Nunca me apaixonei

Fazendo um paralelo com aquele filme da Drew Barrymore (amo ela, amo o loiro grunge esquisito dela, os filmes aleatórios dela, e o fato dela ser uma hollywoodiana tão cheia de peculiaridades pouco aceitas em Hollywood, embora até comuns) Nunca Fui Beijada, segue uma historinha de fim de semana. Soltando a frase bombástica: nunca me apaixonei! Corram para as montanhas, porque tem muita gente que se ler isso vai querer entender, então caso você seja um leitor, respire fundo, mantenha a calma e leia até o fim primeiro. Sim, já amei! Amei muito! Não, nunca me apaixonei. Não sei que gosto tem, que cor tem, que forma tem, se é que tem.

Primeiro deixe-me falar sobre as diversas formas de amor e de separá-las bem da paixão. Amor é uma coisa linda, na qual minha vida sempre esteve imersa. Cresci numa família muito amorosa e de cedo experimentei amor em doses cavalares. Amor de mãe, amor de avô, amor de avó, de tio, tia, primo, prima, vizinho, amigo, cachorro, o de cachorro, aliás, é um dos mais incondicionais e maravilhosos e devia constar no topo da lista! Mas sempre duvidei do tal amor homem-mulher. Acho que já comentei isso aqui em outros textos. Talvez tenha sido um reflexo da relação dos meus pais que foi muito conturbada, cheia de desconfianças e traições e do fato deles terem, por isso, se separado antes de eu nascer. Talvez seja porque minha mãe nunca mais teve nenhum outro relacionamento, que eu saiba pelo menos não, então não importa, não convivi com paixão.

Tinha meus avós, ok. Fato que eles demonstraram um casamento sólido e baseado no companheirismo, de cinquenta e seis anos. Inclusive vi minha avó definhar em depressão até a morte em poucos anos depois da ida do meu avô. Mas isso foi mais tarde, quando já tinha descoberto que o amor era possível. Na adolescência meus avós eram, para mim, seres obviamente assexuados, que inclusive habitavam quartos separados, e que eram muito amigos, muito companheiros e tinham uma bela e enorme família para cuidar. Isso não me inspirava nada relacionado à paixão.

Minha mãe era uma Rapunzel. E eu conheci a história que fica depois do fim do livro. Quando eu nasci ela já estava com os cabelos curtos e lá no alto da torre. Trancada por conta própria. Já tinha fugido da torre, já tinha se aventurado, já tinha dado errado, já tinha se assustado, e para a torre ela voltou e lá ficou. Nunca me prendeu, pelo contrário, de cedo me ensinaram a escalar as paredes da torre, a brincar com cordas, e virei logo moleca, nem o isolamento me assustava, nem a altura, nem a distância com a civilização. Ia e vinha e me acostumei com a solidão e a reclusão dela como algo natural. Existia o mundo, e existia a torre da Rapunzel. E essa Rapunzel era esperta, como ela sabia falar com os pássaros, habilidade perfeita e inata, lá da época de torre original, quando os cabelos eram longos e hippies, ela continuou utilizando os pássaros e sua música como ponte com o mundo. E os que ouviam sua voz, sua música e sua conversa com os pássaros achavam que ela estava entre eles, vivendo no mundo. Alguns poucos sabiam que isso era apenas uma artimanha para ela permanecer na torre.

Seja como for, fui uma adolescente muito cética. Tive minhas paixonites, crushes, tive sim. Umas duas ou três, dependendo da intensidade considerada. Uma só dependendo de outras. Nada que tenha virado nada. Nem em beijos resultaram. Foi uma coisa bem leve, embora algumas coisas tenham me marcado para sempre. Meu amor de adolescência foi forte, pleno e perdura até hoje no que diz respeito as amizades. Aprendi a construir uma família com muitos sobrenomes e o amor continuou a transbordar. Livros e filmes de aventura, de amizade, de sair pelo mundo e encontrar seu sentido nele sempre me cativaram. Os românticos não. Alguns filmes me marcaram e gosto muito, porque foram icônicos da minha geração, como O Casamento do Meu Melhor Amigo, Nothing Hill, 10 Coisas que Odeio em Você e outros. Mas nunca me vi ali.

Sempre sofri de nostalgia de algo que não sei bem até hoje o que é. Essa nostalgia passa e me emociona pois parece que me encontro quando viajo, quando caminho por aí. A melhor definição já esteve num Bloquinho por aqui, uma saudade de coisas que nunca vi ou vivi. E sempre achei que perseguir essa sensação fazia mais sentido do que tentar me apaixonar. Outra coisa que muito me angustiava e angustia até hoje é o hábito que percebo em amigos e conhecidos (e até em desconhecidos) de querer tanto ter alguém ou estar em uma relação que isso se torna mais importante do que a pessoa em si. Sempre achei isso bizarro. Entendo os outros, mas acho um belo tiro no pé.

Com todas essas sensações, sentimentos e crenças, coloquei essas ideias românticas de lado, e comecei minhas viagens. E entre muitos livros, que são viagens, muita música, que são viagens, e viagens propriamente ditas, fui aumentando, em vez de saciar, minha saudade de tudo que nunca vivi. E fui uma adolescente sem histórias românticas, ou com alguns casos, ou causos para contar, de coisas que na verdade nunca aconteceram. Só que eu não tinha essa consciência assim de tudo isso, dessa forma organizada, na época. Só sabia que o mundo romântico me bastava na música e nos livros.

Um dia, viajando, vivendo aventuras, conheci alguém que decidiu enfrentar minha descrença. Apareceu e reapareceu. Insistiu. Se fez presente na minha vida. Foi meu cavaleiro, espada em punho, cavalo branco, pronto para salvar uma donzela de uma alta torre. Já expliquei essa história aqui também. Mas eu, sendo filha de uma Rapunzel exilada por escolha própria, era íntima da torre, e não precisava ser salva. Não me apaixonei. Mas gostei da coragem de insistir do moço. Era a primeira vez que eu não era imediatamente classificada como amiga e pronto. Já estando com meus dezoito anos, resolvi viver essa história e ver onde ela iria. Nunca imaginei.

Minha vida virou tormenta e por mais de dez anos naveguei águas impossíveis que naufragaram quase todos os navios que estavam na minha frota. Eu sobrevivi. Um tanto quanto náufraga, mas sobrevivi. E o cavaleiro se fez! Todos os apuros inimagináveis apareceram em minha vida. E ele pode ser tudo o que ele queria ser para uma donzela. Me fiz donzela para que ele pudesse ser um porto seguro nessa tormenta, e assim o foi, por muitos anos. E nesses anos o amor nasceu e cresceu lentamente. E amei muito. Muito mais do que jamais achei que seria capaz, ou que era possível, ou que existia. Mas nunca me esquecerei, que a primeira vez que disse “eu te amo”, era mentira. E eu sabia muito bem disso. E demorou muito tempo até que aquelas palavras saíssem de minha boca com significado real. Algumas pessoas tem histórias complexas a respeito de suas primeiras relações sexuais. Para mim o complexo foi esse primeiro “eu te amo”. Nunca me esquecerei o lugar, a roupa que vestia, como agi. E muito menos de que cada palavra saiu lentamente da minha boca, o que deve ter soado marcante, mas a hesitação não era alegria. Era medo de estar fazendo uma besteira.   Até que a tormenta passou, e já não havia mais o que salvar, não havia espaço para um cavaleiro ali mais. E eu até demorei para perceber isso, ainda rota dos naufrágios.

O tempo foi passando, e a vida romântica continuou sendo ficção na minha vida. Livros, filmes, e muita nostalgia e saudades não sei de que, misturadas agora com saudades infinitas de todos os que se foram nos meus naufrágios. Um dia, conversando com algumas amigas muito queridas, comecei a tentar explicar minhas expectativas, ou falta delas, em relacionamentos, e a própria falta de novos relacionamentos. Enfim, falávamos de amor, de paixão, de solidão, de rejeição, de realização. E foi só ali, enquanto tentava me explicar para aquelas amigas, cheias de conselhos tão bem intencionados e tão distantes e vazios para mim, que percebi: nunca tinha em apaixonado.

Depois dessa constatação, um tanto quanto perturbadora, aos vinte e sete anos de idade, voltei para meu romantismo platônico, tão presente e farto, na música e na literatura. E olhando nos espelhos da minha alma, que muitas vezes são os livros, os filmes e a música, comecei a desvendar o mistério. Uma parte desse mistério vem da descrença que nasceu na infância e cresceu na adolescência. Uma parte da minha falta de paixão vem do excesso de amor verdadeiro e amizade. Outra parte vem do fato de que tendo tido um relacionamento muito longo, e muitos problemas familiares, não passei pela fase de muitos namoros de adolescência e/ou primeira juventude, anos de faculdade, nem nada disso.

E olhando mais a fundo vi meu medo. Um medo enorme, e tão irracional quanto meu medo de borboletas. Eu não tinha esse medo antes, assim como na infância também não tinha medo de borboletas e até brincava de deixa-las pousarem no meu dedo enquanto cuidava do jardim com minha avó. Um medo que veio pelo fato de nunca ter lidado com isso até os quase trinta anos de idade. Não, eu não estou brincando. De novo, sim, eu já amei e muito. Sim, eu já tive quedas por vários meninos e rapazes, e até me peguei pensando que poderia dar certo com um ou dois nesse meio tempo. Mas para por aí.

Num dado momento, percebi, quando assistir ao filme Ruby Sparks, que eu sempre esperei ser Ruby. Esperei ser musa, esperei ser admirada, procurada, ansiada. Mas eu não sou assim. Não sou porque eu não quero isso. Não quero desespero, não quero inquietude. Prefiro a solidão aos joguinhos tão comuns por aí. Lembram-se que nasci e fui criada na torre? Pois é, sei muito bem que gosto tem. Sei viver princesa na torre sem precisar de nenhum dragão ou besta-fera de guarda. Também não preciso de nenhum príncipe ou cavaleiro para me salvar. Subo e desço quando quero, e saio por aí.

E aí percebi. Eu não sou Ruby. Eu sou o escritor. Eu escrevo essa história. Eu escrevo a minha história. E torno-a mais e menos real. E a cada dia ela se torna mais surreal. Só que sou Alice e sou Sofia também. E por isso aprendi que me perco nos longos passeios nos jardins que acabam no País das maravilhas e me esqueço de voltar, de retomar o que chamam de vida, e de escreve-la. Quando retorno, a cada palavra digitada sou mais Sofia, e viro personagem, enquanto meus personagens saem do papel e viram realidade. E o que isso tem com a paixão, JuReMa? Tudo. E nada. Pois pode ser que a realidade seja mais surpreendente que a ficção, ou não. Pode ser que essa tal paixão, e esse tal amor, de música, de filmes e de livros exista, ou pode ser que não.

Enquanto isso, sigo minhas andanças despreocupada. Vou escrevendo minha história, transformando minha vida em palavras e as palavras na minha vida. E olha a lua pela janela, e solto minhas palavras no vento, no tempo. Já amei, amo muito, e sou abençoada por ter muito amor na minha vida. Já tive quedas, crushes e tenho causos para contar. E essa história ainda está sendo escrita. Para Alice, para Sofia, para JuReMa.

 

 

 

 

Os Beijos de Balthazar

Em um desses dias de Cena lá estava eu JuReMa, sendo Alice, sendo Sofia, correndo entre realidade e ficção. E me vi num píer. O lugar me pareceu muito propício para reflexões pessoais, uma vez que venho de uma cidade surreal onde a seca e a vida lacustre convivem em harmonia, e onde as crianças frequentam píeres e sabem muito utiliza-los para suas brincadeiras, ou, conforme os anos passam, para suas reflexões. Sempre tive dois favoritos para reflexão, que mudaram anos depois devido a viabilidade de frequentá-los. Um é o píer do meio, são três, que ficam no acesso da ciclovia atrás da QL 12 do Lago Sul. O outro é o já inexistente mini-píer que ficava na casa onde eu cresci. Dali acreditava que veria os piratas chegando, os monstros marinhos do lago, os pássaros mais fantásticos, trazendo notícias de mundos paralelos. E foi ali que li muitos dos livros que me possibilitaram esperar por piratas, pássaros mágicos e mundos paralelos. Ali também aprendi a tabuada e anos depois refleti, ri e chorei todas as minhas dúvidas e angustias da adolescência.

Quem nos dera que refletir, rir e chorar fossem privilégios da adolescência. Quanto mais a vida passa, mas percebo que é moto contínuo essa atividade de se perder e reencontrar-se. Pelo menos me sinto no lucro por saber que já me reencontrei várias vezes, apesar de ser uma perdida. O dia que me levou até aquele píer foi um dia extremamente produtivo. Fruto de muita reflexão e de uma semana de crises existenciais. Mas ouvi belas palavras durante essa semana de crise, que me diziam que a crise é muito bem vinda, pois serve para nos tirar da nossa zona de conforto. Estar em crise significa que estamos prontos para dar novos passos, viver novas aventuras, sair do lugar, e pensar em como sair é, muitas vezes, trabalhoso e doloroso, mas não há demérito nisso, muito pelo contrário. Há o mérito de querer se encontrar novamente, em novos ambientes, em nova pele. Ou, às vezes, em pele antiga, redescoberta como papel de parede descascado.

Velhos gostos que retornam como velhos amigos. Sabe aquele velho amigo que você gosta muito, mas nem sabe como nem porque perdeu contato, e quando reencontra fica meio culpado, por saber que não deu atenção? Aí existem duas opções, ficar no sorriso amarelo e perder a oportunidade, ou abraça-lo de coração e se permitir o reencontro, apesar da leve culpa de abandono. E quando isso ocorre, geralmente somos abençoados com a percepção de que o afastamento não foi culpa de ninguém, e que bom mesmo é se reencontrar e ser feliz.

As pessoas tendem a se culpar muito, por tudo e qualquer coisa, e com a culpa vem o medo, o medo do julgamento, o medo da rejeição, o medo da vergonha, o medo de dar errado, o medo do ridículo. E o medo paralisa. Porque arriscar? Porque tentar se reinventar? Porque correr trás dos sonhos? Quando a vida já está aqui, e é tão exigente. Trabalhamos, sustentamos, corremos, e muitas vezes ainda cuidamos do corpo, da saúde e da família. Já não basta? Não é muito já? Sim, é! É muito e dá muito trabalho e, se bem feito, nos ocupa vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Mas eu queria mais…

Desde a adolescência eu quis mais. Mais o que, JuReMa? Quer salvar a humanidade? Acha mesmo que vai mudar o mundo? Cresci ouvindo essas críticas. E as palavras dos nossos pais (tios, avôs) nos marcam a ferro, como já dizia Balthazar. Na verdade, pensava dentro de mim, sim! Sim, quero! Quero salvar a humanidade e mudar o mundo! Não faço ideia de como, mas se puder, quero. Quero pelo menos tentar. Quero entender que há mais entre o céu e a terra do que acordar, trabalhar, ter filhos, comprar uma casa e morrer. E não digo isso como uma crítica a quem assim o faz. Mas eu, apesar de querer tudo isso, sempre quis algo a mais. Como um tempero. Ver e conhecer, e entender. Como dizia a Mafalda para Susanita, “Isso não é vida, é fluxograma!”, e eu quero viver e não só cumprir o fluxograma! Ou como dizia Oscar Wilde, eu não quero só existir, quero viver. Ou sendo Menina Maluquinha, sempre quis abraçar o mundo com as pernas.

Acabei tendo que carrega-lo nos ombros, como um titã, e devo dizer que é bem menos confortável. Durante alguns anos senti muita falta da panela na cabeça. E o peso do mundo sobre os ombros me roubou a coragem de muda-lo, como já dizia Renato Russo. E com a coragem roubada, fiz muito de tentar me encaixar no fluxograma, já que com o mundo nas costas perdi o ritmo das matérias e saí da grade, perdendo a preferência na hora de requisitá-las. E nessa acabei vivendo, aos vinte e poucos, fases dos cinquenta e muitos, e aos vinte e muitos tento recuperar fases dos vinte e poucos ao mesmo tempo que me preparo para as matérias dos trinta, que estão logo ali depois da curva.

E nessa de me reencaixar ao fluxograma por necessidade me peguei entrando em sua inexorável zona de conforto. Um belo dia, saí mundo afora, com saudades de mim mesma, de ser menina, de ser maluquinha, de abraçar o mundo com as pernas. E de lá a Mafalda em mim voltou aos chutes e pontapés à vida de fluxograma, gerando as crises existenciais. Percebi que o mundo já não está mais sobre meus ombros. E que, talvez, com um pouco de prática, aulas de yoga, e retorno da flexibilidade, possa voltar a abraça-lo com as pernas.

E assim, Mafalda que sou, comecei voltando à pratica do yoga, depois às leituras, e lentamente, a coragem de mudar o mundo está voltando. Mas o meu problema, é que tenho um lado São Tomé, ou até pior do que ele. São Tomé pelo menos acredita quando vê, eu não acredito nem vendo. É o efeito Titã, que me deixou cheia de poeira das últimas guerras, como já dizia Skank. E nessa de não acreditar nem vendo, vou aos poucos cumprindo com as obrigações, mas às vezes me falta fé para voltar a ser maluquinha.

E lá estava eu JuReMa, no píer, acompanhada de Balthazar, que acreditava somente em sua maldição, até que foi curado pelos beijos de um estranho. E quando acho que não sou Sofia, sou JuReMa, saio da peça, saio do píer, e encontro amigos, conhecidos, família. E eis que num momento surrealmente Sofia ela vira para mim e diz “Quer dizer que você não acredita que é organizada e capaz? Tá pior que os beijos de Balthazar, hein!” me abraça e vamos embora. E vim assim, pensando nos beijos de Balthazar. Sim, era, de novo, tudo o que eu precisava ouvir. Aquela frase foi o meu beijo de Balthazar. Não dá para desacreditar sem tentar. Que venha então a panela na cabeça, porque essa JuReMa, Sofia, Alice, resolveu dar ouvidos à Mafalda e ser Maluquinha.

Que o mundo, descido de meus ombros, se transforme em bola de circo, pois além de abraça-lo com as pernas, vou caminhar sobre ele, como um malabar! Como já fazia, aos oito anos de idade, e depois aos dezoito de novo. Já que os vinte e oito estão a poucos meses de distância, me parece apropriado ressucitar a circense e andar sobre o mundo. E trazer da infância Mafalda e o Menino Maluquinho, para acompanharem Alice e Sofia da adolescência, e assim, sairemos todos da zona de conforto, do fluxograma, para o mundo.

Bobeira é não viver a realidade, mas eu sou poeta e não aprendi a amar

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

Esse meu vício de sentir saudades do que nunca vivi

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

 

 

Naufrágio de estrelas no céu

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

Eu me Chamo JuReMa

Hoje a menina se arrumou para sair de casa, despretensiosa. Já eu estava um pouco IMG_0732ansiosa. O fim de semana foi de paz para as duas, pra mim e para a menina. Descansamos depois de muitos dias de trabalho, e a menina largou seus livros por uma dose rara de TV e jogos. Já eu me entretive com a paisagem e com a família, irmão e sobrinhos. Meu caderninho ficou guardado na bolsa, junto com os livros da menina. Esse fim de semana a menina não estava muito Alice e nem eu muito reminiscente.

E foi assim, de espirito leve, que entrei naquela fila. Admiro muitas coisas e pessoas diversas, mas existe em mim uma fã, uma tiete, que não necessariamente possui a admiração solene que tenho pelas belas obras, mas uma que só quer sentir a emoção fulgaz das coisas pequenas que me falam à alma. E para distrair a minha leve ansiedade, deixei a menina brincar pelos corredores do shopping, e ela fez o que faz de melhor, sentou-se no chão, ali no meio daquela gente toda, tirou um de seus livros da minha bolsa e pôs-se a ler, para dar uma fugidinha daquele lugar tão artificial. Talvez não houvesse tempo hábil entre uma passada da fila e a próxima para nos jogarmos na toca do coelho, mas para um crônica rápida sempre há tempo. E assim, a menina optou por ser menos Alice e mais Adriana naquele momento.

E foi assim, que Sofia despertou em mim. Foi na página setenta e cinco, que eu li o título, “A Mocinha”. E a menina me olhou toda animada, se reconhecendo nas páginas. E empurrei Sofia para dentro sob o argumento de que aquelas páginas não eram dela, e eu ainda estava no meio do shopping movimentado, imersa em realidade, por mais que a menina solta já estivesse sentada no chão, de “perninhas de índio”, como uma criança perdida na sua vida adulta.

E foi ao ler as páginas da mocinha que a menina me disse que se a mocinha podia ser, ela também podia. Olha como a mocinha é como você, a menina me disse. E isso eu não podia contestar. O problema foi a Sofia. Como alguém já experiente em sair das páginas de um livro e migrar para a realidade, ela se inflou toda com o reconhecimento da menina, que se adrianava nas palavras da mocinha. Respirei fundo para acalmar aquela mulherada que se apoderava da situação, e retomar o controle da realidade, já que eu era a única que dominava a realidade ali.

Foi quando olhei para frente, guardando o livro da menina, a história da mocinha já finda, e peguei o meu livro para fazer o que tinha ido fazer ali, tietar. Mas eis que nesse momento, Sofia já tinha saído das páginas, e se apoderou de mim com a força da Alice. E vi na minha frente um outro ser que também é vários. Vi Pedro, vi Antônio, vi Gabriel, e vi também o Chapeleiro Maluco. Já estava muito longe, toca adentrada sem perceber, e discorria sobre as maravilhas desse país imaginário tão real. Num borrão digno da ficção, até agora não sei se estou cheia de reminiscência sobre o meu passado, meu presente ou meu futuro. Não sei se a menina, então Alice, feliz com o encontro com o Chapeleiro se deixou levar pelas maravilhas. Não sei se Sofia saiu das páginas para a vida real e me empurrou para preencher seu vazio dentro do livro.

Talvez tenha virado palavras, para que elas pudessem ganhar vida. A sensação é a de ressaca. Ressaca forte como a do mar. Que me balança e enche de náuseas. E nesse balanço percebo que meu mar e feito de palavras, polvilhadas de poesia. E que minhas reminiscências se misturaram de forma inseparável com as aventuras da menina. E que somos uma. Sempre fomos uma. Hoje, Eu me Chamo Menina. Eu me Chamo Alice. Eu me Chamo Adriana. Eu me Chamo Sofia. Eu me Chamo JuReMa.

IMG_7508

Só lobo na lua cheia

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

O resgate dos passarinhos

A menina abriu os olhos e percebeu que era hora de ver o interior. Fechou-os novamente e brincou de olhar para dentro. Não como quem dorme, mas como quem vê. E viu, uma a uma as marcas. As cicatrizes que traz na alma e no coração. Nunca se incomodou com elas e a visão continuou sem incomoda-la. Para a menina, marcas não eram estranhas. Estranho eram aquelas pessoas que se mostram perfeitas, sabe-se lá quais marcas muito piores e mais profundas não escondem sob sua pele de porcelana. Ou ainda, que sejam espíritos tão jovens e inexperientes que ainda estejam imaculados. E no caso desses, a menina já sabia, que era só uma questão de tempo para que começassem a ficar marcados.

Abriu novamente os olhos, percebeu a luz azulada, a luz da manhã, filtrada por suas cortinas turquesas, aquele eterno ar de dia de céu azul, com passarinhos voando, mesmo que lá fora fizesse chuva. Ela piscou de novo, e tentou entender que cisco era aquele, que a fazia piscar. E soube, imediatamente que não era um cisco real, ou melhor, que era um cisco muito mais real do que uma partícula de poeira, era um cisco da alma. Sim, ela estava acostumada com esses ciscos, que gostavam especialmente das manhãs de domingo para se soltarem, como pele velha, cílios gastos, poeira levantada pela lembrança, que cai no olho e arde. E a vontade de chorar se camufla em cisco de alma.

Então ela decidiu que era hora. Não hora de levantar, nem mesmo hora da faxina, ou do exercício. Era hora de polir. Polir cada uma daquelas cicatrizes, para que elas soltassem a carne envelhecida, os pelos soltos, e saíssem assim os excessos, para que os ciscos não lhe caíssem aos olhos em momentos indevidos. E agora você me pergunta, mas como é que se pode polir as cicatrizes da alma? Com ternura. Com muita ternura. E a menina sabia disso, sempre soube. O problema era que a menina não gostava dessa palavra: ternura. Sabia o que havia de bom nela, mas era algo que a irritava. Irritava pois era facilmente confundida com compaixão ou mesmo pena. Lhe gerava asco aquela transposição, aquela pena disfarçada de ternura. E por isso, a palavra parecia amarga em sua boca, desgostosa, ter-nu-ra. Revirada entre a língua e o céu da boca quase que com nojo.

Mas ela sabia que só a ternura serviria para polir suas cicatrizes. Por isso estavam tão acumuladas, nunca às havia polido antes. E, esse comportamento, durante algum tempo é bem razoável, mas depois que ela viu que só a ternura lhe amenizaria os calombos do espirito, não havia mais como não ver. Assim, a menina inspirou longamente, sua luz azul filtrada, e começou a polir. Começou, como deve ser, pelo coração. E por isso saiu ao sol. Saiu e andou muito, absorvendo toda aquela luz dourada-rosada com o calor incandescente do sol, capaz de derreter como cera de vela as queloides do coração. E sabendo que o polimento não apagaria às cicatrizes, apenas suavizaria o relevo, foi que a menina conseguiu continuar. Não tinha nenhuma intenção de se desfazer de sua história. Apenas achou que era hora de deixar seu interior faxinado, e aparar algumas arestas. E se na manhã de luz filtrada em casa a menina olhou e viu, na tarde de sol incandescente ela poliu o coração. E como as circunstancias de sua vida são sempre simbólicas, ela terminou a tarde toda suja de graxa e terra, após desmontar e montar sua bicicleta, que a levou até a luz do sol, onde poliu, poliu e poliu o coração. E com ele morno, com o que tinha calcificado no frio lá dentro, derretido e polido, ela seguiu, rumo a lua.

Sim, era noite de lua cheia, e o dia da menina era longo, pois ainda era fim do verão. E sob a luz prateada-azulada da lua a menina poliu o espírito. E acalmou aqueles sentimentos quentes torturantes como a angústia e a ansiedade, que torcem a alma. Esfriou o calor inquietante do medo do desconhecido, e poliu, poliu e poliu a alma. E os banhos de sol e lua lavaram a menina. Que durante todo o longo dia, olhava e via. Olhava e via a luz, olhava e via o seu lado de dentro, olhava e via o coração, olhava e via o espírito. E assim, ela sorriu. Sorriu não porque estivesse especialmente feliz, mas sorriu porque estava a caminho da paz.

E sob o luar, voltando para casa, a menina lembrou da rainha. E seu asco pela ternura se desfez. Dentre todos, logo a rainha é que viria lembrar-lhe a ternura? Essa sim era uma reviravolta que só servia para comprovar o bom serviço de sua limpeza interna. Ternura tinha seu avó mágico de sobra, daquela alegre, que ocupa e preenche os espaços vazios do mundo e da alma. Daquelas amarelas, cheias de risadas, assobios, e toques fortes e seguros. Ternura tinha sua mãe, com voz de veludo e mel, que cantava a ternura para dentro da gente, e enchia a alma sem perceber, sem ver, sempre com um que de melancolia no fundo da melodia, da tenra melodia.

Mas a rainha. A rainha dava às ordens, comandava o castelo, ensinava, servia e era servida. Era também carinhosa, mas tenra? E nesse momentos os pássaros voaram dentro de sua mente, e a menina viu! Toda a ternura, a ternura inumana da rainha, que era capaz de curar os passarinhos com sua suave e rara magia. E a menina se lembrou de todos os resgates de passarinhos que ela viveu com sua avó, a rainha soberana de seu castelo. Naquela mulher de fibra, existia uma ternura reservada aos animais, da qual poucos humanos eram merecedores. E por mais amor que ela tivesse aos seus cachorrinhos de estimação, mimos e passatempos, ternura era um sentimento que ela reservava aos pássaros.

Com mãos de plumas ela era capaz de pegar aqueles pequenos filhotes que caíam do ninho antes de saberem voar. Com assertividade e delicadeza raras e tão especiais ela envolvia os pequenos seres voadores quando esses confundiam o vidro com o céu. Ouviam um estrondo e ela gritava para a menina correr e afastar os cachorros. A menina corriam sem nem saber ainda o porquê, e chegando lá, sempre havia um pequeno passarinho machucado, desesperado, alvoroçado no chão. E quando a rainha chegava, eles ficavam imóveis, e aceitavam seu abraço, com uma calma irreal. E a rainha tinha sua própria enfermaria para alados. Com ninho de algodão, e água dada no bico, essas pequenas fadas disfarçadas de animaizinhos ficavam hospedadas por alguns dias no castelo, ganhavam tratamento e comida, e mesmo quando todos achavam que morreriam, um dia voavam. Voavam como se nunca tivessem deixado de voar. E alcançavam os céus, deixando sua música como presente de agradecimento.

No castelo sempre havia um pote de alpiste e a enfermaria, que era uma gaiola sem porta, que vivia destrancada. Além de vários bebedouros espalhados pelas janelas, para acomodar e sanar a fatiga dos que voam. E eles vinham e iam, sempre em liberdade. E pousavam na rainha como quem via nela uma mãe. E não era o alpiste, nem a gaiola sem portas, nem o ninho de algodão que os curava. Era a ternura daquela mulher. Uma ternura que poucas vezes vi. Uma ternura que ia muito além da compaixão e da pena. Pois havia nela a certeza de que o amor cura e renova. Ela não acolhia os passarinhos aleijados para que tivessem uma morte tranquila. Ela os devolvia a vida. Sempre! E quando isso acontecia cessavam as ordens, parava-se a cozinha, e toda aquela assertividade era convertida em ternura. Ternura dessas que só conheci na luz dourada do sol, na luz prateada da lua, e no resgate dos passarinhos da avó-rainha.

Os doze Reis

A menina tem onze primos. Hoje, na verdade, tem muito mais. Ganhou primos sobrinhos e primos maridos, primas mulheres, mas ela tem onze primos. São doze. Seis meninas e seis meninos. Em seus devaneios cabalísticos a menina sempre achou que isso significava algo, embora nunca soube dizer o que. Primos mais velhos, primos mais novos, aqueles que cuidavam dela e aqueles de quem ela cuidava. A menina era filha da tia. A Tia. Letra maiúscula. Tios são quatro, mas A Tia era uma. Viviam num castelo, ou assim acreditava a menina. Na verdade, só ela, dentre os doze, conhecia a magia daquele lugar. Não, isso não é verdade! Todos conheciam a magia daquele lugar. Durante alguns anos aquele foi o mais mágico dos lugares da Terra. Mas ela assistia à transformação, e os outros não. Para eles era sempre daquela forma, mas ela conhecia dois castelos muito diferentes.

Durante a semana aquele era um castelo de adultos exigentes e rígidos. Horários sempre foram cumpridos. Durante a semana a música era ouvida baixa e os livros lidos altos. Durante a semana os passos eram abafados por meias e pantufas, chinelos de tecido. Os adultos falavam baixo e se comia sopa a noite sempre. Não é que a menina não gostasse, ela, na verdade, só conhecia a vida assim, e achava que todos viviam da mesma forma. As tarefas domésticas, escolares e os aprendizados do avô ocupavam todo seu tempo. A família se dedicava a aprender, praticar e melhorar sempre. Entre botões pregados, frutas catadas no pomar, exercícios escolares, horas na cozinha como ajudante, e muitas horas de leituras a fio, silenciosas e em voz alta, assim a menina levava os cinco dias que a separavam da transformação. Durante a semana aquela era uma casa de adultos. Havia sempre muita magia, mas era como viver em um colégio interno, nunca o ensino terminava. A menina gostava muito disso, na verdade. Apesar de se cansar às vezes. Durante a semana os sons eram poucos dentro de casa. La fora o som dos passarinhos predominava, fora os dias de jardineiro, quando a máquina de cortar a grama e a bomba da piscina soavam como dragões rondando o castelo. Às noites eram muito escuras. Os cantos se empoeiravam. Mas a sexta-feira à noite chegava.

E com ela vinham todas aquelas luzes externas que não eram acessas durante a semana. O tampo da vitrola era levantado, e o cheiro da sopa dava lugar ao cheiro de vários sanduiches feitos na chapa ao mesmo tempo. O único dragão soando era o liquidificador que batia duas ou três vezes copos cheios de leite com Nescau. As cadeiras da mesa de jantar eram apertadas e muitos banquinhos apareciam de lugares inesperados, e onde normalmente cabiam quatro, de repente cabiam dezesseis. E em meio a todas aquelas vozes e cheiros novos, havia muito riso, e a casa era definitivamente castelo, e era das crianças. Os adultos ocupavam seus recantos, nas sombras confortáveis do descanso semanal, e a menina se fazia princesa do castelo, em meio a seus príncipes e princesas, primos-irmãos. E se desdobrava para que todos tivessem suas vontades atendidas. Ao mesmo tempo que se sentia mais princesa do que os outros, com algum aval do Rei, a Rainha mãe fazia questão que ela fosse também anfitriã e responsável pelos demais.

Os mais velhos viam filmes que lhe davam medo, e assim mesmo ela assistia de debaixo das cobertas, por entre os dedos que cobriam o rosto. E faziam brincadeiras que a maravilhavam, correndo pelo jardim, ao sol, brincando com espadas feitas pelo rei, e tinham até armas de espoleta, que faziam sons inacreditáveis. Inúmeras competições começavam, e a piscina era o centro das atenções. Conquistavam o jardim, subiam nas árvores, corriam, comiam frutas, pescavam no lago, inventavam brincadeiras, jogavam mamonas e bete. Jogos de tabuleiro e vídeo games. Jogos inventados. Com os de sua idade brincava de faz-de-conta, as meninas ocupavam o closet da Rainha, bagunçavam todos os quartos, espalhavam suas barbies por cada recanto do castelo. Brigavam com seu primo-irmão, que queria atenção e se revoltava quando as meninas de sua idade viravam princesas ou sereias, que em nado sincronizado o excluíam com a crueldade infantil de seu mundo. E a menina, agora princesa, insistia que ele era príncipe, querendo ou não, pois estavam todos no castelo do Rei, e dele eram descendentes.

Ajudava a Tia Rainha a cuidar dos mais novos, inventava brincadeiras para distraí-los, ensinava-os a respeitar o Rei e a Rainha, verificando, com ordens mandonas que só mesmo a princesa da casa se permitiria, se tinham dado o beijo de boa noite nos avós. As camas eram afastadas, os colchões jogados no chão, para caberem em menos colchões mais primos. E entre cafunés coletivos, e quantidades absurdas de gibis da Turma da Mônica, livros, infantis ou não, balas escondidas embaixo da cama e ataques de riso infindáveis que geravam ataques culposos de asma, os primos dormiam. Era trancadas as grades que contiam os sonâmbulos de caírem pelas escadas durante a noite, e a porta de mola da cozinha rangia sobre os ataques daqueles que assaltavam a geladeira na madrugada.

E aos sábados e domingos a música era ouvida alta e os livros lidos baixos. E os cheiros das frutas do jardim enchiam o interior da casa, com todo aquele suco de manga e as jabuticabas em bacias de gelo. As sopas viravam massas, churrascos e feijoadas, e os tios, Reis e Rainhas, chegavam. Os sorvetes se espelhavam para todos os lados, geralmente acompanhados de um gibi. E o castelo era infantil, apesar dos adultos. Os sambas e o jazz eram tamborilados nas pontas dos dedos do Rei, chorados em lágrimas de alegria, emoção e tristeza da Rainha mãe, e cantados na voz potente e pouco ouvida da Rainha Tia.

Na páscoa caçadas homéricas aos ovos preenchiam o ar da manhã, e os Natais eram esperados como só mesmo crianças que conhecem um castelo podem saber. A casa ganhava cheiro de doces, e a pureza dos ramos de cipreste podados da própria cerca do jardim, e cuidadosamente encaixados nas armações, geringonças únicas do Rei, para virarem uma árvore de Natal viva, cheirosa e iluminada. E se fosse inverno, a lareira seria acesa, e a Rainha contaria histórias de terror, que fariam os mais novos fugirem de volta à suas casas, e os sobreviventes dormirem grudados. E tínhamos lobo-mal, e fantasmas, serem mágicos, e insetos loucos. Tudo sobre o olhar eterno da Rainha mãe de todos, sobre o console da lareira. Se fosse verão triplicaria a quantidade de sorvetes e de toalhas molhadas. E as brincadeiras na piscina seriam imbatíveis.

E a princesa tomava suas liberdades, e ligava desde cedo para aqueles que ainda não estivessem lá, convocando seus primos-irmão a irem fazer a magia acontecer. E ligava também para os amigos desses, gostassem eles ou não, e planejava festas surpresa, enchia balões e fazia decorações infantis caseiras. E entre vantagem e desdobramentos, tudo o que a menina queria era a companhia de todos eles, e a transformação que ela gerava. Pois no domingo à noite, quando iam todos embora, era ela, menina-princesa, que via o Rei e Rainhas, descerem de seus tronos, e catarem toalhas molhadas, e copos sujos de sorvete. Lavarem pilhas de louças sujas, e catarem montanhas de gibis. E ela corria, tentando se adiantar, tentando fazer por eles, para que não se chateassem, e para que a magia pudesse acontecer de novo a cada fim de semana. E quando se sentavam, cansados, para tomar a sopa, de banho tomado, a casa já era escura e em silêncio. A transformação já feita, e os ares da segunda-feira já se adiantando sobre o domingo, eles reclamariam, conquistando novamente o castelo, transformando-o de volta num lar de adultos, e falariam da bagunça, em tom cansado. E com a colher de sopa na boca, vendo-os só com o cantinho dos olhos, a menina via que apesar das reclamações seus olhos sorriam com o maior amor do mundo. E naqueles olhares iria repousar a magia que voltaria a emanar deles no próximo final de semana. E todo aquele orgulho de sua família enchia o peito da menina, que sabia, assim como sabiam os Reis e Rainhas, que era hora de tirar sua coroa, e viver outra semana de aprendizados rígidos, até que os sons e cheiros mudassem e a mágica emanasse entre eles novamente.

Para Bia: Feliz dia das mães

Bia microfone

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

Esse é um bloquinho muito especial! Porque é dia das mãe, porque é domingo! Porque que é um dia 11!

Domingo era o dia da voz dela se espalhar pelo ar, e alcançar tantos ouvintes, que lhe ouviam a alma nas palavras e na música.

Hoje espalho minhas palavras e algumas músicas, em sua homenagem, ao vento. Quem sabe os pássaros não carregam essas melodias até ela! De alma para alma: Feliz dia das mãe, Dona Bia! E muito obrigada por tudo! Ser sua filha foi um prazer!