Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

Entre Antônios e Samueis

[*Texto antigo, de 23/02/14, de dois anos atrás, encontrado em caderneta pessoal de anotações, rascunhos e devaneios, publicado pela primeira vez hoje, 27/02/16]

“Às vezes me pergunto se algum dia deixarei de me sentir um titã, com duas luas apoiadas em meus ombros, iluminando os destroços da minha última guerra.

Se algum dia o sutil, o suave, súbito, ocupará o lugar do denso, tenso, intenso do meu pensamento?

Entre Antônio e o Skank, vivo os dois lados da minha mesma moeda.”

[ps: dois anos depois, digo que sou sim muito mais sutil, suave e súbita, de 2014 para 2016 minha vida mudou muito, mas eu mudei muito mais e aprendi que as luas não pesam nada quando somos fortes o suficiente para carrega-las nos ombros, e em vez de sentir seu peso, admirar seu reflexo de luz.]

29

Essa semana estou completando 29 anos. Vinte e nove primaveras, já que sou de outubro. Mas não vou escrever sobre o que significa tornar-me uma mulher de vinte e nove anos. E não vou porque não sei. Não faço a menor ideia. Primeiro porque acho que cada mulher chega a esse momento de um jeito. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens, para não dizer sua sorte e seu azar, ou suas escolhas e seus destinos. O que é fazer vinte e nove para uma mulher que cresceu na pobreza e chega a idade plena adulta com uma conquista de um emprego? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que sempre teve tudo e nunca lutou por nada e está agora numa bela casa? O que é fazer vinte nove anos para uma síria recém-chegada ao Brasil, refugiada de guerra que celebra simplesmente vinte e nove anos de sobrevivência? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que está casada, talvez já com um filho ou dois? O que é fazer vinte e nove anos e ser uma mulher solteira, que vive feliz seus dias em paz?

Eu não sei. Eu sou algumas dessas às vezes. Tenho meus anseios, meus receios, minhas bênçãos, minha guerra e minha paz. Enquanto escrevo, escuto os gritos animados que ecoam pelas janelas. Nos últimos nove meses tenho sido moradora de uma zona de “baladas”, na cidade grande e meus fins de semana possuem noites de muitos gritos, música, garrafas quebradas, brigas na madrugada, cantorias sem fim, e tudo isso de debaixo das minhas cobertas. O barulho não me incomoda. Meu sono é de pedra. Mas às vezes fecho os olhos e lembro dos meus grilos, da grama molhada de orvalho, dos latidos e uivos dos cachorros, e até um mugido ocasional ao fundo. Minha vida em Brasília foi, durante muitos anos, em casas afastadas.

Hoje o que eu mais gostaria, virando esses vinte e nove anos seria sentar na varanda da casa onde morei com minha mãe em seus últimos anos. Gostaria de sair do trabalho, da aula, no início da noite e ir até lá, mesmo que já não morasse lá, pois mesmo que ela estivesse viva, já não imagino que fossemos dividir a mesma casa ainda. Mas iria até lá, pelo menos uma vez por semana à noite, só para tirar os sapatos e pisar na grama molhada, fazer uma xícara de chá, abraça-la forte, e convidá-la para sentar na varanda. Ouvir os insetos, me incomodar com os pernilongos e as mariposas na luz. Suar no calor de Brasília. Secar a testa com o verso da mão, cruzar as penas em cima da poltrona, mesmo estando de vestido, olhar para ela e admira-la. Gostaria de dizer: “Mãe, hoje eu te entendo tanto. Te entendo cada vez mais”, e gostaria de pedir desculpas pelas minhas arrogâncias da adolescência e do início de vida adulta.

Eu sei que precisei negá-la, precisei contesta-la, como acho que todos os filhos precisam, para crescer, criar suas próprias opiniões e se desenvolver. Não faria nada diferente. Não quero mudar o passado. Mas gostaria de dizer que hoje ela faz mais sentido para mim. Não era perfeita, e não quero nem pretendo endeusa-la num culto pós mortem maluco. Mas hoje sinto falta da relação mãe e filha adulta. Sempre fomos muito amigas. Gostaria de poder falar para ela que agora a compreendo melhor. Queria muito ir até lá, e sem sapatos, de pernas cruzadas, ouvir suas histórias tão gostosas, ouvir suas entrevistas ainda sem edição, seus discos, conhecer um novo artista em primeira mão.

Ela acenderia um cigarro e aquilo me incomodaria muito como sempre. Mas dessa vez eu não iria brigar. Eu agora entendo. Hoje não sinto mais aquela raiva ultrajada. Hoje eu gostaria de pegá-la pela mão, e leva-la para minha aula de Yôga. Gostaria de viajar com ela, e lhe mostrar o mundo com meus olhos. Hoje eu faria um belo jantar vegetariano para ela, na esperança de que o modo alimentar que eu adotei fosse fascina-la e auxiliá-la com o problema crônico de baixo peso, e, na minha opinião, uma anorexia não diagnosticada.

E o mais importante, eu não faria nada disso para salvá-la, e nem esperaria que ela fizesse Yôga e nem que virasse vegetariana. Ela adulta, seguiria fazendo o que bem entende. Eu não ficaria com raiva, entenderia, como hoje entendo uma amiga. Eu faria tudo isso só pelo prazer de compartilhar o meu eu adulto com ela. Gostaria de mostrar para ela minhas escolhas, minhas experiências. A verdade é que com o passar dos anos eu sinto menos falta do colo de mãe e muito mais falta da minha melhor amiga.

Hoje, aos vinte e nove, órfã, mestranda, escritora e acadêmica wanna-be, louca pelo mundo, viajante, leitora ávida, eu sei que seria uma amiga ainda melhor na convivência com ela. A verdade é que sinto muita falta das minhas outras amigas e amigos de Brasília. Mas ao mesmo tempo me impressiono com tudo que São Paulo me deu nesses poucos meses. Tenho aqui já uma vida tão rica quanto a que sempre tive em casa. A verdade é que desde que perdi a casa dos meus avós, muitos anos antes de deixar Brasília, já não me sentia verdadeiramente em casa. Desci então que o mundo seria minha casa. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Fiz minha casa no meu coração, como diz o Skank, e tem funcionado muito bem.

Fui convidar alguns amigos para um abraço no dia desse meu ano novo, e já não sei como acomodar a todos na minha casinha. Mas estão todos já no coração. Amigos novos e antigos, familiares longe ou perto. Eu não faço ideia de como seja ter vinte e nove anos. Mas nunca me senti tão segura, tão realizada. Nesse momento eu não penso em ter filhos, não penso em casamentos formais, mas o porteiro diz para o meu namorado: “O pacote da sua esposa chegou! ”, quando recebo algo pelo correio. Não posso corrigi-lo. Tenho vinte e nove anos e moro com alguém em um relacionamento sério, monogâmico e, mais importante, feliz.

Semana passada me vi envolvida em tantos assuntos novos, registrar na Biblioteca Nacional um trabalho coletivo autoral, auxiliar um refugiado em meio ao meu trabalho voluntário na ONG, acompanhar algumas palestras internacionais e tentar aprender a publicar em periódicos internacionais de relevância acadêmica, ouvir as impressões do ministro de economia uruguaio sobre os novos rumos da América Latina, recebi muitos e muitos ensaios para corrigir. Não as provas de inglês de sempre, mas ensaios acadêmicos de graduação, que corrigirei no meu estágio como mestranda. Além disso fiz torta de maçã, do zero.

É, olho meus vinte e nove anos e os vejo como inegáveis. E como são maravilhosos. Nunca pensei que já ia ter vivido tanta coisa, e ter tanta história para contar. Mas aí eu olho para meus dedos, que batem freneticamente no teclado e vejo que as juntas dos dedos já não são lisinhas, os nós dos dedos já carregam suas marcas, e deixam minhas mãos tão incrivelmente parecidas com as mãos da minha mãe. E lembro de como eu gostaria de sentar com ela na varanda para um chá e contar tudo isso, só pelo prazer de sua companhia. Depois eu voltaria para casa, que podia até ser essa aqui em São Paulo, com a vida corrida e cheia de surpresas gostosas que tenho vivido, mas se eu tivesse um momento de poço dos desejos seria esse chá.

Os barulhos na rua estão cessando. Afinal, já é domingo de madrugada, e uma hora todos vão dormir. Amanhã levantarei cedo, tenho um artigo para escrever e uma faxina para fazer. A semana passará bem depressa, e na sexta-feira os vinte e nove chegarão. Os amigos visitarão, e a vida continuará. Mas quem sabe hoje à noite eu não sonho que estou naquela varanda, contando tudo isso para ela? Em sonho já está bom. Uma vista breve, sabe, só para ela saber como minha vida vai. Só para eu ganhar um beijo e um abraço. Só para eu me sentir um pouquinho filha e criança, mesmo com 29.

Panetone e outras histórias

O panetone era chique, coberto de glacê e gotas de chocolate preto e branco. Massa amanteigada, padaria francesa. As palavras ecoavam na cabeça: “Leva para casa e come com sua família”, e enquanto isso eu ia tirando ele da caixa no trabalho mesmo, cortando e oferecendo aos colegas. Afinal, aquela era, também, minha família, pelo menos nos últimos três anos.

Existem várias formas de alguém passar por esse sentimento. O de estar só. Não digo o da solidão. Nunca fui solitária. É o estar só cotidianamente mesmo. Algumas pessoas já nasceram em famílias pequenas e atribuladas por tarefas, o que sempre as tornou sós. Eu vim de uma família enorme. E ao mesmo tempo fui filha única. Tenho dois irmãos e nunca dividi casa com eles. Ao mesmo tempo, dividia meu castelo encantado cerca de três dos sete dias da semana com outros onze primos reais. A família grande nunca deixou espaço para o estar sozinha dessa forma.

Passei inúmeras manhãs de sol e tardes de chuva só em casa, conversando com passarinhos nas árvores, esperando piratas atracarem no mini píer do fim do jardim, lendo incontáveis livros, jogando jogos de dois mesmo sendo só uma. Mas nunca estava só, não no sentido prático. Sempre tinha comida e gente cozinhando, e alguém para fazer um barulho, por uma música, ver uma TV ao fundo. Um cachorro para latir, vários passarinhos para acompanhar o som do vento.

Um dia isso muda. Às vezes, simplesmente porque as pessoas saem de casa e moram sozinhas. Às vezes porque perdem os pais. Às vezes porque fazem uma viagem, um curso no exterior, um intercâmbio, mudam de cidade, ou qualquer outro motivo que às separe da rotina na qual cresceram. Eu vivenciei todos esses motivos. Aprendi com alguma dificuldade, visto que vim daquele background de doze primos em casa todos os fins de semana, a fazer comida para um. A doar todos os presentes de páscoa, dia dos professores e Natal, quando são comida. Compartilha-los com a família do dia a dia, que são os colegas de trabalho.

Isso também gera a sensação de dominação total do espaço. Hoje, meus vinte e nove metros quadrados não se comparam ao castelo de três andares, piscina e quintal tamanho semi fazenda, indo até a beira do lago no qual cresci. Mas eles são todos meus. Cada milímetro quadrado de espaço é decidido exclusivamente por mim. Decorado, limpo ou sujo, cheio ou vazio, bonito ou feio, meu, e só meu. E quando vim apoderar-me desses poucos metros, tão meus, pude fazer algo até então inédito, que era ser ditadora do meu reino de uma pessoa só. E por isso, curti cada segundo das decisões tomadas à um. Decorei, arrumei e perfumei ao meu gosto, e só meu.

Por que isso, Jurema? Não pergunto o porquê desse cuidado com seus metros, mas o porquê de contar. Bem, respondo-lhe, Jurema, porque ouço de todos os que aqui vem que sou muito organizada. Até a faxineira já me disse mais de uma vez que gosta muito de vir limpar minha kit uma vez na semana, pois ela é a mais organizada do prédio. Agradeço os elogios, aos quais fico um pouco cética, e também um pouco constrangida. Em especial porque não faço questão e nem esforço para que seja assim. É simplesmente o fato de poder cuidar do que é meu, e tornar meus dias mais floridos, mais apassarinhados, mais coloridos e iluminados.

Quando vim dominar meu império de menos de trinta metros quadrados, vim muito fragilizada, muito dolorida. Precisava provar para mim mesma, e consequentemente para o mundo, que era capaz de ser só. E nesse impulso não quis criar para mim um centro de refugiados de uma pessoa só, quis e criei um lar. Hoje sei, e tenho uma confiança enorme em mim mesma, que sou capaz de ter um lar, completo, bonito, arrumado, cheiroso, com comida, roupa lavada, só para mim. E essa certeza, essa confiança me cobriram de toda a proteção que a Jurema fragilizada precisava. Hoje sei que posso rodar o mundo, a pé ou de avião, sozinha ou acompanhada, que, meu lar, eu levo comigo.

Não são pelos vinte e nove metros decorados. É pela certeza de que minha alma vive num lugar florido, colorido, apassarinhado e feliz. Seja lá onde isso for. E que eu não estou solitária nunca, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Às vezes gosto muito de ficar sozinha. Nem conseguiria me abrir em palavras aqui, caso não tivesse esse tempo e esse espaço, onde só existimos eu, meus dedos frenéticos, o teclado do computador e minha caneca de chá. Sim, claro, o chá é o combustível imprescindível para as minhas manhãs de desabafos coletivos, onde despejo sentimentos convertidos em palavras ao vento.

E enquanto ia lendo um pouco do último livro que ganhei, pernas pro ar naquela sala dos professores, à espera de uma grande amiga para um almocinho de sábado, ia assistindo ao panetone de glacê e gotas de chocolate preto e branco ir sendo consumido, pedaço a pedaço por todos aqueles que de alguma forma são, foram, ou ainda serão minha família do dia a dia. Aquele foi meu último dia, pelo menos dessa fase, naquela sala, naquela família. E me dividi em forma de panetone. O mundo é definitivamente redondo e gira.

Em 2012 passei por talvez o pior ano da minha vida. Perdi minha voz de mel para outra dimensão, quebrei a cabeça, literalmente, e reordenei por motivos externos minha vida, pelo menos umas três vezes. Mudei de emprego, quando estava profundamente desiludida com minha capacidade de ser internacionalista. Mudei para a casa dos meus tios, como uma refugiada de sentimentos, que vai para onde a acolhem, saindo de onde já não há mais amor. Perdi o prazo de um edital, tive que adiar o sonho de um mestrado, com um mês de tylenol de seis em seis horas na cabeça quebrada. Vi pela última vez, no último dia desse ano cruel, aquele que foi meu príncipe no cavalo branco, por mais de oito anos.

Fosse eu outra, fosse o roteiro da minha vida menos incrível, fosse o mundo menos humanamente bondoso comigo, e 2013 eu seria uma pessoa extremamente depressiva e descrente da vida. Quiçá viva. Mas eu adormeci num avião e 2013 amanheceu na neve. Se algum dia eu já ganhei um presente que posso dizer que definitivamente me salvou a vida, foi aquele curso e aquela viagem. Por eles, e por tudo o mais, agradeço aos meus quatro cavaleiros reais, minha cavalaria muito mais eficiente que o exército de águias do Hobbit, muito mais invencível que qualquer herói de qualquer filme de realidade fantástica. Meus Reis sabem compor uma vida irreal como ninguém.

E no frio eu me encontrei, e de volta ao calor eu resolvi conquistar meu espaço não mais de refugiada dos sentimentos, mas de dona, plena, rainha deles. E fiz meu reino no alto de uma minúscula torre, onde a felicidade se faz presente todos os dias, só para mim. E fiz amigos novos, e encontrei os velhos várias vezes, e saí, e vi o mundo, viajei, tanto, que em 2014 tive que renovar. Fui obrigada a trocar de bicicleta, de bota de trilha, de mochila de viagem e de casaco impermeável. Mês após mês refiz meu kit de aventuras, porque os antigos já não aguentavam o meu novo ritmo.

E nesse processo eu aprendi a viver da minha própria renovação. Aprendi a conquistar o mundo com um passo depois do outro. Aprendi a compartilhar minhas aventuras com desconhecidos de passagem, e com velhos amigos, fosse através de uma foto, uma rede social, uma conversa de bar, uma saída, uma festa, uma viagem, uma trilha, um banho de piscina. E em 2014 colhi frutos inesperados. Se em 2013, eu semeei todo esse amor em mim mesma, em 2014, dei frutos. Doces e muito melhores do que eu jamais podia esperar. Meu presente de Natal eu venho ganhando dia após dia ao longo desse ano.

Amizades lindas e eternas, pessoas em quem confio profundamente, amigos para toda hora. Aprendizados incríveis, saltos na carreira, títulos novos adquiridos, certificados e diplomas. Muitas ferramentas novas. Muitos livros novos, muitos mundos novos. Países novos, carimbos novos no passaporte. Até a carteira de motorista tive que renovar. E lá se vai a comprovação de que já tenho dez anos de motorista. Com alguns quilos a menos, fui obrigada a renovar o guarda-roupa também. Com a certeza de qual carreira quero perseguir, essa renovação foi bem-vinda, e pude me desfazer de algumas fantasias que sei que não vou precisar usar. Não vou precisar me travestir de alguém que não sou, e conseguirei assim mesmo seguir com minha vida. Outras fantasias, ditas mais convencionais, eu adicionei ao guarda-roupa, feita a mão, diretamente do meu imaginário para a realidade, prima-irmã do blog, onde Sofio-me e Alice me torno.

O mestrado chegou, e um novo amor também. 2015 ainda não chegou, mas já se anunciou em ventos tão bons. Minha casa é onde está meu coração, já dizia Skank, já citei eu mesma tantas vezes aqui. E voo nas asas que criei para mim mesma, que tão lentamente abri, que tão simbolicamente desenhei. O panetone acabou antes que saísse pro almocinho. Minha família de dia a dia tecia comentários eventuais sobre a massa, a manteiga ou o açúcar. Saí sem me despedir. A despedida oficial foi na quinta-feira, alguns dias antes. Não quero o sabor amargo das lágrimas tristes, quero a visão limpa e clara das lagrimas felizes. E o doce do panetone em suas bocas. De 2014 tenho uma coisa a dizer: MUITO OBRIGADA!

Espera

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

 

 

Ao seu lado

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

 

 

A Menina

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

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Alice em Oz: Sofia

Hoje sou Sofia. A certeza de que tornei-me personagem bate à porta. Posso não ser uma personagem famosa, posso não ser uma personagem publicada. Mas tenho certeza de que Deus está bancando o escritor, como diria Clarice. Vejam bem, como já devem saber, sou uma adepta da literatura, e sempre li muito. E esses seres estranhos que dividem essa dita realidade com muitas outras, que vem principalmente de livros, mas também de gibis, jogos, músicas, e todos os demais lugares imaginários por onde passei enquanto crescia, e por onde passo sempre que posso, tendem a perceber a própria vida de uma forma um tanto quanto literária. Isso inclui uma dose de drama, uma dose de fantasia, uma dose de nostalgia, uma pitada de coragem e outra de sofrimento, um tempero de brilhantismo e outro de tédio. E nos faz conviver com personagens, tornando-nos a nós mesmos em um certo tipo de personagem.

Eis que eu sempre tive uma birra incrível com dramas e romances que consideravam o destino tão fatídico, tão categórico, que se impunha sobre as vontades das personagens. Também sempre fui crítica da ação padrão dos heróis, de sempre cair no plano maligno, estupidamente, em nome de ações de coragem, valentia e amor. A forma como o destino aprisionava as personagens de Austin ou das irmãs Bronte sempre me deixou indignada. E mesmo sabendo que a própria Austin abdicou do casamento e seguiu como escritora, contra os padrões da época, somente para não recair nas armadilhas do destino, suas personagens geralmente não tiveram o mesmo tratamento. Eu sempre falei aos quatro ventos que se estivesse vivendo em tempos antigos, eu seria a mais terrível das filhas, pois não usaria os espartilhos nem me casaria por arranjo. E muito menos deixaria de dizer o que penso.

Então, por mais que minha vida sempre tenha sido cabalística, e cheia de referências comparativas com minhas personagens preferidas, nunca me vi, realmente, como uma personagem. Mesmo tendo lido O Mundo de Sofia no ano que completaria quinze anos, sentada no alto da minha árvore no jardim, com meu labrador branco, Tobi, de fiel guarda aos meus pés. Mesmo tendo viajado com a escola para os Estados Unidos aos quinze, e lido Harry Potter e o Cálice de Fogo enquanto estava nos dormitórios da National American University e pedia ao Reed Abrahamson para me ensinar a ler os nomes das personagens, incluindo o da Hermione corretamente. Mesmo nessa viagem tendo vivido a experiência do ônibus quase virar na estrada e observar os cervos fugindo dos ursos e lobos, e de sermos salvos pelos índios Sioux, e ter voltado dessa viagem amiga de uma família de estudiosos que costumava fazer trilhas nas montanhas nos fins de semana, e que nos alertou sobre as dificuldades de convivências com os índios da região, e de ter ganhado lá um medalhão protetor de lobo e um coração de cristal, mesmo assim, nunca tinha me visto realmente como uma personagem.

Afinal, eu não cresci num armário, embora tenha brincado muito em uma adega que ficava embaixo da escada. Eu não achei Nárnia no fundo do armário, embora já tenha dormido entre roupas e casacos da minha avó no closet dela só porque chovia e ela nos trancava lá com medo dos temporais. Eu não cresci num castelo, só numa casa com sótão e porão, e portões de toras de madeira com dobradiças aparentes e jardim interno de samambaias onde meu avô controlava a chuva. Eu não aprendi a falar com os animais, embora minha mãe conversasse com os passarinhos e eles respondessem. Eu não cresci órfã, embora tenha vivido sem meu pai até os onze anos, conhecido ele em circunstâncias incrivelmente vitais no desenrolar do meu roteiro de vida.

Hoje, entretanto, sou Sofia. Hoje sou uma professora órfã, que vive num pequeno cômodo no oitavo andar, minha própria torre, entre muitos e muitos pássaros, reais e decorativos. Hoje eu vejo fios soltos sendo reincorporados na trama do meu tecido. Vejo esse tecido e percebo nele as marcas dos cortes bem cerzidos, tão visíveis quanto a cicatriz que hoje carrego na testa, ou seja, só para aqueles que estão perto o suficiente para ver. Sim, hoje em dia eu tenho uma cicatriz na testa. Só não é no centro, mas na têmpora esquerda.

Mas muito mais relevante é como eu percebo hoje as questões relativas a destino, escolhas e o quão eu posso decidir e o quanto Deus banca o escritor. Sempre acreditei no livre-arbítrio e continuo acreditando.  Ao mesmo tempo creio em destino. E não acho que seja contraditório. Temos que fazer por onde, e podemos decidir quais estradas pegar. Ao mesmo tempo existem coisas que aparecerão na nossa vida ou sumirão dela com tanta explicação quando o gato de Cheshire de Alice. Doroty chega a Oz num tornado, levada como uma pena, como diria John Mayer, e volta batendo os calcanhares de seus sapatinhos vermelhos três vezes. Lá ela procura algumas estradas. Sabemos qual ela tomou, mas e os tijolos vermelhos? Para onde vão? E o que teria acontecido caso suas escolhas fossem outras? Teria ela tido o mesmo resultado? E Alice? E se ela não tivesse seguido o coelho? E a Alice de Tim Burton, que duvida tanto de sua própria identidade? E se ela não tivesse lutado contra o jaguadarte?

Essa semana completo meus vinte e oito verões. Há dez verões atrás eu tinha minha vida tão resolvida. Era tão dona do meu nariz. Tinha tantas certezas. E aí meu tornado chegou. Caí em Oz, segui os tijolos amarelos, tive que pôr em prática todos os conhecimentos do meu querido Mágico para conseguir driblar as tragédias da vida, vencer as bruxas verdes, e com muito disfarce continuar livre e viva para segui o coelho, e cair no País das Maravilhas. Lá questionei minha verdadeira identidade várias vezes, e mais uma vez enfrentei minhas batalhas. Eu não preciso mais bater os calcanhares ou aporrinhar Absolem por uma resposta, pois já sei que voltar para casa não significa mais nada. Minha casa é onde estou. Seja lá onde isso for. E como for. Eu sou minha casa. Eu sou Alice, e já passei por Oz, pelo País das Maravilhas e por muitas outras terras fantásticas.

Hoje sou Sofia, e estou aprendendo que às vezes a vida traz novas lições quando menos espero. Hoje sou um pouquinho personagem de Austin ou Bronte, pois estou tendo o gostinho do que significa ter que esperar respostas do destino, acontecimentos da vida, para descobrir quais caminhos se abrirão e quais fecharão. Se é que algum se abrirá ou fechará. Continuo fazendo o que sei fazer de melhor, como diria Skank (vocês não acharam que escapariam, né?) eu abro a porta, eu grito, eu berro, eu enfrento, eu vou de charrete ou caminhão, eu vou a pé, mas eu vou! Para onde? Para onde a vida me levar! Qual a cor dos tijolos eu não sei. Também não sei onde eles vão dar. Mas hoje, eu Sofia, já não tenho as certezas dos dezoito. Eu recebo as incertezas dos vinte e oito de braços abertos. Sabendo que preciso continuar tomando decisões, e lutando minhas batalhas. Mas só. O que brotará no meu caminho, a vida dirá.

Hoje sou Sofia sem precisar ser personagem real ou imaginária. Hoje sou Sofia não porque eu mesma me transformo lentamente em palavras. Hoje sou Sofia porque aceitei que Deus banca o escritor. E enquanto esse Show de Truman continua, a única coisa que aprendi a controlar foi a trilha sonora! Boa musica a todos! Que os passarinhos tragam boas novas! Que a ansiedade por resultados, sejam o das eleições, o das provas, o das minhas ações, seja amenizada pela certeza de que sou Sofia, personagem, vivendo uma história, às vezes cômica, às vezes triste, às vezes romântica, e sempre de muita aventura. Ainda não sei para onde, mas sei que eu vou, e a felicidade não será clandestina!

E o violão

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

 

 

Licença Poética em Shuffle

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.
antonio shuffle