Mais Receitas Veganas para o Natal

Mais receitas veganas para o Natal, porque nunca é demais compartilhar inspiração para quem quiser ter um Natal sem carnes, lindo, saboroso e gostoso!

Eu ainda não sei como será nosso natal. Até ontem, e esse texto é de 08/12, nem casa nós tínhamos, hoje já temos! Yeyyyyy! Mas falta ter água, luz, internet, móveis, geladeira, comida na geladeira, fogão, etc. Nosso empenho nas próximas semanas vai ser organizar tudo e com sorte, e uma boa dose de trabalho duro talvez tenhamos algo para chamar de lar até o Natal. Se não, a gente enche os colchões de ar, liga o fogareiro e o lampião e faz um acampamento na sala de casa, e uma super ceia de feijões em lata e pepino em conserva, talvez pizza delivery! Huahauhauhua

Brincadeiras (e realidades) à parte, eu desejo a todos um Natal lindo, maravilhoso, aconchegante, cheio de amor, seja da família ou amigos, e espero que o ano novo traga novos ares, e novas decisões positivas para todos.

Fica minha dica de por onde começar: uma ceia vegana! Espero que gostem!

Feliz Natal! ❤

Receitas Veganas para o Natal

Me deparei com esse post na minha timeline, e apesar de achar que não são exatamente receitas de Natal, são boas recitas veganas para o dia-a-dia. Aproveito para compartilhar aqui e para inspirar um fim de ano diferente. Desde que eu virei vegetariana, meus pratos principais de festas tem sido risotos, prato que eu amo, mas desde criança minha avó sempre fez questão de muitas frutas e castanhas de diferentes tipos no dia do natal e costumávamos ir comendo ao longo da noite de tal forma que na hora da ceia mesmo eu nem estava mais com fome.

Ainda hoje amo essa combinação de fartura de frutas e castanhas, que dá pra ir beliscando, conversando, e saciam muito bem. Minhas dicas incluem nectarinas, ameixas de vários tipos, uvas de vários tipos, morangos, cerejas, pêssegos, essas todas são boas pois não precisa descascar e nem preparar, você só lava e deixa para as pessoas pegarem à vontade. Entre as castanhas gosto de amendoim, castanha de cajú, castanha do pará, amêndoas, nozes, macadâmia, avelãs, baru e mais as que você encontrar!

Se estiver em Brasília, a Feira dos Importados costumava ter castanhas com bom preço, não sei como está agora. Se estiver em São Paulo a Zona cerealistas é imbatível.

Sempre gostei também de arroz com amêndoas laminadas para a ceia! Fica super festivo e agrada sem entrar na discussão com ou sem passas.

Entre os pratos principais, além dos risotos, uma boa opção é o cuscus marroquino, que é super prático e pode ser feito com diferentes ingredientes.

Segue então o link com mais opções de receitas do Veganize.

Sobre o Natal

Sentada na biblioteca magnífica de La Seu, vendo o sol entrar pela janela cilíndrica da ruína de uma igreja que esse edifício foi antes de ser a Biblioteca Sant Agustí, penso na distância. Muitos temos falado aqui sobre as viagens, a trilhas, as dicas, e nisso o Natal passou, o Ano Novo é amanhã e eu fico aqui, com minhas reminiscências, sem tempo de processá-las, sendo que elas nunca me abandonam. Nem quando estou enrolada em cobertas no sofá da sala, analisando a luminosidade que invade esse local ainda desconhecido que chamo de casa, e nem nas trilhas, enquanto as coxas doem, a água invade o pé, vindo da neve que entrou e vai derretendo com os passos e o fôlego falta nas lentas subidas em altitude.

Passei meu primeiro Natal longe do Brasil. Confesso que passar um natal no frio, vendo a neve e comendo cookies com leite foi realizar um dos sonhos de infância, e me sentir num filme ou seriado americano, daqueles que a gente tanto vê, imita com neve de isopor e algodão, e acaba passando a festa suando a maquiagem no vestido de alcinha na sala da vó ou da tia. Essa parte foi muito bonita. Mas nem de longe me tocou como eu esperava. O que reviveu dentro de mim foram sentimentos profundos, nem todos muito bonitos, e pensei muito se iria expô-los aqui ou não, mas decidi que preciso.

Natal pra mim sempre foi a festa da casa da Vó! Nunca me importou que faltasse a neve, porque tinha piscina! Nunca me importou que faltassem as frutas vermelhas do hemisfério norte, porque tínhamos nectarinas!  E mais importante de tudo, tinha a parte de pintar pinhas e cascas de árvore em spray dourado com minha vó, e arrumar uma mesa antropofagista e cheia de Tropicália, e de artesanatos manuais, que barateavam a festa pro bolso dos meus avós e ocupavam as crianças, nos envolvendo numa produção local de dias. Os embrulhos e laços eram por nossa conta. O dia de montar a árvore era um evento. O dia do presépio outro.

Esperávamos o dia que os primos podiam dormir em casa e fazer tudo junto. Nunca vou esquecer do céu incrível pintado em papel pardo, feito pela tia e artista plástica Monica, cheio de cores lindas, e iluminado pela instalação elétrica do vô André que garantia a luz da estrela-guia aos Reis magos, afinal, estávamos na casa dos Reis. Eu costumava ir para a sala a noite no mês de dezembro só pra admirar tudo no escuro antes de dormir. Às vezes minha mãe me achava lá. Me oferecia um pouco de sorvete e ficávamos abraçadas em frente às luzes de natal, no calor dos tópicos e do nosso amor.

Esse tempo acabou bem antes da neve chegar.

Com as internações, doenças e mortes, esse natal tropical, familiar, coletivo, onde cada um levava um prato e tudo era muito unido, foi se desfalecendo. Algumas pessoas na família foram assumindo as responsabilidades, e as coisas foram ganhando outras caras, outras cores. Alguns natais foram muito bonitos, mas se perdeu muito daquela coletividade, e dessa coisa simples, até tosca, caseira, remendada, feita com as mãos, que na verdade eu tanto amava!

Os natais ficaram mais profissionais. Os presentes já vinham embrulhados. Eram bons, de loja. Não eram os repasses loucos da minha vó, que ganhava presentes ao longo do ano e guardava pra dar pra outros depois. Nem as coisas que ela mesma fazia, como bolsas e casacos de tricô, gorros e luvas, ou os brinquedos caseiros feitos da oficina do vovô. Ou potes de doce. Eram coisas “de verdade”.

A decoração também vinha pronta. Comprada na loja, quiçá mais barata que artesanato caseiro. Não era mais a guirlanda feita à 6 mãos, por 3 gerações de mulheres, que entrelaçavam pedaços de cipreste do jardim, com fitas vermelhas e pinhas pintadas de dourado. Com bolinhas de isopor fazendo às vezes de neve. Nem as árvores malucas, criadas pelo nosso inventor de carteirinha, como uma que era um enorme cilindro feito de tela de galinheiro, recheada de galhos de cipreste podados da cerca de casa, com uma estrutura interna para a iluminação, e mil tipos de bolinhas (vidro, isopor, metal, plástico) que se acumularam ao longo de décadas numa caixa cheia de bolinhas de isopor. Só de bater o olho dava pra ver umas de vidro pintado em rosa e dourado e com listras com cara dos anos 60 e 70, e umas que mais pareciam bolhas de sabão azuis de plástico translúcido, recheadas de “neve” bolinhas de isopor e conectadas pro laços em tecido xadrez, com aquela cara de anos 2000.

A comida não era mais “cada um trás um prato” e sim uma bela encomenda profissional. E a bagunça da cozinha, as receitas de família, os custos e as contas que seu André fazia pra ver se ia dar, a porca do Cícero, que tanto nos assustava, mas que chegava todo ano. Isso tudo ficou pra trás. Ficou mais fácil. Mais adaptado pra vida moderna, onde as crianças cresceram e agora todos trabalhavam. Tinham dinheiro e não tinham tempo.

E aí piorou um tantão!

Respiro fundo pra não chorar em público enquanto escrevo, e ao olhar pro lado vejo algumas meninas de não mais de 12 anos que chegaram com seus casacos de gominho (tipo boneco da Michelin) cor-de-rosa, pra usar a biblioteca, todas tão acostumadas com essa maravilha pública daqui, fazendo trabalhos de férias escolares em grupo!

Mas vamos lá, que ainda falta um tanto de memória e outro de emoção.

Sem a vó, sem o vô, e depois sem minha mãe, fiquei sem meu natal de vez! Claro, minha família é enorme e nunca faltaram convites dos tios e tias para passar com eles. Mas todos pararam de se reunir da mesma forma. E eu me senti um apêndice. Foi ruim e doeu mais do que imaginam! Não foi culpa de ninguém e eu tinha 10 opções de casas pra ir, nenhuma era minha! Não com aquele sentimento. Eu tava lá e as pessoas me queriam lá, mas tinham o natal comigo e os arranjos próprios de cada núcleo familiar. E a preocupação de com quem eu ia ficar. Isso foi em minando por dentro.

E eu senti necessidade de me afastar. De criar meu natal. Em 2014, antes de ir pra São Paulo, convidei meus irmão pra fazermos uma ceia nossa. Meios irmão que somos, não passamos a infância juntos e nunca tínhamos passado o natal juntos, ou pelo menos não como programa principal, só em passadas rápidas entre outras casas. Meus irmãos estavam sem filhos no dia, cada qual tinha ido ficar com as famílias maiores e mais cheias de primos e de sentimento natalino. Fizemos uma ceia vegetariana em minha homenagem. Comemos horrores. Minha Monnita, amiga do coração, levou um chocotone de morrer de bom.

Não doeu tanto porque foi novo, e com isso menos perceptível a falta dos que não estavam ali. Mas ainda assim, não tinha o mesmo gosto de natal.

Em 2015 passei o Natal em São Paulo, com a família do meu então ainda só namorado, André. Foi um Natal em família, simples e bonito, com direito às tradições todas. Não tinha crianças. Os mais jovens estavam todos no celular o tempo quase todo. Aquele sentimento de comunhão da infância também me faltou. Me senti de novo um apêndice. Uma “estranha no ninho”. E vejam, não foi por falta de recepção calorosa. Mas existem tradições, que toda família tem, e que quem vem de fora, não pega, não entende, não faz parte da piada interna.

E aí temos 2016. Outra terra, Mundo Velho, neve e uma grande dose de solidão. Só eu e meu marido. O primeiro natal dele longe da família, o que também pesou um pouco pra ele. Não sabíamos bem o que fazer. Sendo ambos vegetarianos nem fazia sentido aquelas comidas tradicionais, além disso, só duas pessoas, ia sobrar pra vida inteira, mesmo que optássemos por algo sem carnes. Comemos muito bem. E uma comida especial, mas algo que fazemos com alguma frequência. Não tinha exatamente cara de ceia de natal.

Nada no dia indicava natal. Não tinha presente, árvore, excitação, crianças, ninguém esperando o Papai Noel, nenhuma visita que chegaria depois. Nada. E aí saímos de casa.

 E a cidade estava em festa! E as luzes de natal estavam por toda parte! E a catedral estava aberta. E tinha Minairons passeando por aí! E uma enorme fila cheia de famílias com crianças, que passavam pela praça dos Minairons, que catavam em volta da fogueira sobre o espiríto do natal, que tinha mais a ver com o inverno e as pinhas do que com o papai noel vermelho da coca-cola. E uma mesa gigante com chocolate-quente e pão doce, simples e gostoso, sendo distribuído. De graça. Presente da associação comercial e da prefeitura para a população. E todo ali na rua. Com ou sem família. Cheios de cachorros. Com luzes, com música, com comida. Depois entramos na catedral, e mesmo sem ser católicos aproveitamos para admirar a arquitetura e os ritos, aqui tão medievais, envolvendo inclusive espadas durante a Missa do Galo.

Fui pra casa aquecida, na alma. Apesar do frio nas bochechas. Sentamos e conversamos. Tomei leite com cookies. Fiquei no sofá. Bateu uma certa solidão? Sim. Mas pelo menos a falta dos que ali não estavam era clara e generalizada e não apenas aquela ausência profundamente ignorada dos anos anteriores. Não apenas a ausência da minha família, daqueles que já não estão entre nós, mas a ausência daquele natal, aquele dos artesanatos e das comidas e dos presentes inventados.

Era só a ausência dos vivos mesmo. E essa com whatsapp a gente remedeia. Fazem falta. Claro! Mas pra mim doeu menos. Pode ser que seja egoísmo? Talvez. Mas talvez eu precisa de natais assim pra conseguir voltar e sentir que há alegria e comunhão. Não é só a falta da família. É também a falta do sentimento de comunhão do natal. Não foi exatamente um natal feliz, mas foi um natal bonito. E eu vi comunhão de novo. Entre estranhos.

Não teve presente, mas vivemos o presente, e não o celular e a distância! Não teve ceia, mas teve couve-flor com queijo gouda, chocolate-quente e pão doce, e cookies e leite! Não teve fartura, mas teve coletividade! Dormimos cedo, nos escondendo do frio em baixo das cobertas. E meu coração aqueceu!

Feliz Natal e Bom Ano Novo! Que venha 2017, com suas descobertas.

 

Então, é Natal

Acordei relativamente cedo para um dia livre. Hoje é um dia livre? São tantos compromissos que a sociedade nos impõe. Acabamos passando por mais correria do que por momentos de paz. Por mais confraternizações forçadas do que momentos de real felicidade com a família e amigos. Veja bem, não pretendo reclamar dos meus aqui. 2014 tem sido um ano especialmente feliz! Estou extremamente satisfeita com todos os meus relacionamentos e metas alcançadas. E muito, muitíssimo grata! Aos meus familiares, amigos, e todos os que tem feito parte desse momento. Mas voltando ao desabafo.

Eu moro próxima ao maior shopping da minha cidade. Nos últimos três dias quase não consigo sair de casa. A rua do meu prédio desagua numa rodovia. Preciso pegar pelo menos um trecho dessa rodovia, antes de mudar de direção, seja para norte ou para sul. Nos últimos três dias o engarrafamento nessa rodovia é perene. Na primeira vez, achei que poderia ser um acidente na pista. Não. É o shopping. Fora a total e completa falta de delicadeza e gentileza das pessoas no transito. Incapazes de compreender que eu não quero tomar o precioso lugar delas na fila de carros que invadirá o shopping, só quero passar e poder chegar e sair de casa.

Então, isso é o Natal. Cada dia menos amor, menos gentileza, menos sorrisos frouxos nas caras abobadas de felicidade, menos brincadeiras e mais obrigações, compromissos sociais forçados, regados a rios de dinheiro gastos desnecessariamente para compensar a falta de tempo de qualidade passado com aqueles que realmente amamos. Infelizmente tenho presenciado muito disso.

Hoje passo o dia do natal sozinha em casa. Tenho um dia de folga para lavar a roupa suja acumulada, fazer as unhas e para pensar, sentir saudades, escrever, e beber meu chá companheiro de todas as horas. A noite verei familiares, cozinharei. Ouvirei música, e terei mais saudades. Amanhã almoçarei com mais familiares. Me distrairei, e terei mais saudades. A vida nunca mais será a mesma. A vida sempre muda, para todos, quando acaba a adolescência, e a primeira etapa da juventude, quando saímos da casa dos pais, quando temos que trabalhar no dia de natal e aprender a ser gente grande.

Algumas pessoas vivem a infância em famílias pequenas. E o dia de natal tende a ser mais monótono, ainda que muito carinhoso, de família para família. Às vezes esse dia significa ver parentes distantes. Viajar de volta à cidade origem dos pais ou avós e rever aqueles que você mesmo muitas vezes nem sabe exatamente quem são, mas são família, e é dia de vê-los. Dia de ter as bochechas apertadas por milhões de tias na infância, de ouvir comentários sobre como você deveria conduzir os estudos e o trabalho e sobre sua vida afetiva, quando já adulto.

Os meus natais nunca foram assim. Eu cresci numa casa de vó. Na casa da Vovó! Para onde toda a família convergia todo simples e mero final de semana, quiçá no dia de Natal! Um lugar mágico, e passava esse dia entretida nos preparativos mirabolantes que envolviam morar na casa sede desse grande evento familiar. Ir ao mercado com o vovô, fazer as unhas da mamãe, lavar e organizar as frutas e castanhas com a vovó. Colher pinhas secas na rua e tingi-las com spray dourado, fazer muitos e muitos laços de fitas vermelhas e xadrez, preparar guirlandas com ramos de cipreste aparados do próprio jardim. Assistir à vovó se arrumando. Correr escadas acima e a baixo o dia todo, sendo a mensageira, pega tudo, faz tudo da família.

E depois receber tios e primos aos montes. Fazer embrulhos de última hora. Atender telefonemas. Tirar fotos. Contar histórias de Papai Noel para os mais novos. Brincar com os primos até aquela hora da ceia que parece nunca chegar. Rondar a árvore de natal. Tentar adivinhar os presentes pelo embrulho. Ver os nomes e fazer contagens de quem ganharia mais e menos presentes. Organizar e realizar amigo oculto. Servir petiscos e frutas em bandejas. Sempre com muita gente, muita luz. Sim, nos vestíamos só para ficar na sala. Mas era uma sala imensa, um mundo à parte, com seu pé direito de dois andares, e vidros voltados para o jardim e o lago.

Nunca foi monótono. Nunca foi leviano. E nunca foi solitário. Até certa época. Depois que meus avós faleceram tudo mudou. Não havia mais o nosso castelo encantado. E cada um possui outras famílias, outros lugares para estar. Outras pessoas para ver. Os primos não são mais crianças. Muitos trabalham no dia. Chegam tarde. Cansados. Falta quem agite. Falta alguém que reúna a devoção que uma vez existiu naquele momento familiar. Fosse pelas crianças, fosse pelos meus avós, todos estariam ali. Agora nos vemos. Nos amamos. Mas não somos mais a grande prioridade uns dos outros. A vida segue. As tradições mudam.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Lavei a roupa suja acumulada, já que tive um dia de folga. Fiz as unhas. Cuidei de mim. E senti saudades. Mais tarde, verei familiares, e ouviremos música, e sentirei mais saudades. Amanhã verei familiares, comeremos, veremos fotos antigas, e sentirei ainda mais saudades. Essas saudades já não são só as que sinto dos meus avós e dos meus pais. São as saudades de uma vida que já não é. São saudades de mim mesma. São a nostalgia de quem teve o grande privilégio de viver uma infância abençoada, feliz, e incrível. São as saudades de quem cresceu num ambiente familiar privilegiado, nutrido dos mais belos tipos de amor. Com as mais lindas demonstrações de carinho e devoção familiar.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Ainda bem. Tive o tempo de perceber como a vida é abençoada. E hoje eu sei que sou uma pessoa mais feliz, pois vivi já mais de uma vida só nessa, e a vida da minha infância foi maravilhosa. Novos capítulos me aguardam e como eles serão, só o tempo dirá. Mas tenho certeza que serão diferentes. Cada natal uma nova experiência. Talvez novas tradições surjam, e talvez elas acabem algum dia também. Meu presente de natal eterno será sempre essa memória doce de uma infância preciosa e feliz. O melhor presente que eu ganhei nessa vida foi todo esse amor, de ter crescido entre aqueles que garantiram que independentemente de estarem aqui ou não, me fariam felizes para sempre! Feliz Natal!

A nostalgia do fim de ano: O Natal da Saudade

Hoje estou extremamente nostálgica. Estaria preocupada não fosse o já marcado almoço de Natal de família para amanhã, que me garante que suprirei boa parte dessa nostalgia, já que em festas de família, não há nada mais padrão do que ver fotos antigas, comparar o evento com os de anos anteriores e rever membros da família que não víamos a meses. Gosto de tudo isso, de todo o clichê envolvido, da poesia que existe na poeira levantada desses momentos. Mas além disso tudo existe uma outra nostalgia, um outro nível de nostalgia que me ataca nessa época.

Sempre fui uma pessoa muito nostálgica desde a infância, e contemplativa. Tenho essa tendência a observar momentos e depois revivê-los em minha mente, saboreando-os, perfumando-os, esmerilando-os. Contando a estória da história, e muitas vezes modificando-a um tantinho para guardar uma memória romanceada, com direito a filtros de cor e luz e trilha sonora, e que fique bem claro, minha mente já fazia isso muitos e muitos anos antes do Instagram.

Todo ano, quando começam a aparecer as luzes de Natal é como se se abrisse um portal. Como se os mundos se conectassem, e um pouco do meu mundo mágico pessoal, da literatura e da música, onde habitam todos os meus amigos e paragens mais queridos, migrasse um pouco para essa terra média, e especialmente durante o nascer e pôr do sol, eu estivesse com um pé na realidade e outro na fantasia. Isso faz com que eu tenha muita saudade de coisas que nunca vivi. São os momentos que sinto como se estivesse estudado em Hogwarts e estivesse saudosa do Baile de Inverno. Ou como se alguém tivesse deixado a porta do guarda-roupa aberta e os ventos nevosos de Nárnia estivessem invadindo meu verão chuvoso brasiliense.

E ao mesmo tempo sinto falta das histórias contadas pela vó na frente da lareira. Sinto uma falta que dói dos meus avós e sinto de verdade o cheiro dos ramos de cipreste molhados de chuva que podávamos do jardim e usávamos pra decorar a melhor árvore de Natal de todo o mundo, que era de mentira e de verdade ao mesmo tempo, trazendo o cheiro do Natal para dentro da sala sem matar árvore nenhuma. Obviamente uma invenção do super-homem, melhor avô do mundo.

Fico nostálgica e escuto Nat King Cole em minha mente, relembrando os artesanatos decorativos que fazia com a vovó, escolhendo cuidadosamente no quintal pinhas, e ramos de algodão, e pedras, para tingir de dourado e folhas secas que seriam pintadas de verde e vermelho e se mesclariam nas gamelas de barro e madeira, cheias de frutas da estação e castanhas. Sinto falta da excitação que tomava conta de todos, a ansiedade de ver toda a família reunida. E sim, era muito mais do que válida a expressão “se arrumar toda pra ficar na sala”! E como adorávamos!

Cada pedaço de papel guardado e todas aquelas tardes fabricando meus próprios cartões de Natal antes de enviá-los aos amigos. Já era uma coisa meio antiquada, mas eu amava comprar selos, e grudar envelopes, ter que anotar os endereços com CEP dos amigos, ou passar horas consultando o livro dos Correios para poder fazer surpresa. Além dos cartões eu tinha a função de empacotadora oficial da família. Comprávamos os rolos de papel natalino, um bom durex novo, fitas, muitas fitas. E assim se passavam manhãs de férias nas quais eu praticava a habilidade de fazer belos laços. Sempre tinha alguma lembrancinha esquecida, que era improvisada de última hora, um embrulho a ser feito dentro do carro antes de chegar na festa.

E assistir à minha avó arrumando a casa, tomando parte naquele processo de enfeitar e tornar festivo cada momento. E também quando eu a via se arrumar. Sempre achei um momento tão íntimo e tão maravilhoso. Minha musa, minha diva. Quando ela sentava na mureta do box, de frente para sua parede de espelho do banheiro, de roupão e bobs no cabelo, depois de tudo pronto e banho tomado. E eu sentava no chão pra assistir aquela transformação maravilhosa, e via cada cacho cair do bobs, cada pincelada de maquiagem, cada expressão facial estranha para aplicar bem um batom. Combinação cor da pele embaixo do vestido, e uma ajudinha da neta proativa pra fechar um zíper, um botão nas costas ou um fecho de sapato. E sempre, o gran finale, quando ela, já toda pronta, ficava com apenas o colar na mão e me pedia para ver se o vovô já estava pronto e chamá-lo. Ele vinha cheiroso do banho, de camisa, sempre em tons de azul e frequentemente listrada. Ela só abria a mão, sem uma palavra, e ele colocava o colar nela. E só então descíamos as escadas para receber a família e viver mais um Natal.

E mesmo enquanto eu vivia todos aqueles momentos, como se minha vida fosse um filme, sentia nostalgia, saudades do que nunca vivi. Ou do que estava vivendo. E me perdia fitando o pisca-pisca das luzes da árvore por horas. De um jeito bom, meditativo. Sinto falta hoje em dia de morar numa casa imensa, e de poder fugir do mundo, e me sentar naquela sala de pé direito desproporcionalmente alto, com todas as luzes apagadas, numa almofada no chão, tarde da noite, e ficar acompanhando as luzes em sua dança, em frente à árvore. Até que muito tempo depois minha mãe chegava em silencio, sentava ao meu lado, passava o braço ao meu redor, e depois de minutos em silêncio me perguntava se estava tudo bem. Ela sabia que eu precisava de momentos fora dessa realidade, entendia, apoiava, respeitava. E meditávamos juntas um pouquinho, abraçadas, naquela dança de luzes, no escuro, com aqueles cheiros e sons tão familiares. Até que ela me chamava pra ir dormir. Sem se preocupar com horário pois eu já estaria de férias da escola naquela altura do ano. Eram momentos de cumplicidade. De sentimentos profundos que sempre tive e nunca entendi. Momentos em que reconhecíamos a existência deles sem questioná-los.

Sempre fui nostálgica. Hoje sou saudosa. Não tinha motivos aparentes pra nostalgia antes. Tenho muitos pra saudade hoje.