Ferrante

Mês passado eu li a Série Napolitana da Helena Ferrante, primeira obra dela que leio. São 4 volumes que me absorveram e consumiram por completo. Ainda tô tentando digerir. Às vezes me pego pensando, me inspirando. De tudo, o que mais queria dizer é, obrigada! De tudo o que mais sou é grata por poder ler tal obra.

Os quatro volumes, que inspiram ares de uma longa saga, não poderiam estar mais distantes de todas as sagas heroicas que li e reli com tanto gosto e afinco na vida, e ao mesmo tempo nunca me senti tão inspirada por uma saga. Ferrante é mulher. Primeiro e acima de tudo! Depois é escritora, de porte e renome, e de uma escrita que só posso definir como verdadeira. Nessa obra, escrita entre 2012 e 2015, Helena nos presenteia com um relato detalhado de sua vida, já de uma perspectiva da autora idosa, podendo assim falar de começo, meio e ares de fim, numa história auto-biográfica com gostinho de auto-ficção.

Depois de terminar os quatro volumes só conseguia pensar, obrigada! Obrigada por me mostrar que ser escritora é mais que ser brilhante. Que a literatura é mais do que as sagas heroicas. Obrigada por ser mulher! Obrigada por me mostrar que ser mulher é viver uma saga heroica, digna de muitos volumes.

O estilo de escrita é ao mesmo tempo delicado, feminino, visceral, sujo, cheio de confissões, revelando medos, paixões e destinos. Helena nos mostra que ela é sim, ao mesmo tempo brilhante e como qualquer uma de nós. Nos mostra que mesmo uma ativista feminista, que escreveu e debateu sobre a situação da mulher ainda nas décadas de 1960 e 1970 na Itália, pode ser vítima de relações abusivas e más escolhas amorosas.

Helena nos mostra que criar filhas e ter uma carreira foçam a mulher a decisões dificílimas, que são tomadas sempre muito sozinha, mas cujos resultados são duramente julgados pela sociedade, pelos homens. Mostra também que “bons” homens não são necessariamente “bons” pais. Que intelectualidade não é sinônimo de inteligência emocional. E que as violências psicológicas impactam tanto a vida quanto às físicas.

Mas Helena mostra também que temos essa força para seguir a vida, a pesar, e por causa de tudo isso. E que as consequências são isso, consequências. Boas ou más é um julgamento individual, dos que conosco convivem e sofrem as bençãos e desgraças dessas consequências.

Ela nos mostra que tentar agradar é falhar. De ante mão! Sempre. E que ser “bem-sucedida” é um conceito tão vazio e vago quanto um pântano cheio de neblina. Família é um conceito abstrato, que se confunde com amizade, origens e empatia. E que ao longo da saga que é a vida de cada um de nós, as mesmas personagens assumem papeis diversos, de heróis à antagonistas, cada qual por sua vez. E aqui a protagonista não é protegida. Não existem os “bons” e os “maus”, existem nós. Todos nós.

Me chocou a violência doméstica estatizada italiana. Que incluí de estupros dentro do casamento à crianças defenestradas em surtos de raiva dos pais. Incluí também violências mais delicadas, como competições entre amigas e irmãs, desde por notas escolares e carreira profissional até namorados, maridos e amantes. A falta de sororidade é proporcional ao nível de violência machista. Acaso? Duvido, e Helena também.

Me choca também o desligamento do conhecimento acadêmico e da elite intelectual com o povo, às necessidades reais da sociedade e capacidade de comunicação bastante desgastada, se é que algum dia ela existiu de fato, entre os grupos. Seja quando ela relata a própria experiência acadêmica e a relação de desaprovação de seu trabalho em comparação inversa com a apreciação do público em geral pelo seu trabalho publicado. Seja entre os militantes partidários de esquerda bem estudados e os trabalhadores sofrendo as violências diárias nas fábricas. Seja entre o discurso do “bom moço” e suas ações práticas no trato com as mulheres.

Então, o que aprendi com Helena é que a vida é uma saga onde ninguém é herói, onde alguns conseguem tudo com pouco esforço, por nascimento ou influência e outros perdem sistematicamente tudo o que conseguem com muito esforço. Mas que no final, nem isso importa. Que se queremos algo devemos fazer nós mesmos, e que família são os amigos que construímos no caminho, assim mesmo dadas proporções. E que em meio a toda essa vasta solidão, basta amarmos a nós mesmas e seguir confiante. O não já temos, então por que tanto medo de tentar o sim?

Obrigada, Helena!