Big Little Lies

Apesar do texto ir ao blog na terça, hoje é sábado. São quase 18h e eu estou atônita, olhando para a tela do meu computador depois de terminar de assistir Big Little Lies, sem saber o que pensar, o que sentir, além de que eu queria muuuuuuuuito nesse momento dar um abraço bem forte em todas as mulheres que eu conheço e dizer “Você não está sozinha! Está tudo bem!”

Eu não vou dar spoilers, e peço a gentileza que não deem, caso deixem comentários, mas recomendo fortemente que assistam! Especialmente se você for mulher. Não é um seriado leve. É forte, os temas são pesados. Mas fala muito profundamente com o âmago da realidade de ser mulher. Mesmo que seja de uma mulher linda, rica, californiana.

Esse seriado é extremamente relevante, embora possa não parecer a princípio, porque fala de algo que hoje em dia é norma: a falsa realidade, a vida aparente. Lembre-se sempre, sempre, que todas as pessoas do mundo, apesar das fotos de viagens, comidas lindas e gostosas, amorzinhos sem fim e tudo o mais que o facebook, instagram e mídias sociais representam hoje em dia, todos são humanos! E todos nós levamos uma bagagem bem pesada nas costas!

Algumas bagagens são mais violentas, outras mais amorosas, algumas mais sofridas em silêncio e outras aos berros, mas todos nós temos uma bagagem enorme. E todas as mulheres apendem desde cedo a sorrir, serem bonitas, apesar de, e justamente porquê possuem, suas bagagens.

Tratem as pessoas com amor, a gente nunca sabe o quanto o outro precisava daquele abraço, daquele elogio sincero, daquela pausa pro café, pra desabafar, pra sentir confiança em contar com o outro. E mulheres, minhas irmãs, sejam mais solidárias! A gente sabe o quanto cada uma sofre, e sabemos que por trás de cada sorriso existe muuuita bagagem! Vamos nos olhar nos olhos de forma a ir além dos sorrisos, e dar amparo à alma! É tudo que ofereço e peço!

De quebra, assista quando puder. São 7 episódios de aproximadamente 1h cada. Veja na ordem. Não veja o sétimo antes de nenhum outro. Você só respira aliviada nos últimos 10 minutos. Até lá, perceba na maldade humana o reflexo de outras maldades, e perceba que os ciclos não se rompem sem muito amor, muito apoio e muita sororidade!

Ah sim, aproveita e baixa também a trilha sonora, vale a pena!

Aproveito pra deixar aqui essa dose de amor bem nessa semana que completei meus 31 anos. Sim, eu amo ser uma mulher na casa dos 30! E sinto que ficará cada vez melhor! ❤

bll cafebll

 

Dicas de Filmes – 1º parte: Filmes para Entender o Mundo

Esses dias um amigo fez um post no Facebook pedindo sugestões de filmes. Fiquei um bom tempo pensando, já que ele se declara um não fã de cinema e queria conhecer. De tanto pensar, me veio a ideia de fazer esse post.

Vou dividir minhas sugestões em tópicos, para auxiliar nas escolhas de quem quiser pegar as dicas e fazer umas maratonas de filmes com muita pipoca e chocolate em casa!

Tendo feito uma primeira seleção de cinco títulos, organizados sob o tema: Para entender o Mundo, convidei o André para escrever um pouco sobre cada um deles! Nos próximos posts dessa série vamos comentar juntos outras categorias de filmes, como drama, ação, suspense, e categorias temáticas, como a de hoje, unindo filmes por um fim condutor próprio, como Homem X Natureza, e outros do tipo:

(by André):

O primeiro quinteto de filmes que sugerimos são focados em denuncias e abusos do sistema capitalista. Claro que, como sempre, sofrem os mais fracos. Por isso são filmes um pouco mais difíceis de se achar, pois dependem que pessoas que não sofram diretamente a violência e tenham o senso de justiça para denunciá-las. Também são filmes que raramente ganham algum prêmio, já que o destaque deles certamente faz com que alguns grupos influentes percam prestígio e, consequentemente, dinheiro.

Dá pra perceber pela lista que fizemos que a África é tema recorrente para falarmos de exploração e abusos. Dois filmes se passam integralmente nele e outro tem uma extensa parte sobre o continente. Lá, nem as leis são consideradas leis pelos órgãos internacionais e nem as pessoas são consideradas pessoas pela mídia internacional ou pelas empresas. Basta ver o destaque que algumas poucas mortes na Europa ou Estados Unidos recebem, quando comparado com massacres gigantescos na Nigéria ou na Republica democrática do Congo (onde, aliás, os belgas mataram mais congolenses do que Hitler matou judeus…). O resultado disso é o aproveitamento de diversas indústrias para ampliar seus lucros a todo custo.

Outro tópico importante de se ressaltar na nossa lista é o papel da ignorância para que tais atividades continuem funcionando. Em todos eles, a falta de conhecimento do público geral sobre as atrocidades cometidas faz com que não haja pressão para mudanças. Muito mais seguro para os investimentos assim, pois o silêncio de alguns jornais, seja com propina ou assassinatos, sai mais barato do que comprar parlamentares ou juízes em nações desenvolvidas para evitar punições, e ainda ter que arcar com os custos da perda de reputação.

Alguns deles trabalham também a sinergia de corrupção entre companhias e políticos. Claro, todos nós gostamos de pensar que o “mundo ocidental” é democrático. Mas por isso mesmo fechamos os olhos para a velocidade com a qual o capital mobiliza parlamentos e presidentes por trás dos panos, às vezes compartilhando os espólios de suas empreitadas, às vezes fazendo o trabalho sujo que os próprios governos não querem fazer. O resultado é a venda de uma imagem adorável e trabalhadora para a população, mérito dos infames marqueteiros, mas uma realidade asquerosa de compactuação com o que há de mais deturpado na sociedade.

Imagino que conseguimos cobrir uma gama de setores escusos com esses filmes, com carne, armas, fármacos, petróleo e jóias. Claro, há muitos mais filmes, mas esses são diversificados e com qualidade garantida!

  1. Filmes para entender o mundo 
    1. Cowspiracy (2014)
    2. Terra Prometida (2012)
    3. Senhor das Armas (2005)
    4. Diamantes de Sangue (2006)
    5. O Jardineiro Fiel (2005)

Atwood e as Handmaids

Eu comecei The Handmaid’s Tale por causa da série, que está em destaque e comecei a ver referências na minha timeline do facebook o tempo todo. Li em menos de uma semana. Devorei! Recomendo fortemente o livro, que é de 1985, um ano mais velho que eu e tão atual como nunca, infelizmente. Geralmente sou um pouco cética com livros que bombam por causa de filmes, séries, adaptações, visibilidade midiática, porque muitas vezes é feito um marketing em cima da história apenas para que a versão mais vendável e “palatável”, geralmente a visual, ganhe destaque.

Vejo isso acontecer com muitos best-sellers e por isso desanimo um pouco da leitura quando há muito bafafá sobre os subprodutos de um livro. Há, claro, exceções. As Crônicas de Gelo e Fogo, do Geroge Martin, eu só descobri graças à série, Game of Thrones, e devorei rapidamente os 5 livros disponíveis antes mesmo de terminar de assistir à primeira temporada da série. Gosto muito de ambos, livros e séries. Outras adaptações ficaram muito famosas também, como as do Tolkien, Senhor dos Anéis e O Hobbit, e as da J.K. Rowling, com Harry Potter. Não sou contra adaptações, aliás, gosto muito de observar e comparar. Apenas acho que muitas vezes a atenção dada pela mídia é apenas promoção, marketing.

Dessa vez o que me fez ir conferir o livro foi o fato dele ser recomendado pela Emma Watson (eternamente a Hermione), que possui um clube de leitura feminista do Goodreads e eu resolvi ir conhecer.

Atwood é maravilhosa. O livro me surpreendeu muito. Atwood escreve de uma forma muito feminina, descrevendo a percepção de detalhes ínfimos, como as cortinas ou uma almofada, por linhas sem fim. Mas isso não se deve apenas ao detalhismo, ou excesso de descrição, muito pelo contrário. O efeito da descrição demorada é passar para o leitor a ansiedade da espera a qual a personagem é submetida diariamente na sua vida. Conforme a narrativa se desenvolve as descrições lentas vão abrindo espaço para descrições brutas, às vezes beirando o escatológico (algo que me agrada muito para quebrar com a visão feminina equivalente a delicadeza), e a exposição à brutalidade é também uma forma de gerar no leitor a repulsa sentida pela personagem, bem como sua indiferença em outros momentos.

Assim, para todas as leitoras, existe uma identificação que vai além da mera empatia para com a personagem. Ela é uma mulher. Ela é qualquer mulher. Ela é todas as mulheres. Nesse brilhantismo, Atwood discorre usando uma distopia (cada vez mais próxima da realidade, infelizmente) para agudizar todas as brutalidades sofridas pela mulher na sociedade.

Não vou dar spoilers, mas recomendo o livro. A temática, do ponto de vista político é absurdamente necessária nesse momento, e o estilo é arrebatador, justamente pela proximidade que trás das personagens, com todas e todos nós. Nesse livro não há monstros e heróis, há pessoas, humanos, cheios de defeitos, subprodutos do sistema, cada um com seus vícios, sofrimentos, solidões, ânsias, desejos e penúrias. As consequências são sim monstruosas, mas a forma de mostrá-las, todas as personagens tão humanas, nos faz pensar menos num mundo de Batmans e Mulheres Maravilhas, e mais no nosso mundo.

Mulheres, fiquem atentas! Não podemos ceder nos nossos direitos! Homens, leiam, e façam a reflexão. Pensem nessa narrativa dessa forma humana e imagine seu papel na narrativa que queremos construir nesse mundo.

Recomendo dois textos, mas já advirto que há **spoiler** em ambos!

Tive o prazer de terminar de ler The Handmaid’s Tale no Dia do Canadá e me deparei com esse perfil feito pelo The New Yorker da Atwood, e achei brilhante. É um texto longo, mas dá pra conhecer mais sobre a autora!

Depois me deparei com esse texto da Boitempo, The Handmaid’s Tale: um aviso de incêndio para o cenário político atual, que também me colocou para pensar! Ficam aqui então as sugestões de leituras!

Deixem comentários com suas percepções! Nolite te bastardes carborundorum!

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Vamos ler, meu povo, que é bom demais! 

Eu sinceramente não consigo entender como esse post não nasceu antes. Minha única forma de explicar é que realmente não estava com a cabeça no lugar o suficiente. Mas antes tarde do que nunca, vamos lá.

Eu cresci com livros. Eles sempre foram meus melhores amigos, companheiros de todas as horas. Na minha casa o hábito da TV nunca foi forte. Eu já tinha muitos livros infantis e gibis da Turma da Mônica desde muito antes de aprender a ler. O processo de alfabetização veio de casa, antes da escola, e foi todo na base dos gibis. A primeira coisa que eu li totalmente sozinha foi uma história curta, dessas de uma página, do Dudu, num gibi da Magali. Nessa mesma época minha mãe tinha começado a ler Monteiro Lobato pra mim antes de dormir, e começamos por Reinações de Narizinho. Ela leu cerca de 1/3 do livro pra mim, e depois eu lia em voz alta pra ela. Começamos com aquele dedinho de criança, acompanhando linha por linha, ela me ajudando com as palavras grandes, as trocas de sílabas e no terço final eu já lia por conta, ela de frente pra mim.

Desde de Narizinho e dos inúmeros gibis, eu caí com gosto no mundo dos livros! Lá em casa, quando alguém reclamava de estar a toa, ou não ter o que fazer, a resposta era sempre a mesma: “Vai ler um livro!”. O mágico é que os livros nunca acabavam. Tínhamos todos estantes enormes, de muitas e muitas prateleiras em nossos quartos, cheia dos livros pessoais. Além disso, meus avós tinham uma biblioteca imponente, numa estante de prateleiras muito grossas, embutidas na parede, coroada por uma gigantesca enciclopédia britânica, encapada em couro claro, cada volume marcado por um numeral romano em tom dourado na lateral. Essa visão da enciclopédia, era para mim, a coisa mais simbólica do conhecimento máximo a ser atingido. Eu lidava com aqueles livros grandes e pesados, numa língua ainda desconhecida, com a reverência que nunca vi por livros religiosos na minha casa.

Eu tive as minhas versões de enciclopédia, enquanto crescia. Minha mãe e meu tio Guila colecionavam pra mim os fascículos das enciclopédias da Folha, e assim tive a Folha Ilustrada, que comprávamos na banca, outra em dois volumes, com história do mundo, uma edição de mapas com as guerras, e outras do tipo. Isso, meus caros, era como vivíamos na era pré-internet. O primeiro computador chegou lá em casa quando eu já tinha uns 10 anos e pra digitar era direto no MS-DOS (alguém aqui ainda sabe o que é isso?). Lembro quando instalamos o primeiro Windows, e o computador ficou colorido e “bonitinho”. Conexão com a internet veio anos depois, primeiro discada e lenta. Pesquisa na internet fui fazer só no ensino médio. E rapidamente os trabalhos se tornaram digitados. Foi uma senhora transição.

Que fique bem claro, eu sou hoje em dia uma aficionada pela internet e acabo passando a maior parte do dia no computador. Trabalho pela internet, assisto filmes e seriados, jogo, escrevo, enfim, vivo uma vida on-line bem intensa. Até mesmo os livros hoje em dia, com a vida nômade, opto por baixar versões digitais e ler no computador ou tablet. Parece uma outra vida, quando lembro das minhas enciclopédias em fascículos!

Nos últimos anos eu acabei, como a maioria das pessoas que eu conheço, me tornando mais viciada em internet. O celular, com todos os apps, e a possibilidade de estar sempre conectada, e muitas vezes a “necessidade” de estar conectada, criada pelas relações sociais de hoje em dia, sejam profissionais ou pessoais, fez com que meu ritmo de leitura caísse muito.

Quando era mais nova, lembro bem da ânsia por ler, em como eu contabilizava todos os livros que tinha lido no ano. Livros enormes, sagas, trilogias, sequências. Livros de autores de diversas partes. Eu amava fazer minhas análises dos livros, discuti-los com familiares e amigos, dividir leituras. Muitas vezes comprava as trilogias ou séries em parceria com minha prima Carol, cada uma bancava ou pedia pros pais um dos volumes, e íamos lendo, compartilhando. Li livros velhos, livros dos meus avós, foi um marco quando a biblioteca deles se abriu pra mim e consideraram que eu já tinha idade pra explorá-la como quisesse. O primeiro foi por indicação da minha mãe, Dom Casmurro. Meu primeiro livro “de adulto”. Logo desembestei, lia Gabriel Garcia Marques e Jorge Amado como se não houvesse amanhã. Me impressionei bastante com Cândida Erêndida e Capitães da Areia. Em vez de Lolita, minhas noções de sexo vieram dessa literatura crua, e as poucos fui desenvolvendo um gosto louco por ler cada vez mais.

Harry Potter, Senhor dos Anéis, O Hobbit, Silmarillion, Musashi, e um pouco mais tarde as diversas sagas do Bernard Cornwell, como as Crônicas de Arthur, e depois o Sharp, me encantaram loucamente. Sempre amei os mundos fantásticos. Mas ou mesmo tempo fui fisgada pela literatura social, e com Carandiru, do Varella, e Esmeralda, porque não dancei? fui me habituando a ler sobre outros temas, e criar uma visão crítica de mundo.

Os volumes foram tantos, que aos 18 já tinha minha mini-biblioteca, quase tão grande como a dos meus avós, mesmo considerando que muitos eram trocados. Frequentei bibliotecas diversas, e tive uma fase de ler todos os Sci-Fi do Lundum na biblioteca da escola de inglês. Austen e as irmãs Bronte vieram também, e depois Dickens me ganhou o coração! Li muitos clássicos da literatura, brasileira e mundial, alguns obrigatórios na escola, mas a maioria por gosto e curtição.

Aí veio a faculdade e a falta de tempo, e a necessidade de ler por obrigação e comecei a ler por gosto cada vez menos. De mais de 30 livros por ano, passei pra 3! Ainda assim mantive a curiosidade. Li muita literatura de consumo rápido nesse período, para compensar a densidade dos estudos. Best-sellers, livros comentados por muita gente. Depois, quando saí da faculdade, tive uns tempos difíceis, as emoções não andavam boas e foi um período de muita televisão.

Sim, a TV anestesia a mente, e o luto agradece. Antes desse período não tinha hábito de ver séries. Nem Friends, que acompanhou a adolescência, ou Gilmore Girls, eram seriados que eu via sistematicamente, só quando por acaso estavam passando quando eu ligasse a TV. Nesse período comecei a assistir acompanhando, na ordem. Até porque, com a internet, isso ficou mais fácil. Depender das TVs por assinatura, com mil repetições dos mesmo episódios e semanas entre eles era uma fase bem difícil e obscura para os apaixonados por séries.

A literatura foi voltando tímida pra minha vida. E um ponto chave, foi quando comecei a escrever. Comecei esse diário antes do blog, em arquivos esparsos no meu computador. Com o tempo fui organizando e criando coragem para colocar tudo aqui. Nessa época, descobri o gênero “auto-ficção”, termo ainda hoje pouco conhecido, e difícil de classificar. Acabei lendo coisas “classificadas” assim, e outras que não tinham a classificação, mas, na minha humilde opinião, o eram. Me debrucei sobre Munro, e li mulheres sistematicamente. Brum, Saavedra, Falção,Torres, reli Lispector, reli Meireles. Assim nasceram meus primeiros textos da menina. Depois fui abandonando o eu-lírico de terceira pessoa e comecei a escrever como se conversasse com os possíveis leitores.

Voltei pra academia, mestrado, e surgiu uma nova fase triste da literatura na minha vida. Li muito pouco. Essa coisa de estudar textos densos me afasta da leitura por gosto. Além disso, a ansiedade, e mil outros sentimentos negativos que me acometeram nessa experiência acadêmica, me fizeram viciar fortemente na internet. Ficar 2h por dia ou mais vendo bobagens, de vídeos de gatinho a receitas on-line que eu nunca iria fazer.

Ganhei o Walden pouco antes de entrar no mestrado, li os primeiros capítulos, ele acabou ficando na espera! Que triste isso! Nos últimos meses, passados 2 anos e meio dessa espera, resolvi voltar, com afinco. Entrei por um convite maravilhoso para um grupo de leitura de literatura brasileira e estou tendo o prazer de reler os nossos clássicos, além de alguns outros que não conhecia antes. Também retomei meu projeto leia mulheres e estou com algumas na lista, Ana Maria Gonçalves, Elena Ferrante, Margaret Atwood. E o Walden tá quase acabando, finalmente!

Com a volta desse hábito lindo na minha vida diminuí muito o tempo de internet. E estar vivendo numa cidade pequena, sem conexão no celular fora da wi-fi, acampando muito, passando dias na montanha e na estrada, têm sido fundamental para rever esse hábito. Agora que já estou bastante envolvida com os livros de novo, às vezes venho ao computador, conferir uma data, um fato, outros livros do mesmo autor, e não tenho mais vontade de ler todas as noticias do dia, atualizar todas as mídias sociais, ou responder todas as mensagens. Passou! Faço o que vim fazer, abaixo a tela e volto pro meu livro. E é tão bom!

Aceito sugestões de leituras nos comentários! Ando querendo voltar pros mais de 30 livros/ano! E caso queiram, posso dar umas listas com indicações também! Vamos ler, meu povo, que é bom demais!

 

Bela Watson

Eu cresci apaixonada pela Bela, da Disney, do filme A Bela e a Fera, de 1991. Desde que vi o filme me identifiquei profundamente. Minha barbie favorita era a Bela (versão vestido azul, camponesa), com um livro na mão. Pra mim ela será sempre a não-princesa, lembrando que ela é camponesa, que amava ler e conhecer coisas novas. Amava o pai e nunca teve medo da Fera. Pra mim ela sempre foi sinônimo de liberdade!

Nos últimos anos comecei a ver muita gente fazer a crítica e levantar a questão da Síndrome de Estocolmo, onde o sequestrado se apaixona pelo sequestrador, numa alusão de que isso era o que tinha acontecido entre a Bela e a Fera e que romantizar isso é romantizar um abuso. Essa visão sempre me incomodou um pouco, mas aceitei a crítica, achando que o incomodo poderia vir justamente da minha dificuldade em desconstruir meus símbolos de infância,  afinal, eu também cresci vendo Disney.

Ano passado a Emma Watson anunciou que faria a nova versão do filme, A Bela e Fera, também Disney, uma releitura que promete ser fiel à animação de 1991. Amei! Já sou fã da Emma pelo trabalho com Hermione, outra personagem com a qual me identifiquei profundamente na adolescência, a menina inteligente, bookworm, que não leva desaforo pra casa, e ainda luta pelas questões sociais (leia os livros e descubra a atuação dela na libertação dos elfos domésticos da situação de escravidão).

Alguns blogs e páginas que eu sigo vieram com a crítica. Que eu acho sempre válida de ser feita, especialmente para não aceitarmos o peso da influência Disney sem questionamentos. Criticaram a Emma por aceitar o papel, iludindo milhões de fãs, que já a admiram pelo papel de Hermione, no papel de Bela, a menina bonita da vila, que sequestrada pela Fera, aceita um relacionamento abusivo (a Fera além de prendê-la, grita, faz exigências e etc), em troca de uma biblioteca e da esperança que ele mude. Essa crítica me incomodou de novo. E de novo, achei que fosse porque eu precisava rever meus próprios preconceitos, machismos e me desconstruir.

Li também a crítica à Watson pelo fato dela ser a representante da ONU Mulheres no programa He for She, que busca aumentar a consciência das mulheres e homens para a questão de gênero e fazer ações concretas para melhorar a situação da mulher no mundo, especialmente superando a violência doméstica e aumentando o acesso das mulheres à educação e conhecimento, e ainda assim aceitar ser a Bela, dadas as premissas negativas do filme, a Síndrome de Estocolmo, o machismo, as mudanças de humor e a promessa irreal de mudança. De novo me incomodei e de novo achei que precisava me rever meus conceitos.

Isso ficou me incomodando, lá no fundo da cabeça, da memória e do coração. E vi um meme da Emma, com uma camiseta com uma fala da Hermione: “When in doubt, got o the library”, (quando em dúvida, vá a biblioteca), uma alusão à capacidade da personagem de solucionar os maiores enigmas da saga Harry Potter consultando livros. E foi o que fiz. Só que em vez de livro, fui rever o filme A Bela e a Fera, da Disney de 1991.

Ressalto aqui que fiz minhas reflexões sobre o filme, versão 1991. Não sobre os livros com versões do conto. E explico porque. O livro pode conter outros aspectos, mas a minha influência pessoal foi o filme, que assisti em 1991, com 7 anos de idade. Além disso, o filme 2017 com a Watson é totalmente baseado no filme de 1991 e não no livro. Acrescento que não tinha reassistido o filme nunca mais. Estava com a memória dos meus 7 anos lá guardada. Dado o parêntesis, vamos aos fatos.

Ao assistir novamente a animação ficou claro pra mim os motivos pelos quais tanto gostei em 1991 e que são os mesmos pelos quais continuo admirando a animação ainda mais hoje. Sei que sou muito Bela e muito Hermione e entendo e corroboro a Emma pela aceitação do papel. Desde a primeira fala, a primeira música, a Bela diz que quer mais do que a vida provinciana da vila. Que quer conhecer o mundo. Sua paixão pelos livros não está limitada à leitura per si, mais ao conhecimento que ela trás.  Então vamos aos fatos que o início do filme nos trás: 1. A Bela e o pai não são originalmente daquela vila. 2. Ele é inventor (busca pelo novo e desconhecido) e é visto como louco na cidade. 3. Ele quer vender a invenção na feira para conseguir “uma vida melhor” para ele e sua filha. A parte de se mudar da vila após a venda não está explicitada e é uma interpretação pessoal baseada no que falam. Ressalto ainda que dadas as premissas, eles não sofrem necessidades básicas, e ambos desejam conhecer mais, “uma vida melhor” não diz respeito à questões de renda e sim de um local onde ambos não sejam vistos como loucos, ou diferentes, por querem conhecimento.

O Gaston. Se eu já odiava essa personagem desde 1991, agora só piorou. Ele sim é a representação completa do machista. Além de se achar a criatura mais linda, gostosa e poderosa do universo, o idiota tem um mindset mais fechado que cofre de banco. Ele deliberadamente diz que quer casar com a Bela porque ela é a mais bonita, e portanto ele tem o direito de possuí-la, como um troféu, a trophy-wife, para o maior caçador da região. Isso sem nem mencionar que ele é caçador. Mas mais do que isso, ele menospreza ela, e todos os demais, homens e mulheres, e é completamente incapaz de perceber que ela jamais ficaria com alguém como ele, quiça ficaria na vila, algo que parece muito duvidável. Isso sem falar na menção aos 6 ou 7 filhos e na obrigação de cuidar dele, inclusive com massagens nos pés. E além disso, o desprezo dele pelos livros, os quais ele considera perigosos pois fazem pensar. Ele joga o livro dela na lama, põe os pés imundos em cima e despreza o que os livros representam, o conhecimento e a liberdade, tanto quanto pode.

Gaston se supera e consegue ainda um plano macabro envolvendo pagamento em dinheiro para aprisionar o pai de Bela, como maneira de “convencê-la” a se casar com ele. Sua reação quando descobre a existência da tal Fera é a de caçador, exterminamos e pronto. Quando percebe a afeição da Bela pela Fera e se sente preterido, aí torna o assunto pessoal. Gaston representa toda a intolerância com o desconhecido ao incitar a vila a matar a Fera, além de prender a própria Bela e seu pai no porão para não avisarem a Fera a tempo. Mas lidar com o Gaston é fácil, ele é o vilão. Medíocre como esperado. Violento como esperado.

E assim as críticas recaem sobre a Fera. A Fera é a personagem mais esférica, na minha opinião. Ouvi críticas sobre a inconsistência da animação pois a bruxa amaldiçoa o jovem príncipe, e diz que suas chances de voltar a ser humano acabariam no seu 21º aniversário e depois no filme os objetos/servos do castelo comentam que já estão naquela forma a 10 anos. Para mim isso não é uma inconsistência, é apenas o fato de que não envelhecem enquanto estão amaldiçoados, tanto que o pequeno Chip continua sendo uma criança pequena nesses 10 anos. Além disso há que se lembrar que ele poderia ser bem novo e ainda assim “senhor” do castelo dadas as premissas da época.

Quando foi encantado, o jovem príncipe se recusa a ajudar uma mendiga, acusando-a de ser feia e maltrapilha e por isso ela o transforma em fera hedionda, e ainda por cima faz com que a quebra do feitiço venha apenas quando alguém conseguir amá-lo apesar da forma. Por mais que eu ache que o príncipe estava absolutamente errado, e era um ser arrogante e aristocrático (características redundantes nesse contexto), a bruxa pegou pesado ao incluir no castigo todos os servos, que não tinham nada a ver com isso, e que também ficaram amarrados pelo time frame da maldição. Além de arrogante, o jovem príncipe agora vira Fera, absolutamente solitário e sem ter a menor ideia de como amar alguém ou se fazer amado. Se ele tivesse continuado igualmente arrogante o castelo seria limpo, lindo, apesar de assustador e ele seria uma Fera dominadora. Mas ao contrário do Gaston, sempre com a auto-estima no céu, a Fera duvida de si mesma e do mundo. Como um bicho acuado e seu canto, ainda que esse canto seja um castelo, e com todo o passado arrogante por trás.

Essa dualidade faz dele um ser cheio de mudanças de humor e muita dificuldade de se relacionar, com quem quer se seja, além da solidão crônica. Não acho que isso seja justificativa para seu comportamento arrogante inicial, mas certamente deve ser considerado depois de 10 anos. É fato que apesar da maldição, ele só esperava ser deixado em paz, em sua solidão amaldiçoada.

Quando o pai da Bela entra no castelo, o que não deixa de ser uma invasão, e é bem-recebido pelos servos-objetos, a Fera se torna agressiva, sim, mas como um bicho acuado. Com vergonha e medo de que o vejam, de que saibam de sua existência. E o prende não para diversão própria ou crueldade pura, mas como resultado desse medo e dessa frustração, somados à arrogância anterior.

Mas vamos a Bela. Todos falam de Gaston e da Fera, para explicar os acontecimentos, como se a Bela fosse um ser inanimado que só acompanha os homens da história, pai, Gaston, Fera, quando na verdade ela é o centro e o motivo dos acontecimentos principais. Desde o início Bela se declara enfadada com a vida provinciana e com sede de conhecimento. Ela é segura de si e muito firme, sendo muitas vezes teimosa e autoritária também.

Ao encontrar o pai no castelo ela pede para ficar no lugar dele, e se observado com cuidado, não só para salvar o pai, que como diz já está velho, mas pela mudança. Pela curiosidade. Por mais que uma vida provinciana. Claro que ela chora, e questiona as próprias escolhas, como fazemos todas. E no mesmo momento descobre que o castelo não sera sua prisão, que ela tem liberdade ali dentro e sera servida, apenas a Ala Oeste é proibida. Na primeira oportunidade ela vai até a ala, desrespeitando a regra, por curiosidade e sede de conhecimento. Ao ser confrontada pela Fera, que estava em seu direito de proibir a ida a ala, embora não no direito de aprisionar ninguém, Bela sai do castelo. E ao sair diz “sei que dei minha palavra, mas não posso ficar nem mais um minuto aqui”, e ninguém a impede, nem a Fera. Desconstruindo um pouco a ideia de prisioneira e síndrome de Estocolmo.

Sai loucamente, a noite, numa floresta amaldiçoada, e é atacada. A Fera vem em seu salvamento e quase morre. Ela podia ter seguido para casa daí, mas decide voltar. Talvez por culpa ou remorso, mas acho que também pela gratidão e pela curiosidade. Não só a curiosidade com a Fera, mas com todo o castelo, com todo aquele mundo. E lá fica, e lá descobre aquelas pessoas fantásticas, e, claro, a biblioteca dos sonhos. Nesse ponto, existe, claro, o peso da “obrigação” da Bela de ficar, mas pela palavra dada e não pela força.

Já vi muitas pessoas interpretarem como alusivas as relações abusivas, onde não há violência física, mas sim psicológica, e onde a mulher muitas vezes fica por se sentir culpada, obrigada, devedora, ou não merecedora de algo melhor e acho super importante debater tudo isso, inclusive por meio de filmes e animações para que o debate chegue até as meninas. Mas não acho que é o caso da Bela. Ela parece estar sempre no controle. Ao contrário da Fera, que é inseguro, que apesar de ter acesso aquilo tudo desconhece muito, inclusive reluta em admitir a dificuldade em ler. Enquanto Bela me parece muito dona do próprio nariz, sabendo aproveitar tudo aquilo como ninguém.

No primeiro momento em que demonstra tristeza e fala que gostaria de ver o pai, a Fera proporciona a visão, por meio do espelho, e a “libera para ir”,  lembrando que ela já tinha saído antes. E ela vai para ajudar o pai, mas claramente relutante em ir.

Mais a frente, ao chegar na vila e descobrir toda a confusão com o pai, Gaston, os planos malígnos do asilo, e ao informar a vila sobre a Fera, na tentativa de salvar o pai, e de ambos sofrerem a prisão, fala para Gaston “o monstro é você, não ele”, deixando claro como se sentia em relação à Fera (e ao Gaston).

Outra coisa que em chamou atenção ao rever o filme é que ela não sabe do feitiço, não sabe que a Fera se transformaria, nem que aqueles objetos eram pessoas. Demonstrando que seus sentimentos por todos aqueles no castelo eram genuínos.

Em geral não estou aqui pra defender a Bela e a Fera enquanto filme, embora ache que mereça, mas sim pra defender a personagem da Bela. Que é uma mulher essencialmente curiosa, que busca conhecimento, que busca o mundo e que não se rende para ninguém. Quando é para se afastar do pai pelo que considera necessário, ela tem a coragem de fazer, para conhecer, para entender. A Bela se posiciona contra os avanços bem abusivos do Gaston, contra a injustiça à Fera, contra a própria Fera. Nos primeiros momentos, no primeiro dia se recusa a jantar com a Fera e diz isso em alto e bom som. A Bela não abaixa a cabeça. E por isso acho que é diminuí-la considerar que ela foi vítima da Síndrome de Estocolmo, da sedução por relação abusiva da Fera e ficou por isso. Essa não é a Bela que eu conheço.

A Bela que eu conheço é forte, corajosa e muito curiosa! Ama o desconhecido e vê as coisas pelas suas atitudes. Responde, é teimosa, faz o que quer, quando quer, não tem medo das consequências nem das represálias. A Bela é livre! E rever a animação me devolveu a confiança no meu gosto, desde os 7 anos. Na minha visão de uma mulher independente, sonhadora e curiosa. E tenho certeza que ninguém faria melhor jus a essa personagem que a Emma Watson.

(Little Town song, The Beauty and the Beast – 1991)

(Little Town song, The Beauty and the Beast – 2017)

SP by JuReMa – Cultura

Falar de cultura em São Paulo é fácil e difícil ao mesmo tempo, justamente pela abundância. Até fiquei receosa de nomear meu post assim, mas resolvi manter e me explicar. Pra mim, no estilo SP by JuReMa a parte “Cultura” não se resume a esse post, mas à serie toda! São Paulo é daquelas cidades que você vivencia a cultura desde que esteja lá e de olhos abertos. Não precisa fazer mais nada. Agora está um pouco mais complicado, com os grafites apagados pelo Dória, numa atrocidade cometida contra a cidade. Qualquer um que olhe SP com olhos de verdade pode perceber a importância do grafite e da arte de rua pra cidade. Mas não é só isso, é ver SP não como a selva de pedra, que ela também é, mas como essa cidade viva, que respira, transpira e aspira cultura.

Existem muitas São Paulos, como em toda grande cidade. Caso você só ande de carro, só fique dentro de shoppings e restaurantes famosos, só vá aos museus conhecidos e em condomínios fechados você vai conhecer uma Sampa. Cheia de cultura e atrativos. Mas mais homogênea.

Caso você ande a pé e de transporte público, vai poder apreciar a confluência de estrangeiros, imigrantes, refugiados, migrantes internos, que fazem essa salada cultural que é São Paulo. No Centro e na Paulista essa diversidade fica mais evidente e a Paulista Aberta, aos domingos é uma excelente oportunidade de ver e ouvir muita arte de rua. O Largo do Paissandu, com a Galeria do Rock, Galeria Olido, e a Praça da República também garantem uma vivência única, além da foto tradicional onde a Ipiranga encontra a São João. Essa é menos arrumada, menos cheirosa, e bem menos tradicional que a São Paulo do guia turístico, mas é mais rica em cores, sabores, idiomas e diversidade.

SP tem inúmeras livrarias maravilhosas em shoppings e nas ruas também. Pra quem é de outros lugares é impressionante o investimento feito nas livrarias. Nunca são só lojas. São experiências. Meu destaque máximo é pra Livraria Cultura do Shopping Conjunto Nacional na Paulista. Essa Cultura não é uma loja, é um complexo. Além dos dois andares amplos e cheios de pufes e pessoas lendo, há um auditório, um cinema, uma outra loja Cultura Art, uma Cultura Geek e outros. Muitos excelentes lançamentos de livros são feitos lá, com discussões com os autores, além de outros debates com convidados conhecidos que acontecem no mínimo uma vez por mês. No fim de semana, pela manhã, também ocorrem exibições de filmes independentes ou que estão fora do circuito tradicional, com discussões após a sessão. É um dos lugares que é indispensável acompanhar a programação. De quebra tem uma Ben&Jerry’s ao lado! ❤

Outro que merece destaque é o Cine Itaú do Shopping Frei Caneca. O Itaú possui dois cinemas próximos, um de rua na Augusta, acompanhado (do outro lado da rua) de um espaço cultural, e o do Frei Caneca, que sempre exibem filmes que não estão no mainstream dos outros cinemas, além dos blockbusters de sempre. Destaco o do Shopping Frei Caneca, pois lá ocorrem as exibições extras de filmes com conteúdo social. No sábado pela manhã há a sessão Cine Direitos Humanos, por exemplo. Além disso eles possuem muitas promoções interessantes em horários pouco convencionais, preços especiais para terceira idade e outros do tipo. Também considero indispensável acompanhar a programação. Ano passado fizeram sessões de graça (ingressos limitados e filas grandes para consegui-los) dos documentários que concorreram aos grandes prêmios internacionais, como Oscar e Cannes.

Ainda na sessão filmes, destaco a Galeria Olido, no centro, ao lado da Galeria do Rock. A Olido sempre tem eventos culturais, teatro e cinema. As sessões de cinema são geralmente R$1,00 quando em festivais. Eles promovem festivais alternativos, de cinema de algum local específico, incluindo os festivais Cine Imigrante, Cine Indígena, entre muitos outros. E tem mate com açaí e bauru vegano em frente!

O Centro Cultural São Paulo, mais conhecido como Centro Cultural Vergueiro, também é um espaço imperdível e que vale a pena seguir a programação. Já acompanhei lá exposição com mesas de debate de abertura e encerramento sobre a Questão Palestina, além de exibições de filmes alternativos. O local conta ainda com muito espaço aberto livre (uma raridade em SP) onde muitos grupos se encontram e praticam dança de vários estilos, e só de assistir isso já é um show a parte. Outros grupos ocupam as mesas disponíveis para estudos, aulas, jogos. Além disso há a biblioteca, grande, ampla e iluminada. Quando a claustrofobia da selva de pedra aperta, lá é um bom local pra uma brasiliense espairecer. Ha também exibições de filmes ao ar livre à noite, em algumas épocas do ano.

O Insituto Tomie Otake também merece destaque. Sempre com excelentes exposições, um bom café, e o passeio até a região, que nos fins de semana possui muitas opções de bares a noite, ao redor do Largo do Batata e também ao redor do próprio Tomie Otake.

O Beco do Batman se tornou uma atração, embora oficialmente não seja um instituto nem nada, como o nome diz, é um beco, ou melhor, uma rua, na Vila Madalena, onde muitos grafites adornam a paisagem. O local virou um point, pois a Vila Madalena conta com muitos bares e no carnaval é um dos polos de bloquinhos de rua. Talvez lá o grafite sobreviva.

Um que para mim é um charme é a Casa das Rosas, na Paulista. É um dos últimos casarões da avenida (e da cidade) lá é possível ver as fotos de como era a Paulista no tempo dos casarões e fazer uma visita pela casa (guiada ou não) e perceber como era a vida ali no início da cidade, antes da Paulista virar a avenida dos grandes prédios e centros financeiros.  Além disso conta com um belo jardim (cheio de rosas) onde dá pra tomar um café, trabalhar, ler ou estudar em um local central e tranquilo (combinação um pouco rara na cidade), e à noite há exibições de filmes ao ar livre.

O Teatro Municipal é uma visita obrigatória! O prédio é maravilhoso e permite perceber claramente o que representou a era do café para São Paulo, com todo o dinheiro e importância que a cidade ganhou. A programação conta com opções de música clássica aos domingos pela manhã, que são com valores muito acessíveis (R$9,00, meia estudante R$4,50 e outros valores bem em conta). E ha uma vista linda de uma parte do Centro de lá, especialmente do Viaduto do Chá, que também é ponto turístico tradicional da cidade, cartão postal.

A Sala São Paulo também é imperdível e também inclui conhecer melhor o centro. Possui um ar mais moderno e também oferece opções de música clássica a preços acessíveis em diversos horários, especialmente nos fins de semana pela manhã. Há também a programação normal, com inúmeras atrações ao longo do ano.

Além desses há os centros culturais que também existem em outros estados brasileiros, como o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), Itaú Cultural, Caixa Cultural, que sempre possuem programações muito boas, não vou me delongar sobre eles pois são mais conhecidos, mas é indispensável seguir a programação deles e conhecer os prédios e localidades que também são passeios a parte, especialmente o CCBB e a Caixa que estão no centro.

Existem muitos outros centros culturais em SP e eu realmente recomendo que você procure a programação de cada um deles e descubra os que mais lhe apetecem, para a partir daí segui-los e aproveitar.

Sonhos e aprendizado

(**Atenção: não são spoilers, mas há comentários sobre os filmes Into the Wild e Capitão Fantástico que falam de suas conclusões**)

Às vezes acho que é um reflexo da minha geração, que ao mesmo tempo tem muito acesso à informação e muitas desilusões. A vontade de largar tudo e ir viver aventuras, em se embrenhar no mato, conhecer o mundo, se conhecer, não nos larga. Mais é mais do que isso, tem uma parte grande de insatisfação e frustração, em dificuldade de viver da forma “esperada” e muitos sonhos que parecem nos isolar tanto dos demais, especialmente da geração anterior. Mas aí (re)leio Walden, e percebo que o Thoreau já sentia tudo isso, e percebo que o gap não é necessariamente geracional, mas entre pessoas, almas, espíritos, aqueles que simplesmente veem o mundo de outra forma.

Em busca desses sonhos muitas vezes nos perdemos, erramos e acertamos, e temos momentos de felicidade e momentos de desespero, tormenta e bonança, assim como em qualquer caminho de vida. A maior lição do Alexander Supertramp é que a felicidade precisa ser compartilhada, e isso nos ensina, especialmente aos mais introspectivos (pra não dizer anti-sociais) que é preciso cuidado para não se isolar demais. A maior lição do Capitão Fantástico é que precisamos ceder um pouco, ser menos estritos e exigentes na ideologia pois ainda que trilhemos caminhos próprios, estamos no mesmo mundo e o contato com a sociedade continua.

Ao mesmo tempo é importante perceber que aqueles que buscam esse auto-conhecimento não o fazem apenas por egoísmo ou insatisfação, existem conceitos ideológicos fortíssimos que os orientam, e os que discordam desses conceitos não conseguem compreender, concordar ou aceitar as decisões tomadas, e muitas vezes não estão dispostos a tentar entender. Se para quem se isola falta habilidade social e paciência, para quem conhece o “isolado” falta empatia e aceitação das diferenças. De um modo geral, diria que todos deveriam, pelo menos temporariamente, se jogar no mato, rever os conceitos, repensar a alimentação, a relação com o meio ambiente e o sistema no qual vivemos em sociedade, que nos exige tanto consumo e tantas energia, muitas vezes desperdiçados.

Eu tenho buscado simplificar minha vida nos últimos anos. Para quem lê aqui com frequência sabe dos meus processos, de perdas familiares, mudanças e busca por auto-conhecimento. A primeira fase foi de reconstrução e consequente acúmulo. Precisei mostrar pra mim (e também para a família e para a sociedade, mas essencialmente para mim) que tinha capacidade de ter. Ter. Emprego, dinheiro, casa, móveis, roupas (simples e chiques), coisas, eventos, agenda social. Cumpri! Talvez não a contento de todas as expectativas, mas a contento da minha. E mesmo enquanto construía esse caminho ia deixando portas abertas, adquirindo habilidades e condições de seguir outros, de precorrer caminhos, conhecer outras oportunidades.

Há alguns anos venho construindo um outro caminho, e não sei por quanto tempo ficarei nele. Mas um caminho que tem uma dose de desconstruído. Enquanto tive um período de acúmulos, seja de renda, bens, objetos, e mesmo de momentos, pessoas, amizades, oportunidades, agora estou no de desapego! Desde a mudança de Brasília para São Paulo fui me desfazendo de muitas coisas. E também de muitas obrigações. Por exemplo, durante 2 anos usei lingerie combinando todos os dias! Não falhou unzinho! Geralmente era sutiã e calcinha conjunto, combinado mesmo, mas se não fosse conjunto era no mínimo da mesma cor e estilo. Fiz porque achava isso o máximo? Não. Fiz pra experimentar. 99% do tempo ninguém viu, e ninguém sequer soube que eu estava combinada, mas eu sabia. Fiz por mim! Foi um momento próprio e peculiar que fez sentido num período de reconstrução da minha auto-estima, e também de aperfeiçoar a librianisse.

Agora estou num período em que reduzi drasticamente meu guarda-roupa, inclusive de underwear, e com isso estou praticando descombinar, inclusive pra trabalhar o psicológico e não ficar com mania de perfeccionismo. E sabe o que é mágico? Minha vida não é melhor nem pior com ou sem calcinhas combinadas. Tudo faz parte do que faz sentido em cada momento. Se vou usar um top de sustentação de exercício físico não faz nenhum sentido combiná-lo com a calcinha como se fosse um conjunto, porque não é. Não é prático e nem necessário! Mas se quero tenho lá um outro conjunto guardado pra um momento especial, que pode ser a dois, ou apenas aquele dia que eu quero me sentir linda, e ninguém nem vai saber!

Mas o que calcinhas têm que ver com isso? Com o mato, e uma vida mais isolada? São um exemplo. Um exemplo pequeno, só pra demonstrar meu caminho. Esse caminho de auto-conhecimento, especialmente quando aliado a questões ideológicas nos afasta das pessoas, e da sociedade tradicional. O que me diferencia drasticamente do Thoreau é isso aqui, eu não escrevo um diário, eu escrevo um blog! Ainda que sem internet em casa, usando um pouquinho de 4G no celular pra publicar algumas fotos, e respondendo e-mails e atualizando o blog 3X por semana na biblioteca pública, eu ainda estou conectada quase sempre!

Com minha profissão, enquanto professora de idiomas, consigo trabalhar de qualquer lugar com uma conexão e podendo usar o skype. Sem falar em outras opções que o mundo atual nos proporciona, ensino virtual, ensino à distância, cursos, etc. Nisso a internet mudou a vida dos “isolados” nos permitindo selecionar quais partes isolam e quais não (sem tanta seleção assim quando falamos de Facebook e outras mídias sociais, mais ainda assim, participar delas é opcional e para mim é um excelente jeito de manter a família informada de que eu tô viva e bem, e no mato!).

Os que se isolam, buscando não só o auto-conhecimento, mas a paz interior e exterior, a aventura, uma outra relação com a vida, o mundo, a sociedade, as pessoas, os animais, etc, sentem muita solidão. Essa lição está presente em todos os filmes e livros que relatam os que buscam esse caminho. Contudo, o que sinto fortemente, é que essas pessoas, e me incluo nelas, não nos sentimos na verdade parte de nada, plenamente, nem do mato. Talvez só de nós mesmos. Já existe um nível de solidão aguçado mesmo na maior metrópole, mesmo na festa mais cheia, mesmo entre familiares e amigos. Como alguém que acabou de morar 2 anos em São Paulo posso atestar.

Essa parte da solidão e da insatisfação vem justamente das questões ideológicas. Nunca consegui me sentir plenamente parte de um grupo, nunca concordei plenamente com uma religião, nunca concordei plenamente com uma linha pedagógica, com uma escola onde trabalhei, com as leis que regem nenhum país. Claro que as afinidades aumentam ou diminuem de um grupo, escola, país, pessoas, pra outros. E claro que em alguns me senti muito mais à vontade e acolhida! Mas sempre tem aquele pouquinho que questiona. E ao questionar vem uma certa solidão, um certo vazio. É o mal dos que não conseguem comprar o pacote fechado. Nenhum deles. Sempre tem aquela partezinha que a gente preferia mudar.

Para não morrer de infelicidade há que se exercitar a tolerância. Alguns pacotes até consigo comprar “fechados” mesmo sem concordar 100%, porque concordo com a maior parte, e preciso viver. Mas explico isso, porque é um sentimento constante, em qualquer parte do mundo. Aliás, viajar muito tem a ver com essa insatisfação. A necessidade de conhecer tudo e a si mesmo, buscar alternativas, aprender outros mecanismos, tudo nessa busca de compor o melhor pacote possível pra viver.

Quem não entende o que eu tô fazendo, é isso! Eu to procurando as peças de lego que melhor se encaixem na minha alma, ainda que fiquem buraquinhos, de preferência, os menores possíveis. Das lições que tirei até agora, tanto por experiência própria quanto da leitura de filmes e livros sobre outros insatisfeitos e curiosos, a principal é essa: os que se isolam precisam aprender a ceder. O isolamento e a rigidez ideológica levam a um nível de solidão e insatisfação trágicos. É preciso que sigamos nossa busca por conhecimento e felicidade medindo os passos, dois pra frente e um pra trás, mantendo assim outras pessoas próximas.

E o desafio maior é saber lidar com a incompreensão de familiares a amigos, e outras pessoas, que julgam, se acham cortadas ou isoladas, ou discordam, e com isso ficam ainda mais distantes, pois o vácuo passa a ser não somente físico, mas também emocional. E precisamos aprender e aceitar que algumas pessoas, às vezes das mais queridas, vão se distanciar, ou nós vamos nos distanciar, e que por pior que pareça isso pode ser o que há de mais saudável para ambos.

O equilíbrio vem dessa aceitação, de todas as partes. Algumas pessoas precisam ir! E não adianta perguntar pra onde? Ou porque? Ou pra fazer o que? Porque a resposta não vai satisfazer. Os que vão, o fazem porque precisam! Vão viver por aí, porque não sabem viver num lugar só! Vão viver de forma estranha, comer, andar, vestir, tudo estranho, simplesmente porque são estranhos. E acredite, estão felizes assim! E os que vão precisam aprender a ser tolerantes com todas as perguntas, incompreensões e até mesmo  algumas hostilidades. Responder com honestidade sempre e seguir, ainda que isso custe algumas relações. Os que aceitam, ainda que não compreendam, ficarão próximos, mesmo a que léguas de distância!

Com isso, deixo vocês com uma citação do Thoreau em Walden e os trailers de Into de Wild e Capitão Fantástico. E não, eu não estou indo morar numa cabana no mato e nem num ônibus abandoado (ainda, hahahaha). Eu estou numa fase, que talvez seja de transição, ou talvez seja uma conciliação entre mundos, de cidade pequena, internet menos frequente, mato intenso umas 2 ou 3 X na semana. Trabalho à distância. Agradeço profundamente o amor e a companhia daqueles que aceitam me acompanhar mesmo de longe! E agradeço profundamente porque achei um outro maluco que concorda tanto que resolveu acompanhar de perto! ❤

Ps: achei essa entrevista sobre o livro Andar, Uma Filosofia, do filósofo francês Frederic Gros, e pretendo ler o livro em breve. Destaco aqui dois trechos da entrevista e deixo o link pra vocês, além da sugestão de leitura. Quem sabe não inspira alguns a caminharem mais, a desobedecerem mais, ou não te faz compreender melhor as andanças daquele amigo ou membro da família?!

“Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud gostavam de caminhar. E eles o faziam de formas diferentes. As caminhadas do jovem Rimbaud, dispersas e desorganizadas, estavam cheias de raiva, enquanto Nietzsche procurava nelas o tom e a energia da marcha. Kant era metódico e sistemático: o fazia todo dia, à mesma hora, na mesma rota. Todos acabaram mudando seus escritórios de trabalho para o campo, onde as idéias fluíam mais livremente e em plena natureza. Analisando de perto, estas caminhadas guardam alguns paralelos com seus pensamentos, diz o filósofo francês (e grande caminhador ) Frederic Gros no livro ‘Andar. Uma filosofia’.” (…) “Esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação.”

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/caminhar-um-meio-de-desobedecer/

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Para meus pais

Sim, pais, no plural. Eu não vou conseguir dizer tudo o que gostaria nesse momento. Talvez a reflexão completa fique para outro dia, talvez para outro ano. Mas o dia dos pais está aí, na curva do fim de semana. Quando eu nasci, meus pais estavam separados, e eu só fui registrada pelo meu pai aos 13 anos de idade, tendo conhecido-o apenas aos 11. Isso me deixou um vazio. Esse vazio foi rapidamente preenchido, desde a primeira noite no hospital, por uma miríade de pais, que sendo avô, tios, padrinho, amigos da minha mãe, me trouxeram vários mundos de presente. Nas minhas primeiras noites de vida eu já tive pais diferentes, já que as companhias da minha mãe nas primeiras noites  variaram, revezamentos entre família e família, a de sangue, a aquela que ela escolheu ao longo da vida, os amigos eternos. E todos os meus pais queriam me ver, e se declaravam meus pais para poderem visitar o bifinho de um quilograma que a apressadinha de sete meses aqui era.

Meu grande pai sempre foi, e sempre será, sem dúvida, meu avô! Meu mago, meu professor, meu mestre, meu Gepeto, meu Mágico de Oz, a pessoa mais maravilhosa que eu já tive o prazer e a honra de conhecer na minha vida! Se fosse falar sobre tudo o que ele representa para mim, um romance em forma de trilogia não seria o bastante. Inventor, professor, cuidador, dono de uma inteligência e um caráter ímpares, seu André Reis, meu mestre, o grande amor da minha vida! Se eu não mudar de tópico não escrevo até o fim, afinal meu teclado não é à prova d’água.

Meus tios tão queridos, tão amados! Minha mãe sempre teve uma verdadeira esquadra à disposição! Nossos cavaleiros, príncipes nessa família de Reis. Meus três Mosqueteiros e D’Artagnan! Cada um com sua peculiaridade, seus humores, seus cuidados, suas personalidades únicas. Em comum o amor, o caráter e o impulso dessa família, tão fortes, tão presentes em cada geração.

Meu irmão, que por ser mais velho, teve um papel fundamental na minha adolescência, e na minha introdução na família Marra. Se eu cresci com os valores Reis, na adolescência veio a Marra. Uma combinação perspicaz, e com um timming muito interessante para minha formação. Cada dia mais meu amigo, me orgulho do pai que ele é para meus sobrinhos e de ser sua irmãzinha.

Meu pai. Alma de poeta, olhos de Sinatra. Nenhum título para definir melhor esse boêmio, especialista em música, jornalista como mandava o clichê da época, amante dos vinhos, amante da vida, amante. Com todas as dificuldades de relacionamento criadas por essa história de vida, foi graças ao ímpeto de desafiar os pais na adolescência que eu me aprofundei em leituras, especialmente de arte, filosofia, história e conhecimentos de cultura mundial, para debater com esse poeta. Quando ouvi da minha mãe as reclamações indiretas dele de que eu estava sendo muito polêmica, e desafiava-o no debate, dei-me por satisfeita. Aprendi muito com seu Beluco, tanto por tudo que ele fez, como pelo que não fez. E cresci desfazendo castelos de ilusão e repondo-os por castelos de cultura, música, arte, filosofia, e toda essa magia dos poetas.

Por fim, há a perda. E, por isso, faço uma reminiscência com gostinho de bloquinho de três, trazendo dessa vez três filmes, e não três músicas. Para mim, o dia dos pais sempre foi um dia estranho, um dia atípico. Hoje, e para sempre, talvez, é um dia de saudades, um dia de pensar nesses homens, todos muito maravilhosos que fazem e fizeram parte da minha vida. E, agravadas pelas perdas, trago comigo memórias fantasiosas, com as quais tento conhecer melhor meus mitos, meus pais. Decepções vieram com as percepções de adulta, já que perdi pai e avô aos 19 anos, e minha convivência com eles nunca se deu na fase adulta, e se mesclam à admiração por outras coisas que a criança não compreendia.

Por todos, e por tudo, transbordo de gratidão! Foi, tem sido, e sempre será, uma honra!