificado, foi aqui, na última página, que nossa longa conversa começou. Foi aqui, onde a vida de Julie acabou, que a Jurema se viu. Não na Moina. A Moina é ainda a jovem, a mulher, talvez, de vinte anos. Eu provavelmente já fui um pouco Moina, e juntas perdemos nossas mães. Inclusive porque quando a perdi não era ainda a Jurema de trinta anos. A Jurema nasceu exatamente do luto. A Jurema conversa com Balzac depois que o livro acaba.

Claro que os trechos como “Suas dores secretas pairam sempre sobre sua alegria artificial como uma nuvem leve que esconde imperfeitamente o sol”, já estavam grifados em caneta laranja antes do fim, bem como “Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo da presença eloquente?”. Jurema e Balzac já estavam conversando sobre a tristeza e a felicidade bem antes do fim. E embora a Jurema tenha tido lá suas dores de amores, elas foram pequenas perto das dores da perda, da morte, da ausência e da saudade, então esse diálogo, desde o começo, tinha um quê de unilateral, só para ao final se descobrir compreendido.

Baixando o livro de novo e contemplando o já quase pôr-do-sol, pensei nas minhas mulheres. Eu sou filha de uma mulher de trinta anos. Nasci nesse período. Venho de alguém que já tinha suas dores e decepções. Crescemos juntas. Na verdade, passamos pela perda da mãe juntas três vezes, pois venho de uma família matriarcal, onde mães e filhas muito compartilham. A primeira morte que vivi foi a da minha bisa, Vó Santinha, aos doze, e vi os efeitos aterradores que se abateram sobre minha vó, senhora soberana de nossa casa e família. Foi a primeira vez que acompanhei um enterro, e que vivi um luto dentro de casa. Minha festa de 13 foi cancela, e virou festa surpresa na casa de amigas.

Aos 23 vivi o luto da minha avó, e ouvi da boca da minha mãe a frase final de Balzac. Foi um período intenso. Desde a morte do meu avô, vivemos as três em casa, já três adultas, a de 20, a de 50, e a de 80. Foi uma convivência muito intensa. Com todos os trinta anos que separavam cada uma de nós, uma da outra. Se eu sou filha de uma mulher de trinta anos, minha mãe também foi. E essa diferença nos fez amigas ao longo das gerações, embora impossibilitadas de entender as dores de cada uma.

Tenho desse período da nossa vida a três memórias muito doces e memórias muito amargas. As brigas foram privadas e doloridas. As acusações cruéis. As dores reveladas, foram aquelas que elas nunca tinham revelado para ninguém. E apesar dos nossos duplos trinta anos de diferença conversamos sobre homens, sobre sexo, sobre amor, sobre casamento, sobre aborto, sobre liberdade, como nunca antes. Sem filtros, sem amarras. Às vezes com muito ódio, às vezes com muita dor. Naquele período eu conheci mulheres. Eu vi a face que não era da mãe e muito menos da avó. Eu conheci dores para as quais ainda não estava preparada.

Olhei para cima para os olhos beberem as lágrimas que os olhos marejados ameaçavam derramar em pleno ônibus e pedi perdão àquelas mulheres fortes que me criaram. Eu, com a inocência e a intolerância dos meus vinte anos não soube respeitar, admirar e compreender suficientemente suas dores. Fui Moina. Fui até Helene. Espero que elas saibam. Sei que no fundo sabem, pois eu é que nunca tinha sido uma mulher de trinta, e ainda não sou de 50 ou 80, elas já tinham sido mulheres de 20 anos. E nos momentos mãe e avó, me amaram e me perdoaram. Mas guardo na alma os momentos mulher, em que apenas nos odiamos, ameaçamos, machucamos.

Hoje, se tenho algo com que conversar com Balzac é sobre essa dor. A dor da incompreensão entre as mulheres de distintas gerações. Queria tê-las hoje vivas para dizer que começo a compreender. Mas tudo que posso dizer para Balzac hoje, é que perdi minha mãe. Faço o compromisso de reler aos 50, para conversarmos de novo, sobre Bia, sobre Zilah, sobre a senhora d’Aiglemont. E quiçá aos 80, quando nem Balzac mais me compreenderá. A única certeza é que a perda me ensinou muito. Principalmente sobre essa incompreensão.

Não sei se conseguirei conversar com o devido respeito, admiração e dedicação com as mulheres de outras gerações de seus 30 a mais, mas certamente conseguirei conversar com as de 30 a menos, alunas, sobrinhas, amigas, e perceber que se elas não me compreendem, pelo menos não precisam me perder por isso. Assim, espero, Balzac. Ou que no momento inevitável da perda, tenham pelo menos seus 30 anos, e que comecem a compreender.

Dos elogios feitos à mulher de 30 anos nada tenho a agradecer, nem reconhecer. No máximo concordar. Coloco meu pé nos 30 com a certeza de me sentir plena e feliz, embora sinta a exata sensação da felicidade sendo o sol, e das minhas dores sendo as leves nuvens, que perpassam os olhos em breves momentos do dia, às vezes chovendo nas noites, calada. Não sofro mais do que devo e me considero uma mulher livre, independente e muito feliz. Mas uma mulher não chega aos 30 anos sem conhecer pelo menos uma dor, nisso, concordamos, Balzac e eu. O peso que cada uma decide dar a essas dores, contudo, varia. A Jurema sugere que a mulher de 30, embora conhecedora das dores, seja leve, e livre.

Bem vindos, trinta! ❤

Eu sou problema meu

A música ta rolando no ipad no spotify “eu não sou um chapéu num armário de alguém {…} eu sou problema meu”, enquanto penduro a roupa lavada, dando graças à Deus por ela ter saído sem manchas, problema recorrente na máquina de lavar de casa. Será que foi o álcool que eu coloquei junto com o sabão? Será que foi a escolha de tecidos? Será que dei sorte? Terminando a roupa, passei pra louça, me esperando na pia, e já deixei um pudim de chia na geladeira para comer no lanche da tarde. Voltei pro computador, respondi mais uns e-mails, deixei a música rolar.

O cursor do word ficou piscando embaixo no mais novo sub-título, e a música continuava, e minha cabeça se perdeu. Na música, no mundo, em mim mesma. Leo ganhando o Oscar, a questão ambiental, a questão racial. De que “lado” ficar? Problematizar ou não? Protagonismos? E o cursor piscando. Eu tenho uma dissertação pra escrever. Aliás, é exatamente por causa dela que tenho escrito muito pouco, para não dizer quase nada, aqui no blog. Tentei reciclar uns textos velhos nos últimos tempos, mas assim, vamos ser honestos, não foi exatamente uma boa produção.

E a música já mudou, mas ainda estou com Clarice. E enquanto a música me leva, o cursor continua piscando. O e-mail para o orientador já foi. Mas a dissertação tá aqui. Me olhando. É tipo filme de terror, ela me olha mesmo quando fecho os olhos pra dormir, mesmo quando assisto um filme, mesmo quando passeio no fim de semana. E quando finalmente sento no computador, depois de passar um bom tempo lendo textos da pesquisa, e o cursor fica piscando. E agora, José? Ou deveria dizer, e agora, Sérgio?

A música acabou, mas o CD novo me garantirá 30min de devaneios. O cursor ainda pisca. Refiz a introdução. Segundo meus estudos mais recentes, que envolvem três livros diferentes de metodologia e um workshop, isso é normal. E até 2017 vou reescrevê-la muitas vezes. Será? Espero que sim? Eu já sei, com essa idade, quase 30, que a minha dissertação é um problema meu. Ninguém me mandou fazer. Eu quis. Ninguém me obrigou a querer. Se meu mestrado me persegue 30h por dia, 8 dias na semana, isso é problema meu, e, de todos os pós-graduandos e pesquisadores, que são obrigados a aprender a gerenciar seu próprio tempo, suas próprias ansiedades e expectativas.

 

A roupa na máquina é problema meu. O feijão no fogo é problema meu. A louça é problema meu. O pudim de chia é problema meu. A escolha ente pudim de chia e doce de leite é problema meu. E a verdade é essa, que todos nós, aceitando sua vida adulta, passamos a ser nossos próprios problemas. Convém lembrar que nem todos aceitamos. Alguns continuam se enganando, se enrolando. Ou resolvem pagar outros para fazer por eles, e continuam com suas babás na vida adulta. E não estou criticando per si aqueles que possuem funcionários, mas sim a lógica bizarra do nosso país, que alimenta essa estrutura, fornece essa possibilidade.

 

Alguns aceitam a vida com empregos convencionais, e claro, enfrentam todos os percalços dessa escolha, como eu já fiz, e fiz muito, foram 10 anos de carteira assinada. A gente reclama do horário, do salário, dos chefes, dos colegas, do plano de saúde, das férias, da vida. Aí você escolhe ser autônoma e pesquisadora, e vê que tudo agora é problema seu. Não existe férias, existe culpa de não estar estudando e produzindo. Não existe horário, existe demanda de cliente. Não existe salário, existem as contas para pagar no fim do mês, implacavelmente. E a certeza de que você está nessa situação não por que foi a que a vida te concedeu, mas por escolha própria, ou seja, é tudo problema seu.

 

Estando em outra cidade, sem os amigos de sempre pra choramingar no ombro, sem a possibilidade de encontrar rapidinho pra comer uma besteira, jacar, e desabafar. Tem whatsapp e Skype, e claro, tudo isso ajuda. Mas não é igual. E a saudade aperta, e sei que estou aqui não porque a vida impôs, mas porque quis, e essa saudade é problema meu. E quando os problemas surgem, e quando dá vontade de correr pro colo da mãe, quando você não sabe o que fazer de algum livro velho, porém de estimação, ou aqueles casacos de frio que você não tem onde guardar e deixa no sótão dos pais, nessas horas eu sei que não tenho mais os meus, e meus livros, meus casacos, meus problemas, são todos meus.

 

E a vida é boa, então me recompensa sempre com novos amigos, novas oportunidades, amores de vida, um companheiro inigualável, uma cidade que parecia tão terrível e me recebeu de braços abertos, me acolheu em seu seio, e me faz transitar por suas ruas com mais naturalidade do que nunca, justamente por permitir que toda minha estranheza seja natural. E nas reviravoltas da vida continuo sendo muito feliz com minhas escolhas. Cada vez mais. E ainda assim, tenho constantemente aquela vontade de jogar tudo pro alto. Virar eremita.

 

Mas se estivesse no alto de uma montanha, a busca por comida, o frio da noite, o calor da pedra ao sol, a circulação travada nas pernas em meditação, seriam todos problemas meus. A verdade, querida Clarice, é que nossa vida é problema nosso, e essa percepção é extremamente libertadora, ao mesmo tempo que joga toda a responsabilidade das nossas escolhas e ações irreversivelmente e exclusivamente em nossas costas. Então te agradeço pelos devaneios, mas tenho que tirar o feijão do fogo, comer meu pudim (porque de doce de leite já chega o fim de semana), e tenho que encarar aquele cursor piscante, porque essa vida é problema meu, eu sou problema meu, então vou lá me resolver.

 

 

29

Essa semana estou completando 29 anos. Vinte e nove primaveras, já que sou de outubro. Mas não vou escrever sobre o que significa tornar-me uma mulher de vinte e nove anos. E não vou porque não sei. Não faço a menor ideia. Primeiro porque acho que cada mulher chega a esse momento de um jeito. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens, para não dizer sua sorte e seu azar, ou suas escolhas e seus destinos. O que é fazer vinte e nove para uma mulher que cresceu na pobreza e chega a idade plena adulta com uma conquista de um emprego? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que sempre teve tudo e nunca lutou por nada e está agora numa bela casa? O que é fazer vinte nove anos para uma síria recém-chegada ao Brasil, refugiada de guerra que celebra simplesmente vinte e nove anos de sobrevivência? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que está casada, talvez já com um filho ou dois? O que é fazer vinte e nove anos e ser uma mulher solteira, que vive feliz seus dias em paz?

Eu não sei. Eu sou algumas dessas às vezes. Tenho meus anseios, meus receios, minhas bênçãos, minha guerra e minha paz. Enquanto escrevo, escuto os gritos animados que ecoam pelas janelas. Nos últimos nove meses tenho sido moradora de uma zona de “baladas”, na cidade grande e meus fins de semana possuem noites de muitos gritos, música, garrafas quebradas, brigas na madrugada, cantorias sem fim, e tudo isso de debaixo das minhas cobertas. O barulho não me incomoda. Meu sono é de pedra. Mas às vezes fecho os olhos e lembro dos meus grilos, da grama molhada de orvalho, dos latidos e uivos dos cachorros, e até um mugido ocasional ao fundo. Minha vida em Brasília foi, durante muitos anos, em casas afastadas.

Hoje o que eu mais gostaria, virando esses vinte e nove anos seria sentar na varanda da casa onde morei com minha mãe em seus últimos anos. Gostaria de sair do trabalho, da aula, no início da noite e ir até lá, mesmo que já não morasse lá, pois mesmo que ela estivesse viva, já não imagino que fossemos dividir a mesma casa ainda. Mas iria até lá, pelo menos uma vez por semana à noite, só para tirar os sapatos e pisar na grama molhada, fazer uma xícara de chá, abraça-la forte, e convidá-la para sentar na varanda. Ouvir os insetos, me incomodar com os pernilongos e as mariposas na luz. Suar no calor de Brasília. Secar a testa com o verso da mão, cruzar as penas em cima da poltrona, mesmo estando de vestido, olhar para ela e admira-la. Gostaria de dizer: “Mãe, hoje eu te entendo tanto. Te entendo cada vez mais”, e gostaria de pedir desculpas pelas minhas arrogâncias da adolescência e do início de vida adulta.

Eu sei que precisei negá-la, precisei contesta-la, como acho que todos os filhos precisam, para crescer, criar suas próprias opiniões e se desenvolver. Não faria nada diferente. Não quero mudar o passado. Mas gostaria de dizer que hoje ela faz mais sentido para mim. Não era perfeita, e não quero nem pretendo endeusa-la num culto pós mortem maluco. Mas hoje sinto falta da relação mãe e filha adulta. Sempre fomos muito amigas. Gostaria de poder falar para ela que agora a compreendo melhor. Queria muito ir até lá, e sem sapatos, de pernas cruzadas, ouvir suas histórias tão gostosas, ouvir suas entrevistas ainda sem edição, seus discos, conhecer um novo artista em primeira mão.

Ela acenderia um cigarro e aquilo me incomodaria muito como sempre. Mas dessa vez eu não iria brigar. Eu agora entendo. Hoje não sinto mais aquela raiva ultrajada. Hoje eu gostaria de pegá-la pela mão, e leva-la para minha aula de Yôga. Gostaria de viajar com ela, e lhe mostrar o mundo com meus olhos. Hoje eu faria um belo jantar vegetariano para ela, na esperança de que o modo alimentar que eu adotei fosse fascina-la e auxiliá-la com o problema crônico de baixo peso, e, na minha opinião, uma anorexia não diagnosticada.

E o mais importante, eu não faria nada disso para salvá-la, e nem esperaria que ela fizesse Yôga e nem que virasse vegetariana. Ela adulta, seguiria fazendo o que bem entende. Eu não ficaria com raiva, entenderia, como hoje entendo uma amiga. Eu faria tudo isso só pelo prazer de compartilhar o meu eu adulto com ela. Gostaria de mostrar para ela minhas escolhas, minhas experiências. A verdade é que com o passar dos anos eu sinto menos falta do colo de mãe e muito mais falta da minha melhor amiga.

Hoje, aos vinte e nove, órfã, mestranda, escritora e acadêmica wanna-be, louca pelo mundo, viajante, leitora ávida, eu sei que seria uma amiga ainda melhor na convivência com ela. A verdade é que sinto muita falta das minhas outras amigas e amigos de Brasília. Mas ao mesmo tempo me impressiono com tudo que São Paulo me deu nesses poucos meses. Tenho aqui já uma vida tão rica quanto a que sempre tive em casa. A verdade é que desde que perdi a casa dos meus avós, muitos anos antes de deixar Brasília, já não me sentia verdadeiramente em casa. Desci então que o mundo seria minha casa. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Fiz minha casa no meu coração, como diz o Skank, e tem funcionado muito bem.

Fui convidar alguns amigos para um abraço no dia desse meu ano novo, e já não sei como acomodar a todos na minha casinha. Mas estão todos já no coração. Amigos novos e antigos, familiares longe ou perto. Eu não faço ideia de como seja ter vinte e nove anos. Mas nunca me senti tão segura, tão realizada. Nesse momento eu não penso em ter filhos, não penso em casamentos formais, mas o porteiro diz para o meu namorado: “O pacote da sua esposa chegou! ”, quando recebo algo pelo correio. Não posso corrigi-lo. Tenho vinte e nove anos e moro com alguém em um relacionamento sério, monogâmico e, mais importante, feliz.

Semana passada me vi envolvida em tantos assuntos novos, registrar na Biblioteca Nacional um trabalho coletivo autoral, auxiliar um refugiado em meio ao meu trabalho voluntário na ONG, acompanhar algumas palestras internacionais e tentar aprender a publicar em periódicos internacionais de relevância acadêmica, ouvir as impressões do ministro de economia uruguaio sobre os novos rumos da América Latina, recebi muitos e muitos ensaios para corrigir. Não as provas de inglês de sempre, mas ensaios acadêmicos de graduação, que corrigirei no meu estágio como mestranda. Além disso fiz torta de maçã, do zero.

É, olho meus vinte e nove anos e os vejo como inegáveis. E como são maravilhosos. Nunca pensei que já ia ter vivido tanta coisa, e ter tanta história para contar. Mas aí eu olho para meus dedos, que batem freneticamente no teclado e vejo que as juntas dos dedos já não são lisinhas, os nós dos dedos já carregam suas marcas, e deixam minhas mãos tão incrivelmente parecidas com as mãos da minha mãe. E lembro de como eu gostaria de sentar com ela na varanda para um chá e contar tudo isso, só pelo prazer de sua companhia. Depois eu voltaria para casa, que podia até ser essa aqui em São Paulo, com a vida corrida e cheia de surpresas gostosas que tenho vivido, mas se eu tivesse um momento de poço dos desejos seria esse chá.

Os barulhos na rua estão cessando. Afinal, já é domingo de madrugada, e uma hora todos vão dormir. Amanhã levantarei cedo, tenho um artigo para escrever e uma faxina para fazer. A semana passará bem depressa, e na sexta-feira os vinte e nove chegarão. Os amigos visitarão, e a vida continuará. Mas quem sabe hoje à noite eu não sonho que estou naquela varanda, contando tudo isso para ela? Em sonho já está bom. Uma vista breve, sabe, só para ela saber como minha vida vai. Só para eu ganhar um beijo e um abraço. Só para eu me sentir um pouquinho filha e criança, mesmo com 29.

Então, é Natal

Acordei relativamente cedo para um dia livre. Hoje é um dia livre? São tantos compromissos que a sociedade nos impõe. Acabamos passando por mais correria do que por momentos de paz. Por mais confraternizações forçadas do que momentos de real felicidade com a família e amigos. Veja bem, não pretendo reclamar dos meus aqui. 2014 tem sido um ano especialmente feliz! Estou extremamente satisfeita com todos os meus relacionamentos e metas alcançadas. E muito, muitíssimo grata! Aos meus familiares, amigos, e todos os que tem feito parte desse momento. Mas voltando ao desabafo.

Eu moro próxima ao maior shopping da minha cidade. Nos últimos três dias quase não consigo sair de casa. A rua do meu prédio desagua numa rodovia. Preciso pegar pelo menos um trecho dessa rodovia, antes de mudar de direção, seja para norte ou para sul. Nos últimos três dias o engarrafamento nessa rodovia é perene. Na primeira vez, achei que poderia ser um acidente na pista. Não. É o shopping. Fora a total e completa falta de delicadeza e gentileza das pessoas no transito. Incapazes de compreender que eu não quero tomar o precioso lugar delas na fila de carros que invadirá o shopping, só quero passar e poder chegar e sair de casa.

Então, isso é o Natal. Cada dia menos amor, menos gentileza, menos sorrisos frouxos nas caras abobadas de felicidade, menos brincadeiras e mais obrigações, compromissos sociais forçados, regados a rios de dinheiro gastos desnecessariamente para compensar a falta de tempo de qualidade passado com aqueles que realmente amamos. Infelizmente tenho presenciado muito disso.

Hoje passo o dia do natal sozinha em casa. Tenho um dia de folga para lavar a roupa suja acumulada, fazer as unhas e para pensar, sentir saudades, escrever, e beber meu chá companheiro de todas as horas. A noite verei familiares, cozinharei. Ouvirei música, e terei mais saudades. Amanhã almoçarei com mais familiares. Me distrairei, e terei mais saudades. A vida nunca mais será a mesma. A vida sempre muda, para todos, quando acaba a adolescência, e a primeira etapa da juventude, quando saímos da casa dos pais, quando temos que trabalhar no dia de natal e aprender a ser gente grande.

Algumas pessoas vivem a infância em famílias pequenas. E o dia de natal tende a ser mais monótono, ainda que muito carinhoso, de família para família. Às vezes esse dia significa ver parentes distantes. Viajar de volta à cidade origem dos pais ou avós e rever aqueles que você mesmo muitas vezes nem sabe exatamente quem são, mas são família, e é dia de vê-los. Dia de ter as bochechas apertadas por milhões de tias na infância, de ouvir comentários sobre como você deveria conduzir os estudos e o trabalho e sobre sua vida afetiva, quando já adulto.

Os meus natais nunca foram assim. Eu cresci numa casa de vó. Na casa da Vovó! Para onde toda a família convergia todo simples e mero final de semana, quiçá no dia de Natal! Um lugar mágico, e passava esse dia entretida nos preparativos mirabolantes que envolviam morar na casa sede desse grande evento familiar. Ir ao mercado com o vovô, fazer as unhas da mamãe, lavar e organizar as frutas e castanhas com a vovó. Colher pinhas secas na rua e tingi-las com spray dourado, fazer muitos e muitos laços de fitas vermelhas e xadrez, preparar guirlandas com ramos de cipreste aparados do próprio jardim. Assistir à vovó se arrumando. Correr escadas acima e a baixo o dia todo, sendo a mensageira, pega tudo, faz tudo da família.

E depois receber tios e primos aos montes. Fazer embrulhos de última hora. Atender telefonemas. Tirar fotos. Contar histórias de Papai Noel para os mais novos. Brincar com os primos até aquela hora da ceia que parece nunca chegar. Rondar a árvore de natal. Tentar adivinhar os presentes pelo embrulho. Ver os nomes e fazer contagens de quem ganharia mais e menos presentes. Organizar e realizar amigo oculto. Servir petiscos e frutas em bandejas. Sempre com muita gente, muita luz. Sim, nos vestíamos só para ficar na sala. Mas era uma sala imensa, um mundo à parte, com seu pé direito de dois andares, e vidros voltados para o jardim e o lago.

Nunca foi monótono. Nunca foi leviano. E nunca foi solitário. Até certa época. Depois que meus avós faleceram tudo mudou. Não havia mais o nosso castelo encantado. E cada um possui outras famílias, outros lugares para estar. Outras pessoas para ver. Os primos não são mais crianças. Muitos trabalham no dia. Chegam tarde. Cansados. Falta quem agite. Falta alguém que reúna a devoção que uma vez existiu naquele momento familiar. Fosse pelas crianças, fosse pelos meus avós, todos estariam ali. Agora nos vemos. Nos amamos. Mas não somos mais a grande prioridade uns dos outros. A vida segue. As tradições mudam.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Lavei a roupa suja acumulada, já que tive um dia de folga. Fiz as unhas. Cuidei de mim. E senti saudades. Mais tarde, verei familiares, e ouviremos música, e sentirei mais saudades. Amanhã verei familiares, comeremos, veremos fotos antigas, e sentirei ainda mais saudades. Essas saudades já não são só as que sinto dos meus avós e dos meus pais. São as saudades de uma vida que já não é. São saudades de mim mesma. São a nostalgia de quem teve o grande privilégio de viver uma infância abençoada, feliz, e incrível. São as saudades de quem cresceu num ambiente familiar privilegiado, nutrido dos mais belos tipos de amor. Com as mais lindas demonstrações de carinho e devoção familiar.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Ainda bem. Tive o tempo de perceber como a vida é abençoada. E hoje eu sei que sou uma pessoa mais feliz, pois vivi já mais de uma vida só nessa, e a vida da minha infância foi maravilhosa. Novos capítulos me aguardam e como eles serão, só o tempo dirá. Mas tenho certeza que serão diferentes. Cada natal uma nova experiência. Talvez novas tradições surjam, e talvez elas acabem algum dia também. Meu presente de natal eterno será sempre essa memória doce de uma infância preciosa e feliz. O melhor presente que eu ganhei nessa vida foi todo esse amor, de ter crescido entre aqueles que garantiram que independentemente de estarem aqui ou não, me fariam felizes para sempre! Feliz Natal!