BPM Kids

Galera que aqui me acompanha sabe que eu estou colaborando com a plataforma Brasileiras Pelo Mundo – BPM, já fazem alguns meses, inclusive temos uma categoria aqui no Blog da JuReMa para os reposts dos meus textos de lá. Agora, o BPM ganhou seu primeiro filho, o Brasileirinhos Pelo Mundo – BPM Kids, e os textos de lá são lindos de ler! Nessa plataforma eu não colaboro como escritora, pois não sou mãe, mas colaboro como revisora e queria aproveitar para divulgar aqui e convidar vocês para ler e seguir esse blog lindo.

Meu lado professora, que não desliga nunca, ficou encantada com os textos sobre educação bilíngue, tema que me acompanha há anos, e no qual pretendo me especializar em breve. Nesse meio tempo, convido vocês a ler um texto sobre educação infantil na Suíça:

Educação Infantil na Suíça

Um assunto que sempre me preocupou em relação a nossa mudança para a Suíça, era de  como seria a adaptação dos meninos na escola. Isto porque eles não tinham nenhum conhecimento do idioma. O meu filho mais velho, chegou na Suíça com 5 anos e foi para o Kindergarten 2, enquanto o mais novo tinha acabado de completar 2 anos.

Nosso mais novo estava no mini maternal e frequentou a escola no Brasil por pouco tempo e, na Suíça, as crianças na idade dele não costumam ir para a escola. Nós optamos por colocá-lo na creche para que ele tivesse um contato maior com o idioma (no nosso canto da Suíça, a língua é o Alemão) e para que ele tivesse contato com outras crianças. Mas algumas coisas bem diferentes chamaram a minha atenção como, por exemplo:”
Para ler os exemplos e o texto na íntegra, clique aqui. Boa Leitura!

Travessia Cap de Rec – L’Illa – Perafita – Pera – Cap de Rec

Essa travessia é uma que queríamos muito fazer desde antes de sair do Brasil. O André já tinha pesquisado muito sobre ela, mas quando chegamos aqui era inverno e essa travessia precisa ser feita em épocas sem neve, ou se torna impossível. Acabamos usando a primavera e o verão para outras viagens mais longas ou mais afastadas e por fim, agora no outono, no início de outubro, decidimos fazer finalmente essa travessia.

A preparação para essa trilha foi mais longa, pois originalmente estávamos seguindo uma trilha do wikiloc que infelizmente não encontrei agora para compartilhar com vocês, mas que saía de Viliella, passando pelo vale do Llosa, subindo o porto de montanha até o Refugí de L’Illa, no primeiro dia, no segundo ia até o Refugí de Perafita, passando pelo segundo porto de montanha e até o Refugí dos Estanys de La Pera (trilha que fizemos e pode ser conferida aqui), passando o terceiro porto de montanha no segundo dia e no terceiro descendo, passando pelo Cap de Rec e indo até Viliella. No total a trilha original tinha cerca de 48km em 3 dias, com todas essas subidas.

Por isso preparamos duas mochilas grandes, equipamento para dormir nos refúgios, muita comida enlatada, água, lanches, roupas extras para as noites fritas, comida do Picot e saímos. Resolvemos fazer um pouco diferente o caminho, deixando nosso carro no Refugí do Cap de Rec e de lá iniciar com a longa descida até o Vale do Llosa, que é um dos lugares mais lindos, e de lá seguir a trilha marcada no wikiloc.

Saímos de casa bem cedo, deixamos o carro no Cap de Rec, e saímos com tudo nas costas, preparados para só voltar ao carro na metade do terceiro dia. Desde o princípio acionei o app do wikiloc e comecei a gravar a trilha. Meu celular, entretanto, não tem a precisão de um GPS e fez uma marcação irreal de altitude no início, parecendo que tínhamos subido e descido um platô como uma chapada, mas depois passou a se comportar e registrar melhor.

A primeira parte envolveu uma descida bem dolorosa da qual meus joelhos ainda se lembravam 1 mês depois, até o Vale do Llosa, lá atravessamos o rio com muito frio, que água gelada! E seguimos rio acima. Em determinado momento meu sonho se realizou e vi uma marmota de vida livre gritando e correndo, infelizmente, fugindo do Picot. Chamamos ele apressados e ela conseguiu se esconder na toca. Apesar do susto foi um momento incrível ver a marmota.

Aí começou uma subida longa que nos acompanhou o resto do dia. Passamos por lugares muito lindos, sempre próximos aos rios, vimos alguns refúgios de caçadores, pequenos e apertados, mas que podem salvar vidas caso seja necessário se abrigar rapidamente. Paramos pouquíssimas vezes para comer e andamos muito. A última subida, depois de um vale cheio de vacas, foi sofrida, mas nos levou até um lago de barragem belíssimo, embora as nuvens o deixassem muito cinza e alcançamos o refugí de L’Illa, já em Andorra. Nesse primeiro dia andamos um pouco mais de 18km.

O Refugí de L’Illa é um dos poucos que possuem parte livre e parte paga. A parte paga era cara, cerca de 20,00 euros por pessoa somente para dormir. Com comida e banho já subia para 55,00 por pessoa, e a parte livre estava bem abandonada, mas nos instalamos na livre mesmo assim. Ali todos os suprimentos chegam apenas de helicóptero e as pessoas apenas após uma dura trilha. Descobrimos que um dos funcionários do Refugí era brasileiro, afinal estamos em todos os lugares, comemos, descansamos e tentamos nos acomodar na parte livre.

Acordamos a meia-noite quase congelando. A temperatura caiu bruscamente e deixou nossa noite muito desconfortável, impossível dormir, o corpo todo doía de frio. Acabei conseguindo fazer um fogo graças à um sachê de azeite deixado ali e umas madeiras velhas no antigo aquecedor de ferro, que nos salvou, mas foi uma noite dura, depois de um dia duro. Apesar do preço, recomendo que durmam na parte paga caso façam essa trilha.

Nosso segundo dia começou as 5h da manhã com muito frio, um novo fogo que nos descongelou de novo e esperamos o dia clarear um pouco. O sol só começou a sair às 7h e iniciamos nossa caminhada junto com  ele. O André, que sofreu um pouco mais que eu com a noite fria pois tinha levado menos roupas extras, sugeriu que andássemos mais e voltássemos pra casa direto. Essa ideia em assustou um pouco, porque faltavam cerca de 30km, e pelo menos mais 2 portos de montanha para atravessar a cerca de mais de 2500m cada.

Com isso em mente eu comecei o dia dando uma de sargento do batalhão e impus um ritmo de caminhada sofrido. Acabamos quase não tirando fotos, pois o tempo seria escasso para conseguirmos andar os 30km, com todas as variações de atitude em um dia só.

Esse segundo dia foi sofrido, os músculos estavam doídos da véspera e principalmente da noite fria, a mochila pesava e o pé reclamava, especialmente com a marcha forçada, mas avançamos por paisagens maravilhosas. Vimos vales, rios, cachoeiras e picos inacreditáveis no caminho todo! O Picot sempre com muito mais energia que nós deu ânimo por todo o dia. Alcançamos o Refugí de Perafita em torno das 13h e fiquei mais tranquila. Sabia que dalí o desafio maior era atravessar o último porto até o Refugí dos Estanys de la Pera e de lá seria só descida até o carro.

Minha bateria do celular acabou quando estávamos iniciando a subida para o último porto e com isso parou de registrar a trilha, os carregadores externos que eu levei não funcionaram, o que me deixou chateada, mas sem tempo para lidar com isso. Seguimos a subida e alcançamos o Refugí dos Estanys da la Pera às 15h, bem antes do esperado. O André até me chamou de exagerada pois com minha marcha forçada estávamos quase 2h adiantados, e acabamos não aproveitando muito o dia de trilha para apreciar as paisagens, mas meu medo de pegar a trilha no escuro tinha sido maior.

Nossa segunda surpresa foi encontrar o Refugí dos Estanys de la Pera maravilhoso, com uma parte livre aberta incrível, colchões bons, cobertores e uma lareira grande além de muita lenha acessível. Poderíamos ter dormido ali confortavelmente. O ideal teria sido fazer com bem mais calma esse trecho, chegar lá ao anoitecer e ter uma boa noite de sono reparador antes de continuar, mas como chegamos lá às 15h e ainda tínhamos cerca de 3h de sol, resolvemos seguir para o carro.

Esse último trecho, apesar de ser descida, foi excruciante, porque já estávamos muito cansados e a decida exigiu muito da minha sola do pé. A mochila nem era mais problema, mas os pés doíam muito e no último trechinho antes do carro senti bolhas estourarem e quase chorei, mas por fim, com certa ajuda do André, chegamos no carro, às 18h20.

Viemos direto para casa, onde um bom banho quente, um macarrão e uma noite de sono que durou das 20h30 às 12h do dia seguinte (que era sábado), nos colocou em forma de novo. Essa trilha é maravilhosa e recomendo a todos, mas recomendo que façam em 3 dias, durmam no L’Illa na parte paga e durmam no Estanys de La Pera antes de seguir viagem. Os pés agradecem. Não se esqueçam de confirmar se os refúgios estarão abertos e disponíveis antes de ir. Em certas épocas do ano eles fecham e em outras lotam. O ideal, além de conferir antes, é ir no meio da primavera ou no início do outono.

Não esqueçam roupas mais quentes para a noite e pares de meias extras para garantir pés quentes e acolchoados. A comida acho que vale a pena pagar no L’Illa para poder carregar menos peso, e levar só os lanches e para o jantar do segundo dia.

Foi uma experiência incrível, de superação, muito aprendizado e que valeu cada km, bolhas no pé e tudo!

la seu - cap de rec

Trecho de carro, entre La Seu e o Cap de Rec. 

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Trecho que meu celular gravou, do Cap de Rec até pouco depois do Perafita. Como a rota foi circular, não fica muito difícil imaginar aí no mapa o trecho que faltou marcar de cerca de mais 22km.  

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Para mais fotos confira na Fã Page do Facebook!

Pic de Salória

Sei que durante todo o mês de outubro e agora nesse começo de novembro estivemos sem posts do André na categoria Viagens, e para explicar queria dizer que em outubro recebemos a família do André aqui e também estamos organizando toda nossa mudança da Espanha para Portugal, que começará agora dia 15/11, o que o sobrecarregou, além de outros afazeres. Por hora vou deixar vocês com esse post, sobre o Pic de Salória, que fizemos em 28/09/17 e no próximo post vou falar sobre uma travessia longa de 3 dias, que acabaram sendo 2, na qual atravessamos vários Vales e Picos!

Esse mês, portanto, teremos esses 2 posts sobre trilhas, além dos outros sobre Andorra & Val D’Aran, que foi postado pelo BPM, e repliquei aqui na terça-feira, e o outro com Dicas de Roupas.

Em dezembro estaremos nos acomodando em Portugal e duvido que sobre tempo para escrever muito, mas assim que possível voltaremos a contar nossas aventuras

Bom chega de lenga-lenga, vamos à trilha. O Pic de Salória é o mais alto da comarca de Alt Urgell, onde fica a cidade na qual moramos, La Seu D’Urgell. O Pico chega a 2789m. Mas a trilha que fizemos possui um desnível de cerca de 600m, então foi mais tranquilo do que parece!

A parte mais assustadora foi a estrada que decidimos pegar para chegar lá. Não queríamos ir de carro por dentro de Andorra, o que seria o caminho mais curto, entre La Seu e Os de Cívis, e por isso acatei uma sugestão bem duvidosa do google maps de ir por uma estrada de terra, circundando a montanha. No início passamos por umas pequenas vilas bonitinhas, mas depois que entramos na estrada de terra ela começou a ficar difícil e diversas vezes o André me questionou o porque da escolha dessa trilha em claro desuso.  Eu também me questionei, mas mantive a banca porque alguém tinha que parecer confiante, né?!

Para resumir passamos por dentro de bosques, atravessamos dois rios com o carro, o que subiu muita fumaça e assustou o Picot, e pegamos um frio que não esperávamos para final de setembro. No fim deu tudo certo, graças a habilidade do André em estradas de terra, que é grande, e dessa vez foi testada como nunca, mas após algumas derrapadas estávamos no ponto esperado. Paramos o carro e começamos nossa subida bem íngreme morro acima.

A subida não era muito longa, mas extremamente verticalizada. Chegando à crista da cadeia montanhosa andamos por sobre a trilha na parte mais emocionante, talvez uma das mais emocionantes de todas as trilhas que fizemos, pois a crista era bem estreita e os penhascos bem íngremes de ambos os lados. Tenho vídeos desse trecho da trilha na fã page do facebook, em quatro partes (1/4, 2/4, 3/4 e 4/4), ou no instagram (1/4, 2/4, 3/4 e 4/4) e vocês podem acessar e ver lá.

Achávamos que já tínhamos subido tudo, mas que nada. Foi uma boa subida já na crista até atingirmos o Pico. Tivemos que parar várias vezes para recuperar o fôlego nesse trecho, mas por fim chegamos lá! Foi uma incrível sensação de conquista!

No caminho encontramos joaninhas, grilos coloridos, aves de rapina fazendo rasantes sobre nós e uma paisagem incrível. Chegando no topo o Picot ficou encantado e passou muito tempo observando a paisagem cuidadosamente de cada um dos vales para os quais tínhamos vista! Esse cachorro é um apaixonado por paisagens e a gente fica até sem graça de ver a dedicação dele em apreciar o momento!

Depois de brincar um pouco com a ideia de que eramos o homem, a mulher e o cachorro mais altos da comarca naquele momento, iniciamos a volta. Encontramos uma trilha um pouco menos íngreme na volta, o que facilitou um pouquinho, mas continuou emocionante.

Já no carro escolhemos voltar por outro caminho, passando por Andorra, conhecemos Os de Cívis e Cívis, e passamos por uma quantidade incrível de árvores vermelhas em um dos cenários de outono mais lindos que já vi!  Não deu pra tirar boas fotos de dentro do carro, mas foi inesquecível.

Fiz a trilha marcando nosso deslocamento com o wikiloc, mas como ainda estou aprendendo a usar o app, só lembrei de gravar a rota quando já estávamos na metade da subida, mas fica a foto para vocês terem uma ideia aproximada.

Mapa ida

Mapa da ida, o trecho marcado em vermelho foi o da estrada de terra assustadora.

mapa volta

Mapa da volta, o trecho em zigzag antes de Os de Cívis é o das árvores vermelhas maravilhosas de outono!

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O que eu consegui gravar com o wikiloc da nossa trilha.

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My life on the road

Esse fim de semana passado eu terminei de ler My Life on the Road, da Gloria Steinem. Eu já tinha lido pequenas coisas dela e já conhecia o nome, afinal, ela é uma ativista e tanto e uma das referência quando se fala em luta por direitos e questões de gênero. Esse livro faz parte da lista de leitura indicada pela Emma Watson no Goodreads, parte do programa pessoal dela de estudos de gênero e da iniciativa da ONU #HeForShe.

Mas o que me levantou a curiosidade a princípio foi a possibilidade de ouvir de alguém nômade, como foi essa vida na estrada. Muita gente já me questionou sobre minhas escolhas, sobre estar com 31 anos e ter feito 8 mudanças de casa, 3 de cidade, 2 de país, 1 de continente e estar com a próxima (de país de novo) agendada para o mês que vem. Nesse processo também já tive tantos empregos que minha carteira de trabalho zerou, se for contratada no Brasil de novo tenho que tirar uma nova, todas as páginas estão preenchidas. Isso fora os freelancers, traduções, aulas particulares, projetos, bolsas, voluntariados, etc, que me acompanham desde os 18 anos.

Já vi o olhar preocupado de familiares, já recebi carta dramática de amiga, já ouvi de ex-chefe que ia mudar “logo agora que você arrumou a casa toda, fez até chá de cozinha e tá com tudo tão organizado?”, já vi amiga surtando com minhas blusinhas pra doação dizendo que eu era louca de me desfazer de “tudo mais bonito que eu tinha”. De todos, já recebi muitos olhares saudosos! E de todos já senti muitas saudades! Já fiz também muito skype, já aprendi a viver com menos, já conheço os lugares pra comprar um novo edredom e jogo de cama mais barato, e muitas situações pouco usuais às vezes se tornam cotidianas, como ficar sem travesseiros, sair pra comprar e não achar no dia, improvisar e de repente me tocar que vivo a 11 meses sem travesseiro e não faz falta!

Por tudo isso e mais um pouco, quis ler da Gloria, como foi a experiencia da estrada dela. Foi bem diferente da minha, e ela nem sempre dá os detalhes sobre onde dorme, mas eu encontrei lá muito mais do que a história dela na estrada. Encontrei uma semelhante. Alguém que já está na parte final da curva e que portanto pode dizer, eu vivi a vida toda assim e deu certo. Alguém que ao contar sua história conta junto a história de um movimento, de um país, de uma geração. Tudo isso, já faz valer a leitura mil vezes.

Mas o ponto mais incrível pra mim de toda a leitura não foi nem (só) a questão de gênero e nem a estrada, mas foi a vivência de democracia dela! Eu fui envolvida com movimento estudantil, fui representante de turma, fiz parte de conselhos em tudo o que já participei na vida, e cada dia mais só me decepciono! Acho cada vez mais difícil encontrar pessoas abertas ao diálogo, esses supostos espaços de conversa viraram só espaços de ataque e na internet então nem se fala! Mas na vida dela eu li um relato bonito, duro e cheio de batalhas, mas com lições muito importantes. Lições que me levam a crer que não é o mundo ou a  humanidade que estão perdidos, é o sistema e a forma como vivemos.

Tudo o que eu queria é que cada ser humano pudesse entender e vivenciar uma verdadeira roda de conversa, estilo povos nativo-americanos, e recebesse no final um abraço. Quem sabe assim, talvez…

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JuReMa no BPM: Choques Culturais e Horários

No dia 08 de outubro, saiu no BPM mais um texto meu, dessa vez falando sobre alguns choques culturais e adaptações relativas à horários, calendário laboral, formas de fazer contratos e vidas na cidade pequena no interior da Catalunha.

Vai lá, clicando aqui e lê o texto desse mês! Tanto eu quanto as Brasileiras do BPM nos sentiremos lisonjeadas. Aproveita e deixa aqui ou lá seu comentário com dúvidas ou contando situações similares!

Esse foi meu terceiro texto para o BPM. Dia 02 de setembro foi publicado meu primeiro texto, sobre os Desafios de ser vegetariana no interior da Catalunha. E em 01 de outubro entrou um texto extra sobre o Referendo de Independência da Catalunha, que já rendeu muitos comentários e pano pra manga lá. Se quiser, aproveita e entra pra ler e conhecer um pouco mais!

Estamos com poucos posts de viagens, mais só porque estamos viajando muito! Daqui a pouco o André volta a compartilhar nas sextas-feiras o que andamos fazendo com vocês. Enquanto isso aproveita e curte as fotos das paisagens lindas que vimos ao longo do último ano no Instagram e Fã Page do Facebook do blog!

 

Big Little Lies

Apesar do texto ir ao blog na terça, hoje é sábado. São quase 18h e eu estou atônita, olhando para a tela do meu computador depois de terminar de assistir Big Little Lies, sem saber o que pensar, o que sentir, além de que eu queria muuuuuuuuito nesse momento dar um abraço bem forte em todas as mulheres que eu conheço e dizer “Você não está sozinha! Está tudo bem!”

Eu não vou dar spoilers, e peço a gentileza que não deem, caso deixem comentários, mas recomendo fortemente que assistam! Especialmente se você for mulher. Não é um seriado leve. É forte, os temas são pesados. Mas fala muito profundamente com o âmago da realidade de ser mulher. Mesmo que seja de uma mulher linda, rica, californiana.

Esse seriado é extremamente relevante, embora possa não parecer a princípio, porque fala de algo que hoje em dia é norma: a falsa realidade, a vida aparente. Lembre-se sempre, sempre, que todas as pessoas do mundo, apesar das fotos de viagens, comidas lindas e gostosas, amorzinhos sem fim e tudo o mais que o facebook, instagram e mídias sociais representam hoje em dia, todos são humanos! E todos nós levamos uma bagagem bem pesada nas costas!

Algumas bagagens são mais violentas, outras mais amorosas, algumas mais sofridas em silêncio e outras aos berros, mas todos nós temos uma bagagem enorme. E todas as mulheres apendem desde cedo a sorrir, serem bonitas, apesar de, e justamente porquê possuem, suas bagagens.

Tratem as pessoas com amor, a gente nunca sabe o quanto o outro precisava daquele abraço, daquele elogio sincero, daquela pausa pro café, pra desabafar, pra sentir confiança em contar com o outro. E mulheres, minhas irmãs, sejam mais solidárias! A gente sabe o quanto cada uma sofre, e sabemos que por trás de cada sorriso existe muuuita bagagem! Vamos nos olhar nos olhos de forma a ir além dos sorrisos, e dar amparo à alma! É tudo que ofereço e peço!

De quebra, assista quando puder. São 7 episódios de aproximadamente 1h cada. Veja na ordem. Não veja o sétimo antes de nenhum outro. Você só respira aliviada nos últimos 10 minutos. Até lá, perceba na maldade humana o reflexo de outras maldades, e perceba que os ciclos não se rompem sem muito amor, muito apoio e muita sororidade!

Ah sim, aproveita e baixa também a trilha sonora, vale a pena!

Aproveito pra deixar aqui essa dose de amor bem nessa semana que completei meus 31 anos. Sim, eu amo ser uma mulher na casa dos 30! E sinto que ficará cada vez melhor! ❤

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Outono

Tiro o casaco impermeável, mas fico com preguiça de tirar o gorrinho da cabeça. Passei o dia todo com as botas de caminhada nos pés, embora tenha saído só um pouco pela manhã e uma voltinha com o cachorro à noite. As meias que vinha usando já me parecem finas nos pés, oferecendo pouco volume entre meus dedos e as palmilhas, que ao caminhar esfriam rapidamente, apesar das solas grossas da bota. Ao tirar as botas os pés esfriam rápido demais, apesar das meias frias. No meia da tarde fui revirar meu saco de meias e puxar para o topo as meias grossas de inverno…

Coloco a xícara de chá na mesa. É a terceira do dia. Pela manhã tomei rooibos com framboesa. Após o almoço uma infusão de hortelã e agora à noite uma de camomila. Quando sentei para ler um pouco, no fim da tarde, me enrolei na manta peruana que mora no sofá. Conseguia sentir nos braços a na parte da baixo das canelas a diferença térmica das coxas e abdômen, aquecidos pela manta e o resto não. Ainda não é tão frio, não estou de casaco em casa, não tremo de frio sem essa roupa toda, mas a manta, o cachecol e o gorro me dão aquela relaxada extra, que só um toque morno, de carinho, de massagem, de amor, nos trazem. É outono.

Não oficialmente, ainda claro! Essa mudança oficial chega essa semana, mas o outono chegou uns dias antes, pra já ir avisando à que veio. Essa noite chegaremos a 0ºC na madrugadinha. Depois ainda vai esquentar um pouco, até o fim da semana o sol abre um pouquinho, entre nuvens, e ficaremos entre 22º e 8º, mas hoje a máxima foi 18º, com chuva fina, céu cinza. Mas não é o cinza que dói, que desanima. É o cinza mais caloroso que eu conheço. Aquele clima que faz a gente ficar feliz de estar junto, aconchegado no sofá, debaixo das cobertas! É o clima perfeito pra dormir de conchinha, pra ver filme debaixo das mantas comendo pipoca recém-feita, pra abraçar o cachorro e cochilar depois do almoço, sentindo o calor que emana de cada outro ser dentro da casa.

O outono pra mim é amor! É a estação mais calorosa! É quando estar junto é mais gostoso, mas não indispensável! No verão é quente demais para ficar tão junto, tão perto. No verão, quando o suor se mistura é por pouco tempo, e existe um calor que vem de fora, que nos faz precisar de um espaço, físico, mental e emocional para não derreter, sucumbir sob o mormaço. O inverno é quando estar junto é sobrevivência. É um tempo muito estéril, de muita reflexão, de mente solitária, ativa, afiada como o gelo sob a neve. O estar junto, quando possível, não é escolha, é necessidade. A primavera é quando a gente ganha a independência, e embora estar junto ainda não seja tão desafiador quanto durante o verão, já é possível estar longe e depois do longo inverno nada melhor que sair por aí, andar, respirar o ar fresco, e tomar o sol morno, ver as flores surgirem.

O outono não, não por acaso o mundo fica amarelo, laranja e vermelho. As luzes e as cores representam esse calor, tão humano, tão animal, tão do aconchego, tão do outono. As mãos agradecem a xícara de chá quente nas mãos, as orelhas agradecem o gorro na cabeça e os pés ficam gratos pelas meias grossas. Mas ainda não é necessidade, sobrevivência, é amor, afago, aconchego! É quando tudo fica propício para o carinho e o cafuné, uma conversa um volta da fogueira, uma lareira, um chocolate-quente.

O gorro finalmente sai da cabeça e as botas dos pés, quando com uma mão vou despindo-os e com a outra bato no teclado, pois é dia das palavras saírem. o chá já acabou, e a louça ainda precisa ser lavada. Com água morna. O cabelo só vou lavar amanhã. Começou aquela época da minha predileção de banhos no meio do dia, quando ainda é quente e não preciso do secador.

Ah, meu querido outono, que bom que você chegou! A gente vai se amar muito nesse aconchego de carinhos e cores mornas, enquanto a chuva vai acalmando os ânimos lá fora, limpando as farras do verão, e preparando o mundo pra neve do inverno. Enquanto isso os livros, os chás, os chocolates, as pipocas quentinhas vão se tornando tão especiais! Ler um livro debaixo das mantas passa a ser o melhor hobby do mundo, e o banho morno devolve a sensibilidade dos dedos dos pés e das mãos, transformando esse simples hábito higiênico diário em mais um ato de auto-amor!

Agora vou para minha ducha quentinha, e o pijama vai ser completado com as meias grossas e um casaco molengo bem enrolado no corpo. Depois quem sabe, mais um chá ou um chocolate-quente antes de dormir.

Vem, outono! Vamos se amar muito! ❤

Aiguestortes

08/09/17

Um dos locais mais famosos dos Pirineus é o Parc Nacional d’Aiguestortes, localizado no Noroeste da Catalunha, entre Val d’Aran e Pallars Subirà. A região é bastante despovoada, com menos de 20 mil habitantes entre as duas comarcas. Isso ajuda tanto na preservação da natureza quanto na sensação de isolamento, já que para chegar lá é preciso passar por imensos vales com apenas algumas esparsas vilas. Claro, durante fins de semana e dias festivos os parques são muito visitados, os catalães dão o devido valor para a natureza, sendo o excursionismo uma atividade disseminada pela região. Nós resolvemos criar vergonha e ir conhecer o local, que fica a aproximadamente 1h30 de viagem de onde estamos, e onde não havíamos ido até semana passada… O parque engloba uma série de vales profundos, regiões altas de montanha e agrupamentos de lagos de degelo. Um dos agrupamentos nós já descrevemos na trilha sobre os Colomers, mas o lago mais famoso da região é o Estany Sant Maurici, ladeado por uma cadeia de montanhas onde se encontra os famosos Encantats. Fizemos nossa peregrinação ao local, aproveitando para passar um pouco desse ponto, incluindo mais lagos na nossa visita, além de uma bela cachoeira e um “refúgio” de montanha.

A estrada até lá está muito bem sinalizada e preservada, exceto pelo trecho final, mas nada que comprometa a passagem, pelo menos no período sem neve. O acesso se dá mais ao norte de Sort, por uma cidade chamada Espot, que concentra escritórios para atividades esportivas de natureza e hotéis em sua pequena área. Dali, logo se chega a uma portaria, onde fica o carro. Seguindo a pé, o caminho é bem preservado e fácil para quem tem algum preparo físico, subindo levemente por um bosque por alguns quilômetros até o tal lago. No caminho, já é possível avistar os Encantats, uma montanha gigantesca e bastante recortada.

O lago em si é bonito, mas certamente não o mais impressionante que vimos até agora. O que colabora muito para classificá-lo como o mais famoso lago de montanha da Catalunha é o ambiente no entorno, com bosques de pinheiro e montanhas altas, enquanto os outros lagos já estão muito mais altos, em regiões acima de onde crescem árvores e muito perto dos picos. Também colabora o fato de ser muito acessível, tendo pessoas idosas e crianças feito a caminhada sem nenhum problema, além de um acesso por estrada para deficientes. Isso democratiza bastante o acesso, certamente. O lago de Certascan é muito mais bonito, por exemplo, mas o seu entorno é muito estéril e o acesso é praticamente impossível para quem não tem uma boa condição física. De qualquer maneira, o Sant Maurici é um local que merece a fama que tem, sem dúvida. Um outro ponto interessante do lago é que ele foi ampliado artificialmente com uma barragem. Nestes pontos ele é igual ao Lac Major de Colomèrs, diferindo dos lagos mais “naturais” como os de Perafita e Malniu.

Continuamos a trilha contornando o lago pelo lado norte. O caminho sobe seguindo um pequeno rio, que logo forma uma bela cachoeira, também bastante acessível. Ela não é grande, e também não chega a fazer uma queda vertical, mais deslizando pela pedra do que propriamente caindo. Mas a vista dali é de tirar o fôlego, mais do que já foi tirado com a subida até ali! É possível ver trechos do lago mais abaixo, por entre a mata. O caminho continua e logo a frente passa a linha das árvores. Isso é uma coisa muito curiosa em montanhas, há uma linha bem definida acima da qual as árvores não crescem mais. A vista fica muito mais aberta, mas tanto o sol como a secura ficam impiedosos. De qualquer jeito, segue-se por esse trajeto, contornando a estrada de montanha até o refugio de caminhantes Amitges.

Este refúgio de caminhantes não é exatamente nem um refúgio e nem de caminhantes… Muitas pessoas menos preparadas fisicamente, mas que querem curtir a altitude, pagam os jipes em Espot para serem levadas até ali. O local se converteu em uma espécie de hotel rústico, com direito a carregadores de mala que, em vez de táxis, dirigem LandRovers. Veja bem, nada contra esse tipo de turismo, desde que ele respeite o ambiente. O problema, na minha opinião, é a elitização do acesso, fazendo com que os caminhantes reais não tenham um local acessível para descansar durante as trilhas de mais de um dia. Também deixa evidente o confronto entre duas visões opostas de mundo, a visão daqueles que querem desfrutar da natureza em seu estado mais real e bruto, misturando-se a ela durante dias de estoicismo, com a visão de quem acha (e está certo) de que o dinheiro pode comprar os melhores locais, com as melhores paisagens, sem esforço ou comprometimento físico e ideológico. Fica claro qual das visões está lentamente eliminando a outra…

Passando o refúgio, chegamos logo a mais dois lagos, estes já de alta montanha. aproveitamos para nós refrescar um pouco (eu e o Picot, a Ju não!) e apreciar a paisagem antes de descida de volta. Lagos bonitos, mas nada páreo aos Colomèrs, que estavam a uma curta distância de nós neste ponto, do outro lado dos picos que nos cercavam. Para quem gosta de caminhadas longas (e, principalmente, não deixou o carro no estacionamento) essas trilhas de travessia ainda são muito bem preservadas nos Pirineus, mas dá a impressão de que já houveram dias melhores para os caminhantes. O caminho de volta transcorreu muito mais rápido, pois não precisamos parar para descansar.

No geral, eu achei que o parque merece sim a fama, que seja pelo menos por tornar acessível à todas as pessoas as belezas das montanhas. Mas se alguém quiser conhecer aquele canto único, onde quase ninguém vai, a raridade, não deposite suas esperanças aqui. Em nenhum momento ficamos plenamente sós na trilha, o barulho de conversas era constante (inclusive as nossas) e os jipes passavam com frequência por nós. A quem procura um canto reservado, minha dica é abrir o google maps, procurar os lagos mais próximos dos topos das montanhas e mais distantes das estradas, e então descobrir por conta como chegar lá!

La seu - Parking Sant Maurici

La Seu – Espot – Parking Saint Maurici

trilha Sant Maurici - refugi amitges

Estany Saint Maurici – Refugì dels Amitges (Trilha disponível para download

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O Estany de Saint Maurici

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Lagos acima do Refugì dels Amitges

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Ferrante

Mês passado eu li a Série Napolitana da Helena Ferrante, primeira obra dela que leio. São 4 volumes que me absorveram e consumiram por completo. Ainda tô tentando digerir. Às vezes me pego pensando, me inspirando. De tudo, o que mais queria dizer é, obrigada! De tudo o que mais sou é grata por poder ler tal obra.

Os quatro volumes, que inspiram ares de uma longa saga, não poderiam estar mais distantes de todas as sagas heroicas que li e reli com tanto gosto e afinco na vida, e ao mesmo tempo nunca me senti tão inspirada por uma saga. Ferrante é mulher. Primeiro e acima de tudo! Depois é escritora, de porte e renome, e de uma escrita que só posso definir como verdadeira. Nessa obra, escrita entre 2012 e 2015, Helena nos presenteia com um relato detalhado de sua vida, já de uma perspectiva da autora idosa, podendo assim falar de começo, meio e ares de fim, numa história auto-biográfica com gostinho de auto-ficção.

Depois de terminar os quatro volumes só conseguia pensar, obrigada! Obrigada por me mostrar que ser escritora é mais que ser brilhante. Que a literatura é mais do que as sagas heroicas. Obrigada por ser mulher! Obrigada por me mostrar que ser mulher é viver uma saga heroica, digna de muitos volumes.

O estilo de escrita é ao mesmo tempo delicado, feminino, visceral, sujo, cheio de confissões, revelando medos, paixões e destinos. Helena nos mostra que ela é sim, ao mesmo tempo brilhante e como qualquer uma de nós. Nos mostra que mesmo uma ativista feminista, que escreveu e debateu sobre a situação da mulher ainda nas décadas de 1960 e 1970 na Itália, pode ser vítima de relações abusivas e más escolhas amorosas.

Helena nos mostra que criar filhas e ter uma carreira foçam a mulher a decisões dificílimas, que são tomadas sempre muito sozinha, mas cujos resultados são duramente julgados pela sociedade, pelos homens. Mostra também que “bons” homens não são necessariamente “bons” pais. Que intelectualidade não é sinônimo de inteligência emocional. E que as violências psicológicas impactam tanto a vida quanto às físicas.

Mas Helena mostra também que temos essa força para seguir a vida, a pesar, e por causa de tudo isso. E que as consequências são isso, consequências. Boas ou más é um julgamento individual, dos que conosco convivem e sofrem as bençãos e desgraças dessas consequências.

Ela nos mostra que tentar agradar é falhar. De ante mão! Sempre. E que ser “bem-sucedida” é um conceito tão vazio e vago quanto um pântano cheio de neblina. Família é um conceito abstrato, que se confunde com amizade, origens e empatia. E que ao longo da saga que é a vida de cada um de nós, as mesmas personagens assumem papeis diversos, de heróis à antagonistas, cada qual por sua vez. E aqui a protagonista não é protegida. Não existem os “bons” e os “maus”, existem nós. Todos nós.

Me chocou a violência doméstica estatizada italiana. Que incluí de estupros dentro do casamento à crianças defenestradas em surtos de raiva dos pais. Incluí também violências mais delicadas, como competições entre amigas e irmãs, desde por notas escolares e carreira profissional até namorados, maridos e amantes. A falta de sororidade é proporcional ao nível de violência machista. Acaso? Duvido, e Helena também.

Me choca também o desligamento do conhecimento acadêmico e da elite intelectual com o povo, às necessidades reais da sociedade e capacidade de comunicação bastante desgastada, se é que algum dia ela existiu de fato, entre os grupos. Seja quando ela relata a própria experiência acadêmica e a relação de desaprovação de seu trabalho em comparação inversa com a apreciação do público em geral pelo seu trabalho publicado. Seja entre os militantes partidários de esquerda bem estudados e os trabalhadores sofrendo as violências diárias nas fábricas. Seja entre o discurso do “bom moço” e suas ações práticas no trato com as mulheres.

Então, o que aprendi com Helena é que a vida é uma saga onde ninguém é herói, onde alguns conseguem tudo com pouco esforço, por nascimento ou influência e outros perdem sistematicamente tudo o que conseguem com muito esforço. Mas que no final, nem isso importa. Que se queremos algo devemos fazer nós mesmos, e que família são os amigos que construímos no caminho, assim mesmo dadas proporções. E que em meio a toda essa vasta solidão, basta amarmos a nós mesmas e seguir confiante. O não já temos, então por que tanto medo de tentar o sim?

Obrigada, Helena!

 

Estany de Malniu

05/07/17

Em Agosto nós relaxamos um pouco e acabamos não fazendo trilhas originais. Repetimos algumas pequenas, até chegamos a dromir em um refúgio aberto, mas não havia nada de muito novo para contar. Até que na última terça resolvemos fazer uma caminhada pequena, mas nova, até o Estany de Malniu, só para aquecer e nos prepararmos para um grande plano que temos, de passar 2 dias e meio em trilha. Acontece que, como de costume, passamos do Estany e seguimos caminhando um tanto a mais, e tivemos que adiar nosso grande projeto porque nossas pernas não resistiriam… De qualquer jeito, acabamos fazendo uma boa caminhada em um local inusitado!

Começamos o dia um pouco tarde, já que não tínhamos nada planejado e acabamos fazendo isso pela manhã. Fomos com o carro até o Refugi Malniu, que fica a uma distância pequena do lago homônimo. A distância entre eles é de não mais do que 2,5 km de trilha, com uma subida leve. Este trecho estava bem movimentado, sendo constante a presença de pais e mães com suas crianças, deixando claro a facilidade do caminho. Contornamos o lago pelo lado oeste e começamos a subir novamente em direção ao Prat Fondal, uma área plana um pouco acima do lago. A trilha oficialmente acabaria aí, mas nós vimos a chance de subir a encosta mais alta, que divide a Catalunha da França. Tomamos coragem e, saindo da trilha demarcada, começamos a nossa escalada.

O caminho a partir deste ponto foi lento e bastante inclinado. Nós procurávamos a cada 50 ou 100 metros alternativas viáveis para a passagem, pois às vezes nos encontrávamos de frente com paredões de pedra imensos, brejos lamacentos ou vegetação volumosa demais para passarmos. Eventualmente chegamos em um local mais plano e, para nossa surpresa, o que achamos que seria o fim da trilha era na verdade a metade da subida. Não querendo desistir já tendo subido tanto, paramos para descansar um pouco e logo continuamos o caminho. Neste ponto, fomos surpreendidos por um barulho incomum, alguma coisa grande se movendo por perto. Porém não havia som de motor. A Ju avistou antes um imenso planador passando sobre nós, e da segunda vez que ele passou eu percebi que ele vinha acompanhado. Os dois planadores rodaram sobre nossas cabeças por algum tempo e depois desapareceram… Logo alcançamos uma passagem que dava uma vista melhor, e vimos que o resto da subida seria ainda pior. Só tínhamos uma alternativa, porque o vale a nossa frente era extremamente inóspito, e então contornamos a borda mais próxima de nós, que era menos escarpada. Depois de um trecho que oscilava entre caminhada e escalada, alcançamos o topo!

Para a nossa surpresa, quando conseguimos vista do topo, o local não era uma cadeia estreita de picos, como geralmente acontece. Demos de cara com um platô gigantesco e levemente ondulado, onde trechos de um pasto duro e áreas de pedra bruta se alternavam no terreno. Eu sabia onde nós estávamos, aproximadamente, e achei que seria proveitoso andar até a ponta oposta do platô, pois ali havia um imenso vale, já na França. Neste ponto, a vista aberta do local me enganou um bocado, e eu achei que as distâncias eram muito menores do que na realidade. No meio do caminho achamos um riacho tão limpo quanto frio, e aproveitamos para encher a garrafa, que já estava quase vazia (a Ju tinha uma segunda, mas ainda assim).

Durante esta parte toda pudemos apreciar manadas de vacas e cavalos, que eu imagino que estando ali fiquem fora do alcance dos fazendeiros da região, além de bandos de cervos selvagens. Assim que o Picot percebeu estes animais, saiu correndo o mais rápido possível atrás deles. Sendo a vista aberta, achei que não teria problema deixá-lo exercer seus instintos, sabendo que ele não alcançaria nada! Depois de muita corrida, ele voltou exausto, com um olhar satisfeito! Também vimos alguns locais onde pequenas flores vermelhas se alastravam pelo chão, formando vários pequenos núcleos coloridos ao nosso redor.

Ao chegarmos na ponta norte do platô, pudemos dizer que o esforço foi recompensado. A vista do vale é surpreendente, com uma pequena cadeia de picos dividindo-o no meio. Dali conseguimos ver duas cidades francesas e os caminhos que levam delas à área selvagem de Andorra, pela Portella Blanca. Neste ponto, tivemos o diálogo mais incomum do ano, sobre um helicóptero que passava voando a mais de 1km de altura abaixo de nós, de tão alto que estávamos. Descansamos um pouco neste local, apreciando a vista e o frio que fazia ali, antes de iniciar nossa volta.

Seguimos em direção ao lado catalão mais uma vez, passando por uma vaca morte, da qual só restava o couro e os ossos. Foi um pouco mórbido, mas nos mostrou como o local realmente é inóspito. Ao chegarmos nas escarpas do lado sul, demoramos um pouco para achar um ponto adequado para a descida. Mas eventualmente encontramos um caminho que se não foi fácil, também não foi impossível. Atravessamos depois da descida uma região dominada por grande pedras, sobre as quais tivemos que pular, para o desespero do Picot que muitas vezes não dava conta de escalá-las. Mas ele sempre achava um caminho alternativo e nos alcançava. Atravessamos alguns riachos que passavam por dentro de pedras e cavavam túneis no solo, de onde nós ouvíamos mas não víamos a água. Eventualmente chegamos de novo ao Prat Fondal e, desviando de algumas vacas, voltamos até o Lago. Dali, seguimos o mesmo caminho de volta para o carro.

Apesar do cansaço ter nos impedido de fazer a maior caminhada planejada até agora, que seria neste fim de semana, nós já traçamos outros planos e pretendemos fazê-la até o fim dom mês. E também não podemos dizer que não aproveitamos a trilha que nós mesmo inventamos!

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La Seu – Refugí Malniu

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Aproximadamente a trilha que fizemos

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Estany de Malniu

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Início da subida de fato, no Prat Fondal

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Ache o planador na foto!

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Nessa foto é possível reparar que o lado esquerdo, pelo qual subimos é menos escarpado e cheio de pedras, enquanto o direito é um paredão de areia, impossível de subir

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Atrás da pedra grande é possível ver a parede lisa e inclinada

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O grande platô

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Ache a cidade no vale lá em baixo! Era sobre ela que voava o helicóptero

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A descida foi em meio a essas pedras

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Picot vigiando a fronteira

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Só couro e ossos

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Vista dos lagos lá de cima

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Descemos esse paredão aí

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Bezerro no pasto ou “boi da cara branca”