Sons novos e meus sons

Estou pela primeira vez escrevendo dentro da minha casa nova. Nossa. De verdade. Assim, tipo, de papel passado, que nem o casamento. Eu demorei quase um ano pra conseguir chamar o André de marido sem rir, ou me sentir uma dona de casa louca dos anos 50. Será que com o apê vai ser assim também? Ainda não me acostumei com os sons. Eles quase não existem, veja bem. Mais às vezes a porta do vizinho bate e eu não sei se foi aqui ou não. Sou de novo um alien, uma estranha, uma estrangeira, mesmo dentro da minha casa.

Olho um pouco pro lado e vejo meu cão, o Picot, esparramado no sofá. Temos um sofá esparramável agora. Isso também me assusta um pouco. Percebo que o som dos meus dedos nas teclas soam altos demais. A casa está silenciosa. O som é estranho. Parece que digito com mais força que o necessário. Parece que desaprendi a escrever. Esses sons, essa falta de som, vão me deixar louca. Pauso a escrita e aperto o play. Respiro, inspiro e expiro profundamente com as primeiras notas. Enya. É clichê. Eu sei. Mas as palavras voltam a fluir junto com o Oniroco nos meus ouvidos. Já não escuto meu pescoço estralando, a borracha das botas apitando no piso azulejado ou o som das minhas teclas ou das outras, pois em outro cômodo o André também está no computador dele. Dois mundos, duas vidas. Nessa nova casa cabem muitas.

É a segunda vez que mobílio uma casa quase que de uma vez só, considerando o básico. Isso sempre me assusta. Me sinto ousada demais, comprometida demais com essa vida, esse futuro. Mas aí lembro que não é a primeira vez que faço isso. Já aprendi que as coisas, os objetos, os móveis, as roupas, eles vêm e vão, com o vento, com a vida. E a minha é dessas. Às vezes me sinto abençoada até demais, e fico com medo do que espreita na próxima esquina. Em outras lembro de tudo o que já passei, e lembro que mesmo quando a onda sobe, consigo ver claramente, por baixo das espuma branca, o verde claro, o verde escuro e o azul profundo. Sim, eu conheço intimamente aquele azul profundo. Já estive lá tempo suficiente para aprender a respirar embaixo d’água. Para aprender que tenho nos meus braços fibra suficiente para retornar, quantas vezes forem necessárias. Sobrevivo ao mar porque sou maré. Vou e venho mais que ele, vou e venho porque sou quem o faz subir e descer.

Tinha esquecido do chá. Verde com raspas de laranja. Comprei em Granada. Que cidade maravilhosa. Estou devendo os detalhes dessa mudança louca e incrível. 2005, uma mudança de casa, a da infância para o purgatório. 2009, do purgatório para a (única de verdade) casa da minha mãe. 2012, fuga cega de lá, fugindo da morte e do futuro, refúgio no porto seguro da família. 2013, minha casa de bonecas, meu mundo turquesa, branco e lilás, com pássaros em todos os cantos! 2014/2015, um mês na casa do outro, descobrindo a vida a dois. 2015, a construção de um lar a dois. Pedacinhos da minha casa de boneca se fundiram com móveis de família, coisas que já estavam lá, novo e velho e sua síntese. 2016/2017, país, cidade, praticamente mundo novo. Nada meu, nada nosso. Nenhum direito à propriedade. Muito direito à liberdade. Neve e montanhas. Queijo de cabra e chocolate. Muita introspecção e muito saco de dormir, fogareiro e lampião. 2017/2018, ufa! Uma casa para chamar de nossa. Ikea. Espaço. Quartos. Assim, no plural. O barulho do trem na janela, e todos esses outros barulhos que ainda não sei nomear. 9 casas, e contando.

Só tive cortinas, dessa que se compra na loja, decorativa, em duas delas. As duas que mobiliei. As outras ou eram muito passageiras, ou não eram tão minhas. Quando pendurei aquelas cortinas turquesa, cheias de pássaros brancos, sabia que precisava daquela luz azul filtrada, e daqueles pássaros para decorar minha pequena gaiola de 20m2. Vivi empoleirada ali o tempo suficiente para aprender a voar. E voei muito. Muito mais longe do que imaginava. Só não tinha aprendido ainda, que para levar um coco, são necessárias duas andorinhas. Talvez por isso esse novo voo seja tão longo e as distâncias tão grandes. Agora somos duas andorinhas, levando esse coco pelo mundo. Olho minhas cortinas cinza. Penso nisso. Eu, que sempre fui fã das cores, de tudo junto e misturado, das casa de boneca, dos contos de fadas, agora tenho uma casa monocromática. Preto. Branco. Cinza. Talvez aqui eu perca o medo ou me acostume com a ideia de ser adulta. Não, o fato de 31 anos ainda não me fez aprender isso.

Ao mesmo tempo que vejo nesses muitos quartos, assim, no plural, e nos tons sérios, uma vida possivelmente mais adulta e muitas possibilidades e desafios incríveis, além de oportunidades muito boas e concretas, se abrindo nesse novo horizonte, sei que o armário da cozinha continua tendo cookies e chocolate cremoso. Que a faxina continua sendo postergada ao limite. Que nós ainda fazemos fortes de travesseiros, e todas essas almofadas desse enorme sofá somadas à mesa de centro só fazem isso ficar mais fácil.

Que parte da nossa decoração, a única do momento, se constitui em mini personagens de desenho animado, de plástico colorido, que ganhamos na promoção do supermercado. Agora nossos livros de filosofia e línguas dividem a prateleira com o Capitão Cueca, o burro do Sherk e a Zebra de Madagascar. Espero que essa síntese, das cortinas cinza e do burro de madagascar cueca me ajudem a continuar crescendo, a continuar mais próxima da espuma branca do que do azul profundo. Que eu não tenha medo dele, mas me lembre bem da sua cor e da sua falta total de sons para que os sons estranhos de agora não me assustem.

Lauper canta na minha orelha e eu lembro que é parte da vida só querer diversão. Que eu me autorizo a ter 31 anos, um apartamento digno de adultos e comer chocolate cremoso por cima dos cookies enquanto assisto maratonas do netflix debaixo do forte de travesseiros. Que eu me autorizo a me sentir soterrada pela burocracia, e que a vontade de jogar tudo pra cima não é só minha. Quem sabe um  pouco de som dos 80’s dançando na sala com o cachorro e rindo do marido não façam eu me acostumar com todo esse cinza, toda essa papelada e toda essa vida concreta da mesma forma que me acostumei com a palavra marido. Perdi o medo dela, depois de revirar que nem uma bala na boca, esperando derreter, que nem doce.

Continuo com medo dos ventos que me levam por aí em busca de novos sons e novos chocolates. Mas já sei que em vez de perder casas, vou colecionando elas. E pra deixar o momento mais perfeito a Salmazo me canta sobre a palhoça dela. Acho que vou lá tirar nossa fotografia do dia, e encher essa sala dos meus sons. Desconecto o fone de ouvido do computador e salvo o texto. Vou dançar comendo chocolate cremoso.

 

Gypsy Heart

Meu coração é nômade e esse assunto não é novidade já existem alguns posts com a temática. Mas eis que agora me vejo novamente numa casa nova, numa cidade nova e dessa vez num país novo. Então resolvi escrever de forma um pouco mais pragmática contando sobre minhas mudanças e meu gypsy heart!

A caneca na minha mão é a mesma: NYU Sister! Ganhei do meu primo-irmão e essa já é minha quarta casa com ela! O chá varia o sabor. A vista muda bastante e até mesmo a família. Aliás, essa varia mais do que eu teria imaginado na minha vida.

Aos 15 anos fui para Rapid City, South Dakota, num intercâmbio de verão. Fiz muitas caminhadas nas montanhas e percebi que não conseguiria viver sem isso. Sem as viagens, sem conhecer lugares novos, sem estar sozinha por mais tempo do que as outras pessoas consideram normal. Foi circulando o Sylvan Lake, e conversando com uma queridíssima amiga de infância que percebi que o que eu mais queria com aquela idade era sair de casa. Não porque ela fosse ruim ou porque eu tivesse problemas com a família, muito pelo contrário, cresci numa casa cheia de amor, incentivo e liberdade, e mesmo com a parte da família mais complicada, a paterna, ouso dizer que dos 15 aos 19 foi o período de maior e melhor convivência!

A vida me segurou junto a família por alguns anos mais, os últimos que eu passaria com eles, e por isso agradeço não ter saído antes. Aos meus 18 nos mudamos da casa onde cresci, com o melhor quintal do mundo e todas as minhas memórias mais queridas, felizes, o lugar que me fez quem eu sou! Não consigo passar 1 dia sem lembrar e falar daquela casa mágica! Daquele casarão que meus avós transformaram em muito mais do que um lar, era o verdadeiro porto seguro da família, o paraíso dos netos, a terra da brincadeira, a melhor escola, o melhor clube, o melhor pomar, a melhor horta. Era nossa colônia de férias, o reforço escolar, era nossa vida! E que privilégio ter tido essa vida naquela casa! Nenhum castelo de conto de fadas faz jus! Lá era melhor!

Fomos para outra casa, ainda os quatro integrantes da família então, eu, minha mãe e meus avós maternos. Essa segunda casa, onde vivi cerca de 4 anos e meio, foi meu purgatório. Nunca gostei muito dela, tinha uma sala grande e escura, janelas grandes demais para abrir e fechar com facilidade nos quartos, a terra do quintal tinha muito plástico e restos de construção misturados, mas fizemos nossa vida da melhor forma lá. E foi morando lá que fiz minha faculdade, foi o lugar onde menos dormi. Foram anos de hospital, foi onde perdemos meus avós. Mas foi também onde meus cachorros, os meus mesmo, não da família, vieram, e foram meu alento. Desse lugar não guardo muito amor. Mas sei que foi útil e compreendo o papel daquela casa e desses anos na minha vida. Trabalhei muito, estudei muito, e tive um banheiro só pra mim pela primeira vez, um luxo muito útil nessa fase de dificuldades e horários loucos.

De lá nos mudamos para a que ficou na minha memória oficialmente como a casa da minha mãe! Como ela morou muitos anos com os pais, e quase toda a nossa vida juntas, essa foi a casa dela. Como já era adulta e já trabalhava, lá pude contribuir, e vivíamos como roomies. Foi quando pude decidir mais sobre a casa, embora não fosse ainda minha casa. É um lugar lindo e até hoje é minha casa na cidade onde nasci. Existe um carinho eterno por esse lugar, pois foi onde me tornei mulher de fato. Onde assumi oficialmente a responsabilidade pela minha vida, e muitas vezes pela dela também, onde recebi meu diploma, onde paguei contas pela primeira vez.

Além disso era uma casa de tamanho perfeito, bem menor do que as anteriores. Isso é um ponto muito curioso. Minhas casas tendem a diminuir. E não só por necessidade, mas por gosto. É o gypsy heart falando. É minha vocação pela viagem, por estar leve. O peso das coisas, as raízes, foram coisas que fui deixando aos poucos pra trás. Morei nessa casa por 3 anos e meio. Saí de lá de forma muito confusa, em meio a morte da minha mãe, e demorei muitos meses para conseguir me despedir do lugar.

Morei depois disso por 1,5 ano com meu padrinho, e recebi muito amor e carinho de todos naquela casa. Tive um quarto cuidadosamente arrumado para mim, e muita liberdade e apoio. Ficou como minha casa oficial. Mesmo depois de já ter saído de lá faz 4 anos, continua sendo meu endereço pra assuntos oficiais, pois como me mudo com frequência, sei que se a correspondência mais essencial chegar lá, serei encontrada! Cresci emocionalmente muito lá. Foi rápido e na marra.

Fui então finalmente morar sozinha. 11 anos depois daquela volta no Sylvan Lake, quando já tinha decidido isso como minha meta pessoal. Montei minha casa de bonecas, num dos menores lugares que já morei. Só não foi o menor, porque morei por 40 dias em Londres num menor ainda! Mas meu cantinho pequenino foi meu lugar de reconstrução. Foi onde mais tive coisas e posses minhas, apesar do tamanho, era tudo meu ali. Ali me recuperei, corpo, alma, mente, tudo! Mudei minha alimentação, li como nunca, trabalhei como nunca, dancei como nunca, pois de fato não tinha ninguém olhando. Lá aprendi o prazer de estar sozinha. De chorar em voz alta, berrar, de rir só, de ouvir a música que quisesse, de usar a roupa que quisesse ou nenhuma. De ficar horas calada contemplando a janela. Lá me achei como nunca. Se houve um lugar que fui JuReMa, da forma mais plena, foram naqueles 20m2.

De lá fui pra outra cidade, juntei as escovas de dente. Morei em dois apês em SP. Um por um mês e outro que foi mais que minha casa. Foi nossa casa. Bonita, arrumada, bem localizada, acolhedora. Lar dos amigos. Ali poderia ter morado o resto da minha vida.Morei 2 anos.  Bom, talvez não tanto, pois a cidade grande foi me engolindo, os gritos advindos da balada, o barulho do trânsito, o ritmo frenético da metrópole foram acordando no meu coração a necessidade de seguir andando.

Vocês já viram o filme Chocolate? Se não, vejam! Hoje! Eu sou assim, se o vento bate torto, eu tenho que segui-lo. Durante muito tempo achei que uma hora uma pessoa finalmente me faria sossegar. Quebrar minhas amarras com o passado e sossegar. Mas foi o contrário. Encontrei outra alma nômade, perdida por aí enquanto andávamos, nos procurando e procurando seja lá o que for que tanto procuramos nessas andanças.

Me casei, de papel passado, para poder viajar mais, ir mais longe. Não foi pra sossegar. Em vez de comprar uma casa e fazer uma lista de presentes, vendemos tudo o que tínhamos! Casamos para partir! E cá estou, em uma nova casa. E sabe do mais incrível. Ela já tem data marcada pra não seguir sendo nossa. Os planos ainda estão disformes, ainda existem burocracias e necessidades, mas não creio que será meu lar por mais de 1,5 ano. E assim posso dizer que em 13 anos, desde os meus 18, vivi em 8 casas, fiz mudanças grandes, mudanças pequenas, às vezes fui com a roupa do corpo e mais uma mochila, às vezes paguei caminhões e levei tudo. Uma coisa se consolidou com força e certezas inigualáveis, minha casa é onde meu coração está.

Não sou do tipo de gente que coleciona coisas ou conquistas, sou do tipo que coleciona memórias e lugares no mapa! Sou agoniada por natureza, nasci antes da hora, de 7 meses, e sinto que estou sempre assim, uns meses adiantada, uma vida atrasada! Quero poder seguir andando e ver o que esse mundão tem pra me mostrar. Quero conhecer os lugares pela inclinação do sol e as estações pelo cheiro do ar. Já não tenho problema nenhum em ter poucas coisas e quanto menos tenho, mais acho que possuo em excesso. Agora estou sonhando com uma vida ainda mais nômade. Quero poder não dormir duas noites no mesmo lugar. E assim sigo. Inquieta para os que olham de fora, mas cada vez mais segura de mim! A certeza de que essa sou eu, e que me comporto assim mesmo. E que não busco nada para substituir, apenas para ampliar.

Já achei que estivesse buscando aquilo que faltava. Hoje sei que não me falta nada, nunca faltou. Só faltava essa certeza. Sempre tive e sempre terei tudo o que preciso dentro de mim. Mas preciso continuar seguindo. Essa sensação de que o mundo todo é minha casa e de que me sinto bem e a vontade onde quer que eu vá é a melhor. Quando lugar nenhum é a sua casa, mas todos os lugares são, essa sim é minha grande conquista! Saber disso é o que me traz paz.

Há claro o período de adaptação, conhecer os eletrodomésticos novos, aprender os novos horários, descobrir os melhores mercados, e aí, quando estiver bem conhecido, rotineiro e seguro, aí a gente pega a vida e sacode, joga tudo no ar e vamos descobrir onde tudo caiu, junto e misturado, como as novas runas que indicam um novo caminho. Aprendi que essa incerteza não é triste e nem solitária, a incerteza é minha maior certeza!

Não se assuste mundo, por favor. Algumas almas são nômades. Algumas pessoas precisam ir e vir para conseguir continuar vivas. Deixar pra trás não significa não gostar, apenas o impulso de seguir que é mais forte. Sempre achei que essa minha necessidade me faria muito solitária, mas hoje, além de ter encontrado outro nômade, descobri que só coleciono amigos, trabalhos, pessoas, locais, como quem coleciona jogos americanos novos a cada primavera. Algumas coisas não mudam, outras mudam todos os dias. O sabor do chá na caneca muda sempre, essa caneca já está comigo há 4 casas! E talvez não esteja na próxima, ou talvez esteja, mas o hábito do chá certamente estará. Minha certeza hoje não está nas coisas, em nenhuma delas, está em mim!

Quem é Juliana? A menina da caneca roxa? Dos óculos vermelhos? Não ou sim. Mas a Juliana é certamente aquela que ama chá, a vegetariana, a brasileira, a que ama livros, a que faz Yôga, a que fala demais e alto demais, a que chora pela família que já se foi 1X por mês, a que gosta de viajar. E para ser assim, para ser eu mesma, posso e devo ser em qualquer lugar!

Quantas casas contabilizarei até o fim dessa década de vida que só começou? Pretendo bater meus recordes! ❤

Sobre o sim o não e o talvez

Hoje estou ansiosa. Desde que acordei. Uma nostalgia, uma saudade. Uma saudade do passado, e uma saudade do futuro. Sim, eu sofro desse mal raro, compartilhado por alguns compositores, outros letristas, poetas e autores. Eu sinto muita falta do que nunca vivi. Minha nostalgia me abate com a força de um romance inglês do século dezenove. E se desenrola na forma de borboletas no estômago. Talvez por isso eu tenha medo de borboletas. Enquanto dizem por aí que essa sensação é aquela do novo, do inusitado, para mim tem ares de gastrite nervosa.

Sempre fui boa em traçar e cumprir metas. Gosto de ter objetivos. Nesse ponto, vivi, durante anos, a vida como um vídeo game. Sempre completando as tarefas de cada fase, e, acreditem, os chefões que já enfrentei para passar por cada uma delas não foram poucos e nem pegaram leve. Acho que em algum momento em torno dos meus dezoito anos alteraram a configuração e o jogo foi do easy mode para o hard! Mas não me incomodo com as dificuldades. Às vezes sofro, mas sofrer faz parte, e se visto como aprendizado, o sofrimento pode virar benção. Com tudo o que já vivi, não perdi a alegria de viver, e ouso dizer que até tenho mais do que a média. Sei que o copo está sempre cheio, mesmo que seja cheio de ar, e aprendi a me divertir com o ar, e somente ar, desde a infância. Está entre as características daqueles que brincaram muito sozinhos e aprenderam a respeitar a vez do ar de falar.

Mas existe uma inquietude em mim. Uma vontade de ver outras paragens. Essa inquietude se manifesta com especial predileção nos finais de tarde. Quando criança podia passar o dia todo dentro de casa, lendo um livro, feliz. No fim do dia batia a saudade de tudo que nunca vi. Uma nostalgia com cheiro de grama molhada de chuva. Um sonho de voar com o vento. Era a hora de sair pelo jardim, caminhar descalça, subir na árvore, e olhar o lago. Era a hora de esperar por navios piratas num lago artificial. Era a hora de aguardar pelo desembarque do Capitão Gancho no fundo do meu jardim.

Essa nostalgia tendia a se dissipar com a chegada da noite e a necessidade de entrar em casa em busca de um banho, um pijama quente e uma sopa da vovó. A rotina me lembrava que eu era só uma menina. E que a menina tinha que ir para a escola no dia seguinte. E lá eu ia, com minhas metas pequenas, contando quantas páginas tinha lido num dia, quantos livros num ano. Em quantos desenhos eu tinha tido a paciência de pintar todo o céu de azul. Parece bobagem, mas se você escavar a lembrança dos tempos de jardim, estou certa de que se lembrará de como o céu de uma folha A4, sobre o desenho a lápis, parecia um infinito, que nunca terminava. Era necessário apontar o lápis azul claro mais de uma vez para terminar o céu. Quem terminava o céu? Quem tinha tempo para isso?

Quando eu pintava o céu em rajadas soltas, confesso, às borboletas vinham me visitar. A ansiedade me atacava, e às vezes, eu desistia do céu azul. Para que isso não acontecesse, eu dividia o céu. Quadriculava o céu com linhas finíssimas, quase invisíveis, com o próprio lápis azul claro, e ia um quadradinho de cada vez. Ah, paz! Como eu me sentia em paz pintando um quadrado por vez. Era fácil, simples, não cansava e a meta era bem definida e de fácil alcance. Quando eu menos esperava, os quadradinhos acabavam, e eu me deparava com uma A4 perfeitamente preenchida. Meu céu azul! Minha meta cumprida, um quadrado por vez. Sem borboletas. Ou, se elas lá estivessem, estavam no céu e não no meu estômago.

Até o fim da faculdade eu consegui viver a vida assim, um quadradinho por vez. Metas definidas pela sociedade. Terminar o semestre, terminar o curso, conseguir um diploma. Fazer cursos de extensão, de línguas. E aí uma hora isso tudo acaba, e lá vem o lápis azul claro em rajadas soltas, com a força e a suavidade do vento. E me deixou à deriva. E me trouxe borboletas no estômago. Veja bem, quando digo à deriva não quero dizer perdida, nem parada. Um curso aqui, um preparatório ali. Quando vejo já são alguns anos no emprego “novo”. Quando vejo já são mais alguns títulos e outro tanto de certificados.

Mas agora, por mais que tente seguir um quadradinho por vez, não estou mais pintando uma A4. Não sei o tamanho dessa vida. Ela é 3D. E fluida. E como naqueles livros de aventura da pré-adolescência, se eu tivesse escolhido a página 73 me depararia com uma quantidade de quadradinhos azuis, já na página 84 são outros tantos, e se pulo para a 95 já não são nem azuis mais os quadrados e sim verdes ou cinzas. Não jogo mais um vídeo game com um número de fases pré-estabelecidas. Na melhor das hipóteses jogo xadrez e é exaustivo ficar antecipando as diversas possíveis jogadas do adversário, nomeadamente a vida, baseadas em cada possível movimento meu.

E isso faz com que tenha que abordar as borboletas do meu estômago de uma forma diferente. Porque elas continuam lá. E insistem em aparecer e reaparecer a cada fim de tarde nostálgico e saudoso. Só que dessa vez não posso acalma-las contando quantos quadradinhos azuis faltam para a próxima meta. Não vai mais funcionar, porque eu não sei. Então decidi que preciso aprender a voar com minhas borboletas. Solta-las uma a uma. Para que saiam de meu estômago e virem minhas asas. Se o azul agora vem em rajadas soltas, desprotegidas do quadriculado de minhas linhas imaginárias, meus tratados anti-ansiedade, preciso aprender a voar ao sabor dessas ondas. Sem entretanto perder a capacidade de decidir o rumo.

Quando escrevo essas palavras, elas são minhas borboletas. Saindo uma a uma do estômago. Deixando de ser gastrite nervosa e virando palavra. As palavras são minhas asas e sei que um dia voarei em suas asas. E aprenderei a seguir as rajadas soltas do lápis azul, sem medo de me perder na imensidão da vida, que afinal, não cabe numa A4. Só essa borboletinha de hoje já está com cerca de três A4 por exemplo, e já somei várias do tipo. O que me intriga hoje especialmente é como aquela dose de controle, representada tão bem pelos meus quadradinhos azuis do céu, não faz parte da minha vida hoje em dia.

Veja bem, metas tenho muitas e sou boa em cumpri-las. Mas quando a vida se torna maior que uma A4, quadricular o céu não é mais garantia de que conseguirei preenche-lo. Vou tentando, uma rajada por vez. Às vezes perpassando o mesmo caminho mais de uma vez, às vezes me demorando tempo demasiado num canto só do céu, até ele tornar-se mais escuro do que eu intencionava. Outras vezes, passo leve demais e o azul mal chega a tingi-lo. Mas vou caminhando, voando, lápis na mão, asas nas costas, palavras saindo dos dedos para transmutar borboletas ansiosas em história. Se conseguir ser Sofia o suficiente, talvez evite a gastrite.

E pensando nisso, me surpreende que num mundo em que aprendo a não ter controle de tanta coisa, a saber que tenho que fazer minha parte e que o resto cabe aos demais, ao destino, sigo ainda assim com fé. E vejo tantas pessoas abrindo mão do pouco que lhes cabe nas decisões da vida. Quanta gente evita escolher, seja o que vai comer no almoço ou o presidente. Porque é mais fácil. Porque escolher é posicionar-se e posicionar-se é um risco. Veja bem, viver é um risco.

Quem está vivo, pode morrer. Quem está vivo pode apaixonar-se. Quem está vivo pode sofrer. Quem está vivo pode sorrir, sem motivo. Quem está vivo pode surpreender-se. E, dependendo de quais coisas façam parte da sua crença, na verdade, nem precisa estar vivo para tudo isso. Essas coisas vão acontecer e pronto. E mesmo que você opte por viver à deriva. Mesmo que você opte por não se posicionar, uma hora, numa curva qualquer da vida, ela vai te cobrar isso como um posicionamento e você vai pagar a conta de qualquer jeito.

Minha vida não cabe numa A4 já faz muito tempo. Meu céu nem sempre é azul. E para conseguir todas as tonalidades que ele possui, do amanhecer ao pôr do sol, nem uma caixa 48 cores basta mais. Eu sigo nas rajadas como posso. Às vezes boboletando, às vezes sofrendo de nostalgias indefinidas, às vezes de saudades muito bem definidas. Umas saudades são sofridas e sem solução. Outras são doces e aguardam ser matadas. Às vezes cuspo palavras. Vou à deriva quando não tenho outra solução, mas me agarro a cada quadradinho que ainda sobrou no meu céu, em meio às rajadas. Tomo minhas decisões e escolho meus caminhos. Sei que podem nem sempre ser os melhores. Mas também sei que não adianta lamentar.

Aprendi a ser sempre responsável por minhas escolhas e não me abster da vida. Espero que as pessoas entendam, no que diz respeito às suas decisões, que a coletividade não às justifica. Somos todos responsáveis por cada pequena decisão que tomamos e por cada pequena decisão que não tomamos. Às vezes elas se pagam com muito amor e doçura. Às vezes são amargas e descem rasgando. Mas se são nossas decisões, podemos viver com as consequências, e seguir em frente.

Eu, como todo ser, nem sempre acerto. Mas sei o que fiz, o que faço. A vida me recompensa às vezes com amargor e às vezes com doçura. O que aprendi é que revoltar-se perante o resultado das minhas escolhas não me leva a lugar algum. Só à gastrite nervosa. Quando a resposta é amarga, eu aprendi a ver nela um aprendizado valioso, e a ser grata à ele. Quando a resposta é doce, não há gratidão suficiente na minha alma e transbordo. Na verdade, transbordo sempre, seja em risos, lágrimas, ou palavras. E quando as palavras transbordam para além de mim, elas chegam aqui. Onde viro Sofia, e elas viram estória.

Seja em quadrados azuis ou rajadas multicolores, sei que, por conta da gratidão e do amor à todas as situações vividas, vou completar meu quadro. Se ele é renascentista, surrealista, moderno, abstrato, ou apenas um doodle, não sei. Acho que um pouquinho de cada coisa. Um pouquinho de cada vez. Uma palavra de cada vez, libertando minhas borboletas, formando minhas asas. Amo meu sim. Aprendi que posso amar o não também. E evito o talvez. Seja sim ou seja não, a borboleta há de sair, e as palavras contarão sua história.

Quem sabe um dia não paro de sofrer da nostalgia do que nunca vivi, para ver na minha frente um quadro de belas memórias reais, cada uma com sua gotinha de tinta, com sua palavra desenhada. E com minhas asas, irei sobrevoa-las, saboreando cada cor, cada gosto, cada forma. E lá estarão meus piratas, minha árvore, meus cachorros, meus livros, minhas aventuras, reais e imaginárias. Minhas muitas e muitas páginas A4, e todos os meus quadradinhos azuis.

A nostalgia do fim de ano: O Natal da Saudade

Hoje estou extremamente nostálgica. Estaria preocupada não fosse o já marcado almoço de Natal de família para amanhã, que me garante que suprirei boa parte dessa nostalgia, já que em festas de família, não há nada mais padrão do que ver fotos antigas, comparar o evento com os de anos anteriores e rever membros da família que não víamos a meses. Gosto de tudo isso, de todo o clichê envolvido, da poesia que existe na poeira levantada desses momentos. Mas além disso tudo existe uma outra nostalgia, um outro nível de nostalgia que me ataca nessa época.

Sempre fui uma pessoa muito nostálgica desde a infância, e contemplativa. Tenho essa tendência a observar momentos e depois revivê-los em minha mente, saboreando-os, perfumando-os, esmerilando-os. Contando a estória da história, e muitas vezes modificando-a um tantinho para guardar uma memória romanceada, com direito a filtros de cor e luz e trilha sonora, e que fique bem claro, minha mente já fazia isso muitos e muitos anos antes do Instagram.

Todo ano, quando começam a aparecer as luzes de Natal é como se se abrisse um portal. Como se os mundos se conectassem, e um pouco do meu mundo mágico pessoal, da literatura e da música, onde habitam todos os meus amigos e paragens mais queridos, migrasse um pouco para essa terra média, e especialmente durante o nascer e pôr do sol, eu estivesse com um pé na realidade e outro na fantasia. Isso faz com que eu tenha muita saudade de coisas que nunca vivi. São os momentos que sinto como se estivesse estudado em Hogwarts e estivesse saudosa do Baile de Inverno. Ou como se alguém tivesse deixado a porta do guarda-roupa aberta e os ventos nevosos de Nárnia estivessem invadindo meu verão chuvoso brasiliense.

E ao mesmo tempo sinto falta das histórias contadas pela vó na frente da lareira. Sinto uma falta que dói dos meus avós e sinto de verdade o cheiro dos ramos de cipreste molhados de chuva que podávamos do jardim e usávamos pra decorar a melhor árvore de Natal de todo o mundo, que era de mentira e de verdade ao mesmo tempo, trazendo o cheiro do Natal para dentro da sala sem matar árvore nenhuma. Obviamente uma invenção do super-homem, melhor avô do mundo.

Fico nostálgica e escuto Nat King Cole em minha mente, relembrando os artesanatos decorativos que fazia com a vovó, escolhendo cuidadosamente no quintal pinhas, e ramos de algodão, e pedras, para tingir de dourado e folhas secas que seriam pintadas de verde e vermelho e se mesclariam nas gamelas de barro e madeira, cheias de frutas da estação e castanhas. Sinto falta da excitação que tomava conta de todos, a ansiedade de ver toda a família reunida. E sim, era muito mais do que válida a expressão “se arrumar toda pra ficar na sala”! E como adorávamos!

Cada pedaço de papel guardado e todas aquelas tardes fabricando meus próprios cartões de Natal antes de enviá-los aos amigos. Já era uma coisa meio antiquada, mas eu amava comprar selos, e grudar envelopes, ter que anotar os endereços com CEP dos amigos, ou passar horas consultando o livro dos Correios para poder fazer surpresa. Além dos cartões eu tinha a função de empacotadora oficial da família. Comprávamos os rolos de papel natalino, um bom durex novo, fitas, muitas fitas. E assim se passavam manhãs de férias nas quais eu praticava a habilidade de fazer belos laços. Sempre tinha alguma lembrancinha esquecida, que era improvisada de última hora, um embrulho a ser feito dentro do carro antes de chegar na festa.

E assistir à minha avó arrumando a casa, tomando parte naquele processo de enfeitar e tornar festivo cada momento. E também quando eu a via se arrumar. Sempre achei um momento tão íntimo e tão maravilhoso. Minha musa, minha diva. Quando ela sentava na mureta do box, de frente para sua parede de espelho do banheiro, de roupão e bobs no cabelo, depois de tudo pronto e banho tomado. E eu sentava no chão pra assistir aquela transformação maravilhosa, e via cada cacho cair do bobs, cada pincelada de maquiagem, cada expressão facial estranha para aplicar bem um batom. Combinação cor da pele embaixo do vestido, e uma ajudinha da neta proativa pra fechar um zíper, um botão nas costas ou um fecho de sapato. E sempre, o gran finale, quando ela, já toda pronta, ficava com apenas o colar na mão e me pedia para ver se o vovô já estava pronto e chamá-lo. Ele vinha cheiroso do banho, de camisa, sempre em tons de azul e frequentemente listrada. Ela só abria a mão, sem uma palavra, e ele colocava o colar nela. E só então descíamos as escadas para receber a família e viver mais um Natal.

E mesmo enquanto eu vivia todos aqueles momentos, como se minha vida fosse um filme, sentia nostalgia, saudades do que nunca vivi. Ou do que estava vivendo. E me perdia fitando o pisca-pisca das luzes da árvore por horas. De um jeito bom, meditativo. Sinto falta hoje em dia de morar numa casa imensa, e de poder fugir do mundo, e me sentar naquela sala de pé direito desproporcionalmente alto, com todas as luzes apagadas, numa almofada no chão, tarde da noite, e ficar acompanhando as luzes em sua dança, em frente à árvore. Até que muito tempo depois minha mãe chegava em silencio, sentava ao meu lado, passava o braço ao meu redor, e depois de minutos em silêncio me perguntava se estava tudo bem. Ela sabia que eu precisava de momentos fora dessa realidade, entendia, apoiava, respeitava. E meditávamos juntas um pouquinho, abraçadas, naquela dança de luzes, no escuro, com aqueles cheiros e sons tão familiares. Até que ela me chamava pra ir dormir. Sem se preocupar com horário pois eu já estaria de férias da escola naquela altura do ano. Eram momentos de cumplicidade. De sentimentos profundos que sempre tive e nunca entendi. Momentos em que reconhecíamos a existência deles sem questioná-los.

Sempre fui nostálgica. Hoje sou saudosa. Não tinha motivos aparentes pra nostalgia antes. Tenho muitos pra saudade hoje.