Sobre Livros: Reflexos de JG

Hoje começa aqui no blog uma nova série de post, incluídas na categoria de Reflexos, na qual vou comentar sobre as leituras que ando fazendo, livros queridos já lidos e autores.

Passei um bom tempo na madrugada pensando sobre o nome da série, pois Reflexos já é uma categoria. Pensei muito sobre as palavras resenha ou crítica, mas elas não cabem aqui. Me explico, a resenha é muito formal, pede um formato de apreciação e informações que não me comprometo a dar, e a crítica pressupõe um nível de conhecimento especializado que também não me arrisco a dizer que possuo. Assim, sobraram os reflexos. Meus textos sobre outras obras, sejam livros, filmes, fotos, são sempre assim, meros reflexos daquelas outras artes. E como todo reflexos, carregam em si a imagem do objeto sobre a qual o reflexo se estende, portanto, aqui, o que escrevo sobre livros é o que esses livros imprimiram em mim.

Vou começar com um post sobre autor, antes de entrar nos livros em si. Um dos autores que me marcou muito na adolescência foi o Jostein Gaarder. O primeiro livro que li dele foi o Ei, tem alguém aí? (1997) que ganhei de presente de aniversário de 13 anos de um grupo de amigos que até hoje permanecem como os meus mais próximos. Esse livro está mais para infantil, ou no máximo infanto-juvenil, mas é uma excelente forma de criar interesse de crianças em filosofia e de começar a trabalhar esse tema.

Como professor de filosofia, Gaarder possui a habilidade de convidar os leitores para reflexões fundamentais da filosofia, transparecendo os conceitos filosóficos sem que eles sejam trabalhados de maneira tradicional, criando uma atmosfera de diálogo professores-alunos estilo grego, onde as perguntas e os questionamentos surgem, por meio dos diálogos de suas personagens, e o leitor é indiretamente convidado a se fazer essas mesmas perguntas e assim a construção do raciocínio filosófico se forma.

Seu livro mais didático, e minha segunda leitura dele é o famoso O Mundo de Sophia (1991), lido no ano que tinha 14, terminando logo antes do meu aniversário de 15. Para quem conhece a história sabe que isso pode ser bem relevante pro quesito empatia leitor-personagem, já que a Sophia é uma menina que está para completar seus 15 anos, e recebe por meio de cartas do pai ausente, aulas de filosofia. Apesar de amar O Mundo de Sophia, acho que dos livros do Gaarder, esse é o que foge ao padrão. Ele mantém o conflito personagem-autor, tão presente em todas as obras dele, mas por trazer as aulas de filosofia, ele se torna um romance-manual. É excelente como introdução à filosofia e recomendo fortemente para trabalhar com adolescentes (ou adultos), mas do ponto de vista da literatura não é minha recomendação número 1 do autor.

Então qual seria minha recomendação número 1? O Dia do Coringa (1990) é para mim o livro mais icônico de Jostein! Nesse livro é possível encontrar todos os traços clássicos do autor: a tênue barreira entre o real e o fantástico, que logo se rompe a favor do fantástico; as referências ao baralho; o mundo lúdico, colorido; as emoções nem um pouco infantis disfarçadas no ambiente lúdico; os questionamentos filosóficos inerentes ao ser humano, em relação ao amor, a criação e a própria existência. A história flui muito bem, prende, a leitura é fácil e o livro não é longo. Além disso, se você é, como eu, uma pessoa de imaginação fértil, vai poder aproveitar algumas das imagens mais lindas que eu já “li” na vida, na forma de pequenos objetos, cores, símbolos, que ficaram na minha mente como tokens, souvenirs, dessa leitura.

Um outro volume de Gaarder que me encantou é Maya (1999). Esse é um dos livros mais densos e de leitura mais trabalhosa do autor. O livro foge do lúdico comum e é bem adulto. Os raciocínios filosóficos são mais densos e intricados e o livro é mais longo. Ainda assim é uma excelente leitura, para quem não se importa com monólogos, personagens solitárias e um ritmo mais lento. As referência ao espírito ou energia do próprio planeta X a criação por Deus fazem o leitor repensar as relações da humanidade com o planeta, indo muito além do questionamento religioso X ateu, e pensando no papel do homem na Terra.

Uma das leituras que gostei muito foi Vita Brevis (1996)! Esse é um dos trabalhos do autor em que é possível ver a forte influencia dos estudos em teologia junto com os filosóficos, além de O Livro das Religiões (1989), escrito em parceria com  Victor Hellern e Henry Notaker. O Livro das Religiões também mistura o estilo novela-manual e é uma ótima introdução ao estudo de diferentes religiões, além de ajudar a compreender como as principais religiões se espalharam pelo mundo, sempre exigindo reflexão do leitor. Já o Vita Brevis possui uma história peculiar enquanto livro, descrita no prefácio. O autor encontrou alguns manuscritos, que diziam ser de Santo Agostinho, na feira de pulgas de San Telmo, em Buenos Aires. Interessado pelo tema, quis comprar, e achando o preço caro, barganhou com o vendedor. Um argumentava sobre a originalidade do manuscrito o outro questionava sua veracidade. No fim concordaram em um preço intermediário e Gaarder saiu do mercado dizendo que ou teria feito a melhor compra de sua vida ou a pior. Em seguida, ele solicitou ao Vaticano autorização para pesquisa e investigação da veracidade do manuscrito, que foram seguidas vezes negados. Após algumas negações, Gaarder optou por escrever uma ficção por trás da história do manuscrito, utilizando esse em meio a sua escrita. O manuscrito (dito de Santo Agostinho) são uma série de cartas, nas quais o autor (?) questiona os relacionamentos humanos, a validade/importância do casamento e o papel ou ausência desse sacramento na vida dos religiosos católicos. Gaarder fez uma edição dessas cartas e criou a correspondente, Flora Emília, que em sua avaliação teria sido a namorada de Agostinho antes que esse tomasse os votos celibatários. Realidade ou ficção, os questionamentos são válidos, e a história de amor construída é bonita, além de ser uma forma de questionar o papel da mulher na religião, e a forma como essa é vista e tratada.

Caso você queira entender o autor, mas não queira ler muitos livros, outra sugestão é O Pássaro Raro (1986), que é o primeiro livro de Gaarder, com vários pequenos contos. Para quem quer ler outros livros dele, sugiro evitar esse, pois o processo se tornará repetitivo. Nesse livro inicial a escrita do autor ainda não estava tão madura, e apesar da leitura ser leve e fácil, os conceitos não são tão bem trabalhados quanto em outros, e, principalmente, o livro é uma espécie de spoiler de toda a sua obra, pois cada pequeno conto pincela uma ideia, que anos depois o autor trabalhou melhor e deram origem a cada um de seus livros mais completos e densos. Então ler o Pássaro Raro é como ler um resumo incipiente de sua obra. Apesar dessa breve crítica, o livro é bem poético, bem mais do que obras futuras, e algumas frases que li ali nunca esqueci, o próprio conceito do Pássaro Raro é lindo!

Poderia me demorar sobre outros títulos aqui, porque tive uma fase Gaardermaníaca, e li quase todos seus livros publicados até 2001 (a fase começou nos anos 2000 e durou uns 2 ou 3 anos). Os publicados a partir de 2003 eu não li, pretendo retomar, mas já não posso comentar sobre esses.

Coloco aqui uma lista de suas obras para quem tiver curiosidade:

Pra terminar uma observação muito besta: enquanto decidia pelo título do post fiquei na dúvida entre Reflexos de Gaarder, Reflexos de Jostein e acabei optando pelo JG. Nesse processo reparei que vários dos meus autores favoritos começam com J: JK Rowling, JJR Tolkien, Jorge Amado, Jostein Gaarder, fica, quem sabe, o incentivo pra um dia eu adicionar a sigla JAR Marra (ou o JuReMa) nas prateleiras do mundo.

 

SP by JuReMa – Cultura

Falar de cultura em São Paulo é fácil e difícil ao mesmo tempo, justamente pela abundância. Até fiquei receosa de nomear meu post assim, mas resolvi manter e me explicar. Pra mim, no estilo SP by JuReMa a parte “Cultura” não se resume a esse post, mas à serie toda! São Paulo é daquelas cidades que você vivencia a cultura desde que esteja lá e de olhos abertos. Não precisa fazer mais nada. Agora está um pouco mais complicado, com os grafites apagados pelo Dória, numa atrocidade cometida contra a cidade. Qualquer um que olhe SP com olhos de verdade pode perceber a importância do grafite e da arte de rua pra cidade. Mas não é só isso, é ver SP não como a selva de pedra, que ela também é, mas como essa cidade viva, que respira, transpira e aspira cultura.

Existem muitas São Paulos, como em toda grande cidade. Caso você só ande de carro, só fique dentro de shoppings e restaurantes famosos, só vá aos museus conhecidos e em condomínios fechados você vai conhecer uma Sampa. Cheia de cultura e atrativos. Mas mais homogênea.

Caso você ande a pé e de transporte público, vai poder apreciar a confluência de estrangeiros, imigrantes, refugiados, migrantes internos, que fazem essa salada cultural que é São Paulo. No Centro e na Paulista essa diversidade fica mais evidente e a Paulista Aberta, aos domingos é uma excelente oportunidade de ver e ouvir muita arte de rua. O Largo do Paissandu, com a Galeria do Rock, Galeria Olido, e a Praça da República também garantem uma vivência única, além da foto tradicional onde a Ipiranga encontra a São João. Essa é menos arrumada, menos cheirosa, e bem menos tradicional que a São Paulo do guia turístico, mas é mais rica em cores, sabores, idiomas e diversidade.

SP tem inúmeras livrarias maravilhosas em shoppings e nas ruas também. Pra quem é de outros lugares é impressionante o investimento feito nas livrarias. Nunca são só lojas. São experiências. Meu destaque máximo é pra Livraria Cultura do Shopping Conjunto Nacional na Paulista. Essa Cultura não é uma loja, é um complexo. Além dos dois andares amplos e cheios de pufes e pessoas lendo, há um auditório, um cinema, uma outra loja Cultura Art, uma Cultura Geek e outros. Muitos excelentes lançamentos de livros são feitos lá, com discussões com os autores, além de outros debates com convidados conhecidos que acontecem no mínimo uma vez por mês. No fim de semana, pela manhã, também ocorrem exibições de filmes independentes ou que estão fora do circuito tradicional, com discussões após a sessão. É um dos lugares que é indispensável acompanhar a programação. De quebra tem uma Ben&Jerry’s ao lado! ❤

Outro que merece destaque é o Cine Itaú do Shopping Frei Caneca. O Itaú possui dois cinemas próximos, um de rua na Augusta, acompanhado (do outro lado da rua) de um espaço cultural, e o do Frei Caneca, que sempre exibem filmes que não estão no mainstream dos outros cinemas, além dos blockbusters de sempre. Destaco o do Shopping Frei Caneca, pois lá ocorrem as exibições extras de filmes com conteúdo social. No sábado pela manhã há a sessão Cine Direitos Humanos, por exemplo. Além disso eles possuem muitas promoções interessantes em horários pouco convencionais, preços especiais para terceira idade e outros do tipo. Também considero indispensável acompanhar a programação. Ano passado fizeram sessões de graça (ingressos limitados e filas grandes para consegui-los) dos documentários que concorreram aos grandes prêmios internacionais, como Oscar e Cannes.

Ainda na sessão filmes, destaco a Galeria Olido, no centro, ao lado da Galeria do Rock. A Olido sempre tem eventos culturais, teatro e cinema. As sessões de cinema são geralmente R$1,00 quando em festivais. Eles promovem festivais alternativos, de cinema de algum local específico, incluindo os festivais Cine Imigrante, Cine Indígena, entre muitos outros. E tem mate com açaí e bauru vegano em frente!

O Centro Cultural São Paulo, mais conhecido como Centro Cultural Vergueiro, também é um espaço imperdível e que vale a pena seguir a programação. Já acompanhei lá exposição com mesas de debate de abertura e encerramento sobre a Questão Palestina, além de exibições de filmes alternativos. O local conta ainda com muito espaço aberto livre (uma raridade em SP) onde muitos grupos se encontram e praticam dança de vários estilos, e só de assistir isso já é um show a parte. Outros grupos ocupam as mesas disponíveis para estudos, aulas, jogos. Além disso há a biblioteca, grande, ampla e iluminada. Quando a claustrofobia da selva de pedra aperta, lá é um bom local pra uma brasiliense espairecer. Ha também exibições de filmes ao ar livre à noite, em algumas épocas do ano.

O Insituto Tomie Otake também merece destaque. Sempre com excelentes exposições, um bom café, e o passeio até a região, que nos fins de semana possui muitas opções de bares a noite, ao redor do Largo do Batata e também ao redor do próprio Tomie Otake.

O Beco do Batman se tornou uma atração, embora oficialmente não seja um instituto nem nada, como o nome diz, é um beco, ou melhor, uma rua, na Vila Madalena, onde muitos grafites adornam a paisagem. O local virou um point, pois a Vila Madalena conta com muitos bares e no carnaval é um dos polos de bloquinhos de rua. Talvez lá o grafite sobreviva.

Um que para mim é um charme é a Casa das Rosas, na Paulista. É um dos últimos casarões da avenida (e da cidade) lá é possível ver as fotos de como era a Paulista no tempo dos casarões e fazer uma visita pela casa (guiada ou não) e perceber como era a vida ali no início da cidade, antes da Paulista virar a avenida dos grandes prédios e centros financeiros.  Além disso conta com um belo jardim (cheio de rosas) onde dá pra tomar um café, trabalhar, ler ou estudar em um local central e tranquilo (combinação um pouco rara na cidade), e à noite há exibições de filmes ao ar livre.

O Teatro Municipal é uma visita obrigatória! O prédio é maravilhoso e permite perceber claramente o que representou a era do café para São Paulo, com todo o dinheiro e importância que a cidade ganhou. A programação conta com opções de música clássica aos domingos pela manhã, que são com valores muito acessíveis (R$9,00, meia estudante R$4,50 e outros valores bem em conta). E ha uma vista linda de uma parte do Centro de lá, especialmente do Viaduto do Chá, que também é ponto turístico tradicional da cidade, cartão postal.

A Sala São Paulo também é imperdível e também inclui conhecer melhor o centro. Possui um ar mais moderno e também oferece opções de música clássica a preços acessíveis em diversos horários, especialmente nos fins de semana pela manhã. Há também a programação normal, com inúmeras atrações ao longo do ano.

Além desses há os centros culturais que também existem em outros estados brasileiros, como o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), Itaú Cultural, Caixa Cultural, que sempre possuem programações muito boas, não vou me delongar sobre eles pois são mais conhecidos, mas é indispensável seguir a programação deles e conhecer os prédios e localidades que também são passeios a parte, especialmente o CCBB e a Caixa que estão no centro.

Existem muitos outros centros culturais em SP e eu realmente recomendo que você procure a programação de cada um deles e descubra os que mais lhe apetecem, para a partir daí segui-los e aproveitar.