Sobre o Natal

Sentada na biblioteca magnífica de La Seu, vendo o sol entrar pela janela cilíndrica da ruína de uma igreja que esse edifício foi antes de ser a Biblioteca Sant Agustí, penso na distância. Muitos temos falado aqui sobre as viagens, a trilhas, as dicas, e nisso o Natal passou, o Ano Novo é amanhã e eu fico aqui, com minhas reminiscências, sem tempo de processá-las, sendo que elas nunca me abandonam. Nem quando estou enrolada em cobertas no sofá da sala, analisando a luminosidade que invade esse local ainda desconhecido que chamo de casa, e nem nas trilhas, enquanto as coxas doem, a água invade o pé, vindo da neve que entrou e vai derretendo com os passos e o fôlego falta nas lentas subidas em altitude.

Passei meu primeiro Natal longe do Brasil. Confesso que passar um natal no frio, vendo a neve e comendo cookies com leite foi realizar um dos sonhos de infância, e me sentir num filme ou seriado americano, daqueles que a gente tanto vê, imita com neve de isopor e algodão, e acaba passando a festa suando a maquiagem no vestido de alcinha na sala da vó ou da tia. Essa parte foi muito bonita. Mas nem de longe me tocou como eu esperava. O que reviveu dentro de mim foram sentimentos profundos, nem todos muito bonitos, e pensei muito se iria expô-los aqui ou não, mas decidi que preciso.

Natal pra mim sempre foi a festa da casa da Vó! Nunca me importou que faltasse a neve, porque tinha piscina! Nunca me importou que faltassem as frutas vermelhas do hemisfério norte, porque tínhamos nectarinas!  E mais importante de tudo, tinha a parte de pintar pinhas e cascas de árvore em spray dourado com minha vó, e arrumar uma mesa antropofagista e cheia de Tropicália, e de artesanatos manuais, que barateavam a festa pro bolso dos meus avós e ocupavam as crianças, nos envolvendo numa produção local de dias. Os embrulhos e laços eram por nossa conta. O dia de montar a árvore era um evento. O dia do presépio outro.

Esperávamos o dia que os primos podiam dormir em casa e fazer tudo junto. Nunca vou esquecer do céu incrível pintado em papel pardo, feito pela tia e artista plástica Monica, cheio de cores lindas, e iluminado pela instalação elétrica do vô André que garantia a luz da estrela-guia aos Reis magos, afinal, estávamos na casa dos Reis. Eu costumava ir para a sala a noite no mês de dezembro só pra admirar tudo no escuro antes de dormir. Às vezes minha mãe me achava lá. Me oferecia um pouco de sorvete e ficávamos abraçadas em frente às luzes de natal, no calor dos tópicos e do nosso amor.

Esse tempo acabou bem antes da neve chegar.

Com as internações, doenças e mortes, esse natal tropical, familiar, coletivo, onde cada um levava um prato e tudo era muito unido, foi se desfalecendo. Algumas pessoas na família foram assumindo as responsabilidades, e as coisas foram ganhando outras caras, outras cores. Alguns natais foram muito bonitos, mas se perdeu muito daquela coletividade, e dessa coisa simples, até tosca, caseira, remendada, feita com as mãos, que na verdade eu tanto amava!

Os natais ficaram mais profissionais. Os presentes já vinham embrulhados. Eram bons, de loja. Não eram os repasses loucos da minha vó, que ganhava presentes ao longo do ano e guardava pra dar pra outros depois. Nem as coisas que ela mesma fazia, como bolsas e casacos de tricô, gorros e luvas, ou os brinquedos caseiros feitos da oficina do vovô. Ou potes de doce. Eram coisas “de verdade”.

A decoração também vinha pronta. Comprada na loja, quiçá mais barata que artesanato caseiro. Não era mais a guirlanda feita à 6 mãos, por 3 gerações de mulheres, que entrelaçavam pedaços de cipreste do jardim, com fitas vermelhas e pinhas pintadas de dourado. Com bolinhas de isopor fazendo às vezes de neve. Nem as árvores malucas, criadas pelo nosso inventor de carteirinha, como uma que era um enorme cilindro feito de tela de galinheiro, recheada de galhos de cipreste podados da cerca de casa, com uma estrutura interna para a iluminação, e mil tipos de bolinhas (vidro, isopor, metal, plástico) que se acumularam ao longo de décadas numa caixa cheia de bolinhas de isopor. Só de bater o olho dava pra ver umas de vidro pintado em rosa e dourado e com listras com cara dos anos 60 e 70, e umas que mais pareciam bolhas de sabão azuis de plástico translúcido, recheadas de “neve” bolinhas de isopor e conectadas pro laços em tecido xadrez, com aquela cara de anos 2000.

A comida não era mais “cada um trás um prato” e sim uma bela encomenda profissional. E a bagunça da cozinha, as receitas de família, os custos e as contas que seu André fazia pra ver se ia dar, a porca do Cícero, que tanto nos assustava, mas que chegava todo ano. Isso tudo ficou pra trás. Ficou mais fácil. Mais adaptado pra vida moderna, onde as crianças cresceram e agora todos trabalhavam. Tinham dinheiro e não tinham tempo.

E aí piorou um tantão!

Respiro fundo pra não chorar em público enquanto escrevo, e ao olhar pro lado vejo algumas meninas de não mais de 12 anos que chegaram com seus casacos de gominho (tipo boneco da Michelin) cor-de-rosa, pra usar a biblioteca, todas tão acostumadas com essa maravilha pública daqui, fazendo trabalhos de férias escolares em grupo!

Mas vamos lá, que ainda falta um tanto de memória e outro de emoção.

Sem a vó, sem o vô, e depois sem minha mãe, fiquei sem meu natal de vez! Claro, minha família é enorme e nunca faltaram convites dos tios e tias para passar com eles. Mas todos pararam de se reunir da mesma forma. E eu me senti um apêndice. Foi ruim e doeu mais do que imaginam! Não foi culpa de ninguém e eu tinha 10 opções de casas pra ir, nenhuma era minha! Não com aquele sentimento. Eu tava lá e as pessoas me queriam lá, mas tinham o natal comigo e os arranjos próprios de cada núcleo familiar. E a preocupação de com quem eu ia ficar. Isso foi em minando por dentro.

E eu senti necessidade de me afastar. De criar meu natal. Em 2014, antes de ir pra São Paulo, convidei meus irmão pra fazermos uma ceia nossa. Meios irmão que somos, não passamos a infância juntos e nunca tínhamos passado o natal juntos, ou pelo menos não como programa principal, só em passadas rápidas entre outras casas. Meus irmãos estavam sem filhos no dia, cada qual tinha ido ficar com as famílias maiores e mais cheias de primos e de sentimento natalino. Fizemos uma ceia vegetariana em minha homenagem. Comemos horrores. Minha Monnita, amiga do coração, levou um chocotone de morrer de bom.

Não doeu tanto porque foi novo, e com isso menos perceptível a falta dos que não estavam ali. Mas ainda assim, não tinha o mesmo gosto de natal.

Em 2015 passei o Natal em São Paulo, com a família do meu então ainda só namorado, André. Foi um Natal em família, simples e bonito, com direito às tradições todas. Não tinha crianças. Os mais jovens estavam todos no celular o tempo quase todo. Aquele sentimento de comunhão da infância também me faltou. Me senti de novo um apêndice. Uma “estranha no ninho”. E vejam, não foi por falta de recepção calorosa. Mas existem tradições, que toda família tem, e que quem vem de fora, não pega, não entende, não faz parte da piada interna.

E aí temos 2016. Outra terra, Mundo Velho, neve e uma grande dose de solidão. Só eu e meu marido. O primeiro natal dele longe da família, o que também pesou um pouco pra ele. Não sabíamos bem o que fazer. Sendo ambos vegetarianos nem fazia sentido aquelas comidas tradicionais, além disso, só duas pessoas, ia sobrar pra vida inteira, mesmo que optássemos por algo sem carnes. Comemos muito bem. E uma comida especial, mas algo que fazemos com alguma frequência. Não tinha exatamente cara de ceia de natal.

Nada no dia indicava natal. Não tinha presente, árvore, excitação, crianças, ninguém esperando o Papai Noel, nenhuma visita que chegaria depois. Nada. E aí saímos de casa.

 E a cidade estava em festa! E as luzes de natal estavam por toda parte! E a catedral estava aberta. E tinha Minairons passeando por aí! E uma enorme fila cheia de famílias com crianças, que passavam pela praça dos Minairons, que catavam em volta da fogueira sobre o espiríto do natal, que tinha mais a ver com o inverno e as pinhas do que com o papai noel vermelho da coca-cola. E uma mesa gigante com chocolate-quente e pão doce, simples e gostoso, sendo distribuído. De graça. Presente da associação comercial e da prefeitura para a população. E todo ali na rua. Com ou sem família. Cheios de cachorros. Com luzes, com música, com comida. Depois entramos na catedral, e mesmo sem ser católicos aproveitamos para admirar a arquitetura e os ritos, aqui tão medievais, envolvendo inclusive espadas durante a Missa do Galo.

Fui pra casa aquecida, na alma. Apesar do frio nas bochechas. Sentamos e conversamos. Tomei leite com cookies. Fiquei no sofá. Bateu uma certa solidão? Sim. Mas pelo menos a falta dos que ali não estavam era clara e generalizada e não apenas aquela ausência profundamente ignorada dos anos anteriores. Não apenas a ausência da minha família, daqueles que já não estão entre nós, mas a ausência daquele natal, aquele dos artesanatos e das comidas e dos presentes inventados.

Era só a ausência dos vivos mesmo. E essa com whatsapp a gente remedeia. Fazem falta. Claro! Mas pra mim doeu menos. Pode ser que seja egoísmo? Talvez. Mas talvez eu precisa de natais assim pra conseguir voltar e sentir que há alegria e comunhão. Não é só a falta da família. É também a falta do sentimento de comunhão do natal. Não foi exatamente um natal feliz, mas foi um natal bonito. E eu vi comunhão de novo. Entre estranhos.

Não teve presente, mas vivemos o presente, e não o celular e a distância! Não teve ceia, mas teve couve-flor com queijo gouda, chocolate-quente e pão doce, e cookies e leite! Não teve fartura, mas teve coletividade! Dormimos cedo, nos escondendo do frio em baixo das cobertas. E meu coração aqueceu!

Feliz Natal e Bom Ano Novo! Que venha 2017, com suas descobertas.

 

Balzac

**Spoiler alert**

Geralmente faço referências difusas em meus reflexos, mas hoje receio citar a frase final de um livro, então, embora não seja novidade e nem capítulo da última série do momento, aviso, para aqueles que preferirem não ler o texto sem ter lido o livro.

Foi no ônibus. Embora seja final de setembro, em São Paulo ainda faz frio. Mas hoje fazia sol, apesar do vento cortante. Quem me lê com frequência sabe como aprendi a amar os poucos e raros dias frios porém ensolarados de SP. São meus novos dias preferidos. E acabo lendo muito no ônibus, melhor jeito que encontrei de lidar com as horas de trânsito dessa cidade. Minha combinação de fone de ouvido anti-ruído + músicas preferidas + livro me transporta para um mundo paralelo e me tira do caos e do stress dessa vida excessivamente urbana.

A trilha hoje era Travis. Estava lendo em português, e para não me distrair sempre inverto o idioma da música com o da leitura, ou ouço instrumentais enquanto leio. O cheiro que me invadia era o dos meus próprios sapatos, botas de chuva da Melissa, pois apesar da tarde ensolarada o dia amanheceu fechado. O sol na nuca, refletido do livro, a música e o cheiro de plástico foram meus companheiros das últimas páginas dessa leitura: A Mulher de Trinta Anos.

Uma gestação. Nove meses. O livro foi adquirido em dezembro de 2015, quando fui a Brasília no fim do ano, para as logo antes das festas. Agora em vinte e poucos de setembro, com os nove meses completos, eis que minha saga chegou ao fim, terminei a leitura. Não pense que demorei tudo isso para ler. Li em cerca de 5 ou 7 dias. O total que consegui em 9 meses dedicar para essa leitura tão pessoal. A vida não é mais a dos meus 13 anos, quando lia 30 livros em 9 meses por gosto. Aos quase 30, devo tempo à vida, enquanto mais um ano se passa.

Mais alguns dias e serei balzaquiana. Já que assim a vida é, e que já compartilhamos tantos verões, decidi lê-lo. O livro é um belo retrato de sua época, ilustrado por alguém muito à frente de seu tempo. Pensando no que era o papel da mulher no século XIX, ler a palavras de um homem que nos admirava e que escreveu uma personagem forte e sofrida, mas com empatia pelo seu sofrimento, é, na minha opinião, algo digno de nota.

De certa maneira me lembrou Chico Buarque, com sua capacidade incrível de ter eu líricos tão distintos e que expressam sentimentos coletivos tão bem. De certa maneira me lembrou Clarice Lispector, com suas personagens introspectivas, que vivem mil infernos enquanto compram ovos para a família. Pensando assim, a mulher do século XIX e a do XX mudaram a roupa e a roupagem, mas nem sempre o sentimento. Acho que a do século XXI está começando a mudar. Sou filha do século passado, da transição entre séculos, mas acho que as filhas desse século já estão mudando mais ainda.

Parei a 3 páginas do fim. Olhei a passagem, tive meu cheiro de Melissa brevemente suplantado pelo fedor do Rio Pinheiros enquanto o ônibus cruzava a marginal. O sol baixando. Uma pausa dramática? A vontade de prolongar os últimos momentos? Não. Apenas muitas reflexões. Eu sou daquelas que demora para entrar nos livros às vezes. Alguns me ganham na primeira página, outros só no terço final. Esse são os que gasto 4 meses para ler o primeiro capítulo, 1 mês para ler os capítulos todos até o meio e 3 dias para terminar. Balzac foi assim. Um pouco pior.

A literatura é definitivamente uma conversa. Nunca um livro é igual para duas pessoas diferentes, ou a mesma pessoa em duas épocas da vida, porque somo pessoas diferentes. E eu quis conversar com Balzac nessa virada para meus trinta anos, porque queria conversar com Balzac nos mesmos termos. Já fui Julie, já fui Juju. Talvez seja sra. d’Aiglemont, ou senhora Marra algum dia. Hoje conversamos de Jurema para Juliette. De Jurema para Hélene. De Jurema para Moina.

Em outro dia, um dia cinza, num outro ônibus da mesma linha, cheguei a sublinhar em caneta laranja as passagens mais significativas sobre a Juliette. Aquelas que estou segura são as mais conhecidas. Aquelas nas quais Balzac descreve e define a mulher de trinta anos. São passagens bonitas. Passagens que mostram uma Juliette com a qual a Jurema certamente conversa. Hoje, posso completar meus trinta verões segura de que compreendo Balzac. Certamente a mulher de trinta anos que sou partilha da força e da superação da inocência tal qual a balzaquiana:

“{…} porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abarcar todo o seu curso, tanto passado como futuro. As mulheres conhecem então todo o preço do amor, do qual desfrutam com o temor de perdê-lo: então sua alma ainda tem a beleza da juventude que as abandona, e sua paixão vai se fortalecendo sempre com um futuro que as apavora”.

Mais como a literatura é uma conversa única e pessoal, a parte que mais conversamos sobre, Balzac e eu, não foi sobre a mulher de trinta anos. Nisso concordamos, dado as diferenças de contexto histórico e sócio-cultural, e seguimos em frente. Paramos para filosofar na frase final. E aqui entra o grande spoiler, meus caros.

“- Perdi minha mãe!”

Foi aqui, na última frase do livro, que ele foi inteiramente resinificado, foi aqui, na última página, que nossa longa conversa começou. Foi aqui, onde a vida de Julie acabou, que a Jurema se viu. Não na Moina. A Moina é ainda a jovem, a mulher, talvez, de vinte anos. Eu provavelmente já fui um pouco Moina, e juntas perdemos nossas mães. Inclusive porque quando a perdi não era ainda a Jurema de trinta anos. A Jurema nasceu exatamente do luto. A Jurema conversa com Balzac depois que o livro acaba.

Claro que os trechos como “Suas dores secretas pairam sempre sobre sua alegria artificial como uma nuvem leve que esconde imperfeitamente o sol”, já estavam grifados em caneta laranja antes do fim, bem como “Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo da presença eloquente?”. Jurema e Balzac já estavam conversando sobre a tristeza e a felicidade bem antes do fim. E embora a Jurema tenha tido lá suas dores de amores, elas foram pequenas perto das dores da perda, da morte, da ausência e da saudade, então esse diálogo, desde o começo, tinha um quê de unilateral, só para ao final se descobrir compreendido.

Baixando o livro de novo e contemplando o já quase pôr-do-sol, pensei nas minhas mulheres. Eu sou filha de uma mulher de trinta anos. Nasci nesse período. Venho de alguém que já tinha suas dores e decepções. Crescemos juntas. Na verdade, passamos pela perda da mãe juntas três vezes, pois venho de uma família matriarcal, onde mães e filhas muito compartilham. A primeira morte que vivi foi a da minha bisa, Vó Santinha, aos doze, e vi os efeitos aterradores que se abateram sobre minha vó, senhora soberana de nossa casa e família. Foi a primeira vez que acompanhei um enterro, e que vivi um luto dentro de casa. Minha festa de 13 foi cancela, e virou festa surpresa na casa de amigas.

Aos 23 vivi o luto da minha avó, e ouvi da boca da minha mãe a frase final de Balzac. Foi um período intenso. Desde a morte do meu avô, vivemos as três em casa, já três adultas, a de 20, a de 50, e a de 80. Foi uma convivência muito intensa. Com todos os trinta anos que separavam cada uma de nós, uma da outra. Se eu sou filha de uma mulher de trinta anos, minha mãe também foi. E essa diferença nos fez amigas ao longo das gerações, embora impossibilitadas de entender as dores de cada uma.

Tenho desse período da nossa vida a três memórias muito doces e memórias muito amargas. As brigas foram privadas e doloridas. As acusações cruéis. As dores reveladas, foram aquelas que elas nunca tinham revelado para ninguém. E apesar dos nossos duplos trinta anos de diferença conversamos sobre homens, sobre sexo, sobre amor, sobre casamento, sobre aborto, sobre liberdade, como nunca antes. Sem filtros, sem amarras. Às vezes com muito ódio, às vezes com muita dor. Naquele período eu conheci mulheres. Eu vi a face que não era da mãe e muito menos da avó. Eu conheci dores para as quais ainda não estava preparada.

Olhei para cima para os olhos beberem as lágrimas que os olhos marejados ameaçavam derramar em pleno ônibus e pedi perdão àquelas mulheres fortes que me criaram. Eu, com a inocência e a intolerância dos meus vinte anos não soube respeitar, admirar e compreender suficientemente suas dores. Fui Moina. Fui até Helene. Espero que elas saibam. Sei que no fundo sabem, pois eu é que nunca tinha sido uma mulher de trinta, e ainda não sou de 50 ou 80, elas já tinham sido mulheres de 20 anos. E nos momentos mãe e avó, me amaram e me perdoaram. Mas guardo na alma os momentos mulher, em que apenas nos odiamos, ameaçamos, machucamos.

Hoje, se tenho algo com que conversar com Balzac é sobre essa dor. A dor da incompreensão entre as mulheres de distintas gerações. Queria tê-las hoje vivas para dizer que começo a compreender. Mas tudo que posso dizer para Balzac hoje, é que perdi minha mãe. Faço o compromisso de reler aos 50, para conversarmos de novo, sobre Bia, sobre Zilah, sobre a senhora d’Aiglemont. E quiçá aos 80, quando nem Balzac mais me compreenderá. A única certeza é que a perda me ensinou muito. Principalmente sobre essa incompreensão.

Não sei se conseguirei conversar com o devido respeito, admiração e dedicação com as mulheres de outras gerações de seus 30 a mais, mas certamente conseguirei conversar com as de 30 a menos, alunas, sobrinhas, amigas, e perceber que se elas não me compreendem, pelo menos não precisam me perder por isso. Assim, espero, Balzac. Ou que no momento inevitável da perda, tenham pelo menos seus 30 anos, e que comecem a compreender.

Dos elogios feitos à mulher de 30 anos nada tenho a agradecer, nem reconhecer. No máximo concordar. Coloco meu pé nos 30 com a certeza de me sentir plena e feliz, embora sinta a exata sensação da felicidade sendo o sol, e das minhas dores sendo as leves nuvens, que perpassam os olhos em breves momentos do dia, às vezes chovendo nas noites, calada. Não sofro mais do que devo e me considero uma mulher livre, independente e muito feliz. Mas uma mulher não chega aos 30 anos sem conhecer pelo menos uma dor, nisso, concordamos, Balzac e eu. O peso que cada uma decide dar a essas dores, contudo, varia. A Jurema sugere que a mulher de 30, embora conhecedora das dores, seja leve, e livre.

Bem vindos, trinta! ❤

Chá

Eu amo chá! ❤

cha + chaleira

Pouso a xícara e venho escrever esse parágrafo. Aqui minhas reminiscências são expostas por sua matéria-prima, seu combustível básico, o meu chá diário. Se tem algo que não dispenso é o chá. Então resolvi compartilhar um pouco com vocês sobre essa paixão. Afinal, beber chá é mais do que só beber algo, é um ritual. Meu dia começa com a água na chaleira. O fato de ter que esperar ela ferver, enquanto seleciono o sabor e preparo os infusores, depois de colocar a água, ter que esperar o chá ficar pronto, depois esperar esfriar, faz com que não seja um ato desconectado, só servir e beber, o chá exige atenção e um tempo próprio. Só dele. Que ninguém apressa, nem a correria dos dias atuais. E o meu acordar vai no ritmo do chá. O dormir também. Ficar aqueles 15 min com o chá na mão, esperando a temperatura certa, é o tempo exato para acalmar a mente, desconectar. Para mim, tomar chá é também meu momento de introspecção, de pensar nos pensamentos. De me planejar para o dia, ou de revisar o dia antes de dormir. É realmente um ritual!

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Chás, tal como os chamamos em geral, são a infusão de folhas de uma planta, e suas variedades, das quais fazemos o chá preto, o verde, o branco, etc. Mas chás também podem ser resultado das infusões de outras ervas, sementes, folhas, e mesmo incluir outros processos como a fervura de raízes e cascas, ou mesmo a fermentação, como no caso do kombucha.

O que mais faço no meu dia-a-dia são as infusões de ervas, e fervura de raízes e cascas, mas às vezes faço também o chá propriamente dito, seja o verde, ou o preto, ou o mate. Chá é muito simples e gostoso, basta ferver a água e colocar sobre o famoso saquinho de chá, mas como boa apreciadora, isso é muito básico. Existem vários detalhes que permeiam a arte do chá. A primeira é nunca despejar sobre as folhas de infusão a água fervendo, o ideal é algo em torno de 95 graus celsius. Na falta de um termômetro só pra isso, deixe a água ferver, apitar a chaleira, soltar fumaça, desligue o fogo e espere cerca de 2 a 3 min antes de despejá-la sobre a infusão.

Outra dica boa é evitar os famosos saquinhos. No exterior é comum conseguirmos comprar pelo mesmo preço chás embalados em saquinhos de tule costurado, mas aqui no Brasil a regra é o saquinho de um papel fino, parecido com o do coador de café, que é colado. Para quem toma chá de vez em quando, isso não faz diferença, mas pra quem toma com frequência é bom evitar. Com a água muito quente parte dessa cola se dissolve, e com o tempo ingerimos mais dela do que seria recomendado.

Outro bom motivo é você poder fazer suas próprias combinações. Aqui em São Paulo tenho comprado minhas folhas secas na zona cerealista, mas muitas lojas de produtos naturais vendem o chá à granel ou mesmo em embalagens, mas ele vem por peso e não em saquinhos. Aí convém você ter alguns tipo de infusores em casa. Eu tenho o individual, em formato de folhas, a garrafa de vidro e o bule para duas xícaras e meia, ou quatro servidas sem ser cheias. Quando faço com gengibre e canela, em vez de usar chaleiras e bules, fervo a raiz e a casca com a água, coo e coloco em uma garrafa térmica, para ir tomando ao longo do dia.

Às vezes faço com flor de hibisco e canela, para tomar quente, ou hibisco e limão, e deixo na geladeira para esfriar, também conhecida como água de jamaica. Às vezes faço o mate cozido, bato com limão e hortelã e deixo esfriar. Nunca adoço meus chás com nada, pois prefiro puro, amo doces, mas não gosto de bebidas doces (exceção só pro chocolate-quente do inverno).

Algumas das minhas combinações preferidas incluem: cidreira + chá verde + hortelã; cidreira + camomila + hortelã, são dois ótimos digestivo. Cidreira + camomila + erva-doce é meu preferido antes de dormir e é conhecido como meu chá esquenta coração. Mate + limão + hortelã gosto frio como refresco! Hibisco + canela e gengibre + canela são meus preferidos para tomar ao longo do dia. Hibisco + limão gelado (água de jamaica) também é ótimo em dias quentes.

chás gelados

Entre os clássicos, dos que a gente já compra pronto amo o Earl Grey e Lady Grey, English Breakfast. Entre marcas amo Lipton, Twinings, Tribal Brasil, Celestial Seasonings, e os herbais da Bio2. Se algum dia você estiver em Paris, vá a Mariage Fréres, uma loja de chá incrível, com vários tipo de chás, bules, chaleiras e infusores. E eles tem um cardápio só de chás! Em São Paulo recomendo a Tea Connections. Mas a verdade é que existem poucos chá que eu não gosto! E amo experimentar as novas combinações! Isso sem falar que eles são os companheiros de leitura, trabalho e estudos perfeitos!

cha _ walden

Uma coisa que aprendi com a cultura do chá chinesa é porque as xícaras chinesas não possuem “asas”. E a dica é importante. Quando seguramos a xícara pela alça, diminuímos o contato do calor com o corpo, e assim perdemos nosso termômetro mais importante! Para saber se a bebida quente está na temperatura ideal para o consumo, sem danificar tecidos internos e nem machucar as mucosas, basta segurar a xícara com as duas mãos, sem se machucar e sem sentir necessidade de soltar. Pronto, pode beber eu chá em paz!

É sempre bom lembrar que chás possuem efeitos variados no corpo, alguns possuem cafeína, outros são diuréticos, outros termogênicos, então sempre consulte um profissional e evite tomar em quantidade exagerada. Como sempre, o bom senso imperando, dá tudo certo.

Espero que os chás consigam aquecer o coração de vocês tanto quanto o meu!

cha vidro