Dicas de trilha – vestuário

Quando fazemos trilhas parecemos crianças! Tá, eu sei que eu pareço criança sempre, mas o André faz a fachada de sério até estar no meio do mato. E é um tal de senta no chão, se joga de qualquer jeito, sobe em árvore, sacode a neve na cabeça, realmente, o espírito mais moleque fala alto nas trilhas. Aqui, com a neve e o gelo, descobrimos uma nova paixão, esquibunda, ou skibunda, versão neve! Cada colinazinha com um pouco mais de gelo é um convite pra descer escorregando. Descobrimos essa paixão no Pico Negro, como relatado no post específico do tema, e lá foi nosso melhor escorregador até agora pois tinha realmente muito gelo e descíamos facinho! Parceia até tobogã!

De lá pra cá o André tem tentado fazer o mesmo em qualquer barranco com neve que encontramos, e às vezes da certo, às vezes não. O não, às vezes não é um problema, ele só fica parado no chão, mas às vezes é, quando tem pedras no caminho escondidas na neve. E com isso descobrimos alguns senhores rasgos nas calças. Esses rasgos foram costurados e abertos de novo, com adicionais novos na trilha seguinte. Então passei a última semana pesquisando calças impermeáveis e rip-stop, e devido à pesquisa resolvi compartilhar com vocês algumas dicas relativas à vestuário para trilhas!

Dando uma folga na série SP by JuReMa, volto então nas Dicas de Trilha – vestuário! Fiquei muito feliz pois recebi um feedback positivo com o primeiro post de dicas de trilha, no qual comentei calçados, então espero que possa ser útil nesse também.

Bom, o básico de quem faz trilha é o fato de que subir montanhas à pé, geralmente carregando seu próprio equipamento, gera esforço físico e muito calor e suor. Mesmo na neve, mesmo no frio, o calor e o suor estão presentes. Então o bom caminhante se prepara para o esforço físico e se prepara para as camadas! Camadas são a palavrinha chave aqui! Principalmente se considerarmos que numa viagens de vários dias, seja mochilão urbano ou na montanha, você precisa carregar pouco e leve (já que vai tudo nas suas costas mesmo) e estar preparado para variações climáticas. Então vamos à todo meu amor por camadas!

A 1ª camada deve sempre ser de um tecido leve, que facilite a passagem do suor para fora do corpo, que seja de secagem rápida, tanto para secar em uma noite após lavagens quanto para secar do suor. Então prefira tecidos sintéticos, mas não confie em qualquer sintético. Algumas das roupas vendidas por aí como “fitness” ou “roupa de academia” na verdade retêm ainda mais o suor, apesar de secarem rápido após lavar. A roupa deve não só permitir, mas favorecer a transpiração. Para tempo quente, isso fica bem óbvio.

Para tempo frio, existem três opções de 1ª camada. Eu pessoalmente prefiro a mesma dri-fit que uso no verão! Sou calorenta e suo mesmo nas subidas. Mas para os friorentos existem as opções de esqui. Malhas térmicas que favorecem a transpiração e ao mesmo tempo auxiliam à manter o calor do corpo. No Brasil são mais caras, pois a demanda é menor. Aconselho comprar as de esqui, ou de corrida no frio! Existem muitas roupas 1ª camada térmica, que são excelente para dar aquele aporte de calor extra, que secam rápido e são leves e sem volume algum, mas que não são feitas para esporte, e por isso retêm o suor. E aí você me pergunta, mas qual a obsessão com o suor? E daí se eu estiver suada? E daí que se o suor não evaporar, a roupa de baixo fica úmida, a pele fica úmida e com o tempo frio essa umidade vai baixar muito sua temperatura corporal, aumentando o desconforto e o frio. Então no frio é essencial que o suor possa sair e seu corpo possa secar! Nas trilhas eu uso geralmente a primeira camada só na parte superior do corpo (camiseta) pois não sinto tanto frio na calça, e daqui a pouco vou falar das opções de baixo).

A terceira opção de 1ª camada eu ainda não testei mas estou louca para adquirir (assim que o orçamento permitir) que é a lã de merino! Merino é um tipo de carneiro neo-zelandês, que enfrenta temperaturas entre 35º (verão) e -25º (inverno). A sua lã é especial pois no animal ela já cresce em camadas, fazendo o papel que tentamos imitar aqui. Entre suas propriedades estão o fato de que seca muito rápido, segura o frio, permite uma respiração tão boa quanto a de dri-fit no calor, e não fica com odor, permitindo múltiplos usos antes de ser lavada. Por isso é a mais recomendada para excursionistas que acampam por vários dias! Eu quero muito testar essa questão do odor!!! Existem, nas lojas especializadas, desde regatas, passando por blusas justas de manga longa, até casacos de 2ª camada de lã de merino.

Mas se você for contra utilizar lã animal, ou simplesmente não quiser pagar o valor (é mais alto), o sistema de camadas funciona maravilhosamente bem com os sintéticos! Uso há tempos e super recomendo. Não use a primeira camada de algodão! Eu era super a favor do algodão e contra sintéticos, pela saúde da pele. Mas é tudo uma questão de conhecer os diferentes tecidos sintéticos e saber escolher. O algodão permite a transpiração, mas em velocidade mais baixa e com isso fica úmido e pesado. No verão isso já gera uma carga de peso e calor, mas no inverno é terrível, pois ele não seca embaixo das demais camadas, especialmente da impermeável, e com isso você fica com muito frio, além do sobrepeso. Então se foque em uma 1ª camada de excelente transpiração!

A segunda camada é para tempo frio. No calor pule essa etapa! Eu tenho uma preferência por flecee, um tecido sintético, que aporta muito calor, e é muito leve, seca em uma noite e aguenta muito frio! O mais importante, é que ele deixa o suor passar. E com isso não fica úmido nem pesado. Além disso não acumula odor. O flecee existe em diversas gramaturas, assim como qualquer tecido (só não estamos acostumados a reparar) e essa gramatura pode ser observada ao toque ou nas especificações da etiqueta ou site de algumas lojas especializadas. Os mais finos aportam menos calor e os mais densos mais calor. Eu ia escrever os mais grossos, mas a beleza do flecee, é que ao contrário da lã, ele não fica mais grosso, fica mais denso, mas mantém a leveza.

Para finalizar a terceira camada deve ser impermeável. Como sempre existe a preocupação com o clima, seja a chuva, a neve ou o gelo, a terceira camada deve também conter o vento. Existem tecidos impermeáveis, outros perlantes e os softshell, que são corta-vento. Vamos compreender as diferenças! O perlante é aquele que quando molhado por pouco tempo, sem ser submergido, repele a água, ou seja, você consegue visualizar a gota escorrendo sem deixar rastro, mas caso seja submergido ou fique em contato, por exemplo sentada na neve ou na grama úmida, ele vai aos poucos absorvendo parte da umidade. Para trilhas na neve quando você evita sentar no chão (sente em pedras ou sobre o casaco), ou para chuvas finas e breves, funcionam perfeitamente bem. O bom do perlante é que existem alguns que permitem a respiração da pele, e com isso você consegue que a transpiração saia e a pele seque. Mas em caso de ventos fortes, a sensação térmica de frio vai ser maior.

Os impermeáveis de verdade são aqueles que parecem mais plásticos. E por isso mesmo impedem a transpiração. Por isso o ideal é que tenham zíper próximos à axila que você possa abrir nos momentos de maior esforço físico e fechar em caso de chuva ou vento forte, controlando a temperatura interna. O tecido mais plástico tende a ser menos confortável na pele, então convém investir nos um pouco mais caros, que possuem forro telado, que evita o contato direto por dentro. Os impermeáveis devem ser usados no inverno e verão. Para o verão, eu aconselho colocá-los só quando a chuva começar. No frio eles são especialmente úteis, pois impedem que a umidade da neve e do gelo se torne um problema, e barram o vento!

O vento é uma questão muito importante e que muita gente desconsidera. A diferença entre temperatura real e sensação térmica pode variar bastante e com ventos fortes a sensação térmica tende a ficar 10º abaixo da temperatura real. Os impermeáveis, pela característica mais plástica (poros selados), barram completamente o vento. Os tecidos com softshell são os que melhor lidam com o vento, pois possuem uma espécie de cobertura, “casca” que é específica para barrar o vento. Os impermeáveis tendem a ser tecidos mais leves e moldáveis, os softshell são mais rígidos. Para os corredores podem ser úteis, embora sejam mais quentes.

O impermeável, per si, não aquece, embora por barrar o vento e a transpiração já suba a temperatura corporal significativamente. O softshell é menos aconselhado em mochilões, por ser mais rígido e mais adaptado ao frio. Mas caso você faça um mochilão mais urbano ele pode ser mais útil. Vale a pena conhecer.

Em todos os tecidos, de frio ou calor, é importante conhecer a tecnologia rip-stop. Que eu saiba ela foi desenvolvida para roupas militares e aos poucos migrou para o esporte, como acontece com muitas tecnologias. O rip-stop, significa exatamente isso, traduzindo do inglês, para rasgo. O tecido rip-stop possui inúmeros fio extremamente resistentes, embutidos no tecido, formando pequenos quadradinhos. Quando o tecido rasga, o rasgo desfia só até encontrar um desses fios mais resistentes e para ali. É importante destacar que o rip-stop não impede que o tecido rasgue, ele pode ser cortado com facilidade, seja por tesouras, facas, pedras, abrasão, etc. A vantagem é que o tecido não desfia, permitindo que seja costurado e aumentando a durabilidade de um tipo de vestimenta que vai sofrer com as intempéries e abrasões de uma vida ao ar livre.

Minha última observação sobre roupas para a trilha é sobre roupas íntimas. Vale a pena investir em roupas íntimas que também possuem a característica de não reter o suor e ter secagem rápida. Já me aconteceu muito de ficar com a roupa íntima encharcada de suor e a camiseta e calça secas, formando aqueles famosos e indesejados desenhos da sua underwear molhada marcada na roupa. Além de denunciar o que você está usando por baixo, se a roupa íntima fica úmida isso aumenta o desconforto, na trilha aumenta significativamente o risco de abrasão com a pele, especialmente considerando o atrito que justamente essas peças terão contra sua pele. No frio, além do atrito e da abrasão, há a questão do frio provocado pela umidade junto ao corpo. Quando falo de roupas íntimas me refiro não só a calcinhas e cuecas, mas tops (ou sutiã) e meias! As pessoas esquecem que meia também faz o papel de roupa íntima! Meias de secagem rápida fazem maravilhas pelo conforto dos pés! Se o calçado for impermeável ele vai reter o suor, mas com meias desse tipo, 5 minutos após retirar o calçado, seus pés estarão secos, o que fará toda a diferença para dormir, tanto em termos de conforto em geral, quanto de temperatura e odor.

Montando as camadas: (verão) roupa íntima que permita a transpiração, camiseta dri-fit (se for trilha em mato fechado ou com muito sol prefiro mangas longas, mesmo no calor, pois protegem do mato, insetos e raios UV). Por serem muito leves, quando o tempo tá excessivamente quente eu molho a camiseta, e deixo secar no corpo. Alivia o calor, e posso manter a manga longa. Mas as mangas curtas e regatas também funcionam bem, e uso dependendo da situação.

Calças de tecido extremamente leve, rip-stop e transpirante. Eu prefiro calça a short pelo mesmo motivo da manga longa, evita mato alto, cortes de espinhos, alergias a plantas, insetos e sol. Gosto das que possuem zíper e podem ser “transformadas” em bermudas. Podem ser especialmente úteis quando você quer nadar e está sem biquíni por baixo. Se bem que a roupa íntima esportiva tende a cobrir mais que biquíni e rola de usá-la. O zíper às vezes me incomoda um pouco, se a trilha for muito íngreme, e exigir muita flexibilidade do tecido na altura dos joelhos e coxas. Nesses casos o zíper diminui a flexibilidade. Eu gosto muito de leggings nesse tipo de trilha, embora elas não possuam bolsos nem sejam resistentes à abrasão. Algumas marcas especializadas possuem calças com excelente elasticidade, mantendo os bolsos e a resistência. São mais caras, mas eu prefiro. Geralmente também prefiro as perlantes, pois como sou calorenta, acho que as impermeáveis barram muito a transpiração. Mas levo uma impermeável simples na mochila pro caso de chuva forte.

Para o inverno acrescento aí o flecee. Embora na subida ele tenda a ficar na mochila. Até agora, mesmo com a neve e as temperaturas negativas só usei o flecee uma vez durante uma trilha inteira, e foi a da Bastida d’Hortons, que realmente o tempo estava fechado e com muita neve. Às vezes saio com ele, e tiro depois que o corpo esquentou, e até agora tive que colocar depois uma vez só, pois subimos muito e lá em cima estava uma nevasca e ventos assustadores, e acabamos voltando. E o impermeável. No verão o impermeável fica na mochila até segunda ordem (chuva), mas no frio gosto de colocá-lo logo para barrar o vento. E vou abrindo e fechando o zíper para ajustar a transpiração e o controle da umidade.

Meu impermeável foi dos mais completos, mas valeu cada centavo. Ele possui todas as funções, incluindo capuz, que pode ser completamente retirado, ou guardado enrolado em volta da gola. Embora sempre use com ele aberto, para proteger da chuva e/ou vento. Ele é telado por dentro. Já usei no verão só regata e ele por cima e a sensação com a pele é ótima. Além disso ele tem uma infinidade de pequenos bolsos, bolso pra óculos, pra luvas, pra celular, apoio elástico para o fio do fone de ouvido, etc. Também possui mil ajustes, ajuste de cintura, pulso, capuz, barra, e tem um cinturão interno para barrar completamente o vento, travando ele na cintura por baixo com bastante eficácia. Usei no Pico Negro, onde ventava horrores e foi muito eficiente. Na verdade eu descobri 85% das funções dele aqui nas montanhas, embora já tenha há quase três anos, pois no Brasil não tinha pegado nem tanto frio, nem tanta altitude. É o vermelhinho de todas as fotos! Me sinto uma personagem que não muda de roupa, mas a roupa muda, ok! Só o casaco que não!

A calça impermeável cheguei a conclusão, depois dos rasgos da do André, que vale a pena uma mais completa, com tecido rip-stop e aberturas laterais que permitam vesti-la por cima de outra, mesmo já estando no meio da trilha, caso a chuva chegue de repente. Uma lição que aprendi foi comprar a calça impermeável uns 2 números maior e fazer um bom ajuste de cintura! Perdi uma calça impermeável cara assim. Foi triste. Comprei muito justa. Usei no Brasil e estava ótimo, pois usei ela pura, sem outra por baixo. Cheguei aqui e precisei usar por cima de tudo, e dessas roupas mais grossas de inverno e ela ficou ridiculamente apertada, me travou muito a perna e quase joguei ela fora no meio da trilha dos estanys de la Pera, de tanta irritação que estava por não conseguir mexer a perna adequadamente, especialmente na subida, pois ela travava meu movimento ascendente. Prefiro parecer o Bozo com uma calça gigante do que não conseguir me mexer!

O André ouviu meu conselho até demais e comprou a nova impermeável gigante! Grande até demais, mas fizemos ajustes e ainda achamos que melhor grande demais do que pequena demais! Na trilha o conforto é primordial! Quando conseguir vou adquirir outra maior pra mim! Por enquanto tenho as perlantes, e uma impermeável simples, dessas bem de plástico fino, que segura em caso de chuva forte.

Em relação aos assessórios, alguns são imprescindíveis. Eu sempre estou de cabelo preso, e na trilha, com suor, vento, se ele não estiver firme fico louca. Então além de prender com elástico ou presilha, gosto de ter uma faixa que pode ser colocada na testa ou um pouco acima, que além de manter o cabelo fora dos olhos, segura o suor também. Aqui tenho usado muito minha pescoceira. O nome é feio, mas ela é incrível. Comprei uma de ciclista pra pedalar na poeira da seca de Brasília, e ela tá sendo minha salvação na neve! Protege o pescoço do frio, tampa no nariz e as orelhas quando o frio ta pegando, e se faz calor demais e o suor pega, enrolo e coloco na cabeça. A versatilidade dela é chave nesse esquema. o André advoga sempre em defesa do cinto! Além de segurar as calças no lugar, pode ser usado de várias formas no mato, inclusive como apoio de tala em caso de acidente, ou para fazer compressões, substituir uma tira de mochila rasgada, etc.

Por último, uma capa de chuva de mochila. Para ser usada em caso de chuva. A minha mochila, que foi presente de casamento maravilhoso dos amigos maravilhosos (quem te conhece é outra coisa né!) é perlante também, e só precisa da capa em caso de chuva pesada, na neve e chuva fina ela segura bem! Além dela, ganhamos vários equipamentos de camping e trilha, mas faço um outro post pra discutir mochilas, equipamentos, etc, porque já escrevi mais do que vocês dão conta de ler de uma vez!

E não se esqueça: camadas! Camadas e tecidos que permitam a transpiração!  E boa trilha!

ps: Caso você não precise trabalhar com roupas formais ou uniformes específicos, elas funcionam muito bem na cidade também, afinal é a selva de concreto!

ps2: A Decathlon é minha paixão, encontro lá tudo, com várias opções de preço e ótima qualidade. Vale a pena pesquisar bem no site e comparar os stats  da roupa, como nível de aporte de calor, inflexões de impermeabilidade, gramatura, rip-stop, etc, e ver os diferentes itens com diferentes preços.

Além das marcas da Decathlon, como Quechua, Forclaz, Kalenji, Wed’zee, e outras, para outdoors recomendo as coisas da North Face e Nord. A Trilhas&Rumos faz bons equipamentos e mochilas, no Brasil. Me decepcionei um pouco com a Timberland depois da destruição da minha bota na neve, mas nunca tive roupas para comparar. De um modo geral essas marcas são mais caras que as da Decathlon, então opto por essas hoje em dia. Meu casaco impermeável é da Nord, mas já vi outros da Quechua muito semelhantes e até com mais opções. Meus flecees são quase todos Quechua. Tenho um da Nord que veio acoplado no impermeável. O mais importante não é a marca, mas você se sentir confortável e ao mesmo tempo saber que pode confiar, ou seja, que não vai ficar na mão no momento de adversidade. Quando você está no mato o estilo não importa, importa o conforto e a sobrevivência!

Trilha Solsona – Pont de la Frau

08/01/17 – Trilha por Solsona, até a Pont de la Frau

Fomos mais uma vez para uma província vizinha, agora mais ao sul, onde os picos são mais baixos e os vales mais largos. Na província de El Solsonès, o clima e a paisagem são mais amenos do que os de ALt Urgell, e por isso essa trilha foi bem fácil de completar, comparando com outras que já fizemos. O percurso foi:

Solsona – Pont de la Frau – Barranc de Pallares – Castellvell – Solsona

O caminho começa na própria cidade de Solsona, capital da província, uma cidade que não tem mais de 10.000 habitantes, mas tem um centro histórico realmente incrível! Seguimos por uma trilha que indica a Pont de la Frau dentro da própria cidade. O roteiro que tínhamos visto em casa seguiria para o camping El Solsones, mas preferimos seguir pela trilha que encontramos pessoalmente, quase margrando o Riu Negre pelo lado leste. Passamos por algumas propriedades rurais muito bem cuidadas, como um pequeno haras e alguns casarões reformados, até que a trilha entrou por um bosque mais fechado. De repente, vimos uma imensa coluna de pedra e percebemos que já estávamos embaixo da tal ponte. Ela é realmente altíssima, apesar de assustadoramente estreita. Subimos a encosta oeste do rio e chegamos até o começo da ponte, a qual não tivemos coragem de atravessar… Havia gelo em um trecho sombreado, e uma queda ali certamente seria fatal. Não vimos motivos para arriscar.

Seguimos então de volta para a cidade pelo lado oeste do rio, onde o bosque as vezes adquire uma inclinação absurda e repentina. Não tente passar por qualquer uma das ramificações da trilha, se achar um terreno dificil, volte e pegue outro caminho! Depois disso passamos por uma granja bem simples, mas com uma vista maravilhosa para o vale abaixo. Aqui o bosque acabava e atrilha seguia por plantações e casinhas isoladas. Encontramos um corajoso pai andando de bicicleta com umas 4 crianças, que se espalhavam e tentavam ir por outros caminhos com frequencia, enquanto ele pastoreava todos, ao mesmo tempo que carregava quantidades imensas de casacos. As benesses da vida em uma cidade pequena! Em um dado momento a trilha fez um cotovelo bem fechado e logo entramos em um parque meio que saído das lembranças de infância, chamado Barranc de Pallares. Havia mesinhas de piquenique pintadas como cogumelos, havia churrasqueiras no meio de bosques, um pequeno playground, tudo feito de maneira simples e cuidadosa. O local era tão acolhedor que acabamos passando reto pela curva da trilha e demoramos um tempinho para nos realocar.

Dali, a trilha segue por baixo da estrada, por um cano gigante, seguindo por uma encosta de pedra onde uma mesinha de piquenique foi instalada logo abaixo e mais um pequeno parque pouco acima desta encosta. Depois dessa breve interrupção para espaços de lazer, novamente o caminho segue por entre propriedades rurais e bosques, enquanto contorna o morro no qual está o Castellvell. Não muito longe dali, a estrada passa e leva em pouco tempo até o próprio castelo, que é uma miríade de coisas, menos um castelo. Há uma torre, um pomar, uma igreja e uma habitação que parece ser eclesiástica, mas nada é exatamente uma fortificação. De qualquer maneira, o Catellvell fica logo acima de Solsona e dá uma vista bem aberta para a cidade e para a região em volta, onde o terreno ondula mas não chega a formar montanhas ou colinas. Voltamos para a cidade por uma pequena trilha que sai do “castelo” e entra por um bairro afastado de Solsona, onde algumas casas realmente impressionantes pairam sobre o resto da cidade. Tivemos alguma dificuldade em dar a volta ali, pois poucas ruas desciam na direção que queríamos, mas eventualmente conseguimos dar a volta.

Não foi a trilha mais bonita ou mais desafiadora que fizemos, mas tivemos uma excelente sensação de estar em um ambiente mais tranquilo, mais adequado para famílias do que para aventureiros. O caminho menos acidentado e a presença de campos de agricultura dão a sensação (real) de que estamos em uma zona rural, mas não selvagem. Além do que tivemos a oportunidade de rever Solsona e aproveitar também os cuidados incisivos de alguns imigrantes que montaram um restaurante e eram os únicos que estavam aberto no domingo! Sempre procure pelos Doner Kebabs se quiser comer bem e barato!

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Pont de la Frau

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Desvio da trilha ao observar o parque 

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Chegando ao Castellvell pela estrada

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Solsona, já ao entardecer

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Na volta paramos em Organyá, só para eu tirar foto dessa árvore de natal linda deles! (by JuReMa)

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Estanys de la Pera – Trilha 6

29/12/16

Estanys de la Pera

Essa foi sem dúvida a trilha mais bonita que fizemos até agora, além de ser uma das mais fáceis também. A trilha segue da estação de esqui de Aransa (esqui nórdico, que é parecido com uma patinação) e vai seguindo próximo ao rio Molí por quase o caminho todo. O resultado é que a trilha é quase toda plana e com imagens memoráveis do processo de congelamento do rio, com caverninhas de gelo e esculturas modernistas feitas pela natureza, além da vista para as montanhas em quase todas as direções. Desta vez não vou marcar o roteiro porque só existe basicamente essa trilha pelo caminho e são poucos os pontos de identificação.

Saímos cedinho de casa e fomos de carro até a estação de esqui de Aransa. A estrada está bem limpa e preservada, não há nada com o que se preocupar. De lá, cobra-se uma taxa de 3,50 euros para fazer a trilha, justificados como manutenção de estrada e sinalização das trilhas. É possível passar por outros caminhos, mas realmente sem um gasto na preservação, as outras estradas ficam horríveis. O caminho começa um pouco mal sinalizado, mas nada que um pouco de atenção não resolva. Ele deve seguir por uma estrada mais aberta, por dentro de uma mata de pinheiros.

Eventualmente, a trilha abre vista para um vale a leste e alguns pequenos córregos cortam a estrada e se congelam. Muito cuidado para não escorregar, falamos isso por experiência própria! Mais a frente a estrada acaba, mas há uma marcação tímida indicando uma trilha que sobe para a esquerda. A subida é bem leve e pouco a frente começa o trecho em que o rio se aproxima. Ele segue junto à trilha até uma grande área bosqueada mais a frente onde é possível ver um pequeno refúgio, mesas de pedra e churrasqueiras. Claro, ninguém usa esse aparato nesta época do ano, mas voltaremos em outro momento para ver como fica sem a neve e com pessoas.

A continuação da trilha encontra com a estrada e os dois caminhos são possíveis. Eu indico fortemente a trilha, pois além de mais reservada, há momentos que a estrada não proporciona, como a aproximação de uma pequena cachoeira. A formação de uma pirâmide de gelo em volta dela é uma coisa que impressiona alguém como eu, que até pouco tempo atrás conhecia muito pouco desse tipo de clima.

Não muito depois da cachoeira é possível ver o final do vale, com as montanhas fechando o cenário em volta. Neste momento desponta o Refugi dels Estanys de la Pera no alto de um platô. É sem dúvida o mais bonito dos refugis, mas parecia estar todo trancado. De fim de semana parece que abre-se a parte principal dele para turistas. De lá, a trilha bifurca para dois pontos de Andorra, um caminho indo para o vale de Perafita, a noroeste, e outro seguindo para os picos mais a leste.

Abaixo do refugi, está o menor dos lagos. Na ocasião da nossa visita, estava recoberto de neve por sobre o gelo. Eu andei um pouco sobre o lago, mas confesso que o medo do gelo partir me fez voltar rápido. Seguimos para cima até encontrar o lago maior, também recoberto, e um pouco mais difícil de encontrar pelas montanhas em volta. Um casal que andava a nossa frente tentou seguir pra lá do lago, mas desistiu pela profundidade da neve. Nós, claro, não desistimos tão fácil e seguimos nos arrastando pela neve alta e subindo nas pedras que surgiam no caminho, como náufragos. Depois de algumas centenas de metros e muito cansaço depois, vimos que acompanhar a trilha até o pico de Perafita seria impossível. A marcação das trilhas nas pedras era visível, mas a trilha em si havia desaparecido. Cavamos nosso caminho de volta até o refugi e de lá seguimos, molhados, de volta pela mesma trilha.

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