Entre Antônios e Samueis

[*Texto antigo, de 23/02/14, de dois anos atrás, encontrado em caderneta pessoal de anotações, rascunhos e devaneios, publicado pela primeira vez hoje, 27/02/16]

“Às vezes me pergunto se algum dia deixarei de me sentir um titã, com duas luas apoiadas em meus ombros, iluminando os destroços da minha última guerra.

Se algum dia o sutil, o suave, súbito, ocupará o lugar do denso, tenso, intenso do meu pensamento?

Entre Antônio e o Skank, vivo os dois lados da minha mesma moeda.”

[ps: dois anos depois, digo que sou sim muito mais sutil, suave e súbita, de 2014 para 2016 minha vida mudou muito, mas eu mudei muito mais e aprendi que as luas não pesam nada quando somos fortes o suficiente para carrega-las nos ombros, e em vez de sentir seu peso, admirar seu reflexo de luz.]

Licença Poética em Shuffle

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.
antonio shuffle

 

 

 

 

 

 

 

Eu me Chamo JuReMa

Hoje a menina se arrumou para sair de casa, despretensiosa. Já eu estava um pouco IMG_0732ansiosa. O fim de semana foi de paz para as duas, pra mim e para a menina. Descansamos depois de muitos dias de trabalho, e a menina largou seus livros por uma dose rara de TV e jogos. Já eu me entretive com a paisagem e com a família, irmão e sobrinhos. Meu caderninho ficou guardado na bolsa, junto com os livros da menina. Esse fim de semana a menina não estava muito Alice e nem eu muito reminiscente.

E foi assim, de espirito leve, que entrei naquela fila. Admiro muitas coisas e pessoas diversas, mas existe em mim uma fã, uma tiete, que não necessariamente possui a admiração solene que tenho pelas belas obras, mas uma que só quer sentir a emoção fulgaz das coisas pequenas que me falam à alma. E para distrair a minha leve ansiedade, deixei a menina brincar pelos corredores do shopping, e ela fez o que faz de melhor, sentou-se no chão, ali no meio daquela gente toda, tirou um de seus livros da minha bolsa e pôs-se a ler, para dar uma fugidinha daquele lugar tão artificial. Talvez não houvesse tempo hábil entre uma passada da fila e a próxima para nos jogarmos na toca do coelho, mas para um crônica rápida sempre há tempo. E assim, a menina optou por ser menos Alice e mais Adriana naquele momento.

E foi assim, que Sofia despertou em mim. Foi na página setenta e cinco, que eu li o título, “A Mocinha”. E a menina me olhou toda animada, se reconhecendo nas páginas. E empurrei Sofia para dentro sob o argumento de que aquelas páginas não eram dela, e eu ainda estava no meio do shopping movimentado, imersa em realidade, por mais que a menina solta já estivesse sentada no chão, de “perninhas de índio”, como uma criança perdida na sua vida adulta.

E foi ao ler as páginas da mocinha que a menina me disse que se a mocinha podia ser, ela também podia. Olha como a mocinha é como você, a menina me disse. E isso eu não podia contestar. O problema foi a Sofia. Como alguém já experiente em sair das páginas de um livro e migrar para a realidade, ela se inflou toda com o reconhecimento da menina, que se adrianava nas palavras da mocinha. Respirei fundo para acalmar aquela mulherada que se apoderava da situação, e retomar o controle da realidade, já que eu era a única que dominava a realidade ali.

Foi quando olhei para frente, guardando o livro da menina, a história da mocinha já finda, e peguei o meu livro para fazer o que tinha ido fazer ali, tietar. Mas eis que nesse momento, Sofia já tinha saído das páginas, e se apoderou de mim com a força da Alice. E vi na minha frente um outro ser que também é vários. Vi Pedro, vi Antônio, vi Gabriel, e vi também o Chapeleiro Maluco. Já estava muito longe, toca adentrada sem perceber, e discorria sobre as maravilhas desse país imaginário tão real. Num borrão digno da ficção, até agora não sei se estou cheia de reminiscência sobre o meu passado, meu presente ou meu futuro. Não sei se a menina, então Alice, feliz com o encontro com o Chapeleiro se deixou levar pelas maravilhas. Não sei se Sofia saiu das páginas para a vida real e me empurrou para preencher seu vazio dentro do livro.

Talvez tenha virado palavras, para que elas pudessem ganhar vida. A sensação é a de ressaca. Ressaca forte como a do mar. Que me balança e enche de náuseas. E nesse balanço percebo que meu mar e feito de palavras, polvilhadas de poesia. E que minhas reminiscências se misturaram de forma inseparável com as aventuras da menina. E que somos uma. Sempre fomos uma. Hoje, Eu me Chamo Menina. Eu me Chamo Alice. Eu me Chamo Adriana. Eu me Chamo Sofia. Eu me Chamo JuReMa.

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