Outono

Tiro o casaco impermeável, mas fico com preguiça de tirar o gorrinho da cabeça. Passei o dia todo com as botas de caminhada nos pés, embora tenha saído só um pouco pela manhã e uma voltinha com o cachorro à noite. As meias que vinha usando já me parecem finas nos pés, oferecendo pouco volume entre meus dedos e as palmilhas, que ao caminhar esfriam rapidamente, apesar das solas grossas da bota. Ao tirar as botas os pés esfriam rápido demais, apesar das meias frias. No meia da tarde fui revirar meu saco de meias e puxar para o topo as meias grossas de inverno…

Coloco a xícara de chá na mesa. É a terceira do dia. Pela manhã tomei rooibos com framboesa. Após o almoço uma infusão de hortelã e agora à noite uma de camomila. Quando sentei para ler um pouco, no fim da tarde, me enrolei na manta peruana que mora no sofá. Conseguia sentir nos braços a na parte da baixo das canelas a diferença térmica das coxas e abdômen, aquecidos pela manta e o resto não. Ainda não é tão frio, não estou de casaco em casa, não tremo de frio sem essa roupa toda, mas a manta, o cachecol e o gorro me dão aquela relaxada extra, que só um toque morno, de carinho, de massagem, de amor, nos trazem. É outono.

Não oficialmente, ainda claro! Essa mudança oficial chega essa semana, mas o outono chegou uns dias antes, pra já ir avisando à que veio. Essa noite chegaremos a 0ºC na madrugadinha. Depois ainda vai esquentar um pouco, até o fim da semana o sol abre um pouquinho, entre nuvens, e ficaremos entre 22º e 8º, mas hoje a máxima foi 18º, com chuva fina, céu cinza. Mas não é o cinza que dói, que desanima. É o cinza mais caloroso que eu conheço. Aquele clima que faz a gente ficar feliz de estar junto, aconchegado no sofá, debaixo das cobertas! É o clima perfeito pra dormir de conchinha, pra ver filme debaixo das mantas comendo pipoca recém-feita, pra abraçar o cachorro e cochilar depois do almoço, sentindo o calor que emana de cada outro ser dentro da casa.

O outono pra mim é amor! É a estação mais calorosa! É quando estar junto é mais gostoso, mas não indispensável! No verão é quente demais para ficar tão junto, tão perto. No verão, quando o suor se mistura é por pouco tempo, e existe um calor que vem de fora, que nos faz precisar de um espaço, físico, mental e emocional para não derreter, sucumbir sob o mormaço. O inverno é quando estar junto é sobrevivência. É um tempo muito estéril, de muita reflexão, de mente solitária, ativa, afiada como o gelo sob a neve. O estar junto, quando possível, não é escolha, é necessidade. A primavera é quando a gente ganha a independência, e embora estar junto ainda não seja tão desafiador quanto durante o verão, já é possível estar longe e depois do longo inverno nada melhor que sair por aí, andar, respirar o ar fresco, e tomar o sol morno, ver as flores surgirem.

O outono não, não por acaso o mundo fica amarelo, laranja e vermelho. As luzes e as cores representam esse calor, tão humano, tão animal, tão do aconchego, tão do outono. As mãos agradecem a xícara de chá quente nas mãos, as orelhas agradecem o gorro na cabeça e os pés ficam gratos pelas meias grossas. Mas ainda não é necessidade, sobrevivência, é amor, afago, aconchego! É quando tudo fica propício para o carinho e o cafuné, uma conversa um volta da fogueira, uma lareira, um chocolate-quente.

O gorro finalmente sai da cabeça e as botas dos pés, quando com uma mão vou despindo-os e com a outra bato no teclado, pois é dia das palavras saírem. o chá já acabou, e a louça ainda precisa ser lavada. Com água morna. O cabelo só vou lavar amanhã. Começou aquela época da minha predileção de banhos no meio do dia, quando ainda é quente e não preciso do secador.

Ah, meu querido outono, que bom que você chegou! A gente vai se amar muito nesse aconchego de carinhos e cores mornas, enquanto a chuva vai acalmando os ânimos lá fora, limpando as farras do verão, e preparando o mundo pra neve do inverno. Enquanto isso os livros, os chás, os chocolates, as pipocas quentinhas vão se tornando tão especiais! Ler um livro debaixo das mantas passa a ser o melhor hobby do mundo, e o banho morno devolve a sensibilidade dos dedos dos pés e das mãos, transformando esse simples hábito higiênico diário em mais um ato de auto-amor!

Agora vou para minha ducha quentinha, e o pijama vai ser completado com as meias grossas e um casaco molengo bem enrolado no corpo. Depois quem sabe, mais um chá ou um chocolate-quente antes de dormir.

Vem, outono! Vamos se amar muito! ❤

Saúde

Há uns tempos atrás uma amiga muito querida me pediu/sugeriu escrever um post sobre saúde. No começo resisti muito, pois não sou nada da área de saúde e não posso ficar dando conselhos sobre isso por aí. Mas depois reli a sugestão dela e me veio na cabeça escrever sobre o que sempre escrevo: sobre mim! Sobre minha experiência, minha história, meu diário.

Vou contar um pouquinho do meu histórico aqui: nasci prematura, de 7 meses, pesando pouquíssimo mais de 1kg, para o desespero da minha mãe. Mas não tive nenhuma sequela. Na verdade, menos de 12h depois do meu nascimento, já não precisava de nenhum cuidado especial, nem os que normalmente crianças de 9 meses precisam. Mas não conseguia me alimentar. Fui alimentada por sonda por 45 dias, com leite materno, da minha mãe e de muitas mães de leite que eu tive!

Esse fato poderia ser irrelevante não fosse o detalhe que ele provocou na minha mãe e na minha avó: as obsessões alimentares. Ambas sofriam de anorexia, não diagnosticada, mas bastante óbvia se acompanhada de perto. Acho que quando eu nasci ainda não sofriam, ou não estavam em período de crise, mas ambas tinham problemas com depressão, ansiedade, minha mãe teve em diversas ocasiões crises de pânico, e no final da vida de ambas a anorexia se tornou evidente.

Desde sempre lembro de minha avó fazer comentários um tanto quanto maldosos sobre o peso, dela, meu, de primas, da minha mãe, e outras pessoas. Então creio que mesmo que não estivessem sofrendo com o baixo peso excessivo naquele momento, o tópico dos transtornos alimentares sempre esteve ali, rondando, sabe?! Mas o fato de eu ter nascido prematura e muito pequena teve um efeito, positivo ou negativo é discutível, e ambas me empanturraram de comida na infância: óleo de fígado de bacalhau, Biotônico Fontoura com sementes de sucupira mergulhadas, pernas de rã (que eu não gostava), rins (sempre odiei), foram uma infinidade de suplementos famosos na época que fizeram parte da minha dieta.

Resultado: aos 8 anos deixei de ser a menininha magrela que tinha sido até então e entrei numa fase mais cheinha, que demorou pra acabar, e que se de um lado me superalimentavam, de outro faziam os comentários ácidos sobre peso e aparência, e isso gerou uma pré-adolescência bastante sofrida em termos de auto-imagem corporal. Isso vem, pra mim, do lado negativo.

Do lado positivo, vem a combinação de uma mãe hippie e uma avó criada em fazenda. Sempre comemos tudo feito em casa, com muuuuuita fruta, pomar em casa, horta, muita verdura, muita planta. A sobremesa de segunda a sexta era fruta. Durante as refeições só água. Sucos como lanche da manhã ou tarde. Nada industrializado. Nos fins de semana, às vezes um refrigerante ou uma sobremesa feita de chocolate, leite condensado, essas coisas, mas eram eventualidades. Nunca me foram proibidos, mas foram desencorajados. Até porque, lá em casa, o que era visto como relíquia, tesouro, algo a ser desejado, era uma boa goiabada com queijo de fazenda, doce de fruta em calda, pudim de leite, ou ambrosia goiana (a versão da família da minha avó, o famoso “doce de ovos”, era muito melhor que qualquer ambrosia que já tenha comido fora de casa!).

Com minha mãe veio o hábito das vitaminas, abacate, castanhas do pará (ou do Brasil, como tem sido chamadas), leite de soja. Além da babosa no cabelo, cultivada em casa (o famoso aloe vera), o creme de abacate no cabelo, o chá de camomila no meu cabelo loiro da infância, o óleo de uva na pele, e essas coisas que hoje em dia estão sendo consideradas o máximo em termos de produtos de beleza orgânicos e naturais, e que na minha infância eram apenas os reflexos hippies de quem acreditava num mundo mais natural e ao mesmo tempo não tinha grana pros produtos industrializados. Aliás, minha mãe ficaria entre o irônica e furiosa com os preços cobrados hoje em dia por uma vitamina de abacate ou um xampu de aloe vera.

Mas essa mistura me fez crescer num ambiente que foi marcado por uma alimentação saudável, em sua maior parte, e por pessoas que evitavam correr para os remédios convencionais. Minhas dores de ouvido eram tratadas com compressa de farinha de mandioca, e a dor de garganta com chá de gengibre, cravo e canela que dava suadouro. A tosse do inverno com café com uma colherinha de manteiga e mil outras crendices, que sem entrar na discussão de se funcionavam ou não, se são respaldadas pela medicina atual ou não, de fato, fizeram com que eu crescesse bem, saudável, com peso e altura sempre muito elogiados pelos pediatras e sem me entupir de remédios. Aliás, remédios eram vistos como última instância, e mesmo assim, na maioria dos casos, homeopáticos.

Eu cresci então com essa visão, mas só anos depois, e bem recentemente, percebi o impacto real dela em mim. Até hoje tenho mania de tentar resolver e definir tudo pela alimentação e hábitos relativos ao sono, controle do estress, cansaço, etc.

Em outros pontos a criação não ajudou muito. Embora meu avô tenha insistido que aprender a nadar era uma questão de sobrevivência, e antes dos 2 anos eu já nadasse sozinha e sem boias, numa piscina que não dava pé, e tenha feito natação até os 18, a prática de atividade física regular não era uma coisa vista como essencial. E demorei muito pra encontrar um jeito de manter o corpo em movimento na vida adulta que eu gostasse. Sempre odiei os esportes competitivos. É uma visão bem pessoal.

Mas o resumo é que nunca fumei, muitos em minha família fumaram e eu odiava com todas as minhas forças. Bebi muito pouco, em uma breve fase que logo abandonei, e agora já completo anos sem álcool. Nunca, Jurema? Nunca, nem uma tacinha, nem às vezes. Não!

Então, para falar de saúde, primeiro tenho que deixar isso claro. Nunca usei aparelhos dentários, nunca tive cáries, nunca fiz cirurgias, nunca fumei, não bebo uma gota há anos, não uso drogas e entorpecentes de nenhum tipo, cresci com uma alimentação bem saudável, que vem se tornando cada vez mais. Não como carnes de nenhum tipo há anos também. Sempre bebi muuuuuuita água, e chás!

Com meu marido, aprendi que o chá muito quente pode fazer mal ao estômago, por danificar aos poucos a mucosa, com o líquido muito quente. Fui pesquisar e descobri que é por isso que as xícaras de chá orientais não possuem local para segurar afastado do copo. Se estiver muito quente para segurar com a mão cheia, não deve ser ingerido, e passei a adotar a técnica. Só bebo o chá quando consigo segurar a xícara com ambas as mãos por pelo menos um minuto sem sentir incômodo.

Sempre que me sinto mal, o que não é frequente, analiso bem minha situação emocional, as mudanças de vida, a alimentação, e tento trabalhar isso antes de recorrer a remédios. Aprendi com o tempo os efeitos que o clima tem em mim, não lido bem com o calor forte, especialmente o mais úmido, tenho respeitado mais minha digestão, e meu corpo, meus horários naturais de sono, de ir ao banheiro, etc.

Algumas coisas e pessoas foram e são fundamentais nos meus processos de auto-conhecimento e saúde. Um dos que mudou minha vida foi um nutricionista, de Brasília, que me ajudou na transição para o vegetarianismo, e também me ajudou muuuuuito com auto-conhecimento. Foi uma das pessoas que mudou minha vida. Outra foi uma médica homeopata em São Paulo, a única que resolveu depois de 17 anos, meu problema com cólicas menstruais. Dos 12 aos 29 sofri horrores com cólicas, com mil histórias tensas, de ter que ir da escola para o hospital, de tomar superdose de medicamentos para cólica, enfim, sofrimentos variados, e infelizmente, considerados normais, por muitas mulheres. Há 2 anos e meio não sinto mais cólicas debilitantes, minha menstruação não é mais um período temido e sofrido, e embora às vezes ainda tenha cólicas leves, aprendi como resolvê-las e aprendi a me respeitar nesse período, me recolhendo mais, e respeitando minhas necessidades de descanso e paz!

Outra coisa que mudou minha vida e minha relação com meu corpo foi o Método DeRose! Pratico desde 2014 e cada vez aprendo mais, gosto mais, descubro mais. Ainda falta muito nessa jornada, mas nem consigo enumerar aqui tudo que ele me trouxe de bom, não só em termos de saúde, mas de autoconfiança, desenvoltura, e muitas, mas muitas ferramentas, pra lidar com o dia-a-dia, com minhas emoções, com a vida em geral.

Eu não sei se consegui, com esse post, responder pra minha amiga Nay como cuido da minha saúde, mas é isso aí. E sinto que ainda tenho tanto pra mudar, tanto pra aprender! Cada mês é uma nova descoberta sobre como lidar comigo mesma e com os outros. E me sinto cada vez melhor!

Não viaje só para tirar fotos

Post rápido, só pra compartilhar com vocês um pequeno texto que li e concordei muito.

Nas minhas andanças, muitas vezes vejo as pessoas que estão ali, naqueles locais incríveis, apenas para tirar a foto com jeito de quem bate o ponto, e sair rápido em busca da próxima selfie, do próximo destino, da próxima compra. Muitas pessoas não sabem nada sobre os locais que estão conhecendo, não leem a respeito antes, durante ou depois (eu muitas vezes prefiro ler durante ou depois, para ter uma primeira impressão “não contaminada” das visões dos folhetos e guias, mas em outros momentos prefiro planejar bem, depende da viagem), não interagem com os locais de verdade. A impressão que tenho é que algumas pessoas não querem sair da mesma vida globalizada de sempre, com as mesmas lojas, comidas, caras e roupas e apenas tirar selfies com “fundos” diferentes, como se fossem o gnomo da Ameliè Poulain.

E penso também nas pessoas que gostariam de viajar e não podem financeiramente, ou que não conseguem por questões de medo, ou insegurança, e que são muitas vezes pessoas que conhecem os lugares, por livros, guias, mais do que locais!

Então é preciso juntar essas paixões! Se você pode viajar, faça uma viagem envolvente, que te mude de fato! Leia a respeito, pesquise e vivencie o local para além das selfies clichês dos pontos turísticos e da balada famosa. O mundo ainda é muito grande e diferente.

E se você gosta tanto de ler a respeito e sonhar, vá! Tome coragem, planeje-se financeiramente e em relação ao tempo e as dificuldades da vida. Muitos viajam com pouco, comendo comida feita em casa, pegando caronas, dormindo em casa dos outros. É possível, com um pouco de esforço e planejamento!

De todas as formas, por favor, viaje muito e viaje com a cabeça aberta e volte diferente, sempre!

Não vá viajar apenas como turista, pra tirar algumas fotos, postar no Instagram e voltar pra casa

“Eu sempre acreditei que, ao fazer uma viagem, o mais importante é ter a cabeça aberta.  Cabeça aberta e livre de preconceitos pra entender a cultura que você está emergindo. Pra experimentar as comidas típicas e fugir dos fast foods americanos. Pra conversar com os locais além de taxista, garçom e atendente do hotel.

 E eu te peço, não vá viajar apenas como turista, pra tirar algumas fotos em frente à monumentos, postar no Instagram e voltar pra casa.

Explore os lugares que você visita. Converse com as pessoas, ande sem direção pelas cidades, mergulhe de cabeça nas diferentes culturas que você conhecer ao longo da sua vida.

Deixe o mapa de lado e se perca. As vezes é se perdendo por uma cidade desconhecida que você se encontra na vida.

Se for um país pobre, não ande com medo dos locais.

Se for um país rico, não o ache melhor que os demais países. 

Entenda e respeite as diferenças de cada lugar.

Dessa forma, você terá sempre um pouquinho de cada cultura dentro de si, e nunca andará sozinha por aí.

 Não volte de uma viagem do mesmo jeito que chegou, apenas com umas fotos bonitas a mais no celular e uns dólares a menos na conta do banco. 

Volte sempre diferente, com novos aprendizados, novos amigos, novas histórias.

O conhecido já estará te esperando em casa, pra quando você voltar.

Fuja o máximo possível dele enquanto estiver longe.

Brinque com as crianças na rua, compre comida nas feiras, ande de transporte público, se vista com as roupas típicas, saia a noite com os locais.

Se uma viagem não te desafiar a sair da sua bolha, ela não estará te agregando em nada.

Crie laços com o desconhecido, é ele que vai te levar mais longe.” 

Texto da Amanda Areias disponível no: Mochila Brasil.

Dicas de trilha – alimentação

Essa série das dicas de trilha já contou com dois outros posts, o Calçados para trilha e Dicas de trilha – vestuário, e agora resolvi falar um pouco sobre alimentação na trilha. Primeiro tenho que lembrar mais uma vez aqui que não sou nutricionista nem chef, e que você sempre deve consultar o seu profissional da saúde, especialmente se tiver restrições alimentares. Dito isso, lembro ainda que somos lacto-ovo-vegetarianos.

Quando fazemos trilhas costumamos sair cedo e eu sempre tive dificuldade para comer bem logo que acordo. Parece que meu estômago só acorda umas 2h horas depois do cérebro. A solução que encontrei foi ou comer um pouco mais tarde, quando possível, ou tomar uma vitamina se precisar comer algo e sair rápido. No caso das vitaminas gosto de bater uma fruta com chia, linhaça, aveia, ou uma combinação desses. Às vezes acrescento um scoop de proteína vegetal.

Para um dia de trilha levo um pão e queijo, ou já faço os sanduíches em casa ou levamos e fazemos na hora. Um pacote de castanhas, amendoins, amêndoas, etc. Aqui na Catalunha achei um mix maravilhoso, que inclui amendoins, amêndoas, milho peruano, flocos de arroz e outras misturas de nozes e cereais, salgadinho e baratinho! O pão com queijo é geralmente o “almoço” e as castanhas e cereais salgados o “lanche do fim da tarde”. Sempre levo também umas barrinhas de cereais, às vezes proteicas, doces. Para trilha, especificamente, gosto de levar as cobertas de chocolate, pois com a caminhada montanha acima, a gente precisa de uma energia extra e rápida. Umas frutas também costumam ir na mochila, secas ou frescas, uvas passas, damascos, ou maçãs e pêras (bananas eu amo, mas tendem a amassar muito ou estragar com o calor).

Uma outra coisa são biscoitos e bolachas, simples, doces ou salgadas. Eu sugiro evitar as recheadas, que além de serem muito doces, podem “derreter” o recheio ou estragar no calor. As salgadas tipo crakers são ótimas e as doces integrais, com aveia, tipo digestivas, também funcionam muito bem nas trilhas.

Nunca fazemos uma “refeição completa” na trilha, pois encher o estômago na caminhada é um erro. O corpo fica lento e pesado. E a chance de sentir enjoo, gases, e outros desconfortos aumenta. O esquema é comer de pouco em pouco, pequenas quantidades e menos durante a subida. Ao chegar la em cima dá pra fazer um pique-nique de reposição e depois descer, que tende a exigir menos do fôlego. De qualquer forma, a alimentação deve ser leve o dia todo.

Se o clima estiver quente e com sol forte, coma menos ainda. O calor deixa a digestão mais lenta. Nos dias mais quentes compensa levar uma bebida, ou pó de bebida, com reposição de sais, como um gatorade, ou pó de bebida de treino esportivo, que também confere um aporte de energia rápida e sem pesar o corpo.

Na volta, à noite, costumo fazer um macarrão, pois chegamos com bastante fome por ter comido pouco ao longo do dia de esforço. Ou um arroz com grão-de-bico. Às vezes omelete, quando voltamos pra casa no mesmo dia.

Quando acampamos o esquema é o mesmo. Convém lembrar que no acampamento as refeições da noite devem ser de preparo rápido, mas precisam alimentar bem, pois são a única refeição de fato do dia. Se você comer muito pela manhã, o corpo vai ficar pesado, se for pegar estrada de montanha de carro, antes do ponto da trilha, pode enjoar muito. Se tiver estrada de montanha, prefiro nem comer nada, e ao parar o carro, antes de começar a caminhada, tomo a vitamina, que já levo pronta, ou como algo.

Se tivermos fogareiro ou acesso à cozinha coletiva no camping, gosto de fazer macarrão, pois dá pra fazer em uma panela só. Costumo levar um molho pronto só pra colocar por cima. Se forem muitos dias de camping, vou variando com arroz. Levamos também as leguminosas do tipo já prontas, em latas, vidros, ou conserva, como grão-de-bico, feijões, ervilha.

Em caso de camping livre em local onde não é possível ou recomendado fazer fogo, o ideal é levar as leguminosas já prontas e comer frias mesmo. Nesses casos convém também levar mais pão, e comer um sanduíche extra a noite. Não sou a maior fã de “carnes” de soja, mas nesses casos de acampamento frio, elas podem ajudar muito, pois é possível compra-las já prontas, sem precisar cozinhar. Uma latinha de salsichas de soja pode virar um banquete numa noite fria e sem fogo no meio do mato. Lembre de levar um pouco de sal num pacote pequeno. É importante repor o sal e o açúcar do corpo após as caminhadas, especialmente se no dia seguinte tiver mais.

No caso do queijo, evite queijos frescos. Lembre-se, que estará sem geladeira. Prefira os queijos curados, mais duros e que podem ficar sem refrigeração por mais tempo. Para veganos, uma outra boa opção são as capsulas de algas em pó, como clorela e spirulina, que possuem muita proteína e vitaminas, inclusive várias do tipo B. As capsulas não estragam, e podem ser ingeridas como pílulas, para complementação alimentar, além das frutas, pães, barras, bebidas isotônicas, macarrão, arroz e leguminosas.

E água, claro! Não descuide da sua ingestão de água! Evite outros líquidos que não sejam água, ou eventualmente a bebida isotônica. Sucos e refrigerantes são muito doces e não vão saciar a sede. Pesquise as fontes de água natural próximas ao camping e pela trilha. Às vezes é possível pegar mais água em fontes, bicas, ou mesmo em rios e riachos. Nesses casos é possível levar apenas uma garrafa grande de água (entre 1L e 2,5L) e abastecê-la no caminho. Caso contrário você terá de carregar muito peso.

E claro, consulte seu médico sempre. Minhas dicas são só de trilheira pra trilheiros por esse mundão aí!

Pão da Isadora ou Pão das Paineiras

O ano era 2002, mas podia ser também 2003 e 2004. Em 2002 estava fazendo acompanhamento psicológico, e com o passar do tempo e do desenrolar do acompanhamento, migramos das questões mais primitivas e essenciais que me levaram lá, para novas, e começamos a trabalhar com a construção da Juliana adolescente, a construção da Juliana adulta. Nesse período, que vai aí de 2002 a 2004, minha psicóloga me passava “deveres de casa” e eu possuía uma caderneta amarela onde anotava sonhos, momentos importantes, coisas que queria discutir com ela numa sessão futura e outras ideias. Nesse período começarmos a discutir o conceito de prosperidade e algumas frustrações que eu carregava advindas da carga familiar, meus planos para o futuro, a vontade de ser independe, de viajar.

Nesse período comecei alguns trabalhos de férias, e meus “bicos” de adolescente, que incluíam fabricar e vender bijuteria, lavar os carros da casa e da vizinhança, fazer as unhas de familiares, e com um troco aqui, outro ali, somados a presentes de aniversário, acabava conseguindo fazer pelo menos uma viagem de um fim de semana por ano, com a escola ou amigos, para uma cachoeira próxima, sem depender dos meus pais. Essas conquistas entravam no meu caderno de “Prosperidade” e eram debatidas nas sessões, e nesse período aprendi muito sobre como gerenciar meu orçamento próprio, fazer economias, alcançar metas e, principalmente, a difícil tarefa de precificar meus produtos e serviços.

Um belo dia cheguei na consulta e na minha caderneta da prosperidade estava escrito: “Hoje aprendi a fazer pão!”. Minha psicóloga perguntou o porquê de eu ter anotado aquilo no caderno exclusivo para a “Prosperidade” e embora não tivesse vendido nenhum pão, e aquele ato não tenha me trazido rendimentos monetários, e ainda assim eu tive, e ainda tenho, a sensação de que foi um dos atos mais prósperos que já realizei. Juntar aquelas farinhas, um pouco de água e ver ao longo de horas de trabalho, suor (vai sovar a massa na mão pra ver o que é malhação) e a paciência de esperar o pão crescer e finalmente dividi-lo com os familiares, é uma experiência extremamente próspera.

Poucos atos trazem tantos ensinamentos intrínsecos quanto fazer pão. A pedagogia Waldorf inclui o ato de fazer pão na escola e depois dividi-lo com os amigos e familiares como parte do processo de ensino, e depois de ter aprendido, eu compreendo e concordo. Existe algo mágico em saber fazer pão! Exige paciência, dedicação, determinação, e, dependendo da receita, muita gente no fim, para saborear tudo aquilo.

Em 2002 chegou minha afilhada Nathalia, e nessa época eu passava muito tempo na casa do meu irmão e da minha cunhada. A mãe dos meus sobrinhos, a Isa, é chef, cozinheira de mão cheia, e sempre foi uma pessoa muito agregadora, que teve uma papel fundamental na minha convivência com meus irmão no período da adolescência, especialmente pela diferença de idade significativa entre nós. Entre 2002 e 2004, nas tarde após a escola, ficava por lá, ajudava com os pequenos, e aprendia um pouco, um pouco sobre ser tia, um pouco sobre ser irmã.

E a fazer pão! Umas férias de julho, quando estava por lá, Nati pequena, saímos para comprar as coisas e aprendi a fazer pão. Foi com eles que dividi esse pão pela primeira vez e depois reproduzi a receita e a experiência com minha família materna, com meus amigos de infância e ao longo da vida venho reproduzindo essa experiência tão próspera e deliciosa de fazer e dividir comida com todos os que amo e tenho a oportunidade de partilhar refeições.

Nesses anos minha alimentação mudou muito, primeiro me tornei vegetariana, depois passei a ter uma preocupação maior com a escolha dos ingredientes para manter uma alimentação mais saudável e inteligente. Nesse campo das receitas pretendo compartilhar coisas novas e velhas, e a receita de pão da Isa, embora não seja a primeira, está entre as históricas.

Então vamos lá: Pão da Isadora (como eu chamo) ou  Pão das Paineiras :

Ingredientes:

* 3 tabletes de fermento biológico fresco

* 3 colheres de sopa de açúcar

* 3 ovos

* 1 colher de manteiga

* 1 copo de óleo

* 3 copos de água

* 1 e 1/2 kg de farinha de trigo

Preparo:

Misturar o fermento com o açúcar até derreter. Colocar em uma vasilha funda 1kg de farinha e o sal. Faça um buraco no centro e adicione: manteiga, óleo, ovos, água e o fermento já derretido. Ir acrescentando, aos poucos, o restante da farinha de trigo (a quantidade de trigo suficiente se dá quando a massa não grudar em suas mãos). Sovar a massa por 5 min. Deixar crescer por 1:30 hora (ou até dobrar de volume). Dividir a massa em partes e moldar os pães. Levar ao forno pré-aquecido por mais ou menos 40 minutos.

Ah, e pode rechear com o que quiser antes de assar!

(contato: isadoramarar@hotmail.com )

E a Nati (que hoje é adolescente) fazendo pão até com os pés!