Sonhos e aprendizado

(**Atenção: não são spoilers, mas há comentários sobre os filmes Into the Wild e Capitão Fantástico que falam de suas conclusões**)

Às vezes acho que é um reflexo da minha geração, que ao mesmo tempo tem muito acesso à informação e muitas desilusões. A vontade de largar tudo e ir viver aventuras, em se embrenhar no mato, conhecer o mundo, se conhecer, não nos larga. Mais é mais do que isso, tem uma parte grande de insatisfação e frustração, em dificuldade de viver da forma “esperada” e muitos sonhos que parecem nos isolar tanto dos demais, especialmente da geração anterior. Mas aí (re)leio Walden, e percebo que o Thoreau já sentia tudo isso, e percebo que o gap não é necessariamente geracional, mas entre pessoas, almas, espíritos, aqueles que simplesmente veem o mundo de outra forma.

Em busca desses sonhos muitas vezes nos perdemos, erramos e acertamos, e temos momentos de felicidade e momentos de desespero, tormenta e bonança, assim como em qualquer caminho de vida. A maior lição do Alexander Supertramp é que a felicidade precisa ser compartilhada, e isso nos ensina, especialmente aos mais introspectivos (pra não dizer anti-sociais) que é preciso cuidado para não se isolar demais. A maior lição do Capitão Fantástico é que precisamos ceder um pouco, ser menos estritos e exigentes na ideologia pois ainda que trilhemos caminhos próprios, estamos no mesmo mundo e o contato com a sociedade continua.

Ao mesmo tempo é importante perceber que aqueles que buscam esse auto-conhecimento não o fazem apenas por egoísmo ou insatisfação, existem conceitos ideológicos fortíssimos que os orientam, e os que discordam desses conceitos não conseguem compreender, concordar ou aceitar as decisões tomadas, e muitas vezes não estão dispostos a tentar entender. Se para quem se isola falta habilidade social e paciência, para quem conhece o “isolado” falta empatia e aceitação das diferenças. De um modo geral, diria que todos deveriam, pelo menos temporariamente, se jogar no mato, rever os conceitos, repensar a alimentação, a relação com o meio ambiente e o sistema no qual vivemos em sociedade, que nos exige tanto consumo e tantas energia, muitas vezes desperdiçados.

Eu tenho buscado simplificar minha vida nos últimos anos. Para quem lê aqui com frequência sabe dos meus processos, de perdas familiares, mudanças e busca por auto-conhecimento. A primeira fase foi de reconstrução e consequente acúmulo. Precisei mostrar pra mim (e também para a família e para a sociedade, mas essencialmente para mim) que tinha capacidade de ter. Ter. Emprego, dinheiro, casa, móveis, roupas (simples e chiques), coisas, eventos, agenda social. Cumpri! Talvez não a contento de todas as expectativas, mas a contento da minha. E mesmo enquanto construía esse caminho ia deixando portas abertas, adquirindo habilidades e condições de seguir outros, de precorrer caminhos, conhecer outras oportunidades.

Há alguns anos venho construindo um outro caminho, e não sei por quanto tempo ficarei nele. Mas um caminho que tem uma dose de desconstruído. Enquanto tive um período de acúmulos, seja de renda, bens, objetos, e mesmo de momentos, pessoas, amizades, oportunidades, agora estou no de desapego! Desde a mudança de Brasília para São Paulo fui me desfazendo de muitas coisas. E também de muitas obrigações. Por exemplo, durante 2 anos usei lingerie combinando todos os dias! Não falhou unzinho! Geralmente era sutiã e calcinha conjunto, combinado mesmo, mas se não fosse conjunto era no mínimo da mesma cor e estilo. Fiz porque achava isso o máximo? Não. Fiz pra experimentar. 99% do tempo ninguém viu, e ninguém sequer soube que eu estava combinada, mas eu sabia. Fiz por mim! Foi um momento próprio e peculiar que fez sentido num período de reconstrução da minha auto-estima, e também de aperfeiçoar a librianisse.

Agora estou num período em que reduzi drasticamente meu guarda-roupa, inclusive de underwear, e com isso estou praticando descombinar, inclusive pra trabalhar o psicológico e não ficar com mania de perfeccionismo. E sabe o que é mágico? Minha vida não é melhor nem pior com ou sem calcinhas combinadas. Tudo faz parte do que faz sentido em cada momento. Se vou usar um top de sustentação de exercício físico não faz nenhum sentido combiná-lo com a calcinha como se fosse um conjunto, porque não é. Não é prático e nem necessário! Mas se quero tenho lá um outro conjunto guardado pra um momento especial, que pode ser a dois, ou apenas aquele dia que eu quero me sentir linda, e ninguém nem vai saber!

Mas o que calcinhas têm que ver com isso? Com o mato, e uma vida mais isolada? São um exemplo. Um exemplo pequeno, só pra demonstrar meu caminho. Esse caminho de auto-conhecimento, especialmente quando aliado a questões ideológicas nos afasta das pessoas, e da sociedade tradicional. O que me diferencia drasticamente do Thoreau é isso aqui, eu não escrevo um diário, eu escrevo um blog! Ainda que sem internet em casa, usando um pouquinho de 4G no celular pra publicar algumas fotos, e respondendo e-mails e atualizando o blog 3X por semana na biblioteca pública, eu ainda estou conectada quase sempre!

Com minha profissão, enquanto professora de idiomas, consigo trabalhar de qualquer lugar com uma conexão e podendo usar o skype. Sem falar em outras opções que o mundo atual nos proporciona, ensino virtual, ensino à distância, cursos, etc. Nisso a internet mudou a vida dos “isolados” nos permitindo selecionar quais partes isolam e quais não (sem tanta seleção assim quando falamos de Facebook e outras mídias sociais, mais ainda assim, participar delas é opcional e para mim é um excelente jeito de manter a família informada de que eu tô viva e bem, e no mato!).

Os que se isolam, buscando não só o auto-conhecimento, mas a paz interior e exterior, a aventura, uma outra relação com a vida, o mundo, a sociedade, as pessoas, os animais, etc, sentem muita solidão. Essa lição está presente em todos os filmes e livros que relatam os que buscam esse caminho. Contudo, o que sinto fortemente, é que essas pessoas, e me incluo nelas, não nos sentimos na verdade parte de nada, plenamente, nem do mato. Talvez só de nós mesmos. Já existe um nível de solidão aguçado mesmo na maior metrópole, mesmo na festa mais cheia, mesmo entre familiares e amigos. Como alguém que acabou de morar 2 anos em São Paulo posso atestar.

Essa parte da solidão e da insatisfação vem justamente das questões ideológicas. Nunca consegui me sentir plenamente parte de um grupo, nunca concordei plenamente com uma religião, nunca concordei plenamente com uma linha pedagógica, com uma escola onde trabalhei, com as leis que regem nenhum país. Claro que as afinidades aumentam ou diminuem de um grupo, escola, país, pessoas, pra outros. E claro que em alguns me senti muito mais à vontade e acolhida! Mas sempre tem aquele pouquinho que questiona. E ao questionar vem uma certa solidão, um certo vazio. É o mal dos que não conseguem comprar o pacote fechado. Nenhum deles. Sempre tem aquela partezinha que a gente preferia mudar.

Para não morrer de infelicidade há que se exercitar a tolerância. Alguns pacotes até consigo comprar “fechados” mesmo sem concordar 100%, porque concordo com a maior parte, e preciso viver. Mas explico isso, porque é um sentimento constante, em qualquer parte do mundo. Aliás, viajar muito tem a ver com essa insatisfação. A necessidade de conhecer tudo e a si mesmo, buscar alternativas, aprender outros mecanismos, tudo nessa busca de compor o melhor pacote possível pra viver.

Quem não entende o que eu tô fazendo, é isso! Eu to procurando as peças de lego que melhor se encaixem na minha alma, ainda que fiquem buraquinhos, de preferência, os menores possíveis. Das lições que tirei até agora, tanto por experiência própria quanto da leitura de filmes e livros sobre outros insatisfeitos e curiosos, a principal é essa: os que se isolam precisam aprender a ceder. O isolamento e a rigidez ideológica levam a um nível de solidão e insatisfação trágicos. É preciso que sigamos nossa busca por conhecimento e felicidade medindo os passos, dois pra frente e um pra trás, mantendo assim outras pessoas próximas.

E o desafio maior é saber lidar com a incompreensão de familiares a amigos, e outras pessoas, que julgam, se acham cortadas ou isoladas, ou discordam, e com isso ficam ainda mais distantes, pois o vácuo passa a ser não somente físico, mas também emocional. E precisamos aprender e aceitar que algumas pessoas, às vezes das mais queridas, vão se distanciar, ou nós vamos nos distanciar, e que por pior que pareça isso pode ser o que há de mais saudável para ambos.

O equilíbrio vem dessa aceitação, de todas as partes. Algumas pessoas precisam ir! E não adianta perguntar pra onde? Ou porque? Ou pra fazer o que? Porque a resposta não vai satisfazer. Os que vão, o fazem porque precisam! Vão viver por aí, porque não sabem viver num lugar só! Vão viver de forma estranha, comer, andar, vestir, tudo estranho, simplesmente porque são estranhos. E acredite, estão felizes assim! E os que vão precisam aprender a ser tolerantes com todas as perguntas, incompreensões e até mesmo  algumas hostilidades. Responder com honestidade sempre e seguir, ainda que isso custe algumas relações. Os que aceitam, ainda que não compreendam, ficarão próximos, mesmo a que léguas de distância!

Com isso, deixo vocês com uma citação do Thoreau em Walden e os trailers de Into de Wild e Capitão Fantástico. E não, eu não estou indo morar numa cabana no mato e nem num ônibus abandoado (ainda, hahahaha). Eu estou numa fase, que talvez seja de transição, ou talvez seja uma conciliação entre mundos, de cidade pequena, internet menos frequente, mato intenso umas 2 ou 3 X na semana. Trabalho à distância. Agradeço profundamente o amor e a companhia daqueles que aceitam me acompanhar mesmo de longe! E agradeço profundamente porque achei um outro maluco que concorda tanto que resolveu acompanhar de perto! ❤

Ps: achei essa entrevista sobre o livro Andar, Uma Filosofia, do filósofo francês Frederic Gros, e pretendo ler o livro em breve. Destaco aqui dois trechos da entrevista e deixo o link pra vocês, além da sugestão de leitura. Quem sabe não inspira alguns a caminharem mais, a desobedecerem mais, ou não te faz compreender melhor as andanças daquele amigo ou membro da família?!

“Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud gostavam de caminhar. E eles o faziam de formas diferentes. As caminhadas do jovem Rimbaud, dispersas e desorganizadas, estavam cheias de raiva, enquanto Nietzsche procurava nelas o tom e a energia da marcha. Kant era metódico e sistemático: o fazia todo dia, à mesma hora, na mesma rota. Todos acabaram mudando seus escritórios de trabalho para o campo, onde as idéias fluíam mais livremente e em plena natureza. Analisando de perto, estas caminhadas guardam alguns paralelos com seus pensamentos, diz o filósofo francês (e grande caminhador ) Frederic Gros no livro ‘Andar. Uma filosofia’.” (…) “Esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação.”

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/caminhar-um-meio-de-desobedecer/

thoreau

Sobre o Natal

Sentada na biblioteca magnífica de La Seu, vendo o sol entrar pela janela cilíndrica da ruína de uma igreja que esse edifício foi antes de ser a Biblioteca Sant Agustí, penso na distância. Muitos temos falado aqui sobre as viagens, a trilhas, as dicas, e nisso o Natal passou, o Ano Novo é amanhã e eu fico aqui, com minhas reminiscências, sem tempo de processá-las, sendo que elas nunca me abandonam. Nem quando estou enrolada em cobertas no sofá da sala, analisando a luminosidade que invade esse local ainda desconhecido que chamo de casa, e nem nas trilhas, enquanto as coxas doem, a água invade o pé, vindo da neve que entrou e vai derretendo com os passos e o fôlego falta nas lentas subidas em altitude.

Passei meu primeiro Natal longe do Brasil. Confesso que passar um natal no frio, vendo a neve e comendo cookies com leite foi realizar um dos sonhos de infância, e me sentir num filme ou seriado americano, daqueles que a gente tanto vê, imita com neve de isopor e algodão, e acaba passando a festa suando a maquiagem no vestido de alcinha na sala da vó ou da tia. Essa parte foi muito bonita. Mas nem de longe me tocou como eu esperava. O que reviveu dentro de mim foram sentimentos profundos, nem todos muito bonitos, e pensei muito se iria expô-los aqui ou não, mas decidi que preciso.

Natal pra mim sempre foi a festa da casa da Vó! Nunca me importou que faltasse a neve, porque tinha piscina! Nunca me importou que faltassem as frutas vermelhas do hemisfério norte, porque tínhamos nectarinas!  E mais importante de tudo, tinha a parte de pintar pinhas e cascas de árvore em spray dourado com minha vó, e arrumar uma mesa antropofagista e cheia de Tropicália, e de artesanatos manuais, que barateavam a festa pro bolso dos meus avós e ocupavam as crianças, nos envolvendo numa produção local de dias. Os embrulhos e laços eram por nossa conta. O dia de montar a árvore era um evento. O dia do presépio outro.

Esperávamos o dia que os primos podiam dormir em casa e fazer tudo junto. Nunca vou esquecer do céu incrível pintado em papel pardo, feito pela tia e artista plástica Monica, cheio de cores lindas, e iluminado pela instalação elétrica do vô André que garantia a luz da estrela-guia aos Reis magos, afinal, estávamos na casa dos Reis. Eu costumava ir para a sala a noite no mês de dezembro só pra admirar tudo no escuro antes de dormir. Às vezes minha mãe me achava lá. Me oferecia um pouco de sorvete e ficávamos abraçadas em frente às luzes de natal, no calor dos tópicos e do nosso amor.

Esse tempo acabou bem antes da neve chegar.

Com as internações, doenças e mortes, esse natal tropical, familiar, coletivo, onde cada um levava um prato e tudo era muito unido, foi se desfalecendo. Algumas pessoas na família foram assumindo as responsabilidades, e as coisas foram ganhando outras caras, outras cores. Alguns natais foram muito bonitos, mas se perdeu muito daquela coletividade, e dessa coisa simples, até tosca, caseira, remendada, feita com as mãos, que na verdade eu tanto amava!

Os natais ficaram mais profissionais. Os presentes já vinham embrulhados. Eram bons, de loja. Não eram os repasses loucos da minha vó, que ganhava presentes ao longo do ano e guardava pra dar pra outros depois. Nem as coisas que ela mesma fazia, como bolsas e casacos de tricô, gorros e luvas, ou os brinquedos caseiros feitos da oficina do vovô. Ou potes de doce. Eram coisas “de verdade”.

A decoração também vinha pronta. Comprada na loja, quiçá mais barata que artesanato caseiro. Não era mais a guirlanda feita à 6 mãos, por 3 gerações de mulheres, que entrelaçavam pedaços de cipreste do jardim, com fitas vermelhas e pinhas pintadas de dourado. Com bolinhas de isopor fazendo às vezes de neve. Nem as árvores malucas, criadas pelo nosso inventor de carteirinha, como uma que era um enorme cilindro feito de tela de galinheiro, recheada de galhos de cipreste podados da cerca de casa, com uma estrutura interna para a iluminação, e mil tipos de bolinhas (vidro, isopor, metal, plástico) que se acumularam ao longo de décadas numa caixa cheia de bolinhas de isopor. Só de bater o olho dava pra ver umas de vidro pintado em rosa e dourado e com listras com cara dos anos 60 e 70, e umas que mais pareciam bolhas de sabão azuis de plástico translúcido, recheadas de “neve” bolinhas de isopor e conectadas pro laços em tecido xadrez, com aquela cara de anos 2000.

A comida não era mais “cada um trás um prato” e sim uma bela encomenda profissional. E a bagunça da cozinha, as receitas de família, os custos e as contas que seu André fazia pra ver se ia dar, a porca do Cícero, que tanto nos assustava, mas que chegava todo ano. Isso tudo ficou pra trás. Ficou mais fácil. Mais adaptado pra vida moderna, onde as crianças cresceram e agora todos trabalhavam. Tinham dinheiro e não tinham tempo.

E aí piorou um tantão!

Respiro fundo pra não chorar em público enquanto escrevo, e ao olhar pro lado vejo algumas meninas de não mais de 12 anos que chegaram com seus casacos de gominho (tipo boneco da Michelin) cor-de-rosa, pra usar a biblioteca, todas tão acostumadas com essa maravilha pública daqui, fazendo trabalhos de férias escolares em grupo!

Mas vamos lá, que ainda falta um tanto de memória e outro de emoção.

Sem a vó, sem o vô, e depois sem minha mãe, fiquei sem meu natal de vez! Claro, minha família é enorme e nunca faltaram convites dos tios e tias para passar com eles. Mas todos pararam de se reunir da mesma forma. E eu me senti um apêndice. Foi ruim e doeu mais do que imaginam! Não foi culpa de ninguém e eu tinha 10 opções de casas pra ir, nenhuma era minha! Não com aquele sentimento. Eu tava lá e as pessoas me queriam lá, mas tinham o natal comigo e os arranjos próprios de cada núcleo familiar. E a preocupação de com quem eu ia ficar. Isso foi em minando por dentro.

E eu senti necessidade de me afastar. De criar meu natal. Em 2014, antes de ir pra São Paulo, convidei meus irmão pra fazermos uma ceia nossa. Meios irmão que somos, não passamos a infância juntos e nunca tínhamos passado o natal juntos, ou pelo menos não como programa principal, só em passadas rápidas entre outras casas. Meus irmãos estavam sem filhos no dia, cada qual tinha ido ficar com as famílias maiores e mais cheias de primos e de sentimento natalino. Fizemos uma ceia vegetariana em minha homenagem. Comemos horrores. Minha Monnita, amiga do coração, levou um chocotone de morrer de bom.

Não doeu tanto porque foi novo, e com isso menos perceptível a falta dos que não estavam ali. Mas ainda assim, não tinha o mesmo gosto de natal.

Em 2015 passei o Natal em São Paulo, com a família do meu então ainda só namorado, André. Foi um Natal em família, simples e bonito, com direito às tradições todas. Não tinha crianças. Os mais jovens estavam todos no celular o tempo quase todo. Aquele sentimento de comunhão da infância também me faltou. Me senti de novo um apêndice. Uma “estranha no ninho”. E vejam, não foi por falta de recepção calorosa. Mas existem tradições, que toda família tem, e que quem vem de fora, não pega, não entende, não faz parte da piada interna.

E aí temos 2016. Outra terra, Mundo Velho, neve e uma grande dose de solidão. Só eu e meu marido. O primeiro natal dele longe da família, o que também pesou um pouco pra ele. Não sabíamos bem o que fazer. Sendo ambos vegetarianos nem fazia sentido aquelas comidas tradicionais, além disso, só duas pessoas, ia sobrar pra vida inteira, mesmo que optássemos por algo sem carnes. Comemos muito bem. E uma comida especial, mas algo que fazemos com alguma frequência. Não tinha exatamente cara de ceia de natal.

Nada no dia indicava natal. Não tinha presente, árvore, excitação, crianças, ninguém esperando o Papai Noel, nenhuma visita que chegaria depois. Nada. E aí saímos de casa.

 E a cidade estava em festa! E as luzes de natal estavam por toda parte! E a catedral estava aberta. E tinha Minairons passeando por aí! E uma enorme fila cheia de famílias com crianças, que passavam pela praça dos Minairons, que catavam em volta da fogueira sobre o espiríto do natal, que tinha mais a ver com o inverno e as pinhas do que com o papai noel vermelho da coca-cola. E uma mesa gigante com chocolate-quente e pão doce, simples e gostoso, sendo distribuído. De graça. Presente da associação comercial e da prefeitura para a população. E todo ali na rua. Com ou sem família. Cheios de cachorros. Com luzes, com música, com comida. Depois entramos na catedral, e mesmo sem ser católicos aproveitamos para admirar a arquitetura e os ritos, aqui tão medievais, envolvendo inclusive espadas durante a Missa do Galo.

Fui pra casa aquecida, na alma. Apesar do frio nas bochechas. Sentamos e conversamos. Tomei leite com cookies. Fiquei no sofá. Bateu uma certa solidão? Sim. Mas pelo menos a falta dos que ali não estavam era clara e generalizada e não apenas aquela ausência profundamente ignorada dos anos anteriores. Não apenas a ausência da minha família, daqueles que já não estão entre nós, mas a ausência daquele natal, aquele dos artesanatos e das comidas e dos presentes inventados.

Era só a ausência dos vivos mesmo. E essa com whatsapp a gente remedeia. Fazem falta. Claro! Mas pra mim doeu menos. Pode ser que seja egoísmo? Talvez. Mas talvez eu precisa de natais assim pra conseguir voltar e sentir que há alegria e comunhão. Não é só a falta da família. É também a falta do sentimento de comunhão do natal. Não foi exatamente um natal feliz, mas foi um natal bonito. E eu vi comunhão de novo. Entre estranhos.

Não teve presente, mas vivemos o presente, e não o celular e a distância! Não teve ceia, mas teve couve-flor com queijo gouda, chocolate-quente e pão doce, e cookies e leite! Não teve fartura, mas teve coletividade! Dormimos cedo, nos escondendo do frio em baixo das cobertas. E meu coração aqueceu!

Feliz Natal e Bom Ano Novo! Que venha 2017, com suas descobertas.