Balzac

**Spoiler alert**

Geralmente faço referências difusas em meus reflexos, mas hoje receio citar a frase final de um livro, então, embora não seja novidade e nem capítulo da última série do momento, aviso, para aqueles que preferirem não ler o texto sem ter lido o livro.

Foi no ônibus. Embora seja final de setembro, em São Paulo ainda faz frio. Mas hoje fazia sol, apesar do vento cortante. Quem me lê com frequência sabe como aprendi a amar os poucos e raros dias frios porém ensolarados de SP. São meus novos dias preferidos. E acabo lendo muito no ônibus, melhor jeito que encontrei de lidar com as horas de trânsito dessa cidade. Minha combinação de fone de ouvido anti-ruído + músicas preferidas + livro me transporta para um mundo paralelo e me tira do caos e do stress dessa vida excessivamente urbana.

A trilha hoje era Travis. Estava lendo em português, e para não me distrair sempre inverto o idioma da música com o da leitura, ou ouço instrumentais enquanto leio. O cheiro que me invadia era o dos meus próprios sapatos, botas de chuva da Melissa, pois apesar da tarde ensolarada o dia amanheceu fechado. O sol na nuca, refletido do livro, a música e o cheiro de plástico foram meus companheiros das últimas páginas dessa leitura: A Mulher de Trinta Anos.

Uma gestação. Nove meses. O livro foi adquirido em dezembro de 2015, quando fui a Brasília no fim do ano, para as logo antes das festas. Agora em vinte e poucos de setembro, com os nove meses completos, eis que minha saga chegou ao fim, terminei a leitura. Não pense que demorei tudo isso para ler. Li em cerca de 5 ou 7 dias. O total que consegui em 9 meses dedicar para essa leitura tão pessoal. A vida não é mais a dos meus 13 anos, quando lia 30 livros em 9 meses por gosto. Aos quase 30, devo tempo à vida, enquanto mais um ano se passa.

Mais alguns dias e serei balzaquiana. Já que assim a vida é, e que já compartilhamos tantos verões, decidi lê-lo. O livro é um belo retrato de sua época, ilustrado por alguém muito à frente de seu tempo. Pensando no que era o papel da mulher no século XIX, ler a palavras de um homem que nos admirava e que escreveu uma personagem forte e sofrida, mas com empatia pelo seu sofrimento, é, na minha opinião, algo digno de nota.

De certa maneira me lembrou Chico Buarque, com sua capacidade incrível de ter eu líricos tão distintos e que expressam sentimentos coletivos tão bem. De certa maneira me lembrou Clarice Lispector, com suas personagens introspectivas, que vivem mil infernos enquanto compram ovos para a família. Pensando assim, a mulher do século XIX e a do XX mudaram a roupa e a roupagem, mas nem sempre o sentimento. Acho que a do século XXI está começando a mudar. Sou filha do século passado, da transição entre séculos, mas acho que as filhas desse século já estão mudando mais ainda.

Parei a 3 páginas do fim. Olhei a passagem, tive meu cheiro de Melissa brevemente suplantado pelo fedor do Rio Pinheiros enquanto o ônibus cruzava a marginal. O sol baixando. Uma pausa dramática? A vontade de prolongar os últimos momentos? Não. Apenas muitas reflexões. Eu sou daquelas que demora para entrar nos livros às vezes. Alguns me ganham na primeira página, outros só no terço final. Esse são os que gasto 4 meses para ler o primeiro capítulo, 1 mês para ler os capítulos todos até o meio e 3 dias para terminar. Balzac foi assim. Um pouco pior.

A literatura é definitivamente uma conversa. Nunca um livro é igual para duas pessoas diferentes, ou a mesma pessoa em duas épocas da vida, porque somo pessoas diferentes. E eu quis conversar com Balzac nessa virada para meus trinta anos, porque queria conversar com Balzac nos mesmos termos. Já fui Julie, já fui Juju. Talvez seja sra. d’Aiglemont, ou senhora Marra algum dia. Hoje conversamos de Jurema para Juliette. De Jurema para Hélene. De Jurema para Moina.

Em outro dia, um dia cinza, num outro ônibus da mesma linha, cheguei a sublinhar em caneta laranja as passagens mais significativas sobre a Juliette. Aquelas que estou segura são as mais conhecidas. Aquelas nas quais Balzac descreve e define a mulher de trinta anos. São passagens bonitas. Passagens que mostram uma Juliette com a qual a Jurema certamente conversa. Hoje, posso completar meus trinta verões segura de que compreendo Balzac. Certamente a mulher de trinta anos que sou partilha da força e da superação da inocência tal qual a balzaquiana:

“{…} porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abarcar todo o seu curso, tanto passado como futuro. As mulheres conhecem então todo o preço do amor, do qual desfrutam com o temor de perdê-lo: então sua alma ainda tem a beleza da juventude que as abandona, e sua paixão vai se fortalecendo sempre com um futuro que as apavora”.

Mais como a literatura é uma conversa única e pessoal, a parte que mais conversamos sobre, Balzac e eu, não foi sobre a mulher de trinta anos. Nisso concordamos, dado as diferenças de contexto histórico e sócio-cultural, e seguimos em frente. Paramos para filosofar na frase final. E aqui entra o grande spoiler, meus caros.

“- Perdi minha mãe!”

Foi aqui, na última frase do livro, que ele foi inteiramente resinificado, foi aqui, na última página, que nossa longa conversa começou. Foi aqui, onde a vida de Julie acabou, que a Jurema se viu. Não na Moina. A Moina é ainda a jovem, a mulher, talvez, de vinte anos. Eu provavelmente já fui um pouco Moina, e juntas perdemos nossas mães. Inclusive porque quando a perdi não era ainda a Jurema de trinta anos. A Jurema nasceu exatamente do luto. A Jurema conversa com Balzac depois que o livro acaba.

Claro que os trechos como “Suas dores secretas pairam sempre sobre sua alegria artificial como uma nuvem leve que esconde imperfeitamente o sol”, já estavam grifados em caneta laranja antes do fim, bem como “Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo da presença eloquente?”. Jurema e Balzac já estavam conversando sobre a tristeza e a felicidade bem antes do fim. E embora a Jurema tenha tido lá suas dores de amores, elas foram pequenas perto das dores da perda, da morte, da ausência e da saudade, então esse diálogo, desde o começo, tinha um quê de unilateral, só para ao final se descobrir compreendido.

Baixando o livro de novo e contemplando o já quase pôr-do-sol, pensei nas minhas mulheres. Eu sou filha de uma mulher de trinta anos. Nasci nesse período. Venho de alguém que já tinha suas dores e decepções. Crescemos juntas. Na verdade, passamos pela perda da mãe juntas três vezes, pois venho de uma família matriarcal, onde mães e filhas muito compartilham. A primeira morte que vivi foi a da minha bisa, Vó Santinha, aos doze, e vi os efeitos aterradores que se abateram sobre minha vó, senhora soberana de nossa casa e família. Foi a primeira vez que acompanhei um enterro, e que vivi um luto dentro de casa. Minha festa de 13 foi cancela, e virou festa surpresa na casa de amigas.

Aos 23 vivi o luto da minha avó, e ouvi da boca da minha mãe a frase final de Balzac. Foi um período intenso. Desde a morte do meu avô, vivemos as três em casa, já três adultas, a de 20, a de 50, e a de 80. Foi uma convivência muito intensa. Com todos os trinta anos que separavam cada uma de nós, uma da outra. Se eu sou filha de uma mulher de trinta anos, minha mãe também foi. E essa diferença nos fez amigas ao longo das gerações, embora impossibilitadas de entender as dores de cada uma.

Tenho desse período da nossa vida a três memórias muito doces e memórias muito amargas. As brigas foram privadas e doloridas. As acusações cruéis. As dores reveladas, foram aquelas que elas nunca tinham revelado para ninguém. E apesar dos nossos duplos trinta anos de diferença conversamos sobre homens, sobre sexo, sobre amor, sobre casamento, sobre aborto, sobre liberdade, como nunca antes. Sem filtros, sem amarras. Às vezes com muito ódio, às vezes com muita dor. Naquele período eu conheci mulheres. Eu vi a face que não era da mãe e muito menos da avó. Eu conheci dores para as quais ainda não estava preparada.

Olhei para cima para os olhos beberem as lágrimas que os olhos marejados ameaçavam derramar em pleno ônibus e pedi perdão àquelas mulheres fortes que me criaram. Eu, com a inocência e a intolerância dos meus vinte anos não soube respeitar, admirar e compreender suficientemente suas dores. Fui Moina. Fui até Helene. Espero que elas saibam. Sei que no fundo sabem, pois eu é que nunca tinha sido uma mulher de trinta, e ainda não sou de 50 ou 80, elas já tinham sido mulheres de 20 anos. E nos momentos mãe e avó, me amaram e me perdoaram. Mas guardo na alma os momentos mulher, em que apenas nos odiamos, ameaçamos, machucamos.

Hoje, se tenho algo com que conversar com Balzac é sobre essa dor. A dor da incompreensão entre as mulheres de distintas gerações. Queria tê-las hoje vivas para dizer que começo a compreender. Mas tudo que posso dizer para Balzac hoje, é que perdi minha mãe. Faço o compromisso de reler aos 50, para conversarmos de novo, sobre Bia, sobre Zilah, sobre a senhora d’Aiglemont. E quiçá aos 80, quando nem Balzac mais me compreenderá. A única certeza é que a perda me ensinou muito. Principalmente sobre essa incompreensão.

Não sei se conseguirei conversar com o devido respeito, admiração e dedicação com as mulheres de outras gerações de seus 30 a mais, mas certamente conseguirei conversar com as de 30 a menos, alunas, sobrinhas, amigas, e perceber que se elas não me compreendem, pelo menos não precisam me perder por isso. Assim, espero, Balzac. Ou que no momento inevitável da perda, tenham pelo menos seus 30 anos, e que comecem a compreender.

Dos elogios feitos à mulher de 30 anos nada tenho a agradecer, nem reconhecer. No máximo concordar. Coloco meu pé nos 30 com a certeza de me sentir plena e feliz, embora sinta a exata sensação da felicidade sendo o sol, e das minhas dores sendo as leves nuvens, que perpassam os olhos em breves momentos do dia, às vezes chovendo nas noites, calada. Não sofro mais do que devo e me considero uma mulher livre, independente e muito feliz. Mas uma mulher não chega aos 30 anos sem conhecer pelo menos uma dor, nisso, concordamos, Balzac e eu. O peso que cada uma decide dar a essas dores, contudo, varia. A Jurema sugere que a mulher de 30, embora conhecedora das dores, seja leve, e livre.

Bem vindos, trinta! ❤

Alice em Oz: Sofia

Hoje sou Sofia. A certeza de que tornei-me personagem bate à porta. Posso não ser uma personagem famosa, posso não ser uma personagem publicada. Mas tenho certeza de que Deus está bancando o escritor, como diria Clarice. Vejam bem, como já devem saber, sou uma adepta da literatura, e sempre li muito. E esses seres estranhos que dividem essa dita realidade com muitas outras, que vem principalmente de livros, mas também de gibis, jogos, músicas, e todos os demais lugares imaginários por onde passei enquanto crescia, e por onde passo sempre que posso, tendem a perceber a própria vida de uma forma um tanto quanto literária. Isso inclui uma dose de drama, uma dose de fantasia, uma dose de nostalgia, uma pitada de coragem e outra de sofrimento, um tempero de brilhantismo e outro de tédio. E nos faz conviver com personagens, tornando-nos a nós mesmos em um certo tipo de personagem.

Eis que eu sempre tive uma birra incrível com dramas e romances que consideravam o destino tão fatídico, tão categórico, que se impunha sobre as vontades das personagens. Também sempre fui crítica da ação padrão dos heróis, de sempre cair no plano maligno, estupidamente, em nome de ações de coragem, valentia e amor. A forma como o destino aprisionava as personagens de Austin ou das irmãs Bronte sempre me deixou indignada. E mesmo sabendo que a própria Austin abdicou do casamento e seguiu como escritora, contra os padrões da época, somente para não recair nas armadilhas do destino, suas personagens geralmente não tiveram o mesmo tratamento. Eu sempre falei aos quatro ventos que se estivesse vivendo em tempos antigos, eu seria a mais terrível das filhas, pois não usaria os espartilhos nem me casaria por arranjo. E muito menos deixaria de dizer o que penso.

Então, por mais que minha vida sempre tenha sido cabalística, e cheia de referências comparativas com minhas personagens preferidas, nunca me vi, realmente, como uma personagem. Mesmo tendo lido O Mundo de Sofia no ano que completaria quinze anos, sentada no alto da minha árvore no jardim, com meu labrador branco, Tobi, de fiel guarda aos meus pés. Mesmo tendo viajado com a escola para os Estados Unidos aos quinze, e lido Harry Potter e o Cálice de Fogo enquanto estava nos dormitórios da National American University e pedia ao Reed Abrahamson para me ensinar a ler os nomes das personagens, incluindo o da Hermione corretamente. Mesmo nessa viagem tendo vivido a experiência do ônibus quase virar na estrada e observar os cervos fugindo dos ursos e lobos, e de sermos salvos pelos índios Sioux, e ter voltado dessa viagem amiga de uma família de estudiosos que costumava fazer trilhas nas montanhas nos fins de semana, e que nos alertou sobre as dificuldades de convivências com os índios da região, e de ter ganhado lá um medalhão protetor de lobo e um coração de cristal, mesmo assim, nunca tinha me visto realmente como uma personagem.

Afinal, eu não cresci num armário, embora tenha brincado muito em uma adega que ficava embaixo da escada. Eu não achei Nárnia no fundo do armário, embora já tenha dormido entre roupas e casacos da minha avó no closet dela só porque chovia e ela nos trancava lá com medo dos temporais. Eu não cresci num castelo, só numa casa com sótão e porão, e portões de toras de madeira com dobradiças aparentes e jardim interno de samambaias onde meu avô controlava a chuva. Eu não aprendi a falar com os animais, embora minha mãe conversasse com os passarinhos e eles respondessem. Eu não cresci órfã, embora tenha vivido sem meu pai até os onze anos, conhecido ele em circunstâncias incrivelmente vitais no desenrolar do meu roteiro de vida.

Hoje, entretanto, sou Sofia. Hoje sou uma professora órfã, que vive num pequeno cômodo no oitavo andar, minha própria torre, entre muitos e muitos pássaros, reais e decorativos. Hoje eu vejo fios soltos sendo reincorporados na trama do meu tecido. Vejo esse tecido e percebo nele as marcas dos cortes bem cerzidos, tão visíveis quanto a cicatriz que hoje carrego na testa, ou seja, só para aqueles que estão perto o suficiente para ver. Sim, hoje em dia eu tenho uma cicatriz na testa. Só não é no centro, mas na têmpora esquerda.

Mas muito mais relevante é como eu percebo hoje as questões relativas a destino, escolhas e o quão eu posso decidir e o quanto Deus banca o escritor. Sempre acreditei no livre-arbítrio e continuo acreditando.  Ao mesmo tempo creio em destino. E não acho que seja contraditório. Temos que fazer por onde, e podemos decidir quais estradas pegar. Ao mesmo tempo existem coisas que aparecerão na nossa vida ou sumirão dela com tanta explicação quando o gato de Cheshire de Alice. Doroty chega a Oz num tornado, levada como uma pena, como diria John Mayer, e volta batendo os calcanhares de seus sapatinhos vermelhos três vezes. Lá ela procura algumas estradas. Sabemos qual ela tomou, mas e os tijolos vermelhos? Para onde vão? E o que teria acontecido caso suas escolhas fossem outras? Teria ela tido o mesmo resultado? E Alice? E se ela não tivesse seguido o coelho? E a Alice de Tim Burton, que duvida tanto de sua própria identidade? E se ela não tivesse lutado contra o jaguadarte?

Essa semana completo meus vinte e oito verões. Há dez verões atrás eu tinha minha vida tão resolvida. Era tão dona do meu nariz. Tinha tantas certezas. E aí meu tornado chegou. Caí em Oz, segui os tijolos amarelos, tive que pôr em prática todos os conhecimentos do meu querido Mágico para conseguir driblar as tragédias da vida, vencer as bruxas verdes, e com muito disfarce continuar livre e viva para segui o coelho, e cair no País das Maravilhas. Lá questionei minha verdadeira identidade várias vezes, e mais uma vez enfrentei minhas batalhas. Eu não preciso mais bater os calcanhares ou aporrinhar Absolem por uma resposta, pois já sei que voltar para casa não significa mais nada. Minha casa é onde estou. Seja lá onde isso for. E como for. Eu sou minha casa. Eu sou Alice, e já passei por Oz, pelo País das Maravilhas e por muitas outras terras fantásticas.

Hoje sou Sofia, e estou aprendendo que às vezes a vida traz novas lições quando menos espero. Hoje sou um pouquinho personagem de Austin ou Bronte, pois estou tendo o gostinho do que significa ter que esperar respostas do destino, acontecimentos da vida, para descobrir quais caminhos se abrirão e quais fecharão. Se é que algum se abrirá ou fechará. Continuo fazendo o que sei fazer de melhor, como diria Skank (vocês não acharam que escapariam, né?) eu abro a porta, eu grito, eu berro, eu enfrento, eu vou de charrete ou caminhão, eu vou a pé, mas eu vou! Para onde? Para onde a vida me levar! Qual a cor dos tijolos eu não sei. Também não sei onde eles vão dar. Mas hoje, eu Sofia, já não tenho as certezas dos dezoito. Eu recebo as incertezas dos vinte e oito de braços abertos. Sabendo que preciso continuar tomando decisões, e lutando minhas batalhas. Mas só. O que brotará no meu caminho, a vida dirá.

Hoje sou Sofia sem precisar ser personagem real ou imaginária. Hoje sou Sofia não porque eu mesma me transformo lentamente em palavras. Hoje sou Sofia porque aceitei que Deus banca o escritor. E enquanto esse Show de Truman continua, a única coisa que aprendi a controlar foi a trilha sonora! Boa musica a todos! Que os passarinhos tragam boas novas! Que a ansiedade por resultados, sejam o das eleições, o das provas, o das minhas ações, seja amenizada pela certeza de que sou Sofia, personagem, vivendo uma história, às vezes cômica, às vezes triste, às vezes romântica, e sempre de muita aventura. Ainda não sei para onde, mas sei que eu vou, e a felicidade não será clandestina!

Biscoitos, óculos e vestidos

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A menina enxergava o mundo com novos olhos. O que teria lhe acontecido dessa vez? Uma nova revolução interna? A percepção da vida como ela é? Novas pessoas? Novas paisagens? Novas atividades? Não, óculos. Era o primeiro dia da menina usando óculos. E ela não usava óculos antes? Veja bem, havia alguns anos já que a menina sentia sobre seus ombros um peso maior que o de seus anos. Ao estudar e trabalhar ao mesmo tempo, desde os dezoito anos, sem falar nos cuidados dispendidos com a IMG_0064família, aos vinte e um já precisava de óculos de leitura. A diferença era que antes ninguém nunca tinha visto a menina com suas lentes sobressalentes. Apesar de ler muito, e todos os dias, esses momentos eram reservados para sua solidão, luz artificial, madrugada afora.

E agora? A menina suspirou e lembrou-se mais uma vez da médica carimbando a receita e falando: “Não é desse tão famoso e infame óculos de leitura que você precisa, você tem astigmatismo. E o que você tem sentido e confundido com cansaço é só meio grauzinho em cada olho. Nem precisa fazer esses óculos, mas vou te dar a receita. Se quiser testar, faz.” E ao suspirar ela pensava: “Como assim fazer se eu quiser? A gente não vai ao médico para receber uma instrução?” Colocou a receita na carteira e procurou não pensar mais naquilo.

Sentiu o cheiro dos biscoitos. Estariam prontos? Deixou um pouquinho o computador e foi espetá-los com um garfo, ato que a menina sempre achou tão violento, embora soubesse se tratar de método eficiente para checar o ponto de bolos e biscoitos. Ainda moles. Teria errado o ponto? Era a primeira vez que a menina fazia aquela receita e estava um tanto quanto insegura. O bom é que não havia ninguém para provar os biscoitos além dela mesma. Isso tirava qualquer expectativa ou possibilidade de decepção. Por outro lado, não havia ninguém com quem compartilhar os biscoitos. A menina ponderou essas duas situações e chegou à conclusão de que ela mesma era sua mais rígida crítica. Resolveria sua auto avaliação quanto aos biscoitos uma vez que estivessem prontos.

O celular vibrou. Ela viu na tela os desenhos que antecediam o texto da mensagem e reconheceu um grupo de amigas. Parou de escrever um pouco. Sim, já disse que a menina era muito Sofia nesse dia? Estava em tempo real se transformando em palavras. A contradição desse fato é que a Sofia vai de palavras à real. Mas antes de ser Sofia, a menina era Alice. E no mundo de Alice nada é aquilo que parece e tudo é o que não deveria ser. Logo a Sofia da Alice era real e virava palavras. E a mensagem? Pequenas bobagens do dia a dia. Um comentário sobre um filme mencionado na véspera.

O som captou os ouvidos da menina. Estava ouvindo uma banda já conhecida, porém tinha baixado algumas outras músicas. Nada novo, muito pelo contrário, mas qualquer som além do mais habitual se fazia perceptível como uma nova realidade para a menina. Era uma sensação muito parecida com a de ver o mundo com novas lentes. Novas lentes, ela sorriu e testou o peso de suas novas lentes apoiadas no nariz e atrás das orelhas. Via o mundo através de novas lentes. E ainda assim ele parecia exatamente o mesmo. A versão em HD do mesmo canal. High definition, o foco melhorado. A Alice na menina lhe soprou nos ouvidos, ou melhor, de dentro dos ouvidos: “Para vermos o mundo de outra forma, ou para vermos outros mundos não precisamos ver através de lentes e sim através do espelho”.

Isso era uma verdade incontestável. Era através do espelho, olhos em seus próprios olhos, olhos nos olhos de Alice, nos olhos de Sofia, que a menina via o mundo de outra forma. Seus verdadeiros óculos eram os olhos da Alice, que a faziam ver em seu mundo cotidiano o País das Maravilhas, Oz, e as páginas de sua própria história, só esperando para serem codificadas em palavras.

O cheiro dos biscoitos invadiu novamente suas narinas. Mais forte dessa vez. Teriam queimado? Como era difícil às vezes soltar os dedos que batiam no teclado com leveza, porém colados às teclas. Outra música nova. Isso a ajudou a tirar os olhos da tela, e, um a um, desgrudar os dedos das teclas e usá-los para segurar o garfo e a luva de cozinha. Lá ia Alice, espetar seus biscoitos. Ficou se perguntando o que Absolem diria daquele ato. Espetar biscoitos. O que os biscoitos diriam se pudessem? Ela já não se espantava com essa possibilidade. Talvez não compartilhasse os biscoitos com alguém, mas ao invés, na melhor forma Alice de ser, compartilhasse suas ideias com os biscoitos.

A caminho, entre o forno e a cadeira do computador, vislumbrou os vestidos sobre a cama. Três vestidos bonitos, femininos, cheios de estampas. Em mais um momento surreal havia experimentado aqueles vestidos por sobre suas roupas, no meio da rua, mais cedo. Uma amiga estava vendendo-os. Pensando bem, o meio da rua era o meio da rua, mas também não era. Já que a menina Alice vivia em seu perfeito ambiente, uma terra onde nada é o que parece e tudo é o que não deveria ser. A menina vivia numa terra onde o céu era o mar. E onde o meio da rua era um lugar reservado, e os lugares reservados eram públicos.

Pensou novamente nos vestidos sobre a cama. Precisava prová-los novamente, de forma adequada, e responder a amiga se os compraria ou não. Estava em casa há horas já. Porque não tinha feito isso ainda? Tudo bem, havia os afazeres domésticos, cozinhar, lavar, arrumar, guardar, que lhe tiravam parte do pouco tempo livre. Mas era mais do que isso, vinha dessa inércia externa, que correspondia exatamente a crescente inquietude interna. Quando essa lhe subia à garganta, a menina olhava ao redor, via sua pequena casa tão perfeitinha. E mais uma vez constatava que do lado de fora da boca só havia solidão. Se alongava então, estalava o pescoço, e ligava o computador. Seus olhos miravam a tela como quem vê, ou revê, seu verdadeiro amigo. E os dedos batiam as teclas com leveza, porém tão rápidos que era necessário reler o que foi dito várias vezes depois.

Ajeitou mais uma vez os óculos que lhe pesavam sobre as orelhas, sentiu mais uma vez o cheiro dos biscoitos, e nas idas e vindas entre forno e tela, olhou longamente para os vestidos sobre a cama. Sempre a lembrando que haviam tarefas infinitas. Que sempre haveria algo novo a ser feito. Uma outra viagem, uma nova experiência. Outras pessoas, outros cheiros, outras paragens. Isso era reconfortante, embora não o suficiente para expulsar aquele pensamento inquietante a respeito da vida. Era isso então? Como os ovos de Clarice? Trabalhar, preparar, corrigir, arrumar, cozinhar, lavar, guardar. Adicionar novos acessórios que só serviam para lhe assegurar que os anos passavam, e que a lembrariam disso em todos os momentos.

Os biscoitos! Que esforço tremendo para soltar os dedos das teclas e espetar biscoitos. Por outro lado, enquanto não grudava os dedos nas teclas nada mais acontecia. Novas músicas, novas roupas, novos acessórios, novas receitas. Novas pessoas, novas paragens. A vida era assim, e isso não era o bastante. Mas talvez, só talvez, os dedos nas teclas fossem. Sua verdadeira janela para a alma. Um processo digno de Sofia e Alice. Para aqueles que pareciam querer atravessar o espelho, ver o mundo por novas lentes já era o suficiente para encher a alma. Talvez e só talvez o que a menina precisasse não era encher ainda mais sua alma, e sim dividi-la. Dividi-la em várias pequenas palavras, e soltá-las ao vento. Abrindo dessa forma uma janela para sua própria alma. Talvez a encontrassem através daquele espelho que levaria somente a ela mesma.

Os biscoitos estavam prontos. Com cara boa. Talvez estivessem gostosos. O peso dos óculos continuava ali, como o peso das perdas da vida. Nada que a impedisse de continuar, apenas, um lembrete constante de que os anos passam, de que a vida passa, e que entre biscoitos e vestidos, talvez haja algo mais, e talvez não. Talvez seja só a vida. A menina releu suas últimas e linhas e pensou, que talvez, se a vida for isso, não seja nada ruim. Biscoitos, vestidos, acessórios que contam o tempo, e dedos que contam histórias, que falam mais do que sua boca. Toda vez que suas palavras ditas ao vento ricocheteiam na solidão, seus dedos encontram na vastidão das palavras o consolo de muitos olhos anônimos. Que olharão, talvez, através de suas palavras, e verão, talvez, sua alma.