Tudo bem

Tenho 31 anos. Sou órfã desde os 19 de pai, 25 de mãe. Nesse meio tempo perdi também meus avós, que me criaram. Quem já perdeu os pais sabe a estranha falta que é não ter ninguém que se preocupe especificamente com você. Saber que você é a preocupação maior do mundo de alguém é um tipo de cuidado e amor que só é explicado por quem cria.

Ela dizia que eu não dava trabalho. Nunca dei. Apesar de ter nascido de 7 meses, fiquei doente pouquíssimas vezes na vida, nenhuma grave. Sempre dormi 8h ou mais. Minhas notas na escola eram excelentes e ninguém precisava me mandar estudar. Eu não fiz grandes loucuras na adolescência, só umas bem pequenininhas. Na faculdade fui mais séria ainda. Me joguei nos estudos e trabalho com o afinco de uma adulta plena com família para sustentar. Ainda que não fosse o caso.

Mudei de emprego algumas vezes, mas nunca fiz dívidas. Mudei de casa muitas vezes, e pedi muito pouca ajuda. Mudei de cidade, de país, de continente, de país de novo, e cada vez precisei de menos. Vida minimalista, que cabe no bolso. Leve por opção, por propósito.

Às vezes meu irmão me pergunta se está tudo bem e eu sei que a pergunta dele é de verdade. Que ele pensa em mim e se preocupa, um pouquinho que seja, porque sabe que eu não dou trabalho, mas bate aquela pontadinha de preocupação e eu ganho um “tá tudo bem aí?” que eu sei que é de verdade. Não aquela pergunta por educação ou obrigação.

Eu não fumo, não bebo e não uso drogas. Bebi bem pouco numa fase da vida adulta que acabou logo. Sempre passei mal com menos de 2 doses. Cuido da minha alimentação. Cozinho quase tudo que como. Compro, pago as compras, corto, lavo, pico (ok, meu marido costuma picar mais que eu), mas dou conta do recado.

Essa sempre foi minha “missão na vida”, dar conta do recado. Sempre fui a forte, independente, otimista, tranquila. Nunca dei trabalho. Não precisam se preocupar comigo. Está tudo bem.

Eu sou hoje aquela pessoa independente, forte, corajosa, que desbrava cidades novas, empregos novos, dá a cara a tapa, sem nem se questionar como poderia ser diferente. Sou todinha aquela que meu avô me criou para ser, e se bobear, um pouco mais.

Eu faço Yôga, me exercito, faço trilha, caminhada, acampo, subo montanha. Passeio com meu cão, que é minha vida, todos os dias. Limpo minha própria casa. Até as plantas têm sobrevivido bem. Tenho manjericão na área dos temperos, brinco-de-princesa nas flores, e suculentas na decoração.

Medito, leio filosofia e estudo política nas horas vagas. Participo de dois clubes de leitura. Até costuro minhas próprias roupas quando rasgam ou precisam de uma bainha, luxos de ter crescido ao pé da saia da vó.

Sou consciente das minhas emoções e atenta para aprender com cada detalhe do meu dia. Para sublimar a raiva, e me alimentar de pôr-do-sol, uvas frescas e muito chá quentinho nas mãos.

De fato, eu não sei porque alguém se preocuparia comigo. Eu claramente, sei me cuidar, e me cuido bem. É claro que ninguém precisa saber da frustração de passar mais de um ano resolvendo pendência burocrática por conta das mudanças de país, ou do medo de dar algo errado que me acomete a cada semana.

Ninguém precisa se preocupar com as noites que chorei no travesseiro. Com os quilos que ganhei de ansiedade. Com a crise de enxaqueca que durou uma semana por conta da crise de decepção com a vida acadêmica.

Ninguém contabiliza as horas que eu passo indo e vindo dos mercados, pesquisando, para garantir que a alimentação saudável caiba no orçamento reduzido. As horas planejando e preparando as refeições.

Quando sento para jogar e conversar com os amigos no fim de semana, ninguém sabe da saudade que me aperta o peito. Do vazio que me abraça de madrugada.

O sorriso das fotos esconde que nunca na vida tive um dia dos pais pleno. Sempre dividida entre o amor do que não era pai, mas me criou e a falta do que era e não foi.

E que todo ano agora o dia das mães entrou na lista de dores e não de amores. Quem comemora as datas e até reclama de ter que dar atenção para a família não sabe o que é se sentir desconectado da realidade, porque nenhuma data dessas faz mais sentido.

Eu sei que ainda assim está tudo bem. Ainda assim eu sou forte, independente e corajosa. Continuo sem dívidas nem problemas financeiros. Sigo sendo saudável. E minha alegria é sincera. Aliás, rio muito e quase todos os dias.

Não podia ser diferente, sendo que casei com o cara mais incrível que conheci. Nunca pensei que poderia dizer que se meu avô tivesse conhecido meu marido, não só aprovaria, mas se orgulharia. Mas posso!

Mas isso não diminui o fato de que às vezes eu só queria colo. Queria lembrar de como era aquela paciência eterna da minha mãe de pentear meu cabelo, com minha cabeça no colo, não pela beleza ou arrumação dos pelos, mas pelo amor, intimidade e cuidado, de ficar horas ali, ganhando atenção e carinho.

É claro que tenho tios e tias que sempre me apoiaram, e que, caso eu precise, não hesitarão em ajudar. Mas eu sei que eu não sou a constante preocupação, justificada ou não, de ninguém. Existe uma falta abissal no mundo, quando você percebe que é bom mesmo você não dar trabalho, porque você já não é o trabalho de ninguém mais ali.

E aí, toda a força, independência e coragem, perdem um tiquinho do brilho, pois passam a ser não só mérito, mas necessidade.

E se eu assim não fosse? Nem quero pensar nisso. Não posso me dar o luxo de não ser. Então, sim, respondendo à pergunta clássica de todos os dias, é claro que está tudo bem! Como não estaria?!

Dia de Reis na Catalunha

No dia 06 de janeiro, Dia de Reis, foi publicado no BPM um texto meu sobre essa data, na forma como ela é comemorada em La Seu. Ainda não escrevi sobre Portugal, isso deve começar  mês que vem. Mas enquanto isso, convido vocês a darem uma olhada no texto.

“Quando me mudei, cheguei na cidade de La Seu D’Urgell dia 14 de dezembro e a cidade já estava toda decorada paras as Festas de Fim de Ano. Achei linda! Uma coisa que fez me apaixonar pelas Festas em cidades menores e de interior é o capricho com que as Festas são feitas, as decorações, a programação, que são muito bonitas, mas muito artesanais. Você se sente como em uma grande festa de escola! A cidade realmente participa de todo o processo, é algo feito pela própria população, com auxilio das instituições, prefeitura, cooperativas e organizações de comércio locais, para a população.

Aqui o Papai Noel não existe! Essa foi minha primeira surpresa. Não existe a figura do bom velhinho em lugar algum, e o que vemos espalhados por toda a cidade são os Minairons. “

Para continuar a ler, clique aqui, e boa leitura!

Sons novos e meus sons

Estou pela primeira vez escrevendo dentro da minha casa nova. Nossa. De verdade. Assim, tipo, de papel passado, que nem o casamento. Eu demorei quase um ano pra conseguir chamar o André de marido sem rir, ou me sentir uma dona de casa louca dos anos 50. Será que com o apê vai ser assim também? Ainda não me acostumei com os sons. Eles quase não existem, veja bem. Mais às vezes a porta do vizinho bate e eu não sei se foi aqui ou não. Sou de novo um alien, uma estranha, uma estrangeira, mesmo dentro da minha casa.

Olho um pouco pro lado e vejo meu cão, o Picot, esparramado no sofá. Temos um sofá esparramável agora. Isso também me assusta um pouco. Percebo que o som dos meus dedos nas teclas soam altos demais. A casa está silenciosa. O som é estranho. Parece que digito com mais força que o necessário. Parece que desaprendi a escrever. Esses sons, essa falta de som, vão me deixar louca. Pauso a escrita e aperto o play. Respiro, inspiro e expiro profundamente com as primeiras notas. Enya. É clichê. Eu sei. Mas as palavras voltam a fluir junto com o Oniroco nos meus ouvidos. Já não escuto meu pescoço estralando, a borracha das botas apitando no piso azulejado ou o som das minhas teclas ou das outras, pois em outro cômodo o André também está no computador dele. Dois mundos, duas vidas. Nessa nova casa cabem muitas.

É a segunda vez que mobílio uma casa quase que de uma vez só, considerando o básico. Isso sempre me assusta. Me sinto ousada demais, comprometida demais com essa vida, esse futuro. Mas aí lembro que não é a primeira vez que faço isso. Já aprendi que as coisas, os objetos, os móveis, as roupas, eles vêm e vão, com o vento, com a vida. E a minha é dessas. Às vezes me sinto abençoada até demais, e fico com medo do que espreita na próxima esquina. Em outras lembro de tudo o que já passei, e lembro que mesmo quando a onda sobe, consigo ver claramente, por baixo das espuma branca, o verde claro, o verde escuro e o azul profundo. Sim, eu conheço intimamente aquele azul profundo. Já estive lá tempo suficiente para aprender a respirar embaixo d’água. Para aprender que tenho nos meus braços fibra suficiente para retornar, quantas vezes forem necessárias. Sobrevivo ao mar porque sou maré. Vou e venho mais que ele, vou e venho porque sou quem o faz subir e descer.

Tinha esquecido do chá. Verde com raspas de laranja. Comprei em Granada. Que cidade maravilhosa. Estou devendo os detalhes dessa mudança louca e incrível. 2005, uma mudança de casa, a da infância para o purgatório. 2009, do purgatório para a (única de verdade) casa da minha mãe. 2012, fuga cega de lá, fugindo da morte e do futuro, refúgio no porto seguro da família. 2013, minha casa de bonecas, meu mundo turquesa, branco e lilás, com pássaros em todos os cantos! 2014/2015, um mês na casa do outro, descobrindo a vida a dois. 2015, a construção de um lar a dois. Pedacinhos da minha casa de boneca se fundiram com móveis de família, coisas que já estavam lá, novo e velho e sua síntese. 2016/2017, país, cidade, praticamente mundo novo. Nada meu, nada nosso. Nenhum direito à propriedade. Muito direito à liberdade. Neve e montanhas. Queijo de cabra e chocolate. Muita introspecção e muito saco de dormir, fogareiro e lampião. 2017/2018, ufa! Uma casa para chamar de nossa. Ikea. Espaço. Quartos. Assim, no plural. O barulho do trem na janela, e todos esses outros barulhos que ainda não sei nomear. 9 casas, e contando.

Só tive cortinas, dessa que se compra na loja, decorativa, em duas delas. As duas que mobiliei. As outras ou eram muito passageiras, ou não eram tão minhas. Quando pendurei aquelas cortinas turquesa, cheias de pássaros brancos, sabia que precisava daquela luz azul filtrada, e daqueles pássaros para decorar minha pequena gaiola de 20m2. Vivi empoleirada ali o tempo suficiente para aprender a voar. E voei muito. Muito mais longe do que imaginava. Só não tinha aprendido ainda, que para levar um coco, são necessárias duas andorinhas. Talvez por isso esse novo voo seja tão longo e as distâncias tão grandes. Agora somos duas andorinhas, levando esse coco pelo mundo. Olho minhas cortinas cinza. Penso nisso. Eu, que sempre fui fã das cores, de tudo junto e misturado, das casa de boneca, dos contos de fadas, agora tenho uma casa monocromática. Preto. Branco. Cinza. Talvez aqui eu perca o medo ou me acostume com a ideia de ser adulta. Não, o fato de 31 anos ainda não me fez aprender isso.

Ao mesmo tempo que vejo nesses muitos quartos, assim, no plural, e nos tons sérios, uma vida possivelmente mais adulta e muitas possibilidades e desafios incríveis, além de oportunidades muito boas e concretas, se abrindo nesse novo horizonte, sei que o armário da cozinha continua tendo cookies e chocolate cremoso. Que a faxina continua sendo postergada ao limite. Que nós ainda fazemos fortes de travesseiros, e todas essas almofadas desse enorme sofá somadas à mesa de centro só fazem isso ficar mais fácil.

Que parte da nossa decoração, a única do momento, se constitui em mini personagens de desenho animado, de plástico colorido, que ganhamos na promoção do supermercado. Agora nossos livros de filosofia e línguas dividem a prateleira com o Capitão Cueca, o burro do Sherk e a Zebra de Madagascar. Espero que essa síntese, das cortinas cinza e do burro de madagascar cueca me ajudem a continuar crescendo, a continuar mais próxima da espuma branca do que do azul profundo. Que eu não tenha medo dele, mas me lembre bem da sua cor e da sua falta total de sons para que os sons estranhos de agora não me assustem.

Lauper canta na minha orelha e eu lembro que é parte da vida só querer diversão. Que eu me autorizo a ter 31 anos, um apartamento digno de adultos e comer chocolate cremoso por cima dos cookies enquanto assisto maratonas do netflix debaixo do forte de travesseiros. Que eu me autorizo a me sentir soterrada pela burocracia, e que a vontade de jogar tudo pra cima não é só minha. Quem sabe um  pouco de som dos 80’s dançando na sala com o cachorro e rindo do marido não façam eu me acostumar com todo esse cinza, toda essa papelada e toda essa vida concreta da mesma forma que me acostumei com a palavra marido. Perdi o medo dela, depois de revirar que nem uma bala na boca, esperando derreter, que nem doce.

Continuo com medo dos ventos que me levam por aí em busca de novos sons e novos chocolates. Mas já sei que em vez de perder casas, vou colecionando elas. E pra deixar o momento mais perfeito a Salmazo me canta sobre a palhoça dela. Acho que vou lá tirar nossa fotografia do dia, e encher essa sala dos meus sons. Desconecto o fone de ouvido do computador e salvo o texto. Vou dançar comendo chocolate cremoso.

 

BPM no JuReMa: São Paulo X La Seu

Apesar de hoje já não estar mais morando em La Seu D’Urgell, a experiência de quase um ano nessa cidadezinha de apenas 12.500 habitantes marcou minha vida. Foi uma no off, pra descansar, colocar os pensamentos e sentimentos em dia, descobrir muito sobre meus gostos e vontades, repensar a vida e o mundo, e tentar achar meu lugar nessa interseção. Dia 19/12/17, o BPM publicou meu texto com esse comparativo absurdo entre viver numa das maiores cidades do mundo e numa pequenina.

Coloco aqui algumas frases para dar o gostinho e te convido a clicar aqui e ler o texto na íntegra.

“No Brasil eu já vivi em Brasília e em São Paulo, e embora as experiências tenham sido muito diferentes, são duas grandes cidades, com inúmeras oportunidades e problemas urbanos derivados de seus tamanhos e importância econômica e política. Nem eu nem meu marido nunca havíamos morado em uma cidade pequena, apenas passado algumas férias em lugares menores, mas sem a experiência da vida cotidiana, que é sempre muito diferente.

Quando estávamos avaliando nossas possibilidades de vir para a Europa essa dúvida, entre cidade grande e interior surgiu. Fizemos algumas listas de pontos positivos e negativos, e, por fim, e pelas necessidades e conveniências da vida acabamos parando em La Seu D’Urgell, uma cidade de aproximadamente 12.500 habitantes, na fronteira com Andorra. Para quem saiu direto do centro de São Paulo, uma anomalia em termos de tamanho, uma das maiores cidades do mundo, foi um choque e tanto. Já falei aqui um pouco sobre os choques culturais da chegada, mas dessa vez queria me atrever a fazer esse comparativo tão desproporcional entre as duas cidades.”

BPM Kids

Galera que aqui me acompanha sabe que eu estou colaborando com a plataforma Brasileiras Pelo Mundo – BPM, já fazem alguns meses, inclusive temos uma categoria aqui no Blog da JuReMa para os reposts dos meus textos de lá. Agora, o BPM ganhou seu primeiro filho, o Brasileirinhos Pelo Mundo – BPM Kids, e os textos de lá são lindos de ler! Nessa plataforma eu não colaboro como escritora, pois não sou mãe, mas colaboro como revisora e queria aproveitar para divulgar aqui e convidar vocês para ler e seguir esse blog lindo.

Meu lado professora, que não desliga nunca, ficou encantada com os textos sobre educação bilíngue, tema que me acompanha há anos, e no qual pretendo me especializar em breve. Nesse meio tempo, convido vocês a ler um texto sobre educação infantil na Suíça:

Educação Infantil na Suíça

Um assunto que sempre me preocupou em relação a nossa mudança para a Suíça, era de  como seria a adaptação dos meninos na escola. Isto porque eles não tinham nenhum conhecimento do idioma. O meu filho mais velho, chegou na Suíça com 5 anos e foi para o Kindergarten 2, enquanto o mais novo tinha acabado de completar 2 anos.

Nosso mais novo estava no mini maternal e frequentou a escola no Brasil por pouco tempo e, na Suíça, as crianças na idade dele não costumam ir para a escola. Nós optamos por colocá-lo na creche para que ele tivesse um contato maior com o idioma (no nosso canto da Suíça, a língua é o Alemão) e para que ele tivesse contato com outras crianças. Mas algumas coisas bem diferentes chamaram a minha atenção como, por exemplo:”
Para ler os exemplos e o texto na íntegra, clique aqui. Boa Leitura!

Travessia Cap de Rec – L’Illa – Perafita – Pera – Cap de Rec

Essa travessia é uma que queríamos muito fazer desde antes de sair do Brasil. O André já tinha pesquisado muito sobre ela, mas quando chegamos aqui era inverno e essa travessia precisa ser feita em épocas sem neve, ou se torna impossível. Acabamos usando a primavera e o verão para outras viagens mais longas ou mais afastadas e por fim, agora no outono, no início de outubro, decidimos fazer finalmente essa travessia.

A preparação para essa trilha foi mais longa, pois originalmente estávamos seguindo uma trilha do wikiloc que infelizmente não encontrei agora para compartilhar com vocês, mas que saía de Viliella, passando pelo vale do Llosa, subindo o porto de montanha até o Refugí de L’Illa, no primeiro dia, no segundo ia até o Refugí de Perafita, passando pelo segundo porto de montanha e até o Refugí dos Estanys de La Pera (trilha que fizemos e pode ser conferida aqui), passando o terceiro porto de montanha no segundo dia e no terceiro descendo, passando pelo Cap de Rec e indo até Viliella. No total a trilha original tinha cerca de 48km em 3 dias, com todas essas subidas.

Por isso preparamos duas mochilas grandes, equipamento para dormir nos refúgios, muita comida enlatada, água, lanches, roupas extras para as noites fritas, comida do Picot e saímos. Resolvemos fazer um pouco diferente o caminho, deixando nosso carro no Refugí do Cap de Rec e de lá iniciar com a longa descida até o Vale do Llosa, que é um dos lugares mais lindos, e de lá seguir a trilha marcada no wikiloc.

Saímos de casa bem cedo, deixamos o carro no Cap de Rec, e saímos com tudo nas costas, preparados para só voltar ao carro na metade do terceiro dia. Desde o princípio acionei o app do wikiloc e comecei a gravar a trilha. Meu celular, entretanto, não tem a precisão de um GPS e fez uma marcação irreal de altitude no início, parecendo que tínhamos subido e descido um platô como uma chapada, mas depois passou a se comportar e registrar melhor.

A primeira parte envolveu uma descida bem dolorosa da qual meus joelhos ainda se lembravam 1 mês depois, até o Vale do Llosa, lá atravessamos o rio com muito frio, que água gelada! E seguimos rio acima. Em determinado momento meu sonho se realizou e vi uma marmota de vida livre gritando e correndo, infelizmente, fugindo do Picot. Chamamos ele apressados e ela conseguiu se esconder na toca. Apesar do susto foi um momento incrível ver a marmota.

Aí começou uma subida longa que nos acompanhou o resto do dia. Passamos por lugares muito lindos, sempre próximos aos rios, vimos alguns refúgios de caçadores, pequenos e apertados, mas que podem salvar vidas caso seja necessário se abrigar rapidamente. Paramos pouquíssimas vezes para comer e andamos muito. A última subida, depois de um vale cheio de vacas, foi sofrida, mas nos levou até um lago de barragem belíssimo, embora as nuvens o deixassem muito cinza e alcançamos o refugí de L’Illa, já em Andorra. Nesse primeiro dia andamos um pouco mais de 18km.

O Refugí de L’Illa é um dos poucos que possuem parte livre e parte paga. A parte paga era cara, cerca de 20,00 euros por pessoa somente para dormir. Com comida e banho já subia para 55,00 por pessoa, e a parte livre estava bem abandonada, mas nos instalamos na livre mesmo assim. Ali todos os suprimentos chegam apenas de helicóptero e as pessoas apenas após uma dura trilha. Descobrimos que um dos funcionários do Refugí era brasileiro, afinal estamos em todos os lugares, comemos, descansamos e tentamos nos acomodar na parte livre.

Acordamos a meia-noite quase congelando. A temperatura caiu bruscamente e deixou nossa noite muito desconfortável, impossível dormir, o corpo todo doía de frio. Acabei conseguindo fazer um fogo graças à um sachê de azeite deixado ali e umas madeiras velhas no antigo aquecedor de ferro, que nos salvou, mas foi uma noite dura, depois de um dia duro. Apesar do preço, recomendo que durmam na parte paga caso façam essa trilha.

Nosso segundo dia começou as 5h da manhã com muito frio, um novo fogo que nos descongelou de novo e esperamos o dia clarear um pouco. O sol só começou a sair às 7h e iniciamos nossa caminhada junto com  ele. O André, que sofreu um pouco mais que eu com a noite fria pois tinha levado menos roupas extras, sugeriu que andássemos mais e voltássemos pra casa direto. Essa ideia em assustou um pouco, porque faltavam cerca de 30km, e pelo menos mais 2 portos de montanha para atravessar a cerca de mais de 2500m cada.

Com isso em mente eu comecei o dia dando uma de sargento do batalhão e impus um ritmo de caminhada sofrido. Acabamos quase não tirando fotos, pois o tempo seria escasso para conseguirmos andar os 30km, com todas as variações de atitude em um dia só.

Esse segundo dia foi sofrido, os músculos estavam doídos da véspera e principalmente da noite fria, a mochila pesava e o pé reclamava, especialmente com a marcha forçada, mas avançamos por paisagens maravilhosas. Vimos vales, rios, cachoeiras e picos inacreditáveis no caminho todo! O Picot sempre com muito mais energia que nós deu ânimo por todo o dia. Alcançamos o Refugí de Perafita em torno das 13h e fiquei mais tranquila. Sabia que dalí o desafio maior era atravessar o último porto até o Refugí dos Estanys de la Pera e de lá seria só descida até o carro.

Minha bateria do celular acabou quando estávamos iniciando a subida para o último porto e com isso parou de registrar a trilha, os carregadores externos que eu levei não funcionaram, o que me deixou chateada, mas sem tempo para lidar com isso. Seguimos a subida e alcançamos o Refugí dos Estanys da la Pera às 15h, bem antes do esperado. O André até me chamou de exagerada pois com minha marcha forçada estávamos quase 2h adiantados, e acabamos não aproveitando muito o dia de trilha para apreciar as paisagens, mas meu medo de pegar a trilha no escuro tinha sido maior.

Nossa segunda surpresa foi encontrar o Refugí dos Estanys de la Pera maravilhoso, com uma parte livre aberta incrível, colchões bons, cobertores e uma lareira grande além de muita lenha acessível. Poderíamos ter dormido ali confortavelmente. O ideal teria sido fazer com bem mais calma esse trecho, chegar lá ao anoitecer e ter uma boa noite de sono reparador antes de continuar, mas como chegamos lá às 15h e ainda tínhamos cerca de 3h de sol, resolvemos seguir para o carro.

Esse último trecho, apesar de ser descida, foi excruciante, porque já estávamos muito cansados e a decida exigiu muito da minha sola do pé. A mochila nem era mais problema, mas os pés doíam muito e no último trechinho antes do carro senti bolhas estourarem e quase chorei, mas por fim, com certa ajuda do André, chegamos no carro, às 18h20.

Viemos direto para casa, onde um bom banho quente, um macarrão e uma noite de sono que durou das 20h30 às 12h do dia seguinte (que era sábado), nos colocou em forma de novo. Essa trilha é maravilhosa e recomendo a todos, mas recomendo que façam em 3 dias, durmam no L’Illa na parte paga e durmam no Estanys de La Pera antes de seguir viagem. Os pés agradecem. Não se esqueçam de confirmar se os refúgios estarão abertos e disponíveis antes de ir. Em certas épocas do ano eles fecham e em outras lotam. O ideal, além de conferir antes, é ir no meio da primavera ou no início do outono.

Não esqueçam roupas mais quentes para a noite e pares de meias extras para garantir pés quentes e acolchoados. A comida acho que vale a pena pagar no L’Illa para poder carregar menos peso, e levar só os lanches e para o jantar do segundo dia.

Foi uma experiência incrível, de superação, muito aprendizado e que valeu cada km, bolhas no pé e tudo!

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Trecho de carro, entre La Seu e o Cap de Rec. 

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Trecho que meu celular gravou, do Cap de Rec até pouco depois do Perafita. Como a rota foi circular, não fica muito difícil imaginar aí no mapa o trecho que faltou marcar de cerca de mais 22km.  

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Para mais fotos confira na Fã Page do Facebook!

Pic de Salória

Sei que durante todo o mês de outubro e agora nesse começo de novembro estivemos sem posts do André na categoria Viagens, e para explicar queria dizer que em outubro recebemos a família do André aqui e também estamos organizando toda nossa mudança da Espanha para Portugal, que começará agora dia 15/11, o que o sobrecarregou, além de outros afazeres. Por hora vou deixar vocês com esse post, sobre o Pic de Salória, que fizemos em 28/09/17 e no próximo post vou falar sobre uma travessia longa de 3 dias, que acabaram sendo 2, na qual atravessamos vários Vales e Picos!

Esse mês, portanto, teremos esses 2 posts sobre trilhas, além dos outros sobre Andorra & Val D’Aran, que foi postado pelo BPM, e repliquei aqui na terça-feira, e o outro com Dicas de Roupas.

Em dezembro estaremos nos acomodando em Portugal e duvido que sobre tempo para escrever muito, mas assim que possível voltaremos a contar nossas aventuras

Bom chega de lenga-lenga, vamos à trilha. O Pic de Salória é o mais alto da comarca de Alt Urgell, onde fica a cidade na qual moramos, La Seu D’Urgell. O Pico chega a 2789m. Mas a trilha que fizemos possui um desnível de cerca de 600m, então foi mais tranquilo do que parece!

A parte mais assustadora foi a estrada que decidimos pegar para chegar lá. Não queríamos ir de carro por dentro de Andorra, o que seria o caminho mais curto, entre La Seu e Os de Cívis, e por isso acatei uma sugestão bem duvidosa do google maps de ir por uma estrada de terra, circundando a montanha. No início passamos por umas pequenas vilas bonitinhas, mas depois que entramos na estrada de terra ela começou a ficar difícil e diversas vezes o André me questionou o porque da escolha dessa trilha em claro desuso.  Eu também me questionei, mas mantive a banca porque alguém tinha que parecer confiante, né?!

Para resumir passamos por dentro de bosques, atravessamos dois rios com o carro, o que subiu muita fumaça e assustou o Picot, e pegamos um frio que não esperávamos para final de setembro. No fim deu tudo certo, graças a habilidade do André em estradas de terra, que é grande, e dessa vez foi testada como nunca, mas após algumas derrapadas estávamos no ponto esperado. Paramos o carro e começamos nossa subida bem íngreme morro acima.

A subida não era muito longa, mas extremamente verticalizada. Chegando à crista da cadeia montanhosa andamos por sobre a trilha na parte mais emocionante, talvez uma das mais emocionantes de todas as trilhas que fizemos, pois a crista era bem estreita e os penhascos bem íngremes de ambos os lados. Tenho vídeos desse trecho da trilha na fã page do facebook, em quatro partes (1/4, 2/4, 3/4 e 4/4), ou no instagram (1/4, 2/4, 3/4 e 4/4) e vocês podem acessar e ver lá.

Achávamos que já tínhamos subido tudo, mas que nada. Foi uma boa subida já na crista até atingirmos o Pico. Tivemos que parar várias vezes para recuperar o fôlego nesse trecho, mas por fim chegamos lá! Foi uma incrível sensação de conquista!

No caminho encontramos joaninhas, grilos coloridos, aves de rapina fazendo rasantes sobre nós e uma paisagem incrível. Chegando no topo o Picot ficou encantado e passou muito tempo observando a paisagem cuidadosamente de cada um dos vales para os quais tínhamos vista! Esse cachorro é um apaixonado por paisagens e a gente fica até sem graça de ver a dedicação dele em apreciar o momento!

Depois de brincar um pouco com a ideia de que eramos o homem, a mulher e o cachorro mais altos da comarca naquele momento, iniciamos a volta. Encontramos uma trilha um pouco menos íngreme na volta, o que facilitou um pouquinho, mas continuou emocionante.

Já no carro escolhemos voltar por outro caminho, passando por Andorra, conhecemos Os de Cívis e Cívis, e passamos por uma quantidade incrível de árvores vermelhas em um dos cenários de outono mais lindos que já vi!  Não deu pra tirar boas fotos de dentro do carro, mas foi inesquecível.

Fiz a trilha marcando nosso deslocamento com o wikiloc, mas como ainda estou aprendendo a usar o app, só lembrei de gravar a rota quando já estávamos na metade da subida, mas fica a foto para vocês terem uma ideia aproximada.

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Mapa da ida, o trecho marcado em vermelho foi o da estrada de terra assustadora.

mapa volta

Mapa da volta, o trecho em zigzag antes de Os de Cívis é o das árvores vermelhas maravilhosas de outono!

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O que eu consegui gravar com o wikiloc da nossa trilha.

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My life on the road

Esse fim de semana passado eu terminei de ler My Life on the Road, da Gloria Steinem. Eu já tinha lido pequenas coisas dela e já conhecia o nome, afinal, ela é uma ativista e tanto e uma das referência quando se fala em luta por direitos e questões de gênero. Esse livro faz parte da lista de leitura indicada pela Emma Watson no Goodreads, parte do programa pessoal dela de estudos de gênero e da iniciativa da ONU #HeForShe.

Mas o que me levantou a curiosidade a princípio foi a possibilidade de ouvir de alguém nômade, como foi essa vida na estrada. Muita gente já me questionou sobre minhas escolhas, sobre estar com 31 anos e ter feito 8 mudanças de casa, 3 de cidade, 2 de país, 1 de continente e estar com a próxima (de país de novo) agendada para o mês que vem. Nesse processo também já tive tantos empregos que minha carteira de trabalho zerou, se for contratada no Brasil de novo tenho que tirar uma nova, todas as páginas estão preenchidas. Isso fora os freelancers, traduções, aulas particulares, projetos, bolsas, voluntariados, etc, que me acompanham desde os 18 anos.

Já vi o olhar preocupado de familiares, já recebi carta dramática de amiga, já ouvi de ex-chefe que ia mudar “logo agora que você arrumou a casa toda, fez até chá de cozinha e tá com tudo tão organizado?”, já vi amiga surtando com minhas blusinhas pra doação dizendo que eu era louca de me desfazer de “tudo mais bonito que eu tinha”. De todos, já recebi muitos olhares saudosos! E de todos já senti muitas saudades! Já fiz também muito skype, já aprendi a viver com menos, já conheço os lugares pra comprar um novo edredom e jogo de cama mais barato, e muitas situações pouco usuais às vezes se tornam cotidianas, como ficar sem travesseiros, sair pra comprar e não achar no dia, improvisar e de repente me tocar que vivo a 11 meses sem travesseiro e não faz falta!

Por tudo isso e mais um pouco, quis ler da Gloria, como foi a experiencia da estrada dela. Foi bem diferente da minha, e ela nem sempre dá os detalhes sobre onde dorme, mas eu encontrei lá muito mais do que a história dela na estrada. Encontrei uma semelhante. Alguém que já está na parte final da curva e que portanto pode dizer, eu vivi a vida toda assim e deu certo. Alguém que ao contar sua história conta junto a história de um movimento, de um país, de uma geração. Tudo isso, já faz valer a leitura mil vezes.

Mas o ponto mais incrível pra mim de toda a leitura não foi nem (só) a questão de gênero e nem a estrada, mas foi a vivência de democracia dela! Eu fui envolvida com movimento estudantil, fui representante de turma, fiz parte de conselhos em tudo o que já participei na vida, e cada dia mais só me decepciono! Acho cada vez mais difícil encontrar pessoas abertas ao diálogo, esses supostos espaços de conversa viraram só espaços de ataque e na internet então nem se fala! Mas na vida dela eu li um relato bonito, duro e cheio de batalhas, mas com lições muito importantes. Lições que me levam a crer que não é o mundo ou a  humanidade que estão perdidos, é o sistema e a forma como vivemos.

Tudo o que eu queria é que cada ser humano pudesse entender e vivenciar uma verdadeira roda de conversa, estilo povos nativo-americanos, e recebesse no final um abraço. Quem sabe assim, talvez…

my life on the road

JuReMa no BPM: Choques Culturais e Horários

No dia 08 de outubro, saiu no BPM mais um texto meu, dessa vez falando sobre alguns choques culturais e adaptações relativas à horários, calendário laboral, formas de fazer contratos e vidas na cidade pequena no interior da Catalunha.

Vai lá, clicando aqui e lê o texto desse mês! Tanto eu quanto as Brasileiras do BPM nos sentiremos lisonjeadas. Aproveita e deixa aqui ou lá seu comentário com dúvidas ou contando situações similares!

Esse foi meu terceiro texto para o BPM. Dia 02 de setembro foi publicado meu primeiro texto, sobre os Desafios de ser vegetariana no interior da Catalunha. E em 01 de outubro entrou um texto extra sobre o Referendo de Independência da Catalunha, que já rendeu muitos comentários e pano pra manga lá. Se quiser, aproveita e entra pra ler e conhecer um pouco mais!

Estamos com poucos posts de viagens, mais só porque estamos viajando muito! Daqui a pouco o André volta a compartilhar nas sextas-feiras o que andamos fazendo com vocês. Enquanto isso aproveita e curte as fotos das paisagens lindas que vimos ao longo do último ano no Instagram e Fã Page do Facebook do blog!

 

Big Little Lies

Apesar do texto ir ao blog na terça, hoje é sábado. São quase 18h e eu estou atônita, olhando para a tela do meu computador depois de terminar de assistir Big Little Lies, sem saber o que pensar, o que sentir, além de que eu queria muuuuuuuuito nesse momento dar um abraço bem forte em todas as mulheres que eu conheço e dizer “Você não está sozinha! Está tudo bem!”

Eu não vou dar spoilers, e peço a gentileza que não deem, caso deixem comentários, mas recomendo fortemente que assistam! Especialmente se você for mulher. Não é um seriado leve. É forte, os temas são pesados. Mas fala muito profundamente com o âmago da realidade de ser mulher. Mesmo que seja de uma mulher linda, rica, californiana.

Esse seriado é extremamente relevante, embora possa não parecer a princípio, porque fala de algo que hoje em dia é norma: a falsa realidade, a vida aparente. Lembre-se sempre, sempre, que todas as pessoas do mundo, apesar das fotos de viagens, comidas lindas e gostosas, amorzinhos sem fim e tudo o mais que o facebook, instagram e mídias sociais representam hoje em dia, todos são humanos! E todos nós levamos uma bagagem bem pesada nas costas!

Algumas bagagens são mais violentas, outras mais amorosas, algumas mais sofridas em silêncio e outras aos berros, mas todos nós temos uma bagagem enorme. E todas as mulheres apendem desde cedo a sorrir, serem bonitas, apesar de, e justamente porquê possuem, suas bagagens.

Tratem as pessoas com amor, a gente nunca sabe o quanto o outro precisava daquele abraço, daquele elogio sincero, daquela pausa pro café, pra desabafar, pra sentir confiança em contar com o outro. E mulheres, minhas irmãs, sejam mais solidárias! A gente sabe o quanto cada uma sofre, e sabemos que por trás de cada sorriso existe muuuita bagagem! Vamos nos olhar nos olhos de forma a ir além dos sorrisos, e dar amparo à alma! É tudo que ofereço e peço!

De quebra, assista quando puder. São 7 episódios de aproximadamente 1h cada. Veja na ordem. Não veja o sétimo antes de nenhum outro. Você só respira aliviada nos últimos 10 minutos. Até lá, perceba na maldade humana o reflexo de outras maldades, e perceba que os ciclos não se rompem sem muito amor, muito apoio e muita sororidade!

Ah sim, aproveita e baixa também a trilha sonora, vale a pena!

Aproveito pra deixar aqui essa dose de amor bem nessa semana que completei meus 31 anos. Sim, eu amo ser uma mulher na casa dos 30! E sinto que ficará cada vez melhor! ❤

bll cafebll