Eu sou problema meu

A música ta rolando no ipad no spotify “eu não sou um chapéu num armário de alguém {…} eu sou problema meu”, enquanto penduro a roupa lavada, dando graças à Deus por ela ter saído sem manchas, problema recorrente na máquina de lavar de casa. Será que foi o álcool que eu coloquei junto com o sabão? Será que foi a escolha de tecidos? Será que dei sorte? Terminando a roupa, passei pra louça, me esperando na pia, e já deixei um pudim de chia na geladeira para comer no lanche da tarde. Voltei pro computador, respondi mais uns e-mails, deixei a música rolar.

O cursor do word ficou piscando embaixo no mais novo sub-título, e a música continuava, e minha cabeça se perdeu. Na música, no mundo, em mim mesma. Leo ganhando o Oscar, a questão ambiental, a questão racial. De que “lado” ficar? Problematizar ou não? Protagonismos? E o cursor piscando. Eu tenho uma dissertação pra escrever. Aliás, é exatamente por causa dela que tenho escrito muito pouco, para não dizer quase nada, aqui no blog. Tentei reciclar uns textos velhos nos últimos tempos, mas assim, vamos ser honestos, não foi exatamente uma boa produção.

E a música já mudou, mas ainda estou com Clarice. E enquanto a música me leva, o cursor continua piscando. O e-mail para o orientador já foi. Mas a dissertação tá aqui. Me olhando. É tipo filme de terror, ela me olha mesmo quando fecho os olhos pra dormir, mesmo quando assisto um filme, mesmo quando passeio no fim de semana. E quando finalmente sento no computador, depois de passar um bom tempo lendo textos da pesquisa, e o cursor fica piscando. E agora, José? Ou deveria dizer, e agora, Sérgio?

A música acabou, mas o CD novo me garantirá 30min de devaneios. O cursor ainda pisca. Refiz a introdução. Segundo meus estudos mais recentes, que envolvem três livros diferentes de metodologia e um workshop, isso é normal. E até 2017 vou reescrevê-la muitas vezes. Será? Espero que sim? Eu já sei, com essa idade, quase 30, que a minha dissertação é um problema meu. Ninguém me mandou fazer. Eu quis. Ninguém me obrigou a querer. Se meu mestrado me persegue 30h por dia, 8 dias na semana, isso é problema meu, e, de todos os pós-graduandos e pesquisadores, que são obrigados a aprender a gerenciar seu próprio tempo, suas próprias ansiedades e expectativas.

 

A roupa na máquina é problema meu. O feijão no fogo é problema meu. A louça é problema meu. O pudim de chia é problema meu. A escolha ente pudim de chia e doce de leite é problema meu. E a verdade é essa, que todos nós, aceitando sua vida adulta, passamos a ser nossos próprios problemas. Convém lembrar que nem todos aceitamos. Alguns continuam se enganando, se enrolando. Ou resolvem pagar outros para fazer por eles, e continuam com suas babás na vida adulta. E não estou criticando per si aqueles que possuem funcionários, mas sim a lógica bizarra do nosso país, que alimenta essa estrutura, fornece essa possibilidade.

 

Alguns aceitam a vida com empregos convencionais, e claro, enfrentam todos os percalços dessa escolha, como eu já fiz, e fiz muito, foram 10 anos de carteira assinada. A gente reclama do horário, do salário, dos chefes, dos colegas, do plano de saúde, das férias, da vida. Aí você escolhe ser autônoma e pesquisadora, e vê que tudo agora é problema seu. Não existe férias, existe culpa de não estar estudando e produzindo. Não existe horário, existe demanda de cliente. Não existe salário, existem as contas para pagar no fim do mês, implacavelmente. E a certeza de que você está nessa situação não por que foi a que a vida te concedeu, mas por escolha própria, ou seja, é tudo problema seu.

 

Estando em outra cidade, sem os amigos de sempre pra choramingar no ombro, sem a possibilidade de encontrar rapidinho pra comer uma besteira, jacar, e desabafar. Tem whatsapp e Skype, e claro, tudo isso ajuda. Mas não é igual. E a saudade aperta, e sei que estou aqui não porque a vida impôs, mas porque quis, e essa saudade é problema meu. E quando os problemas surgem, e quando dá vontade de correr pro colo da mãe, quando você não sabe o que fazer de algum livro velho, porém de estimação, ou aqueles casacos de frio que você não tem onde guardar e deixa no sótão dos pais, nessas horas eu sei que não tenho mais os meus, e meus livros, meus casacos, meus problemas, são todos meus.

 

E a vida é boa, então me recompensa sempre com novos amigos, novas oportunidades, amores de vida, um companheiro inigualável, uma cidade que parecia tão terrível e me recebeu de braços abertos, me acolheu em seu seio, e me faz transitar por suas ruas com mais naturalidade do que nunca, justamente por permitir que toda minha estranheza seja natural. E nas reviravoltas da vida continuo sendo muito feliz com minhas escolhas. Cada vez mais. E ainda assim, tenho constantemente aquela vontade de jogar tudo pro alto. Virar eremita.

 

Mas se estivesse no alto de uma montanha, a busca por comida, o frio da noite, o calor da pedra ao sol, a circulação travada nas pernas em meditação, seriam todos problemas meus. A verdade, querida Clarice, é que nossa vida é problema nosso, e essa percepção é extremamente libertadora, ao mesmo tempo que joga toda a responsabilidade das nossas escolhas e ações irreversivelmente e exclusivamente em nossas costas. Então te agradeço pelos devaneios, mas tenho que tirar o feijão do fogo, comer meu pudim (porque de doce de leite já chega o fim de semana), e tenho que encarar aquele cursor piscante, porque essa vida é problema meu, eu sou problema meu, então vou lá me resolver.

 

 

Procrastinação ou cansaço

Alt + tab. Mudei as telas mais uma vez. Olhei aqueles mesmos blogs, li mais um artigo muito interessante, mas não sobre minha pesquisa. Troquei do notebook para o ipad. Joguei 10 minutos de Plants vs. Zoombies. Falei para mim mesma que essa pausa de 10 minutos é saudável. Abri o Facebook. Erro mortal. Guerra para todo lado. Polarização, emoção descontrolada, pessoas descontroladas, políticos descontrolados. Ódio. Ódio em todos os cantos. Fechei. Abri um vídeo inspirador. Sentei no EVA azul. 5 minutos de concentração e respiração. Troquei a legging. 30 min de prática. Fiz um chá. Enquanto ele descansava, fiz uma vitamina. Tomei a vitamina. Lavei a louça. Levei um copo de água fresca e o chá ainda quente para a escrivaninha. O computador tinha resolvido fazer uma atualização automática impossivelmente longa sozinho. Reiniciou. Alt + tab. 5 vezes Alt + tab. Circulei por todas minhas abas. Por todas as minhas pastas. 6 e-mails novos. Limpei a caixa de spam. Deletei as fotos e vídeos velhos do celular. O chá acabou. Os últimos goles já estavam frios. Repassei em minha mente a lista de compras para amanhã. Hoje já fiz feira. Já cozinhei. Tem sopa pronta. Tem sopa para os próximos dias, e mais congelada. Tem verdura fresca, folhas verdes, muitas frutas.

Olhei pela janela. Atendi dois telefonemas. Li mais e-mails. Respondi alguns. Organizei uma nova pasta com ensaios para corrigir. Certifiquei-me se tinha respondido todos os e-mails relativos ao recebimento daqueles ensaios, confirmando-os. Um gole d´água. Repassei mentalmente todas as atividades que tenho, todos os prazos. Em sete dias tenho que entregar muita coisa. O dia parece não render. Me sinto como a última das procrastinadoras. Abrindo as mesmas abas, vendo os mesmos sites, olhando o whatsapp. Saudade dos amigos. Saudades da minha cidade por uns dias. Amo Brasília nesse início de dezembro, chove muito. Quero visitar meus primos. Dezembro é mês de visitar os primos. Mesmo ainda sem férias, é aquela época que podia fazer minhas caminhadas observando as luzes de natal nas janelas e árvores depois do entardecer. Comer um doce com cara natalina com as primas. Planejar os presentes de natal, ainda que esses fossem caixinhas feitas à mão, artesanatos, biscoitos. Visitar alguém. Faze cartões de natal caseiros.

Mas eu tenho prazos, e me sinto atrasada e inútil. Me sinto culpada. E quando paro para pensar, sem razão. Esse ano eu me mudei de cidade, em um mês estava no apartamento novo, em mais duas semanas a casa estava arrumada. Eu fiz várias pequenas viagens de fim de semana para locais que sempre quis conhecer, cidades que estavam no meu roteiro há quase quinze anos Me tornei voluntária da ONU On Line contribuindo com traduções, que inclusive foram publicadas no site. Participei de um cursinho popular voluntário. Fiz uma apostila de ensino de português brasileiro para refugiados com caráter social, juntamente com outras pessoas maravilhosas que conheci, de conhecimento autoral e livre. Está disponível para download já. Livre. Para todos. Me tornei voluntária numa ONG como facilitadora de reintegração social de refugiados. Mas essas são atividades de tempo livre. Extras.

Fiz um curso paralelo, com muita leitura, vídeo-aulas, e aumentei minha prática de Método DeRose. Aprendi muito dessa filosofia. Impulsionada pelas aulas li sobre a civilização hindu. Emagreci. Me tornei mais forte, mas centrada, mais equilibrada. Muito feliz. Viajei. Ri muito. Fiz inúmeros novos amigos. Conheci mais pessoas maravilhosas. Reforcei minha mudança alimentar. Faço compra na feira, na porta de casa. Vou até a Zona Cerealista (amor no coração) por cereais e grão a preços incríveis. Vendi meu carro. Ando muito mais a pé. Cada volta da prática à noite me rende uma caminhada deliciosa.

Não tenho funcionários, ou faxineira. Lavamos nossa roupa, compramos e cozinhamos nossa própria comida aqui em casa. As tarefas domésticas ocupam um bom tempo, e estão presentes todos os dias. Claro que tem dias que a casa fica suja, porque simplesmente temos mais o que fazer. A comida é feita a cada dois ou três dias, e vamos esquentando. Mas todo dia tem alguma coisa que não dá para deixar de fazer. Além disso, desde que me mudei já entrei num emprego, saí seis meses depois. Tive alunos particulares, estagiei. Corrijo provas, ensaios. Escrevo.

Já fiz todas as matérias obrigatórias do mestrado e quase todas as optativas. Estou adiantada nos créditos e no cronograma. Mas ano que vem tem qualificação. Mas eu tenho prazos. Mas a bolsa não saiu. Mas eu sento aqui, faltando uma semana para meus prazos finais, e Alt + tab. Me sinto procrastinadora. Me sinto culpada. Li recentemente um artigo que fala dos danos psicológicos de uma pós-graduação. Não chego a classifica-los em danos, até porque isso varia muito do emocional de cada um, dos níveis de ansiedade, exigência pessoal e capacidade de organização de cada um. Mas é fato. Esse sentimento de que não fiz nada e estou sempre devendo está ali. O relógio é acionado como cronômetro no dia da matrícula e você vê os dias sendo comidos em direção ao prazo.

E enquanto isso a vida segue. Os dias vão sumindo do calendário. Eu vou ficando mais velha. Mas a vida não para. E acho que o segredo é esse. Viver entre as metas. Não vou parar de ir à feira, nem de cozinhar. A roupa suja vai continuar se enchendo num processo louco e infinito. Vou viajar quando der. Trabalhar muito. Estudar no meio tempo. Ler no ônibus. Virar algumas noites. Dormir em outras exausta. E aprender a lidar com esse sentimento de dívida, de procrastinadora como um sentimento de fundo, tipo música de fundo. Está ali, mas não vou para a vida por isso. Tenho uma vida a viver, apesar da pós. Por causa da pós. Sou estudante, sou trabalhadora, sou de certa forma esposa, sou cozinheira, sou faxineira, sou chef, sou mulher.

Alt + tab. Leio sobre a violência e a polarização política. Meu coração encolhe. Alt + tab, planejo as compras de natal. Alt + tab, falo com os amigos sobre a ida à Brasília. Alt + tab, planejo o natal antecipado em família. Alt + tab, vejo um vídeo sobre como fazer o tradicional panetone de Milão em casa. Alt + tab, leio dois parágrafos sobre o Impeachment. Alt + tab, respondo cinco e-mails. O telefone toca duas vezes. Respondo. Aceito um trabalho. Alt + tab. Escrevo para o blog. Alt + tab. Mais cinco ensaios corrigidos. Alt + tab, meio artigo pronto. Alt + tab, ainda me sinto procrastinadora. Alt + tab, mudo a música de fundo. Fecho as abas. 5 minutos de meditação. Me sinto bem de novo. Vamos trabalhar, seja contra ou a favor do relógio.

Escrevo tudo. Ponho a alma para fora em palavras. Vejo que não sou inútil. Escrever: minha melhor terapia. Me sinto produtiva. Vejo que já fiz muito esse ano. Poderia ter feito ainda mais? Sempre! Ainda tenho alguns dias antes do fim do ano. Dá para terminar. Dá para fazer ainda mais. Tudo? Não sei. Tudo que eu puder. E vamos feliz. Sigo com um sorriso nos lábios cada vez que vejo as horas e percebo que mais um dia passou. Vou lá tirar a roupa da máquina agora. Daqui a pouco tem mais artigo para escrever. Mais ensaio para corrigir. E nesse meio tempo o telefone vai tocar. As abas do navegador vão ser alternadas mais algumas vezes. Vou me sentir procrastinadora. Vou me sentir cansada no fim do dia, e muito, mas muito feliz no fim do ano.