Sobre o sim o não e o talvez

Hoje estou ansiosa. Desde que acordei. Uma nostalgia, uma saudade. Uma saudade do passado, e uma saudade do futuro. Sim, eu sofro desse mal raro, compartilhado por alguns compositores, outros letristas, poetas e autores. Eu sinto muita falta do que nunca vivi. Minha nostalgia me abate com a força de um romance inglês do século dezenove. E se desenrola na forma de borboletas no estômago. Talvez por isso eu tenha medo de borboletas. Enquanto dizem por aí que essa sensação é aquela do novo, do inusitado, para mim tem ares de gastrite nervosa.

Sempre fui boa em traçar e cumprir metas. Gosto de ter objetivos. Nesse ponto, vivi, durante anos, a vida como um vídeo game. Sempre completando as tarefas de cada fase, e, acreditem, os chefões que já enfrentei para passar por cada uma delas não foram poucos e nem pegaram leve. Acho que em algum momento em torno dos meus dezoito anos alteraram a configuração e o jogo foi do easy mode para o hard! Mas não me incomodo com as dificuldades. Às vezes sofro, mas sofrer faz parte, e se visto como aprendizado, o sofrimento pode virar benção. Com tudo o que já vivi, não perdi a alegria de viver, e ouso dizer que até tenho mais do que a média. Sei que o copo está sempre cheio, mesmo que seja cheio de ar, e aprendi a me divertir com o ar, e somente ar, desde a infância. Está entre as características daqueles que brincaram muito sozinhos e aprenderam a respeitar a vez do ar de falar.

Mas existe uma inquietude em mim. Uma vontade de ver outras paragens. Essa inquietude se manifesta com especial predileção nos finais de tarde. Quando criança podia passar o dia todo dentro de casa, lendo um livro, feliz. No fim do dia batia a saudade de tudo que nunca vi. Uma nostalgia com cheiro de grama molhada de chuva. Um sonho de voar com o vento. Era a hora de sair pelo jardim, caminhar descalça, subir na árvore, e olhar o lago. Era a hora de esperar por navios piratas num lago artificial. Era a hora de aguardar pelo desembarque do Capitão Gancho no fundo do meu jardim.

Essa nostalgia tendia a se dissipar com a chegada da noite e a necessidade de entrar em casa em busca de um banho, um pijama quente e uma sopa da vovó. A rotina me lembrava que eu era só uma menina. E que a menina tinha que ir para a escola no dia seguinte. E lá eu ia, com minhas metas pequenas, contando quantas páginas tinha lido num dia, quantos livros num ano. Em quantos desenhos eu tinha tido a paciência de pintar todo o céu de azul. Parece bobagem, mas se você escavar a lembrança dos tempos de jardim, estou certa de que se lembrará de como o céu de uma folha A4, sobre o desenho a lápis, parecia um infinito, que nunca terminava. Era necessário apontar o lápis azul claro mais de uma vez para terminar o céu. Quem terminava o céu? Quem tinha tempo para isso?

Quando eu pintava o céu em rajadas soltas, confesso, às borboletas vinham me visitar. A ansiedade me atacava, e às vezes, eu desistia do céu azul. Para que isso não acontecesse, eu dividia o céu. Quadriculava o céu com linhas finíssimas, quase invisíveis, com o próprio lápis azul claro, e ia um quadradinho de cada vez. Ah, paz! Como eu me sentia em paz pintando um quadrado por vez. Era fácil, simples, não cansava e a meta era bem definida e de fácil alcance. Quando eu menos esperava, os quadradinhos acabavam, e eu me deparava com uma A4 perfeitamente preenchida. Meu céu azul! Minha meta cumprida, um quadrado por vez. Sem borboletas. Ou, se elas lá estivessem, estavam no céu e não no meu estômago.

Até o fim da faculdade eu consegui viver a vida assim, um quadradinho por vez. Metas definidas pela sociedade. Terminar o semestre, terminar o curso, conseguir um diploma. Fazer cursos de extensão, de línguas. E aí uma hora isso tudo acaba, e lá vem o lápis azul claro em rajadas soltas, com a força e a suavidade do vento. E me deixou à deriva. E me trouxe borboletas no estômago. Veja bem, quando digo à deriva não quero dizer perdida, nem parada. Um curso aqui, um preparatório ali. Quando vejo já são alguns anos no emprego “novo”. Quando vejo já são mais alguns títulos e outro tanto de certificados.

Mas agora, por mais que tente seguir um quadradinho por vez, não estou mais pintando uma A4. Não sei o tamanho dessa vida. Ela é 3D. E fluida. E como naqueles livros de aventura da pré-adolescência, se eu tivesse escolhido a página 73 me depararia com uma quantidade de quadradinhos azuis, já na página 84 são outros tantos, e se pulo para a 95 já não são nem azuis mais os quadrados e sim verdes ou cinzas. Não jogo mais um vídeo game com um número de fases pré-estabelecidas. Na melhor das hipóteses jogo xadrez e é exaustivo ficar antecipando as diversas possíveis jogadas do adversário, nomeadamente a vida, baseadas em cada possível movimento meu.

E isso faz com que tenha que abordar as borboletas do meu estômago de uma forma diferente. Porque elas continuam lá. E insistem em aparecer e reaparecer a cada fim de tarde nostálgico e saudoso. Só que dessa vez não posso acalma-las contando quantos quadradinhos azuis faltam para a próxima meta. Não vai mais funcionar, porque eu não sei. Então decidi que preciso aprender a voar com minhas borboletas. Solta-las uma a uma. Para que saiam de meu estômago e virem minhas asas. Se o azul agora vem em rajadas soltas, desprotegidas do quadriculado de minhas linhas imaginárias, meus tratados anti-ansiedade, preciso aprender a voar ao sabor dessas ondas. Sem entretanto perder a capacidade de decidir o rumo.

Quando escrevo essas palavras, elas são minhas borboletas. Saindo uma a uma do estômago. Deixando de ser gastrite nervosa e virando palavra. As palavras são minhas asas e sei que um dia voarei em suas asas. E aprenderei a seguir as rajadas soltas do lápis azul, sem medo de me perder na imensidão da vida, que afinal, não cabe numa A4. Só essa borboletinha de hoje já está com cerca de três A4 por exemplo, e já somei várias do tipo. O que me intriga hoje especialmente é como aquela dose de controle, representada tão bem pelos meus quadradinhos azuis do céu, não faz parte da minha vida hoje em dia.

Veja bem, metas tenho muitas e sou boa em cumpri-las. Mas quando a vida se torna maior que uma A4, quadricular o céu não é mais garantia de que conseguirei preenche-lo. Vou tentando, uma rajada por vez. Às vezes perpassando o mesmo caminho mais de uma vez, às vezes me demorando tempo demasiado num canto só do céu, até ele tornar-se mais escuro do que eu intencionava. Outras vezes, passo leve demais e o azul mal chega a tingi-lo. Mas vou caminhando, voando, lápis na mão, asas nas costas, palavras saindo dos dedos para transmutar borboletas ansiosas em história. Se conseguir ser Sofia o suficiente, talvez evite a gastrite.

E pensando nisso, me surpreende que num mundo em que aprendo a não ter controle de tanta coisa, a saber que tenho que fazer minha parte e que o resto cabe aos demais, ao destino, sigo ainda assim com fé. E vejo tantas pessoas abrindo mão do pouco que lhes cabe nas decisões da vida. Quanta gente evita escolher, seja o que vai comer no almoço ou o presidente. Porque é mais fácil. Porque escolher é posicionar-se e posicionar-se é um risco. Veja bem, viver é um risco.

Quem está vivo, pode morrer. Quem está vivo pode apaixonar-se. Quem está vivo pode sofrer. Quem está vivo pode sorrir, sem motivo. Quem está vivo pode surpreender-se. E, dependendo de quais coisas façam parte da sua crença, na verdade, nem precisa estar vivo para tudo isso. Essas coisas vão acontecer e pronto. E mesmo que você opte por viver à deriva. Mesmo que você opte por não se posicionar, uma hora, numa curva qualquer da vida, ela vai te cobrar isso como um posicionamento e você vai pagar a conta de qualquer jeito.

Minha vida não cabe numa A4 já faz muito tempo. Meu céu nem sempre é azul. E para conseguir todas as tonalidades que ele possui, do amanhecer ao pôr do sol, nem uma caixa 48 cores basta mais. Eu sigo nas rajadas como posso. Às vezes boboletando, às vezes sofrendo de nostalgias indefinidas, às vezes de saudades muito bem definidas. Umas saudades são sofridas e sem solução. Outras são doces e aguardam ser matadas. Às vezes cuspo palavras. Vou à deriva quando não tenho outra solução, mas me agarro a cada quadradinho que ainda sobrou no meu céu, em meio às rajadas. Tomo minhas decisões e escolho meus caminhos. Sei que podem nem sempre ser os melhores. Mas também sei que não adianta lamentar.

Aprendi a ser sempre responsável por minhas escolhas e não me abster da vida. Espero que as pessoas entendam, no que diz respeito às suas decisões, que a coletividade não às justifica. Somos todos responsáveis por cada pequena decisão que tomamos e por cada pequena decisão que não tomamos. Às vezes elas se pagam com muito amor e doçura. Às vezes são amargas e descem rasgando. Mas se são nossas decisões, podemos viver com as consequências, e seguir em frente.

Eu, como todo ser, nem sempre acerto. Mas sei o que fiz, o que faço. A vida me recompensa às vezes com amargor e às vezes com doçura. O que aprendi é que revoltar-se perante o resultado das minhas escolhas não me leva a lugar algum. Só à gastrite nervosa. Quando a resposta é amarga, eu aprendi a ver nela um aprendizado valioso, e a ser grata à ele. Quando a resposta é doce, não há gratidão suficiente na minha alma e transbordo. Na verdade, transbordo sempre, seja em risos, lágrimas, ou palavras. E quando as palavras transbordam para além de mim, elas chegam aqui. Onde viro Sofia, e elas viram estória.

Seja em quadrados azuis ou rajadas multicolores, sei que, por conta da gratidão e do amor à todas as situações vividas, vou completar meu quadro. Se ele é renascentista, surrealista, moderno, abstrato, ou apenas um doodle, não sei. Acho que um pouquinho de cada coisa. Um pouquinho de cada vez. Uma palavra de cada vez, libertando minhas borboletas, formando minhas asas. Amo meu sim. Aprendi que posso amar o não também. E evito o talvez. Seja sim ou seja não, a borboleta há de sair, e as palavras contarão sua história.

Quem sabe um dia não paro de sofrer da nostalgia do que nunca vivi, para ver na minha frente um quadro de belas memórias reais, cada uma com sua gotinha de tinta, com sua palavra desenhada. E com minhas asas, irei sobrevoa-las, saboreando cada cor, cada gosto, cada forma. E lá estarão meus piratas, minha árvore, meus cachorros, meus livros, minhas aventuras, reais e imaginárias. Minhas muitas e muitas páginas A4, e todos os meus quadradinhos azuis.

Vida Boa de Ser Vivida

Eu sempre tive uma relação muito curiosa com as palavras. Algumas pessoas dizem que as palavras lhes pertencem, ou que poeta tal dominou as palavras, ou que autor fulano tem as palavras nas mãos. Eu não. As palavras é que me tem. Quem me deu de presente para elas eu não sei, mas sei bem como reajo a elas. Sabe aquela descrição de amor insano, que te faz perder as pernas, desabar e aceitar qualquer maluquice? Eu não. Nunca tive um desses e nem pretendo, prefiro os amores saudáveis. Mas entendo que certas pessoas exerçam essa fascinação dominante sobre outras, não por ter vivido algo assim com alguém, mas com as palavras. Não creio que a relação seja mais tão abusiva assim, afinal, a cada dia que passa conquisto um pouco mais de palavras para mim, e assim vamos ajustando nossa injusta relação. Já dei o primeiro grande passo, perder o medo, e o fato de você leitor, ser um leitor das minhas palavras nesse momento, é o único motivo pelo qual posso chama-las de minhas. Eu sou delas. Eu sou das palavras.

Já tive um medo paralisador delas. Hoje venho superando-o aos poucos. Estou certa de que terei um dia vontade de enfiar a cabeça no travesseiro ao ler tudo o que está aqui, especialmente pelo fato de o blog tornar essas palavras públicas, mas preciso dessa terapia para superar minha relação abusiva com as palavras. Preciso desse momento para acreditar que posso domá-las e que um dia possamos conviver lado a lado, numa relação saudável.

Eu tive inúmeros diários ao longo da vida. Os primeiros, logo que aprendi a escrever, eram os mais secretos. Quando terminei o primeiro, fiquei assustada. Como pude ser tão irresponsável, e colocar todos aqueles pensamentos secretos dos meus oito e nove anos de idade num papel, sob o risco de serem lidos e percebidos? Que loucura! Quais devaneios não seriam expostos caso a chave de plástico em formato de coração lilás fosse encontrada? Pânico define meus sentimentos da época. Na primeira oportunidade, pós-churrasco familiar, no qual algumas brasas sobraram na churrasqueira, taquei o diário roxo dentro. Assisti ele queimar até o fim, para garantir que seria o fim daquelas palavras. Das minhas primeiras palavras.

Na adolescência ensaiei o compartilhamento das palavras que vagavam pela minha cabeça. Tive diários coletivos com minhas melhores amigas. Cada uma levava o caderno para casa por uma semana, escrevíamos e decorávamos com esmero aquelas páginas, e ficávamos ansiosas para receber o caderno duas ou três semanas depois, e ler todos os acontecimentos. Acontecimentos estes dos quais já sabíamos tudo, obviamente, ao ler o diário, já que estudávamos juntas e falávamos ao telefone sempre. Mas existiu algo mágico naqueles diários. A magia da amizade, sem dúvidas. Mas para mim foi mais do que isso, foi o primeiro passo da minha superação em relação a dominação das palavras. Um exercício de desapego dos meus segredos. O compartilhamento anterior as redes sociais.

No fim da adolescência começou minha Idade Média. O período em que trabalhar, estudar, e me ocupar eram questões de sobrevivência. E qualquer minuto vago era ao mesmo tempo luxo de descanso inexistente e pânico de me encontrar a sós com meus pensamentos. Minha cabeça esteve em ebulição por alguns anos, e meus sentimentos foram destroçados, ano após ano, em pedaços tão pequenos que virei poeira. Só o pó. Mas foi só quando minha última guerra acabou, ou pelo menos batalha da temporada, que percebi que eu não era pó. Era aço forjado a fogo e gelo. Aço só. Só de sozinho, não de apenas. Elementos, eu era composta de vários, mas estava solitária em meio a tantas palavras não ditas. E elas brotaram dos meus dedos, primeiro lentamente, e depois com mais fluxo. Agora tenho tentado dar ritmo a esse fluxo. Acomodar os acontecimentos da vida às palavras que fluem. Às vezes retendo um pouco o volume, espaçando ele com disciplina. Às vezes olhando o teclado por alguns minutos e pensando, saiam, deixem minha cabeça. E jogo com os dedos os fios de prata na penseira moderna de acabamento com ares de aço escovado.

Para os que me acompanham, já devem ter reparado uma certa tendência nos Bloquinhos de Três para a banda Skank. Sim, é minha preferida. E como vou vê-los esse fim de semana, resolvi brincar com a ideia das escolhas musicais. Passei minha vida ouvindo a pergunta: “Quais as dez músicas que mais marcaram sua vida?’, ditas e repetidas por Bia Reis a mim e a muita gente ao longo de uns vinte e cinco anos. Então eu me propus montar um bloquinho com apenas três músicas do Skank. Quase enlouqueci. Se dez no universo musical global são impossíveis, para mim três no universo do Skank também é. Mas decidi me pautar pelo sentimento e não pela razão.

Minha infância e adolescência foram marcadas pelo medo das palavras, pelas notas sofridas na disciplina Português, pelo medo da gramática, mas também por uma nostalgia inexplicável para alguém tão novo. Uma saudade do que nunca tinha visto, uma curiosidade irreparável pelo mundo. Uma vontade louca de sair andando sem rumo. Promessas não cumpridas de que iria a esmo, procurar minhas saudades por aí. Já o início da vida adulta foi marcado por inúmeras batalhas, e, por fim, aprendi a driblar as desgraças. E foi andando sobre as flores amarelas do ipê, ao anoitecer, que percebi, que depois de tanto, nem o medo das palavras importa mais, porque tudo o que quero daqui para frente é que a vida seja simples, sutil, súbita e suave.

 

 

 

 

 

Esse meu vício de sentir saudades do que nunca vivi

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.