Sobre as viagens

 

Sempre tive esse coração nômade, minha casa é onde está meu coração (Skank – Nômade)

 

 

Durante minha infância e adolescência viajei com certa frequência, mas para poucos destinos. Eu e minha eterna companheira, minha mãe, dona Bia, viajávamos sozinhas, e com orçamento muito limitado, por isso nosso destino de férias era sempre a casa da família de coração na Bahia. Dona Bia garantia hospedagem e umas boas férias para nós duas, entre primas e amigas, sempre tínhamos companhia.

O cheiro do cuscus amarelinho, com leite de coco tirado do pé naquela manhã, as granolas caseiras, a maresia e as histórias do interior coronelista de Dona Zelita. Assim meus dias começavam a cada férias. O cheiro das algas na praia, as pegadas de tartaruga, a descoberta dos pequenos ovos. Eu não tinha mais do que 5 anos, e falei para minha mãe, com uma certa vergonha, que ela estava precisando de um banho, ao que indignadíssima ela retrucou perguntando se eu achava que aquele cheiro vinha dela. Eu fiquei meio sem graça e assim descobri o sargaço, ou a alga que apodrece na areia.

As conchas bolachas, o salvamento das caravela, o cuidado com os ouriço e a eterna caça aos tatuís. A água de coco, o picolé de acerola, mangaba ou umbu. O suco de mangaba que prega a boca. O bolinho frito de peixe, que na época ainda fazia parte da minha alimentação, e os acarajés ao por do sol. Todos compunham os cheiros, as cores, os sons, e os sabores das minhas férias.

Confesso que a primeira vez que presenciei uma caranguejada fiquei chocada, não quis participar e fui dormir mais cedo. Aos poucos a idade e a banalidade da vida me fizeram entender que aquilo fazia parte das iguarias da praia, mas nunca consegui concordar ou gostar. Os picolés, as frutas e o coco sempre foram mais meus amigos nesse ponto.

 

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Uma das melhores partes da praia era a pouca roupa. Nunca fui muito dada às mil camadas de roupas. Até hoje amo um shortinho, e passar a infância só de calcinha de biquíni fez parte. As queimaduras de sol, o ouvido cheio de água e os machucados também. Sempre fui muito desastrada. Mas algumas das melhores lembranças que tenho são do sentimento de aventura.

 

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Hoje em dia sei que essa aventura toda tinha muito mais relação com o orçamento limitado da minha mãe do que com um estilo de vida, embora ela sempre tenha sido hippie, e preferisse deliberadamente as cabanas de praia, os bangalôs, as pousadas, as redes na varanda, o chão de areia e as miçangas aos hotéis e resorts. Ouso dizer que havia até um certo ressentimento quanto aos últimos, que geralmente isolam parte das praias como se fossem privadas e cobram pelo uso, o que a deixava louca.

Seja como for, nós pegávamos os vôos da madrugada, porque eram consideravelmente mais baratos e ela não se arriscava a ir de carro sozinha, comigo pequena e o carro velho. Dormimos muito em aeroportos. As malas eram as que sobravam do resto da família. Aqueles sacolões que hoje em dia as pessoas usam para ir à academia, cilíndricos e grandes, com alças curtas e sem estrutura, além da minha fiel mochilinha. Tive a mesma mochila dos 7 aos 28. Isso somado ao fato de que minha mãe sempre levava os próprios travesseiros, então basicamente a imagem era a de uma mulher muito magra e sem força, chutando um cilindro enorme e pesado, difícil de carregar, cheio de roupas e roupas de cama, um travesseiro embaixo do braço, e uma menina muito curiosa, que precisa(va) ir ao banheiro muuuuito mais vezes que o conveniente, de mochila, uma Barbie na mão, um boné e uma garrafa de água, chutando a “mala” toda vez que ela caía no chão. Eramos quase uma trupe de circo.

Toda essa situação fez com que eu me acostumasse desde muito nova a viajar com pouco peso, dormir em aeroportos, portos, trens e ônibus. Sempre ter meu lanche, afinal comida nesses lugares é difícil de achar, cara e pouco saudável, e essas sempre foram três preocupações da minha mãe. Creio que podemos dizer que éramos farofeiras. Que bom! Isso fez de mim uma mochileira sem frescuras!

Além dessas, quase todo ano eu ia a Pirenópolis, cantinho maravilhoso, pertinho de Brasília, onde nasci e cresci. Os banhos de cachoeira, as trilhas, as pedras escorregadias, o sol inclemente nas trilhas longas, o choque térmico entre a temperatura do ar e da água, a seca, os animais, os insetos, as picadas que doíam por dias, os encontros com macacos, cobras, araras, mil outros pássaros, borboletas azuis gigantes (das quais sempre tive medo) e as bananas para os micos. Tudo isso aprendi lá. Foram inúmeras as viagens com primos, amigos, colegas, às vezes com a escola, às vezes com algum tio, e sempre, com quem estivesse indo. Até hoje não perco uma oportunidade.

Outro dia conto pra vocês as especificidades, tipo roteiro turístico mesmo, dessas viagens e localidades. Aqui, hoje, quero só abrir esse espaço, e contar um pouco da minha trajetória de viajante. Ou como sempre, fazer minhas reminiscências! Afinal, as viagens iam além da Bahia e de Pirenópolis. Eu cresci numa casa com um jardim enorme e uma área verde maior ainda. Cheio de árvores, muitas frutíferas, tínhamos amendoeiras e abacateiros, três variedades de manga distribuídas em seis pés, quatro jabuticabeiras, limoeiro, e também pitanga, acerola, amora, ameixa amarela, fruta-do-conde, e lima. Sem falar na erva-cidreira, hortelã, orégano, tomilho e manjericão. Cenoura, alface e couve. E a babosa, hoje conhecida de forma chique como aloe.

 

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E nesse jardim incrível eu viajava diariamente. Desde muito pequena, algo como meses de idade, frequentei a piscina e o balanço, fiz minhas festas, tomei banho de mangueira, aprendi a jogar vôlei, e a nadar. Compartilhei esse paraíso com primos e amigos, e muitas vezes, sozinha, com bonecas e livros. Sempre preferi ler em cima da árvore. E tinha minha mangueira preferida, com suas mangas espadas sem fiapo, maravilhosas, de lanche da tarde.

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Li O Mundo de Sophia inteiro emaranhada nesses galhos. Chorei todas as dores da adolescência aí também. Aprendi a respeitar os ciclos da natureza e aprendi a conhecer os meus.

 

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E ela foi minha companheira por muitos anos, até os 18, quando nos mudamos dessa casa!

 

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Seja pela família maravilhosa que sempre tive e que sempre me estimulou a ir mais longe e a sair para o mundo sempre, seja pelo orçamento restrito ou pela origem hippie, seja pela curiosidade intrínseca. Acabei mochileira. Ficou o amor intenso por explorar o mundo, por ir em busca do desconhecido.

Espero poder compartilhar outras viagens aqui. Algumas conterão mais memórias, reminiscências, outras serão relatos mais práticos.

Gostaria de ressaltar que essas fotos são do meu aquivo pessoal, tirei fotos das fotos, e a opção por não editá-las e deixar como foto de foto é uma opção consciente. Como se estivesse apenas colando recortes em meu diário. Sintam-se convidados a ler um diário pessoal e a conviver com um estilo pessoal.

Não inseri créditos pois não sei quem foi o fotógrafo de todas. Algumas foram tiradas pela minha mãe, outras por mim, outras por amigos, e familiares. Alguns mais profissionais e talentosos outros menos. Bem vindos a mais uma janela do meu mundo! E vamos viajar juntos!

 

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Borboletas e o Tempo

A menina era Alice nessa noite. Tinha sido levada mais uma vez por Absolem para uma terra de elefantes velhos, e seus cemitérios. E aqueles grandes notáveis a tinham feito pensar muito. Pensar sobre a vida, sobre as marcas do tempo, sobre as imperfeições do mundo. Mas hoje a menina não estava conseguindo se concentrar nos diários que as viagens com Absolem requeriam. A menina, apesar de muito Alice nessa noite, era também Jurema. Jurema estava cada dia menos dissociável das demais meninas, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e tantas outras.

A menina estava em outra toca. Havia a toca de Absolem, mas havia outras, em outras paragens, e a menina, Alice que era, vivia se perdendo naqueles túneis fantásticos da vida surreal que vivia, tão real. Sua mente divagava sobre uma queda não muito distante. Naquela outra noite Alice havia caído num túnel sonoro e acordado num belo jardim. Riu da coincidência e lembrando-se que, sendo Alice, era muito curioso e conveniente acordar num belo jardim, mesmo que daquela vez não fosse Absolem que a tivesse transportado.

Esse jardim era belo, simples. Um pequeno lago na parte baixa. Num primeiro olhar parecia ser um lugar com poucos detalhes. Minimalista até, embora enorme. Aos poucos, conforme a luz do sol ia aquecendo seu corpo, despertando suas pernas, acordando sua mente, a menina Alice começou a achar os tesouros daquele jardim. Primeiro foram as corujas, duas pequenas amigas arregaladas e pintadinhas, que a olhavam da grama, vigiando seus próprios buracos. Mais tarde a menina foi sendo guiada, e descobriu as galinhas e galos, e perus. Descobriu os coelhos, de várias cores. As laranjas no pé. A lama, a grama e o sol.

E sua mente foi ainda para outro momento. Outro dia, outro sol. Num momento ainda mais surreal, embora o surrealismo estivesse competindo duramente com a realidade na sua vida de Alice. Entre telhados surreais de fato, conversando sobre o mundo, a menina lhe disse “Sabe, o problema é que tenho medo de borboletas!”, ao que ele lhe olhou chocado, como costumava acontecer e disse “Como? Elabore, por favor!”. Elaborar? Bom, isso era um pouco menos usual que o choque. A menina pensou muito, as palavras lhe escapavam, momentos de pouco domínio sobre essas danadinhas que lhe enganavam, torcendo a língua antes de lhe escaparem por entre os dentes. No papel, elas ficam presas, eternas nessa transferência entre mundos. Na boca, elas se perdem no ar, e voam longe. Mais perigosas do que borboletas.

“Tenho medo de borboletas. Simples assim. Sei que não é racional. Simplesmente fico aterrorizada na presença de borboletas. Admito que são muito bonitas, e delicadas. Mas prefiro que fiquem lá, longe de mim.” E ele lhe respondeu: “Mas borboletas não apresentam perigo nenhum! Não vão te machucar, não vão te fazer nenhum mal. Porque isso?”. A menina respirou fundo. Era tão difícil explicar. “Não é um medo normal. Como algumas pessoas tem medo de feras. Eu enfrento o que for. Bestas feras, monstros mitológicos, ratos e baratas, cobras e onças. Mas borboletas não!”. Ele tentava entender. Não era uma insistência baseada na irritação. Parecia querer que a menina pensasse mais sobre aquilo. “Entendo ter medo de leões, ou tubarões. Tenho pânico de tubarões. Mas de borboletas”. “Acho que é isso.”, Ela respondeu. “Não é medo. É pânico. Irracional. São aqueles bichinhos nojentos. Às vezes até fascinantes, pelas cores. Mas perigosos, venenosos. Queimam, machucam. São pequenos e fascinantes, mas fazem mal. E vivem para comer, até que se transformam. Criam asas, e saem por ai, se espalhando.”

A menina já estava arrepiada. Ele lhe olhava como se visse algo curioso. Continuou: “Mas é isso, se transformam. Não há nada mais incrível que a transformação. E depois que ela acontece, já não apresentam risco nenhum. Voam por ai, sim. Mas apenas para polinizar. Espalhar cor, alegria, vida, boa sorte. Nada mais. Não há o que temer.” A menina pensava. Ele tinha razão, é claro. Mas como explicar o pânico? O pânico é irracional. Não há explicação. Só a paralisação do medo. A inutilidade. A inação. A falta. O vazio.

A menina Alice estava no jardim. Observava a grama, a lama e o sol. Ele lhe disse: “Olha! Uma borboleta!”, e olhou sua reação. A menina já havia visto a borboleta de esguelha. Seu olhar captado pelo leve movimento. As vibrações daquelas pequenas e levíssimas asas. Ficou imóvel. Ele prosseguiu: “Parece ser uma daquelas borboletas curiosíssimas, que tem um número na asa. É o número 8, não?”, o tom era entusiasmado, mas ela sentia a leve tensão no ar. E, apesar de imóvel, continuava olhando a borboleta. Era muito pequena, muito mesmo. Não havia qualquer razão para teme-la. Mas, de novo, não era uma questão racional essa.

Ele, com um leve sorriso no rosto, continuou falando: “São raras essas? Não sei. Mas nunca vi uma antes? Você já? É mesmo uma daquelas com o número? Você consegue ver o número? Não dá para ter certeza sem ver, dá?” E o olhar da menina acompanhava o bater daquelas asas. Ela tinha quase certeza de que era a borboleta do número nas asas. Mas de fato, não dava para ter absoluta certeza sem ver.  A borboleta pousou numa folha há cerca de um metro, talvez até menos da menina. Sua respiração era controlada, e os movimentos precisos. Sem tirar os olhos da borboleta, ela ajoelhou.

Ele perguntou de novo: “E aí? Viu o número? É mesmo uma daquelas?” e ela respondeu: “Parece que sim, mas não dá para ver o número daqui. Mesmo de óculos, precisaria chegar mais perto para ter certeza.” Ele riu baixinho: “ Tá com medo?”, e a menina Alice, controlando a ironia, o pânico, que já não sentia na forma de pânico, talvez um leve desconforto, respondeu: “Bom, eu não fugi ainda né! Talvez não consiga chegar tão perto assim agora, mas to aqui, paradinha.”. Ele ajoelhou também e disse: “É um bom começo. E olha só, ela pousou. Talvez assim te dê um tempo para ver melhor. Talvez até para ver de mais perto, e ter certeza se é ou não aquela borboleta rara”, levantou e saiu.

Na noite de hoje, entre elefantes, a menina não se lembrava mais quem tinha voado primeiro, ela ou a borboleta. Mas sabia que não tinha fugido. E talvez, com o tempo, aprendesse a ver as imperfeições, as marcas, os números nas asas, as rugas dos elefantes. Talvez.