Português X Português

Estando no meio da mudança para Portugal, me deparo com esse vídeo que já conhecia, mas que é absolutamente maravilhoso, do Gregório Duvivier conversando com Ricardo Araújo Pereira, ambos conhecidos por serem roteiristas, discutindo a língua portuguesa e suas nuances brasileiras e lusitanas!

É um pouco longo, mas vale a pena!

 

Transmitido ao vivo em 21 de jun de 2017 pela Unibes Cultural
Um Português e um Brasileiro entram num bar – Humor de Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier Experimenta Portugal 2017 Como parte da programação do Experimenta Portugal 2017, o humorista português Ricardo Araujo Pereira e o brasileiro Gregório Duvivier se encontram para um evento imperdível na Unibes Cultural, no dia 21 de junho de 2017, com muito humor, inteligência e a relação cultural entre os dois países.
Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo Pereira nasceu em Lisboa, em 1974. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica, começou a carreira como jornalista no Jornal de Letras. É roteirista desde 1998. Em 2003, com Miguel Góis, Zé Diogo Quintela e Tiago Dores, formou o grupo humorístico Gato Fedorento. Escreve semanalmente na revista Visão e é um dos elementos do programa da TSF Governo Sombra. Assinou, em 2012, a rubrica Mixórdia de Temáticas, na Rádio Comercial. Com a Tinta-da-china, publicou quatro livros de crónicas — Boca do Inferno (2007), Novas Crónicas da Boca do Inferno (2009), A Chama Imensa (2010) e Mixórdia de Temática (2012) —, além de Se não entenderes eu conto de novo, pá (Brasil, 2012). Coordena a Coleção de Clássicos de Literatura de Humor, que integra autores como Charles Dickens, Denis Diderot e Jaroslav Hasek.
Gregório Duvivier
Escritor, ator, roteirista e humorista, o carioca Gregório Duvivier é um dos criadores do coletivo de humor Porta dos Fundos e colunista do jornal Folha de S.Paulo. É autor de livros como “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora”, “Ligue os pontos – Poemas de amor e Big Bang” e “Put Some Farofa”. No cinema, contabiliza participações em mais de duas dezenas de filmes e tem na carreira peças de teatro, roteiros para a TV e séries para a web. Filho da cantora Olivia Byington e do músico Edgar Duvivier, é formado em Letras na PUC-Rio e começou a atuar aos nove anos no curso de teatro Tablado. Aos 17 formou o grupo que faria a peça Z.É., Zenas Emprovisadas, que ficou por seis anos em cartaz e em turnês pelo País. Em 2013 foi escolhido melhor ator do ano pela Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro pela atuação na peça Uma Noite na Lua.

 

Ferrante

Mês passado eu li a Série Napolitana da Helena Ferrante, primeira obra dela que leio. São 4 volumes que me absorveram e consumiram por completo. Ainda tô tentando digerir. Às vezes me pego pensando, me inspirando. De tudo, o que mais queria dizer é, obrigada! De tudo o que mais sou é grata por poder ler tal obra.

Os quatro volumes, que inspiram ares de uma longa saga, não poderiam estar mais distantes de todas as sagas heroicas que li e reli com tanto gosto e afinco na vida, e ao mesmo tempo nunca me senti tão inspirada por uma saga. Ferrante é mulher. Primeiro e acima de tudo! Depois é escritora, de porte e renome, e de uma escrita que só posso definir como verdadeira. Nessa obra, escrita entre 2012 e 2015, Helena nos presenteia com um relato detalhado de sua vida, já de uma perspectiva da autora idosa, podendo assim falar de começo, meio e ares de fim, numa história auto-biográfica com gostinho de auto-ficção.

Depois de terminar os quatro volumes só conseguia pensar, obrigada! Obrigada por me mostrar que ser escritora é mais que ser brilhante. Que a literatura é mais do que as sagas heroicas. Obrigada por ser mulher! Obrigada por me mostrar que ser mulher é viver uma saga heroica, digna de muitos volumes.

O estilo de escrita é ao mesmo tempo delicado, feminino, visceral, sujo, cheio de confissões, revelando medos, paixões e destinos. Helena nos mostra que ela é sim, ao mesmo tempo brilhante e como qualquer uma de nós. Nos mostra que mesmo uma ativista feminista, que escreveu e debateu sobre a situação da mulher ainda nas décadas de 1960 e 1970 na Itália, pode ser vítima de relações abusivas e más escolhas amorosas.

Helena nos mostra que criar filhas e ter uma carreira foçam a mulher a decisões dificílimas, que são tomadas sempre muito sozinha, mas cujos resultados são duramente julgados pela sociedade, pelos homens. Mostra também que “bons” homens não são necessariamente “bons” pais. Que intelectualidade não é sinônimo de inteligência emocional. E que as violências psicológicas impactam tanto a vida quanto às físicas.

Mas Helena mostra também que temos essa força para seguir a vida, a pesar, e por causa de tudo isso. E que as consequências são isso, consequências. Boas ou más é um julgamento individual, dos que conosco convivem e sofrem as bençãos e desgraças dessas consequências.

Ela nos mostra que tentar agradar é falhar. De ante mão! Sempre. E que ser “bem-sucedida” é um conceito tão vazio e vago quanto um pântano cheio de neblina. Família é um conceito abstrato, que se confunde com amizade, origens e empatia. E que ao longo da saga que é a vida de cada um de nós, as mesmas personagens assumem papeis diversos, de heróis à antagonistas, cada qual por sua vez. E aqui a protagonista não é protegida. Não existem os “bons” e os “maus”, existem nós. Todos nós.

Me chocou a violência doméstica estatizada italiana. Que incluí de estupros dentro do casamento à crianças defenestradas em surtos de raiva dos pais. Incluí também violências mais delicadas, como competições entre amigas e irmãs, desde por notas escolares e carreira profissional até namorados, maridos e amantes. A falta de sororidade é proporcional ao nível de violência machista. Acaso? Duvido, e Helena também.

Me choca também o desligamento do conhecimento acadêmico e da elite intelectual com o povo, às necessidades reais da sociedade e capacidade de comunicação bastante desgastada, se é que algum dia ela existiu de fato, entre os grupos. Seja quando ela relata a própria experiência acadêmica e a relação de desaprovação de seu trabalho em comparação inversa com a apreciação do público em geral pelo seu trabalho publicado. Seja entre os militantes partidários de esquerda bem estudados e os trabalhadores sofrendo as violências diárias nas fábricas. Seja entre o discurso do “bom moço” e suas ações práticas no trato com as mulheres.

Então, o que aprendi com Helena é que a vida é uma saga onde ninguém é herói, onde alguns conseguem tudo com pouco esforço, por nascimento ou influência e outros perdem sistematicamente tudo o que conseguem com muito esforço. Mas que no final, nem isso importa. Que se queremos algo devemos fazer nós mesmos, e que família são os amigos que construímos no caminho, assim mesmo dadas proporções. E que em meio a toda essa vasta solidão, basta amarmos a nós mesmas e seguir confiante. O não já temos, então por que tanto medo de tentar o sim?

Obrigada, Helena!

 

Atwood e as Handmaids

Eu comecei The Handmaid’s Tale por causa da série, que está em destaque e comecei a ver referências na minha timeline do facebook o tempo todo. Li em menos de uma semana. Devorei! Recomendo fortemente o livro, que é de 1985, um ano mais velho que eu e tão atual como nunca, infelizmente. Geralmente sou um pouco cética com livros que bombam por causa de filmes, séries, adaptações, visibilidade midiática, porque muitas vezes é feito um marketing em cima da história apenas para que a versão mais vendável e “palatável”, geralmente a visual, ganhe destaque.

Vejo isso acontecer com muitos best-sellers e por isso desanimo um pouco da leitura quando há muito bafafá sobre os subprodutos de um livro. Há, claro, exceções. As Crônicas de Gelo e Fogo, do Geroge Martin, eu só descobri graças à série, Game of Thrones, e devorei rapidamente os 5 livros disponíveis antes mesmo de terminar de assistir à primeira temporada da série. Gosto muito de ambos, livros e séries. Outras adaptações ficaram muito famosas também, como as do Tolkien, Senhor dos Anéis e O Hobbit, e as da J.K. Rowling, com Harry Potter. Não sou contra adaptações, aliás, gosto muito de observar e comparar. Apenas acho que muitas vezes a atenção dada pela mídia é apenas promoção, marketing.

Dessa vez o que me fez ir conferir o livro foi o fato dele ser recomendado pela Emma Watson (eternamente a Hermione), que possui um clube de leitura feminista do Goodreads e eu resolvi ir conhecer.

Atwood é maravilhosa. O livro me surpreendeu muito. Atwood escreve de uma forma muito feminina, descrevendo a percepção de detalhes ínfimos, como as cortinas ou uma almofada, por linhas sem fim. Mas isso não se deve apenas ao detalhismo, ou excesso de descrição, muito pelo contrário. O efeito da descrição demorada é passar para o leitor a ansiedade da espera a qual a personagem é submetida diariamente na sua vida. Conforme a narrativa se desenvolve as descrições lentas vão abrindo espaço para descrições brutas, às vezes beirando o escatológico (algo que me agrada muito para quebrar com a visão feminina equivalente a delicadeza), e a exposição à brutalidade é também uma forma de gerar no leitor a repulsa sentida pela personagem, bem como sua indiferença em outros momentos.

Assim, para todas as leitoras, existe uma identificação que vai além da mera empatia para com a personagem. Ela é uma mulher. Ela é qualquer mulher. Ela é todas as mulheres. Nesse brilhantismo, Atwood discorre usando uma distopia (cada vez mais próxima da realidade, infelizmente) para agudizar todas as brutalidades sofridas pela mulher na sociedade.

Não vou dar spoilers, mas recomendo o livro. A temática, do ponto de vista político é absurdamente necessária nesse momento, e o estilo é arrebatador, justamente pela proximidade que trás das personagens, com todas e todos nós. Nesse livro não há monstros e heróis, há pessoas, humanos, cheios de defeitos, subprodutos do sistema, cada um com seus vícios, sofrimentos, solidões, ânsias, desejos e penúrias. As consequências são sim monstruosas, mas a forma de mostrá-las, todas as personagens tão humanas, nos faz pensar menos num mundo de Batmans e Mulheres Maravilhas, e mais no nosso mundo.

Mulheres, fiquem atentas! Não podemos ceder nos nossos direitos! Homens, leiam, e façam a reflexão. Pensem nessa narrativa dessa forma humana e imagine seu papel na narrativa que queremos construir nesse mundo.

Recomendo dois textos, mas já advirto que há **spoiler** em ambos!

Tive o prazer de terminar de ler The Handmaid’s Tale no Dia do Canadá e me deparei com esse perfil feito pelo The New Yorker da Atwood, e achei brilhante. É um texto longo, mas dá pra conhecer mais sobre a autora!

Depois me deparei com esse texto da Boitempo, The Handmaid’s Tale: um aviso de incêndio para o cenário político atual, que também me colocou para pensar! Ficam aqui então as sugestões de leituras!

Deixem comentários com suas percepções! Nolite te bastardes carborundorum!

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Sobre Livros: Reflexos de JG

Hoje começa aqui no blog uma nova série de post, incluídas na categoria de Reflexos, na qual vou comentar sobre as leituras que ando fazendo, livros queridos já lidos e autores.

Passei um bom tempo na madrugada pensando sobre o nome da série, pois Reflexos já é uma categoria. Pensei muito sobre as palavras resenha ou crítica, mas elas não cabem aqui. Me explico, a resenha é muito formal, pede um formato de apreciação e informações que não me comprometo a dar, e a crítica pressupõe um nível de conhecimento especializado que também não me arrisco a dizer que possuo. Assim, sobraram os reflexos. Meus textos sobre outras obras, sejam livros, filmes, fotos, são sempre assim, meros reflexos daquelas outras artes. E como todo reflexos, carregam em si a imagem do objeto sobre a qual o reflexo se estende, portanto, aqui, o que escrevo sobre livros é o que esses livros imprimiram em mim.

Vou começar com um post sobre autor, antes de entrar nos livros em si. Um dos autores que me marcou muito na adolescência foi o Jostein Gaarder. O primeiro livro que li dele foi o Ei, tem alguém aí? (1997) que ganhei de presente de aniversário de 13 anos de um grupo de amigos que até hoje permanecem como os meus mais próximos. Esse livro está mais para infantil, ou no máximo infanto-juvenil, mas é uma excelente forma de criar interesse de crianças em filosofia e de começar a trabalhar esse tema.

Como professor de filosofia, Gaarder possui a habilidade de convidar os leitores para reflexões fundamentais da filosofia, transparecendo os conceitos filosóficos sem que eles sejam trabalhados de maneira tradicional, criando uma atmosfera de diálogo professores-alunos estilo grego, onde as perguntas e os questionamentos surgem, por meio dos diálogos de suas personagens, e o leitor é indiretamente convidado a se fazer essas mesmas perguntas e assim a construção do raciocínio filosófico se forma.

Seu livro mais didático, e minha segunda leitura dele é o famoso O Mundo de Sophia (1991), lido no ano que tinha 14, terminando logo antes do meu aniversário de 15. Para quem conhece a história sabe que isso pode ser bem relevante pro quesito empatia leitor-personagem, já que a Sophia é uma menina que está para completar seus 15 anos, e recebe por meio de cartas do pai ausente, aulas de filosofia. Apesar de amar O Mundo de Sophia, acho que dos livros do Gaarder, esse é o que foge ao padrão. Ele mantém o conflito personagem-autor, tão presente em todas as obras dele, mas por trazer as aulas de filosofia, ele se torna um romance-manual. É excelente como introdução à filosofia e recomendo fortemente para trabalhar com adolescentes (ou adultos), mas do ponto de vista da literatura não é minha recomendação número 1 do autor.

Então qual seria minha recomendação número 1? O Dia do Coringa (1990) é para mim o livro mais icônico de Jostein! Nesse livro é possível encontrar todos os traços clássicos do autor: a tênue barreira entre o real e o fantástico, que logo se rompe a favor do fantástico; as referências ao baralho; o mundo lúdico, colorido; as emoções nem um pouco infantis disfarçadas no ambiente lúdico; os questionamentos filosóficos inerentes ao ser humano, em relação ao amor, a criação e a própria existência. A história flui muito bem, prende, a leitura é fácil e o livro não é longo. Além disso, se você é, como eu, uma pessoa de imaginação fértil, vai poder aproveitar algumas das imagens mais lindas que eu já “li” na vida, na forma de pequenos objetos, cores, símbolos, que ficaram na minha mente como tokens, souvenirs, dessa leitura.

Um outro volume de Gaarder que me encantou é Maya (1999). Esse é um dos livros mais densos e de leitura mais trabalhosa do autor. O livro foge do lúdico comum e é bem adulto. Os raciocínios filosóficos são mais densos e intricados e o livro é mais longo. Ainda assim é uma excelente leitura, para quem não se importa com monólogos, personagens solitárias e um ritmo mais lento. As referência ao espírito ou energia do próprio planeta X a criação por Deus fazem o leitor repensar as relações da humanidade com o planeta, indo muito além do questionamento religioso X ateu, e pensando no papel do homem na Terra.

Uma das leituras que gostei muito foi Vita Brevis (1996)! Esse é um dos trabalhos do autor em que é possível ver a forte influencia dos estudos em teologia junto com os filosóficos, além de O Livro das Religiões (1989), escrito em parceria com  Victor Hellern e Henry Notaker. O Livro das Religiões também mistura o estilo novela-manual e é uma ótima introdução ao estudo de diferentes religiões, além de ajudar a compreender como as principais religiões se espalharam pelo mundo, sempre exigindo reflexão do leitor. Já o Vita Brevis possui uma história peculiar enquanto livro, descrita no prefácio. O autor encontrou alguns manuscritos, que diziam ser de Santo Agostinho, na feira de pulgas de San Telmo, em Buenos Aires. Interessado pelo tema, quis comprar, e achando o preço caro, barganhou com o vendedor. Um argumentava sobre a originalidade do manuscrito o outro questionava sua veracidade. No fim concordaram em um preço intermediário e Gaarder saiu do mercado dizendo que ou teria feito a melhor compra de sua vida ou a pior. Em seguida, ele solicitou ao Vaticano autorização para pesquisa e investigação da veracidade do manuscrito, que foram seguidas vezes negados. Após algumas negações, Gaarder optou por escrever uma ficção por trás da história do manuscrito, utilizando esse em meio a sua escrita. O manuscrito (dito de Santo Agostinho) são uma série de cartas, nas quais o autor (?) questiona os relacionamentos humanos, a validade/importância do casamento e o papel ou ausência desse sacramento na vida dos religiosos católicos. Gaarder fez uma edição dessas cartas e criou a correspondente, Flora Emília, que em sua avaliação teria sido a namorada de Agostinho antes que esse tomasse os votos celibatários. Realidade ou ficção, os questionamentos são válidos, e a história de amor construída é bonita, além de ser uma forma de questionar o papel da mulher na religião, e a forma como essa é vista e tratada.

Caso você queira entender o autor, mas não queira ler muitos livros, outra sugestão é O Pássaro Raro (1986), que é o primeiro livro de Gaarder, com vários pequenos contos. Para quem quer ler outros livros dele, sugiro evitar esse, pois o processo se tornará repetitivo. Nesse livro inicial a escrita do autor ainda não estava tão madura, e apesar da leitura ser leve e fácil, os conceitos não são tão bem trabalhados quanto em outros, e, principalmente, o livro é uma espécie de spoiler de toda a sua obra, pois cada pequeno conto pincela uma ideia, que anos depois o autor trabalhou melhor e deram origem a cada um de seus livros mais completos e densos. Então ler o Pássaro Raro é como ler um resumo incipiente de sua obra. Apesar dessa breve crítica, o livro é bem poético, bem mais do que obras futuras, e algumas frases que li ali nunca esqueci, o próprio conceito do Pássaro Raro é lindo!

Poderia me demorar sobre outros títulos aqui, porque tive uma fase Gaardermaníaca, e li quase todos seus livros publicados até 2001 (a fase começou nos anos 2000 e durou uns 2 ou 3 anos). Os publicados a partir de 2003 eu não li, pretendo retomar, mas já não posso comentar sobre esses.

Coloco aqui uma lista de suas obras para quem tiver curiosidade:

Pra terminar uma observação muito besta: enquanto decidia pelo título do post fiquei na dúvida entre Reflexos de Gaarder, Reflexos de Jostein e acabei optando pelo JG. Nesse processo reparei que vários dos meus autores favoritos começam com J: JK Rowling, JJR Tolkien, Jorge Amado, Jostein Gaarder, fica, quem sabe, o incentivo pra um dia eu adicionar a sigla JAR Marra (ou o JuReMa) nas prateleiras do mundo.

 

Vamos ler, meu povo, que é bom demais! 

Eu sinceramente não consigo entender como esse post não nasceu antes. Minha única forma de explicar é que realmente não estava com a cabeça no lugar o suficiente. Mas antes tarde do que nunca, vamos lá.

Eu cresci com livros. Eles sempre foram meus melhores amigos, companheiros de todas as horas. Na minha casa o hábito da TV nunca foi forte. Eu já tinha muitos livros infantis e gibis da Turma da Mônica desde muito antes de aprender a ler. O processo de alfabetização veio de casa, antes da escola, e foi todo na base dos gibis. A primeira coisa que eu li totalmente sozinha foi uma história curta, dessas de uma página, do Dudu, num gibi da Magali. Nessa mesma época minha mãe tinha começado a ler Monteiro Lobato pra mim antes de dormir, e começamos por Reinações de Narizinho. Ela leu cerca de 1/3 do livro pra mim, e depois eu lia em voz alta pra ela. Começamos com aquele dedinho de criança, acompanhando linha por linha, ela me ajudando com as palavras grandes, as trocas de sílabas e no terço final eu já lia por conta, ela de frente pra mim.

Desde de Narizinho e dos inúmeros gibis, eu caí com gosto no mundo dos livros! Lá em casa, quando alguém reclamava de estar a toa, ou não ter o que fazer, a resposta era sempre a mesma: “Vai ler um livro!”. O mágico é que os livros nunca acabavam. Tínhamos todos estantes enormes, de muitas e muitas prateleiras em nossos quartos, cheia dos livros pessoais. Além disso, meus avós tinham uma biblioteca imponente, numa estante de prateleiras muito grossas, embutidas na parede, coroada por uma gigantesca enciclopédia britânica, encapada em couro claro, cada volume marcado por um numeral romano em tom dourado na lateral. Essa visão da enciclopédia, era para mim, a coisa mais simbólica do conhecimento máximo a ser atingido. Eu lidava com aqueles livros grandes e pesados, numa língua ainda desconhecida, com a reverência que nunca vi por livros religiosos na minha casa.

Eu tive as minhas versões de enciclopédia, enquanto crescia. Minha mãe e meu tio Guila colecionavam pra mim os fascículos das enciclopédias da Folha, e assim tive a Folha Ilustrada, que comprávamos na banca, outra em dois volumes, com história do mundo, uma edição de mapas com as guerras, e outras do tipo. Isso, meus caros, era como vivíamos na era pré-internet. O primeiro computador chegou lá em casa quando eu já tinha uns 10 anos e pra digitar era direto no MS-DOS (alguém aqui ainda sabe o que é isso?). Lembro quando instalamos o primeiro Windows, e o computador ficou colorido e “bonitinho”. Conexão com a internet veio anos depois, primeiro discada e lenta. Pesquisa na internet fui fazer só no ensino médio. E rapidamente os trabalhos se tornaram digitados. Foi uma senhora transição.

Que fique bem claro, eu sou hoje em dia uma aficionada pela internet e acabo passando a maior parte do dia no computador. Trabalho pela internet, assisto filmes e seriados, jogo, escrevo, enfim, vivo uma vida on-line bem intensa. Até mesmo os livros hoje em dia, com a vida nômade, opto por baixar versões digitais e ler no computador ou tablet. Parece uma outra vida, quando lembro das minhas enciclopédias em fascículos!

Nos últimos anos eu acabei, como a maioria das pessoas que eu conheço, me tornando mais viciada em internet. O celular, com todos os apps, e a possibilidade de estar sempre conectada, e muitas vezes a “necessidade” de estar conectada, criada pelas relações sociais de hoje em dia, sejam profissionais ou pessoais, fez com que meu ritmo de leitura caísse muito.

Quando era mais nova, lembro bem da ânsia por ler, em como eu contabilizava todos os livros que tinha lido no ano. Livros enormes, sagas, trilogias, sequências. Livros de autores de diversas partes. Eu amava fazer minhas análises dos livros, discuti-los com familiares e amigos, dividir leituras. Muitas vezes comprava as trilogias ou séries em parceria com minha prima Carol, cada uma bancava ou pedia pros pais um dos volumes, e íamos lendo, compartilhando. Li livros velhos, livros dos meus avós, foi um marco quando a biblioteca deles se abriu pra mim e consideraram que eu já tinha idade pra explorá-la como quisesse. O primeiro foi por indicação da minha mãe, Dom Casmurro. Meu primeiro livro “de adulto”. Logo desembestei, lia Gabriel Garcia Marques e Jorge Amado como se não houvesse amanhã. Me impressionei bastante com Cândida Erêndida e Capitães da Areia. Em vez de Lolita, minhas noções de sexo vieram dessa literatura crua, e as poucos fui desenvolvendo um gosto louco por ler cada vez mais.

Harry Potter, Senhor dos Anéis, O Hobbit, Silmarillion, Musashi, e um pouco mais tarde as diversas sagas do Bernard Cornwell, como as Crônicas de Arthur, e depois o Sharp, me encantaram loucamente. Sempre amei os mundos fantásticos. Mas ou mesmo tempo fui fisgada pela literatura social, e com Carandiru, do Varella, e Esmeralda, porque não dancei? fui me habituando a ler sobre outros temas, e criar uma visão crítica de mundo.

Os volumes foram tantos, que aos 18 já tinha minha mini-biblioteca, quase tão grande como a dos meus avós, mesmo considerando que muitos eram trocados. Frequentei bibliotecas diversas, e tive uma fase de ler todos os Sci-Fi do Lundum na biblioteca da escola de inglês. Austen e as irmãs Bronte vieram também, e depois Dickens me ganhou o coração! Li muitos clássicos da literatura, brasileira e mundial, alguns obrigatórios na escola, mas a maioria por gosto e curtição.

Aí veio a faculdade e a falta de tempo, e a necessidade de ler por obrigação e comecei a ler por gosto cada vez menos. De mais de 30 livros por ano, passei pra 3! Ainda assim mantive a curiosidade. Li muita literatura de consumo rápido nesse período, para compensar a densidade dos estudos. Best-sellers, livros comentados por muita gente. Depois, quando saí da faculdade, tive uns tempos difíceis, as emoções não andavam boas e foi um período de muita televisão.

Sim, a TV anestesia a mente, e o luto agradece. Antes desse período não tinha hábito de ver séries. Nem Friends, que acompanhou a adolescência, ou Gilmore Girls, eram seriados que eu via sistematicamente, só quando por acaso estavam passando quando eu ligasse a TV. Nesse período comecei a assistir acompanhando, na ordem. Até porque, com a internet, isso ficou mais fácil. Depender das TVs por assinatura, com mil repetições dos mesmo episódios e semanas entre eles era uma fase bem difícil e obscura para os apaixonados por séries.

A literatura foi voltando tímida pra minha vida. E um ponto chave, foi quando comecei a escrever. Comecei esse diário antes do blog, em arquivos esparsos no meu computador. Com o tempo fui organizando e criando coragem para colocar tudo aqui. Nessa época, descobri o gênero “auto-ficção”, termo ainda hoje pouco conhecido, e difícil de classificar. Acabei lendo coisas “classificadas” assim, e outras que não tinham a classificação, mas, na minha humilde opinião, o eram. Me debrucei sobre Munro, e li mulheres sistematicamente. Brum, Saavedra, Falção,Torres, reli Lispector, reli Meireles. Assim nasceram meus primeiros textos da menina. Depois fui abandonando o eu-lírico de terceira pessoa e comecei a escrever como se conversasse com os possíveis leitores.

Voltei pra academia, mestrado, e surgiu uma nova fase triste da literatura na minha vida. Li muito pouco. Essa coisa de estudar textos densos me afasta da leitura por gosto. Além disso, a ansiedade, e mil outros sentimentos negativos que me acometeram nessa experiência acadêmica, me fizeram viciar fortemente na internet. Ficar 2h por dia ou mais vendo bobagens, de vídeos de gatinho a receitas on-line que eu nunca iria fazer.

Ganhei o Walden pouco antes de entrar no mestrado, li os primeiros capítulos, ele acabou ficando na espera! Que triste isso! Nos últimos meses, passados 2 anos e meio dessa espera, resolvi voltar, com afinco. Entrei por um convite maravilhoso para um grupo de leitura de literatura brasileira e estou tendo o prazer de reler os nossos clássicos, além de alguns outros que não conhecia antes. Também retomei meu projeto leia mulheres e estou com algumas na lista, Ana Maria Gonçalves, Elena Ferrante, Margaret Atwood. E o Walden tá quase acabando, finalmente!

Com a volta desse hábito lindo na minha vida diminuí muito o tempo de internet. E estar vivendo numa cidade pequena, sem conexão no celular fora da wi-fi, acampando muito, passando dias na montanha e na estrada, têm sido fundamental para rever esse hábito. Agora que já estou bastante envolvida com os livros de novo, às vezes venho ao computador, conferir uma data, um fato, outros livros do mesmo autor, e não tenho mais vontade de ler todas as noticias do dia, atualizar todas as mídias sociais, ou responder todas as mensagens. Passou! Faço o que vim fazer, abaixo a tela e volto pro meu livro. E é tão bom!

Aceito sugestões de leituras nos comentários! Ando querendo voltar pros mais de 30 livros/ano! E caso queiram, posso dar umas listas com indicações também! Vamos ler, meu povo, que é bom demais!

 

X Jocs Florals

Na semana passada, aconteceu aqui em La Seu D’Urgell a 10ª edição dos Jogos Florais (ou X Jocs Florals). Os Jogos Florais acompanham o dia de Sant Jordi (dia de São Jorge), que foi comemorado no domingo mesmo, e na segunda-feira seguinte, realizaram a cerimônia de premiação dos jogos. Esse evento é um dos mais famosos da cidade, e ainda que a cidade seja pequena, atraiu muita gente. Os Jogos Florais são uma competição literária, que acontece por várias partes da Europa, em especial a Espanha e a França. Aconteciam em Occitane, quando esse era falado, e tanto na França quanto na Espanha, acontecem em catalão nas regiões onde esse é o idioma cotidiano.

Além de enaltecer a literatura local, os Jogos têm o intuito de estimular e preservar a língua catalã, tornando-se, por isso, bastante importante para seus falantes. Em La Seu, esse foi o décimo ano dos Jogos e a cidade estava ainda mais animada. A Escola de  Formação de Adultos e Idiomas Oficial de La Seu – CFA La Seu, promove os Jogos e é lá que estudamos catalão.

Em março, quando eu e o André estávamos estudando essa língua há apenas 3 meses, nossa professora, Marta, nos convidou para participar, pois nessa décima edição incluíram uma categoria para iniciantes. OS Jocs Florals contam com 5 categorias: Englantina (relatos de até 3 páginas), Flor Natural (Poesia), Grandalla (Foto seguida de um título/comentário), Rosa (iniciantes) e Viola (micro contos, contos de cerca de 10 linhas). As categorias Grandalla e Rosa foram novidade.

No início estávamos bastante reticentes com a ideia de participar, pois mesmo considerando que a categoria é para iniciantes, estávamos estudando há apenas 3 meses, e a pouco mais que isso na cidade. Alguns dos nosso colegas já estão aqui há anos, ainda que estejam no nível inicial da língua catalã, uma vez que também é possível se comunicar em castelhano. Mas nossa professora insistiu, e acabamos enviando textos.

Cerca de um mês se passou, e então veio o dia da premiação. O espaço, uma antiga igreja, hoje um centro cívico e auditório, estava muito bonito, e chegamos cedo. Encontramos alguns colegas, alguns amigos da cidade e todo o evento começou. A diretora da escola e outros professores apresentaram, o prefeito teve sua fala, e uma convidada, doutora em língua catalã também. Comentaram as edições anteriores, o significado dos Jogos para a cidade e para o idioma. Trechos de poesia e literatura catalã famosos foram lidos, enfim, tudo conforme manda o figurino de um evento desse tipo.

Por fim, começaram a chamar as premiações, e faziam da seguinte forma, apresentavam um pequeno trecho do texto, e depois falavam o título e nome do autor, em seguida convidando-o para o palco e premiando-o. Cada categoria premiou 3 textos, menos a Englantina, que contemplou 4 ganhadores. OS prêmios de acesso e o primeiro prêmio. Aplaudíamos a cada nome revelado e estávamos bastante tranquilos.

Até a categoria Rosa começar. Revelaram o último prêmio acesso (equivalente ao 3º lugar), aplaudimos uma colega da outra classe. E aí, eis que reconheci na tela, desde a primeira palavra, o texto do André. Antes mesmo do nome ser revelado, eu já estava aplaudindo. Segundo prêmio acesso (2º lugar) na categoria Rosa. Fiquei emocionada e orgulhosa. Me imaginei da platéia tirando fotos dele! E antes mesmo que eu pudesse pensar nessas tais fotos ou em alcançar o celular, mudaram a tela, e li as primeiras frases do meu texto lá. Assim, na frente de todo mundo.

Pode parecer bem besta, pra quem tem um blog, ter vergonha de ver seu texto à mostra daquele jeito, mas confesso que mesmo depois de 3 anos de blog, cada publicar que eu clico vem com um frio na barriga! E ver aquela exposição pessoalmente foi um senhor desafio! Daqui eu sei que algumas pessoas me leem, mas eu não tô vendo vocês fazendo isso!

Fui receber meu prêmio, 1º lugar da categoria Rosa. Tiramos as devidas fotos oficiais. E voltei a me sentar com o coração disparado! Assistimos às demais premiações e ao final , chamaram todos os que inscreveram textos, em todas as categorias, para receber um pequeno vaso de flor (afinal, Jocs Florals, né) e tirar uma foto coletiva. Nesse ponto tive mais uma surpresa, pois logo na primeira categoria, Englantina (de relatos mais longos), me chamaram como participante. Eita! Descobri que meu texto concorreu também na outra categoria (a séria! hahahaha). De novo um disparada de batimentos, mas logo o palco encheu de gente, e eu fiquei “escondida” e mais tranquila, na multidão. Via o rosto do André lá do outro lado do palco e só pensava: “em que a gente se meteu?!”

Para encerar ouvimos a apresentação do coral local, do qual nossa professora faz parte, e foi muito bonito, e compartilhamos uns petiscos com os presentes. Voltamos pra casa incrédulos, e fomos revirar nossos prêmios, muito bons. Alguns livros, livreto do evento com os textos, o prêmio do André: duas entradas para um show de comédia, e o meu: um jantar para dois no restaurante do hotel chique local.

Ainda estamos processando. Mas a melhor parte foi ver nossa professora feliz. Me identifiquei. Agora quero poder compartilhar esse momento com meus alunos e ex(eternos)alunos. Se arrisquem! Mesmo em outro idioma! Faz um bem danado! A gente cresce, evolui, aprende! E a questão não é ganhar, mas o tempo que a gente dedicou, traduzindo, procurando palavras, corrigindo com a professora, percebendo que fizemos traduções literais e surreais de expressões em português, buscando entender como poderíamos fazer essas mesmas manobras no outro idioma.

Além da experiência de se sentir parte da comunidade local, conhecer uma tradição da cidade e fazer parte dela. Viver fora é também abraçar essas coisas, por menores ou maiores que sejam. E descobrir nos detalhes, nossas paixões.

Vou copiar os textos em catalão mesmo aqui, usem o tradutor ou mandem mensagens em caso de dúvidas!

Ambos são ficções. O do André ao estilo dele, com humor, sarcasmo e ironia. O meu, bem, como reminiscências “da menina”, histórias de Alice, de Clarice, histórias de mulher, de detalhes da vida cotidiana, de diário, de blog!

 

La cua i el drac 

André Pereira Paduan

Beowulf esperava el seu torn per ser atès, tiquet de tanda en mà. Els números avançaven, un per un, en una lentitud més aterridora que quasevol dels monstres amb què mai s’havia enfrontat. El futur en el qual de cop i volta havia despertat era molt diferent del seu temps primerenc, a la mateixa terra, mil·lennis abans. Tot eren regles, ordres i papers, molts papers. Va haver de canviar el seu mantell de pell per un abric sintètic, degut a la pressió dels defensors dels drets animals. Va haver de deixar la seva espasa i el seu escut perquè no tenia una llicència d’ús. I va haver de fer-se la documentacció perquè presentar-se com el rei de Gautas ja no era suficient o adequat. Trobava a faltar enfrontar-se a dracs i beure cervesa amb els seus soldats. Però, sobretot, sobretot, trobava a faltar no haver de fer cua.

 

El blog de la dona de ells molt bons ulls

Juliana de Almeida Reis Marra

Es van casar fa molt poc temps. El festeig havia estat molt curt. Es van conèixer en un viatge. Aviat van estar junts. S’estimaven molt. Ell era molt tranquil, no bevia, no fumava, no sortia. A l’inici, tots dos eren feliços amb poc, una pel·lícula, crispetes de blat de moro, un gos en un coixí, una xocolata compartida. Tots dos passaven molt de temps a l’ordinador. Treballaven amb l’internet. Llargues hores junts, però separats. Només el so ràpid de les tecles, d’ambdós costats. Feien passejades, viatges curts, campaments. Plaers petits i barats de la vida. Un gelat. Un posta del sol. Parlaven molt, i els temes de conversa fluien molt bé, i tot semblava tan correcte i tan simple, que no semblava real.

Un dia, a la recerca de noves lectures a Internet, ell es va trobar amb un blog fantàstic! Era el diari d’una dona aventurera. La forma descrivia el seu dia a dia el va fer somiar! A poc a poc la dona es va mostrar molt forta, independent, valenta, audaç, interessant, plena d’opinions polítiques, històries, viatges. Que increïble seria veure la seva vida! Semblava tan simple, però tan impressionant! El meravellós que seria viure la vida d’aquesta dona!

Ell va començar a somiar amb les aventures increïbles del blog i es va anar distanciant de la seva dona. Va començar a buscar a la seva pròpria vida aquestes petits coses emocionant, tot era tan bonic, però simple. On eren aquestes increïbles emocions que llegia al blog?

Un dia, sense poder-se aguantar més, va dir a la seva dona que necessitava parlar. No li havia dit res encara, però estava inquiet i necessitava saber l’autor misteriós, que amb simples paraules havia guanyat el seu cor. Ell mai l’havia vist, però l’admirava molt. Encara estimava la seva dona, però les llargues hores a l’ordinador no podien competir amb les meravelles que es descrivien al blog.

Ell va advertir-la que volia tenir una conversa seriosa, ella li va demanar uns minuts per acabar un text, feina que la va ocupar durant hores. Es va posar dreta darrere d’ella, i va llegir de dalt a baix el que estava escrivint.

En acabar, una mica espantat, ella li va preguntar a què es referia, de què volia parlar. Només li va prendre la mà i se’n van anar a menjar un gelat. Per el camí li va dir el molt que l’estimava i que mai havia conegut a ningú que veiés la vida amb tan bons ulls!

 

Consciência

Muito já falei aqui sobre o distanciamento que minha forma de viver gera com as pessoas em geral. São muitos itens, o vegetarianismo, o fato de não beber, o amor pela natureza, pelas viagens, a forma de encarar o mundo e as relações humanas. Tudo isso pode parecer muito interessante para uma breve descrição de bio em um blog ou perfil de rede social, mas na hora da convivência intensa, são outros 500.

Dei a sorte de encontrar pra dividir o dia-a-dia alguém que entende quase todas as minhas loucuras e aceita as que não entende e vice-versa, eu com as dele. Mas não é tão simples. Conheço vegetarianos que amam beber, balada e aí temos alguns pontos de ligação e outros não. Conheço pessoas que não bebem e não são de balada, mas que são a favor de uma vida mais estável, com empregos fixos, horários de lazer restritos, e consumos mais altos. Conheço pessoas que gostam de viajar, mas que gostam de outro tipo de viagem, mais urbana, mais confortável, mais turística. Conheço pessoas que amam a natureza, mas que também assistem muita TV e estão sempre prontas para comentar a novela ou a última fofoca, seja política ou ficcional (algo muito difícil de distinguir atualmente, especialmente no Brasil).

E veja bem, em nenhum momento eu estou criticando nenhuma dessas características. Nem exaltando nenhuma delas. Apenas comentando como sou, como vivo e como cada vez mais, os pontos em comum, ficam difíceis, raros, na convivência mais próxima. Para um encontrinho rápido, para rever amigos antigos, ou pessoas que estão longe, é ótimo. Sempre tenho do que falar e gosto de ouvir. Mas para a convivência é mais complicado. Muito disso eu já comentei no post Sonhos e aprendizado no qual cito também alguns filmes e livros, que comentam essa distância.

E atualmente tenho me sentido muito paralisada, nessa distância. Com muita dificuldade de seguir escrevendo meu mestrado, de seguir correndo atrás da burocracia, enfim, as coisas parecem muito difíceis, e não é por falta de esforço pessoal, é porque com o tempo vou percebendo os mecanismos, e como o mundo é feito, em cada coisa, para que nos encaixemos nele e não o contrário. Fechando oportunidades, com cara de quem abre portas, dando prêmios de superação, pra quem abaixou a cabeça e acatou o sistema, em vez de se superar de fato. E tantas outras coisas que são na verdade perceber que no mundo, tudo é como a salsicha, você não comeria (compraria, viveria, etc) caso soubesse como é feita. E conforme vou descobrindo, ganhando consciência, também vou me sentindo mais apática, mais desanimada, desestimulada.

Estou aqui nesse dilema, sofrendo as dores do mundo, de forma até clichê, e ao mesmo tempo me sentindo bem idiota pela incapacidade de reação. E aí, para distrair, eis que me deparo com esse vídeo Notes from de Underground, e me senti menos estranha ao mundo. O livro, Notas de Subsolo, do Dostoiévski, ganhei há muitos anos do meu irmão, fã de carteirinha do autor russo, e gostei muito da leitura. Mas nos últimos meses descobri o Wisecrack e as análises literárias em thug style dele, que me fazem rir muito, e ao ver que ele tinha analisado Notas de Subsolo, resolvi checar e me surpreendi em perceber como estão alinhadas com essa minha paralisia. Estou sofrendo dessa falta de saber como agir e se agir ou não derivada de perceber demais os problemas do mundo.

Então agora vem as decisões difíceis de fato: ignorar um pouco dos problemas do mundo, e “comer a salsicha” assim mesmo? Ou seja, terminar minhas atividades, mesmo sabendo que não são mais meu sonho e que ele ficou manchado? Desistir e seguir outros caminhos, mesmo sabendo que eventualmente posso descobrir como essas novas salsichas são feitas? Ou descobrir uma nova fonte de energia, para concluir os desafios apesar das desilusões? E como encontrar essa energia, esse ânimo?

Tendo a optar pelas últimas e espero conseguir. Perceber minha apatia foi o começo. E agradeço ao Dostoiévski mais uma vez.

Gypsy Heart

Meu coração é nômade e esse assunto não é novidade já existem alguns posts com a temática. Mas eis que agora me vejo novamente numa casa nova, numa cidade nova e dessa vez num país novo. Então resolvi escrever de forma um pouco mais pragmática contando sobre minhas mudanças e meu gypsy heart!

A caneca na minha mão é a mesma: NYU Sister! Ganhei do meu primo-irmão e essa já é minha quarta casa com ela! O chá varia o sabor. A vista muda bastante e até mesmo a família. Aliás, essa varia mais do que eu teria imaginado na minha vida.

Aos 15 anos fui para Rapid City, South Dakota, num intercâmbio de verão. Fiz muitas caminhadas nas montanhas e percebi que não conseguiria viver sem isso. Sem as viagens, sem conhecer lugares novos, sem estar sozinha por mais tempo do que as outras pessoas consideram normal. Foi circulando o Sylvan Lake, e conversando com uma queridíssima amiga de infância que percebi que o que eu mais queria com aquela idade era sair de casa. Não porque ela fosse ruim ou porque eu tivesse problemas com a família, muito pelo contrário, cresci numa casa cheia de amor, incentivo e liberdade, e mesmo com a parte da família mais complicada, a paterna, ouso dizer que dos 15 aos 19 foi o período de maior e melhor convivência!

A vida me segurou junto a família por alguns anos mais, os últimos que eu passaria com eles, e por isso agradeço não ter saído antes. Aos meus 18 nos mudamos da casa onde cresci, com o melhor quintal do mundo e todas as minhas memórias mais queridas, felizes, o lugar que me fez quem eu sou! Não consigo passar 1 dia sem lembrar e falar daquela casa mágica! Daquele casarão que meus avós transformaram em muito mais do que um lar, era o verdadeiro porto seguro da família, o paraíso dos netos, a terra da brincadeira, a melhor escola, o melhor clube, o melhor pomar, a melhor horta. Era nossa colônia de férias, o reforço escolar, era nossa vida! E que privilégio ter tido essa vida naquela casa! Nenhum castelo de conto de fadas faz jus! Lá era melhor!

Fomos para outra casa, ainda os quatro integrantes da família então, eu, minha mãe e meus avós maternos. Essa segunda casa, onde vivi cerca de 4 anos e meio, foi meu purgatório. Nunca gostei muito dela, tinha uma sala grande e escura, janelas grandes demais para abrir e fechar com facilidade nos quartos, a terra do quintal tinha muito plástico e restos de construção misturados, mas fizemos nossa vida da melhor forma lá. E foi morando lá que fiz minha faculdade, foi o lugar onde menos dormi. Foram anos de hospital, foi onde perdemos meus avós. Mas foi também onde meus cachorros, os meus mesmo, não da família, vieram, e foram meu alento. Desse lugar não guardo muito amor. Mas sei que foi útil e compreendo o papel daquela casa e desses anos na minha vida. Trabalhei muito, estudei muito, e tive um banheiro só pra mim pela primeira vez, um luxo muito útil nessa fase de dificuldades e horários loucos.

De lá nos mudamos para a que ficou na minha memória oficialmente como a casa da minha mãe! Como ela morou muitos anos com os pais, e quase toda a nossa vida juntas, essa foi a casa dela. Como já era adulta e já trabalhava, lá pude contribuir, e vivíamos como roomies. Foi quando pude decidir mais sobre a casa, embora não fosse ainda minha casa. É um lugar lindo e até hoje é minha casa na cidade onde nasci. Existe um carinho eterno por esse lugar, pois foi onde me tornei mulher de fato. Onde assumi oficialmente a responsabilidade pela minha vida, e muitas vezes pela dela também, onde recebi meu diploma, onde paguei contas pela primeira vez.

Além disso era uma casa de tamanho perfeito, bem menor do que as anteriores. Isso é um ponto muito curioso. Minhas casas tendem a diminuir. E não só por necessidade, mas por gosto. É o gypsy heart falando. É minha vocação pela viagem, por estar leve. O peso das coisas, as raízes, foram coisas que fui deixando aos poucos pra trás. Morei nessa casa por 3 anos e meio. Saí de lá de forma muito confusa, em meio a morte da minha mãe, e demorei muitos meses para conseguir me despedir do lugar.

Morei depois disso por 1,5 ano com meu padrinho, e recebi muito amor e carinho de todos naquela casa. Tive um quarto cuidadosamente arrumado para mim, e muita liberdade e apoio. Ficou como minha casa oficial. Mesmo depois de já ter saído de lá faz 4 anos, continua sendo meu endereço pra assuntos oficiais, pois como me mudo com frequência, sei que se a correspondência mais essencial chegar lá, serei encontrada! Cresci emocionalmente muito lá. Foi rápido e na marra.

Fui então finalmente morar sozinha. 11 anos depois daquela volta no Sylvan Lake, quando já tinha decidido isso como minha meta pessoal. Montei minha casa de bonecas, num dos menores lugares que já morei. Só não foi o menor, porque morei por 40 dias em Londres num menor ainda! Mas meu cantinho pequenino foi meu lugar de reconstrução. Foi onde mais tive coisas e posses minhas, apesar do tamanho, era tudo meu ali. Ali me recuperei, corpo, alma, mente, tudo! Mudei minha alimentação, li como nunca, trabalhei como nunca, dancei como nunca, pois de fato não tinha ninguém olhando. Lá aprendi o prazer de estar sozinha. De chorar em voz alta, berrar, de rir só, de ouvir a música que quisesse, de usar a roupa que quisesse ou nenhuma. De ficar horas calada contemplando a janela. Lá me achei como nunca. Se houve um lugar que fui JuReMa, da forma mais plena, foram naqueles 20m2.

De lá fui pra outra cidade, juntei as escovas de dente. Morei em dois apês em SP. Um por um mês e outro que foi mais que minha casa. Foi nossa casa. Bonita, arrumada, bem localizada, acolhedora. Lar dos amigos. Ali poderia ter morado o resto da minha vida.Morei 2 anos.  Bom, talvez não tanto, pois a cidade grande foi me engolindo, os gritos advindos da balada, o barulho do trânsito, o ritmo frenético da metrópole foram acordando no meu coração a necessidade de seguir andando.

Vocês já viram o filme Chocolate? Se não, vejam! Hoje! Eu sou assim, se o vento bate torto, eu tenho que segui-lo. Durante muito tempo achei que uma hora uma pessoa finalmente me faria sossegar. Quebrar minhas amarras com o passado e sossegar. Mas foi o contrário. Encontrei outra alma nômade, perdida por aí enquanto andávamos, nos procurando e procurando seja lá o que for que tanto procuramos nessas andanças.

Me casei, de papel passado, para poder viajar mais, ir mais longe. Não foi pra sossegar. Em vez de comprar uma casa e fazer uma lista de presentes, vendemos tudo o que tínhamos! Casamos para partir! E cá estou, em uma nova casa. E sabe do mais incrível. Ela já tem data marcada pra não seguir sendo nossa. Os planos ainda estão disformes, ainda existem burocracias e necessidades, mas não creio que será meu lar por mais de 1,5 ano. E assim posso dizer que em 13 anos, desde os meus 18, vivi em 8 casas, fiz mudanças grandes, mudanças pequenas, às vezes fui com a roupa do corpo e mais uma mochila, às vezes paguei caminhões e levei tudo. Uma coisa se consolidou com força e certezas inigualáveis, minha casa é onde meu coração está.

Não sou do tipo de gente que coleciona coisas ou conquistas, sou do tipo que coleciona memórias e lugares no mapa! Sou agoniada por natureza, nasci antes da hora, de 7 meses, e sinto que estou sempre assim, uns meses adiantada, uma vida atrasada! Quero poder seguir andando e ver o que esse mundão tem pra me mostrar. Quero conhecer os lugares pela inclinação do sol e as estações pelo cheiro do ar. Já não tenho problema nenhum em ter poucas coisas e quanto menos tenho, mais acho que possuo em excesso. Agora estou sonhando com uma vida ainda mais nômade. Quero poder não dormir duas noites no mesmo lugar. E assim sigo. Inquieta para os que olham de fora, mas cada vez mais segura de mim! A certeza de que essa sou eu, e que me comporto assim mesmo. E que não busco nada para substituir, apenas para ampliar.

Já achei que estivesse buscando aquilo que faltava. Hoje sei que não me falta nada, nunca faltou. Só faltava essa certeza. Sempre tive e sempre terei tudo o que preciso dentro de mim. Mas preciso continuar seguindo. Essa sensação de que o mundo todo é minha casa e de que me sinto bem e a vontade onde quer que eu vá é a melhor. Quando lugar nenhum é a sua casa, mas todos os lugares são, essa sim é minha grande conquista! Saber disso é o que me traz paz.

Há claro o período de adaptação, conhecer os eletrodomésticos novos, aprender os novos horários, descobrir os melhores mercados, e aí, quando estiver bem conhecido, rotineiro e seguro, aí a gente pega a vida e sacode, joga tudo no ar e vamos descobrir onde tudo caiu, junto e misturado, como as novas runas que indicam um novo caminho. Aprendi que essa incerteza não é triste e nem solitária, a incerteza é minha maior certeza!

Não se assuste mundo, por favor. Algumas almas são nômades. Algumas pessoas precisam ir e vir para conseguir continuar vivas. Deixar pra trás não significa não gostar, apenas o impulso de seguir que é mais forte. Sempre achei que essa minha necessidade me faria muito solitária, mas hoje, além de ter encontrado outro nômade, descobri que só coleciono amigos, trabalhos, pessoas, locais, como quem coleciona jogos americanos novos a cada primavera. Algumas coisas não mudam, outras mudam todos os dias. O sabor do chá na caneca muda sempre, essa caneca já está comigo há 4 casas! E talvez não esteja na próxima, ou talvez esteja, mas o hábito do chá certamente estará. Minha certeza hoje não está nas coisas, em nenhuma delas, está em mim!

Quem é Juliana? A menina da caneca roxa? Dos óculos vermelhos? Não ou sim. Mas a Juliana é certamente aquela que ama chá, a vegetariana, a brasileira, a que ama livros, a que faz Yôga, a que fala demais e alto demais, a que chora pela família que já se foi 1X por mês, a que gosta de viajar. E para ser assim, para ser eu mesma, posso e devo ser em qualquer lugar!

Quantas casas contabilizarei até o fim dessa década de vida que só começou? Pretendo bater meus recordes! ❤

Sonhos e aprendizado

(**Atenção: não são spoilers, mas há comentários sobre os filmes Into the Wild e Capitão Fantástico que falam de suas conclusões**)

Às vezes acho que é um reflexo da minha geração, que ao mesmo tempo tem muito acesso à informação e muitas desilusões. A vontade de largar tudo e ir viver aventuras, em se embrenhar no mato, conhecer o mundo, se conhecer, não nos larga. Mais é mais do que isso, tem uma parte grande de insatisfação e frustração, em dificuldade de viver da forma “esperada” e muitos sonhos que parecem nos isolar tanto dos demais, especialmente da geração anterior. Mas aí (re)leio Walden, e percebo que o Thoreau já sentia tudo isso, e percebo que o gap não é necessariamente geracional, mas entre pessoas, almas, espíritos, aqueles que simplesmente veem o mundo de outra forma.

Em busca desses sonhos muitas vezes nos perdemos, erramos e acertamos, e temos momentos de felicidade e momentos de desespero, tormenta e bonança, assim como em qualquer caminho de vida. A maior lição do Alexander Supertramp é que a felicidade precisa ser compartilhada, e isso nos ensina, especialmente aos mais introspectivos (pra não dizer anti-sociais) que é preciso cuidado para não se isolar demais. A maior lição do Capitão Fantástico é que precisamos ceder um pouco, ser menos estritos e exigentes na ideologia pois ainda que trilhemos caminhos próprios, estamos no mesmo mundo e o contato com a sociedade continua.

Ao mesmo tempo é importante perceber que aqueles que buscam esse auto-conhecimento não o fazem apenas por egoísmo ou insatisfação, existem conceitos ideológicos fortíssimos que os orientam, e os que discordam desses conceitos não conseguem compreender, concordar ou aceitar as decisões tomadas, e muitas vezes não estão dispostos a tentar entender. Se para quem se isola falta habilidade social e paciência, para quem conhece o “isolado” falta empatia e aceitação das diferenças. De um modo geral, diria que todos deveriam, pelo menos temporariamente, se jogar no mato, rever os conceitos, repensar a alimentação, a relação com o meio ambiente e o sistema no qual vivemos em sociedade, que nos exige tanto consumo e tantas energia, muitas vezes desperdiçados.

Eu tenho buscado simplificar minha vida nos últimos anos. Para quem lê aqui com frequência sabe dos meus processos, de perdas familiares, mudanças e busca por auto-conhecimento. A primeira fase foi de reconstrução e consequente acúmulo. Precisei mostrar pra mim (e também para a família e para a sociedade, mas essencialmente para mim) que tinha capacidade de ter. Ter. Emprego, dinheiro, casa, móveis, roupas (simples e chiques), coisas, eventos, agenda social. Cumpri! Talvez não a contento de todas as expectativas, mas a contento da minha. E mesmo enquanto construía esse caminho ia deixando portas abertas, adquirindo habilidades e condições de seguir outros, de precorrer caminhos, conhecer outras oportunidades.

Há alguns anos venho construindo um outro caminho, e não sei por quanto tempo ficarei nele. Mas um caminho que tem uma dose de desconstruído. Enquanto tive um período de acúmulos, seja de renda, bens, objetos, e mesmo de momentos, pessoas, amizades, oportunidades, agora estou no de desapego! Desde a mudança de Brasília para São Paulo fui me desfazendo de muitas coisas. E também de muitas obrigações. Por exemplo, durante 2 anos usei lingerie combinando todos os dias! Não falhou unzinho! Geralmente era sutiã e calcinha conjunto, combinado mesmo, mas se não fosse conjunto era no mínimo da mesma cor e estilo. Fiz porque achava isso o máximo? Não. Fiz pra experimentar. 99% do tempo ninguém viu, e ninguém sequer soube que eu estava combinada, mas eu sabia. Fiz por mim! Foi um momento próprio e peculiar que fez sentido num período de reconstrução da minha auto-estima, e também de aperfeiçoar a librianisse.

Agora estou num período em que reduzi drasticamente meu guarda-roupa, inclusive de underwear, e com isso estou praticando descombinar, inclusive pra trabalhar o psicológico e não ficar com mania de perfeccionismo. E sabe o que é mágico? Minha vida não é melhor nem pior com ou sem calcinhas combinadas. Tudo faz parte do que faz sentido em cada momento. Se vou usar um top de sustentação de exercício físico não faz nenhum sentido combiná-lo com a calcinha como se fosse um conjunto, porque não é. Não é prático e nem necessário! Mas se quero tenho lá um outro conjunto guardado pra um momento especial, que pode ser a dois, ou apenas aquele dia que eu quero me sentir linda, e ninguém nem vai saber!

Mas o que calcinhas têm que ver com isso? Com o mato, e uma vida mais isolada? São um exemplo. Um exemplo pequeno, só pra demonstrar meu caminho. Esse caminho de auto-conhecimento, especialmente quando aliado a questões ideológicas nos afasta das pessoas, e da sociedade tradicional. O que me diferencia drasticamente do Thoreau é isso aqui, eu não escrevo um diário, eu escrevo um blog! Ainda que sem internet em casa, usando um pouquinho de 4G no celular pra publicar algumas fotos, e respondendo e-mails e atualizando o blog 3X por semana na biblioteca pública, eu ainda estou conectada quase sempre!

Com minha profissão, enquanto professora de idiomas, consigo trabalhar de qualquer lugar com uma conexão e podendo usar o skype. Sem falar em outras opções que o mundo atual nos proporciona, ensino virtual, ensino à distância, cursos, etc. Nisso a internet mudou a vida dos “isolados” nos permitindo selecionar quais partes isolam e quais não (sem tanta seleção assim quando falamos de Facebook e outras mídias sociais, mais ainda assim, participar delas é opcional e para mim é um excelente jeito de manter a família informada de que eu tô viva e bem, e no mato!).

Os que se isolam, buscando não só o auto-conhecimento, mas a paz interior e exterior, a aventura, uma outra relação com a vida, o mundo, a sociedade, as pessoas, os animais, etc, sentem muita solidão. Essa lição está presente em todos os filmes e livros que relatam os que buscam esse caminho. Contudo, o que sinto fortemente, é que essas pessoas, e me incluo nelas, não nos sentimos na verdade parte de nada, plenamente, nem do mato. Talvez só de nós mesmos. Já existe um nível de solidão aguçado mesmo na maior metrópole, mesmo na festa mais cheia, mesmo entre familiares e amigos. Como alguém que acabou de morar 2 anos em São Paulo posso atestar.

Essa parte da solidão e da insatisfação vem justamente das questões ideológicas. Nunca consegui me sentir plenamente parte de um grupo, nunca concordei plenamente com uma religião, nunca concordei plenamente com uma linha pedagógica, com uma escola onde trabalhei, com as leis que regem nenhum país. Claro que as afinidades aumentam ou diminuem de um grupo, escola, país, pessoas, pra outros. E claro que em alguns me senti muito mais à vontade e acolhida! Mas sempre tem aquele pouquinho que questiona. E ao questionar vem uma certa solidão, um certo vazio. É o mal dos que não conseguem comprar o pacote fechado. Nenhum deles. Sempre tem aquela partezinha que a gente preferia mudar.

Para não morrer de infelicidade há que se exercitar a tolerância. Alguns pacotes até consigo comprar “fechados” mesmo sem concordar 100%, porque concordo com a maior parte, e preciso viver. Mas explico isso, porque é um sentimento constante, em qualquer parte do mundo. Aliás, viajar muito tem a ver com essa insatisfação. A necessidade de conhecer tudo e a si mesmo, buscar alternativas, aprender outros mecanismos, tudo nessa busca de compor o melhor pacote possível pra viver.

Quem não entende o que eu tô fazendo, é isso! Eu to procurando as peças de lego que melhor se encaixem na minha alma, ainda que fiquem buraquinhos, de preferência, os menores possíveis. Das lições que tirei até agora, tanto por experiência própria quanto da leitura de filmes e livros sobre outros insatisfeitos e curiosos, a principal é essa: os que se isolam precisam aprender a ceder. O isolamento e a rigidez ideológica levam a um nível de solidão e insatisfação trágicos. É preciso que sigamos nossa busca por conhecimento e felicidade medindo os passos, dois pra frente e um pra trás, mantendo assim outras pessoas próximas.

E o desafio maior é saber lidar com a incompreensão de familiares a amigos, e outras pessoas, que julgam, se acham cortadas ou isoladas, ou discordam, e com isso ficam ainda mais distantes, pois o vácuo passa a ser não somente físico, mas também emocional. E precisamos aprender e aceitar que algumas pessoas, às vezes das mais queridas, vão se distanciar, ou nós vamos nos distanciar, e que por pior que pareça isso pode ser o que há de mais saudável para ambos.

O equilíbrio vem dessa aceitação, de todas as partes. Algumas pessoas precisam ir! E não adianta perguntar pra onde? Ou porque? Ou pra fazer o que? Porque a resposta não vai satisfazer. Os que vão, o fazem porque precisam! Vão viver por aí, porque não sabem viver num lugar só! Vão viver de forma estranha, comer, andar, vestir, tudo estranho, simplesmente porque são estranhos. E acredite, estão felizes assim! E os que vão precisam aprender a ser tolerantes com todas as perguntas, incompreensões e até mesmo  algumas hostilidades. Responder com honestidade sempre e seguir, ainda que isso custe algumas relações. Os que aceitam, ainda que não compreendam, ficarão próximos, mesmo a que léguas de distância!

Com isso, deixo vocês com uma citação do Thoreau em Walden e os trailers de Into de Wild e Capitão Fantástico. E não, eu não estou indo morar numa cabana no mato e nem num ônibus abandoado (ainda, hahahaha). Eu estou numa fase, que talvez seja de transição, ou talvez seja uma conciliação entre mundos, de cidade pequena, internet menos frequente, mato intenso umas 2 ou 3 X na semana. Trabalho à distância. Agradeço profundamente o amor e a companhia daqueles que aceitam me acompanhar mesmo de longe! E agradeço profundamente porque achei um outro maluco que concorda tanto que resolveu acompanhar de perto! ❤

Ps: achei essa entrevista sobre o livro Andar, Uma Filosofia, do filósofo francês Frederic Gros, e pretendo ler o livro em breve. Destaco aqui dois trechos da entrevista e deixo o link pra vocês, além da sugestão de leitura. Quem sabe não inspira alguns a caminharem mais, a desobedecerem mais, ou não te faz compreender melhor as andanças daquele amigo ou membro da família?!

“Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud gostavam de caminhar. E eles o faziam de formas diferentes. As caminhadas do jovem Rimbaud, dispersas e desorganizadas, estavam cheias de raiva, enquanto Nietzsche procurava nelas o tom e a energia da marcha. Kant era metódico e sistemático: o fazia todo dia, à mesma hora, na mesma rota. Todos acabaram mudando seus escritórios de trabalho para o campo, onde as idéias fluíam mais livremente e em plena natureza. Analisando de perto, estas caminhadas guardam alguns paralelos com seus pensamentos, diz o filósofo francês (e grande caminhador ) Frederic Gros no livro ‘Andar. Uma filosofia’.” (…) “Esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação.”

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/caminhar-um-meio-de-desobedecer/

thoreau

Balzac

**Spoiler alert**

Geralmente faço referências difusas em meus reflexos, mas hoje receio citar a frase final de um livro, então, embora não seja novidade e nem capítulo da última série do momento, aviso, para aqueles que preferirem não ler o texto sem ter lido o livro.

Foi no ônibus. Embora seja final de setembro, em São Paulo ainda faz frio. Mas hoje fazia sol, apesar do vento cortante. Quem me lê com frequência sabe como aprendi a amar os poucos e raros dias frios porém ensolarados de SP. São meus novos dias preferidos. E acabo lendo muito no ônibus, melhor jeito que encontrei de lidar com as horas de trânsito dessa cidade. Minha combinação de fone de ouvido anti-ruído + músicas preferidas + livro me transporta para um mundo paralelo e me tira do caos e do stress dessa vida excessivamente urbana.

A trilha hoje era Travis. Estava lendo em português, e para não me distrair sempre inverto o idioma da música com o da leitura, ou ouço instrumentais enquanto leio. O cheiro que me invadia era o dos meus próprios sapatos, botas de chuva da Melissa, pois apesar da tarde ensolarada o dia amanheceu fechado. O sol na nuca, refletido do livro, a música e o cheiro de plástico foram meus companheiros das últimas páginas dessa leitura: A Mulher de Trinta Anos.

Uma gestação. Nove meses. O livro foi adquirido em dezembro de 2015, quando fui a Brasília no fim do ano, para as logo antes das festas. Agora em vinte e poucos de setembro, com os nove meses completos, eis que minha saga chegou ao fim, terminei a leitura. Não pense que demorei tudo isso para ler. Li em cerca de 5 ou 7 dias. O total que consegui em 9 meses dedicar para essa leitura tão pessoal. A vida não é mais a dos meus 13 anos, quando lia 30 livros em 9 meses por gosto. Aos quase 30, devo tempo à vida, enquanto mais um ano se passa.

Mais alguns dias e serei balzaquiana. Já que assim a vida é, e que já compartilhamos tantos verões, decidi lê-lo. O livro é um belo retrato de sua época, ilustrado por alguém muito à frente de seu tempo. Pensando no que era o papel da mulher no século XIX, ler a palavras de um homem que nos admirava e que escreveu uma personagem forte e sofrida, mas com empatia pelo seu sofrimento, é, na minha opinião, algo digno de nota.

De certa maneira me lembrou Chico Buarque, com sua capacidade incrível de ter eu líricos tão distintos e que expressam sentimentos coletivos tão bem. De certa maneira me lembrou Clarice Lispector, com suas personagens introspectivas, que vivem mil infernos enquanto compram ovos para a família. Pensando assim, a mulher do século XIX e a do XX mudaram a roupa e a roupagem, mas nem sempre o sentimento. Acho que a do século XXI está começando a mudar. Sou filha do século passado, da transição entre séculos, mas acho que as filhas desse século já estão mudando mais ainda.

Parei a 3 páginas do fim. Olhei a passagem, tive meu cheiro de Melissa brevemente suplantado pelo fedor do Rio Pinheiros enquanto o ônibus cruzava a marginal. O sol baixando. Uma pausa dramática? A vontade de prolongar os últimos momentos? Não. Apenas muitas reflexões. Eu sou daquelas que demora para entrar nos livros às vezes. Alguns me ganham na primeira página, outros só no terço final. Esse são os que gasto 4 meses para ler o primeiro capítulo, 1 mês para ler os capítulos todos até o meio e 3 dias para terminar. Balzac foi assim. Um pouco pior.

A literatura é definitivamente uma conversa. Nunca um livro é igual para duas pessoas diferentes, ou a mesma pessoa em duas épocas da vida, porque somo pessoas diferentes. E eu quis conversar com Balzac nessa virada para meus trinta anos, porque queria conversar com Balzac nos mesmos termos. Já fui Julie, já fui Juju. Talvez seja sra. d’Aiglemont, ou senhora Marra algum dia. Hoje conversamos de Jurema para Juliette. De Jurema para Hélene. De Jurema para Moina.

Em outro dia, um dia cinza, num outro ônibus da mesma linha, cheguei a sublinhar em caneta laranja as passagens mais significativas sobre a Juliette. Aquelas que estou segura são as mais conhecidas. Aquelas nas quais Balzac descreve e define a mulher de trinta anos. São passagens bonitas. Passagens que mostram uma Juliette com a qual a Jurema certamente conversa. Hoje, posso completar meus trinta verões segura de que compreendo Balzac. Certamente a mulher de trinta anos que sou partilha da força e da superação da inocência tal qual a balzaquiana:

“{…} porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abarcar todo o seu curso, tanto passado como futuro. As mulheres conhecem então todo o preço do amor, do qual desfrutam com o temor de perdê-lo: então sua alma ainda tem a beleza da juventude que as abandona, e sua paixão vai se fortalecendo sempre com um futuro que as apavora”.

Mais como a literatura é uma conversa única e pessoal, a parte que mais conversamos sobre, Balzac e eu, não foi sobre a mulher de trinta anos. Nisso concordamos, dado as diferenças de contexto histórico e sócio-cultural, e seguimos em frente. Paramos para filosofar na frase final. E aqui entra o grande spoiler, meus caros.

“- Perdi minha mãe!”

Foi aqui, na última frase do livro, que ele foi inteiramente resinificado, foi aqui, na última página, que nossa longa conversa começou. Foi aqui, onde a vida de Julie acabou, que a Jurema se viu. Não na Moina. A Moina é ainda a jovem, a mulher, talvez, de vinte anos. Eu provavelmente já fui um pouco Moina, e juntas perdemos nossas mães. Inclusive porque quando a perdi não era ainda a Jurema de trinta anos. A Jurema nasceu exatamente do luto. A Jurema conversa com Balzac depois que o livro acaba.

Claro que os trechos como “Suas dores secretas pairam sempre sobre sua alegria artificial como uma nuvem leve que esconde imperfeitamente o sol”, já estavam grifados em caneta laranja antes do fim, bem como “Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo da presença eloquente?”. Jurema e Balzac já estavam conversando sobre a tristeza e a felicidade bem antes do fim. E embora a Jurema tenha tido lá suas dores de amores, elas foram pequenas perto das dores da perda, da morte, da ausência e da saudade, então esse diálogo, desde o começo, tinha um quê de unilateral, só para ao final se descobrir compreendido.

Baixando o livro de novo e contemplando o já quase pôr-do-sol, pensei nas minhas mulheres. Eu sou filha de uma mulher de trinta anos. Nasci nesse período. Venho de alguém que já tinha suas dores e decepções. Crescemos juntas. Na verdade, passamos pela perda da mãe juntas três vezes, pois venho de uma família matriarcal, onde mães e filhas muito compartilham. A primeira morte que vivi foi a da minha bisa, Vó Santinha, aos doze, e vi os efeitos aterradores que se abateram sobre minha vó, senhora soberana de nossa casa e família. Foi a primeira vez que acompanhei um enterro, e que vivi um luto dentro de casa. Minha festa de 13 foi cancela, e virou festa surpresa na casa de amigas.

Aos 23 vivi o luto da minha avó, e ouvi da boca da minha mãe a frase final de Balzac. Foi um período intenso. Desde a morte do meu avô, vivemos as três em casa, já três adultas, a de 20, a de 50, e a de 80. Foi uma convivência muito intensa. Com todos os trinta anos que separavam cada uma de nós, uma da outra. Se eu sou filha de uma mulher de trinta anos, minha mãe também foi. E essa diferença nos fez amigas ao longo das gerações, embora impossibilitadas de entender as dores de cada uma.

Tenho desse período da nossa vida a três memórias muito doces e memórias muito amargas. As brigas foram privadas e doloridas. As acusações cruéis. As dores reveladas, foram aquelas que elas nunca tinham revelado para ninguém. E apesar dos nossos duplos trinta anos de diferença conversamos sobre homens, sobre sexo, sobre amor, sobre casamento, sobre aborto, sobre liberdade, como nunca antes. Sem filtros, sem amarras. Às vezes com muito ódio, às vezes com muita dor. Naquele período eu conheci mulheres. Eu vi a face que não era da mãe e muito menos da avó. Eu conheci dores para as quais ainda não estava preparada.

Olhei para cima para os olhos beberem as lágrimas que os olhos marejados ameaçavam derramar em pleno ônibus e pedi perdão àquelas mulheres fortes que me criaram. Eu, com a inocência e a intolerância dos meus vinte anos não soube respeitar, admirar e compreender suficientemente suas dores. Fui Moina. Fui até Helene. Espero que elas saibam. Sei que no fundo sabem, pois eu é que nunca tinha sido uma mulher de trinta, e ainda não sou de 50 ou 80, elas já tinham sido mulheres de 20 anos. E nos momentos mãe e avó, me amaram e me perdoaram. Mas guardo na alma os momentos mulher, em que apenas nos odiamos, ameaçamos, machucamos.

Hoje, se tenho algo com que conversar com Balzac é sobre essa dor. A dor da incompreensão entre as mulheres de distintas gerações. Queria tê-las hoje vivas para dizer que começo a compreender. Mas tudo que posso dizer para Balzac hoje, é que perdi minha mãe. Faço o compromisso de reler aos 50, para conversarmos de novo, sobre Bia, sobre Zilah, sobre a senhora d’Aiglemont. E quiçá aos 80, quando nem Balzac mais me compreenderá. A única certeza é que a perda me ensinou muito. Principalmente sobre essa incompreensão.

Não sei se conseguirei conversar com o devido respeito, admiração e dedicação com as mulheres de outras gerações de seus 30 a mais, mas certamente conseguirei conversar com as de 30 a menos, alunas, sobrinhas, amigas, e perceber que se elas não me compreendem, pelo menos não precisam me perder por isso. Assim, espero, Balzac. Ou que no momento inevitável da perda, tenham pelo menos seus 30 anos, e que comecem a compreender.

Dos elogios feitos à mulher de 30 anos nada tenho a agradecer, nem reconhecer. No máximo concordar. Coloco meu pé nos 30 com a certeza de me sentir plena e feliz, embora sinta a exata sensação da felicidade sendo o sol, e das minhas dores sendo as leves nuvens, que perpassam os olhos em breves momentos do dia, às vezes chovendo nas noites, calada. Não sofro mais do que devo e me considero uma mulher livre, independente e muito feliz. Mas uma mulher não chega aos 30 anos sem conhecer pelo menos uma dor, nisso, concordamos, Balzac e eu. O peso que cada uma decide dar a essas dores, contudo, varia. A Jurema sugere que a mulher de 30, embora conhecedora das dores, seja leve, e livre.

Bem vindos, trinta! ❤