A Chave do Tamanho

O primeiro livro que a menina leu sozinha foi Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Quando a história começou a menina ainda não lia sozinha, estava começando a se arriscar nos gibis no Mauricio de Souza. Sua mãe, com aquela voz doce como mel, cheia de inflexões memoráveis, lhe deu a chave da sua felicidade, no dia em que abriu aquele livro, sentada em sua cama, cabeça no colo, dedinho acompanhando as linhas que a mãe lia em voz alta. A leitura seguia lenta, o dedinho indo, e às vezes voltando, sempre acompanhado da voz e olhos atentos da mãe. Um dia ouviram a pequena voz, que fazia coro à da mãe. O dedinho continuava, e lentamente o dueto nascia.

Em meio aquelas páginas, a voz da mãe foi cedendo, permitindo que o mundo ouvisse então aquela pequena voz que tentava, errava, e ali nascia. A cada dia, a cada página, a menina se inclinava menos no colo da mãe e mais na cabeceira da cama. E a cabeça da mãe, se reclinava, descansando a garganta e apurando os ouvidos. Quando terminaram o livro, era a menina que ninava sua mãe, que agora, deitada, ouvia a história na voz de sua filha. Assim nasceram vários amores e tradições. Assim, aquela voz maravilhosa aprendeu a descansar à noite, e aquela voz pequena aprendeu a perder o medo.

Ainda na adolescência, a menina almoçando, chegava a mãe, com sua visão preferida, um embrulho de livraria, e dizia a menina: “Comprei para você ler para mim à noite!”. Sim, numa inversão tão delicada de papéis, desde os seis anos de idade, era a menina que lia para sua mãe e não o contrário. Pode parecer estranho aos ouvidos desconhecidos, mas aquele ritual fez da menina o que ela precisava ser. A voz que todos ouviam precisava ser ouvinte para descansar, e a ouvinte precisava treinar ser ouvida.

Quantas curvas o rio da vida ainda não faria, até que a menina entendesse, ou melhor, começasse a entender, a vislumbrar, a magia e a importância daqueles momentos. Faziam parte de seu treinamento, tanto como todo o resto de sua vida. Sim, a menina não foi criada, ela foi treinada. Mas isso faz parte de outras histórias. Aqui é quando a menina entende que foi sua mãe que lhe entregou a chave da vida nas mãos. Aquela chave que traria sua liberdade e lhe abriria todas as portas da vida. Sua mãe lhe deu sua voz. E que voz mais maravilhosa. A menina não poderia ter sonhado com presente melhor. Sua voz pequena foi treinada. Jamais seria potente, doce e encantadora como a da mãe, senhora de todas as vozes, mas foi bem treinada, afinada, projetada, sussurrada e entre brincadeiras e livros, muitos e muitos livros, essas vozes foram brincando, treinando, amando, descobrindo e conhecendo, até que juntas moldaram a chave da vida, que ficou, guardada na garganta da menina.

Depois desse livro, vieram os outros. Em rito solene, a mãe foi até a biblioteca do avô e transferiu a coleção de Monteiro Lobato pra estante da menina. E entre tantos volumes, ela pegou a Chave do Tamanho, e a leu sozinha, pela primeira vez, de capa a capa. Talvez ela já fosse Alice e não soubesse ainda. Mas foi ali que ela encolheu e cresceu de novo pela primeira vez. Alguns anos depois, seu irmão lhe apresentou Alice oficialmente. Ela já a conhecia de vista, em inúmeras ocasiões a viu, mas só lhe leu a alma por meio das mãos do irmão. Talvez ele tenha sido o coelho naquele momento. Talvez o coelho estivesse disfarçado. Sempre com pressa, esse momentos são como borboletas que passam rente às orelhas, instauram pânico na menina, e destilam uma curiosidade acirrada, que a faz seguir os caminhos da floresta, para descobrir onde nascem as borboletas, e para onde vão os coelhos apressados.

Já familiarizada com os truques acerca das mudanças de tamanho, algum tempo depois, Absolem, ainda disfarçado, mas já extremamente atuante em seu papel de guiar Alice pelo País das Maravilhas, apresentou à menina ao espelho. Sim, ela de fato atravessou o espelho, caiu na toca do coelho, fisicamente, num momento maravilhoso que se repete a cada ano, quando as realidades se misturam nas mãos de Absolem, e provou da poção e do doce, que aumentam e diminuem as pessoas de tamanho. Essa foi a vez que a menina acreditou definitivamente na realidade dos mundos mágicos. Aprendeu como as fantasias são construídas e decidiu usar sua chave, para que a magia estivesse sempre presente em sua vida. Ela ainda não sabia que era Alice, mas descobriu que podia habitar os mesmos universos.

Entre contemplativa e participativa, a menina mescla os universos com maestria. Por vezes a necessidade lhe impõe que esteja mais presente em um deles do que em outros. Mas a cada ano que passa sua habilidade em usar sua chave cresce e ela consegue vagar entre os planos com maior rapidez e naturalidade. Talvez esteja aprendendo a ser coelho também.

Esse ano a menina virou gondoleira. E acrescentando o universo das águas aos seus domínios, transformou em Veneza seu lago, sua cidade e seu carnaval. E entre máscaras e caras nuas ela percorreu mais uma vez vários universos em uma pausa temporal na qual todos os universos coexistem, mesmo para aqueles que não possuem as chaves. Reviu e uniu personagens distantes no tempo e no espaço, e dançou entre a solidão e a multidão.

Ao acordar em casa percebeu como estava ocupando bem o espaço. Teria crescido ontem? Não, não digo crescer como fazem os bebês e as crianças, digo, usando sua chave do tamanho. Alguns dias a menina se sente pequena demais para seu pequeno espaço. Em outros seu espaço parece pequeno demais para ela. Às vezes é incômodo, às vezes é reconfortante. Hoje ela era ela. Nem Alice, nem coelho, nem grande demais, nem pequena demais, apenas dona da Chave do Tamanho.

Sofia

O ano era 2014, o dia era o exato primeiro de Janeiro. A menina se sentia como um pássaro na gaiola, dentro de casa desde o ano anterior. Eram quatro da tarde. A menina olhou para sua mesa. Havia um livro, novo. Ela havia comprado a livro a algumas semanas, mas não abriu. Mas aquele era um ano novo, que pedia novos começos. Ela pegou o livro e saiu rápido de casa, com a roupa do corpo, e dirigiu sem rumo, porém com pressa. Como o coelho, que nem sempre sabe para onde vai, mas está sempre atrasado. Ela desceu na frente do portão do parque. Visualizou em flashes rápidos primeiro os tijolos do calçamento e logo depois a terra, passando sob seus pés ágeis. Parou de súbito e viu a pequena lagoa, sentou-se no banco. À seu lado apenas o livro novo: Vida Querida. Riu de sua própria escolha. Sim, a vida deveria ser querida. E nada como um novo ano para começar a amar aquela sua vida de novo. Ela sabia que nada era por acaso. Embora às vezes não acreditasse em tudo, pois tudo parecia demais para ela.

Respirou fundo e se acalmou. A pressa passou. Sentiu o vento no rosto, ouviu sua música nas folhas das árvores sobre sua cabeça. Ouviu os patos no laguinho. Voltou ao presente. E se perguntou, porque precisava tanto das árvores, do lago e dos pássaros para se sentir bem, se sentir livre. E então, numa inspiração, a menina foi do futuro para o presente, e numa expiração do presente para o passado. E logo ela não estava com sua vida querida no parque, mas sim com uma outra vida, que também era sua e muito mais querida, ela estava no jardim de seu castelo. Claro, ela cresceu num enorme jardim. Como não se acalmar em meio às árvores? Ela respirou e lembrou.

A pequena Alice corria pela grama, ouvindo o incrível e cotidiano dueto de sua mãe com os pássaros no jardim. Estavam afastadas do castelo, quase na beira do lago. Não aquela pequena lagoa do parque, mas o grande lago da cidade, que também era margeado por seu antigo e querido jardim. Ela olhou uma árvore e decidiu tentar subir nos seus galhos. Mas naquele momento, a menina era uma Alice muito pequena, e ela olhava a árvore como quem olha uma montanha, e não subia de fato, mas se via subindo como em um sonho. Absolem estava lá também, inebriado pelo dueto mulher-pássaros, e notou os esforços precários de Alice. E fez o que é seu papel de Absolem, se virou para Alice e lhe perguntou porque ela não subia na árvore. Ela disse que estava tentando, e ele retrucou perguntando o que a impedia. Desafiada, Alice subiu. E não digo subiu somente naqueles galhos que namorava alguns minutos antes, mas subiu até o topo da copa, até os galhos mais finos, e se sentiu como quem conquista o Monte Evereste.

Depois daquele dia a vida da pequena Alice nunca mais foi a mesma, pois naquele dia ela fez uma amizade muito especial, como nenhuma outra que ela teve até então, naquele dia, a menina ficou amiga de uma árvore. E todos os dias, depois da escola e dos deveres, a menina corria pela grama, descalça, e escalava seu novíssimo e muito próprio castelo, que era aquela árvore. Com o passar dos dias, os pássaros já não mais se assustavam, e continuavam onde estavam, entre as folhas, conforme Alice se aninhava com eles, e assim suas tardes eram embaladas pelo suave balanço dos galhos ao vento. A menina tinha um companheiro, seu irmão canino, muito amado pela mãe de voz de mel, um belíssimo labrador branco amarelado, que era companheiro infalível dela e da mãe. Todas as vezes que a menina saia em direção a sua árvore ele ia atrás, e por quanto tempo ela ficasse aninhada em sua copa, ele estaria deitado em sua sombra, aguardando a hora de retornar ao castelo. Um verdadeiro e fiel escudeiro.

No castelo havia seis pés de manga, de três tipos diferentes. Desde que a menina se dava por gente, apenas cinco presenteavam seus habitantes com mangas. O sexto era sua árvore. Um dia, Alice estava entre os galhos e viu as mangas se formando. Não achou nada de estranho, e por isso não comentou com ninguém. Algum tempo depois ela adentrou o castelo com uma manga na mão e outra entre os lábio, já pela metade. A rainha estava presente e pediu a neta que lhe desse a manga da mão. Sentaram-se na cozinha e lancharam aquelas mangas ao sol da tarde. Na segunda mordida a rainha olhou fixamente para Alice e perguntou: “Essa manga é da sua árvore?”, já sabendo a resposta. A menina respondeu que sim, sem entender, mas via nos olhos da avó um sorriso raro. A rainha então esclareceu que aquela era uma manga-espada, a mais doce, mais tenra e sem fiapos, de todas as mangas que ela havia plantado ali muitos e muitos anos antes. E concluiu: “Só que nunca havia comido uma manga daquela árvore antes, ela nunca deu.” E sorriu. A menina entendeu, e agradeceu. Não à avó, mas à vida, querida.

Com o passar dos anos aquela amizade entre menina e árvore só crescia. E logo tornou-se seu local de leitura preferido. Escondia-se entre as folhas e lia livros inteiros, encarapitada em meio aos galhos. Sempre com seu fiel escudeiro aos pés. Não seus pés, mas aos pés da árvore. E sua saga literária começou. E a menina, já não tão menina, olhava a Vida Querida nas mãos, no parque, em 2014, e pensava, será que sou eu que reparo demais? Vejo coincidências onde não existem? Ou minha vida é assim mesmo? Isso porque a menina leu Harry Potter quando tinha onze anos, e, literalmente, cresceu com aqueles personagens, ano a ano. Claro, por questões de praticidade a autora demorou mais de sete anos para escrever os sete livros e a menina já contava vinte e um verões quando seus amigos literários chegaram aos dezessete, mas foram contemporâneos no melhor uso da palavra. E quando lia um livro triste, chovia, e quando lia um alegre, fazia sol, e quando lia uma poesia os pássaros cantavam.

Aos quinze ela ganhou da amiga O Mundo de Sofia. E sim, a menina ganhou o mundo. Pegou aquele livro grosso e correu para sua árvore, acompanhada de seu escudeiro. Abriu as páginas e leu no primeiro capítulo que Sofia era uma menina que recebia pelo correio lições de filosofia, que ela lia entre as folhas de uma sebe no jardim, acompanhada de seu labrador branco, e que suas lições começaram a chegar no ano em que completaria quinze anos. A menina, que já tinha lido Alice entre os galhos da árvore, fechou o livro. Lançou um olhar cheio de suspeitas para seu fiel escudeiro, e dia após dia, tornou-se também Sofia. O autor entrou rapidamente para sua lista de favoritíssimos, e a menina continuou a ver o que parecia serem os vários mundos dentro do mundo. E nunca soube se ela se deixava levar pela imaginação mais do que o normal, se lia demais, ou se sua mente é que expandia com cada um daqueles livros e suas coincidências.

Um velho. A menina teve sua visão da lagoa no parque, em 2014, subitamente bloqueada por um velho, que saiu abruptamente da trilha e parou em sua frente. Só então reparou que havia um garoto sentado na outra extremidade do banco. O velho queria desejar um ano bom, que os jovens fizessem o bem! A menina agradeceu educadamente, ainda um pouco assustada pelo acontecimento súbito. O garoto então disse: “Essas coisas aleatórias acontecem muito com você, né!”, não era uma pergunta, era uma afirmação. A menina não conhecia aquele garoto. Ela assentiu, conversou um pouco e depois foi embora do parque, pois o anoitecer já rondava. E ao ir embora pensou, sim vida querida, esse ano, pelo visto será cheio, e as coisas aleatórias estão cada vez mais óbvias e visíveis.

E embora o ano ainda esteja em seu primeiro trimestre, Alice já esbarrou no coelho, com pressa, e até mesmo sem pressa, em outros recantos, ou miolos, da cidade. E cada nova música que a menina ouve no início ou fim de cada dia, a cada canto de pássaro, a cada página lida de cada livro novo, cada vez mais a menina vê as palavras do seu script pessoal no ar da vida, querida. E as realidades se misturam. E só agora, mais de dez anos depois, Alice percebe que sim, a Sofia saiu das páginas de um livro, e virou vida. E assim, enquanto a menina, agora Sofia, sai do livro para a vida, a vida torna-se livro, nas mãos da Alice Sofia.

Sobre as fases da vida: O Hoje

Desde de muito criança, algo com meus seis ou sete anos, tomei as rédeas da vida em minhas próprias mãos, claro, sempre tive uma orientação cuidadosa, vista muito de perto, mas fui criada para saber tomar minhas próprias decisões e depois viver com elas e suas consequências. Agradeço a Deus todos os dias por isso! Já me salvou a vida, literal e metaforicamente várias vezes.

Mas isso também me gerou um senso de responsabilidade e obrigação muito grandes, e sempre ponderei muito bem minhas ações e decisões, tendo um traço de organização e planejamento muito fortes, quase irritantes. Nunca me incomodou, aprendi de cedo que é melhor fazer as coisas bem feitas uma vez só do que sair por ai corrigindo erros.

Meu planejamento sempre deu certo porque sempre tive planos A, B, C, e quiçá D, para cada situação na vida, sendo assim muito raras as ocasiões em que estes foram frustrados. E sempre cumpri minhas metas, o que dificulta que os planos sejam frustrados. Ainda mais importante, aprendi a ser bambu, e me curvar com o vento forte, ajustando rapidamente os planos e metas quando necessário.

Nos últimos anos da minha vida naveguei por uma boa dose de tormentas, segui o curso, apesar de muitas vezes não ver o caminho. Sempre soube onde queria chegar. Há aproximadamente dois anos me vi numa encruzilhada realmente nova, não sei mais onde quero chegar. Não concretamente. Não tenho mais o emprego dos sonhos, ou a vida dos sonhos, o curso dos sonhos ou a viagem dos sonhos. Alegro-me em dizer que já fiz a maioria desses, check and done on my bucket list! Ainda assim, sei muito bem e cada vez mais como quero viver. O que mudou muito foi meu foco: não penso mais no trabalho que quero ter ou em como minha aposentadoria será. Penso no meu dia-a-dia. Penso no que quero sentir todos os dias e não um dia, quem sabe.

Quero viver tudo de bom que estiver disponível para eu viver hoje, e o que for de amanhã, amanhã. Os planos e as metas continuam ai, sei onde devo ir e onde quero chegar, porque sei como quero me sentir. Mas os nomes, os títulos, esses não me importam mais da mesma forma. Ainda sei o caminho do rio, e as rédeas estão em minhas mão, mas perdi o medo de cochilar sobre o cavalo, já sei que não vou cair. No máximo, quando acordar, estarei algum metros pra lá da rota, facilmente contornáveis, e nessa dita volta, possível perda de tempo, no meu antes tão caxias raciocínio, agora vejo como uma possibilidade. Quem sabe não me aguarda, pela beleza de um dia, uma flor do deserto, ou um pássaro raro.

Quero viver a bonança agora, e justamente por saber que minhas mão não soltaram o timão em plena tormenta, não tenho mais receio de deixar o barco um pouco à deriva, só o suficiente para me deixar surpreender. Não me permitia a surpresa a muito tempo. Agora sei que se não for uma surpresa boa, é só voltar, é só seguir em frente.

Estava, literalmente dessa vez, no meio do Lago Paranoá, outro dia, quando me veio, assim como o vento cantando em meus ouvidos, uma passagem d’O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, que li a mais de uma década, e me senti de novo, a pulga do pelo do coelho do mágico, que sobe o pelo para ver além do coelho, que vê além da cartola, e se maravilha com o mundo, simplesmente porque ele é.