Ando tão à flor da pele

O sol bate em meu rosto. Depois de hesitar algumas vezes, verifico que o ônibus está quase vazio. Uma moça no banco do outro lado do corredor, comendo uma maçã, dois senhores na parte da frente. Um homem de terno uns três bancos à frente. Ninguém atrás. Ninguém pra me observar. Pego finalmente o celular e começo a digitar o texto. Esse é daqueles que vem me consumindo há dias, talvez semanas. Esse é daqueles que preciso cuspir. Vomitar palavras pelas pontas dos dedos. Pauso pra tirar o cabelo do rosto, observo o MIS ao lado. O sol bate gostoso, ainda é inverno e dias de sol são tão raros em SP! Essa é a combinação que me exige expor o texto agora, o sol, que alimenta a vontade de sair por aí, e a música, sempre no fone, onde o Zeca Baleiro afirma sua vontade de chorar e nesse ponto eu percebo o quanto estou à flor da pele! Não vejo novela, mas qualquer demonstração de emoção tem me feito chorar! Seja uma reunião de orientação, uma conversa com o marido (ainda é muito curioso chamá-lo assim), um e-mail, um sonho de padoca, adicionado da culpa por o ter ingerido, ou o brigadeiro negado! Tudo me faz chorar, ou pelo menos ter vontade de chorar. Sim, estou à flor da pele.
O trânsito empacou! Checo o relógio e me pergunto se chegarei na USP a tempo de tudo o que preciso. Não aguento mais precisar tanto de tantas coisas. Como diz o Zeca na minha orelha, não preciso de muito dinheiro, Graças a Deus! Mas cumpro meus compromissos, e agora são 4 meses pela frente de compromisso! Amanhã defendo a quali! Estou mais calma do que esperava. Só torço para não chorar! Essa flor da pele toda me complica muito às vezes!
As passagens estão compradas! Vou ficar quase um mês longe do meu amor, o que aperta o coração com antecedência! Mas vou ficar sabe-se lá quanto tempo longe de todo o resto. E isso aperta mais a boca do estômago do que o coração. Ansiedade! Vontade de ir logo! E ao mesmo tempo aquela expectativa adiantada.
Não é a primeira vez que vou! Longe disso! Sei bem, desde os 11 anos de idade, depois reforçado aos 15, que uma vez que essa mosquinha da viagem pica a gente, já era. É uma doença pra vida. Chega uma mensagem. Paro para responder. É justamente ele, pedindo informações sobre documentos que estamos organizando para as burocracias. That’s it! Agora é diferente. Por vários motivos. Vou sem saber de muita coisa. Quase sem certezas! Mas não vou só! Como a vida da voltas. Já fui várias vezes e todas com a estadia, a volta, todos os detalhes nas mãos. Mas geralmente sozinha. Às vezes até tinha um grupo, mas o sentimento foi encarado só. Nem todos nos grupos são picados pela mosquinha da viagem. Nem todos voltam sem saber seu lugar no mundo, pelo contrário. Para alguns ir mostra exatamente qual o lugar que esse ser de insere, seja aqui ou lá. Alguns são nômades, aliens, E.T.s, peças sem quebra-cabeça. Às vezes acho que quebrei uma parte da minha peça e por isso não me encaixo em lugar algum. Depois lembro que não foi um acidente, fui criada assim. Nessas horas sou Mafalda.
Paro pra pegar um mini Halls cereja sem açúcar. Ainda estamos no trânsito. Essa cidade me envolveu de uma forma inexplicável, viciante, encantadora e desesperadora ao mesmo tempo. Às vezes só quero fugir, ir embora, não ter que enfrentar o trânsito, as horas no ônibus cheio, os preços altos, a pressão inerente à tal da “locomotiva do país”. Às vezes tenho medo desse lugar e das pessoas daqui. Às vezes amo! Amo todas as padocas portuguesas com PFs em toda esquina. Os salgados veganos espelhados por aí aos montes, os casarões velhos, os museus, as exposições, o centro, os imigrantes, os refugiados, a miríade de línguas ouvidas numa volta pra casa de 15 min a pé passando pela Paulista, e, principalmente as pessoas. Amo as pessoas desse lugar! Pessoas inteligentíssimas que conheci aqui, gente com muito amor pra compartilhar, dispostos a ser família um dos outros, já que tantos nesse caos urbano deixaram suas famílias pra trás. Os serviços bem prestados. A Augusta cheia na hora de voltar pra casa a pé à meia noite sem medo!
São tantas sensações! Às vezes não consigo lidar! Bate um sono! Uma preguiça, uma vontade de chorar, um amor, uma liberdade, um medo.
Daqui a pouco o ônibus chega e as palavras ainda não saíram todas. Talvez tenha que acabar de escrever depois. E aí já não sei se as palavras vão colaborar.
Hoje me peguei pensando enquanto fazia o almoço “amanhã é a quali, será que minha mãe vai querer assistir…” E nem consegui terminar o pensamento. Às vezes eu ainda esqueço. Mesmo que seja por 1 segundo. E aí tem as emoções. Sabe, a parte mais importante de ter emoções e poder compartilha-las! E por mais que eu tenha um companheiro maravilhoso, amigos incríveis, uma família unida, tenha acesso frequente a todos graças a tecnologia, e além de tudo o blog, pra compartilhar com o mundo, ainda assim faz falta. Não ter minha mãe, meus avós, meu pai. E os momentos mais felizes são aqueles que projetam as sombras mais longas. No dia-a-dia já nem penso. E quando penso é leve. Tranquilo. Mas nesses meses tenho sentido uma falta que não dói, não gera choro de desespero, é só uma ausência tão presente! E entre uma feira e outra, um almoço e outro, uma aula e outra, a ausência está lá, ao meu lado. Mostrando toda sua falta! E quando recebo um abraço, um elogio, ou uma crítica, vem as lágrimas, tão à flor da pele. Bom, cheguei, melhor guardar o celular e descer do ônibus. Deu tempo, e agora não tenho tempo pras minhas flores e peles. Elas ficam pro próximo devaneio. Pro próximo dia de sol, pra próxima vez que ouvir Cássia Eller, cantando 1 de julho e acrescentando o “meu Chicao” depois de “meu amor”! Só sei que meu desejo é tão grande que nem sei o que. Flores pra nós!

(*texto de 04/08/16, que tava entalado até hoje no celular, eu na dúvida se publicava ou não, por isso o blog acabou sem post na última terça. Ficou pra hoje. Dia de sol e sombras longas. Feliz dia dos Pais ❤ !)

(Vídeos: Ando tão à Flor da Pele – Zeca Baleiro;  1 de Julho – Cássia Eller – acústico MTV)

Horta

Aquela preguiça de domingo pairando no ar. Acordei com ele vindo do banho, aquele cheiro bom de manhã no ar. Abri a janela e o sol me deu bom dia. Enquanto ia para a cozinha, ele soltou as ratinhas, Marceline e Jujuba, que percorriam a sala, uma em saltos rápidos, a outra com sua calma exploradora, cheirando os cantinhos, comendo banana na nossa mão. Depois de fazer um chá e uma vitamina, voltei para me sentar ao computador, rotina infalível, e me dedicar à leitura de alguns textos referentes ao mestrado. Não, pós-graduando não tem domingo, nem segunda, nem quinta. Todo dia é dia. O bom é que dá pra conciliar com outras atividades também. Sentei ao computador, li os e-mails do dia. A vitamina na boca, e eis que ouço um “Ju” quase baixo, como quem fala com bebês, “vem ver” e fui.

rucula

Na horta os primeiros brotos apareciam entre as pedrinhas. Na calha de cima as primeiras a dar bom dia foram as rúculas, na calha de baixo um tímido broto de rabanete se desenrolando lentamente de dentro pra fora. Me senti uma mãe orgulhosa. Nossa horta brotou. Tive que documentar o momento desses nascimentos, tirando fotos. Depois voltei para o computador, para a vitamina e o chá e todas as outras coisas do meu dia-a-dia, mas fiquei pensando, eu podia fazer algo diferente. E aqui está! Apesar do tom narrativo que me acompanha nesse blog, esse é um post bem diferente, porque resolvi fazer um DIY (Do It Yourself) ou FVM (Faça Você Mesmo).

Desde que vim para São Paulo que nosso sonho conjunto é ter uma horta em casa. Mas sabe como é, apartamento pequeno, pouco sol, pouca luz, vida urbana, prédios altos, ruas estreitas. Em janeiro, visando algumas mudanças na casa, reposicionamos móveis, abrimos espaço na sala e aí a ideia da horta voltou. Voltou, e voltou forte, de verdade, não mais como uma ideia que existe na cabeça, mas com ares de planejamento real. Devorei o Pinterest (sim, tô lá também, quem quiser é só seguir!) coletando mil referencias de horta urbana e horta vertical. Li alguns blogs, ficamos sonhando acordados, pensando em viabilidade, preço, disponibilidade de materiais, luz, e disposição dentro da casa. Virei a louca dos pallets, lendo tudo que existia sobre eles, mas percebi que no nosso diminuto espaço, próximo da janela, não daria para fazer uma super estante vertical.

Numa bela quinta-feira, dia de feira, literalmente, aqui na rua em frente, estava na janela sonhando com a horta quando vi o pessoal desmontar as barracas, ir embora e deixar uns caixotes velhos para trás. Desci correndo de chinelos e fiquei revirando o lixo da feira, restos de comida no chão, procurando os caixotes mais inteiros. Confirmei com um senhor do bar em frente que tudo aquilo ia pro lixo, e após receber um olhar de “olha a louca” e um “sim” monossilábico, me empenhei ainda mais e subi com uns cinco ou seis caixotes. A madeira deles era bem precária, leve demais, quebradiça demais, cheia de farpas, ou seja, um lixo.

Ficamos olhando aquele monte de lixo jogado no meio da sala e confesso que minha vontade inicial foi fazer uma fogueira. Mas os pensamentos foram fluindo, e decidimos que embora aquela madeira não servisse para fazer nenhum apoio real, poderia ser nossa decoração de fundo. Nos blogs e pinterests que li, comentavam que a parede atrás da horta vertical costuma ser pintada ou revestida para que a possível sujeira resultante da terra, e de se mexer nela, não destaque na parede. Então resolvemos que aquele seria nosso revestimento. Pensei em usar tinta-lousa, daquelas que dá pra escrever com giz, mas a parede que usamos é uma parede longa, e ficaria muito estranho pintar só um pedaço, sem termos nenhum tipo de divisória, coluna, móvel nem nada separando.

Fui à casa de tintas da outra esquina (vantagens de se morar no centro de São Paulo, tem feira, loja de construção, loja de tinta, bar, restaurante, shopping, costureira, loja de produtos naturais, hotel, supermercados e banca de revista, tudo no meu quarteirão), e pesquisei sobre verniz, tintas e possibilidades. Claro que antes de sair foram mais umas 2h lendo blogs, vendo vídeos e coletando printerests de pintura e tratamento em madeira. Decidi pelo verniz com cor. Compre em 3 cores, que pelo catálogo deveriam ser um vermelho amarronzado (framboesa radical- check), um amarelo forte (folha de cobre – check) e um azul profundo (artesão – fail) que ficou verde na real, mas gostei no fim das contas. Cada lata de verniz já colorido custou cerca de R$25,00 e a loja preparou na hora, esperei cerca de 15 minutos.

pintura tábuas

Foi uma tarde pintando tudo, sem lixar, mantemos o ar “rústico” e quando tentamos lixar as tábuas se partiam. No dia seguinte a segunda demão. Todos sugeriam 3 demãos, mas fiquei contente com duas. No terceiro dia pregamos as tábuas com pregos comuns na parede. “Pregamos”, na verdade significa que eu segurei os pregos e apoiei a tábua na parede enquanto ele pregava. Ainda rolou a ida a loja de materiais de construção, e compramos os pregos, parafusos bem longos, uma calha de alumínio de 2m, que pedimos para cortar na metade (1m cada parte) na própria loja. Quatro tampas de calha, um tubo de veda-calha, e quatro braçadeiras próprias para calha. Todo esse material foi cerca de R$40,00.

Fomos também na loja de jardinagem, e compramos um saco de 5kg de terra preparada e outro de 4kg de pedra decorativa própria para jardins e vasos. Cerca de R$5,00 cada. Ah, e compramos uma pazinha de jardinagem do tipo estreita também.

tábuas

Aí passaram-se vários dias, mas contando com a ajuda de um valoroso amigo, os quatro furos na parede foram feitos com a furadeira dele. Esse foi o dia de comprar nylon de pesca, para reforçar a sustentação. Cerca de R$5,00. Nesse ponto entra a vida real, os seminários e workshops, o trabalho, as consultas, as aulas e um bom tempo passou. O carnaval veio e foi. Os fins de semana vieram e foram. E eis que subitamente semana passada a energia e o tempo voltaram às nossas vidas e decidimos terminar.

O processo começou com a colagem das tampas nas pontas das calhas, usando o veda-calhas. O tubo é daqueles que precisa ter aplicador, e nós não tínhamos. Num arroubo de maker, a tentativa consistiu em empurrar com o cabo do martelo o fundo do tubo. Não deu certo. Quebrou o tubo, vazou veda-calha viscoso pra todo lado (sorte que tínhamos jornal velho forrando o chão), e foi uma bagunça. Mas com uma dose bem generosa de veda-calha espalhado em cada ponta e cerca de 15 a 20 min de compressão nas pontas e a coisa ficou. Deixamos secar de um dia para o outro e no seguinte o veda-calha estava seco e firme e quando testamos com bastante agua dentro, nada vazou. E ainda conseguimos salvar o martelo, com muita paciência e muito Thinner.

O passo seguinte foi fixar as braçadeiras, de um lado com os parafusos, e do outro com o nylon, fazendo “triângulos”, até o próprio parafuso, só para garantir a estabilidade. Aí encaixamos as calhas, e colocamos em cada: uma camada de pedra, uma terra e outra de pedra. Fizemos furos com os dedos e colocamos as sementes. Nessa primeira tentativa fizemos metade de cada calha com um tipo de semente, alface e rúcula em uma e rabanete e mini cebola em outra. Aguamos bem pouco. No dia seguinte coloquei mais um fio de água em cada calha. E eis que no terceiro dia somos brindados com essas imagens cheias de ternura, num belo domingo de manhã, com os brotos de rúcula e de rabanete começando a nascer. Ainda não sei se vingarão. Mas espero que sim! Já estou bem animada, e o domingo começou muito bem. Agora já posso voltar para os textos do mestrado, para os afazeres do dia. E meus brotos continuarão a crescer.

horta

rabanete

29

Essa semana estou completando 29 anos. Vinte e nove primaveras, já que sou de outubro. Mas não vou escrever sobre o que significa tornar-me uma mulher de vinte e nove anos. E não vou porque não sei. Não faço a menor ideia. Primeiro porque acho que cada mulher chega a esse momento de um jeito. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens, para não dizer sua sorte e seu azar, ou suas escolhas e seus destinos. O que é fazer vinte e nove para uma mulher que cresceu na pobreza e chega a idade plena adulta com uma conquista de um emprego? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que sempre teve tudo e nunca lutou por nada e está agora numa bela casa? O que é fazer vinte nove anos para uma síria recém-chegada ao Brasil, refugiada de guerra que celebra simplesmente vinte e nove anos de sobrevivência? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que está casada, talvez já com um filho ou dois? O que é fazer vinte e nove anos e ser uma mulher solteira, que vive feliz seus dias em paz?

Eu não sei. Eu sou algumas dessas às vezes. Tenho meus anseios, meus receios, minhas bênçãos, minha guerra e minha paz. Enquanto escrevo, escuto os gritos animados que ecoam pelas janelas. Nos últimos nove meses tenho sido moradora de uma zona de “baladas”, na cidade grande e meus fins de semana possuem noites de muitos gritos, música, garrafas quebradas, brigas na madrugada, cantorias sem fim, e tudo isso de debaixo das minhas cobertas. O barulho não me incomoda. Meu sono é de pedra. Mas às vezes fecho os olhos e lembro dos meus grilos, da grama molhada de orvalho, dos latidos e uivos dos cachorros, e até um mugido ocasional ao fundo. Minha vida em Brasília foi, durante muitos anos, em casas afastadas.

Hoje o que eu mais gostaria, virando esses vinte e nove anos seria sentar na varanda da casa onde morei com minha mãe em seus últimos anos. Gostaria de sair do trabalho, da aula, no início da noite e ir até lá, mesmo que já não morasse lá, pois mesmo que ela estivesse viva, já não imagino que fossemos dividir a mesma casa ainda. Mas iria até lá, pelo menos uma vez por semana à noite, só para tirar os sapatos e pisar na grama molhada, fazer uma xícara de chá, abraça-la forte, e convidá-la para sentar na varanda. Ouvir os insetos, me incomodar com os pernilongos e as mariposas na luz. Suar no calor de Brasília. Secar a testa com o verso da mão, cruzar as penas em cima da poltrona, mesmo estando de vestido, olhar para ela e admira-la. Gostaria de dizer: “Mãe, hoje eu te entendo tanto. Te entendo cada vez mais”, e gostaria de pedir desculpas pelas minhas arrogâncias da adolescência e do início de vida adulta.

Eu sei que precisei negá-la, precisei contesta-la, como acho que todos os filhos precisam, para crescer, criar suas próprias opiniões e se desenvolver. Não faria nada diferente. Não quero mudar o passado. Mas gostaria de dizer que hoje ela faz mais sentido para mim. Não era perfeita, e não quero nem pretendo endeusa-la num culto pós mortem maluco. Mas hoje sinto falta da relação mãe e filha adulta. Sempre fomos muito amigas. Gostaria de poder falar para ela que agora a compreendo melhor. Queria muito ir até lá, e sem sapatos, de pernas cruzadas, ouvir suas histórias tão gostosas, ouvir suas entrevistas ainda sem edição, seus discos, conhecer um novo artista em primeira mão.

Ela acenderia um cigarro e aquilo me incomodaria muito como sempre. Mas dessa vez eu não iria brigar. Eu agora entendo. Hoje não sinto mais aquela raiva ultrajada. Hoje eu gostaria de pegá-la pela mão, e leva-la para minha aula de Yôga. Gostaria de viajar com ela, e lhe mostrar o mundo com meus olhos. Hoje eu faria um belo jantar vegetariano para ela, na esperança de que o modo alimentar que eu adotei fosse fascina-la e auxiliá-la com o problema crônico de baixo peso, e, na minha opinião, uma anorexia não diagnosticada.

E o mais importante, eu não faria nada disso para salvá-la, e nem esperaria que ela fizesse Yôga e nem que virasse vegetariana. Ela adulta, seguiria fazendo o que bem entende. Eu não ficaria com raiva, entenderia, como hoje entendo uma amiga. Eu faria tudo isso só pelo prazer de compartilhar o meu eu adulto com ela. Gostaria de mostrar para ela minhas escolhas, minhas experiências. A verdade é que com o passar dos anos eu sinto menos falta do colo de mãe e muito mais falta da minha melhor amiga.

Hoje, aos vinte e nove, órfã, mestranda, escritora e acadêmica wanna-be, louca pelo mundo, viajante, leitora ávida, eu sei que seria uma amiga ainda melhor na convivência com ela. A verdade é que sinto muita falta das minhas outras amigas e amigos de Brasília. Mas ao mesmo tempo me impressiono com tudo que São Paulo me deu nesses poucos meses. Tenho aqui já uma vida tão rica quanto a que sempre tive em casa. A verdade é que desde que perdi a casa dos meus avós, muitos anos antes de deixar Brasília, já não me sentia verdadeiramente em casa. Desci então que o mundo seria minha casa. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Fiz minha casa no meu coração, como diz o Skank, e tem funcionado muito bem.

Fui convidar alguns amigos para um abraço no dia desse meu ano novo, e já não sei como acomodar a todos na minha casinha. Mas estão todos já no coração. Amigos novos e antigos, familiares longe ou perto. Eu não faço ideia de como seja ter vinte e nove anos. Mas nunca me senti tão segura, tão realizada. Nesse momento eu não penso em ter filhos, não penso em casamentos formais, mas o porteiro diz para o meu namorado: “O pacote da sua esposa chegou! ”, quando recebo algo pelo correio. Não posso corrigi-lo. Tenho vinte e nove anos e moro com alguém em um relacionamento sério, monogâmico e, mais importante, feliz.

Semana passada me vi envolvida em tantos assuntos novos, registrar na Biblioteca Nacional um trabalho coletivo autoral, auxiliar um refugiado em meio ao meu trabalho voluntário na ONG, acompanhar algumas palestras internacionais e tentar aprender a publicar em periódicos internacionais de relevância acadêmica, ouvir as impressões do ministro de economia uruguaio sobre os novos rumos da América Latina, recebi muitos e muitos ensaios para corrigir. Não as provas de inglês de sempre, mas ensaios acadêmicos de graduação, que corrigirei no meu estágio como mestranda. Além disso fiz torta de maçã, do zero.

É, olho meus vinte e nove anos e os vejo como inegáveis. E como são maravilhosos. Nunca pensei que já ia ter vivido tanta coisa, e ter tanta história para contar. Mas aí eu olho para meus dedos, que batem freneticamente no teclado e vejo que as juntas dos dedos já não são lisinhas, os nós dos dedos já carregam suas marcas, e deixam minhas mãos tão incrivelmente parecidas com as mãos da minha mãe. E lembro de como eu gostaria de sentar com ela na varanda para um chá e contar tudo isso, só pelo prazer de sua companhia. Depois eu voltaria para casa, que podia até ser essa aqui em São Paulo, com a vida corrida e cheia de surpresas gostosas que tenho vivido, mas se eu tivesse um momento de poço dos desejos seria esse chá.

Os barulhos na rua estão cessando. Afinal, já é domingo de madrugada, e uma hora todos vão dormir. Amanhã levantarei cedo, tenho um artigo para escrever e uma faxina para fazer. A semana passará bem depressa, e na sexta-feira os vinte e nove chegarão. Os amigos visitarão, e a vida continuará. Mas quem sabe hoje à noite eu não sonho que estou naquela varanda, contando tudo isso para ela? Em sonho já está bom. Uma vista breve, sabe, só para ela saber como minha vida vai. Só para eu ganhar um beijo e um abraço. Só para eu me sentir um pouquinho filha e criança, mesmo com 29.

Van Gogh

Van Gogh. Sempre ele. O primeiro quadro que tive num quarto que pude chamar de meu, ainda na infância, e que não fosse decoração de bebê, foi esse. Estrada com Cipreste e Estrela. Road with Cypress and Star. Não é meu preferido. Mas sempre foi o mais meu. Minha paisagem. Minha janela. Meu canto de estudos, meu enfeite. O quadro do meu quarto. Devido às muitas mudanças dos últimos anos ele já não era meu quadro do quarto. Por três anos esteve engavetado. Eis que hoje escrevo sob as bênçãos da estrada, do cipreste, dos trabalhadores cansados que compõe a paisagem, do pequeno chalé ao fundo, da carroça que segue com duas pessoas dentro e das estrelas. Eis que hoje voltei a ter meu Van Gogh no meu quarto. No nosso quarto. Ele não é mais só meu. Não pendurei os quadros sozinha, muito pelo contrário.

A nova casa está pronta. A nova vida já começou, enquanto eu, muito preocupada em fazer a vida funcionar, já vinha vivendo-a há pelo menos um mês, quiçá dois, e na pressa de ser responsável, mal vi a vida que vinha vivendo. Hoje ela está estampada nas minhas paredes. Não vivo mais na minha torre solitária, tão minha, só minha. Meu império de pouquíssimos metros quadrados. Me sentei no sofá no final da tarde, louça lavada, roupa na máquina, geladeira cheia de comida, quadros na parede e me vi na nossa casa. Na minha casa que não é mais só minha. E mais que isso, o muito mais talvez, não seja que ela não é mais só minha, é que é uma casa de verdade. Tem paredes de verdade, de tijolos, que dividem os aposentos. Aposentos, no plural. Não é grande, pelo contrário, mas é uma casa de adultos. Com quadros na parede. E meu Van Gogh lá. De novo. A terra é redonda e gira. A vida é cíclica. E a minha completou um belo giro, e começou um giro e tanto.

É carnaval. Ontem eu fiz faxina o dia todo. Hoje cozinhei e arrumei a casa. Foi bom. Também descansei da semana de trabalho novo. Sabe o que dizem das crianças, que precisam dormir mais, pois tudo é novidade e é necessário sono para consolidar o aprendizado e recuperar as energias, mais do que nos adultos. Sou criança de novo. Tenho sentido desespero diário por reiniciar o disco, para configurar as atualizações diárias. É um mundo novo. Cidade nova, casa nova, emprego novo, namorado novo, vida a dois, tudo novo. As ruas são novas, os caminhos me distraem. O emprego é novo, as crianças são outras, o material bonito me distrai. A casa é nova, as necessidades de arrumações e reparos me distraem. O namorado é novo, tudo me distrai. Preciso reiniciar e configurar as atualizações de disco. Ainda bem que meu HD tem boa memória.

220V, 110V. Eletrodomésticos novos. A voltagem me distrai. E-mail do orientador. Novos professores me distraem. Mensagem inbox do facebook, projeto novo, aulas voluntárias. As oportunidades me distraem. Pastel na feira. Cesta de orgânicos. Mercado novo. As gondolas de mercadorias me distraem. 3G, 4G, cabo, fibra ótica. Wi-fi ainda não foi instalado, a falta de internet me distrai. Dados rolam sobre a mesa, cartas trocam de mão, peças vermelhas, peças brancas, fichas, cadê a lapiseira? Jogos me distraem. É sua vez. É minha vez.

É minha vez. Nada me distrai mais do que a atenção que posso gastar comigo mesma. Vinte oito anos e agora minha vida é minha. Plena. Toda minha. Cheia. Atribulada. Como não poderia deixar de ser essa minha vida de JuReMa. Como não me ocupar vinte quatro horas, sete dias, doze meses? Como não fazer trabalhos voluntários, estudar, trabalhar, escrever, ler, blogar? Cozinhar, lavar, passar(?), arrumar, ir ao mercado? Como não ser JuReMa. Ser JuReMa é bom. Sofia saiu das páginas. Está vivendo plenamente a história que escreve para si própria. No pulso trago para sempre minha cidade. Nas costas trago para sempre meus pais. E os pássaros. E a música. A combinação perfeita das minhas asas. Voo nas minhas asas. Me carrego dentro do meu próprio sonho, e não há mais como distinguir realidade da fantasia. Virei palavras e as palavras viram realidade a cada carácter impresso no papel.

É assim que viro história. É assim que minha história vira vida. É carnaval. Não fujo da realidade através de fantasias, bebidas, momentos de devaneio. Mergulho nela entre louças, roupas, reparos, estudos, manuais escolares, noites de filme no sofá a dois. Talvez amanhã eu saia. Talvez veja o carnaval na rua. Mas não preciso nesse momento sair para carnavalizar. Levei meu bloco para a realidade através de minhas palavras. Dos meus sonhos. Das minhas asas. E hoje ele teve gosto de risoto e cupcake. Amanhã talvez seja de arroz com feijão, ou de cesta de orgânicos na terça-feira de carnaval.

O cipreste continua a apontar para as estrelas. Elas iluminam o caminho. Os trabalhadores me observam. No próximo fim de semana já terei wi-fi. Depois da terça-feira uma nova cesta de orgânicos. E novas palavras terão escrito mais linhas da minha vida-sonho, que tem sido tão cheia de novidades. Vou reiniciar o disco. Atualizar o novo. Sempre. Seguindo a noite estrelada de Van Gogh, seu céu multipincelado que me remete ao saudoso céu de Brasília. Escrevo sobre o sonho vivido logo mais. Antes vou sonhar a vida mais um pouco. E carnavalizar, meu bloco nas ruas do meu pensamento, nas linhas que fluem dos meus dedos. As estrelas iluminam esse caminho. Sejam as de Brasília, sejam as de São Paulo, sejam as do Van Gogh. Boa Noite e bom carnaval.

Panetone e outras histórias

O panetone era chique, coberto de glacê e gotas de chocolate preto e branco. Massa amanteigada, padaria francesa. As palavras ecoavam na cabeça: “Leva para casa e come com sua família”, e enquanto isso eu ia tirando ele da caixa no trabalho mesmo, cortando e oferecendo aos colegas. Afinal, aquela era, também, minha família, pelo menos nos últimos três anos.

Existem várias formas de alguém passar por esse sentimento. O de estar só. Não digo o da solidão. Nunca fui solitária. É o estar só cotidianamente mesmo. Algumas pessoas já nasceram em famílias pequenas e atribuladas por tarefas, o que sempre as tornou sós. Eu vim de uma família enorme. E ao mesmo tempo fui filha única. Tenho dois irmãos e nunca dividi casa com eles. Ao mesmo tempo, dividia meu castelo encantado cerca de três dos sete dias da semana com outros onze primos reais. A família grande nunca deixou espaço para o estar sozinha dessa forma.

Passei inúmeras manhãs de sol e tardes de chuva só em casa, conversando com passarinhos nas árvores, esperando piratas atracarem no mini píer do fim do jardim, lendo incontáveis livros, jogando jogos de dois mesmo sendo só uma. Mas nunca estava só, não no sentido prático. Sempre tinha comida e gente cozinhando, e alguém para fazer um barulho, por uma música, ver uma TV ao fundo. Um cachorro para latir, vários passarinhos para acompanhar o som do vento.

Um dia isso muda. Às vezes, simplesmente porque as pessoas saem de casa e moram sozinhas. Às vezes porque perdem os pais. Às vezes porque fazem uma viagem, um curso no exterior, um intercâmbio, mudam de cidade, ou qualquer outro motivo que às separe da rotina na qual cresceram. Eu vivenciei todos esses motivos. Aprendi com alguma dificuldade, visto que vim daquele background de doze primos em casa todos os fins de semana, a fazer comida para um. A doar todos os presentes de páscoa, dia dos professores e Natal, quando são comida. Compartilha-los com a família do dia a dia, que são os colegas de trabalho.

Isso também gera a sensação de dominação total do espaço. Hoje, meus vinte e nove metros quadrados não se comparam ao castelo de três andares, piscina e quintal tamanho semi fazenda, indo até a beira do lago no qual cresci. Mas eles são todos meus. Cada milímetro quadrado de espaço é decidido exclusivamente por mim. Decorado, limpo ou sujo, cheio ou vazio, bonito ou feio, meu, e só meu. E quando vim apoderar-me desses poucos metros, tão meus, pude fazer algo até então inédito, que era ser ditadora do meu reino de uma pessoa só. E por isso, curti cada segundo das decisões tomadas à um. Decorei, arrumei e perfumei ao meu gosto, e só meu.

Por que isso, Jurema? Não pergunto o porquê desse cuidado com seus metros, mas o porquê de contar. Bem, respondo-lhe, Jurema, porque ouço de todos os que aqui vem que sou muito organizada. Até a faxineira já me disse mais de uma vez que gosta muito de vir limpar minha kit uma vez na semana, pois ela é a mais organizada do prédio. Agradeço os elogios, aos quais fico um pouco cética, e também um pouco constrangida. Em especial porque não faço questão e nem esforço para que seja assim. É simplesmente o fato de poder cuidar do que é meu, e tornar meus dias mais floridos, mais apassarinhados, mais coloridos e iluminados.

Quando vim dominar meu império de menos de trinta metros quadrados, vim muito fragilizada, muito dolorida. Precisava provar para mim mesma, e consequentemente para o mundo, que era capaz de ser só. E nesse impulso não quis criar para mim um centro de refugiados de uma pessoa só, quis e criei um lar. Hoje sei, e tenho uma confiança enorme em mim mesma, que sou capaz de ter um lar, completo, bonito, arrumado, cheiroso, com comida, roupa lavada, só para mim. E essa certeza, essa confiança me cobriram de toda a proteção que a Jurema fragilizada precisava. Hoje sei que posso rodar o mundo, a pé ou de avião, sozinha ou acompanhada, que, meu lar, eu levo comigo.

Não são pelos vinte e nove metros decorados. É pela certeza de que minha alma vive num lugar florido, colorido, apassarinhado e feliz. Seja lá onde isso for. E que eu não estou solitária nunca, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Às vezes gosto muito de ficar sozinha. Nem conseguiria me abrir em palavras aqui, caso não tivesse esse tempo e esse espaço, onde só existimos eu, meus dedos frenéticos, o teclado do computador e minha caneca de chá. Sim, claro, o chá é o combustível imprescindível para as minhas manhãs de desabafos coletivos, onde despejo sentimentos convertidos em palavras ao vento.

E enquanto ia lendo um pouco do último livro que ganhei, pernas pro ar naquela sala dos professores, à espera de uma grande amiga para um almocinho de sábado, ia assistindo ao panetone de glacê e gotas de chocolate preto e branco ir sendo consumido, pedaço a pedaço por todos aqueles que de alguma forma são, foram, ou ainda serão minha família do dia a dia. Aquele foi meu último dia, pelo menos dessa fase, naquela sala, naquela família. E me dividi em forma de panetone. O mundo é definitivamente redondo e gira.

Em 2012 passei por talvez o pior ano da minha vida. Perdi minha voz de mel para outra dimensão, quebrei a cabeça, literalmente, e reordenei por motivos externos minha vida, pelo menos umas três vezes. Mudei de emprego, quando estava profundamente desiludida com minha capacidade de ser internacionalista. Mudei para a casa dos meus tios, como uma refugiada de sentimentos, que vai para onde a acolhem, saindo de onde já não há mais amor. Perdi o prazo de um edital, tive que adiar o sonho de um mestrado, com um mês de tylenol de seis em seis horas na cabeça quebrada. Vi pela última vez, no último dia desse ano cruel, aquele que foi meu príncipe no cavalo branco, por mais de oito anos.

Fosse eu outra, fosse o roteiro da minha vida menos incrível, fosse o mundo menos humanamente bondoso comigo, e 2013 eu seria uma pessoa extremamente depressiva e descrente da vida. Quiçá viva. Mas eu adormeci num avião e 2013 amanheceu na neve. Se algum dia eu já ganhei um presente que posso dizer que definitivamente me salvou a vida, foi aquele curso e aquela viagem. Por eles, e por tudo o mais, agradeço aos meus quatro cavaleiros reais, minha cavalaria muito mais eficiente que o exército de águias do Hobbit, muito mais invencível que qualquer herói de qualquer filme de realidade fantástica. Meus Reis sabem compor uma vida irreal como ninguém.

E no frio eu me encontrei, e de volta ao calor eu resolvi conquistar meu espaço não mais de refugiada dos sentimentos, mas de dona, plena, rainha deles. E fiz meu reino no alto de uma minúscula torre, onde a felicidade se faz presente todos os dias, só para mim. E fiz amigos novos, e encontrei os velhos várias vezes, e saí, e vi o mundo, viajei, tanto, que em 2014 tive que renovar. Fui obrigada a trocar de bicicleta, de bota de trilha, de mochila de viagem e de casaco impermeável. Mês após mês refiz meu kit de aventuras, porque os antigos já não aguentavam o meu novo ritmo.

E nesse processo eu aprendi a viver da minha própria renovação. Aprendi a conquistar o mundo com um passo depois do outro. Aprendi a compartilhar minhas aventuras com desconhecidos de passagem, e com velhos amigos, fosse através de uma foto, uma rede social, uma conversa de bar, uma saída, uma festa, uma viagem, uma trilha, um banho de piscina. E em 2014 colhi frutos inesperados. Se em 2013, eu semeei todo esse amor em mim mesma, em 2014, dei frutos. Doces e muito melhores do que eu jamais podia esperar. Meu presente de Natal eu venho ganhando dia após dia ao longo desse ano.

Amizades lindas e eternas, pessoas em quem confio profundamente, amigos para toda hora. Aprendizados incríveis, saltos na carreira, títulos novos adquiridos, certificados e diplomas. Muitas ferramentas novas. Muitos livros novos, muitos mundos novos. Países novos, carimbos novos no passaporte. Até a carteira de motorista tive que renovar. E lá se vai a comprovação de que já tenho dez anos de motorista. Com alguns quilos a menos, fui obrigada a renovar o guarda-roupa também. Com a certeza de qual carreira quero perseguir, essa renovação foi bem-vinda, e pude me desfazer de algumas fantasias que sei que não vou precisar usar. Não vou precisar me travestir de alguém que não sou, e conseguirei assim mesmo seguir com minha vida. Outras fantasias, ditas mais convencionais, eu adicionei ao guarda-roupa, feita a mão, diretamente do meu imaginário para a realidade, prima-irmã do blog, onde Sofio-me e Alice me torno.

O mestrado chegou, e um novo amor também. 2015 ainda não chegou, mas já se anunciou em ventos tão bons. Minha casa é onde está meu coração, já dizia Skank, já citei eu mesma tantas vezes aqui. E voo nas asas que criei para mim mesma, que tão lentamente abri, que tão simbolicamente desenhei. O panetone acabou antes que saísse pro almocinho. Minha família de dia a dia tecia comentários eventuais sobre a massa, a manteiga ou o açúcar. Saí sem me despedir. A despedida oficial foi na quinta-feira, alguns dias antes. Não quero o sabor amargo das lágrimas tristes, quero a visão limpa e clara das lagrimas felizes. E o doce do panetone em suas bocas. De 2014 tenho uma coisa a dizer: MUITO OBRIGADA!

Jamais Vu

Eu sempre senti saudades do que nunca vivi. Renato Russo acertou na mosca mais uma vez. Já comentei isso aqui mais de uma vez. Sempre fui nostálgica. Uma distraída super atenta. Daquelas que perde um pedaço grande da conversa, só porque um passarinho bonito passou voando, meus olhos se perderam nos do meu interlocutor, e as palavras passaram como vento. E sem mais nem menos, essas mesmas palavras voltam sozinhas à minha mente durante um banho, ou na hora de dormir, e de repente eu sinto o amor da conversa que perdi, e ligo, ou mando mensagens para expressar o que não pude no momento certo, porque ele passou enquanto eu me perdia nele mesmo.

Ao fitar por horas o lago, de cima da minha árvore, durante toda a adolescência senti uma saudade imensa dos piratas que nunca atracaram no porto do meu jardim. Na infância, senti falta absurda das sereias que não viviam na minha piscina. De livre e espontânea vontade, passei horas infantis dentro do pequeno armário-adega, empoeirado, embaixo da escada dos meus avós, saboreando os medos que não tive do escuro. E dormi dentro das enormes gavetas abertas do closet da minha avó, vestida em suas camisolas de cetim, com seus enormes, hoje tão pequenos, sapatos de salto bege nos meus pés, sonhando com os bailes de gala que nunca presenciei. Passei madrugadas cantando de pijamas velhos e descalça, com minha mãe, fazendo penteados elaborados nos meus cachinhos dourados de criança, de festas de arromba que eram só nossas, e que nunca frequentei.

Hoje em dia minha saudade real do passado, tão cheio de fantasia, se mistura de forma inexorável com minha fértil imaginação, sempre tão alimentada por meus contos de fadas, e tecem na minha vida nada menos que um belo romance de realidade fantástica, aventura e fantasia. E aos fatos que vivi e aos que imaginei se somam aqueles outros que nunca existiram e até hoje não sei se estão no meu futuro ou se são memórias de vidas passadas travestidas de roupas modernas. Entre ficção histórica e realidade fantástica, torno-me Sofia no meu melhor estilo: o do impossível teimando em torna-se realidade sob meus olhos.

A primeira vez que tive certeza da minha nostalgia de futuro foi em 2002. Aquela foi a primeira vez que o conceito de Jamais Vu me acertou em cheio, me tirou do chão. Ali comecei a ser Sofia, enquanto era Alice no País das Black Hills. Acho que dei umas cinco ou seis voltas na trilha ao redor do Sylvan Lake, neve derretida dos picos ao redor. Uma bacia, um caldo de cultivo, onde borbulhavam meus sentimentos, minhas emoções. Ali, eu saí de mim, ali eu comecei a conhecer de forma mais sólida do que apenas na imaginação infantil todas as Juremas que habitam em mim. Ali tive certeza de estar em casa, estando mais longe do que nunca antes.

A familiaridade com a qual eu percorria as ruas de Rapid City. A intimidade criada com os Abrahamsons, conhecendo gente que me conhecia e nem sabíamos. Livros, músicas, jogos de xadrez e artesanato. Pinheiros e trilhas na floresta. Ali achei outros que compartilhavam a parte do imaginário coletivo na qual eu me inseria. Cada bom dia do esquilo na calçada pela manhã, cada pio do tordo e do corvo, do alto da entrada da escola ao nascer do sol, seguidos do barulho nos arbustos que antecedia o bom dia dos Abrahamsons vindos do outro lado, cada leitura sentada nos corredores antes da aula, eram momentos do mais autêntico Jamais Vu. Nunca tinha estado ali. Não conhecia aquelas pessoas. E ali me senti em casa.

A comprovação do meu Jamais Vu veio na despedida. Já no aeroporto depois de um arrebatador momento de Por Enquanto no ônibus, agora vinham os abraços antes do voo. E já passada do portão de embarque, eis que escuto um “Juliana” cheio de sotaque, volto e recebo da Lois a frase de que eu não chorasse, pois obviamente nos veríamos de novo.

Até hoje não os revi. Mas isso não me incomoda mais. Aprendi que existem momentos, cidades, florestas, lugares, passeios, atividades, paisagens e pessoas que são os Jamais Vus da minha vida. Nunca as tinha visto, e com elas me senti em casa. Talvez porque eu tenha um coração nômade, e minha casa esteja onde ele está. Talvez por minha imaginação fértil e ativa, que sempre construiu tantos cenários deliciosos e impossíveis para meu futuro, talvez por lembranças de vidas passadas.

Tem gente que acha que isso é fruto de toda e qualquer viagem. Que só por estar em um ambiente diferente e excitante, tudo se torna mais gostoso. Amo viajar, e sim, novos ambientes tendem a deixar tudo mais excitante e gostoso. Mas não é isso. Já fui a vários lugares e já conheci muita gente. E alguns foram muito legais. Outros nem tanto. Mas muito poucos são Jamais Vu. Já sofri de Jamais Vu na familiaridade do meu quintal, porque uma joaninha em especial me parecia uma velha amiga. E já me senti totalmente deslocada em locais que frequentei por anos.

E quando cheguei na Escócia em 2013, saí às 22h30 da estação de trem, sem nunca ter estado lá, em pleno frio de janeiro, e andei como quem chega em casa, reto até uma porta de madeira meio torta e mal encaixada no portal, com, literalmente, um caldeirão esculpido em cima e o nome do hostel, e sem ter errado nem uma curva do caminho, ali dormi, sem armário, sem pijamas apropriados, sem a tal segurança alegada. E ali acordei, e sem guia, sem mapa, sem ninguém, mas com muita simpatia, sorrisos e acolhidas fantásticas, rumei ao castelo, onde andei e passeei, como quem entra em sua própria penseira e vive sua própria realidade, entre lugares tão desconhecidos, em casa. Jamais Vu.

Alguns lugares e algumas pessoas te fazem se sentir tão em casa, que nesses momentos me pego com imensas e infinitas saudades do futuro. Futuro que nem sei se acontecerá. Futuro que são vários, como aqueles livros de aventura infanto-juvenis com diversos fins possíveis de acordo com a página que você decida seguir. Em momentos de Jamais Vu, vejo na minha frente as possibilidades dessa forma: para continuar na cidade onde está vá para a página 53 e compre um apartamento. Para conhecer o mundo pule para a página 74 e entre num avião. Para voltar a estudar siga na página 95 e veja em qual universidade você se encontra agora. Para descobrir a origem do sorriso no seu rosto vá até a página 103 e continue a leitura de lá. Jamais Vu.

Cada ano que passa, aprendo a conviver com os Jamais Vus da minha vida. Não sei se são lembranças de vidas passadas. Não sei se são frutos da minha imaginação. Não sei se são os momentos Ruby Sparks da minha vida, e se o que escrevo vai tornando-se realidade, ou se Sofio-me cada vez mais e viro personagem real, trazendo comigo as irrealidades e familiaridades da minha fantasia. Jamais Vu. Minha vida nunca foi uma Matrix. E embora já tenha tido meus Dejá Vus, eles são poucos. Não creio que tenha vivido muitos momentos iguais uns aos outros. Mas me é recorrente a sensação de total familiaridade, segurança inexplicável, conforto e intimidade com o desconhecido. Jamais Vu.

Entenda, não é todo desconhecido que me provoca Jamais Vus. Pelo contrário. Jamais Vus são raros. O desconhecido não me provoca desconforto mesmo quando não é Jamais Vu. Gosto daquela adrenalina maravilhosa de me ver entrando numa trilha desconhecida. Saboreio não saber onde ela vai dar. Adoro descobrir novos caminhos e abrir trilhas onde elas aparentemente não existiam. Tenho metas e sou caxias, às vezes até demais, com meus compromissos. Mas fujo da rotina. Adoro não saber como será cada semestre meu, com novos horários de aulas, novos alunos. Essa rotatividade entre metas impossíveis me dá o folego que preciso para tentar alcança-las. Jamais Vu. Eu gosto do gosto do desconhecido.

Mas existe uma diferença entre o gosto do desconhecido e o cheiro do chão da floresta de pinheiros, da turfa. Vinda de um cerrado savana, onde a terra vermelha tem um cheiro árido e próprio, descer do trem numa Edimburgo gelada e reconhecer o lugar pelo cheiro, isso é a cereja do bolo do Jamais Vu. É confiar que existem alguns desconhecidos que são tão familiares que eu já sei que vou amá-los, mesmo antes de conhecê-los.

Cada dia que passa me sinto mais maravilhada, abobada, feliz e confortável com meus raros e deliciosos Jamais Vus. E nessas andanças pelos desconhecidos irreconhecíveis, e pelos desconhecidos familiares estou certa e que minha casa é onde meu coração está. E que às vezes o encontro nos lugares mais improváveis. Alice que sou, vou procurando pelo meu próprio coração entre estradas de tijolos amarelos, e seguindo coelhos em tocas desconhecidas, e descobrindo no País das Maravilhas minha casa no melhor estilo Jamais Vu. E assim, fica fácil viver e conviver com o desconhecido. Já que ele é mais familiar que o conhecido. Jamais Vu.

REIS, N. Saudade

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

FullSizeRender

 

 

 

 

 

 

Brasília, domingo, onze da manhã, de um ano qualquer

Era domingo. Onze da manhã. E daí? – você me pergunta. Acordou tarde? Não. Não é isso. Não importa que horas acordei. Que horas fui dormir. Domingo era o dia dela. E onze da manhã sua hora. A hora do rádio. Não era a hora da Voz do Brasil. Era a hora da voz do meu Brasil. Do meu mundo. Da minha mãe.

Olhei a xícara de chá ao meu lado. Dourada com corujas, algumas de óculos. Tão eu. Presente de aniversário. Olhei o pequeno bule roxo, cheio do chá matinal, orgânico, detox. Tão eu. Comprado sob os auspícios de casa nova, e já vão lá um ano e meio de uso, de casa, de chás. Cocei a cabeça, cabelo preso, embaraçado da noite de sono ainda. Tão eu. Sempre assim. Um dia de folga, e de pijamas e com uma xícara, preferencialmente uma caneca, de chá nas mãos, e já lá estou, com um livro, uma leitura, uma aventura. Ou com letras nos dedos.

Ah essas letrinhas que não me deixam mais. Falo pelos cotovelos, e como dizia ela, ainda bem que nasci só com dois, se não ninguém aguentava. Melhor traduzir em palavras. Em rabiscos. Tanta ideia, tanto sentimento, tanta vontade de se pôr para fora. Minha voz era minha ouvinte número um. E tão boa que cresci mal acostumada no que diz respeito às boas companhias.

Ainda que fossemos mãe e filha, por diversos motivos, por sermos as duas filhas dentro da casa dos meus avós, por sermos as duas meninas, por sermos as duas só nós duas, fomos amigas. Não exatamente como amigas, claro. Eu diria mais como colegas de quarto. Minha mãe foi sim, minha roomie. Desde muito nova pude participar nas escolhas de como nossa vida seria, e ajudá-la a dar contorno e forma a todas as pequenas escolhas. Em parte porque ela deixava, estimulava e cultivava em mim a liberdade de escolhas e a tomada de decisões. Em parte porque ela mesma estava perdida e precisava de ajuda. Em parte porque fui criada, por ela e todos os demais familiares, como um ser humano, cujas ideias e sentimentos deviam ser respeitados, independentemente da idade.

Nosso ponto máximo de vida de roomie foi a casa do condomínio. Quando moramos sozinhas de novo. Já tínhamos vivenciado essa aventura muitos anos antes, na 407 norte. Naquela época moramos só as duas por cerca de três anos num apezinho pequeno e aconchegante. Com estantes feitas pelo vovô Gepeto, cheias de violetas e o rádio, embaixo da janela da sala. O banquinho de índio da vovó, emprestado para nós, com o telefone e mais uma violeta em cima, ao lado do sofá. O telefone verde, que para discar era necessário girar aquela roda de acrílico, já amarelada, e esperar cada número fazer sua quantidade de tec-tec-tecs até poder discar o próximo.

Naquela época eu ainda era muito nova. Vivemos lá entre meus cinco e oito anos. E lá aprendi a fazer vitamina de café da manhã, do jeito que ela gostava, com leite de soja e castanhas do Pará. E aprendi a noite a fazer a sopa de aveia e cenoura da vovó. Minha vida de sopas começou lá e eu nem sabia. De tomadora de sopa começou muito antes, desde que nasci. Mas de fazedora, começou lá. E um dia fomos buscadas por vovó magico de Oz, salvador de toda intempérie. Aquela empreitada não deu em nada.

Mas o que é na vida que tem que dar em alguma coisa? Que mania de buscar resultados mirabolantes de contos de fadas essa! Aqueles anos, com tudo que eles trouxeram, com os risos e o choro. Com minha frustração em não poder correr para minha árvore no jardim depois de uma briga em casa, que me fazia esconder debaixo da mesa da sala para chorar. E os risos de mel dela ao descobrir que metade do meu emburro era pela briga e a outra metade pela falta da árvore. As tempestades de verão assistidas da janela, com muita música alta acompanhando. As vitaminas de café da manhã aos domingos de sol, com as janelas abertas e, sempre, o rádio ligado. A primeira vez que ouvi ETC da Cássia foi assim. No rádio, tomando uma vitamina, ao som das gargalhadas dela, que se divertia tanto com a vitamina, o rádio e a letra.

Muitos anos depois, no condomínio, estávamos sós, não por escolha, mas por falta dela. A coisa mais significativa que apreendi com as perdas foi que o sofrimento de um ente querido que morre tem como alívio doce a certeza de que apesar de todo o sofrimento, a única coisa que cada um deles com toda certeza não queria, era me deixar sozinha. A maior preocupação de quem se vai para cumprir com as missões dessa vida é a preocupação de que quem fique, fique bem. Com muito amor na alma. Tudo o mais dói muito. É, em quase todos os sentidos, a pior dor que se pode sentir. Mas seu afago na alma é esse. A certeza de que os que foram, estariam, e de certa forma estarão, comigo sempre.

É o exato oposto das dores de um coração partido. As pequenas, e às vezes grandes, dores de um amor são o contrário disso. Existem infinitas variáveis, que mudam a cada caso, a cada dia, a cada estória, a cada amor. A única constante, é a certeza de que aquela pessoa não queria mais estar com você. E é por isso que dói. Mesmo quem se vai pela mais definitiva das razões, a morte, queria estar junto. Quando são por incompatibilidades do coração, nada é definitivo, além da certeza de que não se quer estar junto nunca mais.

Acho que por isso tantas vezes as pessoas, e incluo a mim mesma nessa lista, sendo ser humana que sou, sentem tanto receio de iniciar novas fases, ou de se jogar em novas situações. Existe o medo do desconhecido. Existe o receio de se revelar e de descobrir as entranhas alheias. E a cada ano que passa existem mais bagagens sobre os ombros de todos que andam sobre a Terra. E as bagagens lhes pesam os ombros, e lhes fazem lembrar de tudo o que já foi.

Não se apegue ao que já foi. Nem por motivos de amor, nem de morte, nem de vida. Quando olho no relógio e vejo que são onze horas de domingo, lembro dela. Dos risos de mel. Das músicas cantaroladas. Do rádio. Da sua voz duplicada dentro de casa, ao vivo, e a gravada, a me contar as mais maravilhosas histórias da nossa música. Lembro das violetas e da vitamina. Lembro das cócegas nos dias de bom humor e das caras fechadas nos dias de mau humor. Lembro com carinho. E guardo essa luz dourada em meu peito para sempre.

Olhei para a caneca dourada, com corujas de óculos. Olhei para as flores na almofada. Olhei para as fotos na estante. Os discos e as violetas na janela. Tenho vivido essa nova aventura e já se vão lá um ano e meio de vida sozinha, mas nunca solitária. De viagens incríveis. De aproveitar as vantagens de ser rainha do meu castelo, imperadora, podendo dar todas as ordens, por não dividir o poder com ninguém. E ao mesmo tempo cumprindo com todas as ordens, por ser também a única executora delas nesse espaço. Tão eu. Olhei meus passarinhos, os de barro na estante, o de madeira, Espirito-Santo mineiro, os de pano, no fundo azul da cortina filtrando o sol pela janela. Tão eu.

Olho para tudo isso, e guardo essa luz dourada em meu peito para sempre. Isso é o meu hoje. Aquilo foi meu ontem. E só a vida dirá o que meu amanhã me reserva. Não tenho medo do futuro, embora, hoje, tenha mais saudades dele do que do passado. Vivo hoje, penso e planejo o amanhã, me delicio com as memórias de ontem. Às onze de domingo sempre serão dela. Mas existem ainda todos os outros seis dias da semana, e as outras vinte e três horas do dia, os pores do sol, em terras distantes, os nasceres do sol acompanhados de tapiocas, para serem preenchidos. E enquanto isso vou me traduzindo em palavras. Sofio-me dia a dia. Inclusive, e, especialmente, às onze horas da manhã, de domingo.

Sobre o sim o não e o talvez

Hoje estou ansiosa. Desde que acordei. Uma nostalgia, uma saudade. Uma saudade do passado, e uma saudade do futuro. Sim, eu sofro desse mal raro, compartilhado por alguns compositores, outros letristas, poetas e autores. Eu sinto muita falta do que nunca vivi. Minha nostalgia me abate com a força de um romance inglês do século dezenove. E se desenrola na forma de borboletas no estômago. Talvez por isso eu tenha medo de borboletas. Enquanto dizem por aí que essa sensação é aquela do novo, do inusitado, para mim tem ares de gastrite nervosa.

Sempre fui boa em traçar e cumprir metas. Gosto de ter objetivos. Nesse ponto, vivi, durante anos, a vida como um vídeo game. Sempre completando as tarefas de cada fase, e, acreditem, os chefões que já enfrentei para passar por cada uma delas não foram poucos e nem pegaram leve. Acho que em algum momento em torno dos meus dezoito anos alteraram a configuração e o jogo foi do easy mode para o hard! Mas não me incomodo com as dificuldades. Às vezes sofro, mas sofrer faz parte, e se visto como aprendizado, o sofrimento pode virar benção. Com tudo o que já vivi, não perdi a alegria de viver, e ouso dizer que até tenho mais do que a média. Sei que o copo está sempre cheio, mesmo que seja cheio de ar, e aprendi a me divertir com o ar, e somente ar, desde a infância. Está entre as características daqueles que brincaram muito sozinhos e aprenderam a respeitar a vez do ar de falar.

Mas existe uma inquietude em mim. Uma vontade de ver outras paragens. Essa inquietude se manifesta com especial predileção nos finais de tarde. Quando criança podia passar o dia todo dentro de casa, lendo um livro, feliz. No fim do dia batia a saudade de tudo que nunca vi. Uma nostalgia com cheiro de grama molhada de chuva. Um sonho de voar com o vento. Era a hora de sair pelo jardim, caminhar descalça, subir na árvore, e olhar o lago. Era a hora de esperar por navios piratas num lago artificial. Era a hora de aguardar pelo desembarque do Capitão Gancho no fundo do meu jardim.

Essa nostalgia tendia a se dissipar com a chegada da noite e a necessidade de entrar em casa em busca de um banho, um pijama quente e uma sopa da vovó. A rotina me lembrava que eu era só uma menina. E que a menina tinha que ir para a escola no dia seguinte. E lá eu ia, com minhas metas pequenas, contando quantas páginas tinha lido num dia, quantos livros num ano. Em quantos desenhos eu tinha tido a paciência de pintar todo o céu de azul. Parece bobagem, mas se você escavar a lembrança dos tempos de jardim, estou certa de que se lembrará de como o céu de uma folha A4, sobre o desenho a lápis, parecia um infinito, que nunca terminava. Era necessário apontar o lápis azul claro mais de uma vez para terminar o céu. Quem terminava o céu? Quem tinha tempo para isso?

Quando eu pintava o céu em rajadas soltas, confesso, às borboletas vinham me visitar. A ansiedade me atacava, e às vezes, eu desistia do céu azul. Para que isso não acontecesse, eu dividia o céu. Quadriculava o céu com linhas finíssimas, quase invisíveis, com o próprio lápis azul claro, e ia um quadradinho de cada vez. Ah, paz! Como eu me sentia em paz pintando um quadrado por vez. Era fácil, simples, não cansava e a meta era bem definida e de fácil alcance. Quando eu menos esperava, os quadradinhos acabavam, e eu me deparava com uma A4 perfeitamente preenchida. Meu céu azul! Minha meta cumprida, um quadrado por vez. Sem borboletas. Ou, se elas lá estivessem, estavam no céu e não no meu estômago.

Até o fim da faculdade eu consegui viver a vida assim, um quadradinho por vez. Metas definidas pela sociedade. Terminar o semestre, terminar o curso, conseguir um diploma. Fazer cursos de extensão, de línguas. E aí uma hora isso tudo acaba, e lá vem o lápis azul claro em rajadas soltas, com a força e a suavidade do vento. E me deixou à deriva. E me trouxe borboletas no estômago. Veja bem, quando digo à deriva não quero dizer perdida, nem parada. Um curso aqui, um preparatório ali. Quando vejo já são alguns anos no emprego “novo”. Quando vejo já são mais alguns títulos e outro tanto de certificados.

Mas agora, por mais que tente seguir um quadradinho por vez, não estou mais pintando uma A4. Não sei o tamanho dessa vida. Ela é 3D. E fluida. E como naqueles livros de aventura da pré-adolescência, se eu tivesse escolhido a página 73 me depararia com uma quantidade de quadradinhos azuis, já na página 84 são outros tantos, e se pulo para a 95 já não são nem azuis mais os quadrados e sim verdes ou cinzas. Não jogo mais um vídeo game com um número de fases pré-estabelecidas. Na melhor das hipóteses jogo xadrez e é exaustivo ficar antecipando as diversas possíveis jogadas do adversário, nomeadamente a vida, baseadas em cada possível movimento meu.

E isso faz com que tenha que abordar as borboletas do meu estômago de uma forma diferente. Porque elas continuam lá. E insistem em aparecer e reaparecer a cada fim de tarde nostálgico e saudoso. Só que dessa vez não posso acalma-las contando quantos quadradinhos azuis faltam para a próxima meta. Não vai mais funcionar, porque eu não sei. Então decidi que preciso aprender a voar com minhas borboletas. Solta-las uma a uma. Para que saiam de meu estômago e virem minhas asas. Se o azul agora vem em rajadas soltas, desprotegidas do quadriculado de minhas linhas imaginárias, meus tratados anti-ansiedade, preciso aprender a voar ao sabor dessas ondas. Sem entretanto perder a capacidade de decidir o rumo.

Quando escrevo essas palavras, elas são minhas borboletas. Saindo uma a uma do estômago. Deixando de ser gastrite nervosa e virando palavra. As palavras são minhas asas e sei que um dia voarei em suas asas. E aprenderei a seguir as rajadas soltas do lápis azul, sem medo de me perder na imensidão da vida, que afinal, não cabe numa A4. Só essa borboletinha de hoje já está com cerca de três A4 por exemplo, e já somei várias do tipo. O que me intriga hoje especialmente é como aquela dose de controle, representada tão bem pelos meus quadradinhos azuis do céu, não faz parte da minha vida hoje em dia.

Veja bem, metas tenho muitas e sou boa em cumpri-las. Mas quando a vida se torna maior que uma A4, quadricular o céu não é mais garantia de que conseguirei preenche-lo. Vou tentando, uma rajada por vez. Às vezes perpassando o mesmo caminho mais de uma vez, às vezes me demorando tempo demasiado num canto só do céu, até ele tornar-se mais escuro do que eu intencionava. Outras vezes, passo leve demais e o azul mal chega a tingi-lo. Mas vou caminhando, voando, lápis na mão, asas nas costas, palavras saindo dos dedos para transmutar borboletas ansiosas em história. Se conseguir ser Sofia o suficiente, talvez evite a gastrite.

E pensando nisso, me surpreende que num mundo em que aprendo a não ter controle de tanta coisa, a saber que tenho que fazer minha parte e que o resto cabe aos demais, ao destino, sigo ainda assim com fé. E vejo tantas pessoas abrindo mão do pouco que lhes cabe nas decisões da vida. Quanta gente evita escolher, seja o que vai comer no almoço ou o presidente. Porque é mais fácil. Porque escolher é posicionar-se e posicionar-se é um risco. Veja bem, viver é um risco.

Quem está vivo, pode morrer. Quem está vivo pode apaixonar-se. Quem está vivo pode sofrer. Quem está vivo pode sorrir, sem motivo. Quem está vivo pode surpreender-se. E, dependendo de quais coisas façam parte da sua crença, na verdade, nem precisa estar vivo para tudo isso. Essas coisas vão acontecer e pronto. E mesmo que você opte por viver à deriva. Mesmo que você opte por não se posicionar, uma hora, numa curva qualquer da vida, ela vai te cobrar isso como um posicionamento e você vai pagar a conta de qualquer jeito.

Minha vida não cabe numa A4 já faz muito tempo. Meu céu nem sempre é azul. E para conseguir todas as tonalidades que ele possui, do amanhecer ao pôr do sol, nem uma caixa 48 cores basta mais. Eu sigo nas rajadas como posso. Às vezes boboletando, às vezes sofrendo de nostalgias indefinidas, às vezes de saudades muito bem definidas. Umas saudades são sofridas e sem solução. Outras são doces e aguardam ser matadas. Às vezes cuspo palavras. Vou à deriva quando não tenho outra solução, mas me agarro a cada quadradinho que ainda sobrou no meu céu, em meio às rajadas. Tomo minhas decisões e escolho meus caminhos. Sei que podem nem sempre ser os melhores. Mas também sei que não adianta lamentar.

Aprendi a ser sempre responsável por minhas escolhas e não me abster da vida. Espero que as pessoas entendam, no que diz respeito às suas decisões, que a coletividade não às justifica. Somos todos responsáveis por cada pequena decisão que tomamos e por cada pequena decisão que não tomamos. Às vezes elas se pagam com muito amor e doçura. Às vezes são amargas e descem rasgando. Mas se são nossas decisões, podemos viver com as consequências, e seguir em frente.

Eu, como todo ser, nem sempre acerto. Mas sei o que fiz, o que faço. A vida me recompensa às vezes com amargor e às vezes com doçura. O que aprendi é que revoltar-se perante o resultado das minhas escolhas não me leva a lugar algum. Só à gastrite nervosa. Quando a resposta é amarga, eu aprendi a ver nela um aprendizado valioso, e a ser grata à ele. Quando a resposta é doce, não há gratidão suficiente na minha alma e transbordo. Na verdade, transbordo sempre, seja em risos, lágrimas, ou palavras. E quando as palavras transbordam para além de mim, elas chegam aqui. Onde viro Sofia, e elas viram estória.

Seja em quadrados azuis ou rajadas multicolores, sei que, por conta da gratidão e do amor à todas as situações vividas, vou completar meu quadro. Se ele é renascentista, surrealista, moderno, abstrato, ou apenas um doodle, não sei. Acho que um pouquinho de cada coisa. Um pouquinho de cada vez. Uma palavra de cada vez, libertando minhas borboletas, formando minhas asas. Amo meu sim. Aprendi que posso amar o não também. E evito o talvez. Seja sim ou seja não, a borboleta há de sair, e as palavras contarão sua história.

Quem sabe um dia não paro de sofrer da nostalgia do que nunca vivi, para ver na minha frente um quadro de belas memórias reais, cada uma com sua gotinha de tinta, com sua palavra desenhada. E com minhas asas, irei sobrevoa-las, saboreando cada cor, cada gosto, cada forma. E lá estarão meus piratas, minha árvore, meus cachorros, meus livros, minhas aventuras, reais e imaginárias. Minhas muitas e muitas páginas A4, e todos os meus quadradinhos azuis.

Escolhas

Volta e meia me pego lendo a respeito ou debatendo ou mesmo pensando sobre questões de gênero e feminismo. É um assunto de extrema relevância, que precisa muito ser pensado, debatido, lido, enfim, muito existe a ser feito nesse campo. Mas o que sempre me impressiona é como esse assunto sempre pareceu distante, e aos pouquinhos, com o passar do tempo, tenho adquirido consciência de muitas coisas para as quais era cega antes. Esse processo é comum, e costuma acontecer quando vamos nos conscientizando e sensibilizando acerca de um tema.

O que me fez parar para pensar bem não foi o processo em si, mas a distância sentida. Venho de uma família onde todos os assuntos ditos polêmicos sempre foram debatidos, a análise crítica incentivada e, mesmo com diferentes opiniões entre os diferentes membros dessas famílias das quais provenho, sempre houve respeito pelas opiniões alheias, ou, no mínimo, a aquiescência de que divergências existem.

A tudo isso só tenho a agradecer. Mas continuei matutando, e me vieram a mente os dias na casa dos meus avós. Minha avó trabalhou com política e foi uma das defensoras e construtoras dos direitos da mulher. Porque então essa sensação de estar vendo o mundo com novos olhos? E finalmente percebi. Eu fui criada num ambiente em que as escolhas foram respeitadas e incentivadas. E onde o gênero não tinha nada a ver com essas escolhas. Não estou certa se todas as mulheres da minha família tiveram essa mesma oportunidade ou essa percepção. Mas podendo falar só por mim, digo que sim. Mesmo quando minhas escolhas não eram aprovadas, foram respeitadas.

Isso me fez ter um respeito e admiração ainda maiores pelas minhas origens. E isso não era uma coisa dita, não dessa forma. Isso estava presente no dia-a-dia, em cada pequeno momento. E nesse altar devo colocar, novamente, meu avô, meu herói. Lembro do dia em que comprei minha primeira sandália de festa, de salto fino. Tinha catorze anos e comecei a ser convidada para bailes de quinze anos de amigas da escola. No primeiro fui de sapatilha. Uma que comprei para festas, era linda, rosa claro e toda recortada como uma renda. Não me incomodava de ser a única da festa de rasteira. Nunca fui baixinha, embora não seja muito alta. Mas sempre fiquei confortável assim.

Mas voltando ao meu avô, um dia cheguei em casa com minha mãe, e tínhamos comprado aquela sandália. Hoje dificilmente seria considerada mais do que uma sandália de trabalho, mas nem minha mãe e nem minha avó eram fãs dos saltos, e aquela simples sandália de couro preto, de salto fino e médio, com cerca de cinco centímetro, eram uma verdadeira aventura para mim. Lembro que tive receio da reação do meu avô. Sabia que aquele era um marco no fim da minha infância. Ele olhou, me viu de salto, olhou para minha mãe e disse que sabia que esse dia chegaria. Vi uma pitada de tristeza pela ida de sua garotinha no fundo dos olhos dele. Mas ele se recompôs, me olhou, abriu um sorriso e disse: “O sapato é de bom gosto minha filha, e você ficou muito bonita, uma mulher.” E continuamos com nossos afazeres.

Essa simplicidade em lidar com emoções profundas misturadas a banalidades da vida sempre me deu segurança para entender que as pessoas têm emoções e são influenciadas por elas, e ao mesmo tempo total liberdade para ser quem eu quisesse. Não havia piadinhas disfarçando ciúmes ou rancor, não havia bullying familiar. Só o momento de reconhecimento das emoções e a constatação de que a vida é de cada um, e a minha também.

Outros momentos desse tipo continuaram existindo, mas o mais relevante veio quando estava com algo em torno de dezessete anos, logo antes de começar a namorar e pouco antes da hospitalização do meu avô, que culminou com seu falecimento um ano depois. Um dia, após o jantar, meu avô me chamou e me disse em tom muito sério: “Me prometa que você vai se formar na universidade antes de se casar!”, eu prometi, afinal os estudos sempre foram prioridade na minha vida, e nunca fui de ficar sonhando com casamentos. Até aí pode parecer uma imposição, um desejo de controle, ainda que com a melhor das intenções. O mágico veio a seguir. Ele prosseguiu: “Não se case antes de se formar, e nem tenha filhos, para que você possa garantir seu poder de escolha”, aquilo tudo me soava lógico, mas tão distante que só aquiesci sem pensar, mas ele não parou: “Se você casar ou tiver filhos antes de formar e possível que não se forme, e se não se formar terá que aceitar o emprego que lhe oferecerem ou a vida que o seu marido quiser ou puder lhe dar. Os filhos se tornarão prioridade e pode até ser que você consiga manter suas escolhas, mas será mais difícil.”

Foi nesse ponto que comecei a entender o raciocínio de meu avô. Ele ainda prosseguiu: “Forme-se primeiro, e depois você terá mais chances de escolher um emprego, e montar sua vida como desejar. E mesmo que você escolha, em qualquer momento da sua vida, ser uma dona de casa, ou não ter emprego, ou parar de trabalhar para ter filhos, ou voltar depois, ou não ter filhos, enfim, o que você quiser, será uma escolha. E é importante, minha filha, que seja uma escolha sua, e que você possa fazê-la”.

Na época reforcei a promessa, achando meu avô um homem preocupado comigo e feliz com seu amor. Hoje em dia pensando nas questões de gênero minha cabeça dá voltas sobre quem era esse homem, e o que o fez falar para sua neta, com esse gap de duas gerações, uma fala tão incrível. Quando penso nessas questões sei que existem muitas vertentes e longos caminhos, mas uma coisa que me parece óbvia é a necessidade da livre escolha, e, principalmente, do respeito às escolhas feitas. Uma mulher precisa poder escolher como vai ser sua vida, e suas escolhas não devem ser recriminadas ou descriminadas, quaisquer que sejam, desde que sejam escolhas livres.

E quando penso nisso, penso que discordo de que uma mulher precisa da livre escolha. Todo ser humano precisa disso. As pessoas precisam ser quem quiserem, como quiserem e quando quiserem. Sem raiva, sem ódio, sem censura, sem ciúmes, sem rancor. Precisamos aprender a fazer escolhas e ter consciência de que as vezes nossas escolhas assustam e até machucam emocionalmente os outros. Mas que são nossas. E só a compaixão, o respeito pelas escolhas próprias e alheias, e a aceitação das diferenças é que poderão superar esses sustos. Não precisamos ser todos iguais. Como dizia seu André: “O que seria do amarelo, se todos gostassem de azul?”. Eu por exemplo, prefiro roxo e vermelho. E tenho duas cores preferidas. Sei também que já contei partes dessa história, mas existem dias que esse tipo de ideia precisa ser reforçado e celebrado. Eu tenho muito a agradecer, e compartilhar esses pedacinhos de histórias é uma forma de disseminar no canto dos passarinhos um pouco desses conceitos, um pouco da minha história.