Road trip de Julho – parte 4 – De Volta pra Casa

Veneza foi o ponto mais distante que visitamos. Esse post engloba o que foi praticamente uma viagem de volta. Eu pessoalmente sou muito fã de roteiros circulares, já que é possível aproveitar muito mais. Então nosso plano englobou a volta por outro caminho, ampliando bastante o que tivemos chance de conhecer. Vamos à viagem!

Dormimos duas noites no camping próximo de Veneza, e o dia que passamos ali reservamos inteiramente para a Sereníssima. Não andamos o dia todo na cidade, claro, ficamos um bom tempo descansando no camping e revisando mapas, além de sofrer com o calor, claro! Este camping era especialmente lotado, com divisões de parcelas (o espaço para cada grupo) muito apertadas, para maximizar a capacidade. O resultado disso foi muito barulho e banheiros muito cheios (apesar de não sujos) e sem papel disponível (sempre, sempre leve o seu!). O público do camping também não ajudou, sendo composto de muitos jovens, o que aumenta a tendência para gritaria e músicas altas, quase sempre de péssima qualidade. Se vocês desejam tranquilidade, busquem campings familiares!

Para sair do camping e chegar na cidade foi um sufoco. Veneza é um local de acesso muito difícil, ainda mais caso se queira levar um cachorro. Tentamos pegar um ônibus, mas como qualquer coisa na Itália, o processo é tão complicado que é melhor evitar (o bilhete tinha que ser comprado anteriormente, mas não havia onde comprá-lo). Resolvemos ir de carro, mesmo sabendo que seríamos roubados pelo estacionamento. E de fato fomos, pagamos 18 euros por 3h nas ilhas… Do estacionamentos seguimos a pé até a Piazalle Roma, onde começa a Veneza de fato. Tínhamos um mapa e queríamos chegar na Piazza San Marco, passando pela ponte Rialto. Mas andar pela cidade provou-se um grande desafio, mesmo com, ou por causa de, as placas que indicavam o caminho da maneira mais imprecisa possível. A cidade conta com uma quantidade absurda de becos, turistas e lojas caras, tudo junto. Muitas vezes a velocidade de caminhada não passa do equivalente de uma procissão, e encontramos muitos locais em que a mesma direção era apontada em caminhos opostos pela sinalização. Depois de algum sofrimento, chegamos na ponte Rialto, e nos arrependemos. A própria ponte possui lojas sobre ela e o que parece ser um destacamento permanente de madames revestidas de roupas de marca bloqueia a passagem. Depois de algum tempo, alcançamos a Piazza San Marco. De lá seguimos por uma rua que contorna o sul de Veneza, aberta para o mar por algum tempo. Mas logo não aguentamos o calor e nos embrenhamos novamente para dentro das vielas. A vantagem de ter passado a Piazza é que a quantidade de turistas diminuiu bruscamente, e então podemos aproveitar melhor o passeio. Também achamos uma fonte, e com isso acabamos nos molhando inteiros para nos refrescar (inclusive o Picot!). Dali, o passeio se tornou mais agradável. Seguimos até próximo do Arsenal, onde assumimos que estávamos cansados e resolvemos voltar. Acho que andamos coisa de 10km, sob calor intenso (nosso ponto fraco!).

Passando para nossas impressões da cidade, devo dizer que foi melhor do que o esperado. A quantidade de pessoas não é algo que seja possível culpá-la, claro, mas os prédios comuns não estão bem conservados, mesmo cada lugar ali custando uma fortuna, nós vimos em imobiliárias locais (a gente adora isso!). Mas de maneira geral a cidade é bastante única, com uma história muito rica. A Piazza San Marco é incrivelmente grande, o que eu não esperava, e muitíssimo bem trabalhada. Uma somatória de prédios importantes no local deve dar para os arquitetos um espetáculo a parte, mas eu como leigo só posso admirar a riqueza de detalhes e luxo, sem consideração pelos estilos. Tanto a catedral como o palácio do Duque são dignas do poder comercial que foi a cidade, definitivamente. Uma vantagem intrínseca da cidade é a ausência de carros. Isso iguala todos os turistas, democratizando o acesso e ampliando o compartilhamento dos espaços. E principalmente, a cidade não fede, como dizem as más línguas. De maneira geral, vale a visita, mas muito cuidado para a síndrome de Paris não se estender para Veneza!

Na manhã seguinte, depois de resolvermos um sumiço de passaporte que o camping mantém como refém quando você se hospeda e depois não sabe onde guardou, seguimos para oeste, na direção de casa! Passamos rapidamente por Pádua (pedido meu, por questões familiares), somente para perceber que não havia nada para se ver na cidade além da Basílica de Santo Antônio. Mas eu fiquei feliz de ter descoberto que o nome do lugar, e consequentemente o meu, vem da antiga vila de Patavium, anterior até ao domínio romano.

Seguimos para Milão, onde chegamos ainda cedo. Aqui gastamos mais tempo, primeiro rodando seu Parco Sempione e o Castello Sforzesco, depois andando até a Catedral. Como outros locais, esse eu já conhecia, mas achei que valia a pena uma segunda visita, além de levar a Ju até um ponto em que eu garantia que valia a pena! O Parque é bastante amplo e bem cuidado e o Castelo permite a visita de muitas áreas de maneira gratuita, além de ser um excelente exemplar de construção militar antiga. A cidade prova que continua sendo o destaque econômico no vale do Pó por seu tamanho, pela qualidade dos espaços públicos e pelo nível de suas construções. Na cidade, a maioria dos locais são bem preservados e cuidados, limpos e bem planejados. Eu acho uma cidade muito boa para se passar algum tempo caminhando a esmo, já que isso sempre te levará a algum lugar agradável e bonito.

De Milão fizemos o que deveria ser uma volta rápida pela cidade de Como, para que a Ju visse pelo menos uma parte de um lago na beira dos Alpes. A cidade em si foi tranquila de passar, apesar das ruas estreitas. O problema foi na volta, quando eu errei feio o caminho por ter acreditado nas placas e acabamos perdendo um tempo precioso indo para lugar nenhum… Eventualmente nos encontramos e seguimos a estrada para Aosta. Aqui neste caminho tivemos uma surpresa desagradável. Vimos uma placa que indicava um castelo próximo da estrada, inclusive o próprio castelo era visível e muito, muito bonito. Ficamos um tanto excitados com a ideia de visitá-lo mas, depois de muitas voltas em estradinhas confusas, e de pagar muitos pedágios, chegamos lá só para descobrir que hoje ele é um restaurante ultra-chique e a visitação é proibida. Minha vontade era arrancar todas as placas no caminho, para que ninguém mais fosse enganado como nós fomos… Saindo do “castelo” entramos logo no Vale de Aosta.

Depois de mais um erro de navegação nos custando um bom tempo, no qual a Ju empatou o placar de erros comigo, encontramos a pequena estrada que levava para o nosso camping. O problema é que parecia que todos os italianos resolveram subi-la ao mesmo tempo, e pegamos um transito absurdo por entre pequenas vilas de montanha. Apesar da desordem da estrada, aqui temos que admitir que a paisagem era deslumbrante, tendo até vista para montanhas com neve eterna dos alpes. As montanhas e vales dos Alpes italianos são bem diferentes do que estamos acostumados nos Pirineus, com formatos mais acentuados e rios mais caudalosos. Ou pelo menos foi o que eu senti. Pudemos aqui aproveitar uma noite de frio, além de conhecer um canto da Itália que mais parecia a Alemanha, inclusive com um dialeto que se assemelhava a línguas germânicas.

No dia seguinte, saimos cedo e tivemos nossa penúltima decepção com a Itália no pedágio de fronteira, que custava 45 euros! O rapaz que trabalhava ali, vendo minha indignação, me indicou outro caminho, por sobre os alpes. Voltamos na estrada e tivemos a última decepção quando depois de uma curva abrupta a estrada bifurcava, não dando tempo ao motorista de escolher o lado que seguir caso não soubesse disso de antemão (claro que não havia placas antes). Rodamos por mais de uma hora para fazer o retorno e desembolsamos mais 7 euros de pedágio. Por fim, acertamos a estrada e passamos pelo Col du Saint Bernard e descemos as montanhas em direção de Bourg Saint Maurice. O ponto importante aqui é que planejávamos visitar Chamonix e o Mont Blanc, mas não havia rota não pedagiada naquela direção. Resultado é que alteramos nosso caminho para não gastar todo nosso dinheiro no pedágio, mas acabamos tendo boas surpresas do “lado pobre” dos alpes.

Bourg Saint Maurice é uma cidade de montanha francesa bem parecida com as dos Pirineus. Muito simpática e simples. Aproveitamos a visita para reabastecer suprimentos. No inverno a região deve ficar tumultuada com o turismo de esqui, imagino eu, pela quantidade de lojas de turismo fechadas. Dali seguimos para Annecy, onde aproveitamos as belezas de um lago de um azul cristalino junto as montanhas e enfrentamos um trânsito bastante parado e agressivo. Seguimos direto para Lyon, onde só cruzamos a cidade de carro, gastando tempo até demais no caminho, e seguimos a estrada até Brive la Gaillarde, atravessando um imenso vazio demográfico no meio da França. Chegamos tão tarde no camping e saímos tão cedo que o atendente da recepção se recusou a cobrar nossa estadia!

Nossa última cidade visitada foi Rocamadour, um casarão sobre um penhasco, com a cidade e a igreja construída na encosta mais abaixo. O local é fortemente frequentado por católicos, como uma peregrinação, mas eles são extremamente simpáticos com turistas e suas igrejas ficam permanentemente abertas para visitação gratuita. O cenário de pedra, com uma dose imensa de verticalidade, impressiona bastante. Mesmo cansados da viagem toda, tendo dirigido por dezenas de horas em poucos dias e tendo visto muitos locais únicos, Rocamadour foi uma agradável surpresa para terminarmos bem. É um daqueles locais que as fotos não são muito aprimoradas ou tiradas de um jeito específico para ficarem boas, o lugar é exatamente aquilo que a foto mostra! Saindo dali, pegamos o caminho inteiro até a Catalunha, onde a Ju já ficou em Puigcerdà para pegar o trem para Barcelona e resolver algumas burocracias, enquanto eu vim para casa com o Picot. Ufa!

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Como prometido, farei uma relação de lugares da Itália que visitamos e outros locais mais bonitos e provavelmente mais baratos e acessíveis que são equivalentes. Isso por causa da chuva de críticas que fiz ao país, me sentindo na obrigação de dar alguma alternativa. Listei somente cidades que eu visitei.

Cinque Terre – No texto eu já disse que Paraty ou Trindade são melhores, mas uma opção européia é Cadaqués, com uma beleza natural e de construções superiores, um bom atrativo artístico com a presença forte de Dalí e ainda com crema catalana! (um crème brulée local)

Lucca – Apesar de seus muros convertidos em um parque serem especiais, esse talvez seja o único atrativo real da cidade. Carcassone também é murada, e ainda é fácil encontrar crepes de Nutella. Toledo ou Girona também são muradas e valem uma visita.

Pisa – Quer ver uma torre bem construída, com riqueza de detalhes, num local deslumbrante e que não entorta porque foi bem planejada? Vá para Lisboa e aproveite a Torre de Belém, aproveite para comer muitos doces portugueses!

Florença – Essa não tem substituição, admito.

Veneza – Apesar de bastante única, seu estilo não muda tanto assim de Amsterdã. Bruges também tem lindos canais, além de bons chocolates.

Gênova – A história de Gênova não pode ser substituída, mas no quesito agradabilidade e estilo, volto a sugerir Lisboa, outro porto importante com um destaque na época moderna. Também Londres, apesar de importante em diversos momentos, se superou na idade moderna e sua navegação, apesar de fluvial, foi de extrema importância.

Milão – Apesar de eu gostar muito dessa cidade, seu castelo não é melhor que o de Carcassone. Mantido o mesmo estilo, temos o de Perpignan também, feito de tijolinhos e com um grande pátio interno.

Vale de Aosta – Quando o assunto é montanha, eu sou um forte defensor dos Pirineus. O esquecido Val d’Aran é mais acessível (seu túnel não tem pedágio), mais tranquilo e incrivelmente bonito (vale conferir o post que fizemos!).

Acho que é isso, pessoal. Espero que vocês tenham gostado da viagem, e se precisarem de dicas, estamos sempre à disposição!

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Milão (Itália)

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Milão (Itália)

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Milão (Itália)

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Annecy (França)

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Annecy (França)

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Lion (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

Na fan page do blog no Facebook você pode conferir todas as fotos e vários videos sobre essa viagem completa!

Road trip de Julho – Parte 3 – Nice e Itália

20 e 21/07/2017

Saímos da região do Gorges du Verdon na direção de Nice, onde chegamos poucas horas depois. A estrada ali vai se afastando lentamente da região mais escarpada do parque e os vales se alargam conforme nos aproximamos do litoral. Essa parte da estrada só eu vi, porque saímos bem cedo e neste momento todas as passageiras dormiam profundamente! Eu faria isso também se pudesse… Chegamos em Nice no começo da manhã e rodamos um pouco a avenida junto ao mar antes de encontrar um lugar para estacionar. Passamos somente uma hora na cidade, que as meninas aproveitaram para nadar no mar e a Ju e eu utilizamos para subir em uma encosta com um mirante no topo. A vista da cidade lá de cima é bastante privilegiada, sendo possível ver toda a costa e boa parte da cidade. Também vimos o mar do alto, o que garantiu a certeza da limpidez da água, que mesmo nos trechos mais profundos ainda era possível enxergar as rochas ao fundo.

De Nice seguimos para Gênova, atravessando a fronteira. A estrada italiana era composta de pontes e túneis em sucessão, já que a região é muito acidentada, sendo o ponto de encontro dos Alpes com o mar Mediterrâneo. Com somente duas pistas e uma profusão de carros de luxo acelerando (passamos do lado de Mônaco, mas nem sequer tentamos entrar!) e caminhões obstruindo a passagem, essa estrada foi um tanto desafiadora e estressante. Mas mais estressante ainda foi chegar em Gênova e perceber que se os pedágios franceses são caros e numerosos, os da Itália os superam bastante… O primeiro pedágio nos custou coisa de 18 euros para um trecho de não mais de 3 horas.

Um grande amigo meu depois da viagem me disse que tinha adorado Gênova, e eu não duvido da experiência dele. Mas certamente tivemos outra. Paramos o carro no centro velho e pagamos outra hora de estacionamento e então fomos andar um pouco. A cidade de começo já tinha assustado pela desorganização do trânsito e pelo descuido. As fachadas todas da cidade estavam despedaçadas e a sujeira predominava. Os becos da cidade fazem com que o centro de São Paulo pareça uma maravilha. Uma crosta preta se alastrava pelas calçadas e paredes. Caminhamos novamente morro acima, por vielas malcuidadas, até chegarmos em um ponto que parecia mais bem tratado. De lá de cima, a vista da cidade não decepciona, mas a única maneira de parecer bonito é visto assim de longe mesmo. Talvez eu e meu amigo tenhamos visto partes ou momentos diferentes da cidade, imagino eu.

O plano ao sair de Gênova nos levaria até La Spezzia, onde contornaríamos a estrada e chegaríamos a Riomaggiore. Por conta dos pedágios, decidimos seguir pela estrada costeira e gratuita, aproveitando para ver outras vilas da famosa Cinque Terre. De começo já percebemos que teríamos problema ao longo de toda a viagem na Itália com as estradas, pois ou elas são pesadamente pedagiadas (preços que chegam a ser proibitivos!) ou são muitíssimo mal sinalizadas. Talvez isso seja para não destruir a tradição italiana de parar e perguntar, mas fato é que tivemos muita dificuldade para nos localizar em todos os percursos. A de Cinque Terre não foi diferente. E no caso, além de mal sinalizada, era terrivelmente conservada, com o capim em volta invadindo a pista em boa parte do percurso, isso no auge do verão e do turismo.

Descemos a encosta até a primeira cidade, onde não encontramos lugar para estacionar. A cidade estava cheia de carros de luxo, jovens vestidos na última moda e uma multidão de turistas. Não vamos reclamar muito, afinal também estávamos turistando, mas certamente seria preciso um controle mais rígido para a quantidade de pessoas para a região. Viramos o carro e seguimos viagem, dessa vez sem parar até chegarmos em Riomaggiore. Lá tivemos que esperar até o estacionamento local livrar uma vaga. Então seguimos a pé, descendo até onde a vila encontra o mar.

Eu não teria nada para reclamar caso fosse uma vila de pescadores no original, mas a cidade, mesmo recebendo hordas de turistas, não conta nem um pouco com alguma política de preservação. As casas todas estão despedaçando, um cenário que seria mais compatível com o abandono total, enquanto uma profusão de restaurantes completamente desvencilhados da cultura local se propagam. Achar um lugar para apreciar a paisagem junto ao mar é bastante difícil também, dada a movimentação. Aqui se misturam jovens mochileiros com jovens playboys, o que cada um dos grupos buscam eu não sei. Eu pensaria que o primeiro grupo procuraria autenticidade e tranquilidade, enquanto o segundo procuraria estética e luxo. Infelizmente, não encontrei nada disso ali. Riomaggiore provou pra mim o poder que a propaganda tem, atraindo tantas pessoas e fazendo-as se sentir simpáticas a um local que a meu ver não possui nenhum encanto. Melhor teria sido visitar Trindade ou Paraty, no Rio de Janeiro, que mesmo muito cheias no verão ainda preservam alguma autenticidade, além de serem mais bonitas e mais baratas!

Depois de Riomaggiore atravessamos La Spezzia, onde descobrimos que a gasolina mais barata da Itália custa 40% a mais que a média da Espanha, o que nos causou mais um aperto no coração. Dali pegamos uma estrada de montanha até nosso camping, próximo de Lucca, cidade que visitamos no dia seguinte. No camping chegamos tarde e saímos cedo, coisa que se tornaria corriqueira na viagem, portanto não vou emitir opinião sobre ele, pois seria injusto. Dali seguimos descendo uma serra que terminou por chegar em Lucca.

Lucca era uma cidade que eu já conhecia, mas que não vi nenhum problema em passar de novo. Acho que é um lugar agradável e simpático, apesar de estar desprovido da mesma fama que outros locais próximos ou de alguma beleza realmente excepcional. Paramos o carro perto da cidade murada e saímos para andar. Fizemos uma volta grande, vendo diversas catedrais em estilos diferentes e passamos pelo passeio que fica sobre as muralhas, esse último sendo o local que mais me agrada na cidade, por sua tranquilidade e pela vista privilegiada. Me chateou um pouco uma coisa que eu não lembrava em Lucca, que foi a quantidade absurda de lojas internacionais que se posicionaram no principal roteiro do centro velho. Não sei se já estavam lá quando visitei a primeira vez ou se eu que não tinha percebido, mas eu me incomodo com essa situação, que desloca os comerciantes locais e faz com que todas as cidades turísticas do mundo tenham a mesmíssima cara… Ainda assim, foi um momento agradável do dia. Seguimos de Lucca para Pisa.

Em Pisa passamos rapidamente, e sinceramente não acho que há outra maneira de passar por ali. A verdade é que a cidade de Pisa tem muito pouco a oferecer além da torre. Para quem está viajando como nós costumamos fazer, e portanto se abstém de visitar os museus e subir a tal torre, é possível completar a visita à cidade em cinco minutos. Pode-se dizer que perdemos muito não visitando esses locais, mas a verdade é que os museus eclesiásticos pelo mundo todo são bem, bem parecidos (para quem não sabe há uma imensa catedral junto à torre), e duvido muito que dentro da torre haja algo que possa valer a visita, considerando o quanto devem cobrar uma entrada em um ponto tão turístico assim. A torre, vista de fora, é até bem trabalhada, mas sua inclinação não é por motivos propositais, fossem eles de origem científica, estética ou qualquer outro (como aqui concedo algum mérito para a Torre Eiffel, que eu acho horrível, mas tinha um propósito técnico). A torre inclinou porque foi mal construída mesmo, e por algum motivo isso ficou famoso. O resultado disso é uma cidade em que se entra, tira-se uma foto e vai-se embora sem perder nada de mais.

Passada Pisa, fomos para Florença, essa sim uma cidade que merece o renome que tem. Claro, o erro foi visitá-la no verão, e por isso tivemos que nos acotovelar com grupos imensos de pessoas e máquinas fotográficas somente para poder passar no Uffizi, sem ter sequer chance de visitar por dentro. Mas Florença é uma cidade bem cuidada e preservada, de importância real na história da humanidade, com locais realmente interessantes para visitar, menos a Ponte Vecchio, que é meio sem graça e bem cheia. De qualquer jeito, essa é uma cidade que eu gostaria de ter mais tempo para explorar e conhecer em momentos mais tranquilos, mesmo sendo a segunda vez que a visitei. Acho realmente que apesar de os preços de museus aqui provavelmente serem absurdos, o que há para ver e aprender na cidade compensaria tal gasto.

Neste ponto nós nos despedimos da Clara e da Pietra, que seguiram sentido Roma de ônibus, enquanto nós fomos sentido Veneza. Seguimos por estradas vicinais, e gastamos um bom tempo cortando um caminho de montanha, através dos Apeninos, por pequenas vilas. Esse talvez tenha sido um dos meus trechos favoritos na Itália, por que pudemos ver locais que não foram feitos para turistas, com as pessoas se reunindo nos bares no final da tarde para conversar e tudo mais. Paramos para pedir informação e comprar comida e fomos recebidos com a típica cortesia grosseira italiana, uma outra vantagem desses locais que ninguém visita. Chegamos bastante tarde ao nosso camping, muito próximo de Veneza, e diferente dos campings de montanha que tínhamos frequentado até ali, pudemos sentir o calor sufocante do verão italiano…

Continuarei a descrição da viagem em um quarto post, começando com Veneza e seguindo até Rocamadour, mas por enquanto gostaria de explicar algumas coisas. Esse post deixa um pouco evidente o quanto eu fiquei insatisfeito com a Itália, e devo dizer que a Ju compartilha a minha sensação. Claro, para quem não viajou muito, ou é bastante influenciado pela propaganda, a Itália pode ser encantadora, visto os diversos filmes, livros e capas de revistas turísticas que se ambientam no local que visitamos (Sob o sol de Toscana; Comer, rezar, amar; Cartas para Julieta; Todos dizem eu te amo et cetera). Mas tanto eu como a Ju somos viajantes experientes e podemos garantir que há coisas muito melhores esperando para serem visitadas, por preços mais acessíveis e menos disputadas também. E para provar isso, no próximo post eu colocarei também uma lista de locais que nós conhecemos e que podem substituir os locais que visitamos na Itália, com a mesma qualidade ou até superior!

 

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Nice (França)

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Nice (França)

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Galleria Giuseppe Garibaldi, Gênova (Itália)

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Riomaggiore, 5 Terre (Itália)

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Riomaggiore, 5 Terre (Itália)

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Lucca (Itália)

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Lucca (Itália)

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Pisa (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)

Verão

{*texto escrito em 01/07/17 }

Saí para passear com o cachorro. São 20h30 da noite. Ou melhor, da tarde. O sol não se põe antes das 21h30, 22h e não ficará totalmente escuro antes das 22h30 quase 23h. A saída nesse horário é para tentar evitar o calor mais forte. Andamos até o parque, e eu sinto o cheiro da areia, que outros animais domésticos usam de banheiro. Veja bem, o parque é limpo, existe uma norma passível de multa para que os dejetos sólidos animais sejam recolhidos, que na maioria das vezes é cumprido. Mas o dia está quente, e quando o Picot rasga nacos de grama com as patas traseiras eu sinto o cheiro dela, misturado a tudo isso.

Dali vamos até a beira do rio. O sol já está bem inclinado e bate exatamente na linha dos meus olhos. Apesar dos óculos de sol bem escuros, sinto aquele franzido da testa, e em momentos fico cega com o excesso de luz, até fazer uma curva e conseguir voltar a enxergar. Passamos ao largo de um pequeno pasto, e todos os cheiros são encobertos pelo que emana dali. Começo a perceber a quantidade de insetos no ar. Eles batem nas lentes dos óculos, e preciso me abanar com frequência!

Chegamos enfim a beira do rio e percebo um distinto cheiro de peixe. Não de peixe morto, de carnes. Sim o cheiro de peixe vivo, cheiro de água onde vivem peixes e patos. Água fresca, corrente. Mas é obviamente verão e o cheiro do rio está ali, pairando no ar.

Quantas vezes não caminhei nessa beira de rio no inverno e nunca percebi nenhum cheiro de suas águas? O inverno, nesse sentido, é estéril. As águas são cristalinas, geladas, mais puras, e com menos vida. O ar no inverno é claro, e vejo distante. Os dias podem ser de sol, mas ele dificilmente esquenta de fato, e é possível caminhar sob ele por horas, sem sentir cansaço, calor ou fadiga excessiva. Eu gosto da esterilidade do inverno. Me dá a sensação de estar numa fotografia, ou num filme, onde a paisagem e eu, por mais que possamos interagir, nos mantemos como em dois planos. A neve brilha sob o sol como glitter, purpurina.

Essa semana me perguntei se precisava trocar o grau dos óculos. Sinto o mundo mais borrado. Talvez precise mesmo, mas me ocorreu hoje, ao andar na beira do rio, como o ar está mais denso. A cortina de insetos parece ser o próprio verão se materializando no ar, condensando de tão cheio, viscoso, excesso de vida. Vida até demais.

O verão daqui, por dividir o ano com outras três estações, parece mais intenso. Parece requerer que seus meses sejam só seus e que ninguém se esqueça disso. No Brasil, em especial em Brasília, onde só existe seca e chuva, o verão parece eterno. Eu sei, existem as frente frias, mas elas são raras e duram pouco, e ele parece se espichar pelo ano, como um chiclete sendo puxado e afinando. A parte presa entre os dedos, a mais grossa, são os meses de verão por direito, mas o verão de fato ocupa todo aquele fio repuxado. E assim, esticado, o sol é mais alto, a luz é mais branca, e as pessoas parecem aceitar que o verão, estando sempre ali, não precisa se mostrar o tempo todo.

Aqui o sol, isso tanto no verão quanto no inverno, parece nunca estar a pino. Sempre ali, próximo da linha dos olhos, me fazendo repuxar o cenho. Mais amarelo no verão, como se disse, “olha só essa cor, eu sou o verão!” Como se fosse um verão atuando como verão numa peça de teatro. As pessoas saem de casa, as banquinhas de sorvete de multiplicam pelo passeio da cidade e eu fico me perguntando, “onde vocês estavam?”. A sensação que tenho é que aqui as pessoas migram como andorinhas.

As roupas mudam muito de uma estação para outra, e não adianta insistir, as botas de verão serão inúteis no inverno e vice-versa. Me acostumar com a necessidade de momentos tão distintos é uma novidade às vezes custosa. As calças de inverno não servem pra primavera e as de primavera não servem no verão. As pessoas subitamente estão todas de vestidos esvoaçantes, shorts coloridos, camisas de mangas curtas em tecidos translúcidos. Riem nas ruas, falam alto, e os restaurantes não fecham antes das 2h da manhã.

Quando o calor é tamanho, deixo para sair com o Picot ainda mais tarde, às 23h, meia-noite, encontro senhores e senhoras de avançada idade, sentados ao redor da fonte do passeio, se abanando com folhas do jornal do dia, ou leques, e papeando. Próximo dos bares, todos com as mesas colocadas para fora, nas calçadas, o barulho é alto, e famílias inteiras se estendem pela calçada, comendo, bebendo, existindo.

Ao cruzar uma dessas calçadas, duas irmãs, vestidas igualmente e armadas com pistola d’água me atingem no fogo cruzado. Ouço em parte, em catalão, o pai fazer meias desculpas enquanto insiste que nesse calor é melhor assim. Sorrio e passo. A água não incomoda, de fato é bem-vinda. O que me incomoda é o calor que não vai embora. É voltar para casa e perceber como dentro está mais quente ainda do que fora. É ficar parada ao lado da porta da sacada, escancarada e perceber que a leve brisa, um pouco mais fresca, que sopra lá fora não entra, como se negasse meus convites e apelos.

Vou até a geladeira e pego um picolé. Sento na sacada, no chão, de pernas cruzadas, ao lado do Picot e observo essa cidade cheia de vida. Vida até demais. É quase impossível dormir antes das 3h da manhã, com o barulho das pessoas na Taverna em baixo, que mesmo depois de fechada, ficam pela praça, terminando a conversa. Lembro que no inverno, a cidade parecia uma cidade fantasma. Como é estranho pra mim, quase alienígena, observar esse movimento entre estações. Como é curioso perceber como o ser humano se acostuma e se adapta.

Termino o picolé. Jogo palito e embalagem em seus respectivos lixos. Aqui tudo é reciclado. Decido que um banho antes de deitar vai me ajudar a dormir, apesar do calor. Lembro que na primavera os campos ficaram floridos, e que agora tudo começa a apodrecer, nesse excesso de vida. Ainda não sei como será o outono. Mas posso dizer que as 4 estações até agora foram assim, um inverno muito estéril, e muito bonito. Uma primavera de desenho animado, com campos floridos e cheia de vida e partos, milhares de animais com filhotes. Manhãs e noites frescas e dias muito quentes. E o verão é assim: um excesso! Muito tudo. Muita vida. Muitos cheiros. Muitas cores. Muito sol. Até demais!

A prata da casa

Nós geralmente contamos das viagens que fazemos pela Catalunha toda, e algumas vezes até além disso. Mas eu reparei que muito pouco foi dito da região próxima a La Seu. As grandes belezas naturais estão mais afastadas da cidade que a gente escolheu, é verdade, mas algumas pequenas jóias podem ser encontradas por perto, e resolvi dedicar um post para este assunto. Ainda mais com a nossa nova busca por locais adequados para banhos!

Organyà – Para começar a lista, essa cidade que a primeira vista é só uma passagem na estrada. Nela, contudo, estão alguns grupos de paraglider, o que já a torna um destino interessante. Porém, o mais valioso, para nós pelo menos, é um rio que cruza ao sul da cidade. Nele é possível encontrar pelo menos 4 cachoeiras, além de algumas piscinas naturais. O lugar, além de muito bonito, é pouco frequentado, o que torna muito agradável nadar por ali. A água é um pouco fria, mas nada perto do que encontramos em outros locais por aí. Temos ido com frequência, tentando nos refrescar no verão abafado da cidade.

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Tost – Uma vila toda em ruínas, exceto pela igreja, reformada e trancada. Além da diversão de explorar uma cidade abandonada e tomada por plantas, o lugar tem também uma figueira imensa crescendo dentro de uma de suas casas. Eu estou tentando monitorar o crescimento das frutas, que devem amadurecer logo mais, para tentar fazer uma colheita!

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Coll de Nargó – Outro cantinho bom para um banho de rio! A piscina natural daqui é maior e mais conhecida. Dividimos ela com muitos jovens e algumas outras pessoas não tão jovens assim. É bacana para quem quer realmente nadar ou socializar. Tem um poço menor um pouco acima do lago principal que é pequeno, mas muito profundo, e imagino que pode ser perigoso para crianças…

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Camarasa – Já não tão perto assim, mas ainda possível de fazer um bate-e-volta sem cansar muito, está a praia fluvial de Camarasa. Ali, o rio Segre é limpo e volumoso, seguindo com uma forte correnteza perto de uma ponte antiga e desabada. Algumas pessoas se aventuram a pular da ponte, alguns de um trecho mais baixo, onde a pilastra desabou, outros do topo, arriscando ferimentos na perna. Há também uma região onde o rio é mais suave, mas não chegamos a explorar porque havia um pessoal com cães soltos e tentávamos evitar encrenca para o Picot.

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(obs: vídeos disponíveis na fanpage do Facebook, inclusive um muito lindo do Picot pulando que nem um cabrito na praia fluvial de Camarasa).

Uma cesta de orgânicos

Hoje eu acordei com a campainha antes das sete da manhã. Última semana de férias. Normal ainda estar na cama antes das sete. Levantei zonza. Dormi tarde, vendo filme. Acordei durante a noite, faz calor. É verão. O verão de 2015. O primeiro verão do meu mundo novo. Não tem água na torneira para lavar o rosto. A higiene mínima matinal é de caneca, bacia e balde de água armazenado embaixo da pia. Eu me lembro dos casarões antigos que já visitei e dos conjuntos de louça trabalhada, bacia, jarra e caneca, apoiados sobre uma cômoda, toucador ou penteadeira. Talvez os tempos sejam mesmo cíclicos e tenhamos alcançado o esgotamento que nos fará retornar ao passado no futuro. Meu presente não é tão romântico, e embora a pia ainda seja a encanada, pregada na parede e de louça, a caneca e o balde são plásticos. Talvez esse seja o futuro com ares de passado.

Recebo na porta uma caixa de papelão contendo vários alimentos orgânicos. Selo estampado na lateral. Nota fiscal impressa no topo. Confiro, os dados estão certos. Foi o pedido que fiz pela internet. Futuro e passado batem à porta as sete da manhã. Alimentos de quintal. Pedido feito pela internet. No rodapé da nota fiscal é possível ler a mensagem que diz que o pagamento pode ser feito em dinheiro, cheque ou por depósito/transferência eletrônica para a conta especificada. Passado e futuro batem à porta. Guardo os de refrigeração imediata e volto a dormir. Ainda estou de férias.

Estou de férias? Acordo uma hora e meia depois remoendo a pergunta. Sim e não. Meu passado recente e meu futuro de uma semana adiante chegam a mente. Troquei de emprego. Estou de férias do último. Mas começo na próxima segunda em um novo. Férias? Eu tive férias nessa passagem de 2014 para 2015? Em dois meses tive até agora cinco dias espaçados para não fazer nada, ou fazer uma pequena viagem à praia. Descanso não tive. Em menos de dois meses empacotei tudo o que tenho. Resolvi pendências há muito estagnadas. Pendências bancárias, pendências burocráticas, pendências cotidianas, pendências emocionais. Entreguei o aluguel de um apartamento, meu primeiro refúgio só meu. Pedi demissão. Me desliguei de muitos vínculos. E fui. E vim.

Já estou aqui. Recebendo uma cesta de orgânicos que bate à porta às sete da manhã de uma terça-feira qualquer. Uma terça-feira qualquer? Não. Hoje não é um dia qualquer. Todo os dias desses últimos dois meses foram únicos e inigualáveis. Meu presente tão presente. Presente pela intensidade da sua vivência em cada segundo. Presente pela necessidade que me fez viver esses dias pensando neles e só neles. Presente por conterem um futuro incerto. Presente por conterem um passado tão próximo. Presente por serem tão únicos. Presente por serem minha escolha. Meu presente para mim mesma. Presente por cada um que tem feito parte deles. Presente porque são o meu agora e isso é todo o meu mundo.

Meu passado recente (recente?) dos últimos dez anos incluem seis mudanças de endereço, a perda dos meus pais e dos meus avós maternos, que me criaram. Incluem a mudança para lugares cada vez menores e cada vez mais afastados da casa onde cresci. Uma parte dessas mudanças ocorreu por decisões maiores que eu, e só pude acatar. Nunca me incomodei. Me cansei. Muito. Trabalhei loucamente. Estudei mais horas do que cabem em um dia. Vivi semanas de muito mais do que sete dias, e dias de muito mais do que vinte e quatro horas. Vivi dez anos que valeram por uma vida inteira.

Outras mudanças foram voluntárias. Viagens, lugares só meus. Lugares compartilhados. Mudanças que escolhi. Todas possuem algo em comum. Todas foram necessárias. A necessidade é algo muito curioso. Normalmente vemos a necessidade como algo negativo. Como falta de opção, de alternativa. Uma força maior nos obrigando a algo. Esquecemos que sempre há uma escolha. Às vezes essa escolha nem é pensada, pois a alternativa está além das nossas capacidades físicas, financeiras, morais, ou algo assim. Mas sempre há uma alternativa. Por isso nem toda mudança voluntária é desnecessária. Muito pelo contrário. O caminho que fiz até aqui foi absolutamente necessário.

Precisei viver todas as adversidades que passei. E precisei viver todas as superações também. E preciso viver os sonhos. Preciso viver as vontades. Preciso viver as curiosidades. E esse caminho me trouxe à uma cesta de orgânicos às sete da manhã dessa terça-feira. Ainda estou pseudo-acampada. Mais da metade das minhas coisas ainda estão empacotadas, encaixotadas, lacradas. Nos últimos dois meses vivi dias intensos. Exame demissional, exame admissional. Entrevistas, treinamentos. Um novo caminho de metrô para aprender. Um trajeto de ônibus fácil e bem sucedido adicionado à lista de caminhos conhecidos e traçados. Um descontentamento com o Google Maps num ônibus que me levou para o meio do nada. A alegria do Santo Waze.

Mais de novecentos quilômetros de estrada. Falta de água. Racionamento. Políticos que dão outros nomes ao fato de que a água é cortada ao longo do dia. Ao fato de que a pressão que vem da rua não é suficiente para que o fluxo de água acione a resistência do pequeno chuveiro elétrico. Banho frio. Higiene básica feita de caneca e balde. É esse o futuro? É esse o passado? É verão. Eu não ligaria o chuveiro mesmo que houvesse alternativa. O calor incomoda. O banho bom é frio. E o inverno? E o futuro? Lavo as folhas orgânicas na bacia de água que peguei do balde, e cozinho o almoço. Nada de água corrente. Economia e silêncio, no movimento que lembra passado e traz gosto de futuro. Assim como minha cesta de orgânicos, que pedi pela internet.

Mais um apartamento para ver à tarde. Vou a pé. É perto. Se conseguir fechar a documentação, poderei ir para o novo trabalho a pé todos os dias. Uso o aplicativo do iphone para scanear os documentos necessários e enviar para o corretor e tentar garantir o apartamento.  Recorro ao Google Maps e ao Waze na volta para casa. Lavo a louça e a roupa enquanto tem água na torneira. Mas já sei que na hora de escovar os dentes antes de dormir, será com caneca e balde. Jantarei uma sopa. Fiz com os orgânicos. Receita da vó. Um filme no netflix antes de me sentar para trabalhar um pouco no notebook. A roupa seca no varal, e a umidade que evapora, ao lado do ventilador, amenizam o calor do verão. Meu futuro tem ares de passado e assim mesmo é desconhecido e incerto. Às novidades relembram meus gostos mais antigos e pessoais de infância e adolescência.

Sou tão eu. Me sinto feliz nesse novo mundo, que tem ares de passado. Familiaridade no desconhecido. Saudades do que ainda não vivi. Jamais Vú todos os dias. Banho de caneca e orgânicos pedidos pela internet. Ainda estou de férias e a cabeça tem tempo livre. Tempo para divagar sobre tudo o que já estudei. Meu gosto tão predileto por história, política e filosofia. Sim, o futuro tem gosto de passado. Assim como a sopa da vovó, feita com orgânicos pedidos pela internet e lavados na caneca. Meu futuro inclui muita leitura, muito estudo, assim como minha vida inteira. Meus jogos, meus gostos, minha sopa da vovó. Me repito, repito meus ancestrais. E tudo é novo. Tudo é futuro nesse meu presente tão bom, tão novo. O presente é um futuro com gosto de passado. O presente é tudo que trouxe do passado para fazer um futuro novo e único. Deja Vú. Jamais Vú.

Uma cidade nova. Uma casa nova. Um emprego novo. Estudos novos. Namorado novo. Corte de cabelo novo. Ano novo. Vida nova. E uma cesta de orgânicos lavada sem água encanada. Num verão ardente. Uma receita antiga. A música que me acompanha enquanto cozinho vem do itunes. Salvo meu texto na cloud. E escrevo para viver. Para me tornar Sofia. Para virar história em palavras, como a humanidade sempre fez. O futuro tem gosto de passado renovado. O mundo é redondo e gira. E o meu fez uma volta de 360, para uma vida nova. A vida que eu sempre quis e não sabia. Um sonho que nunca sonhei e se realiza assim mesmo. Meu presente.