Balzac

**Spoiler alert**

Geralmente faço referências difusas em meus reflexos, mas hoje receio citar a frase final de um livro, então, embora não seja novidade e nem capítulo da última série do momento, aviso, para aqueles que preferirem não ler o texto sem ter lido o livro.

Foi no ônibus. Embora seja final de setembro, em São Paulo ainda faz frio. Mas hoje fazia sol, apesar do vento cortante. Quem me lê com frequência sabe como aprendi a amar os poucos e raros dias frios porém ensolarados de SP. São meus novos dias preferidos. E acabo lendo muito no ônibus, melhor jeito que encontrei de lidar com as horas de trânsito dessa cidade. Minha combinação de fone de ouvido anti-ruído + músicas preferidas + livro me transporta para um mundo paralelo e me tira do caos e do stress dessa vida excessivamente urbana.

A trilha hoje era Travis. Estava lendo em português, e para não me distrair sempre inverto o idioma da música com o da leitura, ou ouço instrumentais enquanto leio. O cheiro que me invadia era o dos meus próprios sapatos, botas de chuva da Melissa, pois apesar da tarde ensolarada o dia amanheceu fechado. O sol na nuca, refletido do livro, a música e o cheiro de plástico foram meus companheiros das últimas páginas dessa leitura: A Mulher de Trinta Anos.

Uma gestação. Nove meses. O livro foi adquirido em dezembro de 2015, quando fui a Brasília no fim do ano, para as logo antes das festas. Agora em vinte e poucos de setembro, com os nove meses completos, eis que minha saga chegou ao fim, terminei a leitura. Não pense que demorei tudo isso para ler. Li em cerca de 5 ou 7 dias. O total que consegui em 9 meses dedicar para essa leitura tão pessoal. A vida não é mais a dos meus 13 anos, quando lia 30 livros em 9 meses por gosto. Aos quase 30, devo tempo à vida, enquanto mais um ano se passa.

Mais alguns dias e serei balzaquiana. Já que assim a vida é, e que já compartilhamos tantos verões, decidi lê-lo. O livro é um belo retrato de sua época, ilustrado por alguém muito à frente de seu tempo. Pensando no que era o papel da mulher no século XIX, ler a palavras de um homem que nos admirava e que escreveu uma personagem forte e sofrida, mas com empatia pelo seu sofrimento, é, na minha opinião, algo digno de nota.

De certa maneira me lembrou Chico Buarque, com sua capacidade incrível de ter eu líricos tão distintos e que expressam sentimentos coletivos tão bem. De certa maneira me lembrou Clarice Lispector, com suas personagens introspectivas, que vivem mil infernos enquanto compram ovos para a família. Pensando assim, a mulher do século XIX e a do XX mudaram a roupa e a roupagem, mas nem sempre o sentimento. Acho que a do século XXI está começando a mudar. Sou filha do século passado, da transição entre séculos, mas acho que as filhas desse século já estão mudando mais ainda.

Parei a 3 páginas do fim. Olhei a passagem, tive meu cheiro de Melissa brevemente suplantado pelo fedor do Rio Pinheiros enquanto o ônibus cruzava a marginal. O sol baixando. Uma pausa dramática? A vontade de prolongar os últimos momentos? Não. Apenas muitas reflexões. Eu sou daquelas que demora para entrar nos livros às vezes. Alguns me ganham na primeira página, outros só no terço final. Esse são os que gasto 4 meses para ler o primeiro capítulo, 1 mês para ler os capítulos todos até o meio e 3 dias para terminar. Balzac foi assim. Um pouco pior.

A literatura é definitivamente uma conversa. Nunca um livro é igual para duas pessoas diferentes, ou a mesma pessoa em duas épocas da vida, porque somo pessoas diferentes. E eu quis conversar com Balzac nessa virada para meus trinta anos, porque queria conversar com Balzac nos mesmos termos. Já fui Julie, já fui Juju. Talvez seja sra. d’Aiglemont, ou senhora Marra algum dia. Hoje conversamos de Jurema para Juliette. De Jurema para Hélene. De Jurema para Moina.

Em outro dia, um dia cinza, num outro ônibus da mesma linha, cheguei a sublinhar em caneta laranja as passagens mais significativas sobre a Juliette. Aquelas que estou segura são as mais conhecidas. Aquelas nas quais Balzac descreve e define a mulher de trinta anos. São passagens bonitas. Passagens que mostram uma Juliette com a qual a Jurema certamente conversa. Hoje, posso completar meus trinta verões segura de que compreendo Balzac. Certamente a mulher de trinta anos que sou partilha da força e da superação da inocência tal qual a balzaquiana:

“{…} porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abarcar todo o seu curso, tanto passado como futuro. As mulheres conhecem então todo o preço do amor, do qual desfrutam com o temor de perdê-lo: então sua alma ainda tem a beleza da juventude que as abandona, e sua paixão vai se fortalecendo sempre com um futuro que as apavora”.

Mais como a literatura é uma conversa única e pessoal, a parte que mais conversamos sobre, Balzac e eu, não foi sobre a mulher de trinta anos. Nisso concordamos, dado as diferenças de contexto histórico e sócio-cultural, e seguimos em frente. Paramos para filosofar na frase final. E aqui entra o grande spoiler, meus caros.

“- Perdi minha mãe!”

Foi aqui, na última frase do livro, que ele foi inteiramente resinificado, foi aqui, na última página, que nossa longa conversa começou. Foi aqui, onde a vida de Julie acabou, que a Jurema se viu. Não na Moina. A Moina é ainda a jovem, a mulher, talvez, de vinte anos. Eu provavelmente já fui um pouco Moina, e juntas perdemos nossas mães. Inclusive porque quando a perdi não era ainda a Jurema de trinta anos. A Jurema nasceu exatamente do luto. A Jurema conversa com Balzac depois que o livro acaba.

Claro que os trechos como “Suas dores secretas pairam sempre sobre sua alegria artificial como uma nuvem leve que esconde imperfeitamente o sol”, já estavam grifados em caneta laranja antes do fim, bem como “Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo da presença eloquente?”. Jurema e Balzac já estavam conversando sobre a tristeza e a felicidade bem antes do fim. E embora a Jurema tenha tido lá suas dores de amores, elas foram pequenas perto das dores da perda, da morte, da ausência e da saudade, então esse diálogo, desde o começo, tinha um quê de unilateral, só para ao final se descobrir compreendido.

Baixando o livro de novo e contemplando o já quase pôr-do-sol, pensei nas minhas mulheres. Eu sou filha de uma mulher de trinta anos. Nasci nesse período. Venho de alguém que já tinha suas dores e decepções. Crescemos juntas. Na verdade, passamos pela perda da mãe juntas três vezes, pois venho de uma família matriarcal, onde mães e filhas muito compartilham. A primeira morte que vivi foi a da minha bisa, Vó Santinha, aos doze, e vi os efeitos aterradores que se abateram sobre minha vó, senhora soberana de nossa casa e família. Foi a primeira vez que acompanhei um enterro, e que vivi um luto dentro de casa. Minha festa de 13 foi cancela, e virou festa surpresa na casa de amigas.

Aos 23 vivi o luto da minha avó, e ouvi da boca da minha mãe a frase final de Balzac. Foi um período intenso. Desde a morte do meu avô, vivemos as três em casa, já três adultas, a de 20, a de 50, e a de 80. Foi uma convivência muito intensa. Com todos os trinta anos que separavam cada uma de nós, uma da outra. Se eu sou filha de uma mulher de trinta anos, minha mãe também foi. E essa diferença nos fez amigas ao longo das gerações, embora impossibilitadas de entender as dores de cada uma.

Tenho desse período da nossa vida a três memórias muito doces e memórias muito amargas. As brigas foram privadas e doloridas. As acusações cruéis. As dores reveladas, foram aquelas que elas nunca tinham revelado para ninguém. E apesar dos nossos duplos trinta anos de diferença conversamos sobre homens, sobre sexo, sobre amor, sobre casamento, sobre aborto, sobre liberdade, como nunca antes. Sem filtros, sem amarras. Às vezes com muito ódio, às vezes com muita dor. Naquele período eu conheci mulheres. Eu vi a face que não era da mãe e muito menos da avó. Eu conheci dores para as quais ainda não estava preparada.

Olhei para cima para os olhos beberem as lágrimas que os olhos marejados ameaçavam derramar em pleno ônibus e pedi perdão àquelas mulheres fortes que me criaram. Eu, com a inocência e a intolerância dos meus vinte anos não soube respeitar, admirar e compreender suficientemente suas dores. Fui Moina. Fui até Helene. Espero que elas saibam. Sei que no fundo sabem, pois eu é que nunca tinha sido uma mulher de trinta, e ainda não sou de 50 ou 80, elas já tinham sido mulheres de 20 anos. E nos momentos mãe e avó, me amaram e me perdoaram. Mas guardo na alma os momentos mulher, em que apenas nos odiamos, ameaçamos, machucamos.

Hoje, se tenho algo com que conversar com Balzac é sobre essa dor. A dor da incompreensão entre as mulheres de distintas gerações. Queria tê-las hoje vivas para dizer que começo a compreender. Mas tudo que posso dizer para Balzac hoje, é que perdi minha mãe. Faço o compromisso de reler aos 50, para conversarmos de novo, sobre Bia, sobre Zilah, sobre a senhora d’Aiglemont. E quiçá aos 80, quando nem Balzac mais me compreenderá. A única certeza é que a perda me ensinou muito. Principalmente sobre essa incompreensão.

Não sei se conseguirei conversar com o devido respeito, admiração e dedicação com as mulheres de outras gerações de seus 30 a mais, mas certamente conseguirei conversar com as de 30 a menos, alunas, sobrinhas, amigas, e perceber que se elas não me compreendem, pelo menos não precisam me perder por isso. Assim, espero, Balzac. Ou que no momento inevitável da perda, tenham pelo menos seus 30 anos, e que comecem a compreender.

Dos elogios feitos à mulher de 30 anos nada tenho a agradecer, nem reconhecer. No máximo concordar. Coloco meu pé nos 30 com a certeza de me sentir plena e feliz, embora sinta a exata sensação da felicidade sendo o sol, e das minhas dores sendo as leves nuvens, que perpassam os olhos em breves momentos do dia, às vezes chovendo nas noites, calada. Não sofro mais do que devo e me considero uma mulher livre, independente e muito feliz. Mas uma mulher não chega aos 30 anos sem conhecer pelo menos uma dor, nisso, concordamos, Balzac e eu. O peso que cada uma decide dar a essas dores, contudo, varia. A Jurema sugere que a mulher de 30, embora conhecedora das dores, seja leve, e livre.

Bem vindos, trinta! ❤

Durma com os anjos, sonhe comigo e não caia da cama

Por muitos anos dormi com essa frase, repetida diariamente, provavelmente desde que eu nasci. A ultima vez que ela foi dita entre nós duas foi de forma invertida. Depois de quase 20 dias de UTI, tubos e inconsciência, ela acordou por algumas horas. Sem poder falar, trocamos uns beijos, a testa melada de suor, o cheiro de remédios, o frio daquele lugar. E antes que acabasse a breve visita de 15 minutos, na nossa última troca de olhares, eu me despedi assim: “Durma com os anjos, sonhe comigo e não caia da cama”!

Feliz dia das mães!

Bennedict Cumberbatch – Can’t Keep It Inside (estou colocando os nomes agora, pois às vezes os links para os vídeos ficam indisponíveis, assim, caso acessem podem procurar a música por conta).

 

Eddie Vedder – Dream a Little Dream (estou colocando os nomes agora, pois às vezes os links para os vídeos ficam indisponíveis, assim, caso acessem podem procurar a música por conta).

 

The Beatles – Black Bird (estou colocando os nomes agora, pois às vezes os links para os vídeos ficam indisponíveis, assim, caso acessem podem procurar a música por conta).

 

29

Essa semana estou completando 29 anos. Vinte e nove primaveras, já que sou de outubro. Mas não vou escrever sobre o que significa tornar-me uma mulher de vinte e nove anos. E não vou porque não sei. Não faço a menor ideia. Primeiro porque acho que cada mulher chega a esse momento de um jeito. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens, para não dizer sua sorte e seu azar, ou suas escolhas e seus destinos. O que é fazer vinte e nove para uma mulher que cresceu na pobreza e chega a idade plena adulta com uma conquista de um emprego? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que sempre teve tudo e nunca lutou por nada e está agora numa bela casa? O que é fazer vinte nove anos para uma síria recém-chegada ao Brasil, refugiada de guerra que celebra simplesmente vinte e nove anos de sobrevivência? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que está casada, talvez já com um filho ou dois? O que é fazer vinte e nove anos e ser uma mulher solteira, que vive feliz seus dias em paz?

Eu não sei. Eu sou algumas dessas às vezes. Tenho meus anseios, meus receios, minhas bênçãos, minha guerra e minha paz. Enquanto escrevo, escuto os gritos animados que ecoam pelas janelas. Nos últimos nove meses tenho sido moradora de uma zona de “baladas”, na cidade grande e meus fins de semana possuem noites de muitos gritos, música, garrafas quebradas, brigas na madrugada, cantorias sem fim, e tudo isso de debaixo das minhas cobertas. O barulho não me incomoda. Meu sono é de pedra. Mas às vezes fecho os olhos e lembro dos meus grilos, da grama molhada de orvalho, dos latidos e uivos dos cachorros, e até um mugido ocasional ao fundo. Minha vida em Brasília foi, durante muitos anos, em casas afastadas.

Hoje o que eu mais gostaria, virando esses vinte e nove anos seria sentar na varanda da casa onde morei com minha mãe em seus últimos anos. Gostaria de sair do trabalho, da aula, no início da noite e ir até lá, mesmo que já não morasse lá, pois mesmo que ela estivesse viva, já não imagino que fossemos dividir a mesma casa ainda. Mas iria até lá, pelo menos uma vez por semana à noite, só para tirar os sapatos e pisar na grama molhada, fazer uma xícara de chá, abraça-la forte, e convidá-la para sentar na varanda. Ouvir os insetos, me incomodar com os pernilongos e as mariposas na luz. Suar no calor de Brasília. Secar a testa com o verso da mão, cruzar as penas em cima da poltrona, mesmo estando de vestido, olhar para ela e admira-la. Gostaria de dizer: “Mãe, hoje eu te entendo tanto. Te entendo cada vez mais”, e gostaria de pedir desculpas pelas minhas arrogâncias da adolescência e do início de vida adulta.

Eu sei que precisei negá-la, precisei contesta-la, como acho que todos os filhos precisam, para crescer, criar suas próprias opiniões e se desenvolver. Não faria nada diferente. Não quero mudar o passado. Mas gostaria de dizer que hoje ela faz mais sentido para mim. Não era perfeita, e não quero nem pretendo endeusa-la num culto pós mortem maluco. Mas hoje sinto falta da relação mãe e filha adulta. Sempre fomos muito amigas. Gostaria de poder falar para ela que agora a compreendo melhor. Queria muito ir até lá, e sem sapatos, de pernas cruzadas, ouvir suas histórias tão gostosas, ouvir suas entrevistas ainda sem edição, seus discos, conhecer um novo artista em primeira mão.

Ela acenderia um cigarro e aquilo me incomodaria muito como sempre. Mas dessa vez eu não iria brigar. Eu agora entendo. Hoje não sinto mais aquela raiva ultrajada. Hoje eu gostaria de pegá-la pela mão, e leva-la para minha aula de Yôga. Gostaria de viajar com ela, e lhe mostrar o mundo com meus olhos. Hoje eu faria um belo jantar vegetariano para ela, na esperança de que o modo alimentar que eu adotei fosse fascina-la e auxiliá-la com o problema crônico de baixo peso, e, na minha opinião, uma anorexia não diagnosticada.

E o mais importante, eu não faria nada disso para salvá-la, e nem esperaria que ela fizesse Yôga e nem que virasse vegetariana. Ela adulta, seguiria fazendo o que bem entende. Eu não ficaria com raiva, entenderia, como hoje entendo uma amiga. Eu faria tudo isso só pelo prazer de compartilhar o meu eu adulto com ela. Gostaria de mostrar para ela minhas escolhas, minhas experiências. A verdade é que com o passar dos anos eu sinto menos falta do colo de mãe e muito mais falta da minha melhor amiga.

Hoje, aos vinte e nove, órfã, mestranda, escritora e acadêmica wanna-be, louca pelo mundo, viajante, leitora ávida, eu sei que seria uma amiga ainda melhor na convivência com ela. A verdade é que sinto muita falta das minhas outras amigas e amigos de Brasília. Mas ao mesmo tempo me impressiono com tudo que São Paulo me deu nesses poucos meses. Tenho aqui já uma vida tão rica quanto a que sempre tive em casa. A verdade é que desde que perdi a casa dos meus avós, muitos anos antes de deixar Brasília, já não me sentia verdadeiramente em casa. Desci então que o mundo seria minha casa. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Fiz minha casa no meu coração, como diz o Skank, e tem funcionado muito bem.

Fui convidar alguns amigos para um abraço no dia desse meu ano novo, e já não sei como acomodar a todos na minha casinha. Mas estão todos já no coração. Amigos novos e antigos, familiares longe ou perto. Eu não faço ideia de como seja ter vinte e nove anos. Mas nunca me senti tão segura, tão realizada. Nesse momento eu não penso em ter filhos, não penso em casamentos formais, mas o porteiro diz para o meu namorado: “O pacote da sua esposa chegou! ”, quando recebo algo pelo correio. Não posso corrigi-lo. Tenho vinte e nove anos e moro com alguém em um relacionamento sério, monogâmico e, mais importante, feliz.

Semana passada me vi envolvida em tantos assuntos novos, registrar na Biblioteca Nacional um trabalho coletivo autoral, auxiliar um refugiado em meio ao meu trabalho voluntário na ONG, acompanhar algumas palestras internacionais e tentar aprender a publicar em periódicos internacionais de relevância acadêmica, ouvir as impressões do ministro de economia uruguaio sobre os novos rumos da América Latina, recebi muitos e muitos ensaios para corrigir. Não as provas de inglês de sempre, mas ensaios acadêmicos de graduação, que corrigirei no meu estágio como mestranda. Além disso fiz torta de maçã, do zero.

É, olho meus vinte e nove anos e os vejo como inegáveis. E como são maravilhosos. Nunca pensei que já ia ter vivido tanta coisa, e ter tanta história para contar. Mas aí eu olho para meus dedos, que batem freneticamente no teclado e vejo que as juntas dos dedos já não são lisinhas, os nós dos dedos já carregam suas marcas, e deixam minhas mãos tão incrivelmente parecidas com as mãos da minha mãe. E lembro de como eu gostaria de sentar com ela na varanda para um chá e contar tudo isso, só pelo prazer de sua companhia. Depois eu voltaria para casa, que podia até ser essa aqui em São Paulo, com a vida corrida e cheia de surpresas gostosas que tenho vivido, mas se eu tivesse um momento de poço dos desejos seria esse chá.

Os barulhos na rua estão cessando. Afinal, já é domingo de madrugada, e uma hora todos vão dormir. Amanhã levantarei cedo, tenho um artigo para escrever e uma faxina para fazer. A semana passará bem depressa, e na sexta-feira os vinte e nove chegarão. Os amigos visitarão, e a vida continuará. Mas quem sabe hoje à noite eu não sonho que estou naquela varanda, contando tudo isso para ela? Em sonho já está bom. Uma vista breve, sabe, só para ela saber como minha vida vai. Só para eu ganhar um beijo e um abraço. Só para eu me sentir um pouquinho filha e criança, mesmo com 29.

Já mordi e já fui mordida

Os fones no ouvido me desconectavam da realidade, talvez por isso, ao levantar a cabeça e ver que algumas pessoas em olhavam no metro tenha percebido que o barulho de surpresa que minha garganta produziu involuntariamente fosse um pouco mais alto do que apenas um suspiro amigável. Retirando apenas o fone direito pude ouvir a voz metálica anunciando a parada na estação República. Só desceria na próxima, e o livro já tinha acabado. Fiquei com ele ali aberto nas mãos, saboreando aquele final de leitura, reli a contracapa e as abas. Não gosto de ler as contracapas e as abas antes de ler o livro. Acho que denunciam muito. Mesmo quando não contém spoilers diretos, prefiro não saber nem a sinopse. Ler e tirar minhas próprias conclusões, não me deixa influenciar pelas opiniões e comentários reproduzidos de forma muitas vezes mecânica nas abas e contracapas. É algo muito parecido com o que sinto quando vou a museus, exposições, quando vejo peças de teatro, assisto filmes ou leio livros. Não quero ler nada. Não quero saber a opinião alheia, não quero informações prévias. Vou, vejo, sinto. E coleto todas as informações possíveis. Depois de remoer meus próprios sentimentos e emoções, aí sim, leio e me informo sobre tudo aquilo. Só assim consigo ter certeza do que senti por conta própria, do que é senso comum, e quais minhas críticas. Tudo isso, de preferência, com os fones nos ouvidos, afinal, o que seria de mim sem trilha sonora.

A capa me impactou desde a primeira vez que vi. Flores, algo tão feminino, carnívoras, algo tão subversivo ao reino vegetal, especialmente para uma vegetariana convicta como eu. Flores fálicas, coloridas, tão mulheres. Frágeis não por serem como flores, mas flores por serem também frágeis. Coloridas, fálicas, subversivas, delicadas e autossuficientes. Solitárias, mesmo num canteiro coletivo. Mesmo acompanhadas. Mesmo no metrô cheio. Desci na minha estação, e andei os dez minutos que me separavam das escadas rolantes do metrô até a portaria do prédio pensando sobre as revelações e curiosidades incitadas pelo meu som de surpresa ao fim do livro. O que havia afinal de tão surpreendente ali? A surpresa final, a gota d’água naquela caixinha de surpresas maravilhosas e terríveis foi ter visto a lista de nomes, ao final. Sem qualquer explicação. Vários nomes listados. Para leigos ou desinformados, poderia ser qualquer coisa, uma lista de agradecimentos, uma lista de referências, pessoas que sumiram na ditadura argentina, ou teria sido na brasileira? Não, aquelas pessoas não sumiram. Elas se encontraram. Cada qual carrega seu saco de pedras e dores da vida, mas até hoje a vida foi bondosa com aqueles nomes, que cresceram ou se consolidaram na vida democrática. Naquela lista achei meus amigos.

Amigos saudosos, que ficaram para trás na minha mudança para a selva de pedra. Para as entranhas do metrô. Amigos novos e antigos. Muitos ali só conheço de nome, de ouvir falar, de cumprimentar com um ou dois beijinhos em festas dos amigos em comum. E não é a própria autora um desses? Uma amiga de amigos em comum. Alguém com quem me encontrei poucas vezes na vida? Sim, é. Mais é mais. Ela é uma mulher que morde. Uma Alice por opção, que se joga atrás de coelhos em tocas obscuras. Talvez isso não seja uma opção, no final do dia. Talvez algumas mulheres simplesmente sejam do tipo não caseiro, e quando veem, já foram. Eu sei que em algum momento ela já foi, pois ela veio dessa exata selva de pedra onde me encontro agora, e foi se estabelecer nos planaltos concretamente abstratos onde eu nasci. Nos conhecemos sob o céu mais precioso da humanidade, e fui ter certeza de que compartilhamos essa alma de Alice, de mulher que morde, nas profundezas do metrô. Ela se fazendo na minha terra e eu na dela.

Até hoje me pergunto como vim parar aqui. Eu vim. Eu fui. E quando vi, já estava lá. Algumas pessoas pensam demais e fazem de menos. Mas talvez não seja bem assim, talvez essas mais caseiras sejam as que pensam normal. E as que pensam demais, são essas loucas que quando veem já foram, que leem livros nos metros, mudam de cidades, escrevem, pensam, pensam tanto que o pensamento vaza e, em alguns casos, vira livro. No caso dela, virou. Estou certa de que ela ainda está se perguntando se é isso mesmo. Autora publicada? Eu? Sim, Bia queria! É. Sei, porque se fosse comigo estaria me perguntando isso com uma cara muito duvidosa. Sim, Bia. Ela compartilha comigo, além da alma de Alice e dos pensamentos que transbordam pelas pontas dos dedos, a ligação com esse nome mágico. Nunca tive amigas Bias. Conheci muito poucas Bias ao longo da vida. O que é muito curioso, tendo em vista se tratar de um nome razoavelmente comum por aí. Beatriz com Z. Além dessa autora, esse nome me remete diretamente apenas à música do Chico Buarque, à minha mãe. Querida Bia Reis. Outra que mordia, e muito. Mordia a vida em bocadas pequenas, que eram as que cabiam em sua boca, e ainda assim, para seus poucos quilos, eram bocadas maiores do que ela conseguia mastigar.

A Bia não sabe, mas no último fim de semana eu estive pensando na Bia mãe com curiosidades e intenções bem diversas das saudades de sempre. Com a manifestação anticorrupção, vieram também aqueles que pedem a volta da ditadura militar. Espero com todas as forças do meu ser que esses sejam de fato minoria, e que isso não volte a acontecer. Eu, assim como a Bia, cresci na democracia, somos filhas dos anos oitenta, infâncias estabelecidas de fato nos noventa, acostumadas a fazer as próprias escolhas e a dar a cara a tapa sem medo. Mulheres que desde pequenas vieram ao mundo para deixar suas opiniões claras. Mulheres que não sabem esconder seus sentimentos sem, no mínimo, uma úlcera. Do tipo que precisa de liberdade de expressão. Do tipo que transborda pelos dedos em palavras.

Morando perto da Paulista, meu último domingo foi acompanhado do som de helicópteros e de vozes muito agressivas. Vi gente sendo agredido na rua. E, nesse momento, minha preocupação não é partidária. Minha preocupação é com a generalização da violência, com o controle e a deturpação das palavras. Minha indignação vem dos amigos que não podem sair de mãos dadas e se beijar, ou mesmo levar namorad@ ou peguete em casa, pois não serão aceitos pela família ou pela sociedade. Meu medo é da violência crescer tanto, que eu já não possa transbordar pelos dedos um dia. E meu domingo foi consumido por essa inquietude, na qual tudo o que eu mais gostaria, seria sentar com minha Bia, minha mãe querida, e lhe perguntar, como você conseguiu? Quantas úlceras isso não te causou? E obrigada por ter conseguido!

Ainda me refazendo desses sentimentos, na semana que se seguiu sem maiores incidentes, eis que me chega pelo correio o livro da Bia. Como uma transbodadora de palavras por excelência, apoiar a publicação de seu livro foi um ato natural. Um gesto de boa fé, que seria dado a muitos, a outros, mas que a ela foi dado com a confiança de que seria uma excelente recompensa. Li em dois dias. Quinta e sexta. Nesses dois dias também tive aulas no mestrado pela manhã, trabalho à tarde, yoga à noite num dos dias e alunos particulares no outro. Além de estar gripada. O tempo real que tive para ler foram alguns minutos de metrô. E assim me dediquei, esperando que ler o livro de uma paulista no metro linha amarela, fosse de certa maneira, uma homenagem. E eis que lá estavam todas aquelas mulheres dialogando com meus medos, minhas incertezas, minhas inseguranças. E nesse caso específico, não estou falando só de Alices, Sofias, Claras, Lauras, Elenas, Bias ou Juremas. Não estou falando só da angústia do mundo, daquelas que fazia Clarice Lispector escrever sobre a compra do ovo, ou que fazia minha mãe contar os passos para superar a depressão. Não, elas dialogavam com meus medos políticos, com questões familiares, com questões psicológicas e societais. A Bia, autora, não sabe ainda, vai saber quando ler isso, mas a outra Bia, a mãe, teve crise de pânico e depressão, e um dos mecanismos foi contar passos. Eu devia ter mais ou menos uns oito ou nove anos, e lembro perfeitamente dela contando os passos. No meio da tarde, eram no mínimo cem passos no jardim em círculos, só pro tempo passar.

E foi assim, atravessando a Augusta e lendo sobre a 405 sul, que já chegando em casa, eu achei meu nome na lista. E entrei em casa com um sorriso no rosto. Feliz, tão feliz, de ter conhecido melhor aquela amiga de amigos, que já me proporcionou alguns momentos únicos, e que compartilha essa alma de Alice comigo. Parabéns pelo livro, e obrigada pela companhia que me fez através dele nessa selva de pedra, Bia! Suas Mulheres que Mordem vieram na hora certa!

Por Bia

Às vezes eu choro. Às vezes é uma lágrima sutil, um escorrer de canto de olho. Às vezes chega a me embaçar as vistas. Mas as vezes é um dilúvio! Choro, fico desfigurada, o nariz incha e avermelha, os olhos saltam do rosto, a coriza escorre em torvelinhos por sobre o lábio e meleca a blusa, ou a coberta, o que estiver mais próximo. Não é bonito! E eu não sou a Bailarina, que nem remela tinha. Choro, choro com força, choro com alma.

Hoje estava comentando com um amigo, mais cedo, sobre a realização de metas. Ontem com outros amigos muito queridos, comentei a mesma coisa. Todo fim de ano eu sempre tive o hábito de fazer aquele famoso balanço, checar as realizações, os sonhos, as preguiças, e sempre sobrou algo na minha lista. Um certo item por fazer, daqueles que provavelmente nunca ia receber o check, na minha check list.

Ano passado foi diferente. Terminei 2013 me sentindo extremamente cansada, mas muito feliz. Depois de um ano de desapego, desenganos, e desassossegos, consegui na verdade, ter um sossego só meu, e descansar. 2013 foi um ano de recuperação, um ano sanativo, para fechar feridas, e tornar a pele mais áspera, ralando ela por aí na lixa da vida de todo dia. 2014 foi diferente. Foi um ano de olhar para dentro. De colocar fermento nas ideias, de amassar esse pão até suar, e doer os braços, e depois enrolá-lo no pano, e colocá-lo em lugar morno para fermentar. Em 2014, eu fermentei. O pão assou, e está com aparência muito bonita. Só poderei comê-lo e reparti-lo, contudo, em 2015, e daí em diante. Depois eu conto se o gosto era tão bom quanto o cheiro.

E se no anoitecer de 2013 veio meu cansaço, meu desassossego, meu eu solitário, percebendo-se, único e indivíduo, como nunca antes, em 2014, antes que as luzes se apaguem me sinto coletiva. Nunca me senti tão bem quista, tão amada, por pessoas tão diferentes. Sinto o calor vindo de velas invisíveis, e apesar dos braços doloridos e da testa suada de tanto amassar o tal pão, não sinto o cansaço. Sinto uma certa ansiedade para poder parti-lo, mas só. As mudanças que 2015 me trará prometem ser grandes, e só o tempo, o longo prazo, me dirá o quão grandes elas poderão ser. Mas não me antecipo. Tenho, no mínimo, uma década nas costas de aprendizados para saber que a vida se vive um dia após o outro, com a cabeça no presente, que é a verdadeira dádiva.

E essas mudanças que os ventos de 2015 me antecipam me fizeram remexer gavetas. Quis limpar física, psicológica e mentalmente algumas gavetas antes de me levar para outras trilhas, antes de abastecê-las de novas relíquias. E ao remexer as gavetas me encontrei. Todinha lá. Há mais de uma década atrás. Do jeitinho que sou! E ao mesmo tempo outra. Cresci e aprendi mais do que em algumas vidas inteiras nessa década. E parte desse aprendizado culminou num mês de desapego, no qual estou me desfazendo de muita coisa: um terço de guarda-roupa, dois rabos de cavalo de cabelo meu da adolescência doados, várias lindas e maravilhosas cartas de infância jogadas fora, porque o amor fica, mas o papel precisa ser reciclado, fotos distribuídas, outras scaneadas, e muitas camadas de Jurema lixadas e polidas, no melhor esquema pedra-pomes para a alma.

Nesse processo eu reli algumas cartas que minha mãe, maravilhosa, me escreveu. Chorei. Li para uma amiga, e chorei mais modestamente. Reli sozinha e me acabei no travesseiro com baba e meleca escorrendo pelo queixo. Não consegui comer, fiz chá, resolvi ver TV. Enjoei de cinco filmes bestas modernos e achei que ia precisar sair e ir passear no parque para acalmar a alma, mas estava chovendo. Achei na lista de filmes disponíveis Como Água para Chocolate, um dos favoritos de dona Bia. Vi inteiro. Chorei no fim de novo até o ponto melequento. Desisti das melecas. Me refiz. E resolvi lidar com essa nova onda de emoções que mesclam uma saudade absurda, com um desejo incompreensível de ter minha mãe por perto, e ouvir suas opiniões e conselhos, ainda que eu fosse negá-los e fazer tudo do meu jeito, como sempre foi. Ela nunca deixou de falar, eu nunca deixei de ouvir e tanto ela como eu sempre fizemos o que bem entendemos. Com muito amor, muito respeito mútuo e grande admiração.

E a minha forma de lidar com isso é escrevendo. Compartilhando a alma. Me abrindo para o mundo. Me quebrando em sílabas e letras para me refazer nessa mensagem de palavras que já não me pertencem quando deixam meus dedos, mas que levam e lavam minha alma. E hoje faço algo inédito, algo célebre e que creio não terei oportunidade de fazer novamente. Divido com vocês a transcrição exata de uma das cartas de dona Bia para mim! Olha a honra, hein! Hoje abro em palavras uma parte muito íntima da alma de outro alguém. E contrariando-a, pois na carta está escrito que é particular. Eu, entretanto, não consigo ser privada. Com vocês, Bia Reis:

“Eta, eta, eta, é a lua é o sol é a luz de Tieta… milhares de casinhas coloridas, aquele típico casario baiano, de casinhas pequenas e coloridas. Eta, eta eta, é a lua é o sol… encerramento do filme no clímax, é claro que sinto sua falta. É assim, nos detalhes, às vezes os mais comuns, que a saudade aperta, né o coração só não, aperta tudo: o peito, o estomago, a barriga e a cabeça. Aí eu sinto muita falta e consigo ter alguma noção do quanto estamos ligadas. É por isso mesmo, do quanto foi bom você ter se metido nessa aventura maravilhosa de passar um tempo em outro país. Assim, de repente, só 1 mês, no meio da final da Copa do Mundo, Brasil ganhando, vocês foram… Eu, que nem sabia como ia te criar, quando você nasceu, fui correndo, e aprendendo, e fazendo tudo o que era preciso, e aprendendo, e tentando, e sentindo, e aprendendo, e até que foi tudo dando certo. Com todas as dificuldades iniciais, você foi, ou nós fomos, superando uma por uma e crescendo, bem, saudável, bonita e inteligente e etc… Eu fui à luta de crescer também, batalhei e continuo batalhando para sempre estar consciente, ligada no seu desenvolvimento pessoal, no espaço que você necessita para crescer e ser e também no meu crescimento. Sei que seus voos serão cada vez mais altos e espero estar à altura, para apreciá-los com orgulho. Você cresceu, e nós duas precisamos exercitar nossa individualidade, ir diminuindo a intensidade da energia do cordão umbilical. Que é eterna, graças a Deus, que nunca será possível extinguir, acabar. Sempre seremos ligadas e eu sou feliz e agradecida aos céus por isso, mas é importante exercitar o ser independente. Por isso gostei que você foi. De vez em quando um detalhe aciona a saudade e o peito aperta, te deixando meio sem ar, a barriga dói, você suspira… Te adoro. 06/07/2002 – sábado”

É mãe, tem hora que um detalhe aciona a saudade, e o peito aperta, a barriga dói, a cabeça dói, tudo dói, e eu não só suspiro, como explodo em lágrimas, exagerada nas emoções como sempre fui. Não há palavras suficientes no universo para demonstrar o quão incrivelmente grata eu fico por poder ler essas palavras doze anos depois. Não apenas porque elas contêm muito amor e uma reflexão emocional louvável para qualquer mãe, o que me faz admirar dona Bia mais do que nunca, mas também porque nesses momentos de transição, eu às vezes sonho em saber o que ela diria para mim, qual conselho daria.

Pois bem, aí está seu eterno conselho. Tenho certeza de que essas mesmas palavras poderiam ser ditas por ela para essa minha próxima aventura. Tenho certeza de que foram ditas, e não a toa reli essa carta hoje. Reforço com essa experiência a importância de sermos seres humanos bons e conscientes. Ela não sabia que não estaria aqui doze anos depois para me dar o conselho apropriado para cada momento. Mas eu fui criada com conselhos que valem para a vida toda, e isso não tem preço! É um nível de amor e de respeito aos quais agradeço diariamente! Obrigada mãe, obrigada universo! Obrigada 2014! Obrigada!

Brasília, domingo, onze da manhã, de um ano qualquer

Era domingo. Onze da manhã. E daí? – você me pergunta. Acordou tarde? Não. Não é isso. Não importa que horas acordei. Que horas fui dormir. Domingo era o dia dela. E onze da manhã sua hora. A hora do rádio. Não era a hora da Voz do Brasil. Era a hora da voz do meu Brasil. Do meu mundo. Da minha mãe.

Olhei a xícara de chá ao meu lado. Dourada com corujas, algumas de óculos. Tão eu. Presente de aniversário. Olhei o pequeno bule roxo, cheio do chá matinal, orgânico, detox. Tão eu. Comprado sob os auspícios de casa nova, e já vão lá um ano e meio de uso, de casa, de chás. Cocei a cabeça, cabelo preso, embaraçado da noite de sono ainda. Tão eu. Sempre assim. Um dia de folga, e de pijamas e com uma xícara, preferencialmente uma caneca, de chá nas mãos, e já lá estou, com um livro, uma leitura, uma aventura. Ou com letras nos dedos.

Ah essas letrinhas que não me deixam mais. Falo pelos cotovelos, e como dizia ela, ainda bem que nasci só com dois, se não ninguém aguentava. Melhor traduzir em palavras. Em rabiscos. Tanta ideia, tanto sentimento, tanta vontade de se pôr para fora. Minha voz era minha ouvinte número um. E tão boa que cresci mal acostumada no que diz respeito às boas companhias.

Ainda que fossemos mãe e filha, por diversos motivos, por sermos as duas filhas dentro da casa dos meus avós, por sermos as duas meninas, por sermos as duas só nós duas, fomos amigas. Não exatamente como amigas, claro. Eu diria mais como colegas de quarto. Minha mãe foi sim, minha roomie. Desde muito nova pude participar nas escolhas de como nossa vida seria, e ajudá-la a dar contorno e forma a todas as pequenas escolhas. Em parte porque ela deixava, estimulava e cultivava em mim a liberdade de escolhas e a tomada de decisões. Em parte porque ela mesma estava perdida e precisava de ajuda. Em parte porque fui criada, por ela e todos os demais familiares, como um ser humano, cujas ideias e sentimentos deviam ser respeitados, independentemente da idade.

Nosso ponto máximo de vida de roomie foi a casa do condomínio. Quando moramos sozinhas de novo. Já tínhamos vivenciado essa aventura muitos anos antes, na 407 norte. Naquela época moramos só as duas por cerca de três anos num apezinho pequeno e aconchegante. Com estantes feitas pelo vovô Gepeto, cheias de violetas e o rádio, embaixo da janela da sala. O banquinho de índio da vovó, emprestado para nós, com o telefone e mais uma violeta em cima, ao lado do sofá. O telefone verde, que para discar era necessário girar aquela roda de acrílico, já amarelada, e esperar cada número fazer sua quantidade de tec-tec-tecs até poder discar o próximo.

Naquela época eu ainda era muito nova. Vivemos lá entre meus cinco e oito anos. E lá aprendi a fazer vitamina de café da manhã, do jeito que ela gostava, com leite de soja e castanhas do Pará. E aprendi a noite a fazer a sopa de aveia e cenoura da vovó. Minha vida de sopas começou lá e eu nem sabia. De tomadora de sopa começou muito antes, desde que nasci. Mas de fazedora, começou lá. E um dia fomos buscadas por vovó magico de Oz, salvador de toda intempérie. Aquela empreitada não deu em nada.

Mas o que é na vida que tem que dar em alguma coisa? Que mania de buscar resultados mirabolantes de contos de fadas essa! Aqueles anos, com tudo que eles trouxeram, com os risos e o choro. Com minha frustração em não poder correr para minha árvore no jardim depois de uma briga em casa, que me fazia esconder debaixo da mesa da sala para chorar. E os risos de mel dela ao descobrir que metade do meu emburro era pela briga e a outra metade pela falta da árvore. As tempestades de verão assistidas da janela, com muita música alta acompanhando. As vitaminas de café da manhã aos domingos de sol, com as janelas abertas e, sempre, o rádio ligado. A primeira vez que ouvi ETC da Cássia foi assim. No rádio, tomando uma vitamina, ao som das gargalhadas dela, que se divertia tanto com a vitamina, o rádio e a letra.

Muitos anos depois, no condomínio, estávamos sós, não por escolha, mas por falta dela. A coisa mais significativa que apreendi com as perdas foi que o sofrimento de um ente querido que morre tem como alívio doce a certeza de que apesar de todo o sofrimento, a única coisa que cada um deles com toda certeza não queria, era me deixar sozinha. A maior preocupação de quem se vai para cumprir com as missões dessa vida é a preocupação de que quem fique, fique bem. Com muito amor na alma. Tudo o mais dói muito. É, em quase todos os sentidos, a pior dor que se pode sentir. Mas seu afago na alma é esse. A certeza de que os que foram, estariam, e de certa forma estarão, comigo sempre.

É o exato oposto das dores de um coração partido. As pequenas, e às vezes grandes, dores de um amor são o contrário disso. Existem infinitas variáveis, que mudam a cada caso, a cada dia, a cada estória, a cada amor. A única constante, é a certeza de que aquela pessoa não queria mais estar com você. E é por isso que dói. Mesmo quem se vai pela mais definitiva das razões, a morte, queria estar junto. Quando são por incompatibilidades do coração, nada é definitivo, além da certeza de que não se quer estar junto nunca mais.

Acho que por isso tantas vezes as pessoas, e incluo a mim mesma nessa lista, sendo ser humana que sou, sentem tanto receio de iniciar novas fases, ou de se jogar em novas situações. Existe o medo do desconhecido. Existe o receio de se revelar e de descobrir as entranhas alheias. E a cada ano que passa existem mais bagagens sobre os ombros de todos que andam sobre a Terra. E as bagagens lhes pesam os ombros, e lhes fazem lembrar de tudo o que já foi.

Não se apegue ao que já foi. Nem por motivos de amor, nem de morte, nem de vida. Quando olho no relógio e vejo que são onze horas de domingo, lembro dela. Dos risos de mel. Das músicas cantaroladas. Do rádio. Da sua voz duplicada dentro de casa, ao vivo, e a gravada, a me contar as mais maravilhosas histórias da nossa música. Lembro das violetas e da vitamina. Lembro das cócegas nos dias de bom humor e das caras fechadas nos dias de mau humor. Lembro com carinho. E guardo essa luz dourada em meu peito para sempre.

Olhei para a caneca dourada, com corujas de óculos. Olhei para as flores na almofada. Olhei para as fotos na estante. Os discos e as violetas na janela. Tenho vivido essa nova aventura e já se vão lá um ano e meio de vida sozinha, mas nunca solitária. De viagens incríveis. De aproveitar as vantagens de ser rainha do meu castelo, imperadora, podendo dar todas as ordens, por não dividir o poder com ninguém. E ao mesmo tempo cumprindo com todas as ordens, por ser também a única executora delas nesse espaço. Tão eu. Olhei meus passarinhos, os de barro na estante, o de madeira, Espirito-Santo mineiro, os de pano, no fundo azul da cortina filtrando o sol pela janela. Tão eu.

Olho para tudo isso, e guardo essa luz dourada em meu peito para sempre. Isso é o meu hoje. Aquilo foi meu ontem. E só a vida dirá o que meu amanhã me reserva. Não tenho medo do futuro, embora, hoje, tenha mais saudades dele do que do passado. Vivo hoje, penso e planejo o amanhã, me delicio com as memórias de ontem. Às onze de domingo sempre serão dela. Mas existem ainda todos os outros seis dias da semana, e as outras vinte e três horas do dia, os pores do sol, em terras distantes, os nasceres do sol acompanhados de tapiocas, para serem preenchidos. E enquanto isso vou me traduzindo em palavras. Sofio-me dia a dia. Inclusive, e, especialmente, às onze horas da manhã, de domingo.

A nostalgia do fim de ano: O Natal da Saudade

Hoje estou extremamente nostálgica. Estaria preocupada não fosse o já marcado almoço de Natal de família para amanhã, que me garante que suprirei boa parte dessa nostalgia, já que em festas de família, não há nada mais padrão do que ver fotos antigas, comparar o evento com os de anos anteriores e rever membros da família que não víamos a meses. Gosto de tudo isso, de todo o clichê envolvido, da poesia que existe na poeira levantada desses momentos. Mas além disso tudo existe uma outra nostalgia, um outro nível de nostalgia que me ataca nessa época.

Sempre fui uma pessoa muito nostálgica desde a infância, e contemplativa. Tenho essa tendência a observar momentos e depois revivê-los em minha mente, saboreando-os, perfumando-os, esmerilando-os. Contando a estória da história, e muitas vezes modificando-a um tantinho para guardar uma memória romanceada, com direito a filtros de cor e luz e trilha sonora, e que fique bem claro, minha mente já fazia isso muitos e muitos anos antes do Instagram.

Todo ano, quando começam a aparecer as luzes de Natal é como se se abrisse um portal. Como se os mundos se conectassem, e um pouco do meu mundo mágico pessoal, da literatura e da música, onde habitam todos os meus amigos e paragens mais queridos, migrasse um pouco para essa terra média, e especialmente durante o nascer e pôr do sol, eu estivesse com um pé na realidade e outro na fantasia. Isso faz com que eu tenha muita saudade de coisas que nunca vivi. São os momentos que sinto como se estivesse estudado em Hogwarts e estivesse saudosa do Baile de Inverno. Ou como se alguém tivesse deixado a porta do guarda-roupa aberta e os ventos nevosos de Nárnia estivessem invadindo meu verão chuvoso brasiliense.

E ao mesmo tempo sinto falta das histórias contadas pela vó na frente da lareira. Sinto uma falta que dói dos meus avós e sinto de verdade o cheiro dos ramos de cipreste molhados de chuva que podávamos do jardim e usávamos pra decorar a melhor árvore de Natal de todo o mundo, que era de mentira e de verdade ao mesmo tempo, trazendo o cheiro do Natal para dentro da sala sem matar árvore nenhuma. Obviamente uma invenção do super-homem, melhor avô do mundo.

Fico nostálgica e escuto Nat King Cole em minha mente, relembrando os artesanatos decorativos que fazia com a vovó, escolhendo cuidadosamente no quintal pinhas, e ramos de algodão, e pedras, para tingir de dourado e folhas secas que seriam pintadas de verde e vermelho e se mesclariam nas gamelas de barro e madeira, cheias de frutas da estação e castanhas. Sinto falta da excitação que tomava conta de todos, a ansiedade de ver toda a família reunida. E sim, era muito mais do que válida a expressão “se arrumar toda pra ficar na sala”! E como adorávamos!

Cada pedaço de papel guardado e todas aquelas tardes fabricando meus próprios cartões de Natal antes de enviá-los aos amigos. Já era uma coisa meio antiquada, mas eu amava comprar selos, e grudar envelopes, ter que anotar os endereços com CEP dos amigos, ou passar horas consultando o livro dos Correios para poder fazer surpresa. Além dos cartões eu tinha a função de empacotadora oficial da família. Comprávamos os rolos de papel natalino, um bom durex novo, fitas, muitas fitas. E assim se passavam manhãs de férias nas quais eu praticava a habilidade de fazer belos laços. Sempre tinha alguma lembrancinha esquecida, que era improvisada de última hora, um embrulho a ser feito dentro do carro antes de chegar na festa.

E assistir à minha avó arrumando a casa, tomando parte naquele processo de enfeitar e tornar festivo cada momento. E também quando eu a via se arrumar. Sempre achei um momento tão íntimo e tão maravilhoso. Minha musa, minha diva. Quando ela sentava na mureta do box, de frente para sua parede de espelho do banheiro, de roupão e bobs no cabelo, depois de tudo pronto e banho tomado. E eu sentava no chão pra assistir aquela transformação maravilhosa, e via cada cacho cair do bobs, cada pincelada de maquiagem, cada expressão facial estranha para aplicar bem um batom. Combinação cor da pele embaixo do vestido, e uma ajudinha da neta proativa pra fechar um zíper, um botão nas costas ou um fecho de sapato. E sempre, o gran finale, quando ela, já toda pronta, ficava com apenas o colar na mão e me pedia para ver se o vovô já estava pronto e chamá-lo. Ele vinha cheiroso do banho, de camisa, sempre em tons de azul e frequentemente listrada. Ela só abria a mão, sem uma palavra, e ele colocava o colar nela. E só então descíamos as escadas para receber a família e viver mais um Natal.

E mesmo enquanto eu vivia todos aqueles momentos, como se minha vida fosse um filme, sentia nostalgia, saudades do que nunca vivi. Ou do que estava vivendo. E me perdia fitando o pisca-pisca das luzes da árvore por horas. De um jeito bom, meditativo. Sinto falta hoje em dia de morar numa casa imensa, e de poder fugir do mundo, e me sentar naquela sala de pé direito desproporcionalmente alto, com todas as luzes apagadas, numa almofada no chão, tarde da noite, e ficar acompanhando as luzes em sua dança, em frente à árvore. Até que muito tempo depois minha mãe chegava em silencio, sentava ao meu lado, passava o braço ao meu redor, e depois de minutos em silêncio me perguntava se estava tudo bem. Ela sabia que eu precisava de momentos fora dessa realidade, entendia, apoiava, respeitava. E meditávamos juntas um pouquinho, abraçadas, naquela dança de luzes, no escuro, com aqueles cheiros e sons tão familiares. Até que ela me chamava pra ir dormir. Sem se preocupar com horário pois eu já estaria de férias da escola naquela altura do ano. Eram momentos de cumplicidade. De sentimentos profundos que sempre tive e nunca entendi. Momentos em que reconhecíamos a existência deles sem questioná-los.

Sempre fui nostálgica. Hoje sou saudosa. Não tinha motivos aparentes pra nostalgia antes. Tenho muitos pra saudade hoje.

A menina, velha mulher

A menina já não era tão menina assim. Alguns dias se sentia muito velha, outros, nova demais. Na verdade, ela era, como todas as outras, dona de um coração de menina, daqueles que acordam felizes, só porque faz sol. Era também dona de um corpo de mulher, daqueles que as fazem se descabelar na hora de escolher uma roupa e chamam uma atenção que às vezes é bem-vinda, e em outras odiada. Era também dona de um espírito e alma de velha. Daqueles capazes de passar horas procurando um pelo em ovo, só para achar, eventualmente, não um pelo, mas uma pluma, coladinha na frágil casca, e se lembrar que não importa quem veio primeiro, o ovo o galinha, importa, que a galinha também era fêmea, mesmo que o ovo nem sempre o seja, e isso a faz considerar a galinha primeiro, primeira.

Era aquela hora. Uma hora desconhecida pelos seres do gênero masculino. Uma hora tão feminina, que faltam palavras para descrevê-la, embora sobre sentimento. Assim como às mulheres, às vezes lhes faltam palavras, mas sempre sobram sentimentos. Nessa hora o carro é quente, o ônibus é cheio, o trânsito é barulhento. O calor daqueles meios de transporte contrasta com a leve brisa que a noite vem trazendo, e a menina arrepia, apesar de suar de calor. Naquela hora o estômago ronca de fome, mas a boca azeda, e o enjoo faz a vontade de comer ir embora.

A menina olha para o céu. Ele ainda é azul. Não azul claro, como no amanhecer, mas um azul hortênsia, como a flor, claro, porém profundo. O mundo, entretanto, já é tomado de sombras, as silhuetas das árvores já são formas pretas contrastando com o ainda azul do céu. E há um brilho que beira o rosa e é também dourado, de um sol que já não se vê. E bonito, e triste. A menina olha para o céu, vê um quarto de lua minguante, prateada, começando a se apoderar de seu céu noturno, seu céu feminino. A lua já brilha, embora ainda não seja exatamente noite. E eis que de repente, não mais do que de repente, lá está ela, uma pequena estrela a fazer companhia a sua lua, como mãe e filha, duas mulheres no céu. A menina suspira, sem saber porque sofre. E, ao mesmo tempo já sabe, é a hora da estrela.

O sinal abriu e a menina mulher tem que dirigir, fluir na correnteza do trânsito e chegar em casa. Chegar em casa para quê? O que a espera depois da hora da estrela? Dizem que o crepúsculo é a hora do predador, pois as presas não veem bem quando ainda não é noite, mas também não é mais dia. Para a menina isso não ajudava em nada, pois as mulheres são tanto presa quanto predadoras. Depende do dia, do sol, da lua. Mas a hora da estrela, era a hora em que a menina, a mulher e a velha se encontravam. O coração puro da menina via naquele contraste de cores, no brilho da lua, a magia do mundo. E imaginava todos os contos de fadas, onde os amores são possíveis, mesmo quando impossíveis. E a mulher suspirava, e se cansava ao saber que teria que se decidir presa ou predadora, com o cair da noite. Já a velha ria um riso amargo, e se lembrava de todas as dores do mundo, pois com a noite cessam os afazeres e afloram as emoções. E a hora da estrela é a hora da melancolia.

Nessa hora as meninas, não apenas essa, mas todas, têm, a cada dia, de decidir se porão a mesa para o jantar da família ou se correrão, fugirão para o ar puro das montanhas mais altas e distantes, ou para o ventos das praias mais ermas e solitárias. Todas? Sim, todas. Sejam elas meninas, mulheres ou velhas, nessa hora, a cada dia, existe uma decisão sendo tomada. Em cada coração, cada corpo, cada espírito. E durante muitos e muitos anos a menina, que não era tão menina, e nem tão velha, já tinha posto muitas e muitas mesas. Não ovos, mas mesas. Mas em sua lógica os ovos vinham em segundo. Ou talvez em terceiro, e as mesas em segundo. E servido muitos jantares. Não, a menina não tinha marido ou filhos esperando aquele jantar, mas já teve, algum dia, mãe, pai, avô, avó, família.

Só que a menina já tinha fugido também. Justamente por não ter marido e filhos, pode fugir sem que ninguém desse por sua falta. E foi até o alto de montanhas, e desceu até a onde a maré marca a areia. Respirou o vento do mar e o ar das folhas das árvores. E descobriu, que mesmo lá, na distância, mesmo lá, existem maridos, filhos, família, ovos. E que eles jantam. E quando não há ninguém? Na selva urbana, em seu caixote de concreto, a menina janta. Sim, pois apesar dos calafrios do dia quente que decai em noite fresca, e apesar da fome do corpo e do enjoo da alma, ela janta. Mesmo sozinha, ela janta. E corre, e nada, e contempla o mundo da janela. E a vida continua. Seja pelo ovo, ou pela galinha.

E nessas horas, nas horas da estrela, a menina queria ter uma máquina. Sim, uma máquina que superasse o tempo e o espaço, e resolvesse as mazelas do mundo, driblasse a desgraça. Nessas horas ela gostaria de caminhar sobre as flores amarelas do ipê. Ela gostaria de achar, ou talvez só de procurar, um amor. Nessas horas ela, menina, mulher ou velha, se sente princesa. E então ela se lembra, do seu remédio, do seu antídoto. Da sua música e dos seus livros. Sim, ela é menina, mas também são meninas as Clarices e as Cecílias, as Adrianas e as Alices. E todas elas entendem as angústias do ovo, da máquina, do amor, do mundo, da hora da estrela. E a menina cultiva, como quem procura um amor, sua felicidade clandestina. Aquela, que vem na hora da estrela, quando ela está sozinha. E ela agradece à Elis por sua reza e à Cassia por sua malandragem, que a permitem ser menina, mulher e velha. E ela se lembra de que a vida é querida, mesmo quando a felicidade é clandestina.

E a velha ri, a mulher chora e a menina ama muito a vida querida, pois nela existem também os Toms, Tims, Chicos, Vinícius, Samueis, Fernandos, Manoeis, Joãos, todos os Johns, Chets, Miles, que sabem que é preciso ter cuidado na hora da estrela. E fazem graça, pois sabem que as mulheres são vinte duas em uma. São garotas de Ipanema, nacionais, ou funny valentines. São como joaninhas no jardim. São como a galinha, que bota o ovo. E também bota a mesa do jantar.  E apesar de tentar, eles nunca às compreenderão. E elas contemplarão o mundo como velhas que riem com amargura de tudo o que já foi, como uma onda no mar. E serão mulheres de corpos metamórficos, como mutantes, angustiadas, presas e predadoras. E serão meninas de coração puro, que procuram um amor. Mas nunca entenderão que a hora da estrela, quando a lua aparece no céu, é delas. Só delas. E que nessas horas, apesar de tudo, a vida é querida.

Em alguns dias as Alices mudam de tamanho, seguem coelhos, fogem de seus mundos, atravessam barreiras, viajam no vento, em furacões. Encontram e são encontradas. Dançam, rezam, passam. E a menina vive, sua vida querida, sabendo que sempre se angustiará na hora da estrela. E que não adianta fugir. Que nenhuma máquina resolverá seus problemas.  Nem mesmo o do ovo e da galinha. Que nenhum homem ou mulher arrumará seu mundo, consertando-o depois de todos os pequenos e grandes estragos dos anos. Mas que ela mesma pode ser sua própria arrumadora. Afinal, mesmo quando a mulher está em metamorfose, e enquanto a velha contempla o mundo, entre rezas e malandragens, a menina tem um coração puro. E que sua alma não é pequena. E ela tem essa mania de explicação. Um amor pelas palavras. E enquanto ela procura por um amor, na verdade, ela encontra palavras. E enquanto ela procura pelas palavras certas, encontra muito amor, de vários tipos, certos ou errados. Longos ou breves. Que sejam, então, eternos, enquanto durem. Mesmo que durem só uma hora, a hora da estrela.

Quando eu me casasse: O Dia das mães atrasado

(Texto original do segundo semestre de 2013, que de atrasado passou a ter uma oportunidade perfeita, ao renascer no blog hoje!)

Feliz Dia das Mães!

Não sei se é meu cérebro que está atrasado, ou meu relógio biológico que nunca se adapta bem ao calendário padrão, mas esse texto é um texto de dia das mães beeeeeem atrasado.

Creio que se eu tivesse colocado essas emoções para fora na época do Dia das Mães teria sucumbido em emoção. Nunca é tarde para continuar com minhas reminiscências, entretanto, e aprendi a respeitar minha necessidade de escrevê-las quando, bem, quando é preciso. É algo mais forte do que simplesmente uma vontade, mas não se chega a ser uma necessidade. Consideraria algo como uma ferramenta, um diário público, uma forma de externar e, assim, entender melhor minhas emoções e pensamentos. Na falta de uma penseira, daquelas do Harry Potter, me viro assim.

Tem uma música chamada Mother, da banda Travis, que sempre me emocionou muito. É simples, bonitinha, e diz aquilo que eu gostaria de dizer para minha mãe no momento em que não fosse mais conviver com ela o tempo todo. Achava, por motivos não sei se infantis, lúdicos, ilusórios, ou naturais, que esse momento seria meu casamento. Quando saísse de casa, e deixássemos de morar juntas. Meu plano era traduzir a letra e fazer um cartão homenagem.

Claro, que a vida não funciona como a gente pensa, planeja, sonha, espera, ou sei lá o que. Não que isso fosse um sonho, era só algo em que pensava quando ouvia a música. Sair de casa ao casar também não era meu plano, nem meu sonho. Sempre quis morar sozinha, um sonho que começou por volta dos doze anos de idade, e que ao quinze, depois de passar um tempo nos Estados Unidos, morando nos dorms da NAU, Rapid City, SD, se tornou uma plano, uma meta.

A vida faz curvas, a gente segue a estrada, vê o que está do outro lado da curva às vezes, às vezes não. Tudo muda, e quem consegue se adapta. Até agora eu consegui. Não saí de casa por conta de casamento e não deixei de conviver com minha mãe no dia-a-dia por causa da saída. A vida simplesmente acontece, e, da mesma forma que chorei muito antes de formar porque sabia que meu pai e meu avô não estariam na minha formatura, hoje sei que minha mãe não estará lá quando me casar, nem quando tiver filhos (se é que isso vai acontecer um dia, já não duvido de nada, mas também já não acredito nessa tal ordem natural das coisas).

Entretanto, gostaria de ter traduzido essa letra pra ela. Sempre fui muito apaixonada por letras. Sempre presto atenção às palavras, coisa que muita gente não faz. Pra mim é a união perfeita de duas paixões, a escrita e a música. Sou, assim, uma colecionadora de letras. Não vou traduzir aqui, a tradução era pra ela. Mas compartilho com vocês a letra. Quem sabe algum outro filho não poderá aproveitar a ideia, e fazer uma homenagem a sua mãe algum dia.

O curioso é que ao ouvir a música e ler a letra novamente, percebo agora a mensagem de uma forma completamente diferente. Continua sendo uma despedida, mas agora para mim é, obviamente, uma despedida definitiva. Se eu tivesse conseguido, teria feito essa despedida antes. Essa é pra você mãe!

 

 

Mother are you mad at me
Mother are you scared
That someday you will turn around
And look to find your blue-eyed boy’s not there

But mother don’t you worry
Mother don’t you fret
Cos we’ve been through so much pain and joy and suffering
For me to forget
The times we had together
Times that were so full
But time’s gone by before my eyes
And I realise
Time was often cruel
So mother don’t you worry
Mother don’t you cry
Cos there’ll come a day
When I will take the reins
From your fair hands and wave bye bye
Bye bye

Os personagens reais: Colecionadoras de Histórias

(texto de 2013, vai bem com o fim de semana do dia das mãe e é também um dos definidores da estrutura atual do blog)

Os pensamentos de hoje são difusos, e espero que não me levem a mal.

Já contei para vocês como a rotina noturna minha e da minha mãe se baseava em ela colocar uma música, e discutíamos e analisávamos, aproveitávamos e nos emocionávamos. E depois eu lia um livro em voz alta para ela. Sim, esse era nosso cotidiano.

Percebi que isso acontecia desde sempre. O primeiro livro que li foi Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato. O primeiro livro, porque as primeiras leituras foram Turma da Mônica, Mauricio de Sousa. Mas tudo aconteceu as mesmo tempo, não existiu cronologia nas minhas leituras, apenas um grande momento. Minha mãe estava lendo esse livro, Reinações de Narizinho, em voz alta para mim, eu tinha seis anos, e no meio do livro eu comecei a ler. E ela simplesmente deixou. Continuava a deitar comigo a noite, segurava o livro, só que em vez de ler pra mim, eu lia pra ela. E assim fiz durante muitos anos, desde que comecei a ler, lia para ela.

E aprendi a ler interpretando, ela fazia sonoplastia, repetíamos “os atos” preferidos. Li contos, estórias, histórias, li trechos de livros de estudos, li poesia, li besteira, li gibi, li revista, tudo que gostava, que queria compartilhar eu lia para ela. E ela tinha uma paciência infinita para isso, só para minhas leituras e para a música, mas tinha. E assim eu cresci íntima dos meus personagens. Sempre me fizeram companhia e ganhavam vida dupla, pois além de lê-los eu os encarnava, encenava, ria, chorava.

Mas esse é meu lado, tem o lado dela. Ela fazia a mesma coisa comigo, só que com a música. Bia Reis era uma colecionadora de estórias e histórias. Uma das melhores. Ela buscava, ouvia, tirava, escavava, ganhava de presente as estórias. E transformava em trabalho bonito, espalhava pelo mundo, levava aos quatro ventos. Só que entre a busca e os quatro ventos tinha eu. A incógnita mor, que cresceu atrás das coxias, vendo shows de viés, dormindo nos camarins, esperando, admirando, aborrecida às vezes, maravilhada às vezes.

Quando ouvíamos novas músicas ela me contava as estórias e histórias que não estavam gravadas. A estória da estória, a história da estória, e divagávamos, curtíamos, aproveitávamos e saboreávamos aqueles fatos. Cresci achando tudo tão normal.

Aqui estou cerca de um ano e meio sem minhas estórias. É a parte que mais sinto falta. Essa semana ouvi uma entrevista na Nacional, um músico falando de outro, nem sabia que eles se conheciam, mas conheço o trabalho dos dois. Nenhum deles me conhece. Nenhum deles faz ideia do quanto sei sobre eles e sobre tantos outros. E pela primeira vez percebi algo óbvio. Os personagens da Dona Bia são reais. Alguns já se foram, mas a maioria está aí. Só que conheci as estórias e histórias deles, se compondo ao longo dos anos, em tantos detalhes, de forma anônima, que sempre os percebi como personagens tão (ir)reais quantos os dos meus livros. Me fizeram companhia mais do que imaginam, sem ter ideia de que eu existo.

Esse pensamento é tão estranho e engraçado. Nunca estranhei saber tantas coisas, sempre foram estórias próximas e ao mesmo tempo distantes, como um livro querido, daqueles que a gente sente falta quando acaba.

A gente brincava que ela ia escrever um livro o “Memórias do Memória”. Eu pedia pra ela escrever, ela dizia que eu é que escreveria, quando ela se aposentasse. Faltaram 20 dias… a aposentadoria nunca chegou, nossas histórias cessaram. Meus livros estão no coração e na estante. Meus personagens, tão amigos, comigo para sempre. E os dela estão por ai. Alguns são amigos de amigos, fico sabendo de outros pedaços das estórias, por tios, primos, amigos e amigas. São pessoas que continuam próximas da minha vida, e que continuam sem ter a menor ideia de que eu existo ou de que já os tive tão próximos como personagens de livros.

Eu queria muito que ela tivesse escrito o tal livro. Poderia ter gravado, anotado e guardado relatos. Mas não o fiz. Era só o meu dia a dia. Foi só o meu dia a dia por vinte e cinco anos. Um quarto de século e pelo menos vinte anos de histórias e estórias. Não, racionalizar emoções já é difícil, imagine perceber cada detalhe em cada dia. Os dias bons e os ruins, os com a paciência curta e os com muita paciência. Não, eu não lembro das estórias, não guardei isso. Só a emoção. A percepção da vida de um forma diferente, criativa, íntima.

Tenho certeza de que nesses momentos de trocas de estórias, a minha amizade com minha mãe surgiu e cresceu. Nessas horas não éramos mãe e filha, não falávamos se estava na hora de escovar os dentes ou se eu tinha feito o dever, se a saúde dela estava boa. Esses eram os outros momentos, quando éramos mãe e filha. Durante as histórias éramos só Bia e Juliana, colecionando histórias.