Van Gogh

Van Gogh. Sempre ele. O primeiro quadro que tive num quarto que pude chamar de meu, ainda na infância, e que não fosse decoração de bebê, foi esse. Estrada com Cipreste e Estrela. Road with Cypress and Star. Não é meu preferido. Mas sempre foi o mais meu. Minha paisagem. Minha janela. Meu canto de estudos, meu enfeite. O quadro do meu quarto. Devido às muitas mudanças dos últimos anos ele já não era meu quadro do quarto. Por três anos esteve engavetado. Eis que hoje escrevo sob as bênçãos da estrada, do cipreste, dos trabalhadores cansados que compõe a paisagem, do pequeno chalé ao fundo, da carroça que segue com duas pessoas dentro e das estrelas. Eis que hoje voltei a ter meu Van Gogh no meu quarto. No nosso quarto. Ele não é mais só meu. Não pendurei os quadros sozinha, muito pelo contrário.

A nova casa está pronta. A nova vida já começou, enquanto eu, muito preocupada em fazer a vida funcionar, já vinha vivendo-a há pelo menos um mês, quiçá dois, e na pressa de ser responsável, mal vi a vida que vinha vivendo. Hoje ela está estampada nas minhas paredes. Não vivo mais na minha torre solitária, tão minha, só minha. Meu império de pouquíssimos metros quadrados. Me sentei no sofá no final da tarde, louça lavada, roupa na máquina, geladeira cheia de comida, quadros na parede e me vi na nossa casa. Na minha casa que não é mais só minha. E mais que isso, o muito mais talvez, não seja que ela não é mais só minha, é que é uma casa de verdade. Tem paredes de verdade, de tijolos, que dividem os aposentos. Aposentos, no plural. Não é grande, pelo contrário, mas é uma casa de adultos. Com quadros na parede. E meu Van Gogh lá. De novo. A terra é redonda e gira. A vida é cíclica. E a minha completou um belo giro, e começou um giro e tanto.

É carnaval. Ontem eu fiz faxina o dia todo. Hoje cozinhei e arrumei a casa. Foi bom. Também descansei da semana de trabalho novo. Sabe o que dizem das crianças, que precisam dormir mais, pois tudo é novidade e é necessário sono para consolidar o aprendizado e recuperar as energias, mais do que nos adultos. Sou criança de novo. Tenho sentido desespero diário por reiniciar o disco, para configurar as atualizações diárias. É um mundo novo. Cidade nova, casa nova, emprego novo, namorado novo, vida a dois, tudo novo. As ruas são novas, os caminhos me distraem. O emprego é novo, as crianças são outras, o material bonito me distrai. A casa é nova, as necessidades de arrumações e reparos me distraem. O namorado é novo, tudo me distrai. Preciso reiniciar e configurar as atualizações de disco. Ainda bem que meu HD tem boa memória.

220V, 110V. Eletrodomésticos novos. A voltagem me distrai. E-mail do orientador. Novos professores me distraem. Mensagem inbox do facebook, projeto novo, aulas voluntárias. As oportunidades me distraem. Pastel na feira. Cesta de orgânicos. Mercado novo. As gondolas de mercadorias me distraem. 3G, 4G, cabo, fibra ótica. Wi-fi ainda não foi instalado, a falta de internet me distrai. Dados rolam sobre a mesa, cartas trocam de mão, peças vermelhas, peças brancas, fichas, cadê a lapiseira? Jogos me distraem. É sua vez. É minha vez.

É minha vez. Nada me distrai mais do que a atenção que posso gastar comigo mesma. Vinte oito anos e agora minha vida é minha. Plena. Toda minha. Cheia. Atribulada. Como não poderia deixar de ser essa minha vida de JuReMa. Como não me ocupar vinte quatro horas, sete dias, doze meses? Como não fazer trabalhos voluntários, estudar, trabalhar, escrever, ler, blogar? Cozinhar, lavar, passar(?), arrumar, ir ao mercado? Como não ser JuReMa. Ser JuReMa é bom. Sofia saiu das páginas. Está vivendo plenamente a história que escreve para si própria. No pulso trago para sempre minha cidade. Nas costas trago para sempre meus pais. E os pássaros. E a música. A combinação perfeita das minhas asas. Voo nas minhas asas. Me carrego dentro do meu próprio sonho, e não há mais como distinguir realidade da fantasia. Virei palavras e as palavras viram realidade a cada carácter impresso no papel.

É assim que viro história. É assim que minha história vira vida. É carnaval. Não fujo da realidade através de fantasias, bebidas, momentos de devaneio. Mergulho nela entre louças, roupas, reparos, estudos, manuais escolares, noites de filme no sofá a dois. Talvez amanhã eu saia. Talvez veja o carnaval na rua. Mas não preciso nesse momento sair para carnavalizar. Levei meu bloco para a realidade através de minhas palavras. Dos meus sonhos. Das minhas asas. E hoje ele teve gosto de risoto e cupcake. Amanhã talvez seja de arroz com feijão, ou de cesta de orgânicos na terça-feira de carnaval.

O cipreste continua a apontar para as estrelas. Elas iluminam o caminho. Os trabalhadores me observam. No próximo fim de semana já terei wi-fi. Depois da terça-feira uma nova cesta de orgânicos. E novas palavras terão escrito mais linhas da minha vida-sonho, que tem sido tão cheia de novidades. Vou reiniciar o disco. Atualizar o novo. Sempre. Seguindo a noite estrelada de Van Gogh, seu céu multipincelado que me remete ao saudoso céu de Brasília. Escrevo sobre o sonho vivido logo mais. Antes vou sonhar a vida mais um pouco. E carnavalizar, meu bloco nas ruas do meu pensamento, nas linhas que fluem dos meus dedos. As estrelas iluminam esse caminho. Sejam as de Brasília, sejam as de São Paulo, sejam as do Van Gogh. Boa Noite e bom carnaval.

Uma cesta de orgânicos

Hoje eu acordei com a campainha antes das sete da manhã. Última semana de férias. Normal ainda estar na cama antes das sete. Levantei zonza. Dormi tarde, vendo filme. Acordei durante a noite, faz calor. É verão. O verão de 2015. O primeiro verão do meu mundo novo. Não tem água na torneira para lavar o rosto. A higiene mínima matinal é de caneca, bacia e balde de água armazenado embaixo da pia. Eu me lembro dos casarões antigos que já visitei e dos conjuntos de louça trabalhada, bacia, jarra e caneca, apoiados sobre uma cômoda, toucador ou penteadeira. Talvez os tempos sejam mesmo cíclicos e tenhamos alcançado o esgotamento que nos fará retornar ao passado no futuro. Meu presente não é tão romântico, e embora a pia ainda seja a encanada, pregada na parede e de louça, a caneca e o balde são plásticos. Talvez esse seja o futuro com ares de passado.

Recebo na porta uma caixa de papelão contendo vários alimentos orgânicos. Selo estampado na lateral. Nota fiscal impressa no topo. Confiro, os dados estão certos. Foi o pedido que fiz pela internet. Futuro e passado batem à porta as sete da manhã. Alimentos de quintal. Pedido feito pela internet. No rodapé da nota fiscal é possível ler a mensagem que diz que o pagamento pode ser feito em dinheiro, cheque ou por depósito/transferência eletrônica para a conta especificada. Passado e futuro batem à porta. Guardo os de refrigeração imediata e volto a dormir. Ainda estou de férias.

Estou de férias? Acordo uma hora e meia depois remoendo a pergunta. Sim e não. Meu passado recente e meu futuro de uma semana adiante chegam a mente. Troquei de emprego. Estou de férias do último. Mas começo na próxima segunda em um novo. Férias? Eu tive férias nessa passagem de 2014 para 2015? Em dois meses tive até agora cinco dias espaçados para não fazer nada, ou fazer uma pequena viagem à praia. Descanso não tive. Em menos de dois meses empacotei tudo o que tenho. Resolvi pendências há muito estagnadas. Pendências bancárias, pendências burocráticas, pendências cotidianas, pendências emocionais. Entreguei o aluguel de um apartamento, meu primeiro refúgio só meu. Pedi demissão. Me desliguei de muitos vínculos. E fui. E vim.

Já estou aqui. Recebendo uma cesta de orgânicos que bate à porta às sete da manhã de uma terça-feira qualquer. Uma terça-feira qualquer? Não. Hoje não é um dia qualquer. Todo os dias desses últimos dois meses foram únicos e inigualáveis. Meu presente tão presente. Presente pela intensidade da sua vivência em cada segundo. Presente pela necessidade que me fez viver esses dias pensando neles e só neles. Presente por conterem um futuro incerto. Presente por conterem um passado tão próximo. Presente por serem tão únicos. Presente por serem minha escolha. Meu presente para mim mesma. Presente por cada um que tem feito parte deles. Presente porque são o meu agora e isso é todo o meu mundo.

Meu passado recente (recente?) dos últimos dez anos incluem seis mudanças de endereço, a perda dos meus pais e dos meus avós maternos, que me criaram. Incluem a mudança para lugares cada vez menores e cada vez mais afastados da casa onde cresci. Uma parte dessas mudanças ocorreu por decisões maiores que eu, e só pude acatar. Nunca me incomodei. Me cansei. Muito. Trabalhei loucamente. Estudei mais horas do que cabem em um dia. Vivi semanas de muito mais do que sete dias, e dias de muito mais do que vinte e quatro horas. Vivi dez anos que valeram por uma vida inteira.

Outras mudanças foram voluntárias. Viagens, lugares só meus. Lugares compartilhados. Mudanças que escolhi. Todas possuem algo em comum. Todas foram necessárias. A necessidade é algo muito curioso. Normalmente vemos a necessidade como algo negativo. Como falta de opção, de alternativa. Uma força maior nos obrigando a algo. Esquecemos que sempre há uma escolha. Às vezes essa escolha nem é pensada, pois a alternativa está além das nossas capacidades físicas, financeiras, morais, ou algo assim. Mas sempre há uma alternativa. Por isso nem toda mudança voluntária é desnecessária. Muito pelo contrário. O caminho que fiz até aqui foi absolutamente necessário.

Precisei viver todas as adversidades que passei. E precisei viver todas as superações também. E preciso viver os sonhos. Preciso viver as vontades. Preciso viver as curiosidades. E esse caminho me trouxe à uma cesta de orgânicos às sete da manhã dessa terça-feira. Ainda estou pseudo-acampada. Mais da metade das minhas coisas ainda estão empacotadas, encaixotadas, lacradas. Nos últimos dois meses vivi dias intensos. Exame demissional, exame admissional. Entrevistas, treinamentos. Um novo caminho de metrô para aprender. Um trajeto de ônibus fácil e bem sucedido adicionado à lista de caminhos conhecidos e traçados. Um descontentamento com o Google Maps num ônibus que me levou para o meio do nada. A alegria do Santo Waze.

Mais de novecentos quilômetros de estrada. Falta de água. Racionamento. Políticos que dão outros nomes ao fato de que a água é cortada ao longo do dia. Ao fato de que a pressão que vem da rua não é suficiente para que o fluxo de água acione a resistência do pequeno chuveiro elétrico. Banho frio. Higiene básica feita de caneca e balde. É esse o futuro? É esse o passado? É verão. Eu não ligaria o chuveiro mesmo que houvesse alternativa. O calor incomoda. O banho bom é frio. E o inverno? E o futuro? Lavo as folhas orgânicas na bacia de água que peguei do balde, e cozinho o almoço. Nada de água corrente. Economia e silêncio, no movimento que lembra passado e traz gosto de futuro. Assim como minha cesta de orgânicos, que pedi pela internet.

Mais um apartamento para ver à tarde. Vou a pé. É perto. Se conseguir fechar a documentação, poderei ir para o novo trabalho a pé todos os dias. Uso o aplicativo do iphone para scanear os documentos necessários e enviar para o corretor e tentar garantir o apartamento.  Recorro ao Google Maps e ao Waze na volta para casa. Lavo a louça e a roupa enquanto tem água na torneira. Mas já sei que na hora de escovar os dentes antes de dormir, será com caneca e balde. Jantarei uma sopa. Fiz com os orgânicos. Receita da vó. Um filme no netflix antes de me sentar para trabalhar um pouco no notebook. A roupa seca no varal, e a umidade que evapora, ao lado do ventilador, amenizam o calor do verão. Meu futuro tem ares de passado e assim mesmo é desconhecido e incerto. Às novidades relembram meus gostos mais antigos e pessoais de infância e adolescência.

Sou tão eu. Me sinto feliz nesse novo mundo, que tem ares de passado. Familiaridade no desconhecido. Saudades do que ainda não vivi. Jamais Vú todos os dias. Banho de caneca e orgânicos pedidos pela internet. Ainda estou de férias e a cabeça tem tempo livre. Tempo para divagar sobre tudo o que já estudei. Meu gosto tão predileto por história, política e filosofia. Sim, o futuro tem gosto de passado. Assim como a sopa da vovó, feita com orgânicos pedidos pela internet e lavados na caneca. Meu futuro inclui muita leitura, muito estudo, assim como minha vida inteira. Meus jogos, meus gostos, minha sopa da vovó. Me repito, repito meus ancestrais. E tudo é novo. Tudo é futuro nesse meu presente tão bom, tão novo. O presente é um futuro com gosto de passado. O presente é tudo que trouxe do passado para fazer um futuro novo e único. Deja Vú. Jamais Vú.

Uma cidade nova. Uma casa nova. Um emprego novo. Estudos novos. Namorado novo. Corte de cabelo novo. Ano novo. Vida nova. E uma cesta de orgânicos lavada sem água encanada. Num verão ardente. Uma receita antiga. A música que me acompanha enquanto cozinho vem do itunes. Salvo meu texto na cloud. E escrevo para viver. Para me tornar Sofia. Para virar história em palavras, como a humanidade sempre fez. O futuro tem gosto de passado renovado. O mundo é redondo e gira. E o meu fez uma volta de 360, para uma vida nova. A vida que eu sempre quis e não sabia. Um sonho que nunca sonhei e se realiza assim mesmo. Meu presente.

Eu

Então, essa é a minha última semana nessa casa. Na madrugada da sexta para o sábado que vem, pego a estrada rumo a uma nova etapa, uma nova aventura. A caneca de chá está aqui ao meu lado. Faz um calor desesperador. Janela aberta. Ventiladores de teto ligados. Eles estavam na minha To Do List de 2014, check and done! Colocados no teto! Esse ano cumpri com absolutamente todas as minhas metas pré-estabelecidas e fui além. Estou extremamente satisfeita comigo mesma e com a minha vida.

Bate uma alegria, uma ansiedade, uma vontade de chegar logo na nova fase. Dessa vez, entretanto, não sinto o gosto amargo das despedidas. Primeiro porque dessa vez, pela primeira vez na minha vida, ninguém se foi, seja de uma forma ou de outra. Quem está indo sou eu. E isso faz toda a diferença. Quem fica, quando os outros vão, fica só, fica no mesmo lugar, que precisa ser reinventado para cobrir o vazio. Dessa vez vou rumo ao cheio. E a muitos vazios também. Espero poder preenche-los. Levar comigo minha música, meu cheiro, meus passarinhos, minhas estórias.

Vou porque quero, não porque preciso. Vou porque construí o caminho, a ponte está feita e agora é só cruza-la. Há uma alegria infinita nesse processo. Sei que não existe, na verdade, um chegar lá. Que apenas cruzo para continuar na estrada. E que ela seja longa! E cheia de novidades sempre! Essa ida tem tudo de começo. Estou acostuma a mudanças que são finais. Essa agora é um início. Às vezes penso que é apenas um capítulo novo. Mas na verdade farejo ares de outro volume. Como se algumas mudanças fossem, per si, drásticas demais para estarem contidas naquele mesmo velho livro.

Outro fator que me leva a essa ideia é a natureza dessa mudança. Nada tem gosto de inevitabilidade, tudo tem gosto de escolha própria. Nesse sentido, posso afirmar, que estou me dando o maior luxo da minha vida até hoje. Afinal, é um enorme privilégio poder fazer essas escolhas, ter as condições de realiza-las, e ainda por cima, saber que é tudo por mim, de mim, para mim. Presente de natal, ano novo, de vida. De vida nova. Sempre coloquei as obrigações e as necessidades em primeiro lugar. E elas sempre me exigiram muito. Essa história de livres escolhas baseadas em desejos, sonhos e realizações é uma tremenda novidade.

Não pense, contudo, que essa guinada aconteceu no natal. A primeira mudança, física inclusive, quando vim morar no meu pequeno aposento do alto dessa torre de onde vos escrevo, foi voluntária. Não foi fim, foi o início de um começo, ou o começo de um início. O início do meu começo. Completo agora um ano de meio de dedicação exclusiva à Juliana, à JuReMa, à Ju, à Juju, à tia Juju, à Marra, a todas essas que moram em mim. E, finalmente comecei a alcançar bons resultados, advindos dessa dedicação de corpo, mente e alma, ao meu corpo, minha mente e minha alma. Me sinto lustrada e polida.

Sei que já disse um pouco de tudo isso aqui, e receio cair na repetição e nas mesmices daqueles que se aventuram na linguagem das palavras escritas. Mas preciso tentar eternizar a sensação de plenitude desse momento. O fruto da dedicação voltada ao interior, ao meu Eu. Porque se tem uma coisa que eu aprendi, com toda certeza, até hoje, é que a vida é dinâmica, e está sempre pronta para me jogar de um lado para o outro, sempre! E estou segura de que outras infinitas mudanças virão, e que algumas delas serão inícios, outras finais, e que em algumas poderei tomar decisões efetivas, em outras terei que acompanhar a maré para não afogar.

O que preciso ter como um tesouro, como um sentimento encapsulado e guardado num berloque junto ao peito, é essa sensação de plenitude e satisfação que hoje possuo, sozinha. A certeza de que, assim como hoje eu construí um lar só meu, depois de todas as marés às quais já sobrevivi, posso reconstruí-lo a qualquer tempo, em qualquer lugar. Hoje sei que sou capaz disso. E que sou capaz disso não só hoje, pois esse aprendizado é para a eternidade. Uma vez alcançado, pode até enferrujar com o tempo, se não for lubrificado, mas sempre poderá ser reativado. E pretendo mantê-lo bem oleado.

Que a caneca de chá se mantenha sempre minha fiel companheira. E, independentemente do que o futuro trará, as palavras sempre serão meu consolo, minha vida, minha alma, se fragmentando ao vento, e sendo reconstituída em cada esquina, em cada prato de comida, em cada viagem, em cada livro lido, em cada mensagem trocada com os amigos e familiares, em cada olhar daqueles que me veem, me leem. Nunca estarei sozinha, pois aprendi a me fazer presente na solidão, e a preenche-la, a preencher-me na vida dos outros, a preencher os outros na vida minha.

Sejam as selfies, as fotos, a superexposição do facebook, as mensagens em horários indevidos, os grupos silenciados do whatsapp, as ligações demoradas do Skype, os passeios no parque, as conversas de corredor, os almocinhos, as saídas, as piscinas, as pedaladas na rua, as trilhas no mato, eu sempre me faço presente, sozinha ou acompanhada. Seja Juliana, Ju, Jujuba, JuReMa, tia Juju, tia Juba, Marra, seja quem eu for para os outros, eu me reinvento e estou lá para eles. E eles se tornam presentes para mim!

Por isso, olho a caneca de chá, e digo a ela que se prepare para horas de plástico bolha, pois vamos em mais uma aventura! E, com toda certeza, terei muitas e muitas palavras nas quais me dissolver ao longo dessa nova estrada. Sejam os tijolos amarelos ou vermelhos, passe um coelho apressado em meu caminho e eu decida segui-lo por algum tempo, seja a viagem surreal como o desejo de um gênio da lâmpada, a menina será sempre Alice, pronta para desbravar o País das Maravilhas, e tornar seus medos, amigos. A menina será sempre Sofia, tornando-se palavras enquanto vira realidade. Que venha 2015, e o resto da vida!

Os Beijos de Balthazar

Em um desses dias de Cena lá estava eu JuReMa, sendo Alice, sendo Sofia, correndo entre realidade e ficção. E me vi num píer. O lugar me pareceu muito propício para reflexões pessoais, uma vez que venho de uma cidade surreal onde a seca e a vida lacustre convivem em harmonia, e onde as crianças frequentam píeres e sabem muito utiliza-los para suas brincadeiras, ou, conforme os anos passam, para suas reflexões. Sempre tive dois favoritos para reflexão, que mudaram anos depois devido a viabilidade de frequentá-los. Um é o píer do meio, são três, que ficam no acesso da ciclovia atrás da QL 12 do Lago Sul. O outro é o já inexistente mini-píer que ficava na casa onde eu cresci. Dali acreditava que veria os piratas chegando, os monstros marinhos do lago, os pássaros mais fantásticos, trazendo notícias de mundos paralelos. E foi ali que li muitos dos livros que me possibilitaram esperar por piratas, pássaros mágicos e mundos paralelos. Ali também aprendi a tabuada e anos depois refleti, ri e chorei todas as minhas dúvidas e angustias da adolescência.

Quem nos dera que refletir, rir e chorar fossem privilégios da adolescência. Quanto mais a vida passa, mas percebo que é moto contínuo essa atividade de se perder e reencontrar-se. Pelo menos me sinto no lucro por saber que já me reencontrei várias vezes, apesar de ser uma perdida. O dia que me levou até aquele píer foi um dia extremamente produtivo. Fruto de muita reflexão e de uma semana de crises existenciais. Mas ouvi belas palavras durante essa semana de crise, que me diziam que a crise é muito bem vinda, pois serve para nos tirar da nossa zona de conforto. Estar em crise significa que estamos prontos para dar novos passos, viver novas aventuras, sair do lugar, e pensar em como sair é, muitas vezes, trabalhoso e doloroso, mas não há demérito nisso, muito pelo contrário. Há o mérito de querer se encontrar novamente, em novos ambientes, em nova pele. Ou, às vezes, em pele antiga, redescoberta como papel de parede descascado.

Velhos gostos que retornam como velhos amigos. Sabe aquele velho amigo que você gosta muito, mas nem sabe como nem porque perdeu contato, e quando reencontra fica meio culpado, por saber que não deu atenção? Aí existem duas opções, ficar no sorriso amarelo e perder a oportunidade, ou abraça-lo de coração e se permitir o reencontro, apesar da leve culpa de abandono. E quando isso ocorre, geralmente somos abençoados com a percepção de que o afastamento não foi culpa de ninguém, e que bom mesmo é se reencontrar e ser feliz.

As pessoas tendem a se culpar muito, por tudo e qualquer coisa, e com a culpa vem o medo, o medo do julgamento, o medo da rejeição, o medo da vergonha, o medo de dar errado, o medo do ridículo. E o medo paralisa. Porque arriscar? Porque tentar se reinventar? Porque correr trás dos sonhos? Quando a vida já está aqui, e é tão exigente. Trabalhamos, sustentamos, corremos, e muitas vezes ainda cuidamos do corpo, da saúde e da família. Já não basta? Não é muito já? Sim, é! É muito e dá muito trabalho e, se bem feito, nos ocupa vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Mas eu queria mais…

Desde a adolescência eu quis mais. Mais o que, JuReMa? Quer salvar a humanidade? Acha mesmo que vai mudar o mundo? Cresci ouvindo essas críticas. E as palavras dos nossos pais (tios, avôs) nos marcam a ferro, como já dizia Balthazar. Na verdade, pensava dentro de mim, sim! Sim, quero! Quero salvar a humanidade e mudar o mundo! Não faço ideia de como, mas se puder, quero. Quero pelo menos tentar. Quero entender que há mais entre o céu e a terra do que acordar, trabalhar, ter filhos, comprar uma casa e morrer. E não digo isso como uma crítica a quem assim o faz. Mas eu, apesar de querer tudo isso, sempre quis algo a mais. Como um tempero. Ver e conhecer, e entender. Como dizia a Mafalda para Susanita, “Isso não é vida, é fluxograma!”, e eu quero viver e não só cumprir o fluxograma! Ou como dizia Oscar Wilde, eu não quero só existir, quero viver. Ou sendo Menina Maluquinha, sempre quis abraçar o mundo com as pernas.

Acabei tendo que carrega-lo nos ombros, como um titã, e devo dizer que é bem menos confortável. Durante alguns anos senti muita falta da panela na cabeça. E o peso do mundo sobre os ombros me roubou a coragem de muda-lo, como já dizia Renato Russo. E com a coragem roubada, fiz muito de tentar me encaixar no fluxograma, já que com o mundo nas costas perdi o ritmo das matérias e saí da grade, perdendo a preferência na hora de requisitá-las. E nessa acabei vivendo, aos vinte e poucos, fases dos cinquenta e muitos, e aos vinte e muitos tento recuperar fases dos vinte e poucos ao mesmo tempo que me preparo para as matérias dos trinta, que estão logo ali depois da curva.

E nessa de me reencaixar ao fluxograma por necessidade me peguei entrando em sua inexorável zona de conforto. Um belo dia, saí mundo afora, com saudades de mim mesma, de ser menina, de ser maluquinha, de abraçar o mundo com as pernas. E de lá a Mafalda em mim voltou aos chutes e pontapés à vida de fluxograma, gerando as crises existenciais. Percebi que o mundo já não está mais sobre meus ombros. E que, talvez, com um pouco de prática, aulas de yoga, e retorno da flexibilidade, possa voltar a abraça-lo com as pernas.

E assim, Mafalda que sou, comecei voltando à pratica do yoga, depois às leituras, e lentamente, a coragem de mudar o mundo está voltando. Mas o meu problema, é que tenho um lado São Tomé, ou até pior do que ele. São Tomé pelo menos acredita quando vê, eu não acredito nem vendo. É o efeito Titã, que me deixou cheia de poeira das últimas guerras, como já dizia Skank. E nessa de não acreditar nem vendo, vou aos poucos cumprindo com as obrigações, mas às vezes me falta fé para voltar a ser maluquinha.

E lá estava eu JuReMa, no píer, acompanhada de Balthazar, que acreditava somente em sua maldição, até que foi curado pelos beijos de um estranho. E quando acho que não sou Sofia, sou JuReMa, saio da peça, saio do píer, e encontro amigos, conhecidos, família. E eis que num momento surrealmente Sofia ela vira para mim e diz “Quer dizer que você não acredita que é organizada e capaz? Tá pior que os beijos de Balthazar, hein!” me abraça e vamos embora. E vim assim, pensando nos beijos de Balthazar. Sim, era, de novo, tudo o que eu precisava ouvir. Aquela frase foi o meu beijo de Balthazar. Não dá para desacreditar sem tentar. Que venha então a panela na cabeça, porque essa JuReMa, Sofia, Alice, resolveu dar ouvidos à Mafalda e ser Maluquinha.

Que o mundo, descido de meus ombros, se transforme em bola de circo, pois além de abraça-lo com as pernas, vou caminhar sobre ele, como um malabar! Como já fazia, aos oito anos de idade, e depois aos dezoito de novo. Já que os vinte e oito estão a poucos meses de distância, me parece apropriado ressucitar a circense e andar sobre o mundo. E trazer da infância Mafalda e o Menino Maluquinho, para acompanharem Alice e Sofia da adolescência, e assim, sairemos todos da zona de conforto, do fluxograma, para o mundo.

Alice no País de Gaudí

A menina acordou. Estava no avião. Seus olhos pesavam depois da noite insone. O cochilo rápido do primeiro voo só serviu para deixa-la ainda mais cansada e confusa. Perdida entre realidades. Em outros dias ela tinha sido a menina do caderninho vermelho, aquele que ganhara logo antes de ganhar também aquela outra viagem. Daquela vez se sentia como uma outra menina de capa vermelha, gorro vermelho, em missão, cumprindo obrigação e à espreita do lobo, mau ou não. Abriu a bolsa e tirou o caderninho. Dessa vez ele não era vermelho, era colorido, multicor. Na frente havia um desenho desconstruído de uma menina loira, uma pena de pássaro azul nos cabelos, um bico amarrado ao rosto. Aquele caderno não era ganhado, mas escolhido pela menina. Aquela viagem não era ganhada, era escolhida pela menina. A primeira vez que Alice vai ao País das Maravilhas é ao acaso, por assim se dizer. Mas depois não. Depois é porque quer. Porque precisa se reencontrar. Enfrentar suas guerras, e ganhar. Dessa vez a menina era Alice por escolha.

A menina sentou no sofá e ajeitou os cabelos molhados sobre o ombro esquerdo. Olhava a TV, era o penúltimo jogo da copa do mundo. Já não se importava com o resultado, não faria diferença alguma aquele placar da partida pelo terceiro lugar. Apesar de uma certa exaltação por parte dos telespectadores mais assíduos, a conversa começou. O que ela pensava? Difícil dizer assim, simplesmente em palavras. Sua mente se dividia em várias dela mesma. Uma queria acompanhar o placar, outra queria fazer amigos, uma terceira lutava contra o sono, e aquela, aquela desconfiada lá do fundo, se percebia Alice no país de Gaudí.

Perdida, maravilhada, desconcertada entre o sonho e a realidade. Que lugar era aquele, onde os próprios prédios da cidade pareciam acompanhar a dissolução de cores e formas de sua mente fértil? Incrível perceber que outros podiam compartilhar daquela loucura lúdica, disforme, surrealista, sutil e florida, de seu eu mais profundo. Se para a menina sempre foi difícil distinguir entre sonho e realidade, nessa cidade isso tornara-se impossível. Só umas duas bolhas na sola do pé, com aquela dor leve e constante, quase imperceptível, para mantê-la com os pés no chão.

Alice havia tomado conta. E ela passava pelas portas minúsculas e era também gigante, sem ao menos precisar comer ou beber nada mágico. Gol. Olhou o placar e percebeu o quão distante dalí estava. Talvez estivesse com Dalí e seus bigodes. Aquele era um pequeno mundo de bigodes, afinal de contas. A conversa continuava. Aos pouquinhos algumas palavras foram trazendo a menina à superfície e deixando Alice e Dalí no fundo de sua mente. Algumas daquelas palavras soavam mais claramente do que outras e ela ia utilizando-as para se recompor.

Saiu e voltou a sala dos bigodes quase sem perceber. A TV desligada, o jogo findo, nada importante. Era esse o jogo de ontem ou o de hoje? A Copa acabou? Parecia que sim. O placar não era importante, e nem mesmo o vencedor. As palavras que ressoavam eram a respeito da comida, da pizza, e de se essa era de queijo ou se tinha presunto. A menina não comia presunto, e, dessa vez, não era a única ali. Os dias se mesclavam, o ontem, o hoje e o amanhã. O real e o irreal. Fantasia, imaginação e realidade. Em parte porque a menina estava vivendo o sonho, em parte porque o sonho era real, e sempre porque ela era também Alice.

Os fogos de artifício eram de hoje ou de ontem? A praia tinha areia fria, mas o ar era quente. A cidade cheirava a férias. Havia uma alegria e uma leveza no ar que manteriam seus lábios com as quinas elevadas pelos próximos dias, assim como tinham feitos nos anteriores. Ela era feliz. Ponto. Era feliz sem precisar de um porquê. O mundo era seu, e ela finalmente reclamava seu pedaço com passos certeiros por rotas incertas. Percorria caminhos conhecidos pela primeira vez e se sentia em casa longe dela. Talvez estivessem certos, e ela fosse nômade e sua casa fosse onde seu coração está. Sempre eles. Sempre sua música. A noite, a praia, os rostos desconhecidos, exalando amizade e receptividade. E em sua mente as conversas, as trilhas, os mapas, os rumos, as possibilidades. Quanto mais longe ela ia, mais queria ir. Perder-se nas maravilhas daquele e de outros países. Como voltar? Não fisicamente, mas mentalmente? Talvez nem Absolem tivesse resposta dessa vez.

Acordou e foi tomar café, de pijama ainda, apesar da coletividade local. Conversaram de novo. Sempre um livro em mãos, como um farol a lhe guiar. Era raro não serem as suas mãos e seus olhos os que se ocupavam dos livros. Era tão raro, que eram os únicos, entre tecnologias e bigodes. Era seu último dia ali. A conversa fluía como nos dias anteriores. Melhor até. Cada vez melhor. Hoje ela iria a praia. Não como à noite. Entraria nas águas mediterrâneas e saborearia mais essa felicidade. Tinha a trilha sonora pronta. Saíra de casa com esse momento ensaiado. Mas a vida é sempre mais surreal do que a ficção. E apesar de saber disso, sempre se surpreendia.

Já trocada foi rumo ao mar. Mas não foi sozinha, como havia antecipado. Tinha companhia. E as ruas pareciam diminutas. Os minutos eternos. O sol ainda não brilhava. Talvez chovesse. Esse pensamento pingava em sua mente como uma torneira mal fechada, mas sem diminuir seu ânimo, apenas como um lembrete constante. Sentou-se na areia. Sentiu o sol. Já estava com calor após a caminhada. A menina olhou o mar, e perguntou-se, mais uma vez, se era verdade. Se ela era de verdade. Talvez fosse apenas um sonho da mente de alguma outra menina, pronta para dissipar-se com um acordar alheio.

O mar não estava frio e era pouco salgado. Era mar e não oceano. Era a primeira vez que ela entrava num mar não-oceânico. Apesar de ser filha do interior e da terra vermelha, a menina era também um pouco peixe, sempre pronta a testar as águas, embora fosse mesmo pássaro. Continuavam conversando. Quem era aquela pessoa? Seria um chapeleiro maluco? Seria O Chapeleiro Maluco? Ou seria o gato, que some deixando apenas a sombra do sorriso iluminado no escuro? Ouviu as gaivotas e lembrou-se que isso não era importante. Apenas que tinha uma companhia para disfrutar.

Sentou-se na areia, e apesar da brisa leve, deixou o sol secar a pele molhada. As gaivotas captavam seu olhar a cada voo, a cada mergulho. E isso não significava que a conversa não estivesse boa, muito pelo contrário, era uma das mais interessantes dos últimos tempos, a menina-pássaro apenas não podia resistir àquele espetáculo gratuito servido como um banquete, combinação perfeita de imagem, som, gosto, temperatura e tato. E lembrou-se então de ouvir a música que era um dos motivos por estar naquelas areias naquele momento.

Dividiu o fone. Era estranho ter companhia. Era reconfortante ter companhia. Era quase como se ela fosse um alien por ter companhia. Era aquilo real? A realidade é definitivamente mais estranha do que a ficção. Mais caminhadas. Era especialmente raro ter companhia para suas andanças. A menina era acostumada às reclamações que iam de indiretas a significativos nãos na cara ou até mesmo a indiferença quando o convite eram suas caminhadas ou pedaladas. Gostava de ir por ai sem hora para voltar e essa visão não é muito popular.

Subir aquele moro não era sacrifício algum, cada passo uma recompensa. A beleza do lugar maravilhava a menina a cada passo, mesmo já tendo estado ali duas vezes. A menina gostava de andar sem rumo porque o caminho é tão importante, ou mais do que o destino. Alice sabe disso. Alice se descobre Alice não quando chega o final do filme, do livro, da batalha. Mas em cada passo, em cada diálogo, em cada minuto de país das maravilhas. E cada pedacinho daquele dia era uma maravilha digna das sete.

O corpo secava e molhava, entre mar, sal, chuveiro, suor, andanças, ladeiras, piscina e sol.  E o protetor solar. Sim, para a menina era sempre muito importante lembrar do protetor solar. Ela só não sabia que em seu dia de Alice no país de Gaudí até o protetor serviria para tornar a realidade mais fantasiosa que a ficção. A menina começava a perceber que talvez e só talvez aquele fosse seu dia de protagonista. Apesar de ser muitas vezes Alice, nunca se considerou protagonista fora do papel. Era protagonista quando era Sofia. Quando se metamorfoseava em palavras. Mas fora das palavras, não era Sofia, não era Alice, era apenas a menina. Muitas vezes sem nome.

Em seu dia de protagonista, a menina Alice, que naquele momento estava longe de ser Sofia, muito mais viva na realidade fantasiosa do que no papel, serviu-se de um banquete e comeu como uma rainha, vermelha ou branca, até hoje não se sabe. E ao voltar a sala dos bigodes saia das folhas de papel como nunca, penetrando a realidade com força. A menina contemplou sua possível imagem, de bico e pena azul na cabeça, e pousou o lápis. Estava no avião e sua cabeça girava. Seria o sono? Esse seguramente a atormentava. Mas o lápis tornava-a Sofia de novo, empurrando-a para o papel. Confundindo novamente realidade e ficção. A aeromoça avisou que em breve serviriam o jantar. Ou seria o almoço? Entre fusos, falta de sono e muita irrealidade, nada mais parecia ter sentido prático.

Da sala dos bigodes a menina saiu em nova caminhada, de novo acompanhada. Mais que mania de companhia era essa agora? Onde estava a eremita? Andarilha solitária? Ao contemplar o papel, uma nova música, uma velha música, sempre com novos sentidos veio-lhe a mente. E de dentro daquele avião, entre lápis, papel, música e memória, a menina reviveu suas últimas vinte e quatro horas. Às vezes tinha certeza de que estava sendo filmada, como no Show de Truman e questionava com mais veemência a realidade e a fantasia. Talvez por ter a imaginação muito fértil, talvez por ser muito Alice ou muito Sofia, em seu mundo particular, em seu país de maravilhas, a menina tinha muita dificuldade em acreditar na realidade. Era mais fácil acreditar na fantasia.

Como convencer aquela menina, aquela Alice, aquela Sofia, aquela Clarice, aquela Adriana, que castelos e luas cheias, gaivotas e mar, fontes mágicas, prédios tortos e música sincronizada são reais? Impossível! E assim, apesar da pele ardida de sol, dos gostos ainda na boca, dos ouvidos ainda cheios de música, e com os lábios murmurando aquela música, a menina dormiu. Por horas e horas ela dormiu, até regressar a sua casa, a sua realidade. Para sempre perguntando-se se a realidade foi ficção, ou se a ficção pode ser real.

Lembrando-se da sala dos bigodes, a menina se perguntava se foi ela que entrou ali primeiro, sem sequer pedir a menor licença? Ali era todo aquele lugar e lugar nenhum. Ali, era apenas ali, ou era o mundo todo? Ali era a sala dos bigodes ou aquela cidade fantasiosa? Não se sabe, mas nos sonhos da menina naquele avião, permearam tardes há muito sonhadas. E a andarilha solitária lembrou de muitos e muitos anos trás, quando andando sozinha, entre a casa da sua avó e a da sua prima, cantarolava aquela música, na época recém lançada. Na época sem sentido, e se perguntando se algum dia cantaria algumas daquelas palavras por si. Menina Alice perdeu-se e reencontrou-se no País de Gaudí.

Eu me Chamo JuReMa

Hoje a menina se arrumou para sair de casa, despretensiosa. Já eu estava um pouco IMG_0732ansiosa. O fim de semana foi de paz para as duas, pra mim e para a menina. Descansamos depois de muitos dias de trabalho, e a menina largou seus livros por uma dose rara de TV e jogos. Já eu me entretive com a paisagem e com a família, irmão e sobrinhos. Meu caderninho ficou guardado na bolsa, junto com os livros da menina. Esse fim de semana a menina não estava muito Alice e nem eu muito reminiscente.

E foi assim, de espirito leve, que entrei naquela fila. Admiro muitas coisas e pessoas diversas, mas existe em mim uma fã, uma tiete, que não necessariamente possui a admiração solene que tenho pelas belas obras, mas uma que só quer sentir a emoção fulgaz das coisas pequenas que me falam à alma. E para distrair a minha leve ansiedade, deixei a menina brincar pelos corredores do shopping, e ela fez o que faz de melhor, sentou-se no chão, ali no meio daquela gente toda, tirou um de seus livros da minha bolsa e pôs-se a ler, para dar uma fugidinha daquele lugar tão artificial. Talvez não houvesse tempo hábil entre uma passada da fila e a próxima para nos jogarmos na toca do coelho, mas para um crônica rápida sempre há tempo. E assim, a menina optou por ser menos Alice e mais Adriana naquele momento.

E foi assim, que Sofia despertou em mim. Foi na página setenta e cinco, que eu li o título, “A Mocinha”. E a menina me olhou toda animada, se reconhecendo nas páginas. E empurrei Sofia para dentro sob o argumento de que aquelas páginas não eram dela, e eu ainda estava no meio do shopping movimentado, imersa em realidade, por mais que a menina solta já estivesse sentada no chão, de “perninhas de índio”, como uma criança perdida na sua vida adulta.

E foi ao ler as páginas da mocinha que a menina me disse que se a mocinha podia ser, ela também podia. Olha como a mocinha é como você, a menina me disse. E isso eu não podia contestar. O problema foi a Sofia. Como alguém já experiente em sair das páginas de um livro e migrar para a realidade, ela se inflou toda com o reconhecimento da menina, que se adrianava nas palavras da mocinha. Respirei fundo para acalmar aquela mulherada que se apoderava da situação, e retomar o controle da realidade, já que eu era a única que dominava a realidade ali.

Foi quando olhei para frente, guardando o livro da menina, a história da mocinha já finda, e peguei o meu livro para fazer o que tinha ido fazer ali, tietar. Mas eis que nesse momento, Sofia já tinha saído das páginas, e se apoderou de mim com a força da Alice. E vi na minha frente um outro ser que também é vários. Vi Pedro, vi Antônio, vi Gabriel, e vi também o Chapeleiro Maluco. Já estava muito longe, toca adentrada sem perceber, e discorria sobre as maravilhas desse país imaginário tão real. Num borrão digno da ficção, até agora não sei se estou cheia de reminiscência sobre o meu passado, meu presente ou meu futuro. Não sei se a menina, então Alice, feliz com o encontro com o Chapeleiro se deixou levar pelas maravilhas. Não sei se Sofia saiu das páginas para a vida real e me empurrou para preencher seu vazio dentro do livro.

Talvez tenha virado palavras, para que elas pudessem ganhar vida. A sensação é a de ressaca. Ressaca forte como a do mar. Que me balança e enche de náuseas. E nesse balanço percebo que meu mar e feito de palavras, polvilhadas de poesia. E que minhas reminiscências se misturaram de forma inseparável com as aventuras da menina. E que somos uma. Sempre fomos uma. Hoje, Eu me Chamo Menina. Eu me Chamo Alice. Eu me Chamo Adriana. Eu me Chamo Sofia. Eu me Chamo JuReMa.

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Sofia

O ano era 2014, o dia era o exato primeiro de Janeiro. A menina se sentia como um pássaro na gaiola, dentro de casa desde o ano anterior. Eram quatro da tarde. A menina olhou para sua mesa. Havia um livro, novo. Ela havia comprado a livro a algumas semanas, mas não abriu. Mas aquele era um ano novo, que pedia novos começos. Ela pegou o livro e saiu rápido de casa, com a roupa do corpo, e dirigiu sem rumo, porém com pressa. Como o coelho, que nem sempre sabe para onde vai, mas está sempre atrasado. Ela desceu na frente do portão do parque. Visualizou em flashes rápidos primeiro os tijolos do calçamento e logo depois a terra, passando sob seus pés ágeis. Parou de súbito e viu a pequena lagoa, sentou-se no banco. À seu lado apenas o livro novo: Vida Querida. Riu de sua própria escolha. Sim, a vida deveria ser querida. E nada como um novo ano para começar a amar aquela sua vida de novo. Ela sabia que nada era por acaso. Embora às vezes não acreditasse em tudo, pois tudo parecia demais para ela.

Respirou fundo e se acalmou. A pressa passou. Sentiu o vento no rosto, ouviu sua música nas folhas das árvores sobre sua cabeça. Ouviu os patos no laguinho. Voltou ao presente. E se perguntou, porque precisava tanto das árvores, do lago e dos pássaros para se sentir bem, se sentir livre. E então, numa inspiração, a menina foi do futuro para o presente, e numa expiração do presente para o passado. E logo ela não estava com sua vida querida no parque, mas sim com uma outra vida, que também era sua e muito mais querida, ela estava no jardim de seu castelo. Claro, ela cresceu num enorme jardim. Como não se acalmar em meio às árvores? Ela respirou e lembrou.

A pequena Alice corria pela grama, ouvindo o incrível e cotidiano dueto de sua mãe com os pássaros no jardim. Estavam afastadas do castelo, quase na beira do lago. Não aquela pequena lagoa do parque, mas o grande lago da cidade, que também era margeado por seu antigo e querido jardim. Ela olhou uma árvore e decidiu tentar subir nos seus galhos. Mas naquele momento, a menina era uma Alice muito pequena, e ela olhava a árvore como quem olha uma montanha, e não subia de fato, mas se via subindo como em um sonho. Absolem estava lá também, inebriado pelo dueto mulher-pássaros, e notou os esforços precários de Alice. E fez o que é seu papel de Absolem, se virou para Alice e lhe perguntou porque ela não subia na árvore. Ela disse que estava tentando, e ele retrucou perguntando o que a impedia. Desafiada, Alice subiu. E não digo subiu somente naqueles galhos que namorava alguns minutos antes, mas subiu até o topo da copa, até os galhos mais finos, e se sentiu como quem conquista o Monte Evereste.

Depois daquele dia a vida da pequena Alice nunca mais foi a mesma, pois naquele dia ela fez uma amizade muito especial, como nenhuma outra que ela teve até então, naquele dia, a menina ficou amiga de uma árvore. E todos os dias, depois da escola e dos deveres, a menina corria pela grama, descalça, e escalava seu novíssimo e muito próprio castelo, que era aquela árvore. Com o passar dos dias, os pássaros já não mais se assustavam, e continuavam onde estavam, entre as folhas, conforme Alice se aninhava com eles, e assim suas tardes eram embaladas pelo suave balanço dos galhos ao vento. A menina tinha um companheiro, seu irmão canino, muito amado pela mãe de voz de mel, um belíssimo labrador branco amarelado, que era companheiro infalível dela e da mãe. Todas as vezes que a menina saia em direção a sua árvore ele ia atrás, e por quanto tempo ela ficasse aninhada em sua copa, ele estaria deitado em sua sombra, aguardando a hora de retornar ao castelo. Um verdadeiro e fiel escudeiro.

No castelo havia seis pés de manga, de três tipos diferentes. Desde que a menina se dava por gente, apenas cinco presenteavam seus habitantes com mangas. O sexto era sua árvore. Um dia, Alice estava entre os galhos e viu as mangas se formando. Não achou nada de estranho, e por isso não comentou com ninguém. Algum tempo depois ela adentrou o castelo com uma manga na mão e outra entre os lábio, já pela metade. A rainha estava presente e pediu a neta que lhe desse a manga da mão. Sentaram-se na cozinha e lancharam aquelas mangas ao sol da tarde. Na segunda mordida a rainha olhou fixamente para Alice e perguntou: “Essa manga é da sua árvore?”, já sabendo a resposta. A menina respondeu que sim, sem entender, mas via nos olhos da avó um sorriso raro. A rainha então esclareceu que aquela era uma manga-espada, a mais doce, mais tenra e sem fiapos, de todas as mangas que ela havia plantado ali muitos e muitos anos antes. E concluiu: “Só que nunca havia comido uma manga daquela árvore antes, ela nunca deu.” E sorriu. A menina entendeu, e agradeceu. Não à avó, mas à vida, querida.

Com o passar dos anos aquela amizade entre menina e árvore só crescia. E logo tornou-se seu local de leitura preferido. Escondia-se entre as folhas e lia livros inteiros, encarapitada em meio aos galhos. Sempre com seu fiel escudeiro aos pés. Não seus pés, mas aos pés da árvore. E sua saga literária começou. E a menina, já não tão menina, olhava a Vida Querida nas mãos, no parque, em 2014, e pensava, será que sou eu que reparo demais? Vejo coincidências onde não existem? Ou minha vida é assim mesmo? Isso porque a menina leu Harry Potter quando tinha onze anos, e, literalmente, cresceu com aqueles personagens, ano a ano. Claro, por questões de praticidade a autora demorou mais de sete anos para escrever os sete livros e a menina já contava vinte e um verões quando seus amigos literários chegaram aos dezessete, mas foram contemporâneos no melhor uso da palavra. E quando lia um livro triste, chovia, e quando lia um alegre, fazia sol, e quando lia uma poesia os pássaros cantavam.

Aos quinze ela ganhou da amiga O Mundo de Sofia. E sim, a menina ganhou o mundo. Pegou aquele livro grosso e correu para sua árvore, acompanhada de seu escudeiro. Abriu as páginas e leu no primeiro capítulo que Sofia era uma menina que recebia pelo correio lições de filosofia, que ela lia entre as folhas de uma sebe no jardim, acompanhada de seu labrador branco, e que suas lições começaram a chegar no ano em que completaria quinze anos. A menina, que já tinha lido Alice entre os galhos da árvore, fechou o livro. Lançou um olhar cheio de suspeitas para seu fiel escudeiro, e dia após dia, tornou-se também Sofia. O autor entrou rapidamente para sua lista de favoritíssimos, e a menina continuou a ver o que parecia serem os vários mundos dentro do mundo. E nunca soube se ela se deixava levar pela imaginação mais do que o normal, se lia demais, ou se sua mente é que expandia com cada um daqueles livros e suas coincidências.

Um velho. A menina teve sua visão da lagoa no parque, em 2014, subitamente bloqueada por um velho, que saiu abruptamente da trilha e parou em sua frente. Só então reparou que havia um garoto sentado na outra extremidade do banco. O velho queria desejar um ano bom, que os jovens fizessem o bem! A menina agradeceu educadamente, ainda um pouco assustada pelo acontecimento súbito. O garoto então disse: “Essas coisas aleatórias acontecem muito com você, né!”, não era uma pergunta, era uma afirmação. A menina não conhecia aquele garoto. Ela assentiu, conversou um pouco e depois foi embora do parque, pois o anoitecer já rondava. E ao ir embora pensou, sim vida querida, esse ano, pelo visto será cheio, e as coisas aleatórias estão cada vez mais óbvias e visíveis.

E embora o ano ainda esteja em seu primeiro trimestre, Alice já esbarrou no coelho, com pressa, e até mesmo sem pressa, em outros recantos, ou miolos, da cidade. E cada nova música que a menina ouve no início ou fim de cada dia, a cada canto de pássaro, a cada página lida de cada livro novo, cada vez mais a menina vê as palavras do seu script pessoal no ar da vida, querida. E as realidades se misturam. E só agora, mais de dez anos depois, Alice percebe que sim, a Sofia saiu das páginas de um livro, e virou vida. E assim, enquanto a menina, agora Sofia, sai do livro para a vida, a vida torna-se livro, nas mãos da Alice Sofia.

Biscoitos, óculos e vestidos

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A menina enxergava o mundo com novos olhos. O que teria lhe acontecido dessa vez? Uma nova revolução interna? A percepção da vida como ela é? Novas pessoas? Novas paisagens? Novas atividades? Não, óculos. Era o primeiro dia da menina usando óculos. E ela não usava óculos antes? Veja bem, havia alguns anos já que a menina sentia sobre seus ombros um peso maior que o de seus anos. Ao estudar e trabalhar ao mesmo tempo, desde os dezoito anos, sem falar nos cuidados dispendidos com a IMG_0064família, aos vinte e um já precisava de óculos de leitura. A diferença era que antes ninguém nunca tinha visto a menina com suas lentes sobressalentes. Apesar de ler muito, e todos os dias, esses momentos eram reservados para sua solidão, luz artificial, madrugada afora.

E agora? A menina suspirou e lembrou-se mais uma vez da médica carimbando a receita e falando: “Não é desse tão famoso e infame óculos de leitura que você precisa, você tem astigmatismo. E o que você tem sentido e confundido com cansaço é só meio grauzinho em cada olho. Nem precisa fazer esses óculos, mas vou te dar a receita. Se quiser testar, faz.” E ao suspirar ela pensava: “Como assim fazer se eu quiser? A gente não vai ao médico para receber uma instrução?” Colocou a receita na carteira e procurou não pensar mais naquilo.

Sentiu o cheiro dos biscoitos. Estariam prontos? Deixou um pouquinho o computador e foi espetá-los com um garfo, ato que a menina sempre achou tão violento, embora soubesse se tratar de método eficiente para checar o ponto de bolos e biscoitos. Ainda moles. Teria errado o ponto? Era a primeira vez que a menina fazia aquela receita e estava um tanto quanto insegura. O bom é que não havia ninguém para provar os biscoitos além dela mesma. Isso tirava qualquer expectativa ou possibilidade de decepção. Por outro lado, não havia ninguém com quem compartilhar os biscoitos. A menina ponderou essas duas situações e chegou à conclusão de que ela mesma era sua mais rígida crítica. Resolveria sua auto avaliação quanto aos biscoitos uma vez que estivessem prontos.

O celular vibrou. Ela viu na tela os desenhos que antecediam o texto da mensagem e reconheceu um grupo de amigas. Parou de escrever um pouco. Sim, já disse que a menina era muito Sofia nesse dia? Estava em tempo real se transformando em palavras. A contradição desse fato é que a Sofia vai de palavras à real. Mas antes de ser Sofia, a menina era Alice. E no mundo de Alice nada é aquilo que parece e tudo é o que não deveria ser. Logo a Sofia da Alice era real e virava palavras. E a mensagem? Pequenas bobagens do dia a dia. Um comentário sobre um filme mencionado na véspera.

O som captou os ouvidos da menina. Estava ouvindo uma banda já conhecida, porém tinha baixado algumas outras músicas. Nada novo, muito pelo contrário, mas qualquer som além do mais habitual se fazia perceptível como uma nova realidade para a menina. Era uma sensação muito parecida com a de ver o mundo com novas lentes. Novas lentes, ela sorriu e testou o peso de suas novas lentes apoiadas no nariz e atrás das orelhas. Via o mundo através de novas lentes. E ainda assim ele parecia exatamente o mesmo. A versão em HD do mesmo canal. High definition, o foco melhorado. A Alice na menina lhe soprou nos ouvidos, ou melhor, de dentro dos ouvidos: “Para vermos o mundo de outra forma, ou para vermos outros mundos não precisamos ver através de lentes e sim através do espelho”.

Isso era uma verdade incontestável. Era através do espelho, olhos em seus próprios olhos, olhos nos olhos de Alice, nos olhos de Sofia, que a menina via o mundo de outra forma. Seus verdadeiros óculos eram os olhos da Alice, que a faziam ver em seu mundo cotidiano o País das Maravilhas, Oz, e as páginas de sua própria história, só esperando para serem codificadas em palavras.

O cheiro dos biscoitos invadiu novamente suas narinas. Mais forte dessa vez. Teriam queimado? Como era difícil às vezes soltar os dedos que batiam no teclado com leveza, porém colados às teclas. Outra música nova. Isso a ajudou a tirar os olhos da tela, e, um a um, desgrudar os dedos das teclas e usá-los para segurar o garfo e a luva de cozinha. Lá ia Alice, espetar seus biscoitos. Ficou se perguntando o que Absolem diria daquele ato. Espetar biscoitos. O que os biscoitos diriam se pudessem? Ela já não se espantava com essa possibilidade. Talvez não compartilhasse os biscoitos com alguém, mas ao invés, na melhor forma Alice de ser, compartilhasse suas ideias com os biscoitos.

A caminho, entre o forno e a cadeira do computador, vislumbrou os vestidos sobre a cama. Três vestidos bonitos, femininos, cheios de estampas. Em mais um momento surreal havia experimentado aqueles vestidos por sobre suas roupas, no meio da rua, mais cedo. Uma amiga estava vendendo-os. Pensando bem, o meio da rua era o meio da rua, mas também não era. Já que a menina Alice vivia em seu perfeito ambiente, uma terra onde nada é o que parece e tudo é o que não deveria ser. A menina vivia numa terra onde o céu era o mar. E onde o meio da rua era um lugar reservado, e os lugares reservados eram públicos.

Pensou novamente nos vestidos sobre a cama. Precisava prová-los novamente, de forma adequada, e responder a amiga se os compraria ou não. Estava em casa há horas já. Porque não tinha feito isso ainda? Tudo bem, havia os afazeres domésticos, cozinhar, lavar, arrumar, guardar, que lhe tiravam parte do pouco tempo livre. Mas era mais do que isso, vinha dessa inércia externa, que correspondia exatamente a crescente inquietude interna. Quando essa lhe subia à garganta, a menina olhava ao redor, via sua pequena casa tão perfeitinha. E mais uma vez constatava que do lado de fora da boca só havia solidão. Se alongava então, estalava o pescoço, e ligava o computador. Seus olhos miravam a tela como quem vê, ou revê, seu verdadeiro amigo. E os dedos batiam as teclas com leveza, porém tão rápidos que era necessário reler o que foi dito várias vezes depois.

Ajeitou mais uma vez os óculos que lhe pesavam sobre as orelhas, sentiu mais uma vez o cheiro dos biscoitos, e nas idas e vindas entre forno e tela, olhou longamente para os vestidos sobre a cama. Sempre a lembrando que haviam tarefas infinitas. Que sempre haveria algo novo a ser feito. Uma outra viagem, uma nova experiência. Outras pessoas, outros cheiros, outras paragens. Isso era reconfortante, embora não o suficiente para expulsar aquele pensamento inquietante a respeito da vida. Era isso então? Como os ovos de Clarice? Trabalhar, preparar, corrigir, arrumar, cozinhar, lavar, guardar. Adicionar novos acessórios que só serviam para lhe assegurar que os anos passavam, e que a lembrariam disso em todos os momentos.

Os biscoitos! Que esforço tremendo para soltar os dedos das teclas e espetar biscoitos. Por outro lado, enquanto não grudava os dedos nas teclas nada mais acontecia. Novas músicas, novas roupas, novos acessórios, novas receitas. Novas pessoas, novas paragens. A vida era assim, e isso não era o bastante. Mas talvez, só talvez, os dedos nas teclas fossem. Sua verdadeira janela para a alma. Um processo digno de Sofia e Alice. Para aqueles que pareciam querer atravessar o espelho, ver o mundo por novas lentes já era o suficiente para encher a alma. Talvez e só talvez o que a menina precisasse não era encher ainda mais sua alma, e sim dividi-la. Dividi-la em várias pequenas palavras, e soltá-las ao vento. Abrindo dessa forma uma janela para sua própria alma. Talvez a encontrassem através daquele espelho que levaria somente a ela mesma.

Os biscoitos estavam prontos. Com cara boa. Talvez estivessem gostosos. O peso dos óculos continuava ali, como o peso das perdas da vida. Nada que a impedisse de continuar, apenas, um lembrete constante de que os anos passam, de que a vida passa, e que entre biscoitos e vestidos, talvez haja algo mais, e talvez não. Talvez seja só a vida. A menina releu suas últimas e linhas e pensou, que talvez, se a vida for isso, não seja nada ruim. Biscoitos, vestidos, acessórios que contam o tempo, e dedos que contam histórias, que falam mais do que sua boca. Toda vez que suas palavras ditas ao vento ricocheteiam na solidão, seus dedos encontram na vastidão das palavras o consolo de muitos olhos anônimos. Que olharão, talvez, através de suas palavras, e verão, talvez, sua alma.