Outono

Tiro o casaco impermeável, mas fico com preguiça de tirar o gorrinho da cabeça. Passei o dia todo com as botas de caminhada nos pés, embora tenha saído só um pouco pela manhã e uma voltinha com o cachorro à noite. As meias que vinha usando já me parecem finas nos pés, oferecendo pouco volume entre meus dedos e as palmilhas, que ao caminhar esfriam rapidamente, apesar das solas grossas da bota. Ao tirar as botas os pés esfriam rápido demais, apesar das meias frias. No meia da tarde fui revirar meu saco de meias e puxar para o topo as meias grossas de inverno…

Coloco a xícara de chá na mesa. É a terceira do dia. Pela manhã tomei rooibos com framboesa. Após o almoço uma infusão de hortelã e agora à noite uma de camomila. Quando sentei para ler um pouco, no fim da tarde, me enrolei na manta peruana que mora no sofá. Conseguia sentir nos braços a na parte da baixo das canelas a diferença térmica das coxas e abdômen, aquecidos pela manta e o resto não. Ainda não é tão frio, não estou de casaco em casa, não tremo de frio sem essa roupa toda, mas a manta, o cachecol e o gorro me dão aquela relaxada extra, que só um toque morno, de carinho, de massagem, de amor, nos trazem. É outono.

Não oficialmente, ainda claro! Essa mudança oficial chega essa semana, mas o outono chegou uns dias antes, pra já ir avisando à que veio. Essa noite chegaremos a 0ºC na madrugadinha. Depois ainda vai esquentar um pouco, até o fim da semana o sol abre um pouquinho, entre nuvens, e ficaremos entre 22º e 8º, mas hoje a máxima foi 18º, com chuva fina, céu cinza. Mas não é o cinza que dói, que desanima. É o cinza mais caloroso que eu conheço. Aquele clima que faz a gente ficar feliz de estar junto, aconchegado no sofá, debaixo das cobertas! É o clima perfeito pra dormir de conchinha, pra ver filme debaixo das mantas comendo pipoca recém-feita, pra abraçar o cachorro e cochilar depois do almoço, sentindo o calor que emana de cada outro ser dentro da casa.

O outono pra mim é amor! É a estação mais calorosa! É quando estar junto é mais gostoso, mas não indispensável! No verão é quente demais para ficar tão junto, tão perto. No verão, quando o suor se mistura é por pouco tempo, e existe um calor que vem de fora, que nos faz precisar de um espaço, físico, mental e emocional para não derreter, sucumbir sob o mormaço. O inverno é quando estar junto é sobrevivência. É um tempo muito estéril, de muita reflexão, de mente solitária, ativa, afiada como o gelo sob a neve. O estar junto, quando possível, não é escolha, é necessidade. A primavera é quando a gente ganha a independência, e embora estar junto ainda não seja tão desafiador quanto durante o verão, já é possível estar longe e depois do longo inverno nada melhor que sair por aí, andar, respirar o ar fresco, e tomar o sol morno, ver as flores surgirem.

O outono não, não por acaso o mundo fica amarelo, laranja e vermelho. As luzes e as cores representam esse calor, tão humano, tão animal, tão do aconchego, tão do outono. As mãos agradecem a xícara de chá quente nas mãos, as orelhas agradecem o gorro na cabeça e os pés ficam gratos pelas meias grossas. Mas ainda não é necessidade, sobrevivência, é amor, afago, aconchego! É quando tudo fica propício para o carinho e o cafuné, uma conversa um volta da fogueira, uma lareira, um chocolate-quente.

O gorro finalmente sai da cabeça e as botas dos pés, quando com uma mão vou despindo-os e com a outra bato no teclado, pois é dia das palavras saírem. o chá já acabou, e a louça ainda precisa ser lavada. Com água morna. O cabelo só vou lavar amanhã. Começou aquela época da minha predileção de banhos no meio do dia, quando ainda é quente e não preciso do secador.

Ah, meu querido outono, que bom que você chegou! A gente vai se amar muito nesse aconchego de carinhos e cores mornas, enquanto a chuva vai acalmando os ânimos lá fora, limpando as farras do verão, e preparando o mundo pra neve do inverno. Enquanto isso os livros, os chás, os chocolates, as pipocas quentinhas vão se tornando tão especiais! Ler um livro debaixo das mantas passa a ser o melhor hobby do mundo, e o banho morno devolve a sensibilidade dos dedos dos pés e das mãos, transformando esse simples hábito higiênico diário em mais um ato de auto-amor!

Agora vou para minha ducha quentinha, e o pijama vai ser completado com as meias grossas e um casaco molengo bem enrolado no corpo. Depois quem sabe, mais um chá ou um chocolate-quente antes de dormir.

Vem, outono! Vamos se amar muito! ❤

La Seu es Seva – Trilha 3

Antes de falar da trilha, queria fazer alguns esclarecimentos. Estava empolgado pra descrever as duas primeiras trilhas e pulei alguns passos. É importante informar sobre o mapa que tenho utilizado. É um mapa de excursionistas de Alt Urgell, pode ser encontrado em livrarias. Pertinho da Plaza Catalunya, em La Seu d´Urgell mesmo pode-se comprar um por 6 euros e alguma coisa. As trilhas (onde só se pode ir a pé), estradas (permitem passagem de carros) e pontos de referência que uso são a partir desse mapa. Na trilha 1, por exemplo, dei como referência a altura de um pico, para melhor localização de acordo com o mapa. Tem coisas nele que não estão corretas, mas no geral tem sido extremamente útil. Dito isso, podemos dar continuidade!

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Trilha 3 – 10/12/16

Roteiro – Bescarán (1) – Riu de Bescarán (2) – Paluc (3) – Refugi del Coll de Midós (4)- Coll de Midós (5) – Coll Jovell (6)

Essa trilha começa já em Bescarán. Não acho que seja possível fazê-la em 1 dia a partir de La seu d´Urgell, a não ser que você tenha uma velocidade e resistência excepcionais e esteja andando no solstício de verão! Um carro ou uma carona serão necessários aqui.

1 – A vila de Bescarán é simpática, mas não encanta como Arcavell. Durante a manhã a cidade é sombreada pela montanha atrás dela, deixando o frio de dezembro ainda mais agudo. Algumas casas estão bem reformadas e parecem ser de quem tem o suficiente para ter uma segunda casa, mas outras estão decadentes ou reformadas sem a preservação do estilo local, o que quebra um pouco a magia. Eles tem, porém, uma torre de estilo lombardo que sobrou de uma igreja do século XI ou XII! Infelizmente eu não tenho nenhuma foto boa da torre. Um ponto interessante que pude perceber aqui é que as construções de pedra antigamente eram rebocadas. Uma das casas ainda tem restos do reboco. Parece que a intenção de expor as pedras é mais recente.

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Campanar de Sant Martí – construída no ano de 914 d.C.

2 – Saindo pelo norte da cidade, a parte mais alta, há uma trilha bem marcada. Ela anda muito pouco até bifurcar, aqui o caminho da esquerda parece ir em direção a Andorra, mas meu plano estava em subir à direita. Depois disso, é só manter à esquerda por um bom tempo! O começo da trilha beira um vale bem fundo, com o som da água corrente e vista para um cachoeira do outro lado. A subida segue acentuada até uma passagem daquelas que impede a saída de gado e uma seringa para gado também. Aí sairemos em uma estrada. Mantendo à esquerda, essa estrada segue por uma boa distância, eventualmente se aproximando do Riu de Bescarán o suficiente para descer e colher água ou apreciar a vista. Do outro lado do rio há algumas casinhas bem preservadas. Quando passei, o trecho todo de estrada estava entre gelo e neve. O gelo reduz a velocidade e há um grande risco de escorregar. A neve alta só reduz a velocidade e cansa um pouco. A neve baixa é uma delícia de andar! Eventualmente, a estrada serpenteia pra cima. Eu tentei cortar caminho por fora da estrada, mas me arrependi. A neve fofa acabou com meu fôlego! Esse trecho todo até aqui é feito na encosta norte, o que significa frio!

3 – Quando a estrada contorna o Pico Paluc, a vista se abre para o sol e para os vales abaixo! Há uma casinha de pedra bem junto a estrada, quase impossível de não ver. Só não digo impossível porque eu não vi. Voltaremos nela mais tarde. Se você seguir a estrada do lado sul, eventualmente você se afastará do Pico Paluc e irá na direção de Cerdanya, a província mais a leste. O pico mesmo não tem trilha que leve a ele e imagino que seja território de caça. Ele não faz exatamente um pico, mas há uma clareira mais larga em seu topo. Eu subi pela encosta mesmo, a passagem é bem limpa e a inclinação não é um impeditivo. Fora da trilha é possível ver sinais de cervídeos, como patas na neve e fezes em síbalas. Em um trecho, foi possível perceber que uns 2 ou 3 deles estavam correndo quando passaram. Também parece haver javalis, mas ainda não sei identificar tão bem os rastros! O topo tem uma vista incrível para o sul e sudoeste, sendo possível ver até o aeroporto e Castelciutat (La Seu fica escondida atrás de uma serrinha), mas do lado norte as árvores bloqueiam a visão pras montanhas de Andorra. Ainda assim, é lindo e a neve entra no seu tênis de tão alta em alguns trechos. Aliás, vale reforçar, vá com calçados confortáveis!!!

4 – Descendo de volta até aquela casinha de pedra, temos um local perfeito pare ler Toureau ou Hemmingway. O refugi de Coll Midós estava trancado, mas sua vista para o oeste dá um panorama incrível. A construção é muito simpática e a estrutura em volta para lidar com gado cria uma imagem curiosa do que o trabalho e o isolamento deveriam ser em outros tempos, ou pelo menos no verão. Há um cocho com uma água limpíssima e, agora no fim do ano, com gelo cobrindo algumas partes da água. Num mundo paralelo perfeito, eu moro aqui com um Bernesse e trabalho de lenhador ou guarda florestal. Um excelente lugar, não interessa pra quê.

5 – A descida eu fiz fora da trilha, descendo exatamente para sul. Supostamente há uma trilha ali, mas eu não vi nada. Mas também o caminho é bem suave. Parece que tem uma trilha que desce do refugi mais para oeste, mas eu não fui checar. Saí numa estrada que faz parte da trilha de Sorri, uma trilha que se sobrepõe a essa minha algumas vezes e que é bem demarcada. Virei a direita (oeste) e segui a estrada. No mapa diz que há um Dólmen de Coll Jovell no caminho, mas eu não vi nada. Esse trecho todo é um bosque com uma estrada bem aberta, apesar de pouco usada. Depois descobri que ali é fechado pra carros (não fiz muitas perguntas quanto a ser fechado pra pedestres), mas que passam caminhões e há extração madereira. Diferente da primeira trilha, eles não devastaram o bosque todo, mas tiraram algumas árvores somente. Fiquei refletindo sobre a necessidade da geração de empregos e produtos contrapostos à exploração do ambiente. Me pareceu uma saída viável usar a área daquela maneira, mais responsável.

6 – A única bifurcação dessa estrada eu mantive à esquerda. A trilha estava com bastante neve, mas nada que atrapalhasse o caminhar. Depois de alguns quilômetros, saí exatamente onde estava a seringa para gado do trecho 2. Ali havia a placa de proibido passar, estipulando multa e tudo, e eu estava voltando “por dentro”. Mas me pareceu seriamente que isso se destinava a carros, até porque havia mais pegadas na neve nesse trecho todo (parecia de um casal, pelos tamanho, formatos e disposições). Dali tomei o mesmo caminho de antes até Bescarán, marcado como 30min a pé, pois a estrada estava sinalizada como mais 5km.

Resumindo, adorei essa trilha, caminhar pela neve foi uma experiência nova e encantadora, e a vista também foi incrível. A combinação da montanha com a neve deu uma sensação curiosa, de felicidade sem alegria. Eu não estava querendo rir, brincar, contar piadas, só estar ali, ouvindo o barulho da neve sob meus pés. As cores e os cheiros acalmavam e davam uma sensação de plenitude. Pensei muito sobre os primeiros povos a viver ali. Não à toa as primeiras deusas e primeiros deuses controlavam a natureza e seus elementos. Este final de outono também é um período interessante, a vida parece estar se despedindo do sol e preparando pra se esconder. Tudo é silêncio e recolhimento.

As montanhas e o frio sempre abrigaram seres mitológicos, mágicos. Os da montanha sempre foram trabalhadores, industriosos. Os do frio tendiam a ser perversos e sorrateiros. É possível entender tudo isso, a vida nas montanhas antes das facilidades modernas devia ser penosa, e o inverno devia colher pessoas como as pessoas colhiam as abóboras na estação anterior. Hoje, liga-se o aquecedor, move-se de carro, alimenta-se do supermercado. Ainda bem que pudemos enquanto espécie facilitar nossas vidas, mas estar em contato com esses elementos até instintivos da nossa espécie é ainda impactante.

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