Tudo bem

Tenho 31 anos. Sou órfã desde os 19 de pai, 25 de mãe. Nesse meio tempo perdi também meus avós, que me criaram. Quem já perdeu os pais sabe a estranha falta que é não ter ninguém que se preocupe especificamente com você. Saber que você é a preocupação maior do mundo de alguém é um tipo de cuidado e amor que só é explicado por quem cria.

Ela dizia que eu não dava trabalho. Nunca dei. Apesar de ter nascido de 7 meses, fiquei doente pouquíssimas vezes na vida, nenhuma grave. Sempre dormi 8h ou mais. Minhas notas na escola eram excelentes e ninguém precisava me mandar estudar. Eu não fiz grandes loucuras na adolescência, só umas bem pequenininhas. Na faculdade fui mais séria ainda. Me joguei nos estudos e trabalho com o afinco de uma adulta plena com família para sustentar. Ainda que não fosse o caso.

Mudei de emprego algumas vezes, mas nunca fiz dívidas. Mudei de casa muitas vezes, e pedi muito pouca ajuda. Mudei de cidade, de país, de continente, de país de novo, e cada vez precisei de menos. Vida minimalista, que cabe no bolso. Leve por opção, por propósito.

Às vezes meu irmão me pergunta se está tudo bem e eu sei que a pergunta dele é de verdade. Que ele pensa em mim e se preocupa, um pouquinho que seja, porque sabe que eu não dou trabalho, mas bate aquela pontadinha de preocupação e eu ganho um “tá tudo bem aí?” que eu sei que é de verdade. Não aquela pergunta por educação ou obrigação.

Eu não fumo, não bebo e não uso drogas. Bebi bem pouco numa fase da vida adulta que acabou logo. Sempre passei mal com menos de 2 doses. Cuido da minha alimentação. Cozinho quase tudo que como. Compro, pago as compras, corto, lavo, pico (ok, meu marido costuma picar mais que eu), mas dou conta do recado.

Essa sempre foi minha “missão na vida”, dar conta do recado. Sempre fui a forte, independente, otimista, tranquila. Nunca dei trabalho. Não precisam se preocupar comigo. Está tudo bem.

Eu sou hoje aquela pessoa independente, forte, corajosa, que desbrava cidades novas, empregos novos, dá a cara a tapa, sem nem se questionar como poderia ser diferente. Sou todinha aquela que meu avô me criou para ser, e se bobear, um pouco mais.

Eu faço Yôga, me exercito, faço trilha, caminhada, acampo, subo montanha. Passeio com meu cão, que é minha vida, todos os dias. Limpo minha própria casa. Até as plantas têm sobrevivido bem. Tenho manjericão na área dos temperos, brinco-de-princesa nas flores, e suculentas na decoração.

Medito, leio filosofia e estudo política nas horas vagas. Participo de dois clubes de leitura. Até costuro minhas próprias roupas quando rasgam ou precisam de uma bainha, luxos de ter crescido ao pé da saia da vó.

Sou consciente das minhas emoções e atenta para aprender com cada detalhe do meu dia. Para sublimar a raiva, e me alimentar de pôr-do-sol, uvas frescas e muito chá quentinho nas mãos.

De fato, eu não sei porque alguém se preocuparia comigo. Eu claramente, sei me cuidar, e me cuido bem. É claro que ninguém precisa saber da frustração de passar mais de um ano resolvendo pendência burocrática por conta das mudanças de país, ou do medo de dar algo errado que me acomete a cada semana.

Ninguém precisa se preocupar com as noites que chorei no travesseiro. Com os quilos que ganhei de ansiedade. Com a crise de enxaqueca que durou uma semana por conta da crise de decepção com a vida acadêmica.

Ninguém contabiliza as horas que eu passo indo e vindo dos mercados, pesquisando, para garantir que a alimentação saudável caiba no orçamento reduzido. As horas planejando e preparando as refeições.

Quando sento para jogar e conversar com os amigos no fim de semana, ninguém sabe da saudade que me aperta o peito. Do vazio que me abraça de madrugada.

O sorriso das fotos esconde que nunca na vida tive um dia dos pais pleno. Sempre dividida entre o amor do que não era pai, mas me criou e a falta do que era e não foi.

E que todo ano agora o dia das mães entrou na lista de dores e não de amores. Quem comemora as datas e até reclama de ter que dar atenção para a família não sabe o que é se sentir desconectado da realidade, porque nenhuma data dessas faz mais sentido.

Eu sei que ainda assim está tudo bem. Ainda assim eu sou forte, independente e corajosa. Continuo sem dívidas nem problemas financeiros. Sigo sendo saudável. E minha alegria é sincera. Aliás, rio muito e quase todos os dias.

Não podia ser diferente, sendo que casei com o cara mais incrível que conheci. Nunca pensei que poderia dizer que se meu avô tivesse conhecido meu marido, não só aprovaria, mas se orgulharia. Mas posso!

Mas isso não diminui o fato de que às vezes eu só queria colo. Queria lembrar de como era aquela paciência eterna da minha mãe de pentear meu cabelo, com minha cabeça no colo, não pela beleza ou arrumação dos pelos, mas pelo amor, intimidade e cuidado, de ficar horas ali, ganhando atenção e carinho.

É claro que tenho tios e tias que sempre me apoiaram, e que, caso eu precise, não hesitarão em ajudar. Mas eu sei que eu não sou a constante preocupação, justificada ou não, de ninguém. Existe uma falta abissal no mundo, quando você percebe que é bom mesmo você não dar trabalho, porque você já não é o trabalho de ninguém mais ali.

E aí, toda a força, independência e coragem, perdem um tiquinho do brilho, pois passam a ser não só mérito, mas necessidade.

E se eu assim não fosse? Nem quero pensar nisso. Não posso me dar o luxo de não ser. Então, sim, respondendo à pergunta clássica de todos os dias, é claro que está tudo bem! Como não estaria?!

Sonhos e aprendizado

(**Atenção: não são spoilers, mas há comentários sobre os filmes Into the Wild e Capitão Fantástico que falam de suas conclusões**)

Às vezes acho que é um reflexo da minha geração, que ao mesmo tempo tem muito acesso à informação e muitas desilusões. A vontade de largar tudo e ir viver aventuras, em se embrenhar no mato, conhecer o mundo, se conhecer, não nos larga. Mais é mais do que isso, tem uma parte grande de insatisfação e frustração, em dificuldade de viver da forma “esperada” e muitos sonhos que parecem nos isolar tanto dos demais, especialmente da geração anterior. Mas aí (re)leio Walden, e percebo que o Thoreau já sentia tudo isso, e percebo que o gap não é necessariamente geracional, mas entre pessoas, almas, espíritos, aqueles que simplesmente veem o mundo de outra forma.

Em busca desses sonhos muitas vezes nos perdemos, erramos e acertamos, e temos momentos de felicidade e momentos de desespero, tormenta e bonança, assim como em qualquer caminho de vida. A maior lição do Alexander Supertramp é que a felicidade precisa ser compartilhada, e isso nos ensina, especialmente aos mais introspectivos (pra não dizer anti-sociais) que é preciso cuidado para não se isolar demais. A maior lição do Capitão Fantástico é que precisamos ceder um pouco, ser menos estritos e exigentes na ideologia pois ainda que trilhemos caminhos próprios, estamos no mesmo mundo e o contato com a sociedade continua.

Ao mesmo tempo é importante perceber que aqueles que buscam esse auto-conhecimento não o fazem apenas por egoísmo ou insatisfação, existem conceitos ideológicos fortíssimos que os orientam, e os que discordam desses conceitos não conseguem compreender, concordar ou aceitar as decisões tomadas, e muitas vezes não estão dispostos a tentar entender. Se para quem se isola falta habilidade social e paciência, para quem conhece o “isolado” falta empatia e aceitação das diferenças. De um modo geral, diria que todos deveriam, pelo menos temporariamente, se jogar no mato, rever os conceitos, repensar a alimentação, a relação com o meio ambiente e o sistema no qual vivemos em sociedade, que nos exige tanto consumo e tantas energia, muitas vezes desperdiçados.

Eu tenho buscado simplificar minha vida nos últimos anos. Para quem lê aqui com frequência sabe dos meus processos, de perdas familiares, mudanças e busca por auto-conhecimento. A primeira fase foi de reconstrução e consequente acúmulo. Precisei mostrar pra mim (e também para a família e para a sociedade, mas essencialmente para mim) que tinha capacidade de ter. Ter. Emprego, dinheiro, casa, móveis, roupas (simples e chiques), coisas, eventos, agenda social. Cumpri! Talvez não a contento de todas as expectativas, mas a contento da minha. E mesmo enquanto construía esse caminho ia deixando portas abertas, adquirindo habilidades e condições de seguir outros, de precorrer caminhos, conhecer outras oportunidades.

Há alguns anos venho construindo um outro caminho, e não sei por quanto tempo ficarei nele. Mas um caminho que tem uma dose de desconstruído. Enquanto tive um período de acúmulos, seja de renda, bens, objetos, e mesmo de momentos, pessoas, amizades, oportunidades, agora estou no de desapego! Desde a mudança de Brasília para São Paulo fui me desfazendo de muitas coisas. E também de muitas obrigações. Por exemplo, durante 2 anos usei lingerie combinando todos os dias! Não falhou unzinho! Geralmente era sutiã e calcinha conjunto, combinado mesmo, mas se não fosse conjunto era no mínimo da mesma cor e estilo. Fiz porque achava isso o máximo? Não. Fiz pra experimentar. 99% do tempo ninguém viu, e ninguém sequer soube que eu estava combinada, mas eu sabia. Fiz por mim! Foi um momento próprio e peculiar que fez sentido num período de reconstrução da minha auto-estima, e também de aperfeiçoar a librianisse.

Agora estou num período em que reduzi drasticamente meu guarda-roupa, inclusive de underwear, e com isso estou praticando descombinar, inclusive pra trabalhar o psicológico e não ficar com mania de perfeccionismo. E sabe o que é mágico? Minha vida não é melhor nem pior com ou sem calcinhas combinadas. Tudo faz parte do que faz sentido em cada momento. Se vou usar um top de sustentação de exercício físico não faz nenhum sentido combiná-lo com a calcinha como se fosse um conjunto, porque não é. Não é prático e nem necessário! Mas se quero tenho lá um outro conjunto guardado pra um momento especial, que pode ser a dois, ou apenas aquele dia que eu quero me sentir linda, e ninguém nem vai saber!

Mas o que calcinhas têm que ver com isso? Com o mato, e uma vida mais isolada? São um exemplo. Um exemplo pequeno, só pra demonstrar meu caminho. Esse caminho de auto-conhecimento, especialmente quando aliado a questões ideológicas nos afasta das pessoas, e da sociedade tradicional. O que me diferencia drasticamente do Thoreau é isso aqui, eu não escrevo um diário, eu escrevo um blog! Ainda que sem internet em casa, usando um pouquinho de 4G no celular pra publicar algumas fotos, e respondendo e-mails e atualizando o blog 3X por semana na biblioteca pública, eu ainda estou conectada quase sempre!

Com minha profissão, enquanto professora de idiomas, consigo trabalhar de qualquer lugar com uma conexão e podendo usar o skype. Sem falar em outras opções que o mundo atual nos proporciona, ensino virtual, ensino à distância, cursos, etc. Nisso a internet mudou a vida dos “isolados” nos permitindo selecionar quais partes isolam e quais não (sem tanta seleção assim quando falamos de Facebook e outras mídias sociais, mais ainda assim, participar delas é opcional e para mim é um excelente jeito de manter a família informada de que eu tô viva e bem, e no mato!).

Os que se isolam, buscando não só o auto-conhecimento, mas a paz interior e exterior, a aventura, uma outra relação com a vida, o mundo, a sociedade, as pessoas, os animais, etc, sentem muita solidão. Essa lição está presente em todos os filmes e livros que relatam os que buscam esse caminho. Contudo, o que sinto fortemente, é que essas pessoas, e me incluo nelas, não nos sentimos na verdade parte de nada, plenamente, nem do mato. Talvez só de nós mesmos. Já existe um nível de solidão aguçado mesmo na maior metrópole, mesmo na festa mais cheia, mesmo entre familiares e amigos. Como alguém que acabou de morar 2 anos em São Paulo posso atestar.

Essa parte da solidão e da insatisfação vem justamente das questões ideológicas. Nunca consegui me sentir plenamente parte de um grupo, nunca concordei plenamente com uma religião, nunca concordei plenamente com uma linha pedagógica, com uma escola onde trabalhei, com as leis que regem nenhum país. Claro que as afinidades aumentam ou diminuem de um grupo, escola, país, pessoas, pra outros. E claro que em alguns me senti muito mais à vontade e acolhida! Mas sempre tem aquele pouquinho que questiona. E ao questionar vem uma certa solidão, um certo vazio. É o mal dos que não conseguem comprar o pacote fechado. Nenhum deles. Sempre tem aquela partezinha que a gente preferia mudar.

Para não morrer de infelicidade há que se exercitar a tolerância. Alguns pacotes até consigo comprar “fechados” mesmo sem concordar 100%, porque concordo com a maior parte, e preciso viver. Mas explico isso, porque é um sentimento constante, em qualquer parte do mundo. Aliás, viajar muito tem a ver com essa insatisfação. A necessidade de conhecer tudo e a si mesmo, buscar alternativas, aprender outros mecanismos, tudo nessa busca de compor o melhor pacote possível pra viver.

Quem não entende o que eu tô fazendo, é isso! Eu to procurando as peças de lego que melhor se encaixem na minha alma, ainda que fiquem buraquinhos, de preferência, os menores possíveis. Das lições que tirei até agora, tanto por experiência própria quanto da leitura de filmes e livros sobre outros insatisfeitos e curiosos, a principal é essa: os que se isolam precisam aprender a ceder. O isolamento e a rigidez ideológica levam a um nível de solidão e insatisfação trágicos. É preciso que sigamos nossa busca por conhecimento e felicidade medindo os passos, dois pra frente e um pra trás, mantendo assim outras pessoas próximas.

E o desafio maior é saber lidar com a incompreensão de familiares a amigos, e outras pessoas, que julgam, se acham cortadas ou isoladas, ou discordam, e com isso ficam ainda mais distantes, pois o vácuo passa a ser não somente físico, mas também emocional. E precisamos aprender e aceitar que algumas pessoas, às vezes das mais queridas, vão se distanciar, ou nós vamos nos distanciar, e que por pior que pareça isso pode ser o que há de mais saudável para ambos.

O equilíbrio vem dessa aceitação, de todas as partes. Algumas pessoas precisam ir! E não adianta perguntar pra onde? Ou porque? Ou pra fazer o que? Porque a resposta não vai satisfazer. Os que vão, o fazem porque precisam! Vão viver por aí, porque não sabem viver num lugar só! Vão viver de forma estranha, comer, andar, vestir, tudo estranho, simplesmente porque são estranhos. E acredite, estão felizes assim! E os que vão precisam aprender a ser tolerantes com todas as perguntas, incompreensões e até mesmo  algumas hostilidades. Responder com honestidade sempre e seguir, ainda que isso custe algumas relações. Os que aceitam, ainda que não compreendam, ficarão próximos, mesmo a que léguas de distância!

Com isso, deixo vocês com uma citação do Thoreau em Walden e os trailers de Into de Wild e Capitão Fantástico. E não, eu não estou indo morar numa cabana no mato e nem num ônibus abandoado (ainda, hahahaha). Eu estou numa fase, que talvez seja de transição, ou talvez seja uma conciliação entre mundos, de cidade pequena, internet menos frequente, mato intenso umas 2 ou 3 X na semana. Trabalho à distância. Agradeço profundamente o amor e a companhia daqueles que aceitam me acompanhar mesmo de longe! E agradeço profundamente porque achei um outro maluco que concorda tanto que resolveu acompanhar de perto! ❤

Ps: achei essa entrevista sobre o livro Andar, Uma Filosofia, do filósofo francês Frederic Gros, e pretendo ler o livro em breve. Destaco aqui dois trechos da entrevista e deixo o link pra vocês, além da sugestão de leitura. Quem sabe não inspira alguns a caminharem mais, a desobedecerem mais, ou não te faz compreender melhor as andanças daquele amigo ou membro da família?!

“Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud gostavam de caminhar. E eles o faziam de formas diferentes. As caminhadas do jovem Rimbaud, dispersas e desorganizadas, estavam cheias de raiva, enquanto Nietzsche procurava nelas o tom e a energia da marcha. Kant era metódico e sistemático: o fazia todo dia, à mesma hora, na mesma rota. Todos acabaram mudando seus escritórios de trabalho para o campo, onde as idéias fluíam mais livremente e em plena natureza. Analisando de perto, estas caminhadas guardam alguns paralelos com seus pensamentos, diz o filósofo francês (e grande caminhador ) Frederic Gros no livro ‘Andar. Uma filosofia’.” (…) “Esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação.”

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/caminhar-um-meio-de-desobedecer/

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Sobre o Natal

Sentada na biblioteca magnífica de La Seu, vendo o sol entrar pela janela cilíndrica da ruína de uma igreja que esse edifício foi antes de ser a Biblioteca Sant Agustí, penso na distância. Muitos temos falado aqui sobre as viagens, a trilhas, as dicas, e nisso o Natal passou, o Ano Novo é amanhã e eu fico aqui, com minhas reminiscências, sem tempo de processá-las, sendo que elas nunca me abandonam. Nem quando estou enrolada em cobertas no sofá da sala, analisando a luminosidade que invade esse local ainda desconhecido que chamo de casa, e nem nas trilhas, enquanto as coxas doem, a água invade o pé, vindo da neve que entrou e vai derretendo com os passos e o fôlego falta nas lentas subidas em altitude.

Passei meu primeiro Natal longe do Brasil. Confesso que passar um natal no frio, vendo a neve e comendo cookies com leite foi realizar um dos sonhos de infância, e me sentir num filme ou seriado americano, daqueles que a gente tanto vê, imita com neve de isopor e algodão, e acaba passando a festa suando a maquiagem no vestido de alcinha na sala da vó ou da tia. Essa parte foi muito bonita. Mas nem de longe me tocou como eu esperava. O que reviveu dentro de mim foram sentimentos profundos, nem todos muito bonitos, e pensei muito se iria expô-los aqui ou não, mas decidi que preciso.

Natal pra mim sempre foi a festa da casa da Vó! Nunca me importou que faltasse a neve, porque tinha piscina! Nunca me importou que faltassem as frutas vermelhas do hemisfério norte, porque tínhamos nectarinas!  E mais importante de tudo, tinha a parte de pintar pinhas e cascas de árvore em spray dourado com minha vó, e arrumar uma mesa antropofagista e cheia de Tropicália, e de artesanatos manuais, que barateavam a festa pro bolso dos meus avós e ocupavam as crianças, nos envolvendo numa produção local de dias. Os embrulhos e laços eram por nossa conta. O dia de montar a árvore era um evento. O dia do presépio outro.

Esperávamos o dia que os primos podiam dormir em casa e fazer tudo junto. Nunca vou esquecer do céu incrível pintado em papel pardo, feito pela tia e artista plástica Monica, cheio de cores lindas, e iluminado pela instalação elétrica do vô André que garantia a luz da estrela-guia aos Reis magos, afinal, estávamos na casa dos Reis. Eu costumava ir para a sala a noite no mês de dezembro só pra admirar tudo no escuro antes de dormir. Às vezes minha mãe me achava lá. Me oferecia um pouco de sorvete e ficávamos abraçadas em frente às luzes de natal, no calor dos tópicos e do nosso amor.

Esse tempo acabou bem antes da neve chegar.

Com as internações, doenças e mortes, esse natal tropical, familiar, coletivo, onde cada um levava um prato e tudo era muito unido, foi se desfalecendo. Algumas pessoas na família foram assumindo as responsabilidades, e as coisas foram ganhando outras caras, outras cores. Alguns natais foram muito bonitos, mas se perdeu muito daquela coletividade, e dessa coisa simples, até tosca, caseira, remendada, feita com as mãos, que na verdade eu tanto amava!

Os natais ficaram mais profissionais. Os presentes já vinham embrulhados. Eram bons, de loja. Não eram os repasses loucos da minha vó, que ganhava presentes ao longo do ano e guardava pra dar pra outros depois. Nem as coisas que ela mesma fazia, como bolsas e casacos de tricô, gorros e luvas, ou os brinquedos caseiros feitos da oficina do vovô. Ou potes de doce. Eram coisas “de verdade”.

A decoração também vinha pronta. Comprada na loja, quiçá mais barata que artesanato caseiro. Não era mais a guirlanda feita à 6 mãos, por 3 gerações de mulheres, que entrelaçavam pedaços de cipreste do jardim, com fitas vermelhas e pinhas pintadas de dourado. Com bolinhas de isopor fazendo às vezes de neve. Nem as árvores malucas, criadas pelo nosso inventor de carteirinha, como uma que era um enorme cilindro feito de tela de galinheiro, recheada de galhos de cipreste podados da cerca de casa, com uma estrutura interna para a iluminação, e mil tipos de bolinhas (vidro, isopor, metal, plástico) que se acumularam ao longo de décadas numa caixa cheia de bolinhas de isopor. Só de bater o olho dava pra ver umas de vidro pintado em rosa e dourado e com listras com cara dos anos 60 e 70, e umas que mais pareciam bolhas de sabão azuis de plástico translúcido, recheadas de “neve” bolinhas de isopor e conectadas pro laços em tecido xadrez, com aquela cara de anos 2000.

A comida não era mais “cada um trás um prato” e sim uma bela encomenda profissional. E a bagunça da cozinha, as receitas de família, os custos e as contas que seu André fazia pra ver se ia dar, a porca do Cícero, que tanto nos assustava, mas que chegava todo ano. Isso tudo ficou pra trás. Ficou mais fácil. Mais adaptado pra vida moderna, onde as crianças cresceram e agora todos trabalhavam. Tinham dinheiro e não tinham tempo.

E aí piorou um tantão!

Respiro fundo pra não chorar em público enquanto escrevo, e ao olhar pro lado vejo algumas meninas de não mais de 12 anos que chegaram com seus casacos de gominho (tipo boneco da Michelin) cor-de-rosa, pra usar a biblioteca, todas tão acostumadas com essa maravilha pública daqui, fazendo trabalhos de férias escolares em grupo!

Mas vamos lá, que ainda falta um tanto de memória e outro de emoção.

Sem a vó, sem o vô, e depois sem minha mãe, fiquei sem meu natal de vez! Claro, minha família é enorme e nunca faltaram convites dos tios e tias para passar com eles. Mas todos pararam de se reunir da mesma forma. E eu me senti um apêndice. Foi ruim e doeu mais do que imaginam! Não foi culpa de ninguém e eu tinha 10 opções de casas pra ir, nenhuma era minha! Não com aquele sentimento. Eu tava lá e as pessoas me queriam lá, mas tinham o natal comigo e os arranjos próprios de cada núcleo familiar. E a preocupação de com quem eu ia ficar. Isso foi em minando por dentro.

E eu senti necessidade de me afastar. De criar meu natal. Em 2014, antes de ir pra São Paulo, convidei meus irmão pra fazermos uma ceia nossa. Meios irmão que somos, não passamos a infância juntos e nunca tínhamos passado o natal juntos, ou pelo menos não como programa principal, só em passadas rápidas entre outras casas. Meus irmãos estavam sem filhos no dia, cada qual tinha ido ficar com as famílias maiores e mais cheias de primos e de sentimento natalino. Fizemos uma ceia vegetariana em minha homenagem. Comemos horrores. Minha Monnita, amiga do coração, levou um chocotone de morrer de bom.

Não doeu tanto porque foi novo, e com isso menos perceptível a falta dos que não estavam ali. Mas ainda assim, não tinha o mesmo gosto de natal.

Em 2015 passei o Natal em São Paulo, com a família do meu então ainda só namorado, André. Foi um Natal em família, simples e bonito, com direito às tradições todas. Não tinha crianças. Os mais jovens estavam todos no celular o tempo quase todo. Aquele sentimento de comunhão da infância também me faltou. Me senti de novo um apêndice. Uma “estranha no ninho”. E vejam, não foi por falta de recepção calorosa. Mas existem tradições, que toda família tem, e que quem vem de fora, não pega, não entende, não faz parte da piada interna.

E aí temos 2016. Outra terra, Mundo Velho, neve e uma grande dose de solidão. Só eu e meu marido. O primeiro natal dele longe da família, o que também pesou um pouco pra ele. Não sabíamos bem o que fazer. Sendo ambos vegetarianos nem fazia sentido aquelas comidas tradicionais, além disso, só duas pessoas, ia sobrar pra vida inteira, mesmo que optássemos por algo sem carnes. Comemos muito bem. E uma comida especial, mas algo que fazemos com alguma frequência. Não tinha exatamente cara de ceia de natal.

Nada no dia indicava natal. Não tinha presente, árvore, excitação, crianças, ninguém esperando o Papai Noel, nenhuma visita que chegaria depois. Nada. E aí saímos de casa.

 E a cidade estava em festa! E as luzes de natal estavam por toda parte! E a catedral estava aberta. E tinha Minairons passeando por aí! E uma enorme fila cheia de famílias com crianças, que passavam pela praça dos Minairons, que catavam em volta da fogueira sobre o espiríto do natal, que tinha mais a ver com o inverno e as pinhas do que com o papai noel vermelho da coca-cola. E uma mesa gigante com chocolate-quente e pão doce, simples e gostoso, sendo distribuído. De graça. Presente da associação comercial e da prefeitura para a população. E todo ali na rua. Com ou sem família. Cheios de cachorros. Com luzes, com música, com comida. Depois entramos na catedral, e mesmo sem ser católicos aproveitamos para admirar a arquitetura e os ritos, aqui tão medievais, envolvendo inclusive espadas durante a Missa do Galo.

Fui pra casa aquecida, na alma. Apesar do frio nas bochechas. Sentamos e conversamos. Tomei leite com cookies. Fiquei no sofá. Bateu uma certa solidão? Sim. Mas pelo menos a falta dos que ali não estavam era clara e generalizada e não apenas aquela ausência profundamente ignorada dos anos anteriores. Não apenas a ausência da minha família, daqueles que já não estão entre nós, mas a ausência daquele natal, aquele dos artesanatos e das comidas e dos presentes inventados.

Era só a ausência dos vivos mesmo. E essa com whatsapp a gente remedeia. Fazem falta. Claro! Mas pra mim doeu menos. Pode ser que seja egoísmo? Talvez. Mas talvez eu precisa de natais assim pra conseguir voltar e sentir que há alegria e comunhão. Não é só a falta da família. É também a falta do sentimento de comunhão do natal. Não foi exatamente um natal feliz, mas foi um natal bonito. E eu vi comunhão de novo. Entre estranhos.

Não teve presente, mas vivemos o presente, e não o celular e a distância! Não teve ceia, mas teve couve-flor com queijo gouda, chocolate-quente e pão doce, e cookies e leite! Não teve fartura, mas teve coletividade! Dormimos cedo, nos escondendo do frio em baixo das cobertas. E meu coração aqueceu!

Feliz Natal e Bom Ano Novo! Que venha 2017, com suas descobertas.

 

Você

São meia noite e meia, quase, estou de pernas cruzadas na cama, e, ao digitar, receio que o som do teclado sendo atingindo de forma rápida, faça mais barulho do que a madrugada me permite. Não estou mais acostumada a não estar só, e por outro lado é tão estranho estar sem você. Correndo o risco de atrapalhar, fui obrigada a acender a luz, embora de porta fechada, e quebrar o silêncio sagrado da noite, pois meus dedos precisam falar. Dizem que sentimentos negativos, dor, ausência, raiva, tristeza, saudades, são os melhores combustíveis para a criação, e talvez estejam certos. O blog aqui é certamente prova de que as reminiscências ficam em baixa quando estou com você, ocupada e tenho com quem conversar. É na solidão que os dedos ficam aflitos.

Em relação à produção artística, creio que é uma questão de estilo. Para os momentos de emoções positivas, felicidade, superação, empreendedorismo, é necessária uma outra abordagem, receitas, viagens, formas de compartilhar amor e alegria com os demais. As reminiscências são para quando meus ouvintes não estão por perto. A ansiedade tem sido grande. Como sempre, recorro a várias fontes, massagens, chás, livros, séries, passeios com os cachorros, trabalho dobrado, e, imagine só, até exercício.

Nessas noites, me vem à cabeça as músicas que você me mandou. Afinal, a música é, talvez, a única que perpassa as emoções de todos os tipos, sendo útil para compor essa trilha sonora da vida, em todos os momentos. Apesar de sempre ter tido esse sono pesado e profundo, que você tanto comenta, elogia, inveja, que até mesmo te atormenta, nos momentos em que você preferia me ver desperta, eu nem todos os dias durmo tão bem assim. Uma parte é de nascença, outra de tranquilidade e rotina cuidadosamente criados ao longo da vida, mas uma parte foi você. Você tanto insistiu para que eu baixasse a guarda, deixasse minhas armas e armadura de lado, e te aceitasse, que finalmente me vejo um tanto quanto vulnerável.

Nesses últimos dois anos, senti ansiedade algumas vezes, muitas até, mas você estava ali, com o peso do seu braço sobre meu corpo, e eu não queria me mexer, para não te acordar. Eu queria aproveitar aquele momento de paz, e assim a paz vinha, e nem 5 minutos depois eu estava dormindo. Agora, nesses últimos dias percebo a falta que aquele braço me faz. Sozinha eu posso simplesmente me deixar dominar pela inquietude, acender as luzes, e, depois de rodar na cama por meia hora, simplesmente digitar furiosamente na madrugada.

Existe algo que vai além das conversar gostosas, dos valores que admiro, da companhia boa. Tem algo no cheiro, no jeito de aninhar. Alguma coisa que me fez confiar. E aproveitar esse momento, abrir minhas asas de verdade, e só deixar. Abrir mão do controle total. E você me testou e testa com isso. Com gosto. Ainda estou aprendendo essa coisa de não ter o controle. Mas tem sido bom. Com você, pela primeira vez, eu fui em lugares sem saber onde estava indo, sem perguntar o endereço antes, sem conferir todas as minhas “rotas de fuga”, sem ter tudo sobre controle. Muitas vezes não saberia voltar sozinha. Mas isso não me preocupa com você, porque aprendi que você me leva só em lugares que valem a pena ir. (Além disso, nessa de ter o controle, também aprendi a achar uma solução mesmo quando não previamente planejada, então também aprendi a confiar em mim, a ponto de saber me virar se desse errado. Quebradas ou não, essas asas tem autonomia de voo agora).

A ansiedade assusta, e os compromissos pendentes também. A incerteza se irei conseguir fazer tudo dentro dos prazos. O medo de algo dar errado. E ao mesmo tempo essa enorme emoção de estar fazendo algo que sempre quis. E que, incrivelmente, você também sempre quis, então vamos fazer juntos. Eu nunca imaginei que teria esse desprendimento todo. E não digo o material, de vender e doar roupas, sapatos, livros. Ah, meus livros quase todos! Digo a de não saber onde vou morar, deixar você escolher nossa casa, carro, vida. Claro que discutimos todos os detalhes, e eu na verdade sei, escolhi junto, vi as fotos, liguei, falei. Mas ainda assim, em outros tempos, ou em relação a outras pessoas, eu não abriria mão do controle total. Mas das minhas ansiedades todas, essa não é uma delas. Mesmo sem saber tudinho, estou tranquila, e não vejo a hora de te ver, e conhecer os novos pedacinhos que farão parte dessa nossa vida.

Sabe, temos a famosa e trágica história da cabra. Ou do cheiro de cabra, do qual fui acusada por você, nas nossas primeiras semanas morando juntos, de ter. Se sobrevivemos a isso, sobreviveremos a qualquer coisa. Mas eu nunca te falei, e, confesso, estou um pouco ansiosa pra verificar agora, depois desse mês longe, sobre o seu cheiro. Desde que te conheci você tinha um cheiro peculiar. Não acho que você vá se importar com essa descrição, depois de ter me dito que eu tinha cheiro de cabra, então vamos lá. Seu cheiro sempre foi algo entre madeira, e mato, com um quê de livro velho.

Imagine só, três cheiros que amo de paixão, mas nunca pensei encontrá-los numa pessoa. Pessoas geralmente ou fedem (me perdoem, mas somos todos mamíferos), ou tem um não tão constante cheiro de toalete refinado, xampu, sabonete, desodorante, perfume. Às vezes, e só às vezes, as pessoas tem outros cheiros, próprios ou das coisas que as cercam. Algumas pessoas tem cheiro de bolo, ou de café. Nos fins de semana meu avô tinha cheiro de graxa e metal. Sabe quando a gente mexe muito com ferro, e fica aquele cheiro metálico na mão? Para mim sempre foi tão característico. Algumas pessoas não sentem. Mas é como carro usado, cada um desenvolve um cheiro próprio. Não é necessariamente bom ou ruim (às vezes é, mas não necessariamente), mas é único.

Quando te conheci você tinha esse cheiro, de livro velho, madeira e mato. Achei que pudesse ser a viagem. Quando te encontrei de novo, vi que não era. Mas quando fomos morar juntos, com o tempo, o cheiro desapareceu. Não sei se eu que me acostumei, ou se o amaciante e os sabonetes novos mudaram isso. Mas acho que não. Nos dias de acampamento, às vezes ainda sentia. E sinto falta. Sempre foram cheiros que me acalmaram. O mato é a tranquilidade. Os livros velhos são a boa companhia. E a madeira é uma certa estabilidade, algo perene.

Antes que me acabe a madrugada, deixo aqui um pedido de desculpas por expor tanta intimidade. E deixo música, como sempre. Bons sonhos para nós. E que os próximos dias sejam leves e breves. Boa noite!

(Minha canção de ninar desde o primeiro boa noite com ela: Blackbird – The Beatles)

(Quando eu finalmente resolvi apostar em nós – Soldier of Love – Pearl Jam)

Spiritual

Faz tempo que não entro aqui. Faz tempo que não me escuto. Ocupada? Sim. Mas é mais que isso, é uma agitação e uma ansiedade que me fazem evitar o contato íntimo com a minha alma. Semana passada ouvi de uma amiga e professora, uma frase que ouvia da minha mãe com alguma frequência: “Ju, você precisa prestar mais atenção na respiração!”. É incrível como quando me abalo o que primeiro sofre é a respiração. Fico desequilibrada, desconectada, física, emocional e mentalmente.

Nas últimas semanas o tempo passou, e eu não. Ou eu passei, e o tempo não. Parece que eu e o tempo estamos desencaixados, descompassados. Ele não sobra, mas também não falta, e ainda assim não consigo cumpri-lo, cumprimenta-lo, olha-lo nos olhos. Estamos em vibrações diferentes. O desejo de dormir, de apagar, de vê-lo passar sem minha participação, aumenta.

Mas quando isso acontece nos distanciamos cada vez mais, fico fora do eixo, fora de mim, fora do tempo. Hoje isso chegou num pico. Percebo meu desequilíbrio. Tive vários pesadelos. Chorei algumas vezes, por cada besteira, ao longo do dia. Agora mesmo sinto meus olhos marejarem e as letras na tela embaçam por alguns segundos. Bebo mais um gole do chá, canela e gengibre, e volto a enxergar.

E o que há de errado, você me pergunta? E eu te digo, nada! E eu me pergunto, o que há de errado, Jurema? E me respondo: o mundo! Decepções, ansiedades, prazos, a loucura das pessoas. Existe algo de muito libertador em trabalhar de casa, estudar, fazer seu horário. E existe algo de muito tedioso, brochante e carregado em expectativas frustradas e ansiedades em escrever e reescrever o mesmo texto por dois anos. Em marcar e ter aulas particulares desmarcadas, em planejar breves viagens de fim de semana e ver a chuva cair, e a mochila voltar pro armário intacta, em fazer planos e eles serem esmagados pelo dia-a-dia inescrupuloso da vida na cidade grande, a cidade que não dorme, onde ninguém tem tempo, ninguém se vê, e um simples café é remarcado 3 ou 4 vezes antes de dar certo, se é que vai dar.

O celular vibra, incessantemente, 24h por dia, 7 dias na semana. Quantas mensagens e ligações são de fato, mensagens para você? Amigos, conversas, familiares? 2 ou 3 talvez, em uma semana boa. Trabalho, negócios, prazos, congressos, eventos, discussões nulas, negociações, preços, consultas, essas ocupam as outras horas todas. Mais uma vibrada, e eis que às vezes são familiares ou amigos de verdade. Pontos de luz. Problemas que se destravam, amizades que se renovam.

Alguns dias são tranquilos, e estar em casa é estar em paz. Alguns dias são angustiantes. Alguns dias são tristes e chuvosos. Alguns dias são de picnic no parque e caminhadas que renovam o amor pela vida. O chá, sempre fiel, ajuda. E a música, essa cura, resolve, acalma a respiração, me traz pro eixo de novo. Se escrevo isso agora é só porque fiz uso do meu remédio preferido, acabei de ouvir Beyonde the Missouri Sky inteirinho de novo. Mais uma vez. Só assim pra conseguir ao menos desabafar. Já compartilhei esse remédio dos anjos mil vezes com vocês. Deixo aqui de novo, novamente, sempre, e pra sempre, a música que me acalma, me traz pro eixo, de um tanto que a tenho na pele!

Que amanhã possa ser um dia de mais eu e menos mundo!

Sobre as viagens

 

Sempre tive esse coração nômade, minha casa é onde está meu coração (Skank – Nômade)

 

 

Durante minha infância e adolescência viajei com certa frequência, mas para poucos destinos. Eu e minha eterna companheira, minha mãe, dona Bia, viajávamos sozinhas, e com orçamento muito limitado, por isso nosso destino de férias era sempre a casa da família de coração na Bahia. Dona Bia garantia hospedagem e umas boas férias para nós duas, entre primas e amigas, sempre tínhamos companhia.

O cheiro do cuscus amarelinho, com leite de coco tirado do pé naquela manhã, as granolas caseiras, a maresia e as histórias do interior coronelista de Dona Zelita. Assim meus dias começavam a cada férias. O cheiro das algas na praia, as pegadas de tartaruga, a descoberta dos pequenos ovos. Eu não tinha mais do que 5 anos, e falei para minha mãe, com uma certa vergonha, que ela estava precisando de um banho, ao que indignadíssima ela retrucou perguntando se eu achava que aquele cheiro vinha dela. Eu fiquei meio sem graça e assim descobri o sargaço, ou a alga que apodrece na areia.

As conchas bolachas, o salvamento das caravela, o cuidado com os ouriço e a eterna caça aos tatuís. A água de coco, o picolé de acerola, mangaba ou umbu. O suco de mangaba que prega a boca. O bolinho frito de peixe, que na época ainda fazia parte da minha alimentação, e os acarajés ao por do sol. Todos compunham os cheiros, as cores, os sons, e os sabores das minhas férias.

Confesso que a primeira vez que presenciei uma caranguejada fiquei chocada, não quis participar e fui dormir mais cedo. Aos poucos a idade e a banalidade da vida me fizeram entender que aquilo fazia parte das iguarias da praia, mas nunca consegui concordar ou gostar. Os picolés, as frutas e o coco sempre foram mais meus amigos nesse ponto.

 

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Uma das melhores partes da praia era a pouca roupa. Nunca fui muito dada às mil camadas de roupas. Até hoje amo um shortinho, e passar a infância só de calcinha de biquíni fez parte. As queimaduras de sol, o ouvido cheio de água e os machucados também. Sempre fui muito desastrada. Mas algumas das melhores lembranças que tenho são do sentimento de aventura.

 

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Hoje em dia sei que essa aventura toda tinha muito mais relação com o orçamento limitado da minha mãe do que com um estilo de vida, embora ela sempre tenha sido hippie, e preferisse deliberadamente as cabanas de praia, os bangalôs, as pousadas, as redes na varanda, o chão de areia e as miçangas aos hotéis e resorts. Ouso dizer que havia até um certo ressentimento quanto aos últimos, que geralmente isolam parte das praias como se fossem privadas e cobram pelo uso, o que a deixava louca.

Seja como for, nós pegávamos os vôos da madrugada, porque eram consideravelmente mais baratos e ela não se arriscava a ir de carro sozinha, comigo pequena e o carro velho. Dormimos muito em aeroportos. As malas eram as que sobravam do resto da família. Aqueles sacolões que hoje em dia as pessoas usam para ir à academia, cilíndricos e grandes, com alças curtas e sem estrutura, além da minha fiel mochilinha. Tive a mesma mochila dos 7 aos 28. Isso somado ao fato de que minha mãe sempre levava os próprios travesseiros, então basicamente a imagem era a de uma mulher muito magra e sem força, chutando um cilindro enorme e pesado, difícil de carregar, cheio de roupas e roupas de cama, um travesseiro embaixo do braço, e uma menina muito curiosa, que precisa(va) ir ao banheiro muuuuito mais vezes que o conveniente, de mochila, uma Barbie na mão, um boné e uma garrafa de água, chutando a “mala” toda vez que ela caía no chão. Eramos quase uma trupe de circo.

Toda essa situação fez com que eu me acostumasse desde muito nova a viajar com pouco peso, dormir em aeroportos, portos, trens e ônibus. Sempre ter meu lanche, afinal comida nesses lugares é difícil de achar, cara e pouco saudável, e essas sempre foram três preocupações da minha mãe. Creio que podemos dizer que éramos farofeiras. Que bom! Isso fez de mim uma mochileira sem frescuras!

Além dessas, quase todo ano eu ia a Pirenópolis, cantinho maravilhoso, pertinho de Brasília, onde nasci e cresci. Os banhos de cachoeira, as trilhas, as pedras escorregadias, o sol inclemente nas trilhas longas, o choque térmico entre a temperatura do ar e da água, a seca, os animais, os insetos, as picadas que doíam por dias, os encontros com macacos, cobras, araras, mil outros pássaros, borboletas azuis gigantes (das quais sempre tive medo) e as bananas para os micos. Tudo isso aprendi lá. Foram inúmeras as viagens com primos, amigos, colegas, às vezes com a escola, às vezes com algum tio, e sempre, com quem estivesse indo. Até hoje não perco uma oportunidade.

Outro dia conto pra vocês as especificidades, tipo roteiro turístico mesmo, dessas viagens e localidades. Aqui, hoje, quero só abrir esse espaço, e contar um pouco da minha trajetória de viajante. Ou como sempre, fazer minhas reminiscências! Afinal, as viagens iam além da Bahia e de Pirenópolis. Eu cresci numa casa com um jardim enorme e uma área verde maior ainda. Cheio de árvores, muitas frutíferas, tínhamos amendoeiras e abacateiros, três variedades de manga distribuídas em seis pés, quatro jabuticabeiras, limoeiro, e também pitanga, acerola, amora, ameixa amarela, fruta-do-conde, e lima. Sem falar na erva-cidreira, hortelã, orégano, tomilho e manjericão. Cenoura, alface e couve. E a babosa, hoje conhecida de forma chique como aloe.

 

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E nesse jardim incrível eu viajava diariamente. Desde muito pequena, algo como meses de idade, frequentei a piscina e o balanço, fiz minhas festas, tomei banho de mangueira, aprendi a jogar vôlei, e a nadar. Compartilhei esse paraíso com primos e amigos, e muitas vezes, sozinha, com bonecas e livros. Sempre preferi ler em cima da árvore. E tinha minha mangueira preferida, com suas mangas espadas sem fiapo, maravilhosas, de lanche da tarde.

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Li O Mundo de Sophia inteiro emaranhada nesses galhos. Chorei todas as dores da adolescência aí também. Aprendi a respeitar os ciclos da natureza e aprendi a conhecer os meus.

 

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E ela foi minha companheira por muitos anos, até os 18, quando nos mudamos dessa casa!

 

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Seja pela família maravilhosa que sempre tive e que sempre me estimulou a ir mais longe e a sair para o mundo sempre, seja pelo orçamento restrito ou pela origem hippie, seja pela curiosidade intrínseca. Acabei mochileira. Ficou o amor intenso por explorar o mundo, por ir em busca do desconhecido.

Espero poder compartilhar outras viagens aqui. Algumas conterão mais memórias, reminiscências, outras serão relatos mais práticos.

Gostaria de ressaltar que essas fotos são do meu aquivo pessoal, tirei fotos das fotos, e a opção por não editá-las e deixar como foto de foto é uma opção consciente. Como se estivesse apenas colando recortes em meu diário. Sintam-se convidados a ler um diário pessoal e a conviver com um estilo pessoal.

Não inseri créditos pois não sei quem foi o fotógrafo de todas. Algumas foram tiradas pela minha mãe, outras por mim, outras por amigos, e familiares. Alguns mais profissionais e talentosos outros menos. Bem vindos a mais uma janela do meu mundo! E vamos viajar juntos!

 

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Canarinha

[*Texto antigo, de 2014, estava em “rascunhos”, postado pela primeira vez hoje, 10/02/2016]

A menina levantou o copo. Quatro se chocaram: um brinde. Algumas cervejas, alguns drinques. Ela viu aquelas faces que a olhavam e sorriam, e sentiu seu próprio sorriso, levantando as maçãs do rosto, fechando os olhos apertados. Quando ia imaginar que em uma segunda-feira qualquer estaria ali, brindando com aquelas pessoas? Quando imaginou dividir uma cerveja com aquelas meninas? Nunca! Um toddynho, talvez!

Piscou, e se viu, diante de seu próprio espelho. Sim, naquele momento a menina era Alice, e estava em plena travessia, espelho a dentro. Nada diz mais sobre você do que ver sua própria infância, desenhada, colorida, em filmes, fotos, camisetas de uniformes, trabalhinhos. Já disse que a menina Alice é professora? Pois bem, Alice volta e meia pinta e borda com seus pequenos. Olhou em volta e viu suas pinturas e bordados ali. Não eram seus. E eram tão seus. Foram ensinados a ela, mas tão bem ensinados, que a menina achou que eram seus. E se sentiu no direito de passá-los a frente como ensinamento. Como se fossem seus para doar. E não são seus? Não foi para isso que lhe foram dados, cada um daqueles presentes.

Pássaros amarelos. Tantos. Tão pequenos. Gordinhos, amarelinhos, de asas curtas e boné azul. Pássaros poderosos. Pequenos canários, que uma vez que lhes ensinem a voar, alçam voo e vão longe. A menina alongou suas asas. Suas recém adquiridas asas. E riu. Riu aquela risada da alma. Se achava tão original com suas asas musicais. Passou a adolescência sonhando com o voo, com o desejo de criar asas. Desesperadamente tentando ser boa e correta e melhor, cada vez melhor, para que um dia alçasse voo. Tola! Para que aquele esforço descomunal em direção aos céus disputados e poluídos do tão falado sucesso?

A menina já era passarinha. Ela se achava uma passarinha nova. Que nada. Bastou Alice se reconhecer naquele espelho. E lá estava ela, em cada um daqueles rechonchudos seres amarelinhos. Como tentar ser uma nova passarinha, se há muito ela já era canarinha?

Procrastinação ou cansaço

Alt + tab. Mudei as telas mais uma vez. Olhei aqueles mesmos blogs, li mais um artigo muito interessante, mas não sobre minha pesquisa. Troquei do notebook para o ipad. Joguei 10 minutos de Plants vs. Zoombies. Falei para mim mesma que essa pausa de 10 minutos é saudável. Abri o Facebook. Erro mortal. Guerra para todo lado. Polarização, emoção descontrolada, pessoas descontroladas, políticos descontrolados. Ódio. Ódio em todos os cantos. Fechei. Abri um vídeo inspirador. Sentei no EVA azul. 5 minutos de concentração e respiração. Troquei a legging. 30 min de prática. Fiz um chá. Enquanto ele descansava, fiz uma vitamina. Tomei a vitamina. Lavei a louça. Levei um copo de água fresca e o chá ainda quente para a escrivaninha. O computador tinha resolvido fazer uma atualização automática impossivelmente longa sozinho. Reiniciou. Alt + tab. 5 vezes Alt + tab. Circulei por todas minhas abas. Por todas as minhas pastas. 6 e-mails novos. Limpei a caixa de spam. Deletei as fotos e vídeos velhos do celular. O chá acabou. Os últimos goles já estavam frios. Repassei em minha mente a lista de compras para amanhã. Hoje já fiz feira. Já cozinhei. Tem sopa pronta. Tem sopa para os próximos dias, e mais congelada. Tem verdura fresca, folhas verdes, muitas frutas.

Olhei pela janela. Atendi dois telefonemas. Li mais e-mails. Respondi alguns. Organizei uma nova pasta com ensaios para corrigir. Certifiquei-me se tinha respondido todos os e-mails relativos ao recebimento daqueles ensaios, confirmando-os. Um gole d´água. Repassei mentalmente todas as atividades que tenho, todos os prazos. Em sete dias tenho que entregar muita coisa. O dia parece não render. Me sinto como a última das procrastinadoras. Abrindo as mesmas abas, vendo os mesmos sites, olhando o whatsapp. Saudade dos amigos. Saudades da minha cidade por uns dias. Amo Brasília nesse início de dezembro, chove muito. Quero visitar meus primos. Dezembro é mês de visitar os primos. Mesmo ainda sem férias, é aquela época que podia fazer minhas caminhadas observando as luzes de natal nas janelas e árvores depois do entardecer. Comer um doce com cara natalina com as primas. Planejar os presentes de natal, ainda que esses fossem caixinhas feitas à mão, artesanatos, biscoitos. Visitar alguém. Faze cartões de natal caseiros.

Mas eu tenho prazos, e me sinto atrasada e inútil. Me sinto culpada. E quando paro para pensar, sem razão. Esse ano eu me mudei de cidade, em um mês estava no apartamento novo, em mais duas semanas a casa estava arrumada. Eu fiz várias pequenas viagens de fim de semana para locais que sempre quis conhecer, cidades que estavam no meu roteiro há quase quinze anos Me tornei voluntária da ONU On Line contribuindo com traduções, que inclusive foram publicadas no site. Participei de um cursinho popular voluntário. Fiz uma apostila de ensino de português brasileiro para refugiados com caráter social, juntamente com outras pessoas maravilhosas que conheci, de conhecimento autoral e livre. Está disponível para download já. Livre. Para todos. Me tornei voluntária numa ONG como facilitadora de reintegração social de refugiados. Mas essas são atividades de tempo livre. Extras.

Fiz um curso paralelo, com muita leitura, vídeo-aulas, e aumentei minha prática de Método DeRose. Aprendi muito dessa filosofia. Impulsionada pelas aulas li sobre a civilização hindu. Emagreci. Me tornei mais forte, mas centrada, mais equilibrada. Muito feliz. Viajei. Ri muito. Fiz inúmeros novos amigos. Conheci mais pessoas maravilhosas. Reforcei minha mudança alimentar. Faço compra na feira, na porta de casa. Vou até a Zona Cerealista (amor no coração) por cereais e grão a preços incríveis. Vendi meu carro. Ando muito mais a pé. Cada volta da prática à noite me rende uma caminhada deliciosa.

Não tenho funcionários, ou faxineira. Lavamos nossa roupa, compramos e cozinhamos nossa própria comida aqui em casa. As tarefas domésticas ocupam um bom tempo, e estão presentes todos os dias. Claro que tem dias que a casa fica suja, porque simplesmente temos mais o que fazer. A comida é feita a cada dois ou três dias, e vamos esquentando. Mas todo dia tem alguma coisa que não dá para deixar de fazer. Além disso, desde que me mudei já entrei num emprego, saí seis meses depois. Tive alunos particulares, estagiei. Corrijo provas, ensaios. Escrevo.

Já fiz todas as matérias obrigatórias do mestrado e quase todas as optativas. Estou adiantada nos créditos e no cronograma. Mas ano que vem tem qualificação. Mas eu tenho prazos. Mas a bolsa não saiu. Mas eu sento aqui, faltando uma semana para meus prazos finais, e Alt + tab. Me sinto procrastinadora. Me sinto culpada. Li recentemente um artigo que fala dos danos psicológicos de uma pós-graduação. Não chego a classifica-los em danos, até porque isso varia muito do emocional de cada um, dos níveis de ansiedade, exigência pessoal e capacidade de organização de cada um. Mas é fato. Esse sentimento de que não fiz nada e estou sempre devendo está ali. O relógio é acionado como cronômetro no dia da matrícula e você vê os dias sendo comidos em direção ao prazo.

E enquanto isso a vida segue. Os dias vão sumindo do calendário. Eu vou ficando mais velha. Mas a vida não para. E acho que o segredo é esse. Viver entre as metas. Não vou parar de ir à feira, nem de cozinhar. A roupa suja vai continuar se enchendo num processo louco e infinito. Vou viajar quando der. Trabalhar muito. Estudar no meio tempo. Ler no ônibus. Virar algumas noites. Dormir em outras exausta. E aprender a lidar com esse sentimento de dívida, de procrastinadora como um sentimento de fundo, tipo música de fundo. Está ali, mas não vou para a vida por isso. Tenho uma vida a viver, apesar da pós. Por causa da pós. Sou estudante, sou trabalhadora, sou de certa forma esposa, sou cozinheira, sou faxineira, sou chef, sou mulher.

Alt + tab. Leio sobre a violência e a polarização política. Meu coração encolhe. Alt + tab, planejo as compras de natal. Alt + tab, falo com os amigos sobre a ida à Brasília. Alt + tab, planejo o natal antecipado em família. Alt + tab, vejo um vídeo sobre como fazer o tradicional panetone de Milão em casa. Alt + tab, leio dois parágrafos sobre o Impeachment. Alt + tab, respondo cinco e-mails. O telefone toca duas vezes. Respondo. Aceito um trabalho. Alt + tab. Escrevo para o blog. Alt + tab. Mais cinco ensaios corrigidos. Alt + tab, meio artigo pronto. Alt + tab, ainda me sinto procrastinadora. Alt + tab, mudo a música de fundo. Fecho as abas. 5 minutos de meditação. Me sinto bem de novo. Vamos trabalhar, seja contra ou a favor do relógio.

Escrevo tudo. Ponho a alma para fora em palavras. Vejo que não sou inútil. Escrever: minha melhor terapia. Me sinto produtiva. Vejo que já fiz muito esse ano. Poderia ter feito ainda mais? Sempre! Ainda tenho alguns dias antes do fim do ano. Dá para terminar. Dá para fazer ainda mais. Tudo? Não sei. Tudo que eu puder. E vamos feliz. Sigo com um sorriso nos lábios cada vez que vejo as horas e percebo que mais um dia passou. Vou lá tirar a roupa da máquina agora. Daqui a pouco tem mais artigo para escrever. Mais ensaio para corrigir. E nesse meio tempo o telefone vai tocar. As abas do navegador vão ser alternadas mais algumas vezes. Vou me sentir procrastinadora. Vou me sentir cansada no fim do dia, e muito, mas muito feliz no fim do ano.

Van Gogh

Van Gogh. Sempre ele. O primeiro quadro que tive num quarto que pude chamar de meu, ainda na infância, e que não fosse decoração de bebê, foi esse. Estrada com Cipreste e Estrela. Road with Cypress and Star. Não é meu preferido. Mas sempre foi o mais meu. Minha paisagem. Minha janela. Meu canto de estudos, meu enfeite. O quadro do meu quarto. Devido às muitas mudanças dos últimos anos ele já não era meu quadro do quarto. Por três anos esteve engavetado. Eis que hoje escrevo sob as bênçãos da estrada, do cipreste, dos trabalhadores cansados que compõe a paisagem, do pequeno chalé ao fundo, da carroça que segue com duas pessoas dentro e das estrelas. Eis que hoje voltei a ter meu Van Gogh no meu quarto. No nosso quarto. Ele não é mais só meu. Não pendurei os quadros sozinha, muito pelo contrário.

A nova casa está pronta. A nova vida já começou, enquanto eu, muito preocupada em fazer a vida funcionar, já vinha vivendo-a há pelo menos um mês, quiçá dois, e na pressa de ser responsável, mal vi a vida que vinha vivendo. Hoje ela está estampada nas minhas paredes. Não vivo mais na minha torre solitária, tão minha, só minha. Meu império de pouquíssimos metros quadrados. Me sentei no sofá no final da tarde, louça lavada, roupa na máquina, geladeira cheia de comida, quadros na parede e me vi na nossa casa. Na minha casa que não é mais só minha. E mais que isso, o muito mais talvez, não seja que ela não é mais só minha, é que é uma casa de verdade. Tem paredes de verdade, de tijolos, que dividem os aposentos. Aposentos, no plural. Não é grande, pelo contrário, mas é uma casa de adultos. Com quadros na parede. E meu Van Gogh lá. De novo. A terra é redonda e gira. A vida é cíclica. E a minha completou um belo giro, e começou um giro e tanto.

É carnaval. Ontem eu fiz faxina o dia todo. Hoje cozinhei e arrumei a casa. Foi bom. Também descansei da semana de trabalho novo. Sabe o que dizem das crianças, que precisam dormir mais, pois tudo é novidade e é necessário sono para consolidar o aprendizado e recuperar as energias, mais do que nos adultos. Sou criança de novo. Tenho sentido desespero diário por reiniciar o disco, para configurar as atualizações diárias. É um mundo novo. Cidade nova, casa nova, emprego novo, namorado novo, vida a dois, tudo novo. As ruas são novas, os caminhos me distraem. O emprego é novo, as crianças são outras, o material bonito me distrai. A casa é nova, as necessidades de arrumações e reparos me distraem. O namorado é novo, tudo me distrai. Preciso reiniciar e configurar as atualizações de disco. Ainda bem que meu HD tem boa memória.

220V, 110V. Eletrodomésticos novos. A voltagem me distrai. E-mail do orientador. Novos professores me distraem. Mensagem inbox do facebook, projeto novo, aulas voluntárias. As oportunidades me distraem. Pastel na feira. Cesta de orgânicos. Mercado novo. As gondolas de mercadorias me distraem. 3G, 4G, cabo, fibra ótica. Wi-fi ainda não foi instalado, a falta de internet me distrai. Dados rolam sobre a mesa, cartas trocam de mão, peças vermelhas, peças brancas, fichas, cadê a lapiseira? Jogos me distraem. É sua vez. É minha vez.

É minha vez. Nada me distrai mais do que a atenção que posso gastar comigo mesma. Vinte oito anos e agora minha vida é minha. Plena. Toda minha. Cheia. Atribulada. Como não poderia deixar de ser essa minha vida de JuReMa. Como não me ocupar vinte quatro horas, sete dias, doze meses? Como não fazer trabalhos voluntários, estudar, trabalhar, escrever, ler, blogar? Cozinhar, lavar, passar(?), arrumar, ir ao mercado? Como não ser JuReMa. Ser JuReMa é bom. Sofia saiu das páginas. Está vivendo plenamente a história que escreve para si própria. No pulso trago para sempre minha cidade. Nas costas trago para sempre meus pais. E os pássaros. E a música. A combinação perfeita das minhas asas. Voo nas minhas asas. Me carrego dentro do meu próprio sonho, e não há mais como distinguir realidade da fantasia. Virei palavras e as palavras viram realidade a cada carácter impresso no papel.

É assim que viro história. É assim que minha história vira vida. É carnaval. Não fujo da realidade através de fantasias, bebidas, momentos de devaneio. Mergulho nela entre louças, roupas, reparos, estudos, manuais escolares, noites de filme no sofá a dois. Talvez amanhã eu saia. Talvez veja o carnaval na rua. Mas não preciso nesse momento sair para carnavalizar. Levei meu bloco para a realidade através de minhas palavras. Dos meus sonhos. Das minhas asas. E hoje ele teve gosto de risoto e cupcake. Amanhã talvez seja de arroz com feijão, ou de cesta de orgânicos na terça-feira de carnaval.

O cipreste continua a apontar para as estrelas. Elas iluminam o caminho. Os trabalhadores me observam. No próximo fim de semana já terei wi-fi. Depois da terça-feira uma nova cesta de orgânicos. E novas palavras terão escrito mais linhas da minha vida-sonho, que tem sido tão cheia de novidades. Vou reiniciar o disco. Atualizar o novo. Sempre. Seguindo a noite estrelada de Van Gogh, seu céu multipincelado que me remete ao saudoso céu de Brasília. Escrevo sobre o sonho vivido logo mais. Antes vou sonhar a vida mais um pouco. E carnavalizar, meu bloco nas ruas do meu pensamento, nas linhas que fluem dos meus dedos. As estrelas iluminam esse caminho. Sejam as de Brasília, sejam as de São Paulo, sejam as do Van Gogh. Boa Noite e bom carnaval.

Uma cesta de orgânicos

Hoje eu acordei com a campainha antes das sete da manhã. Última semana de férias. Normal ainda estar na cama antes das sete. Levantei zonza. Dormi tarde, vendo filme. Acordei durante a noite, faz calor. É verão. O verão de 2015. O primeiro verão do meu mundo novo. Não tem água na torneira para lavar o rosto. A higiene mínima matinal é de caneca, bacia e balde de água armazenado embaixo da pia. Eu me lembro dos casarões antigos que já visitei e dos conjuntos de louça trabalhada, bacia, jarra e caneca, apoiados sobre uma cômoda, toucador ou penteadeira. Talvez os tempos sejam mesmo cíclicos e tenhamos alcançado o esgotamento que nos fará retornar ao passado no futuro. Meu presente não é tão romântico, e embora a pia ainda seja a encanada, pregada na parede e de louça, a caneca e o balde são plásticos. Talvez esse seja o futuro com ares de passado.

Recebo na porta uma caixa de papelão contendo vários alimentos orgânicos. Selo estampado na lateral. Nota fiscal impressa no topo. Confiro, os dados estão certos. Foi o pedido que fiz pela internet. Futuro e passado batem à porta as sete da manhã. Alimentos de quintal. Pedido feito pela internet. No rodapé da nota fiscal é possível ler a mensagem que diz que o pagamento pode ser feito em dinheiro, cheque ou por depósito/transferência eletrônica para a conta especificada. Passado e futuro batem à porta. Guardo os de refrigeração imediata e volto a dormir. Ainda estou de férias.

Estou de férias? Acordo uma hora e meia depois remoendo a pergunta. Sim e não. Meu passado recente e meu futuro de uma semana adiante chegam a mente. Troquei de emprego. Estou de férias do último. Mas começo na próxima segunda em um novo. Férias? Eu tive férias nessa passagem de 2014 para 2015? Em dois meses tive até agora cinco dias espaçados para não fazer nada, ou fazer uma pequena viagem à praia. Descanso não tive. Em menos de dois meses empacotei tudo o que tenho. Resolvi pendências há muito estagnadas. Pendências bancárias, pendências burocráticas, pendências cotidianas, pendências emocionais. Entreguei o aluguel de um apartamento, meu primeiro refúgio só meu. Pedi demissão. Me desliguei de muitos vínculos. E fui. E vim.

Já estou aqui. Recebendo uma cesta de orgânicos que bate à porta às sete da manhã de uma terça-feira qualquer. Uma terça-feira qualquer? Não. Hoje não é um dia qualquer. Todo os dias desses últimos dois meses foram únicos e inigualáveis. Meu presente tão presente. Presente pela intensidade da sua vivência em cada segundo. Presente pela necessidade que me fez viver esses dias pensando neles e só neles. Presente por conterem um futuro incerto. Presente por conterem um passado tão próximo. Presente por serem tão únicos. Presente por serem minha escolha. Meu presente para mim mesma. Presente por cada um que tem feito parte deles. Presente porque são o meu agora e isso é todo o meu mundo.

Meu passado recente (recente?) dos últimos dez anos incluem seis mudanças de endereço, a perda dos meus pais e dos meus avós maternos, que me criaram. Incluem a mudança para lugares cada vez menores e cada vez mais afastados da casa onde cresci. Uma parte dessas mudanças ocorreu por decisões maiores que eu, e só pude acatar. Nunca me incomodei. Me cansei. Muito. Trabalhei loucamente. Estudei mais horas do que cabem em um dia. Vivi semanas de muito mais do que sete dias, e dias de muito mais do que vinte e quatro horas. Vivi dez anos que valeram por uma vida inteira.

Outras mudanças foram voluntárias. Viagens, lugares só meus. Lugares compartilhados. Mudanças que escolhi. Todas possuem algo em comum. Todas foram necessárias. A necessidade é algo muito curioso. Normalmente vemos a necessidade como algo negativo. Como falta de opção, de alternativa. Uma força maior nos obrigando a algo. Esquecemos que sempre há uma escolha. Às vezes essa escolha nem é pensada, pois a alternativa está além das nossas capacidades físicas, financeiras, morais, ou algo assim. Mas sempre há uma alternativa. Por isso nem toda mudança voluntária é desnecessária. Muito pelo contrário. O caminho que fiz até aqui foi absolutamente necessário.

Precisei viver todas as adversidades que passei. E precisei viver todas as superações também. E preciso viver os sonhos. Preciso viver as vontades. Preciso viver as curiosidades. E esse caminho me trouxe à uma cesta de orgânicos às sete da manhã dessa terça-feira. Ainda estou pseudo-acampada. Mais da metade das minhas coisas ainda estão empacotadas, encaixotadas, lacradas. Nos últimos dois meses vivi dias intensos. Exame demissional, exame admissional. Entrevistas, treinamentos. Um novo caminho de metrô para aprender. Um trajeto de ônibus fácil e bem sucedido adicionado à lista de caminhos conhecidos e traçados. Um descontentamento com o Google Maps num ônibus que me levou para o meio do nada. A alegria do Santo Waze.

Mais de novecentos quilômetros de estrada. Falta de água. Racionamento. Políticos que dão outros nomes ao fato de que a água é cortada ao longo do dia. Ao fato de que a pressão que vem da rua não é suficiente para que o fluxo de água acione a resistência do pequeno chuveiro elétrico. Banho frio. Higiene básica feita de caneca e balde. É esse o futuro? É esse o passado? É verão. Eu não ligaria o chuveiro mesmo que houvesse alternativa. O calor incomoda. O banho bom é frio. E o inverno? E o futuro? Lavo as folhas orgânicas na bacia de água que peguei do balde, e cozinho o almoço. Nada de água corrente. Economia e silêncio, no movimento que lembra passado e traz gosto de futuro. Assim como minha cesta de orgânicos, que pedi pela internet.

Mais um apartamento para ver à tarde. Vou a pé. É perto. Se conseguir fechar a documentação, poderei ir para o novo trabalho a pé todos os dias. Uso o aplicativo do iphone para scanear os documentos necessários e enviar para o corretor e tentar garantir o apartamento.  Recorro ao Google Maps e ao Waze na volta para casa. Lavo a louça e a roupa enquanto tem água na torneira. Mas já sei que na hora de escovar os dentes antes de dormir, será com caneca e balde. Jantarei uma sopa. Fiz com os orgânicos. Receita da vó. Um filme no netflix antes de me sentar para trabalhar um pouco no notebook. A roupa seca no varal, e a umidade que evapora, ao lado do ventilador, amenizam o calor do verão. Meu futuro tem ares de passado e assim mesmo é desconhecido e incerto. Às novidades relembram meus gostos mais antigos e pessoais de infância e adolescência.

Sou tão eu. Me sinto feliz nesse novo mundo, que tem ares de passado. Familiaridade no desconhecido. Saudades do que ainda não vivi. Jamais Vú todos os dias. Banho de caneca e orgânicos pedidos pela internet. Ainda estou de férias e a cabeça tem tempo livre. Tempo para divagar sobre tudo o que já estudei. Meu gosto tão predileto por história, política e filosofia. Sim, o futuro tem gosto de passado. Assim como a sopa da vovó, feita com orgânicos pedidos pela internet e lavados na caneca. Meu futuro inclui muita leitura, muito estudo, assim como minha vida inteira. Meus jogos, meus gostos, minha sopa da vovó. Me repito, repito meus ancestrais. E tudo é novo. Tudo é futuro nesse meu presente tão bom, tão novo. O presente é um futuro com gosto de passado. O presente é tudo que trouxe do passado para fazer um futuro novo e único. Deja Vú. Jamais Vú.

Uma cidade nova. Uma casa nova. Um emprego novo. Estudos novos. Namorado novo. Corte de cabelo novo. Ano novo. Vida nova. E uma cesta de orgânicos lavada sem água encanada. Num verão ardente. Uma receita antiga. A música que me acompanha enquanto cozinho vem do itunes. Salvo meu texto na cloud. E escrevo para viver. Para me tornar Sofia. Para virar história em palavras, como a humanidade sempre fez. O futuro tem gosto de passado renovado. O mundo é redondo e gira. E o meu fez uma volta de 360, para uma vida nova. A vida que eu sempre quis e não sabia. Um sonho que nunca sonhei e se realiza assim mesmo. Meu presente.