SP by JuReMa – Cultura

Falar de cultura em São Paulo é fácil e difícil ao mesmo tempo, justamente pela abundância. Até fiquei receosa de nomear meu post assim, mas resolvi manter e me explicar. Pra mim, no estilo SP by JuReMa a parte “Cultura” não se resume a esse post, mas à serie toda! São Paulo é daquelas cidades que você vivencia a cultura desde que esteja lá e de olhos abertos. Não precisa fazer mais nada. Agora está um pouco mais complicado, com os grafites apagados pelo Dória, numa atrocidade cometida contra a cidade. Qualquer um que olhe SP com olhos de verdade pode perceber a importância do grafite e da arte de rua pra cidade. Mas não é só isso, é ver SP não como a selva de pedra, que ela também é, mas como essa cidade viva, que respira, transpira e aspira cultura.

Existem muitas São Paulos, como em toda grande cidade. Caso você só ande de carro, só fique dentro de shoppings e restaurantes famosos, só vá aos museus conhecidos e em condomínios fechados você vai conhecer uma Sampa. Cheia de cultura e atrativos. Mas mais homogênea.

Caso você ande a pé e de transporte público, vai poder apreciar a confluência de estrangeiros, imigrantes, refugiados, migrantes internos, que fazem essa salada cultural que é São Paulo. No Centro e na Paulista essa diversidade fica mais evidente e a Paulista Aberta, aos domingos é uma excelente oportunidade de ver e ouvir muita arte de rua. O Largo do Paissandu, com a Galeria do Rock, Galeria Olido, e a Praça da República também garantem uma vivência única, além da foto tradicional onde a Ipiranga encontra a São João. Essa é menos arrumada, menos cheirosa, e bem menos tradicional que a São Paulo do guia turístico, mas é mais rica em cores, sabores, idiomas e diversidade.

SP tem inúmeras livrarias maravilhosas em shoppings e nas ruas também. Pra quem é de outros lugares é impressionante o investimento feito nas livrarias. Nunca são só lojas. São experiências. Meu destaque máximo é pra Livraria Cultura do Shopping Conjunto Nacional na Paulista. Essa Cultura não é uma loja, é um complexo. Além dos dois andares amplos e cheios de pufes e pessoas lendo, há um auditório, um cinema, uma outra loja Cultura Art, uma Cultura Geek e outros. Muitos excelentes lançamentos de livros são feitos lá, com discussões com os autores, além de outros debates com convidados conhecidos que acontecem no mínimo uma vez por mês. No fim de semana, pela manhã, também ocorrem exibições de filmes independentes ou que estão fora do circuito tradicional, com discussões após a sessão. É um dos lugares que é indispensável acompanhar a programação. De quebra tem uma Ben&Jerry’s ao lado! ❤

Outro que merece destaque é o Cine Itaú do Shopping Frei Caneca. O Itaú possui dois cinemas próximos, um de rua na Augusta, acompanhado (do outro lado da rua) de um espaço cultural, e o do Frei Caneca, que sempre exibem filmes que não estão no mainstream dos outros cinemas, além dos blockbusters de sempre. Destaco o do Shopping Frei Caneca, pois lá ocorrem as exibições extras de filmes com conteúdo social. No sábado pela manhã há a sessão Cine Direitos Humanos, por exemplo. Além disso eles possuem muitas promoções interessantes em horários pouco convencionais, preços especiais para terceira idade e outros do tipo. Também considero indispensável acompanhar a programação. Ano passado fizeram sessões de graça (ingressos limitados e filas grandes para consegui-los) dos documentários que concorreram aos grandes prêmios internacionais, como Oscar e Cannes.

Ainda na sessão filmes, destaco a Galeria Olido, no centro, ao lado da Galeria do Rock. A Olido sempre tem eventos culturais, teatro e cinema. As sessões de cinema são geralmente R$1,00 quando em festivais. Eles promovem festivais alternativos, de cinema de algum local específico, incluindo os festivais Cine Imigrante, Cine Indígena, entre muitos outros. E tem mate com açaí e bauru vegano em frente!

O Centro Cultural São Paulo, mais conhecido como Centro Cultural Vergueiro, também é um espaço imperdível e que vale a pena seguir a programação. Já acompanhei lá exposição com mesas de debate de abertura e encerramento sobre a Questão Palestina, além de exibições de filmes alternativos. O local conta ainda com muito espaço aberto livre (uma raridade em SP) onde muitos grupos se encontram e praticam dança de vários estilos, e só de assistir isso já é um show a parte. Outros grupos ocupam as mesas disponíveis para estudos, aulas, jogos. Além disso há a biblioteca, grande, ampla e iluminada. Quando a claustrofobia da selva de pedra aperta, lá é um bom local pra uma brasiliense espairecer. Ha também exibições de filmes ao ar livre à noite, em algumas épocas do ano.

O Insituto Tomie Otake também merece destaque. Sempre com excelentes exposições, um bom café, e o passeio até a região, que nos fins de semana possui muitas opções de bares a noite, ao redor do Largo do Batata e também ao redor do próprio Tomie Otake.

O Beco do Batman se tornou uma atração, embora oficialmente não seja um instituto nem nada, como o nome diz, é um beco, ou melhor, uma rua, na Vila Madalena, onde muitos grafites adornam a paisagem. O local virou um point, pois a Vila Madalena conta com muitos bares e no carnaval é um dos polos de bloquinhos de rua. Talvez lá o grafite sobreviva.

Um que para mim é um charme é a Casa das Rosas, na Paulista. É um dos últimos casarões da avenida (e da cidade) lá é possível ver as fotos de como era a Paulista no tempo dos casarões e fazer uma visita pela casa (guiada ou não) e perceber como era a vida ali no início da cidade, antes da Paulista virar a avenida dos grandes prédios e centros financeiros.  Além disso conta com um belo jardim (cheio de rosas) onde dá pra tomar um café, trabalhar, ler ou estudar em um local central e tranquilo (combinação um pouco rara na cidade), e à noite há exibições de filmes ao ar livre.

O Teatro Municipal é uma visita obrigatória! O prédio é maravilhoso e permite perceber claramente o que representou a era do café para São Paulo, com todo o dinheiro e importância que a cidade ganhou. A programação conta com opções de música clássica aos domingos pela manhã, que são com valores muito acessíveis (R$9,00, meia estudante R$4,50 e outros valores bem em conta). E ha uma vista linda de uma parte do Centro de lá, especialmente do Viaduto do Chá, que também é ponto turístico tradicional da cidade, cartão postal.

A Sala São Paulo também é imperdível e também inclui conhecer melhor o centro. Possui um ar mais moderno e também oferece opções de música clássica a preços acessíveis em diversos horários, especialmente nos fins de semana pela manhã. Há também a programação normal, com inúmeras atrações ao longo do ano.

Além desses há os centros culturais que também existem em outros estados brasileiros, como o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), Itaú Cultural, Caixa Cultural, que sempre possuem programações muito boas, não vou me delongar sobre eles pois são mais conhecidos, mas é indispensável seguir a programação deles e conhecer os prédios e localidades que também são passeios a parte, especialmente o CCBB e a Caixa que estão no centro.

Existem muitos outros centros culturais em SP e eu realmente recomendo que você procure a programação de cada um deles e descubra os que mais lhe apetecem, para a partir daí segui-los e aproveitar.

Os Beijos de Balthazar

Em um desses dias de Cena lá estava eu JuReMa, sendo Alice, sendo Sofia, correndo entre realidade e ficção. E me vi num píer. O lugar me pareceu muito propício para reflexões pessoais, uma vez que venho de uma cidade surreal onde a seca e a vida lacustre convivem em harmonia, e onde as crianças frequentam píeres e sabem muito utiliza-los para suas brincadeiras, ou, conforme os anos passam, para suas reflexões. Sempre tive dois favoritos para reflexão, que mudaram anos depois devido a viabilidade de frequentá-los. Um é o píer do meio, são três, que ficam no acesso da ciclovia atrás da QL 12 do Lago Sul. O outro é o já inexistente mini-píer que ficava na casa onde eu cresci. Dali acreditava que veria os piratas chegando, os monstros marinhos do lago, os pássaros mais fantásticos, trazendo notícias de mundos paralelos. E foi ali que li muitos dos livros que me possibilitaram esperar por piratas, pássaros mágicos e mundos paralelos. Ali também aprendi a tabuada e anos depois refleti, ri e chorei todas as minhas dúvidas e angustias da adolescência.

Quem nos dera que refletir, rir e chorar fossem privilégios da adolescência. Quanto mais a vida passa, mas percebo que é moto contínuo essa atividade de se perder e reencontrar-se. Pelo menos me sinto no lucro por saber que já me reencontrei várias vezes, apesar de ser uma perdida. O dia que me levou até aquele píer foi um dia extremamente produtivo. Fruto de muita reflexão e de uma semana de crises existenciais. Mas ouvi belas palavras durante essa semana de crise, que me diziam que a crise é muito bem vinda, pois serve para nos tirar da nossa zona de conforto. Estar em crise significa que estamos prontos para dar novos passos, viver novas aventuras, sair do lugar, e pensar em como sair é, muitas vezes, trabalhoso e doloroso, mas não há demérito nisso, muito pelo contrário. Há o mérito de querer se encontrar novamente, em novos ambientes, em nova pele. Ou, às vezes, em pele antiga, redescoberta como papel de parede descascado.

Velhos gostos que retornam como velhos amigos. Sabe aquele velho amigo que você gosta muito, mas nem sabe como nem porque perdeu contato, e quando reencontra fica meio culpado, por saber que não deu atenção? Aí existem duas opções, ficar no sorriso amarelo e perder a oportunidade, ou abraça-lo de coração e se permitir o reencontro, apesar da leve culpa de abandono. E quando isso ocorre, geralmente somos abençoados com a percepção de que o afastamento não foi culpa de ninguém, e que bom mesmo é se reencontrar e ser feliz.

As pessoas tendem a se culpar muito, por tudo e qualquer coisa, e com a culpa vem o medo, o medo do julgamento, o medo da rejeição, o medo da vergonha, o medo de dar errado, o medo do ridículo. E o medo paralisa. Porque arriscar? Porque tentar se reinventar? Porque correr trás dos sonhos? Quando a vida já está aqui, e é tão exigente. Trabalhamos, sustentamos, corremos, e muitas vezes ainda cuidamos do corpo, da saúde e da família. Já não basta? Não é muito já? Sim, é! É muito e dá muito trabalho e, se bem feito, nos ocupa vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Mas eu queria mais…

Desde a adolescência eu quis mais. Mais o que, JuReMa? Quer salvar a humanidade? Acha mesmo que vai mudar o mundo? Cresci ouvindo essas críticas. E as palavras dos nossos pais (tios, avôs) nos marcam a ferro, como já dizia Balthazar. Na verdade, pensava dentro de mim, sim! Sim, quero! Quero salvar a humanidade e mudar o mundo! Não faço ideia de como, mas se puder, quero. Quero pelo menos tentar. Quero entender que há mais entre o céu e a terra do que acordar, trabalhar, ter filhos, comprar uma casa e morrer. E não digo isso como uma crítica a quem assim o faz. Mas eu, apesar de querer tudo isso, sempre quis algo a mais. Como um tempero. Ver e conhecer, e entender. Como dizia a Mafalda para Susanita, “Isso não é vida, é fluxograma!”, e eu quero viver e não só cumprir o fluxograma! Ou como dizia Oscar Wilde, eu não quero só existir, quero viver. Ou sendo Menina Maluquinha, sempre quis abraçar o mundo com as pernas.

Acabei tendo que carrega-lo nos ombros, como um titã, e devo dizer que é bem menos confortável. Durante alguns anos senti muita falta da panela na cabeça. E o peso do mundo sobre os ombros me roubou a coragem de muda-lo, como já dizia Renato Russo. E com a coragem roubada, fiz muito de tentar me encaixar no fluxograma, já que com o mundo nas costas perdi o ritmo das matérias e saí da grade, perdendo a preferência na hora de requisitá-las. E nessa acabei vivendo, aos vinte e poucos, fases dos cinquenta e muitos, e aos vinte e muitos tento recuperar fases dos vinte e poucos ao mesmo tempo que me preparo para as matérias dos trinta, que estão logo ali depois da curva.

E nessa de me reencaixar ao fluxograma por necessidade me peguei entrando em sua inexorável zona de conforto. Um belo dia, saí mundo afora, com saudades de mim mesma, de ser menina, de ser maluquinha, de abraçar o mundo com as pernas. E de lá a Mafalda em mim voltou aos chutes e pontapés à vida de fluxograma, gerando as crises existenciais. Percebi que o mundo já não está mais sobre meus ombros. E que, talvez, com um pouco de prática, aulas de yoga, e retorno da flexibilidade, possa voltar a abraça-lo com as pernas.

E assim, Mafalda que sou, comecei voltando à pratica do yoga, depois às leituras, e lentamente, a coragem de mudar o mundo está voltando. Mas o meu problema, é que tenho um lado São Tomé, ou até pior do que ele. São Tomé pelo menos acredita quando vê, eu não acredito nem vendo. É o efeito Titã, que me deixou cheia de poeira das últimas guerras, como já dizia Skank. E nessa de não acreditar nem vendo, vou aos poucos cumprindo com as obrigações, mas às vezes me falta fé para voltar a ser maluquinha.

E lá estava eu JuReMa, no píer, acompanhada de Balthazar, que acreditava somente em sua maldição, até que foi curado pelos beijos de um estranho. E quando acho que não sou Sofia, sou JuReMa, saio da peça, saio do píer, e encontro amigos, conhecidos, família. E eis que num momento surrealmente Sofia ela vira para mim e diz “Quer dizer que você não acredita que é organizada e capaz? Tá pior que os beijos de Balthazar, hein!” me abraça e vamos embora. E vim assim, pensando nos beijos de Balthazar. Sim, era, de novo, tudo o que eu precisava ouvir. Aquela frase foi o meu beijo de Balthazar. Não dá para desacreditar sem tentar. Que venha então a panela na cabeça, porque essa JuReMa, Sofia, Alice, resolveu dar ouvidos à Mafalda e ser Maluquinha.

Que o mundo, descido de meus ombros, se transforme em bola de circo, pois além de abraça-lo com as pernas, vou caminhar sobre ele, como um malabar! Como já fazia, aos oito anos de idade, e depois aos dezoito de novo. Já que os vinte e oito estão a poucos meses de distância, me parece apropriado ressucitar a circense e andar sobre o mundo. E trazer da infância Mafalda e o Menino Maluquinho, para acompanharem Alice e Sofia da adolescência, e assim, sairemos todos da zona de conforto, do fluxograma, para o mundo.

Diários do Cena: Qual o significado do seu nome?

Essa semana começou difícil, por vários motivos, apesar de muito boa Pichettambém. Juntaram em mim TPM, período menstrual e uma gripe avassaladora com garganta inflamada e febre. Vai aguentar tudo isso junto para ver como é bom. Garanto que bom pra tosse não é, só a faz piorar. Mas insisti no meu amor-próprio, nos meus remédios não convencionais de um tanto, que cheguei a exalar cheiro de própolis a ponto de tê-lo identificado pelos outros em um abraço!

Mas vamos com calma. Esse ano estou tentando coisas novas. Não, estou tentando coisas novas desde o ano passado. Não, sempre tentei coisas novas. Sou uma metamorfose ambulante, com raízes bem sólidas e identificáveis, contudo. Estou trabalhando no formato dos meus textos, e, talvez no formato do meu espírito, já que em situação tão Sofia, venho virando palavras e moldando-as e aprendendo a molda-las e aprendendo a me moldar.

Há um ano cai na toca do coelho, saí no Museu da República, e foi durante, e muito por causa do, Cena Contemporânea edição 2013, que esse blog saiu do mundo dos sonhos. Naquela época me descobri Alice antes de virar Sofia. Hoje me sinto muito JuReMa já! Portanto, Jurema sendo, não lhes contarei as aventuras e desventuras da Menina, mas as minhas mesmo. 2013 passou, e a versão 2014 veio de óculos, e com dedos começando a ficar afiados. O projeto Cinderela, dormir sempre antes da meia-noite, será suspenso por um período certeiro de duas semanas em prol da edição 2014 do Cena! E esse texto, é, portanto, o inaugural do Diários do Cena 2014!

Voltando a semana difícil, lá estava eu, acabada! No convés de um navio eterno, ao sabor de ondas enjoativas, cabeça rodando, e a voz perdida por aí, em outras madrugadas. O que faz uma pessoa assim, quando se é professora e precisa-se de voz e equilíbrio, físico e mental, para trabalhar e viver o dia-a-dia? Bom, eu fiz o que pude. Sobrevivi aos dois primeiros dias e hoje precisei ceder e me conceder um cochilo reparador. Exalando própolis, cheia de vitaminas, frutas, torradas e garrafas de chá, fui enfrentar a vida. Comecei bem, sendo logo ofuscada por um fusca, numa tesourinha brasiliense. Diria que uma maneira bem típica dessa cidade de ser ofuscada.

O segundo momento foi totalmente inspirado por este agora, meu novo exercício de expressão pelos dedos e por uma sugestão de uma amiga de trabalho. Com a voz extremamente prejudicada, optei por digitar instruções aos alunos no quadro interativo ao invés de falar. Qual não foi minha alegria ao perceber que os alunos, em vez de se rebelarem e criarem um motim, aceitaram prontamente meu ajudante virtual, e além de terem comportamento exemplar, suas vozes não passaram de sussurros em solidariedade inconsciente! Obrigada universo!

Depois do fusca ofuscante e das aulas mais calmas da minha vida de professora, que já soma nove anos, decidi ser forte e enfrentar minha prática de yoga apesar de a minha cabeça continuar dançando no convés do navio da gripe. Sobrevivi! E não só isso, sai de lá muito mais firme, com os pés no chão. Depois de um jantar gostosinho e indulgente, porém saudável, de tapioca recheada de refogado de cogumelos, seguida de um belo cappuccino sem lactose, entrei no teatro! Não sabia ainda se sairia de lá Alice, Sofia ou alguém novo.

Hoje não sou Alice, não sou Sofia, sou eu mesma, muito JuReMa, porém renovada! Ok, a garganta ainda arde e a gripe ainda não cedeu, mas vai. É preciso paciência também. Sai do teatro convicta de que chegaria em casa e dormiria. Mas não posso, não agora que as palavras começam a me aceitar em seu meio. Como gorilas que finalmente aceitam que eu cate seus carrapatos, mesmo que para isso precise de horas imóvel, as palavras começam a aceitar que as molde, mesmo que a meia-noite vire por alguns dias. Sim, isso significa posts frequentes pelos próximos dias. Está oficialmente inaugurada a temporada Cena 2014!

Mas por onde eu passei, para ficar assim, ainda mais centrada e tranquila? Pela sala de aula! Que maravilha! Como eu amo meus momentos de aprendizagem. E não, infelizmente não consegui ver Conselho de Classe, uma peça sobre professores, que está na programação do festival. O que você viu então, Jurema? Vi um exemplo lindo de pedagogia moderna, onde aqueles que esclarecem não forçam, penas suscitam a reflexão, apresentam exemplos, e depois os clarificam. Modelo perfeito! Vi também um choque de culturas digno de Samuel Huntington, onde o preciso, certeiro e minimalista se choca com os excessos e desperdício de energia, numa economia sofrível de movimentos dessa outra parte. Esse choque segue pela Civilização do Espetáculos de Vargas Llosa, onde percebemos que há minimalismo na extravagancia. Aprendi sobre a violência contida no barulho do raspar das unhas do dedão no dedo mínimo e sobre toda a reflexão acerca da morte que Kill me softly pode conter.

Às vezes não sei se o mundo está o tempo todo cheio de referências, se elas vêm na hora certa, se eu já acumulei tantas que leio-as num piscar de olhos, ou se minha sintonia com o universo está tão fina assim, mas é certeza que a cada dia que passa minha vida se encaixa melhor em si mesma. Quanto mais precisos se tornam meus movimentos, mais longe minha mente voa. Quanto mais longe vou, mais fundo dentro de mim mesma chego. Quanto mais sinto, menos penso. E quanto mais penso, mais aprendo a sentir.

Qual o significado do seu nome? Alice é aquela que cai na toca do coelho e reencontra a realidade da sua própria vida no surrealismo do País das Maravilhas. Sofia é aquela que brota das páginas, transformando-se de personagem em pessoa, ou no meu caso, aquela que penetra o papel, transformando-se em personagem. Pode não ser lindo, grandioso, ou perfeito, mas hoje sou quem eu quero ser. Hoje sou JuReMa. Juliana Reis Marra.

E isso significa que tenho valores reais, para afundar minhas raízes em terreno fértil, produtivo e seguro. Isso significa que tenho jogo de cintura para me adaptar a muitas situações e ser poeta quando convém. Isso significa que tenho um apelido fácil, curto e costumeiro, e que ninguém me chama pelo nome. Isso também significa que basta ligar um aspirador de pó para eu achar que tem alguém me chamando. Isso significa que meu nome contém minha bisavó Santinha, dona Ana, e sua mãe, dona Julia. E que quando colocados em ordem inversa, Julia Ana, Juliana, parece que bolinhas de gude de vidro giram em sua boca, nas palavras de dona Bia, que me presenteou com esse nome. Isso significa que tenho nome de marca de ervilha enlatada. Isso significa que posso ser e sou, várias. E você, qual o significado do seu nome?
http://www.cenacontemporanea.com.br/programacao/pichet-klunchun-jerome-bel-franca-e-pichet-klunchun-tailandia/

 

Diários do Cena Dias 10 e 11: O Brasil, a Infância e o Fim

Ontem eu ouvi uma peça toda em brasileiro! Ouvi os sons da floresta, me encantei com meu próprio país e lembrei que ele também é das Maravilhas!
Recusa

Hoje eu chorei! Hoje chorei muito. Começou com uma lagrima pequena, ja conhecida, que brota no canto do olho quando falam em dor e descrevem aqueles que a conhecem. Sequei com a ponta dos dedos em movimento que ja é reflexo. Segui pelo mundo Magico do Cena, so que aos pouco ele foi se transformando e sem ter batido os calcanhares três vezes eu estava de novo em casa, so que numa casa que nao existe mais, e nao tinham nem 11 anos ainda. Aos pouco vi com meus olhos, porém revi detrás deles meus primos dormindo juntos, o André fazendo panqueca em cima do banco e grudando massa no teto. Eu, Dani e Carol dentro das roupas da vovó. Lembrei do Canarinho, da ida a Disney, de banho de banheira com amigas e biscoitos e cheddar em spray! Lembrei também de toda a solidão apesar dos amigos irmãos, das brigas na escola, de como aprendi levando um soco que eu era daquelas que nasceram pra dar a cara a tapa.
Lembrei dos meus oito amigos-irmão, dos balões de água na madrugada, dos passeios re bicicleta, das noites sem fim, das gotinhas sexys causadas pelo protetor solar. Lembrei dos meus avós nos ensinado a dançar valsa. Dos excessos de doce nas madrugadas. Da piscina. Dos milhares de jogos. Dos acampamentos no quintal. Da lona das barraca ensaboada enquanto nos jogávamos deslizando no morrinho do jardim.
Dos lanches do vovô! Do Nescau de liquidificador. Dos cachorros quentes na casa da Isa, dos cafés da manha na Flávia. Das mil despedidas do Fábio.
Me lembrei de mim mesma e de um tempo antes da dor! E ao mesmo tempo de como ja havia dor, reclusão, como ja era eu mesma, antes dos 11 anos!
Como estaremos daqui a dez anos? Ja se passaram mais de 10, e essas mesma pessoas foram as que me ajudaram a esvaziar minha casa depois da morte da minha mãe. Alguns moram longe, outros perto. O coração da gente aprende a se expandir, a cobrir o mundo pra que ninguém escape mesmo a distancia!
Dores novas e dores velhas, amizades novas e amizade velhas, primos, amores, irmãos! Hoje eu chorei, por mim e por outros, pelo real e pelo fantástico! E volto pra casa com um sorriso no rosto, lagrimas nos olhos e o coração aquecido! Obrigada Cena Contemporânea! Obrigada Guilherme Reis!!!
Matéria Prima
 

Diários do Cena Dia 9: O Som do Vento

Hoje é dia de muita música! E hoje foi ate agora um dia de muita magia. Oz e o País das maravilhas juntos nao são suficientes pra explicar a atmosfera de magia a qual o Jambinai me transportou! 
Hoje eu vi uma banda de rock! E o que há de tão magico nisso, me perguntam vocês. A principio, nada! Mas hoje eu vi instrumentos que desconhecia, e ouvi o som do vento, tocado, manejado por mãos de fada. Hoje eu vi seres encantados capazes de tocar cinco instrumentos musicais de uma vez só. Hoje eu vi uma força surgir nas mãos de velocidades inumanas e ser refletido nos rostos de duas doces fadas, que ao produzir aquele som fascinavam! Como sereias das profundezas seus sons prendiam, encantavam e pareciam capazes de matar alguém com nada mais que hashis da a velocidade, habilidade e intensidade daqueles pares de mãos!
Hoje eu conheci um doce rapaz de olhos puxados que toca além de tudo, com os calcanhares!
Vocês se lembram de outros sul coreanos que me fizeram entender e acreditar nos filmes de seres voadores? Pois bem, hoje eu presenciei algo tão incrível quanto, a capacidade deles me fazerem voar. Foi sem perceber, quando me dei conta ja tinha sido transportada de uma dimensão para outra e para outra de novo! Sem pausa, transitando entre mundos, entre sons, entre culturas, entre civilizações, entre milhares de anos, me perdendo em mim mesma!
Agora tem mais! Estou na praça de Absolem e a magica continua!
Ainda temos dois dias passeando pelas estadas coloridas, ou melhor ainda, sobrevoando-as, confundindo os tijolos amarelos com os vermelhos, sendo levada pelo vento, em seu som!

Jambinai

Diários do Cena Dias 7 e 8: Oz

Hoje eu tava mais em Oz do que com a Alice. Hoje eu vi o Leao, o Homem de Ferro e o Espantalho. Coincidentemente estou com meus sapatinhos vermelhos hoje, mas nao, me nao vou bater os calcanhares três vezes! Isso só no domingo! O Homem de Lata, o Leao e o Espantalho eram um só homem e três personagens, que se subdividiam em muitos outros. Mocçambicano, mas poderia ser brasileiro, ja que é tantas coisas ao mesmo tempo. Hoje eu presenciei aquele que procura e encontra, que ja encontrou e ainda esta a procurar, sua coragem, seu coração, sua fibra, sua origem, seu âmago.
Esse semana é de muita música e dança.
Agora fui teletransportada por Absolem par o museu e de volta ao País das Maravilhas do Cena! Ouvi instrumentos que desconhecia a existência, e musicas que me fizeram sonhar. Amanha entrarei ainda mais desse belo mundo Sul Coreano, na companhia da lebre e demais seres fantásticos.

Ontem eu visitei a corte da Rainha vermelha. Um mundo feminino, irrequieto, belo, angustiado, emotivo, profundo e perfunctório! Fui dormir com a gostosa lembrança de como foi ler Lispector pela primeira vez e como me senti. Ontem lembrei! De cada microsensação revivida, inesperadamente em francês. Mas afinal, dizem que faz parte as cortes falar em línguas diversas.

Seguirei entre a estrada de tijolos amarelos, vermelhos e o país das maravilhas. Me restam poucos dias de viagem antes de bater os calcanhares três vezes.

Diários do Cena Dia 6: Bsb e Eu

Eu sei que o Cena está já em sei oitavo dia, mas não assisti a espetáculos no domingo nem segunda. Domingo fui para a praça, misto de Cena e Todos os Sons, ver a Baby do Brasil e foi divertido como sempre. Dessa vez tive a companhia dos amigos e fui eu mesma, sem Alice ou Oz, só a maravilha de Brasília, que já é mais do que qualquer coisa! 
Segunda tirei folga, afinal, apesar de não querer perder nada a vida continua, trabalho o dia todo, e algum momento preciso cuidar das tarefas do dia-a-dia.
Hoje retomei meu passeio pelo País das Maravilhas do Cena e dessa vez é um caminho sem voltas e nem pausas até o último minuto.
Como Alice conheci na última semana todo tipo de seres encantados, me inspirei mais do que poderia imaginar possível, ri muito, chorei um pouco, dormi quase nada e me maravilhei constantemente.
Hoje Alice viu pessoas que sabem voar! Conheci de perto aqueles que desafiam a gravidade, me fizeram duvidar das leis da física, e me sentir de fato no país das maravilhas. Entre tatames e tambores eu presenciei corpos perfeitos, se movendo com precisão cirúrgica e a graça dos pássaros. Devia estar, definitivamente, nos jardins da Rainha Branca, e os tambores deviam ser aqueles que preparam Alice para sua batalha. Um misto de beleza, emoção e força. Muita força em todos os sentidos.
Cheguei em casa e já menos Alice (já que hoje não teve Museu) e mais eu mesma, senti falta das minhas aulas de yoga. Equilíbrio perfeito, força, treino, harmonia, e a desconstrução de tudo isso em nome da emoção.

Boa noite e até amanha. Por sorte ainda temos mais cinco dias sendo conduzidos por Absolem de forma enigmáticas nesse mundo fantástico!

Pattern – Coreia do Sul

Diários do Cena dia 5: Amor

Hoje eu vi o amor em uma forma tão bonita! Inesperada pelas que o presenciavam, amigo, feliz, confuso! 
Hoje me sinto menos Alice e mais o Coelho ou a Lebre. 
Hoje corri de um lado pro outro, vi, levei, passeei e interagi com meus personagens reais! 
Hoje sou tiéte, bandy, e no Castelo da Rainha branca me sinto em casa, dividindo-o com a família! 
Hoje Oz, o País das Maravilhas e o Concreto Branco de Niemeyer se fundem numa única realidade fantástica da qual sou parte, espectadora, admiradora, fã!
Convido meus amigos, amores, família, desconhecidos, estranhos, brasilienses, brasileiros, estrangeiros e pessoa de outras paragens para virem fazer parte dessa realidade fantástica e sentirem um pouquinho dessa emoção que tento compartilhar.

A primeira vista (RJ- Teatro Nacional)

Diários do Cena Dia 04: Os Gêmeos Confusos e o Chapeleiro Maluco

Day #4 – Os Gêmeos Confusos e o Chapeleiro Maluco

Ainda no fim da tarde eu encontrei os Gêmeos Confusos. Eles não estavam realmente lá, mas por meio de fones nos diziam o que fazer. Segui ordens, andei pela praça e corri à sombra do Disco voador de Niemeyer. Fui prisioneira, fuzilada. Morri e estrebuchei! Ri muito! Fui, fomos todos, parte do elenco e vi meu nome nos créditos! Leve, sem deixar de entender que estava em um ambiente pouco, passeei, como Alice, pelo mundo de Absolem, e vi os desertos de cimento branco, onde se finge que se diverte enquanto se compreende que política e arte são uma só.

Mais tarde continuei meu passeio pela floresta negra.
E sim, finalmente, hoje eu tomei chá com o Chapeleiro Maluco! Literalmente! O detalhe é que o chapéu dele era a cartola do Tio Sam e ao longo da noite ele encarnou os principais estereótipos estadunidenses. Deitei na grama (literalmente) e entrei numa viagem conduzida pelo Chapeleiro que mais parecia o Tio Sam inspirado por Chomsky ao som de um Caravan Palace mais vigoroso. E entre inglês, francês, poesia, sarcasmo, critica, raiva, apatia, revolta, metáfora e releitura fiquei como depois de qualquer encontro com um Chapeleiro Maluco, cheia de informações a digerir e com a cabeça um pouco pesada e muito confusa. Em certos momentos parecia estar sendo perseguida pelo Jaguadarte, tamanha a raiva e medo misturados. Em outros estava nos porões da Rainha Vermelha, com muito pouca luz, ouvindo rumores de conspiração.

E amanha? Será que encontrei a Rainha em pessoa? Compreenderei a mensagem que Absolem ajuda Alice a compreender? Lutarei? Nao sei… Mas estarei lá!

(Domínio Publico na praça do Museu e Gallery 66 Teatro Sesc Garagem)

A Menina que não sabia chorar

A menina rodou o copo de cerveja na mão, segurando-o pela borda para não esquentar ainda mais o conteúdo. O copo ainda estava três quartos cheios, era o primeiro mas ela não aguentava mais. A verdade é que não queria beber naquele dia, naquela hora, mas estava mantendo a postura social. O mesmo não era verdade pra maquiagem, apesar do batom vermelho dar mais trabalho, e de ela passar a língua nos dentes constantemente para evitar os famosos borrões, gostava de estar maquiada. Se maquiava para si mesma, a qualquer hora e lugar e qualquer desculpa pra um batom vermelho era uma desculpa boa.

O menino não tinha bebido muito também, estava no segundo ou terceiro copo no máximo. A conversa fluía, cheia de amenidades e sem seriedades. Conversavam para se conhecer, conversavam pro tempo passar, conversavam por gentileza. Não que não estivesse bom, que não estivessem gostando da companhia um do outro, mas era uma coisa assim, parte da vida, do momento.

Ele virou e perguntou de repente o que ela tinha achado da peça. Tinham ido ao teatro, não juntos, não, não estavam juntos, mas tinham se encontrado, naquela vida social, e descoberto que tinham visto a mesma peça no festival, e de repente a pergunta. Ela suspirou, rodou o copo com a ponta dos dedos, pendurado nos dedos, viu um fio de água escorrer do copo suado, e pensou em como escolheria as palavras. Não que conversar sobre aquilo fosse difícil, não era, mas as pessoas se ofendem por tão pouco. Lhe cansava às vezes essa possibilidade. Não que fosse criticar, tinha gostado do espetáculo, mas é aquela velha história, gosto é igual bunda, cada um tem o seu.

Levantou os olhos do copo, aprumou o corpo e disse: “O texto é muito bom.”, assim, concisamente. Ele levantou os olhos e questionou: “Mas você não achou muito escuro? A leitura muito cansativa?”. Pronto, ele não tinha gostado e já estava ofendido. Que preguiça! Suspirou e retomou as palavras, girando-as na boca para testá-las antes de deixa-las sair: “Sim, é escuro, é entendo que possa ficar cansativo. Outras pessoas já me falaram isso. Talvez por conhecer o contexto, os estereótipos trabalhados não tenha me cansado”, pausou, deu um gole, viu os argumentos se formando por detrás dos olhos dele, pronto para rebater. Não, ela não queria discutir, não estava no humor de ter uma conversa técnica. Resolveu arrematar antes que ele tivesse chance: “Mas gostei muito do texto mesmo, é um poema, né?! Talvez por ter sido encenado em outro idioma muitas pessoas tenham se perdido, eu, como entendo bem, me deixei levar, cheguei a fechar os olhos e esquecer o escuro e me perder nas palavras. Você reparou que em alguns momentos o mesmo verbo é usado com três significados diferentes na mesma frase? Sim, eu sei que isso é bobeira e que um espetáculo é muito mais que o texto, mas sou muito ligada nas palavras e gostei por isso. Entendo opiniões contrárias. Vejo a razão nelas também!”. Pronto, enquanto falava ela assistiu aos argumentos dele se rearranjarem várias vezes por detrás dos olhos. No fim ele suspirou, deu de ombros e disse: “O poema é muito bonito mesmo, já tinha lido antes”.

Rodou o copo nos dedos aliviada, acabou a argumentação, estavam todos certos, cada um com sua bunda, com sua opinião. Odiava discutir gosto. Cada um acha o que quer. O silêncio se estendeu por menos de um minuto e ele voltou a atacar de forma inesperada: “Você tem opiniões muito fortes! Trabalha com teatro?”. Ela suspirou, e pensou: isso de novo?! Não, não trabalhava, mas cresceu em uma família que sempre exaltou e trabalhou com arte, teatro, música, jornalismo. Um ambiente onde foi cuidadosamente ensinada a ter opiniões fortes, onde isso era prezado e alimentado. Achou que tinha sido suave, mas falhara ruidosamente mais uma vez. Olhou pra cima e resumiu: “Não, mas por causa da família cresci na coxia. Assisti a espetáculos de toda forma desde cedo e fiz muitas oficinas, além de aulas de teatro e circo”. “Então você é artista!”, arremata ele. “Não, não sou.”, responde com um sorrisinho condescendente. Estava cansada de dizer que não era artista. Seria se quisesse. Por razões nas quais não costumava pensar muito não era. Escapou da especulação: “Não tenho talento, só conheço um pouco.”. “Aposto que tem talento sim!”. Ai, ele ia insistir!

Suspirou, bebeu mais um pouco. A cerveja já estava oficialmente quente e era ruim, de uma marca que não gostava. Mas não queria falar nada, todo mundo bebia daquela cerveja, não queria levantar outra argumentação acerca de seus gostos e opiniões. Continuou a beber em silêncio. Não tinha o que dizer. Tinha, mil coisas, para o mundo todo ouvir, mas estava desestimulada, desacreditada e tomada de uma preguiça que não combinava com sua personalidade. Nunca tinha sido preguiçosa, muito pelo contrário, mas vinha se escondendo na procrastinação no último ano. Disfarçava a procrastinação com o luto recente.

Perdera sua mãe a cerca de um ano e meio. O motivo parecia convincente para todos menos para ela. Ela sabia que era capaz de muito mais do que andava fazendo, mas já que o mundo se contentava com aquilo ela estava experimentando ser mediana por uns tempos. Cumprir com todas as obrigações tende a ser muito para as pessoas em geral. Até demais. Ela tinha apendido que isso era o de menos. Foi criada para surpreender, para ser a primeira da turma, para pensar mais rápido que todos, viver a vida como um jogo de xadrez, sempre prevendo até dez movimentos consecutivos para se planejar, preparar e estar pronta para cada investida da vida e das outras pessoas. Estava cansada, precisava de um pouco daquilo que é perfunctório! Amava essa palavra: perfunctório. Brincava com ela na cabeça. Lembrava do avô. Sorriu com a lembrança e o garoto achou que o sorriso era algo pra ele, ou algo a ver com aquela conversa com aquele momento e não com algo a milhas de distância no tempo, nas realidades paralelas.

Havia perdido o avô também. No mesmo ano do pai, cerca de seis ou sete anos atrás. Nossa, sete anos já, ela pensou. Como ela tinha vivido nesse meio tempo, tinha feito o que? Se lembrou. Tinha entrado na faculdade, começado a trabalhar seis meses antes disso, formou no tempo previsto, estagiou, teve cinco tipos de empregos diferentes, fez cursos de extensão, línguas, cuidou da mãe e da vó, pagou contas, fez compras, dirigiu mais de trezentos mil quilômetros entre idas e vindas dentro da sua cidade natal como acusava o odômetro do primeiro carro que teve quando o vendeu. Sorriu de novo com os pensamentos velozes e dessa vez o rapaz não se aguentou: “Então, tenho certeza que você tem talentos! Já apresentou alguma peça?”. “Não, só na escola!”, “Nadinha? Não acredito!”. Ela viu que não ia escapar. Resolveu dar um pouco de corda. “Já apresentei pelo circo, fazia malabares e aprendi a cuspir fogo na adolescência!”.

Pronto, estava dada toda a corda do mundo, era só contar que sabia cuspir fogo que as pessoas se empolgavam, queriam saber detalhes, falavam horrores. Sabia também que era um assunto seguro. Podia falar sobre isso, aumentar, diminuir, impressionar. A conversa fluía em campo seguro, longe de seus sentimentos. Assim ela podia apenas falar com a boca, enquanto a cabeça divagava, e ainda parecer interessada, atenta. Não é que ela não estivesse gostando da conversa, sei que é difícil de acreditar quando dito assim, mas é como o cérebro dela se comportava a anos. Mexer com os sentimentos era perigoso, levava a mente a cantos escuros, escusos. Não, era sempre bom manter as conversas alguns níveis acima da superfície. As profundidades eram muito trabalhosas e perigosas.

Percebeu que o menino ainda falava sobre suas habilidades circenses. Se perguntou se ainda as teria. Não as testava a alguns anos. Suspirou, já tinha deixado o assunto se arrastar muito. “Mas é isso, nada de mais”. “Como nada de mais?” ele retrucou, fez alguns elogios e perguntou sobre poesia. Ela respondeu, comentou seus autores e poemas preferidos. Se manteve sucinta e evitou detalhes. Tinha cada vez mais preguiça daquela conversa e ao mesmo tempo se não estivesse conversando com ele estaria fazendo o que? Não fazia parte do seu plano de procrastinar metas e viver perfunctoriamente por um período manter conversas aleatórias com estranhos? Sim, era isso que as pessoas faziam, isso se chamava fazer um social, conhecer gente. Resolveu dar mais uma chance pra essa habilidade social pouco explorada e mordeu a língua antes que o cortasse. Em vez disso deu mais corda, se perguntando onde aquilo ia parar e porque estava contando tudo aquilo. Aos seus ouvidos soava como se estivesse se vangloriando dos tais possíveis talentos. Teve um pouco de vergonha, se sentiu meio mentirosa. Ao mesmo tempo ponderou que não estava mentindo, era tudo verdade. Só não estava acostumada a contar esses detalhes para pessoas aleatórias.

Detalhes? Suspirou de novo! Aquilo não chegava perto de ser um detalhe. Aquilo era conversa fiada. Só não parecia. Deixou fluir, continuaram falando de música, livros, arte cultura.  Mesmo sem se esforçar reparou que conseguia chamar certa atenção. O rapaz acompanhava muito bem a conversa. Conhecia bastante. Conhecia coisas que ela não conhecia, indicava, e quando valia a pena, ela tomava notas mentais dos nomes de autores ou títulos mencionados por ele.

Pensou em como aquelas notas mentais era esforço nenhum perto dos estudos que estava acostumada a fazer. Ainda estaria acostumada? Sentiu um leve pânico na boca do estomago, o mesmo que sentia desde o fim da graduação. Ainda daria conta de estudar daquele jeito, naquele ritmo? Na época parecia fácil. Cada vez mais percebia que tinha sido um esforço considerável. Na época os problemas de família ainda estavam acontecendo, estava no olho do furacão. Não tinha nem chance de pensar se daria conta ou não, se era muito ou pouco, podia apenas seguir fazendo. Cumprindo com as obrigações como o avô ensinara e como tinha prometido a ele que faria pelo resto da vida na véspera de sua morte. Parece besteira, coisa de livro, mas lembrava daquilo sempre.

Tinha aprendido o significado das palavras procrastinar e perfunctório com o avô. Amava aquelas palavras. Odiava aquela ação e aquele adjetivo. Tinha aprendido com ele também a nunca procrastinar e a banir o perfunctório da vida. Tinha aprendido a ser eficiente, pragmática, competente, independentemente de como se sentisse. Era sua obrigação.

Olhou pra frente, gente, o menino continuava ali. Ou ela estava ficando mesmo boa em separar o que se passava internamente da realidade externa, ou ele era muito paciente e persistente. Quem sabe as duas, ou três coisas. Ele reavivou a conversa: “Mas me diz, você sabe imitar pessoas? Você faz leituras muito bem.” ,sim ela pensou, sei. E sei respirar, pelo nariz, pela boca e até a barriga. Consigo fazer vários tipos de dicção e aprendi a mover os lábios e os músculos do rosto para causar diferentes vozes e trejeitos de expressão, cuidadosamente treinados em anos de leitura em voz alta para a mãe. Uma radialista de dicção perfeita, obcecada pela forma como as pessoas falavam. A menina tinha aprendido a assistir filmes e imitar a forma como os lábio, queixo, maçãs do rosto se mexiam. Brincava de dizer a mesma frase no espelho, como se fossem várias. Tinha um trecho de uma música em que o cantor dizia “Lábios de mola”, ela ria, falando “lábios de mola” como se os lábios fossem molas. Achava aquilo fantástico na letra. Via como proposital. Amava letras de músicas. Gostava de brincar com a sonoridade das palavras, de degustá-las e testá-las.

Na infância fazia tanto isso que repetia tudo que dizia em voz alta, em voz baixa, para testar as palavras que tinha dito e o impacto delas. Se tornou um tique. A mãe criticou e reprimiu o tique por anos. Amigos e namorado também. Aprendeu a ser mais delicada, fingiu não ter mais o tique. Às vezes escapava. Era curioso como podia gostar tanto de palavras. Era uma leitora ávida e uma péssima escritora. Suas piores notas na vida escolar inteira eram em português. Sofreu horrores para escrever sua monografia de graduação. Escrevia errado, nunca decorava onde os pronomes deveriam ir. Esquecia regras, odiava regras. Lia gramaticas, fazia exercícios e continuava medíocre. Lia e ouvia todos dizendo que quem lê muito escreve bem. Balela! Odiava aquele ditado. Sempre tinha lido muito. Lia tanto que usava óculos de leitura desde dos vinte e um anos. Hipermetropia por vista cansada era o diagnóstico. Tinha provas médicas do quanto lia. Caixas de livros, mais livros do que cabia em sua estantes. Isso sem falar dos que lia emprestados, das bibliotecas, dos livros eletrônicos no Kindle que não ocupavam espaço, dos downloads, legais e ilegais. Blogs, revistas, panfletos. Lia a pasta de dente enquanto escovava os dentes e a caixa de cereal durante o café da manhã. Lia todos os manuais, as letras pequenas dos contratos, as abas dos livros e os prefácios. E não escrevia. Não conseguia nem manter um diário íntimo. Cresceu sendo cruelmente corrigida em voz alta e em público pela mãe e pela vó. Adorava se expressar, era cheia de ideias, mas tinha preguiça e medo de ser julgada por elas. Pelas ideias, pela mãe, pela vó.

“Eu disse que era talentosa! Você acabou de interpretar essa última poesia que disse!”, era o rapaz. Ele ainda estava lá, e aparentemente seu cérebro estava pregando peças. Poesia! Estava ela a recitar poesia sem perceber? Olho o copo na mão. Já não havia suor no copo. Temperatura ambiente por completo e só tinha bebido a metade. Desistiu, esvaziou o conteúdo na grama, dando um passo pra trás para não espirar cerveja quente nas botas e foi jogar o copo fora. Aproveitou para desanuviar a cabeça de todos aqueles pensamentos no ar frio da noite. Por que não tinham inventado uma penseira do Dumbledor ainda? Sabe, do Harry Potter, aquela bacia de pedra onde o velho diretor da escola tira seus pensamentos como fios de prata da cabeça e os joga na bacia para observá-los mais claramente. Suspirou! Sonho de consumo inatingível.

Se sentiu envergonhada por não estar dando a atenção devida ao rapaz e à conversa. Seu cérebro andava muito inquieto. Voltou para o ponto onde estavam em pé, na diagonal do palco, conseguiam ver o show, mas era calmo o suficiente para conversar. Sim, tinha um show acontecendo. Era parte do festival. A garota estava muito empolgada nos últimos dias por causa do festival. Acontecia todo ano e ela sempre reservava as noite para aquelas duas semanas de imersão em arte, muito teatro, muita música. Já era tarde, cerca de uma da manhã, geralmente estaria dormindo uma hora dessas, ou lendo na cama, e estava lá, de pé, interagindo com o mundo. Só o festival para deixa-la assim. Os amigos não tinham ido. Sempre diziam que iam, a cada ano elogiavam o festival como o melhor evento do ano, e nunca iam. Suspirou.

Olhou pro rapaz, e se mostrou disposta a conversar. De verdade, pela primeira vez naquela noite. Parece que ele viu a disposição por trás dos seus olhos. Disparou: “Você consegue chorar?”, ela olhou pro céu, mirou a lua, a abaixou o rosto. Os olhos instantaneamente vermelhos, mareados. Ele recuou, não sabia se era a resposta a seu desafio ou algo mais. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Ela viu remorso passando por seus olhos, mas era tarde demais. Ela chorava. O choro seco, sem lágrimas, das pessoas que conhecem o sofrimento. As lágrimas desciam lentamente por dentro de sua garganta, a faziam engasgar, perder a fala, inchavam suas maçãs do rosto querendo sair, o rosto esquentava e ficava vermelho. Ela abriu a boca pra falar e teve que engolir as lágrimas, sentir seu salgado e seu amargor.

Sorriu, um sorriso cheio de ironia e desafiou: “Você sabe sorrir?”. Ele ficou sem graça, abaixou os olhos. De súbito levantou-os de novo, e ela viu a resolução nos olhos dele, havia decidido encarar aquilo como uma interpretação. Não ia se sentir envergonhado nem sem graça. Insistiu. “Mas você nem está chorando lágrimas de verdade. E fácil chorar assim?”. Ela se dividia entre o cansaço, a preguiça, a ironia, e a indignação. “É fácil chorar assim? Sim, chorar é fácil! Não sei por que ainda testam atores, pessoas, por sua capacidade de chorar. Difícil é não chorar!”. Ele enviesou o olhar, percebeu que havia muita emoção ali, e que ela ao mesmo tempo aceitava o desafio. Já que ia chorar, ia mostrar tudo que sabia, fosse atuação ou sentimento. Sustentou o olhar. Ela continuou com a voz embargada, trêmula, o semblante pesado, e o rosto quente. Quente e seco. As lágrimas eram internas. “Difícil é não chorar toda segunda-feira, quando estaciono o carro na escola onde trabalho, colada no local onde minha mãe trabalhou por mais de vinte anos, difícil e ligar o rádio e não chorar. Difícil e ser coordenadora do evento do dia das mãe na escola, fazendo hora extra pra ajudar os pequenos a fazer artesanato e cartões pras mãe e não chorar. Difícil é olhar os números na placa do meu carro toda vez que entro e saio dele e não lembrar que eles correspondem ao dia e mês da morte dela.”. A voz continuava embargada e havia um tom de raiva e um de desespero. Ele continuou sustentando o olhar.

“Difícil é olhar os livros e discos nas minhas estantes e não chorar. Difícil é usar as interjeições de palavrões do meu avô no transito e não chorar. E repetir uma receita da minha avó, ou fazer um bordado, pregar um botão, e não chorar. Difícil é ver um desses espetáculos ou ler um livro novo e não poder contar pra ela”. Os olhos estavam tão marejados que ele se perguntou quando a primeira lágrima cairia, mas o rosto continuava seco e quente. “Difícil é sorrir, ser amável, doce!”, ela continuava cheia de ironia. “Difícil é parecer feliz. É convencer às outras pessoas e à si mesma de que está tudo bem, de que a vida é bela”. Ele sentiu o peso das palavras e começou a vacilar o olhar.

“Difícil é não saber se você algum dia vai sorrir de verdade, vai gargalhar sem sentir que a alegria é como um álcool sobre a ferida, ajuda a cicatrizar, mas torna insuportavelmente consciente o tamanho do rasgo.” Ela passou as unhas nos braços, mostrando o arrepio equivalente à angústia do remédio na ferida. Ele olhava as próprias mãos e não sabia mais o que fazer. Teve certeza de que não sabia onde tinha se metido, e ela viu o arrependimento sincero em seus olhos. Vacilou. Sentiu a ironia escorrer pelos pés. Sentiu um cansaço maior que seus anos, teve preguiça e se lembrou por que não queria conversar com ninguém, por que estava se dedicando à procrastinação e a variedades de coisas perfunctórias.

Ele viu que ela desarmou, e arrematou como só um tenista no match point: “Mas você ainda não respondeu minha pergunta! Você consegue chorar?”. Ela suspirou: “Não! Não consigo!”, levantou, virou as costas e enxugou a primeira lágrima que escorria pela bochecha quente e esfriava rápido no vento frio da noite enquanto ia embora. E se lembrou que lágrimas não podem ser enxugadas ou não param de derramar. Ergueu a cabeça e deixou o vento fazer seu trabalho mais uma vez, enquanto emergia o tique de infância, repetindo em voz baixa e sentindo o salgado e o amargo na língua: “Não, não sei chorar!”.