X Jocs Florals

Na semana passada, aconteceu aqui em La Seu D’Urgell a 10ª edição dos Jogos Florais (ou X Jocs Florals). Os Jogos Florais acompanham o dia de Sant Jordi (dia de São Jorge), que foi comemorado no domingo mesmo, e na segunda-feira seguinte, realizaram a cerimônia de premiação dos jogos. Esse evento é um dos mais famosos da cidade, e ainda que a cidade seja pequena, atraiu muita gente. Os Jogos Florais são uma competição literária, que acontece por várias partes da Europa, em especial a Espanha e a França. Aconteciam em Occitane, quando esse era falado, e tanto na França quanto na Espanha, acontecem em catalão nas regiões onde esse é o idioma cotidiano.

Além de enaltecer a literatura local, os Jogos têm o intuito de estimular e preservar a língua catalã, tornando-se, por isso, bastante importante para seus falantes. Em La Seu, esse foi o décimo ano dos Jogos e a cidade estava ainda mais animada. A Escola de  Formação de Adultos e Idiomas Oficial de La Seu – CFA La Seu, promove os Jogos e é lá que estudamos catalão.

Em março, quando eu e o André estávamos estudando essa língua há apenas 3 meses, nossa professora, Marta, nos convidou para participar, pois nessa décima edição incluíram uma categoria para iniciantes. OS Jocs Florals contam com 5 categorias: Englantina (relatos de até 3 páginas), Flor Natural (Poesia), Grandalla (Foto seguida de um título/comentário), Rosa (iniciantes) e Viola (micro contos, contos de cerca de 10 linhas). As categorias Grandalla e Rosa foram novidade.

No início estávamos bastante reticentes com a ideia de participar, pois mesmo considerando que a categoria é para iniciantes, estávamos estudando há apenas 3 meses, e a pouco mais que isso na cidade. Alguns dos nosso colegas já estão aqui há anos, ainda que estejam no nível inicial da língua catalã, uma vez que também é possível se comunicar em castelhano. Mas nossa professora insistiu, e acabamos enviando textos.

Cerca de um mês se passou, e então veio o dia da premiação. O espaço, uma antiga igreja, hoje um centro cívico e auditório, estava muito bonito, e chegamos cedo. Encontramos alguns colegas, alguns amigos da cidade e todo o evento começou. A diretora da escola e outros professores apresentaram, o prefeito teve sua fala, e uma convidada, doutora em língua catalã também. Comentaram as edições anteriores, o significado dos Jogos para a cidade e para o idioma. Trechos de poesia e literatura catalã famosos foram lidos, enfim, tudo conforme manda o figurino de um evento desse tipo.

Por fim, começaram a chamar as premiações, e faziam da seguinte forma, apresentavam um pequeno trecho do texto, e depois falavam o título e nome do autor, em seguida convidando-o para o palco e premiando-o. Cada categoria premiou 3 textos, menos a Englantina, que contemplou 4 ganhadores. OS prêmios de acesso e o primeiro prêmio. Aplaudíamos a cada nome revelado e estávamos bastante tranquilos.

Até a categoria Rosa começar. Revelaram o último prêmio acesso (equivalente ao 3º lugar), aplaudimos uma colega da outra classe. E aí, eis que reconheci na tela, desde a primeira palavra, o texto do André. Antes mesmo do nome ser revelado, eu já estava aplaudindo. Segundo prêmio acesso (2º lugar) na categoria Rosa. Fiquei emocionada e orgulhosa. Me imaginei da platéia tirando fotos dele! E antes mesmo que eu pudesse pensar nessas tais fotos ou em alcançar o celular, mudaram a tela, e li as primeiras frases do meu texto lá. Assim, na frente de todo mundo.

Pode parecer bem besta, pra quem tem um blog, ter vergonha de ver seu texto à mostra daquele jeito, mas confesso que mesmo depois de 3 anos de blog, cada publicar que eu clico vem com um frio na barriga! E ver aquela exposição pessoalmente foi um senhor desafio! Daqui eu sei que algumas pessoas me leem, mas eu não tô vendo vocês fazendo isso!

Fui receber meu prêmio, 1º lugar da categoria Rosa. Tiramos as devidas fotos oficiais. E voltei a me sentar com o coração disparado! Assistimos às demais premiações e ao final , chamaram todos os que inscreveram textos, em todas as categorias, para receber um pequeno vaso de flor (afinal, Jocs Florals, né) e tirar uma foto coletiva. Nesse ponto tive mais uma surpresa, pois logo na primeira categoria, Englantina (de relatos mais longos), me chamaram como participante. Eita! Descobri que meu texto concorreu também na outra categoria (a séria! hahahaha). De novo um disparada de batimentos, mas logo o palco encheu de gente, e eu fiquei “escondida” e mais tranquila, na multidão. Via o rosto do André lá do outro lado do palco e só pensava: “em que a gente se meteu?!”

Para encerar ouvimos a apresentação do coral local, do qual nossa professora faz parte, e foi muito bonito, e compartilhamos uns petiscos com os presentes. Voltamos pra casa incrédulos, e fomos revirar nossos prêmios, muito bons. Alguns livros, livreto do evento com os textos, o prêmio do André: duas entradas para um show de comédia, e o meu: um jantar para dois no restaurante do hotel chique local.

Ainda estamos processando. Mas a melhor parte foi ver nossa professora feliz. Me identifiquei. Agora quero poder compartilhar esse momento com meus alunos e ex(eternos)alunos. Se arrisquem! Mesmo em outro idioma! Faz um bem danado! A gente cresce, evolui, aprende! E a questão não é ganhar, mas o tempo que a gente dedicou, traduzindo, procurando palavras, corrigindo com a professora, percebendo que fizemos traduções literais e surreais de expressões em português, buscando entender como poderíamos fazer essas mesmas manobras no outro idioma.

Além da experiência de se sentir parte da comunidade local, conhecer uma tradição da cidade e fazer parte dela. Viver fora é também abraçar essas coisas, por menores ou maiores que sejam. E descobrir nos detalhes, nossas paixões.

Vou copiar os textos em catalão mesmo aqui, usem o tradutor ou mandem mensagens em caso de dúvidas!

Ambos são ficções. O do André ao estilo dele, com humor, sarcasmo e ironia. O meu, bem, como reminiscências “da menina”, histórias de Alice, de Clarice, histórias de mulher, de detalhes da vida cotidiana, de diário, de blog!

 

La cua i el drac 

André Pereira Paduan

Beowulf esperava el seu torn per ser atès, tiquet de tanda en mà. Els números avançaven, un per un, en una lentitud més aterridora que quasevol dels monstres amb què mai s’havia enfrontat. El futur en el qual de cop i volta havia despertat era molt diferent del seu temps primerenc, a la mateixa terra, mil·lennis abans. Tot eren regles, ordres i papers, molts papers. Va haver de canviar el seu mantell de pell per un abric sintètic, degut a la pressió dels defensors dels drets animals. Va haver de deixar la seva espasa i el seu escut perquè no tenia una llicència d’ús. I va haver de fer-se la documentacció perquè presentar-se com el rei de Gautas ja no era suficient o adequat. Trobava a faltar enfrontar-se a dracs i beure cervesa amb els seus soldats. Però, sobretot, sobretot, trobava a faltar no haver de fer cua.

 

El blog de la dona de ells molt bons ulls

Juliana de Almeida Reis Marra

Es van casar fa molt poc temps. El festeig havia estat molt curt. Es van conèixer en un viatge. Aviat van estar junts. S’estimaven molt. Ell era molt tranquil, no bevia, no fumava, no sortia. A l’inici, tots dos eren feliços amb poc, una pel·lícula, crispetes de blat de moro, un gos en un coixí, una xocolata compartida. Tots dos passaven molt de temps a l’ordinador. Treballaven amb l’internet. Llargues hores junts, però separats. Només el so ràpid de les tecles, d’ambdós costats. Feien passejades, viatges curts, campaments. Plaers petits i barats de la vida. Un gelat. Un posta del sol. Parlaven molt, i els temes de conversa fluien molt bé, i tot semblava tan correcte i tan simple, que no semblava real.

Un dia, a la recerca de noves lectures a Internet, ell es va trobar amb un blog fantàstic! Era el diari d’una dona aventurera. La forma descrivia el seu dia a dia el va fer somiar! A poc a poc la dona es va mostrar molt forta, independent, valenta, audaç, interessant, plena d’opinions polítiques, històries, viatges. Que increïble seria veure la seva vida! Semblava tan simple, però tan impressionant! El meravellós que seria viure la vida d’aquesta dona!

Ell va començar a somiar amb les aventures increïbles del blog i es va anar distanciant de la seva dona. Va començar a buscar a la seva pròpria vida aquestes petits coses emocionant, tot era tan bonic, però simple. On eren aquestes increïbles emocions que llegia al blog?

Un dia, sense poder-se aguantar més, va dir a la seva dona que necessitava parlar. No li havia dit res encara, però estava inquiet i necessitava saber l’autor misteriós, que amb simples paraules havia guanyat el seu cor. Ell mai l’havia vist, però l’admirava molt. Encara estimava la seva dona, però les llargues hores a l’ordinador no podien competir amb les meravelles que es descrivien al blog.

Ell va advertir-la que volia tenir una conversa seriosa, ella li va demanar uns minuts per acabar un text, feina que la va ocupar durant hores. Es va posar dreta darrere d’ella, i va llegir de dalt a baix el que estava escrivint.

En acabar, una mica espantat, ella li va preguntar a què es referia, de què volia parlar. Només li va prendre la mà i se’n van anar a menjar un gelat. Per el camí li va dir el molt que l’estimava i que mai havia conegut a ningú que veiés la vida amb tan bons ulls!

 

Balzac

**Spoiler alert**

Geralmente faço referências difusas em meus reflexos, mas hoje receio citar a frase final de um livro, então, embora não seja novidade e nem capítulo da última série do momento, aviso, para aqueles que preferirem não ler o texto sem ter lido o livro.

Foi no ônibus. Embora seja final de setembro, em São Paulo ainda faz frio. Mas hoje fazia sol, apesar do vento cortante. Quem me lê com frequência sabe como aprendi a amar os poucos e raros dias frios porém ensolarados de SP. São meus novos dias preferidos. E acabo lendo muito no ônibus, melhor jeito que encontrei de lidar com as horas de trânsito dessa cidade. Minha combinação de fone de ouvido anti-ruído + músicas preferidas + livro me transporta para um mundo paralelo e me tira do caos e do stress dessa vida excessivamente urbana.

A trilha hoje era Travis. Estava lendo em português, e para não me distrair sempre inverto o idioma da música com o da leitura, ou ouço instrumentais enquanto leio. O cheiro que me invadia era o dos meus próprios sapatos, botas de chuva da Melissa, pois apesar da tarde ensolarada o dia amanheceu fechado. O sol na nuca, refletido do livro, a música e o cheiro de plástico foram meus companheiros das últimas páginas dessa leitura: A Mulher de Trinta Anos.

Uma gestação. Nove meses. O livro foi adquirido em dezembro de 2015, quando fui a Brasília no fim do ano, para as logo antes das festas. Agora em vinte e poucos de setembro, com os nove meses completos, eis que minha saga chegou ao fim, terminei a leitura. Não pense que demorei tudo isso para ler. Li em cerca de 5 ou 7 dias. O total que consegui em 9 meses dedicar para essa leitura tão pessoal. A vida não é mais a dos meus 13 anos, quando lia 30 livros em 9 meses por gosto. Aos quase 30, devo tempo à vida, enquanto mais um ano se passa.

Mais alguns dias e serei balzaquiana. Já que assim a vida é, e que já compartilhamos tantos verões, decidi lê-lo. O livro é um belo retrato de sua época, ilustrado por alguém muito à frente de seu tempo. Pensando no que era o papel da mulher no século XIX, ler a palavras de um homem que nos admirava e que escreveu uma personagem forte e sofrida, mas com empatia pelo seu sofrimento, é, na minha opinião, algo digno de nota.

De certa maneira me lembrou Chico Buarque, com sua capacidade incrível de ter eu líricos tão distintos e que expressam sentimentos coletivos tão bem. De certa maneira me lembrou Clarice Lispector, com suas personagens introspectivas, que vivem mil infernos enquanto compram ovos para a família. Pensando assim, a mulher do século XIX e a do XX mudaram a roupa e a roupagem, mas nem sempre o sentimento. Acho que a do século XXI está começando a mudar. Sou filha do século passado, da transição entre séculos, mas acho que as filhas desse século já estão mudando mais ainda.

Parei a 3 páginas do fim. Olhei a passagem, tive meu cheiro de Melissa brevemente suplantado pelo fedor do Rio Pinheiros enquanto o ônibus cruzava a marginal. O sol baixando. Uma pausa dramática? A vontade de prolongar os últimos momentos? Não. Apenas muitas reflexões. Eu sou daquelas que demora para entrar nos livros às vezes. Alguns me ganham na primeira página, outros só no terço final. Esse são os que gasto 4 meses para ler o primeiro capítulo, 1 mês para ler os capítulos todos até o meio e 3 dias para terminar. Balzac foi assim. Um pouco pior.

A literatura é definitivamente uma conversa. Nunca um livro é igual para duas pessoas diferentes, ou a mesma pessoa em duas épocas da vida, porque somo pessoas diferentes. E eu quis conversar com Balzac nessa virada para meus trinta anos, porque queria conversar com Balzac nos mesmos termos. Já fui Julie, já fui Juju. Talvez seja sra. d’Aiglemont, ou senhora Marra algum dia. Hoje conversamos de Jurema para Juliette. De Jurema para Hélene. De Jurema para Moina.

Em outro dia, um dia cinza, num outro ônibus da mesma linha, cheguei a sublinhar em caneta laranja as passagens mais significativas sobre a Juliette. Aquelas que estou segura são as mais conhecidas. Aquelas nas quais Balzac descreve e define a mulher de trinta anos. São passagens bonitas. Passagens que mostram uma Juliette com a qual a Jurema certamente conversa. Hoje, posso completar meus trinta verões segura de que compreendo Balzac. Certamente a mulher de trinta anos que sou partilha da força e da superação da inocência tal qual a balzaquiana:

“{…} porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abarcar todo o seu curso, tanto passado como futuro. As mulheres conhecem então todo o preço do amor, do qual desfrutam com o temor de perdê-lo: então sua alma ainda tem a beleza da juventude que as abandona, e sua paixão vai se fortalecendo sempre com um futuro que as apavora”.

Mais como a literatura é uma conversa única e pessoal, a parte que mais conversamos sobre, Balzac e eu, não foi sobre a mulher de trinta anos. Nisso concordamos, dado as diferenças de contexto histórico e sócio-cultural, e seguimos em frente. Paramos para filosofar na frase final. E aqui entra o grande spoiler, meus caros.

“- Perdi minha mãe!”

Foi aqui, na última frase do livro, que ele foi inteiramente resinificado, foi aqui, na última página, que nossa longa conversa começou. Foi aqui, onde a vida de Julie acabou, que a Jurema se viu. Não na Moina. A Moina é ainda a jovem, a mulher, talvez, de vinte anos. Eu provavelmente já fui um pouco Moina, e juntas perdemos nossas mães. Inclusive porque quando a perdi não era ainda a Jurema de trinta anos. A Jurema nasceu exatamente do luto. A Jurema conversa com Balzac depois que o livro acaba.

Claro que os trechos como “Suas dores secretas pairam sempre sobre sua alegria artificial como uma nuvem leve que esconde imperfeitamente o sol”, já estavam grifados em caneta laranja antes do fim, bem como “Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo da presença eloquente?”. Jurema e Balzac já estavam conversando sobre a tristeza e a felicidade bem antes do fim. E embora a Jurema tenha tido lá suas dores de amores, elas foram pequenas perto das dores da perda, da morte, da ausência e da saudade, então esse diálogo, desde o começo, tinha um quê de unilateral, só para ao final se descobrir compreendido.

Baixando o livro de novo e contemplando o já quase pôr-do-sol, pensei nas minhas mulheres. Eu sou filha de uma mulher de trinta anos. Nasci nesse período. Venho de alguém que já tinha suas dores e decepções. Crescemos juntas. Na verdade, passamos pela perda da mãe juntas três vezes, pois venho de uma família matriarcal, onde mães e filhas muito compartilham. A primeira morte que vivi foi a da minha bisa, Vó Santinha, aos doze, e vi os efeitos aterradores que se abateram sobre minha vó, senhora soberana de nossa casa e família. Foi a primeira vez que acompanhei um enterro, e que vivi um luto dentro de casa. Minha festa de 13 foi cancela, e virou festa surpresa na casa de amigas.

Aos 23 vivi o luto da minha avó, e ouvi da boca da minha mãe a frase final de Balzac. Foi um período intenso. Desde a morte do meu avô, vivemos as três em casa, já três adultas, a de 20, a de 50, e a de 80. Foi uma convivência muito intensa. Com todos os trinta anos que separavam cada uma de nós, uma da outra. Se eu sou filha de uma mulher de trinta anos, minha mãe também foi. E essa diferença nos fez amigas ao longo das gerações, embora impossibilitadas de entender as dores de cada uma.

Tenho desse período da nossa vida a três memórias muito doces e memórias muito amargas. As brigas foram privadas e doloridas. As acusações cruéis. As dores reveladas, foram aquelas que elas nunca tinham revelado para ninguém. E apesar dos nossos duplos trinta anos de diferença conversamos sobre homens, sobre sexo, sobre amor, sobre casamento, sobre aborto, sobre liberdade, como nunca antes. Sem filtros, sem amarras. Às vezes com muito ódio, às vezes com muita dor. Naquele período eu conheci mulheres. Eu vi a face que não era da mãe e muito menos da avó. Eu conheci dores para as quais ainda não estava preparada.

Olhei para cima para os olhos beberem as lágrimas que os olhos marejados ameaçavam derramar em pleno ônibus e pedi perdão àquelas mulheres fortes que me criaram. Eu, com a inocência e a intolerância dos meus vinte anos não soube respeitar, admirar e compreender suficientemente suas dores. Fui Moina. Fui até Helene. Espero que elas saibam. Sei que no fundo sabem, pois eu é que nunca tinha sido uma mulher de trinta, e ainda não sou de 50 ou 80, elas já tinham sido mulheres de 20 anos. E nos momentos mãe e avó, me amaram e me perdoaram. Mas guardo na alma os momentos mulher, em que apenas nos odiamos, ameaçamos, machucamos.

Hoje, se tenho algo com que conversar com Balzac é sobre essa dor. A dor da incompreensão entre as mulheres de distintas gerações. Queria tê-las hoje vivas para dizer que começo a compreender. Mas tudo que posso dizer para Balzac hoje, é que perdi minha mãe. Faço o compromisso de reler aos 50, para conversarmos de novo, sobre Bia, sobre Zilah, sobre a senhora d’Aiglemont. E quiçá aos 80, quando nem Balzac mais me compreenderá. A única certeza é que a perda me ensinou muito. Principalmente sobre essa incompreensão.

Não sei se conseguirei conversar com o devido respeito, admiração e dedicação com as mulheres de outras gerações de seus 30 a mais, mas certamente conseguirei conversar com as de 30 a menos, alunas, sobrinhas, amigas, e perceber que se elas não me compreendem, pelo menos não precisam me perder por isso. Assim, espero, Balzac. Ou que no momento inevitável da perda, tenham pelo menos seus 30 anos, e que comecem a compreender.

Dos elogios feitos à mulher de 30 anos nada tenho a agradecer, nem reconhecer. No máximo concordar. Coloco meu pé nos 30 com a certeza de me sentir plena e feliz, embora sinta a exata sensação da felicidade sendo o sol, e das minhas dores sendo as leves nuvens, que perpassam os olhos em breves momentos do dia, às vezes chovendo nas noites, calada. Não sofro mais do que devo e me considero uma mulher livre, independente e muito feliz. Mas uma mulher não chega aos 30 anos sem conhecer pelo menos uma dor, nisso, concordamos, Balzac e eu. O peso que cada uma decide dar a essas dores, contudo, varia. A Jurema sugere que a mulher de 30, embora conhecedora das dores, seja leve, e livre.

Bem vindos, trinta! ❤

Spiritual

Faz tempo que não entro aqui. Faz tempo que não me escuto. Ocupada? Sim. Mas é mais que isso, é uma agitação e uma ansiedade que me fazem evitar o contato íntimo com a minha alma. Semana passada ouvi de uma amiga e professora, uma frase que ouvia da minha mãe com alguma frequência: “Ju, você precisa prestar mais atenção na respiração!”. É incrível como quando me abalo o que primeiro sofre é a respiração. Fico desequilibrada, desconectada, física, emocional e mentalmente.

Nas últimas semanas o tempo passou, e eu não. Ou eu passei, e o tempo não. Parece que eu e o tempo estamos desencaixados, descompassados. Ele não sobra, mas também não falta, e ainda assim não consigo cumpri-lo, cumprimenta-lo, olha-lo nos olhos. Estamos em vibrações diferentes. O desejo de dormir, de apagar, de vê-lo passar sem minha participação, aumenta.

Mas quando isso acontece nos distanciamos cada vez mais, fico fora do eixo, fora de mim, fora do tempo. Hoje isso chegou num pico. Percebo meu desequilíbrio. Tive vários pesadelos. Chorei algumas vezes, por cada besteira, ao longo do dia. Agora mesmo sinto meus olhos marejarem e as letras na tela embaçam por alguns segundos. Bebo mais um gole do chá, canela e gengibre, e volto a enxergar.

E o que há de errado, você me pergunta? E eu te digo, nada! E eu me pergunto, o que há de errado, Jurema? E me respondo: o mundo! Decepções, ansiedades, prazos, a loucura das pessoas. Existe algo de muito libertador em trabalhar de casa, estudar, fazer seu horário. E existe algo de muito tedioso, brochante e carregado em expectativas frustradas e ansiedades em escrever e reescrever o mesmo texto por dois anos. Em marcar e ter aulas particulares desmarcadas, em planejar breves viagens de fim de semana e ver a chuva cair, e a mochila voltar pro armário intacta, em fazer planos e eles serem esmagados pelo dia-a-dia inescrupuloso da vida na cidade grande, a cidade que não dorme, onde ninguém tem tempo, ninguém se vê, e um simples café é remarcado 3 ou 4 vezes antes de dar certo, se é que vai dar.

O celular vibra, incessantemente, 24h por dia, 7 dias na semana. Quantas mensagens e ligações são de fato, mensagens para você? Amigos, conversas, familiares? 2 ou 3 talvez, em uma semana boa. Trabalho, negócios, prazos, congressos, eventos, discussões nulas, negociações, preços, consultas, essas ocupam as outras horas todas. Mais uma vibrada, e eis que às vezes são familiares ou amigos de verdade. Pontos de luz. Problemas que se destravam, amizades que se renovam.

Alguns dias são tranquilos, e estar em casa é estar em paz. Alguns dias são angustiantes. Alguns dias são tristes e chuvosos. Alguns dias são de picnic no parque e caminhadas que renovam o amor pela vida. O chá, sempre fiel, ajuda. E a música, essa cura, resolve, acalma a respiração, me traz pro eixo de novo. Se escrevo isso agora é só porque fiz uso do meu remédio preferido, acabei de ouvir Beyonde the Missouri Sky inteirinho de novo. Mais uma vez. Só assim pra conseguir ao menos desabafar. Já compartilhei esse remédio dos anjos mil vezes com vocês. Deixo aqui de novo, novamente, sempre, e pra sempre, a música que me acalma, me traz pro eixo, de um tanto que a tenho na pele!

Que amanhã possa ser um dia de mais eu e menos mundo!

Ando tão à flor da pele

O sol bate em meu rosto. Depois de hesitar algumas vezes, verifico que o ônibus está quase vazio. Uma moça no banco do outro lado do corredor, comendo uma maçã, dois senhores na parte da frente. Um homem de terno uns três bancos à frente. Ninguém atrás. Ninguém pra me observar. Pego finalmente o celular e começo a digitar o texto. Esse é daqueles que vem me consumindo há dias, talvez semanas. Esse é daqueles que preciso cuspir. Vomitar palavras pelas pontas dos dedos. Pauso pra tirar o cabelo do rosto, observo o MIS ao lado. O sol bate gostoso, ainda é inverno e dias de sol são tão raros em SP! Essa é a combinação que me exige expor o texto agora, o sol, que alimenta a vontade de sair por aí, e a música, sempre no fone, onde o Zeca Baleiro afirma sua vontade de chorar e nesse ponto eu percebo o quanto estou à flor da pele! Não vejo novela, mas qualquer demonstração de emoção tem me feito chorar! Seja uma reunião de orientação, uma conversa com o marido (ainda é muito curioso chamá-lo assim), um e-mail, um sonho de padoca, adicionado da culpa por o ter ingerido, ou o brigadeiro negado! Tudo me faz chorar, ou pelo menos ter vontade de chorar. Sim, estou à flor da pele.
O trânsito empacou! Checo o relógio e me pergunto se chegarei na USP a tempo de tudo o que preciso. Não aguento mais precisar tanto de tantas coisas. Como diz o Zeca na minha orelha, não preciso de muito dinheiro, Graças a Deus! Mas cumpro meus compromissos, e agora são 4 meses pela frente de compromisso! Amanhã defendo a quali! Estou mais calma do que esperava. Só torço para não chorar! Essa flor da pele toda me complica muito às vezes!
As passagens estão compradas! Vou ficar quase um mês longe do meu amor, o que aperta o coração com antecedência! Mas vou ficar sabe-se lá quanto tempo longe de todo o resto. E isso aperta mais a boca do estômago do que o coração. Ansiedade! Vontade de ir logo! E ao mesmo tempo aquela expectativa adiantada.
Não é a primeira vez que vou! Longe disso! Sei bem, desde os 11 anos de idade, depois reforçado aos 15, que uma vez que essa mosquinha da viagem pica a gente, já era. É uma doença pra vida. Chega uma mensagem. Paro para responder. É justamente ele, pedindo informações sobre documentos que estamos organizando para as burocracias. That’s it! Agora é diferente. Por vários motivos. Vou sem saber de muita coisa. Quase sem certezas! Mas não vou só! Como a vida da voltas. Já fui várias vezes e todas com a estadia, a volta, todos os detalhes nas mãos. Mas geralmente sozinha. Às vezes até tinha um grupo, mas o sentimento foi encarado só. Nem todos nos grupos são picados pela mosquinha da viagem. Nem todos voltam sem saber seu lugar no mundo, pelo contrário. Para alguns ir mostra exatamente qual o lugar que esse ser de insere, seja aqui ou lá. Alguns são nômades, aliens, E.T.s, peças sem quebra-cabeça. Às vezes acho que quebrei uma parte da minha peça e por isso não me encaixo em lugar algum. Depois lembro que não foi um acidente, fui criada assim. Nessas horas sou Mafalda.
Paro pra pegar um mini Halls cereja sem açúcar. Ainda estamos no trânsito. Essa cidade me envolveu de uma forma inexplicável, viciante, encantadora e desesperadora ao mesmo tempo. Às vezes só quero fugir, ir embora, não ter que enfrentar o trânsito, as horas no ônibus cheio, os preços altos, a pressão inerente à tal da “locomotiva do país”. Às vezes tenho medo desse lugar e das pessoas daqui. Às vezes amo! Amo todas as padocas portuguesas com PFs em toda esquina. Os salgados veganos espelhados por aí aos montes, os casarões velhos, os museus, as exposições, o centro, os imigrantes, os refugiados, a miríade de línguas ouvidas numa volta pra casa de 15 min a pé passando pela Paulista, e, principalmente as pessoas. Amo as pessoas desse lugar! Pessoas inteligentíssimas que conheci aqui, gente com muito amor pra compartilhar, dispostos a ser família um dos outros, já que tantos nesse caos urbano deixaram suas famílias pra trás. Os serviços bem prestados. A Augusta cheia na hora de voltar pra casa a pé à meia noite sem medo!
São tantas sensações! Às vezes não consigo lidar! Bate um sono! Uma preguiça, uma vontade de chorar, um amor, uma liberdade, um medo.
Daqui a pouco o ônibus chega e as palavras ainda não saíram todas. Talvez tenha que acabar de escrever depois. E aí já não sei se as palavras vão colaborar.
Hoje me peguei pensando enquanto fazia o almoço “amanhã é a quali, será que minha mãe vai querer assistir…” E nem consegui terminar o pensamento. Às vezes eu ainda esqueço. Mesmo que seja por 1 segundo. E aí tem as emoções. Sabe, a parte mais importante de ter emoções e poder compartilha-las! E por mais que eu tenha um companheiro maravilhoso, amigos incríveis, uma família unida, tenha acesso frequente a todos graças a tecnologia, e além de tudo o blog, pra compartilhar com o mundo, ainda assim faz falta. Não ter minha mãe, meus avós, meu pai. E os momentos mais felizes são aqueles que projetam as sombras mais longas. No dia-a-dia já nem penso. E quando penso é leve. Tranquilo. Mas nesses meses tenho sentido uma falta que não dói, não gera choro de desespero, é só uma ausência tão presente! E entre uma feira e outra, um almoço e outro, uma aula e outra, a ausência está lá, ao meu lado. Mostrando toda sua falta! E quando recebo um abraço, um elogio, ou uma crítica, vem as lágrimas, tão à flor da pele. Bom, cheguei, melhor guardar o celular e descer do ônibus. Deu tempo, e agora não tenho tempo pras minhas flores e peles. Elas ficam pro próximo devaneio. Pro próximo dia de sol, pra próxima vez que ouvir Cássia Eller, cantando 1 de julho e acrescentando o “meu Chicao” depois de “meu amor”! Só sei que meu desejo é tão grande que nem sei o que. Flores pra nós!

(*texto de 04/08/16, que tava entalado até hoje no celular, eu na dúvida se publicava ou não, por isso o blog acabou sem post na última terça. Ficou pra hoje. Dia de sol e sombras longas. Feliz dia dos Pais ❤ !)

(Vídeos: Ando tão à Flor da Pele – Zeca Baleiro;  1 de Julho – Cássia Eller – acústico MTV)

Sobre as viagens

 

Sempre tive esse coração nômade, minha casa é onde está meu coração (Skank – Nômade)

 

 

Durante minha infância e adolescência viajei com certa frequência, mas para poucos destinos. Eu e minha eterna companheira, minha mãe, dona Bia, viajávamos sozinhas, e com orçamento muito limitado, por isso nosso destino de férias era sempre a casa da família de coração na Bahia. Dona Bia garantia hospedagem e umas boas férias para nós duas, entre primas e amigas, sempre tínhamos companhia.

O cheiro do cuscus amarelinho, com leite de coco tirado do pé naquela manhã, as granolas caseiras, a maresia e as histórias do interior coronelista de Dona Zelita. Assim meus dias começavam a cada férias. O cheiro das algas na praia, as pegadas de tartaruga, a descoberta dos pequenos ovos. Eu não tinha mais do que 5 anos, e falei para minha mãe, com uma certa vergonha, que ela estava precisando de um banho, ao que indignadíssima ela retrucou perguntando se eu achava que aquele cheiro vinha dela. Eu fiquei meio sem graça e assim descobri o sargaço, ou a alga que apodrece na areia.

As conchas bolachas, o salvamento das caravela, o cuidado com os ouriço e a eterna caça aos tatuís. A água de coco, o picolé de acerola, mangaba ou umbu. O suco de mangaba que prega a boca. O bolinho frito de peixe, que na época ainda fazia parte da minha alimentação, e os acarajés ao por do sol. Todos compunham os cheiros, as cores, os sons, e os sabores das minhas férias.

Confesso que a primeira vez que presenciei uma caranguejada fiquei chocada, não quis participar e fui dormir mais cedo. Aos poucos a idade e a banalidade da vida me fizeram entender que aquilo fazia parte das iguarias da praia, mas nunca consegui concordar ou gostar. Os picolés, as frutas e o coco sempre foram mais meus amigos nesse ponto.

 

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Uma das melhores partes da praia era a pouca roupa. Nunca fui muito dada às mil camadas de roupas. Até hoje amo um shortinho, e passar a infância só de calcinha de biquíni fez parte. As queimaduras de sol, o ouvido cheio de água e os machucados também. Sempre fui muito desastrada. Mas algumas das melhores lembranças que tenho são do sentimento de aventura.

 

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Hoje em dia sei que essa aventura toda tinha muito mais relação com o orçamento limitado da minha mãe do que com um estilo de vida, embora ela sempre tenha sido hippie, e preferisse deliberadamente as cabanas de praia, os bangalôs, as pousadas, as redes na varanda, o chão de areia e as miçangas aos hotéis e resorts. Ouso dizer que havia até um certo ressentimento quanto aos últimos, que geralmente isolam parte das praias como se fossem privadas e cobram pelo uso, o que a deixava louca.

Seja como for, nós pegávamos os vôos da madrugada, porque eram consideravelmente mais baratos e ela não se arriscava a ir de carro sozinha, comigo pequena e o carro velho. Dormimos muito em aeroportos. As malas eram as que sobravam do resto da família. Aqueles sacolões que hoje em dia as pessoas usam para ir à academia, cilíndricos e grandes, com alças curtas e sem estrutura, além da minha fiel mochilinha. Tive a mesma mochila dos 7 aos 28. Isso somado ao fato de que minha mãe sempre levava os próprios travesseiros, então basicamente a imagem era a de uma mulher muito magra e sem força, chutando um cilindro enorme e pesado, difícil de carregar, cheio de roupas e roupas de cama, um travesseiro embaixo do braço, e uma menina muito curiosa, que precisa(va) ir ao banheiro muuuuito mais vezes que o conveniente, de mochila, uma Barbie na mão, um boné e uma garrafa de água, chutando a “mala” toda vez que ela caía no chão. Eramos quase uma trupe de circo.

Toda essa situação fez com que eu me acostumasse desde muito nova a viajar com pouco peso, dormir em aeroportos, portos, trens e ônibus. Sempre ter meu lanche, afinal comida nesses lugares é difícil de achar, cara e pouco saudável, e essas sempre foram três preocupações da minha mãe. Creio que podemos dizer que éramos farofeiras. Que bom! Isso fez de mim uma mochileira sem frescuras!

Além dessas, quase todo ano eu ia a Pirenópolis, cantinho maravilhoso, pertinho de Brasília, onde nasci e cresci. Os banhos de cachoeira, as trilhas, as pedras escorregadias, o sol inclemente nas trilhas longas, o choque térmico entre a temperatura do ar e da água, a seca, os animais, os insetos, as picadas que doíam por dias, os encontros com macacos, cobras, araras, mil outros pássaros, borboletas azuis gigantes (das quais sempre tive medo) e as bananas para os micos. Tudo isso aprendi lá. Foram inúmeras as viagens com primos, amigos, colegas, às vezes com a escola, às vezes com algum tio, e sempre, com quem estivesse indo. Até hoje não perco uma oportunidade.

Outro dia conto pra vocês as especificidades, tipo roteiro turístico mesmo, dessas viagens e localidades. Aqui, hoje, quero só abrir esse espaço, e contar um pouco da minha trajetória de viajante. Ou como sempre, fazer minhas reminiscências! Afinal, as viagens iam além da Bahia e de Pirenópolis. Eu cresci numa casa com um jardim enorme e uma área verde maior ainda. Cheio de árvores, muitas frutíferas, tínhamos amendoeiras e abacateiros, três variedades de manga distribuídas em seis pés, quatro jabuticabeiras, limoeiro, e também pitanga, acerola, amora, ameixa amarela, fruta-do-conde, e lima. Sem falar na erva-cidreira, hortelã, orégano, tomilho e manjericão. Cenoura, alface e couve. E a babosa, hoje conhecida de forma chique como aloe.

 

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E nesse jardim incrível eu viajava diariamente. Desde muito pequena, algo como meses de idade, frequentei a piscina e o balanço, fiz minhas festas, tomei banho de mangueira, aprendi a jogar vôlei, e a nadar. Compartilhei esse paraíso com primos e amigos, e muitas vezes, sozinha, com bonecas e livros. Sempre preferi ler em cima da árvore. E tinha minha mangueira preferida, com suas mangas espadas sem fiapo, maravilhosas, de lanche da tarde.

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Li O Mundo de Sophia inteiro emaranhada nesses galhos. Chorei todas as dores da adolescência aí também. Aprendi a respeitar os ciclos da natureza e aprendi a conhecer os meus.

 

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E ela foi minha companheira por muitos anos, até os 18, quando nos mudamos dessa casa!

 

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Seja pela família maravilhosa que sempre tive e que sempre me estimulou a ir mais longe e a sair para o mundo sempre, seja pelo orçamento restrito ou pela origem hippie, seja pela curiosidade intrínseca. Acabei mochileira. Ficou o amor intenso por explorar o mundo, por ir em busca do desconhecido.

Espero poder compartilhar outras viagens aqui. Algumas conterão mais memórias, reminiscências, outras serão relatos mais práticos.

Gostaria de ressaltar que essas fotos são do meu aquivo pessoal, tirei fotos das fotos, e a opção por não editá-las e deixar como foto de foto é uma opção consciente. Como se estivesse apenas colando recortes em meu diário. Sintam-se convidados a ler um diário pessoal e a conviver com um estilo pessoal.

Não inseri créditos pois não sei quem foi o fotógrafo de todas. Algumas foram tiradas pela minha mãe, outras por mim, outras por amigos, e familiares. Alguns mais profissionais e talentosos outros menos. Bem vindos a mais uma janela do meu mundo! E vamos viajar juntos!

 

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Van Gogh

Van Gogh. Sempre ele. O primeiro quadro que tive num quarto que pude chamar de meu, ainda na infância, e que não fosse decoração de bebê, foi esse. Estrada com Cipreste e Estrela. Road with Cypress and Star. Não é meu preferido. Mas sempre foi o mais meu. Minha paisagem. Minha janela. Meu canto de estudos, meu enfeite. O quadro do meu quarto. Devido às muitas mudanças dos últimos anos ele já não era meu quadro do quarto. Por três anos esteve engavetado. Eis que hoje escrevo sob as bênçãos da estrada, do cipreste, dos trabalhadores cansados que compõe a paisagem, do pequeno chalé ao fundo, da carroça que segue com duas pessoas dentro e das estrelas. Eis que hoje voltei a ter meu Van Gogh no meu quarto. No nosso quarto. Ele não é mais só meu. Não pendurei os quadros sozinha, muito pelo contrário.

A nova casa está pronta. A nova vida já começou, enquanto eu, muito preocupada em fazer a vida funcionar, já vinha vivendo-a há pelo menos um mês, quiçá dois, e na pressa de ser responsável, mal vi a vida que vinha vivendo. Hoje ela está estampada nas minhas paredes. Não vivo mais na minha torre solitária, tão minha, só minha. Meu império de pouquíssimos metros quadrados. Me sentei no sofá no final da tarde, louça lavada, roupa na máquina, geladeira cheia de comida, quadros na parede e me vi na nossa casa. Na minha casa que não é mais só minha. E mais que isso, o muito mais talvez, não seja que ela não é mais só minha, é que é uma casa de verdade. Tem paredes de verdade, de tijolos, que dividem os aposentos. Aposentos, no plural. Não é grande, pelo contrário, mas é uma casa de adultos. Com quadros na parede. E meu Van Gogh lá. De novo. A terra é redonda e gira. A vida é cíclica. E a minha completou um belo giro, e começou um giro e tanto.

É carnaval. Ontem eu fiz faxina o dia todo. Hoje cozinhei e arrumei a casa. Foi bom. Também descansei da semana de trabalho novo. Sabe o que dizem das crianças, que precisam dormir mais, pois tudo é novidade e é necessário sono para consolidar o aprendizado e recuperar as energias, mais do que nos adultos. Sou criança de novo. Tenho sentido desespero diário por reiniciar o disco, para configurar as atualizações diárias. É um mundo novo. Cidade nova, casa nova, emprego novo, namorado novo, vida a dois, tudo novo. As ruas são novas, os caminhos me distraem. O emprego é novo, as crianças são outras, o material bonito me distrai. A casa é nova, as necessidades de arrumações e reparos me distraem. O namorado é novo, tudo me distrai. Preciso reiniciar e configurar as atualizações de disco. Ainda bem que meu HD tem boa memória.

220V, 110V. Eletrodomésticos novos. A voltagem me distrai. E-mail do orientador. Novos professores me distraem. Mensagem inbox do facebook, projeto novo, aulas voluntárias. As oportunidades me distraem. Pastel na feira. Cesta de orgânicos. Mercado novo. As gondolas de mercadorias me distraem. 3G, 4G, cabo, fibra ótica. Wi-fi ainda não foi instalado, a falta de internet me distrai. Dados rolam sobre a mesa, cartas trocam de mão, peças vermelhas, peças brancas, fichas, cadê a lapiseira? Jogos me distraem. É sua vez. É minha vez.

É minha vez. Nada me distrai mais do que a atenção que posso gastar comigo mesma. Vinte oito anos e agora minha vida é minha. Plena. Toda minha. Cheia. Atribulada. Como não poderia deixar de ser essa minha vida de JuReMa. Como não me ocupar vinte quatro horas, sete dias, doze meses? Como não fazer trabalhos voluntários, estudar, trabalhar, escrever, ler, blogar? Cozinhar, lavar, passar(?), arrumar, ir ao mercado? Como não ser JuReMa. Ser JuReMa é bom. Sofia saiu das páginas. Está vivendo plenamente a história que escreve para si própria. No pulso trago para sempre minha cidade. Nas costas trago para sempre meus pais. E os pássaros. E a música. A combinação perfeita das minhas asas. Voo nas minhas asas. Me carrego dentro do meu próprio sonho, e não há mais como distinguir realidade da fantasia. Virei palavras e as palavras viram realidade a cada carácter impresso no papel.

É assim que viro história. É assim que minha história vira vida. É carnaval. Não fujo da realidade através de fantasias, bebidas, momentos de devaneio. Mergulho nela entre louças, roupas, reparos, estudos, manuais escolares, noites de filme no sofá a dois. Talvez amanhã eu saia. Talvez veja o carnaval na rua. Mas não preciso nesse momento sair para carnavalizar. Levei meu bloco para a realidade através de minhas palavras. Dos meus sonhos. Das minhas asas. E hoje ele teve gosto de risoto e cupcake. Amanhã talvez seja de arroz com feijão, ou de cesta de orgânicos na terça-feira de carnaval.

O cipreste continua a apontar para as estrelas. Elas iluminam o caminho. Os trabalhadores me observam. No próximo fim de semana já terei wi-fi. Depois da terça-feira uma nova cesta de orgânicos. E novas palavras terão escrito mais linhas da minha vida-sonho, que tem sido tão cheia de novidades. Vou reiniciar o disco. Atualizar o novo. Sempre. Seguindo a noite estrelada de Van Gogh, seu céu multipincelado que me remete ao saudoso céu de Brasília. Escrevo sobre o sonho vivido logo mais. Antes vou sonhar a vida mais um pouco. E carnavalizar, meu bloco nas ruas do meu pensamento, nas linhas que fluem dos meus dedos. As estrelas iluminam esse caminho. Sejam as de Brasília, sejam as de São Paulo, sejam as do Van Gogh. Boa Noite e bom carnaval.

Uma cesta de orgânicos

Hoje eu acordei com a campainha antes das sete da manhã. Última semana de férias. Normal ainda estar na cama antes das sete. Levantei zonza. Dormi tarde, vendo filme. Acordei durante a noite, faz calor. É verão. O verão de 2015. O primeiro verão do meu mundo novo. Não tem água na torneira para lavar o rosto. A higiene mínima matinal é de caneca, bacia e balde de água armazenado embaixo da pia. Eu me lembro dos casarões antigos que já visitei e dos conjuntos de louça trabalhada, bacia, jarra e caneca, apoiados sobre uma cômoda, toucador ou penteadeira. Talvez os tempos sejam mesmo cíclicos e tenhamos alcançado o esgotamento que nos fará retornar ao passado no futuro. Meu presente não é tão romântico, e embora a pia ainda seja a encanada, pregada na parede e de louça, a caneca e o balde são plásticos. Talvez esse seja o futuro com ares de passado.

Recebo na porta uma caixa de papelão contendo vários alimentos orgânicos. Selo estampado na lateral. Nota fiscal impressa no topo. Confiro, os dados estão certos. Foi o pedido que fiz pela internet. Futuro e passado batem à porta as sete da manhã. Alimentos de quintal. Pedido feito pela internet. No rodapé da nota fiscal é possível ler a mensagem que diz que o pagamento pode ser feito em dinheiro, cheque ou por depósito/transferência eletrônica para a conta especificada. Passado e futuro batem à porta. Guardo os de refrigeração imediata e volto a dormir. Ainda estou de férias.

Estou de férias? Acordo uma hora e meia depois remoendo a pergunta. Sim e não. Meu passado recente e meu futuro de uma semana adiante chegam a mente. Troquei de emprego. Estou de férias do último. Mas começo na próxima segunda em um novo. Férias? Eu tive férias nessa passagem de 2014 para 2015? Em dois meses tive até agora cinco dias espaçados para não fazer nada, ou fazer uma pequena viagem à praia. Descanso não tive. Em menos de dois meses empacotei tudo o que tenho. Resolvi pendências há muito estagnadas. Pendências bancárias, pendências burocráticas, pendências cotidianas, pendências emocionais. Entreguei o aluguel de um apartamento, meu primeiro refúgio só meu. Pedi demissão. Me desliguei de muitos vínculos. E fui. E vim.

Já estou aqui. Recebendo uma cesta de orgânicos que bate à porta às sete da manhã de uma terça-feira qualquer. Uma terça-feira qualquer? Não. Hoje não é um dia qualquer. Todo os dias desses últimos dois meses foram únicos e inigualáveis. Meu presente tão presente. Presente pela intensidade da sua vivência em cada segundo. Presente pela necessidade que me fez viver esses dias pensando neles e só neles. Presente por conterem um futuro incerto. Presente por conterem um passado tão próximo. Presente por serem tão únicos. Presente por serem minha escolha. Meu presente para mim mesma. Presente por cada um que tem feito parte deles. Presente porque são o meu agora e isso é todo o meu mundo.

Meu passado recente (recente?) dos últimos dez anos incluem seis mudanças de endereço, a perda dos meus pais e dos meus avós maternos, que me criaram. Incluem a mudança para lugares cada vez menores e cada vez mais afastados da casa onde cresci. Uma parte dessas mudanças ocorreu por decisões maiores que eu, e só pude acatar. Nunca me incomodei. Me cansei. Muito. Trabalhei loucamente. Estudei mais horas do que cabem em um dia. Vivi semanas de muito mais do que sete dias, e dias de muito mais do que vinte e quatro horas. Vivi dez anos que valeram por uma vida inteira.

Outras mudanças foram voluntárias. Viagens, lugares só meus. Lugares compartilhados. Mudanças que escolhi. Todas possuem algo em comum. Todas foram necessárias. A necessidade é algo muito curioso. Normalmente vemos a necessidade como algo negativo. Como falta de opção, de alternativa. Uma força maior nos obrigando a algo. Esquecemos que sempre há uma escolha. Às vezes essa escolha nem é pensada, pois a alternativa está além das nossas capacidades físicas, financeiras, morais, ou algo assim. Mas sempre há uma alternativa. Por isso nem toda mudança voluntária é desnecessária. Muito pelo contrário. O caminho que fiz até aqui foi absolutamente necessário.

Precisei viver todas as adversidades que passei. E precisei viver todas as superações também. E preciso viver os sonhos. Preciso viver as vontades. Preciso viver as curiosidades. E esse caminho me trouxe à uma cesta de orgânicos às sete da manhã dessa terça-feira. Ainda estou pseudo-acampada. Mais da metade das minhas coisas ainda estão empacotadas, encaixotadas, lacradas. Nos últimos dois meses vivi dias intensos. Exame demissional, exame admissional. Entrevistas, treinamentos. Um novo caminho de metrô para aprender. Um trajeto de ônibus fácil e bem sucedido adicionado à lista de caminhos conhecidos e traçados. Um descontentamento com o Google Maps num ônibus que me levou para o meio do nada. A alegria do Santo Waze.

Mais de novecentos quilômetros de estrada. Falta de água. Racionamento. Políticos que dão outros nomes ao fato de que a água é cortada ao longo do dia. Ao fato de que a pressão que vem da rua não é suficiente para que o fluxo de água acione a resistência do pequeno chuveiro elétrico. Banho frio. Higiene básica feita de caneca e balde. É esse o futuro? É esse o passado? É verão. Eu não ligaria o chuveiro mesmo que houvesse alternativa. O calor incomoda. O banho bom é frio. E o inverno? E o futuro? Lavo as folhas orgânicas na bacia de água que peguei do balde, e cozinho o almoço. Nada de água corrente. Economia e silêncio, no movimento que lembra passado e traz gosto de futuro. Assim como minha cesta de orgânicos, que pedi pela internet.

Mais um apartamento para ver à tarde. Vou a pé. É perto. Se conseguir fechar a documentação, poderei ir para o novo trabalho a pé todos os dias. Uso o aplicativo do iphone para scanear os documentos necessários e enviar para o corretor e tentar garantir o apartamento.  Recorro ao Google Maps e ao Waze na volta para casa. Lavo a louça e a roupa enquanto tem água na torneira. Mas já sei que na hora de escovar os dentes antes de dormir, será com caneca e balde. Jantarei uma sopa. Fiz com os orgânicos. Receita da vó. Um filme no netflix antes de me sentar para trabalhar um pouco no notebook. A roupa seca no varal, e a umidade que evapora, ao lado do ventilador, amenizam o calor do verão. Meu futuro tem ares de passado e assim mesmo é desconhecido e incerto. Às novidades relembram meus gostos mais antigos e pessoais de infância e adolescência.

Sou tão eu. Me sinto feliz nesse novo mundo, que tem ares de passado. Familiaridade no desconhecido. Saudades do que ainda não vivi. Jamais Vú todos os dias. Banho de caneca e orgânicos pedidos pela internet. Ainda estou de férias e a cabeça tem tempo livre. Tempo para divagar sobre tudo o que já estudei. Meu gosto tão predileto por história, política e filosofia. Sim, o futuro tem gosto de passado. Assim como a sopa da vovó, feita com orgânicos pedidos pela internet e lavados na caneca. Meu futuro inclui muita leitura, muito estudo, assim como minha vida inteira. Meus jogos, meus gostos, minha sopa da vovó. Me repito, repito meus ancestrais. E tudo é novo. Tudo é futuro nesse meu presente tão bom, tão novo. O presente é um futuro com gosto de passado. O presente é tudo que trouxe do passado para fazer um futuro novo e único. Deja Vú. Jamais Vú.

Uma cidade nova. Uma casa nova. Um emprego novo. Estudos novos. Namorado novo. Corte de cabelo novo. Ano novo. Vida nova. E uma cesta de orgânicos lavada sem água encanada. Num verão ardente. Uma receita antiga. A música que me acompanha enquanto cozinho vem do itunes. Salvo meu texto na cloud. E escrevo para viver. Para me tornar Sofia. Para virar história em palavras, como a humanidade sempre fez. O futuro tem gosto de passado renovado. O mundo é redondo e gira. E o meu fez uma volta de 360, para uma vida nova. A vida que eu sempre quis e não sabia. Um sonho que nunca sonhei e se realiza assim mesmo. Meu presente.

Eu

Então, essa é a minha última semana nessa casa. Na madrugada da sexta para o sábado que vem, pego a estrada rumo a uma nova etapa, uma nova aventura. A caneca de chá está aqui ao meu lado. Faz um calor desesperador. Janela aberta. Ventiladores de teto ligados. Eles estavam na minha To Do List de 2014, check and done! Colocados no teto! Esse ano cumpri com absolutamente todas as minhas metas pré-estabelecidas e fui além. Estou extremamente satisfeita comigo mesma e com a minha vida.

Bate uma alegria, uma ansiedade, uma vontade de chegar logo na nova fase. Dessa vez, entretanto, não sinto o gosto amargo das despedidas. Primeiro porque dessa vez, pela primeira vez na minha vida, ninguém se foi, seja de uma forma ou de outra. Quem está indo sou eu. E isso faz toda a diferença. Quem fica, quando os outros vão, fica só, fica no mesmo lugar, que precisa ser reinventado para cobrir o vazio. Dessa vez vou rumo ao cheio. E a muitos vazios também. Espero poder preenche-los. Levar comigo minha música, meu cheiro, meus passarinhos, minhas estórias.

Vou porque quero, não porque preciso. Vou porque construí o caminho, a ponte está feita e agora é só cruza-la. Há uma alegria infinita nesse processo. Sei que não existe, na verdade, um chegar lá. Que apenas cruzo para continuar na estrada. E que ela seja longa! E cheia de novidades sempre! Essa ida tem tudo de começo. Estou acostuma a mudanças que são finais. Essa agora é um início. Às vezes penso que é apenas um capítulo novo. Mas na verdade farejo ares de outro volume. Como se algumas mudanças fossem, per si, drásticas demais para estarem contidas naquele mesmo velho livro.

Outro fator que me leva a essa ideia é a natureza dessa mudança. Nada tem gosto de inevitabilidade, tudo tem gosto de escolha própria. Nesse sentido, posso afirmar, que estou me dando o maior luxo da minha vida até hoje. Afinal, é um enorme privilégio poder fazer essas escolhas, ter as condições de realiza-las, e ainda por cima, saber que é tudo por mim, de mim, para mim. Presente de natal, ano novo, de vida. De vida nova. Sempre coloquei as obrigações e as necessidades em primeiro lugar. E elas sempre me exigiram muito. Essa história de livres escolhas baseadas em desejos, sonhos e realizações é uma tremenda novidade.

Não pense, contudo, que essa guinada aconteceu no natal. A primeira mudança, física inclusive, quando vim morar no meu pequeno aposento do alto dessa torre de onde vos escrevo, foi voluntária. Não foi fim, foi o início de um começo, ou o começo de um início. O início do meu começo. Completo agora um ano de meio de dedicação exclusiva à Juliana, à JuReMa, à Ju, à Juju, à tia Juju, à Marra, a todas essas que moram em mim. E, finalmente comecei a alcançar bons resultados, advindos dessa dedicação de corpo, mente e alma, ao meu corpo, minha mente e minha alma. Me sinto lustrada e polida.

Sei que já disse um pouco de tudo isso aqui, e receio cair na repetição e nas mesmices daqueles que se aventuram na linguagem das palavras escritas. Mas preciso tentar eternizar a sensação de plenitude desse momento. O fruto da dedicação voltada ao interior, ao meu Eu. Porque se tem uma coisa que eu aprendi, com toda certeza, até hoje, é que a vida é dinâmica, e está sempre pronta para me jogar de um lado para o outro, sempre! E estou segura de que outras infinitas mudanças virão, e que algumas delas serão inícios, outras finais, e que em algumas poderei tomar decisões efetivas, em outras terei que acompanhar a maré para não afogar.

O que preciso ter como um tesouro, como um sentimento encapsulado e guardado num berloque junto ao peito, é essa sensação de plenitude e satisfação que hoje possuo, sozinha. A certeza de que, assim como hoje eu construí um lar só meu, depois de todas as marés às quais já sobrevivi, posso reconstruí-lo a qualquer tempo, em qualquer lugar. Hoje sei que sou capaz disso. E que sou capaz disso não só hoje, pois esse aprendizado é para a eternidade. Uma vez alcançado, pode até enferrujar com o tempo, se não for lubrificado, mas sempre poderá ser reativado. E pretendo mantê-lo bem oleado.

Que a caneca de chá se mantenha sempre minha fiel companheira. E, independentemente do que o futuro trará, as palavras sempre serão meu consolo, minha vida, minha alma, se fragmentando ao vento, e sendo reconstituída em cada esquina, em cada prato de comida, em cada viagem, em cada livro lido, em cada mensagem trocada com os amigos e familiares, em cada olhar daqueles que me veem, me leem. Nunca estarei sozinha, pois aprendi a me fazer presente na solidão, e a preenche-la, a preencher-me na vida dos outros, a preencher os outros na vida minha.

Sejam as selfies, as fotos, a superexposição do facebook, as mensagens em horários indevidos, os grupos silenciados do whatsapp, as ligações demoradas do Skype, os passeios no parque, as conversas de corredor, os almocinhos, as saídas, as piscinas, as pedaladas na rua, as trilhas no mato, eu sempre me faço presente, sozinha ou acompanhada. Seja Juliana, Ju, Jujuba, JuReMa, tia Juju, tia Juba, Marra, seja quem eu for para os outros, eu me reinvento e estou lá para eles. E eles se tornam presentes para mim!

Por isso, olho a caneca de chá, e digo a ela que se prepare para horas de plástico bolha, pois vamos em mais uma aventura! E, com toda certeza, terei muitas e muitas palavras nas quais me dissolver ao longo dessa nova estrada. Sejam os tijolos amarelos ou vermelhos, passe um coelho apressado em meu caminho e eu decida segui-lo por algum tempo, seja a viagem surreal como o desejo de um gênio da lâmpada, a menina será sempre Alice, pronta para desbravar o País das Maravilhas, e tornar seus medos, amigos. A menina será sempre Sofia, tornando-se palavras enquanto vira realidade. Que venha 2015, e o resto da vida!

Então, é Natal

Acordei relativamente cedo para um dia livre. Hoje é um dia livre? São tantos compromissos que a sociedade nos impõe. Acabamos passando por mais correria do que por momentos de paz. Por mais confraternizações forçadas do que momentos de real felicidade com a família e amigos. Veja bem, não pretendo reclamar dos meus aqui. 2014 tem sido um ano especialmente feliz! Estou extremamente satisfeita com todos os meus relacionamentos e metas alcançadas. E muito, muitíssimo grata! Aos meus familiares, amigos, e todos os que tem feito parte desse momento. Mas voltando ao desabafo.

Eu moro próxima ao maior shopping da minha cidade. Nos últimos três dias quase não consigo sair de casa. A rua do meu prédio desagua numa rodovia. Preciso pegar pelo menos um trecho dessa rodovia, antes de mudar de direção, seja para norte ou para sul. Nos últimos três dias o engarrafamento nessa rodovia é perene. Na primeira vez, achei que poderia ser um acidente na pista. Não. É o shopping. Fora a total e completa falta de delicadeza e gentileza das pessoas no transito. Incapazes de compreender que eu não quero tomar o precioso lugar delas na fila de carros que invadirá o shopping, só quero passar e poder chegar e sair de casa.

Então, isso é o Natal. Cada dia menos amor, menos gentileza, menos sorrisos frouxos nas caras abobadas de felicidade, menos brincadeiras e mais obrigações, compromissos sociais forçados, regados a rios de dinheiro gastos desnecessariamente para compensar a falta de tempo de qualidade passado com aqueles que realmente amamos. Infelizmente tenho presenciado muito disso.

Hoje passo o dia do natal sozinha em casa. Tenho um dia de folga para lavar a roupa suja acumulada, fazer as unhas e para pensar, sentir saudades, escrever, e beber meu chá companheiro de todas as horas. A noite verei familiares, cozinharei. Ouvirei música, e terei mais saudades. Amanhã almoçarei com mais familiares. Me distrairei, e terei mais saudades. A vida nunca mais será a mesma. A vida sempre muda, para todos, quando acaba a adolescência, e a primeira etapa da juventude, quando saímos da casa dos pais, quando temos que trabalhar no dia de natal e aprender a ser gente grande.

Algumas pessoas vivem a infância em famílias pequenas. E o dia de natal tende a ser mais monótono, ainda que muito carinhoso, de família para família. Às vezes esse dia significa ver parentes distantes. Viajar de volta à cidade origem dos pais ou avós e rever aqueles que você mesmo muitas vezes nem sabe exatamente quem são, mas são família, e é dia de vê-los. Dia de ter as bochechas apertadas por milhões de tias na infância, de ouvir comentários sobre como você deveria conduzir os estudos e o trabalho e sobre sua vida afetiva, quando já adulto.

Os meus natais nunca foram assim. Eu cresci numa casa de vó. Na casa da Vovó! Para onde toda a família convergia todo simples e mero final de semana, quiçá no dia de Natal! Um lugar mágico, e passava esse dia entretida nos preparativos mirabolantes que envolviam morar na casa sede desse grande evento familiar. Ir ao mercado com o vovô, fazer as unhas da mamãe, lavar e organizar as frutas e castanhas com a vovó. Colher pinhas secas na rua e tingi-las com spray dourado, fazer muitos e muitos laços de fitas vermelhas e xadrez, preparar guirlandas com ramos de cipreste aparados do próprio jardim. Assistir à vovó se arrumando. Correr escadas acima e a baixo o dia todo, sendo a mensageira, pega tudo, faz tudo da família.

E depois receber tios e primos aos montes. Fazer embrulhos de última hora. Atender telefonemas. Tirar fotos. Contar histórias de Papai Noel para os mais novos. Brincar com os primos até aquela hora da ceia que parece nunca chegar. Rondar a árvore de natal. Tentar adivinhar os presentes pelo embrulho. Ver os nomes e fazer contagens de quem ganharia mais e menos presentes. Organizar e realizar amigo oculto. Servir petiscos e frutas em bandejas. Sempre com muita gente, muita luz. Sim, nos vestíamos só para ficar na sala. Mas era uma sala imensa, um mundo à parte, com seu pé direito de dois andares, e vidros voltados para o jardim e o lago.

Nunca foi monótono. Nunca foi leviano. E nunca foi solitário. Até certa época. Depois que meus avós faleceram tudo mudou. Não havia mais o nosso castelo encantado. E cada um possui outras famílias, outros lugares para estar. Outras pessoas para ver. Os primos não são mais crianças. Muitos trabalham no dia. Chegam tarde. Cansados. Falta quem agite. Falta alguém que reúna a devoção que uma vez existiu naquele momento familiar. Fosse pelas crianças, fosse pelos meus avós, todos estariam ali. Agora nos vemos. Nos amamos. Mas não somos mais a grande prioridade uns dos outros. A vida segue. As tradições mudam.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Lavei a roupa suja acumulada, já que tive um dia de folga. Fiz as unhas. Cuidei de mim. E senti saudades. Mais tarde, verei familiares, e ouviremos música, e sentirei mais saudades. Amanhã verei familiares, comeremos, veremos fotos antigas, e sentirei ainda mais saudades. Essas saudades já não são só as que sinto dos meus avós e dos meus pais. São as saudades de uma vida que já não é. São saudades de mim mesma. São a nostalgia de quem teve o grande privilégio de viver uma infância abençoada, feliz, e incrível. São as saudades de quem cresceu num ambiente familiar privilegiado, nutrido dos mais belos tipos de amor. Com as mais lindas demonstrações de carinho e devoção familiar.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Ainda bem. Tive o tempo de perceber como a vida é abençoada. E hoje eu sei que sou uma pessoa mais feliz, pois vivi já mais de uma vida só nessa, e a vida da minha infância foi maravilhosa. Novos capítulos me aguardam e como eles serão, só o tempo dirá. Mas tenho certeza que serão diferentes. Cada natal uma nova experiência. Talvez novas tradições surjam, e talvez elas acabem algum dia também. Meu presente de natal eterno será sempre essa memória doce de uma infância preciosa e feliz. O melhor presente que eu ganhei nessa vida foi todo esse amor, de ter crescido entre aqueles que garantiram que independentemente de estarem aqui ou não, me fariam felizes para sempre! Feliz Natal!

Por Bia

Às vezes eu choro. Às vezes é uma lágrima sutil, um escorrer de canto de olho. Às vezes chega a me embaçar as vistas. Mas as vezes é um dilúvio! Choro, fico desfigurada, o nariz incha e avermelha, os olhos saltam do rosto, a coriza escorre em torvelinhos por sobre o lábio e meleca a blusa, ou a coberta, o que estiver mais próximo. Não é bonito! E eu não sou a Bailarina, que nem remela tinha. Choro, choro com força, choro com alma.

Hoje estava comentando com um amigo, mais cedo, sobre a realização de metas. Ontem com outros amigos muito queridos, comentei a mesma coisa. Todo fim de ano eu sempre tive o hábito de fazer aquele famoso balanço, checar as realizações, os sonhos, as preguiças, e sempre sobrou algo na minha lista. Um certo item por fazer, daqueles que provavelmente nunca ia receber o check, na minha check list.

Ano passado foi diferente. Terminei 2013 me sentindo extremamente cansada, mas muito feliz. Depois de um ano de desapego, desenganos, e desassossegos, consegui na verdade, ter um sossego só meu, e descansar. 2013 foi um ano de recuperação, um ano sanativo, para fechar feridas, e tornar a pele mais áspera, ralando ela por aí na lixa da vida de todo dia. 2014 foi diferente. Foi um ano de olhar para dentro. De colocar fermento nas ideias, de amassar esse pão até suar, e doer os braços, e depois enrolá-lo no pano, e colocá-lo em lugar morno para fermentar. Em 2014, eu fermentei. O pão assou, e está com aparência muito bonita. Só poderei comê-lo e reparti-lo, contudo, em 2015, e daí em diante. Depois eu conto se o gosto era tão bom quanto o cheiro.

E se no anoitecer de 2013 veio meu cansaço, meu desassossego, meu eu solitário, percebendo-se, único e indivíduo, como nunca antes, em 2014, antes que as luzes se apaguem me sinto coletiva. Nunca me senti tão bem quista, tão amada, por pessoas tão diferentes. Sinto o calor vindo de velas invisíveis, e apesar dos braços doloridos e da testa suada de tanto amassar o tal pão, não sinto o cansaço. Sinto uma certa ansiedade para poder parti-lo, mas só. As mudanças que 2015 me trará prometem ser grandes, e só o tempo, o longo prazo, me dirá o quão grandes elas poderão ser. Mas não me antecipo. Tenho, no mínimo, uma década nas costas de aprendizados para saber que a vida se vive um dia após o outro, com a cabeça no presente, que é a verdadeira dádiva.

E essas mudanças que os ventos de 2015 me antecipam me fizeram remexer gavetas. Quis limpar física, psicológica e mentalmente algumas gavetas antes de me levar para outras trilhas, antes de abastecê-las de novas relíquias. E ao remexer as gavetas me encontrei. Todinha lá. Há mais de uma década atrás. Do jeitinho que sou! E ao mesmo tempo outra. Cresci e aprendi mais do que em algumas vidas inteiras nessa década. E parte desse aprendizado culminou num mês de desapego, no qual estou me desfazendo de muita coisa: um terço de guarda-roupa, dois rabos de cavalo de cabelo meu da adolescência doados, várias lindas e maravilhosas cartas de infância jogadas fora, porque o amor fica, mas o papel precisa ser reciclado, fotos distribuídas, outras scaneadas, e muitas camadas de Jurema lixadas e polidas, no melhor esquema pedra-pomes para a alma.

Nesse processo eu reli algumas cartas que minha mãe, maravilhosa, me escreveu. Chorei. Li para uma amiga, e chorei mais modestamente. Reli sozinha e me acabei no travesseiro com baba e meleca escorrendo pelo queixo. Não consegui comer, fiz chá, resolvi ver TV. Enjoei de cinco filmes bestas modernos e achei que ia precisar sair e ir passear no parque para acalmar a alma, mas estava chovendo. Achei na lista de filmes disponíveis Como Água para Chocolate, um dos favoritos de dona Bia. Vi inteiro. Chorei no fim de novo até o ponto melequento. Desisti das melecas. Me refiz. E resolvi lidar com essa nova onda de emoções que mesclam uma saudade absurda, com um desejo incompreensível de ter minha mãe por perto, e ouvir suas opiniões e conselhos, ainda que eu fosse negá-los e fazer tudo do meu jeito, como sempre foi. Ela nunca deixou de falar, eu nunca deixei de ouvir e tanto ela como eu sempre fizemos o que bem entendemos. Com muito amor, muito respeito mútuo e grande admiração.

E a minha forma de lidar com isso é escrevendo. Compartilhando a alma. Me abrindo para o mundo. Me quebrando em sílabas e letras para me refazer nessa mensagem de palavras que já não me pertencem quando deixam meus dedos, mas que levam e lavam minha alma. E hoje faço algo inédito, algo célebre e que creio não terei oportunidade de fazer novamente. Divido com vocês a transcrição exata de uma das cartas de dona Bia para mim! Olha a honra, hein! Hoje abro em palavras uma parte muito íntima da alma de outro alguém. E contrariando-a, pois na carta está escrito que é particular. Eu, entretanto, não consigo ser privada. Com vocês, Bia Reis:

“Eta, eta, eta, é a lua é o sol é a luz de Tieta… milhares de casinhas coloridas, aquele típico casario baiano, de casinhas pequenas e coloridas. Eta, eta eta, é a lua é o sol… encerramento do filme no clímax, é claro que sinto sua falta. É assim, nos detalhes, às vezes os mais comuns, que a saudade aperta, né o coração só não, aperta tudo: o peito, o estomago, a barriga e a cabeça. Aí eu sinto muita falta e consigo ter alguma noção do quanto estamos ligadas. É por isso mesmo, do quanto foi bom você ter se metido nessa aventura maravilhosa de passar um tempo em outro país. Assim, de repente, só 1 mês, no meio da final da Copa do Mundo, Brasil ganhando, vocês foram… Eu, que nem sabia como ia te criar, quando você nasceu, fui correndo, e aprendendo, e fazendo tudo o que era preciso, e aprendendo, e tentando, e sentindo, e aprendendo, e até que foi tudo dando certo. Com todas as dificuldades iniciais, você foi, ou nós fomos, superando uma por uma e crescendo, bem, saudável, bonita e inteligente e etc… Eu fui à luta de crescer também, batalhei e continuo batalhando para sempre estar consciente, ligada no seu desenvolvimento pessoal, no espaço que você necessita para crescer e ser e também no meu crescimento. Sei que seus voos serão cada vez mais altos e espero estar à altura, para apreciá-los com orgulho. Você cresceu, e nós duas precisamos exercitar nossa individualidade, ir diminuindo a intensidade da energia do cordão umbilical. Que é eterna, graças a Deus, que nunca será possível extinguir, acabar. Sempre seremos ligadas e eu sou feliz e agradecida aos céus por isso, mas é importante exercitar o ser independente. Por isso gostei que você foi. De vez em quando um detalhe aciona a saudade e o peito aperta, te deixando meio sem ar, a barriga dói, você suspira… Te adoro. 06/07/2002 – sábado”

É mãe, tem hora que um detalhe aciona a saudade, e o peito aperta, a barriga dói, a cabeça dói, tudo dói, e eu não só suspiro, como explodo em lágrimas, exagerada nas emoções como sempre fui. Não há palavras suficientes no universo para demonstrar o quão incrivelmente grata eu fico por poder ler essas palavras doze anos depois. Não apenas porque elas contêm muito amor e uma reflexão emocional louvável para qualquer mãe, o que me faz admirar dona Bia mais do que nunca, mas também porque nesses momentos de transição, eu às vezes sonho em saber o que ela diria para mim, qual conselho daria.

Pois bem, aí está seu eterno conselho. Tenho certeza de que essas mesmas palavras poderiam ser ditas por ela para essa minha próxima aventura. Tenho certeza de que foram ditas, e não a toa reli essa carta hoje. Reforço com essa experiência a importância de sermos seres humanos bons e conscientes. Ela não sabia que não estaria aqui doze anos depois para me dar o conselho apropriado para cada momento. Mas eu fui criada com conselhos que valem para a vida toda, e isso não tem preço! É um nível de amor e de respeito aos quais agradeço diariamente! Obrigada mãe, obrigada universo! Obrigada 2014! Obrigada!