Prat de Cadí

 18/03/17

Depois de um bom tempo sem uma caminhada original pra relatar, resolvemos seguir o conselho de um amigo e explorar a região próxima à face norte da Serra de Cadí. Achamos no nosso mapa algumas marcações que pareciam interessantes e seguimos o caminho até lá!

Pegamos a estrada até Martinet, cidadezinha que faz a divisa da Cerdanyà com Alt Urgell. De lá pegamos a estradinha para Estana. Tivemos a surpresa de cruzar com uma região de bunkers (também especificado por esse amigo), construídos ali, segundo a placa, devido ao medo que Franco tinha de uma possível invasão francesa. A sequência de fortificações e túneis parece aberto em outros dias, mas não no sábado… De qualquer jeito, é bem interessante reparar nesse trecho da história dos Pirineus.

A subida até Estana é longa e tortuosa. Dá pra sentir a temperatura caindo e o vento intensificando. A vila em si é muito charmosa, e tem uma vista privilegiada da serra. Há, no início da trilha, depois de passar a cidade em uns 700m, um estacionamento. Mas nós não sabíamos e paramos na cidade mesmo, o que foi bom, pra poder observar as casas reformadas que provavelmente servem para veraneio.

A trilha segue bem demarcada e sinalizada, apesar de ser em boa parte bem acidentada. Também é uma das mais movimentadas que fizemos até agora, junto com a dos Estanys de la Pera. São obviamente as mais famosas, não à toa, pois são também as mais bonitas. A inclinação do caminho é leve, mas constante. Só um trecho escapa disso, e a neve abundante exatamente ali fez a subida um pouco mais delicada. Vimos, na volta, um grupo de senhores e senhoras desistir da caminhada exatamente nesse trecho. Porém, não estavam com nenhum equipamento específico e apesar da disposição, não pareciam ter a mesma mobilidade de décadas atrás. Mas com exceção desse trecho, o caminho todo até o Prat é fácil, seguindo principalmente por entre bosques e só eventualmente saindo para algum trecho aberto.

A chegada ao Prat é para deixar claro porque a trilha é famosa. De repente, o campo se abre em um platô logo abaixo da Serra de Cadí, com as imensas pedras que formam a espinha tão próximas que é possível ver seus detalhes. O campo estava todo nevado, e se alguma parte já derreteu, eu não quero saber como estava antes! Não levamos equipamento adequado porque não achávamos que seria necessário. Mas afundamos até a coxa na neve, e as mãos doíam de frio ao tentar se levantar. Também tivemos neve adentrando o tênis e a meia, uma sensação desagradável, que nos fez tomar a decisão de guardar nossas polainas de proteção permanentemente no porta-malas do carro.

Algumas pessoas descansavam na lateral do Prat, enquanto outras passavam esquiando pela leve inclinação da região. O Picot ficou realmente impressionado com o fato de pessoas passarem a tal velocidade sem movimentar as pernas. Mas logo depois disso, ele se recuperou e nos ajudou a achar uma trilha para nos aproximarmos mais da Serra sem ter que atravessar a neve. Mas nosso esforço durou pouco, pois logo percebemos que pra qualquer lugar que fossemos a neve nos cercaria.

Voltamos pelo mesmo caminho, agora só na descida. Foi bastante tranquilo, exceto pelas meias molhadas. Conseguimos chegar em casa ainda cedo, não tendo nos desgastado tanto quanto em outras caminhadas. Essa trilha, além de belíssima, também é boa opção pra quem não está com todo aquele preparo físico, mesmo com seu total de aproximadamente 12km.

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Bunkers

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Vista de Cadí em Estana

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Picot rolando na neve

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Chegada ao platô

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Cadí em detalhes logo aí do lado

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A travessia do platô exigia equipamento pra neve, mas não tínhamos no dia

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Arseguel: cidadezinha onde paramos na volta para conhecer. Um charme! 

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Turó de Porredon e Bastida de Hortons

26/01/17

A previsão para o dia era de clima fechado em todas as regiões próximas da Espanha, mas com um pouco de curiosidade, descobrimos que na França faria sol. Pode parecer meio estranho, já que a França está a poucos quilômetros de distância. Mas como tem uma cadeia de montanhas no caminho, parece ser frequente cada lado apresentar um clima distinto. Então nos preparamos para uma volta maior até um mina de estanho por lá, mas quando saímos de casa na manhã seguinte, descobrimos que todo o nosso planejamento foi em vão. Havia nevado tanto que as estradas que passaríamos certamente estariam intransitáveis. Para não perder a viagem, decidimos por uma trilha bem próxima e até curta e baixa, visto os obstáculos que já se apresentavam. Fizemos o seguinte caminho:

La Seu – Turó de Porredon – La Bastida de Hortons – La Seu

Saímos da cidade pela ponte que cruza o Segre e seguimos pela estrada que indicava a Bastida. Nosso plano era passar primeiro na vila e depois no Turó, mas no caminho encontramos uma placa que indicava uma trilha para a montanha e resolvemos aproveitar. Seguimos pelo lado de um canal artificial, mas a água estava toda congelada, às vezes até com neve por cima (no gelo tende a não acumular tanta neve). Era possível ver inúmeras pegadas de animais diversos tanto dentro do canal quanto fora, parece que muitos andam pela região!

Depois de aproximadamente 1km, uma ponte apareceu e a trilha, bem demarcada seguiu por uma lateral da estrada que passava por ali. Aqui começou a subida leve mas constante que se manteve até o pico. Começou também um questionamento meu sobre os motivos de subir se não veríamos muita coisa lá de cima. Mas a novidade de caminhar dentro de um bosque inteiro nevado (em outras ocasiões pegamos neve alta, mas só em descampados) acalmou minha inquietação. O frio fazia a respiração ser difícil, e parar pra descansar anulava o conforto térmico que o caminhar gerava. Não tinha muito como evitar os dois problemas simultaneamente, então alternávamos um pouco. Por várias vezes eu também assustei pensando que algum animal se movia nos arbustos, mas era apenas a neve que caía e com isso o galho, mais leve que antes, saltava.

Passamos por um pico menor, onde meu ceticismo paisagístico se desfez. Podíamos ver montanhas muito distantes por cima das nuvens baixas. No vale estava uma bruma pesada, mas passamos para cima delas e a mistura de tonalidades de branco com a imponência das montanhas foi algo para não se esquecer mais. Claro, o céu continuava nublado, mas já eram nuvens distantes. Seguindo a trilha, fomos até o pico, enquanto a paisagem lentamente se tornava mais e mais imponente.

Depois dos 500 metros de desnível entre La Seu e o pico, começamos a descida. Primeiro por uma trilha, depois por uma estrada. Houve uma pausa para construir um boneco de neve, mas a mão da Ju, mesmo de luva, começou a esfriar muito. O boneco não ficou muito completo ou bonito, mas minha esposa continua tendo duas mãos, então acho que estamos no lucro!

Chegamos rapidamente na Bastida, um povoado com casas mais imponentes que qualquer outra vila até agora, além de um cão fofíssimo que conhecemos no portão de uma dessas casas. Muita coisa na cidade também estava desabando, e eu achei particularmente curioso essa dualidade de mansões/ruínas. Dali, em vez de pegar a estrada de volta, fomos por um atalho de trilhas. Nesse trecho, o sol começou a aquecer o vale todo e podíamos ver as árvores todas pingando neve derretida e refletindo o sol. Acho que por mais que tentássemos, isso não poderia ser bem representado por fotos, já que o processo todo envolve muito movimento e imersão na cena.

O caminho de volta foi tranquilo, a nossa trilha chegou à estrada e de lá voltou até La Seu sem obstáculos. Nesse ponto já nos desfazíamos do equipamento mais pesado para neve (um beijo especial para as polainas, que evitaram que as botas se encharcassem) e caminhávamos mais descontraídos.

Acho que não haverá mais um dia de neve tão pesado quanto esse. Sinceramente, morar em local frio não é um absurdo, como se pinta por aí. Com roupas adequadas e uma casa construída com isolamento adequado, sente-se muito menos frio do que no inverno paulista, por exemplo. Fica a saudade da nevasca e a decepção por não ter sido tão assustadora quando pareceu que seria…

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O estacionamento, coberto de neve. 

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Tentando limpar toda a neve do carro

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Dentro do carro, quando percebemos que ir de carro não seria uma boa ideia, e resolvemos olhar o mapa e decidir por uma trilha próxima a pé

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Rio Segre às 8h30 da manhã 

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Essa parte reta no centro baixo da foto é uma ponte, o rio ta embaixo dela, da neve e do gelo

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Trilha a esquerda da foto, com as pegadas e rio a direita

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Mesmo com a neve a sinalização é visível, tanto em placas quanto nas árvores com faixas pintadas das cores das trilhas 

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Marcas de trilha pintadas no tronco da árvore

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Quando o sol começou a abrir, cerca de 13h da tarde

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Estanys de la Pera – Trilha 6

29/12/16

Estanys de la Pera

Essa foi sem dúvida a trilha mais bonita que fizemos até agora, além de ser uma das mais fáceis também. A trilha segue da estação de esqui de Aransa (esqui nórdico, que é parecido com uma patinação) e vai seguindo próximo ao rio Molí por quase o caminho todo. O resultado é que a trilha é quase toda plana e com imagens memoráveis do processo de congelamento do rio, com caverninhas de gelo e esculturas modernistas feitas pela natureza, além da vista para as montanhas em quase todas as direções. Desta vez não vou marcar o roteiro porque só existe basicamente essa trilha pelo caminho e são poucos os pontos de identificação.

Saímos cedinho de casa e fomos de carro até a estação de esqui de Aransa. A estrada está bem limpa e preservada, não há nada com o que se preocupar. De lá, cobra-se uma taxa de 3,50 euros para fazer a trilha, justificados como manutenção de estrada e sinalização das trilhas. É possível passar por outros caminhos, mas realmente sem um gasto na preservação, as outras estradas ficam horríveis. O caminho começa um pouco mal sinalizado, mas nada que um pouco de atenção não resolva. Ele deve seguir por uma estrada mais aberta, por dentro de uma mata de pinheiros.

Eventualmente, a trilha abre vista para um vale a leste e alguns pequenos córregos cortam a estrada e se congelam. Muito cuidado para não escorregar, falamos isso por experiência própria! Mais a frente a estrada acaba, mas há uma marcação tímida indicando uma trilha que sobe para a esquerda. A subida é bem leve e pouco a frente começa o trecho em que o rio se aproxima. Ele segue junto à trilha até uma grande área bosqueada mais a frente onde é possível ver um pequeno refúgio, mesas de pedra e churrasqueiras. Claro, ninguém usa esse aparato nesta época do ano, mas voltaremos em outro momento para ver como fica sem a neve e com pessoas.

A continuação da trilha encontra com a estrada e os dois caminhos são possíveis. Eu indico fortemente a trilha, pois além de mais reservada, há momentos que a estrada não proporciona, como a aproximação de uma pequena cachoeira. A formação de uma pirâmide de gelo em volta dela é uma coisa que impressiona alguém como eu, que até pouco tempo atrás conhecia muito pouco desse tipo de clima.

Não muito depois da cachoeira é possível ver o final do vale, com as montanhas fechando o cenário em volta. Neste momento desponta o Refugi dels Estanys de la Pera no alto de um platô. É sem dúvida o mais bonito dos refugis, mas parecia estar todo trancado. De fim de semana parece que abre-se a parte principal dele para turistas. De lá, a trilha bifurca para dois pontos de Andorra, um caminho indo para o vale de Perafita, a noroeste, e outro seguindo para os picos mais a leste.

Abaixo do refugi, está o menor dos lagos. Na ocasião da nossa visita, estava recoberto de neve por sobre o gelo. Eu andei um pouco sobre o lago, mas confesso que o medo do gelo partir me fez voltar rápido. Seguimos para cima até encontrar o lago maior, também recoberto, e um pouco mais difícil de encontrar pelas montanhas em volta. Um casal que andava a nossa frente tentou seguir pra lá do lago, mas desistiu pela profundidade da neve. Nós, claro, não desistimos tão fácil e seguimos nos arrastando pela neve alta e subindo nas pedras que surgiam no caminho, como náufragos. Depois de algumas centenas de metros e muito cansaço depois, vimos que acompanhar a trilha até o pico de Perafita seria impossível. A marcação das trilhas nas pedras era visível, mas a trilha em si havia desaparecido. Cavamos nosso caminho de volta até o refugi e de lá seguimos, molhados, de volta pela mesma trilha.

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Pic Negre e Calm de Claró (ou quase) – trilha 5

25/12/16

Essa foi a primeira trilha que fizemos que não alcançamos o ponto final planejado. Também foi a primeira que fizemos em altitude superior a 2.500m e em neve funda, o que significa pra cima do joelho. Esses 2 fatos estão intimamente relacionados! O trajeto planejado foi:

La Rabassa/Naturlandia cota 2.000m (1) – Refugi de Roca de Piners (2) – Coll de Pimés (3) – Coll de Finestres (4) – Pic Negre (5) – Calm de Claró (6).

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La Seu – Sant Juliá de Loriá – Naturlândia cota 2.000m (trecho de carro)

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Não chegamos a completar a rota, fomos da primeira bandeira em baixo até um pouco antes da bandeira onde as trilhas bifurcam. E rodamos por alguns picos e elevados que não estão marcados, mas nesse trecho. (trecho à pé)

1 – Fomos de carro até o parque Naturlandia. Existem 2 núcleos, um a 1600m e outro a 2000m. É fácil saber onde parar o carro porque a estrada simplesmente acaba no segundo núcleo! A saída sendo feita já desta altitude permite começar a trilha já num ponto bem avançado da subida, mas também torna o problema da aclimatação bem sério. Não é tão simples assim respirar enquanto se sobe centenas de metros já deste nível.

O parque em si é bem simpático, com atrações típicas de neve e um pequeno zoológico de fauna local. Também comporta um tobogã imenso que desce de um núcleo a outro, mas ainda não tivemos a oportunidade de tentar a descida. As rotas são bem indicadas, mas depois de certo ponto a sinalização vai desaparecendo rapidamente. Temos a intenção de voltar aqui e aproveitar um pouco mais a região.

2 – A trilha segue até o refugi bem tranquilamente, onde há um local livre para qualquer um dormir e uma área fechada, não sabemos exatamente a finalidade. O local é absolutamente maravilhoso, mas as pessoas que parecem frequentar aparentemente não querem preservar isso. É possível perceber que a casa em si recebe cuidados frequentes, pois há lixeiras a menos de 20m e uma caixa de medicamento de uso livre, mas ainda assim há muito lixo recente pelo lugar, inclusive de forma deliberada, como um maço de cigarros atirado no teto. Uma pena que nem todos saibam preservar um bem público tão valioso assim.

3 – Seguindo pela estrada que passa por trás do Refugi, logo há uma bifurcação indicando locais realmente longes! Pelo verão imagino que o pessoal caminhe por dias nestes locais. Se nos mantivermos à esquerda, uma descida suave seguida de uma subida ainda mais leve atravessam o Coll de Pimés. Neste trecho, um rio chamado Rec de Caborreu divide Andorra e Espanha, e a neve do lado norte do vale derrete com o sol e forma poças de lama consideráveis. Apesar disso, as colinas são simpáticas e um pouco mais a frente a vista se abre do lado espanhol de maneira a revelar vales e serras ao sul.

4 – A trilha faz uma curva à esquerda e então podemos ver o tamanho da encrenca que vem a frente. Aqui começa uma subida desumana por uma estrada deplorável. Serão centenas de metros na vertical impondo escorregões, deslizamentos e muito cansaço. A trilha para jipes faz uma curva para a esquerda em um certo ponto para evitar uma subida mais íngreme, mas os pedestres podem seguir pela encosta mais inclinada. O tempo todo uma colina relativamente suave fica à esquerda e um vale acentuado à direita. As pausas para tomar fôlego podem ser aproveitadas para observar a Espanha tomando distância.

Eventualmente a estrada faz uma curva para a direita. Daqui fica difícil saber para onde ela vai nessa época do ano. A neve começa a tomar profundidade a cada passada. Contornando uma pequena colina e virando para a esquerda, desponta o Pico Negro (Pic Negre), que em outras estações parece ser definitivamente negro, mas não por agora. Neste trecho tivemos a maior dificuldade: a trilha some, e mesmo que não sumisse, acompanhar qualquer caminho aqui era desafiador. Caminhamos até a encosta oeste, à esquerda e pegamos uma boa vista do vale e um vento desumano. De lá, resolvemos arriscar (ou eu resolvi e a Ju se resignou) subir um pouco mais. (Ju falando: Com neve até às coxas e já tendo engatinhando pra sair dos buracos, eu só ouvia o André gritar: “Pro pico, vamos pro piiiiiiico! Tá perto! Olha o piiiiico!” Aí me resignei né!) O caminho foi lento, buscando as áreas mais fáceis de passar na imensidão branca. A região era relativamente plana, e ficamos ziguezagueando em busca da pouca vegetação que ameaçava brotar e indicava neve mais rasa.

Com isso, desviamos do pico negro e chegamos a uma espécie de mirante sem nome, com várias pilhas de pedras feitas por viajantes anteriores. Vimos do outro lado de um vale escarpado o Calm de Claró, um imenso platô com direito a antena em cima, e para baixo do vale vimos um trecho de Sant Juliá de Loriá. A trilha parecia seguir pelo vale do lado oriental, mas o bom senso gritou para nós que a hora de parar já havia passado há um bom tempo (Aleluia!). Assim começamos a nossa volta, que testou todas as nossas articulações ao longo do caminho.

Notas: 1 – Essa trilha teve uma série de encontros aleatórios divertidos. O primeiro foi com um ser metamorfo que em vez de se transformar em lobo, se transformava em algum tipo de cérvideo. Daí o apelido homem-cervídeo que lhe demos. O rapaz com pernas absurdamente longas e finas saltava dois metros por passada na neve (sério, eu acompanhei as pegadas!) e fez em minutos o que fizemos em horas. Enquanto subíamos, ele já voltava e desceu o vale de Coll de Finetres sem nenhum escorregão, apesar das distâncias e da abertura pélvica de seus saltos! (O homem-cervídeo é meu novo ídolo místico das montanhas! Incrível o que aquele ser fazia!)

2 – Quando decidimos descer a colina, um elemental do ar se manifestou na encosta oposta. Um redemoinho de uns 10 metros de diâmetro se formou majestosamente, percorrendo uma distância considerável até se desfazer. O barulho do vento e a visão privilegiada da formação do dito cujo fez com que a Ju pedisse permissão para regressar para os elementais que habitam a cordilheira axial dos Pirineus. (Foi o máximo! Um privilégio estupendo ver aquilo! Pense num Sací de frio gigante! Garrafa não dava conta daquele não, seu Monteiro).

3 – A estrada congelada do trecho final fez uma excelente rampa para um esquibunda na neve! Eu empurrava a Ju e logo depois me jogava, fazendo com que o trecho em que o atrito aumentava se tornar um ponto de trombada. Subimos o trecho uma segunda vez para fazer isso de novo, e se eu tenho algum arrependimento com essa trilha foi de não ter ido uma terceira vez… (o esquibunda foi A MELIOR parte! Rolei de rir! Sério pessoas, façam isso! Deixem a criança interior de vocês bricarem na neve e no gelo! A gente morre com a umidade, mas se diverte horrores!).

*(comentário em roxo são de autoria dessa JuReMa que geralmente vos fala! Que além de autora de outros posts é editora e resposável pelo layout, mapas e fotos dos posts do André)

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Crânio de algum animal que encontramos pela trilha. Parecia um cervídeo.

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La Seu es Seva – Trilha 3

Antes de falar da trilha, queria fazer alguns esclarecimentos. Estava empolgado pra descrever as duas primeiras trilhas e pulei alguns passos. É importante informar sobre o mapa que tenho utilizado. É um mapa de excursionistas de Alt Urgell, pode ser encontrado em livrarias. Pertinho da Plaza Catalunya, em La Seu d´Urgell mesmo pode-se comprar um por 6 euros e alguma coisa. As trilhas (onde só se pode ir a pé), estradas (permitem passagem de carros) e pontos de referência que uso são a partir desse mapa. Na trilha 1, por exemplo, dei como referência a altura de um pico, para melhor localização de acordo com o mapa. Tem coisas nele que não estão corretas, mas no geral tem sido extremamente útil. Dito isso, podemos dar continuidade!

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Trilha 3 – 10/12/16

Roteiro – Bescarán (1) – Riu de Bescarán (2) – Paluc (3) – Refugi del Coll de Midós (4)- Coll de Midós (5) – Coll Jovell (6)

Essa trilha começa já em Bescarán. Não acho que seja possível fazê-la em 1 dia a partir de La seu d´Urgell, a não ser que você tenha uma velocidade e resistência excepcionais e esteja andando no solstício de verão! Um carro ou uma carona serão necessários aqui.

1 – A vila de Bescarán é simpática, mas não encanta como Arcavell. Durante a manhã a cidade é sombreada pela montanha atrás dela, deixando o frio de dezembro ainda mais agudo. Algumas casas estão bem reformadas e parecem ser de quem tem o suficiente para ter uma segunda casa, mas outras estão decadentes ou reformadas sem a preservação do estilo local, o que quebra um pouco a magia. Eles tem, porém, uma torre de estilo lombardo que sobrou de uma igreja do século XI ou XII! Infelizmente eu não tenho nenhuma foto boa da torre. Um ponto interessante que pude perceber aqui é que as construções de pedra antigamente eram rebocadas. Uma das casas ainda tem restos do reboco. Parece que a intenção de expor as pedras é mais recente.

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Campanar de Sant Martí – construída no ano de 914 d.C.

2 – Saindo pelo norte da cidade, a parte mais alta, há uma trilha bem marcada. Ela anda muito pouco até bifurcar, aqui o caminho da esquerda parece ir em direção a Andorra, mas meu plano estava em subir à direita. Depois disso, é só manter à esquerda por um bom tempo! O começo da trilha beira um vale bem fundo, com o som da água corrente e vista para um cachoeira do outro lado. A subida segue acentuada até uma passagem daquelas que impede a saída de gado e uma seringa para gado também. Aí sairemos em uma estrada. Mantendo à esquerda, essa estrada segue por uma boa distância, eventualmente se aproximando do Riu de Bescarán o suficiente para descer e colher água ou apreciar a vista. Do outro lado do rio há algumas casinhas bem preservadas. Quando passei, o trecho todo de estrada estava entre gelo e neve. O gelo reduz a velocidade e há um grande risco de escorregar. A neve alta só reduz a velocidade e cansa um pouco. A neve baixa é uma delícia de andar! Eventualmente, a estrada serpenteia pra cima. Eu tentei cortar caminho por fora da estrada, mas me arrependi. A neve fofa acabou com meu fôlego! Esse trecho todo até aqui é feito na encosta norte, o que significa frio!

3 – Quando a estrada contorna o Pico Paluc, a vista se abre para o sol e para os vales abaixo! Há uma casinha de pedra bem junto a estrada, quase impossível de não ver. Só não digo impossível porque eu não vi. Voltaremos nela mais tarde. Se você seguir a estrada do lado sul, eventualmente você se afastará do Pico Paluc e irá na direção de Cerdanya, a província mais a leste. O pico mesmo não tem trilha que leve a ele e imagino que seja território de caça. Ele não faz exatamente um pico, mas há uma clareira mais larga em seu topo. Eu subi pela encosta mesmo, a passagem é bem limpa e a inclinação não é um impeditivo. Fora da trilha é possível ver sinais de cervídeos, como patas na neve e fezes em síbalas. Em um trecho, foi possível perceber que uns 2 ou 3 deles estavam correndo quando passaram. Também parece haver javalis, mas ainda não sei identificar tão bem os rastros! O topo tem uma vista incrível para o sul e sudoeste, sendo possível ver até o aeroporto e Castelciutat (La Seu fica escondida atrás de uma serrinha), mas do lado norte as árvores bloqueiam a visão pras montanhas de Andorra. Ainda assim, é lindo e a neve entra no seu tênis de tão alta em alguns trechos. Aliás, vale reforçar, vá com calçados confortáveis!!!

4 – Descendo de volta até aquela casinha de pedra, temos um local perfeito pare ler Toureau ou Hemmingway. O refugi de Coll Midós estava trancado, mas sua vista para o oeste dá um panorama incrível. A construção é muito simpática e a estrutura em volta para lidar com gado cria uma imagem curiosa do que o trabalho e o isolamento deveriam ser em outros tempos, ou pelo menos no verão. Há um cocho com uma água limpíssima e, agora no fim do ano, com gelo cobrindo algumas partes da água. Num mundo paralelo perfeito, eu moro aqui com um Bernesse e trabalho de lenhador ou guarda florestal. Um excelente lugar, não interessa pra quê.

5 – A descida eu fiz fora da trilha, descendo exatamente para sul. Supostamente há uma trilha ali, mas eu não vi nada. Mas também o caminho é bem suave. Parece que tem uma trilha que desce do refugi mais para oeste, mas eu não fui checar. Saí numa estrada que faz parte da trilha de Sorri, uma trilha que se sobrepõe a essa minha algumas vezes e que é bem demarcada. Virei a direita (oeste) e segui a estrada. No mapa diz que há um Dólmen de Coll Jovell no caminho, mas eu não vi nada. Esse trecho todo é um bosque com uma estrada bem aberta, apesar de pouco usada. Depois descobri que ali é fechado pra carros (não fiz muitas perguntas quanto a ser fechado pra pedestres), mas que passam caminhões e há extração madereira. Diferente da primeira trilha, eles não devastaram o bosque todo, mas tiraram algumas árvores somente. Fiquei refletindo sobre a necessidade da geração de empregos e produtos contrapostos à exploração do ambiente. Me pareceu uma saída viável usar a área daquela maneira, mais responsável.

6 – A única bifurcação dessa estrada eu mantive à esquerda. A trilha estava com bastante neve, mas nada que atrapalhasse o caminhar. Depois de alguns quilômetros, saí exatamente onde estava a seringa para gado do trecho 2. Ali havia a placa de proibido passar, estipulando multa e tudo, e eu estava voltando “por dentro”. Mas me pareceu seriamente que isso se destinava a carros, até porque havia mais pegadas na neve nesse trecho todo (parecia de um casal, pelos tamanho, formatos e disposições). Dali tomei o mesmo caminho de antes até Bescarán, marcado como 30min a pé, pois a estrada estava sinalizada como mais 5km.

Resumindo, adorei essa trilha, caminhar pela neve foi uma experiência nova e encantadora, e a vista também foi incrível. A combinação da montanha com a neve deu uma sensação curiosa, de felicidade sem alegria. Eu não estava querendo rir, brincar, contar piadas, só estar ali, ouvindo o barulho da neve sob meus pés. As cores e os cheiros acalmavam e davam uma sensação de plenitude. Pensei muito sobre os primeiros povos a viver ali. Não à toa as primeiras deusas e primeiros deuses controlavam a natureza e seus elementos. Este final de outono também é um período interessante, a vida parece estar se despedindo do sol e preparando pra se esconder. Tudo é silêncio e recolhimento.

As montanhas e o frio sempre abrigaram seres mitológicos, mágicos. Os da montanha sempre foram trabalhadores, industriosos. Os do frio tendiam a ser perversos e sorrateiros. É possível entender tudo isso, a vida nas montanhas antes das facilidades modernas devia ser penosa, e o inverno devia colher pessoas como as pessoas colhiam as abóboras na estação anterior. Hoje, liga-se o aquecedor, move-se de carro, alimenta-se do supermercado. Ainda bem que pudemos enquanto espécie facilitar nossas vidas, mas estar em contato com esses elementos até instintivos da nossa espécie é ainda impactante.

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