Vagabunda, anjo, mãe, filha: mulher

Fazia tempo, muuuuuito tempo que não rolava um bloquinho de 3 aqui, então vamos em homenagem à luta que é ser mulher, nos presentear com um pouquinho de música! E com mais de 3 músicas, porque eu não dou conta de tanta letra incrível e interpretações boas!

Mix up de Vagabunda e Problema Meu – Clarice Falcão

Vagabunda (completa) – Clarice Falcão

Problema Meu (completa) – Clarice Falcão

Cassia Eller – 1º de Julho

Letícia Sabatella – Geni e o Zepelim

Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

E as ferramentas?

Eu sempre gostei de uma boa caixa de ferramentas. Meu avô era um verdadeiro Dr. Pardal, MacGyver e senhor buginganga. Cresci numa oficina, visitei várias. Durepox, estopa, e voltímetro faziam parte do meu vocabulário infantil. Além de perfunctório! Palavra preferida herdada do super vovô. Além do gosto por ferramentas. Meu gosto por ferramentas só não é maior que meu amor por artigos de papelaria, canetas e lápis coloridos, cadernos variados, papel colorido. Mas o gosto por ferramentas sutis ficou. Ferramentas intelectuais, ferramentas digitais, ferramentas emocionais. Eu sou daquelas que funciona bem se tiver um sistema. Adoro uma novidade. Mesmo que ela seja uma grande velharia, mas que surge para mim como uma grande e “nova” ferramenta.

A música Vagabunda, da Clarice, de excelente qualidade, vai terminando, num fading providencial. Música, é para mim, uma ferramenta. E das mais usadas. Não sei fazer música, não sei cantar, e isso não é charminho, odeio quem usa o charminho como ferramenta, é sério, sou uma negação em música. Mas é uma excelente ferramenta, em vários sentidos, uso para mudar o humor, para manter o humor, como companhia, para me exercitar, para cozinhar (cozinhar sem música é fatal), para estudar, escrever, ler, com fones, para abafar o barulho do ônibus, do trânsito, dos assédios nojentos de rua, para me manter no meu mundo de paz.

Bem no fading encaixa-se meu alarme, lembrando que é a hora do plus do remédio homeopático que estou tomando para uma queimadura de panela, feia, porém feita de forma muito idiota, fazendo pipoca e bolo. Homeopatia é para mim uma ferramenta. Não só no sentido óbvio, de ser usada como remédio e, portanto, tendo um fim claro e útil. Mas é uma ferramenta pois me permite sair do circuito convencional de saúde-doença, é uma ferramenta para o autoconhecimento, já que já passei muito mal com remédios, é uma ferramenta para fugir de efeitos colaterais.

A cozinha, essa mesma que me gerou uma queimadura fazendo pipoca e bolo, olha a criatura besta sem coordenação motora, é uma super ferramenta também. É meu instrumento de saúde, de terapia, de paz, de felicidade. É a segunda forma, além de escrever, de me compartilhar. Mudar minha alimentação, me tornar vegetariana, e, mais que isso, buscar conhecimento sobre a cozinha, sobre meu corpo, sobre as reações, compreender minhas alergias, intolerâncias, preferências orgânicas, e entender que para ser tudo que eu posso e tudo que eu quero ser, cozinhar é uma ferramenta indispensável. Não é só uma questão de comer saudável, ou seguir o nutricionista, é a minha revolução. Física, emocional, psicológica, social, ambiental.

Cozinhar é a ferramenta que me permite comprar ingredientes de verdade, e fabricar meu alimento do zero. Quase não vou mais ao mercado. Aqui é feira e cereais e farinhas vendidos à granel, comprados como matéria base. E me livrar do sistema, por mais besta que pareça, tem impactos imensos. É o que eu como indivíduo posso fazer de melhor para o meio ambiente, para meu próprio corpo, e com a vantagem de que ainda posso compartilhar isso com os outros. Seja como troca de informações, receitas, visitas, comidinhas. Dar uma fatia de bolo para uma visita é uma ferramenta para inseri-la num debate que pode se tornar muito profundo, e que pode tomar muitos caminhos, mas que é sempre revolucionário.

Ganhei um beijo surpresa do meu amor, que veio me dizer que eu sou linda porque eu estava cantando Clarice Falcão. Sim, eu canto tão mal, mas tão mal, que gera reações desse tipo, com direto ao aviso de “não precisa parar de cantar, só vim dizer que você é linda”! Naquele melhor esquema de quando você vê um bichinho muuuuuuuuuito feio e diz que é lindo de tão feio. Então: eu cantando. Entre risos, um pouco de vergonha e muito de liberdade, segui no meu esganiçado tom desconexo.

Hoje foi um dia muito bom, de muito amor. Foi um dia de extrema conexão comigo mesma. Comecei acordando naturalmente, sem alarme, as 8h30, horário incrível, nem cedo demais nem tarde. Bebi água, tomei um limão espremido, botei roupa para lavar, sempre me sinto eficiente quando a roupa está limpa, o cesto vazio, parece que eu venci a história sem fim da vida adulta. Depois taquei o EVA no chão e mergulhei na minha imensidão azul. Pratico Método DeRose, e esse possui inúmeras ferramentas que eu uso todos os dias, que me são tão caras e queridas! Não tenho como falar das minhas ferramentas sem mencionar essa filosofia que me proporcionou tantos meios de ser, plenamente.

Depois li um pouco. Ler: a ferramenta básica da vida. Inclusive compartilhei hoje um meme com esses dizeres, “ ler é a forma de instalarmos um software em nós mesmos”. Perfeita! Sempre lembro de Matrix e daquela forma de instalar habilidades com um plug na nuca. Na real, isso se faz com os olhos e a leitura. Ou com o som, e a audição, mas basicamente com a retransmissão dos conhecimentos acumulados no mundo pelas sociedades. Na sequência rolou um spa em casa, fiz minhas próprias unhas, com direito a bacia de água quente, creme esfoliante de pedra pome, e gel para pernas cansadas. Amo saber fazer minhas próprias unhas.

Almoçamos comida caseira e fresca, o que aqui em casa é a regra e ainda assim me sinto plena a cada refeição por essa constatação. Depois fui para um workshop incrível, cheio de prática, novos conhecimentos e muito amor. Da Alana Rox, do The Veggie Voice. Ela tem instagram, Facebook e etc. Cheia de ferramentas incríveis e pronta para compartilhá-las com todos. Voltei me sentindo leve, apesar de ter comido muuuito! Voltei me sentindo plena. Sentei para conversarmos sobre o dia dos dois, teve massagem no pé, acompanhada de um chá relaxante.

Sim, a vida pode ser muito boa! Quem me conhece de perto sabe que já passei por muitos momentos extremamente tristes e solitários. Quem lê o blog desde o início, ou já leu todas as reminiscências sabe também. Minha vida sempre foi cheia de privilégios, mas nunca foi um mar de rosas. E aprendi muitas lições. E nesses anos todos sempre ouvi dos amigos e familiares mais próximos que eu sou uma pessoa muito forte. Porque mesmo passando por tudo isso, sou uma pessoa “feliz”.

Garanto que tenho muitos momentos infelizes. Mas sim, no geral, posso dizer que sou feliz. E esse sentimento não vem do nada. Vem da construção diária que faço dele com todas essas ferramentas: a música (que me remete sempre à minha mãe! ❤ E também ao meu avô e ao meu pai), a culinária (que me remete à minha avó, e também à Isadora, minha cunhada-irmã-mais-velha, que me ensinou muitas coisas, entre elas o amor pela comida), o cultivo pela saúde (que me remete à minha mãe, inclusive pela forte memória dos problemas graves de saúde e peso que ela enfrentou e que até hoje são subestimados na nossa sociedade), as palavras (seja pela leitura ou pela escrita, essas me remetem à JuReMa, meu pseudônimo literário. Minha essência).

Referências existem muitas, várias que ficaram faltando, inclusive. Meu maior instrumental de vida até hoje se chama André Reis e quem o conheceu sabe que ele era um rol de ferramentas para a vida inigualável! A ele todo meu amor e gratidão. Mas além dos familiares, que todos construíram esse meu rol de ferramentas, adiciono alguns amigos, algumas personalidades, alguns professores, algumas filosofias. Todos esses mudaram minha vida de forma muito mais profunda do que conseguem imaginar.

Último alarme do plus. A queimadura está quase boa já. O álbum da Clarice já acabou e já estou no meio do da Tiê. O ventilador sopra a toalha que está no cabelo em formato de turbante. E a noite segue quente, mas feliz. E meu calor interno está resplandecente com esse dia lindo e cheio de amor próprio e pelos outros. Mas eu queria terminá-lo compartilhando um pouco de toda essa felicidade e desse amor na forma de palavras, como uma retribuição. Que todos vocês saibam, portanto, que minha felicidade não vem do nada, ela é construída, e eu uso muitas ferramentas.

Algo que permeia todas elas e que me faz me sentir incrível é a autossuficiência. É maravilhoso e totalmente empoderador saber fazer minhas próprias unhas, minha comida, arrumar meu cabelo, andar pela cidade sozinha de transporte público, me exercitar em casa, meditar, cantar (ainda que mal), ouvir o que eu quiser. Ser! Essas ferramentas todas são para que eu seja quem eu quiser, quem eu sou, na minha plenitude. E a JuReMa agradece. Ela sou eu, e além de ferramenta, ela é realização. Obrigada! ❤

Eu sou problema meu

A música ta rolando no ipad no spotify “eu não sou um chapéu num armário de alguém {…} eu sou problema meu”, enquanto penduro a roupa lavada, dando graças à Deus por ela ter saído sem manchas, problema recorrente na máquina de lavar de casa. Será que foi o álcool que eu coloquei junto com o sabão? Será que foi a escolha de tecidos? Será que dei sorte? Terminando a roupa, passei pra louça, me esperando na pia, e já deixei um pudim de chia na geladeira para comer no lanche da tarde. Voltei pro computador, respondi mais uns e-mails, deixei a música rolar.

O cursor do word ficou piscando embaixo no mais novo sub-título, e a música continuava, e minha cabeça se perdeu. Na música, no mundo, em mim mesma. Leo ganhando o Oscar, a questão ambiental, a questão racial. De que “lado” ficar? Problematizar ou não? Protagonismos? E o cursor piscando. Eu tenho uma dissertação pra escrever. Aliás, é exatamente por causa dela que tenho escrito muito pouco, para não dizer quase nada, aqui no blog. Tentei reciclar uns textos velhos nos últimos tempos, mas assim, vamos ser honestos, não foi exatamente uma boa produção.

E a música já mudou, mas ainda estou com Clarice. E enquanto a música me leva, o cursor continua piscando. O e-mail para o orientador já foi. Mas a dissertação tá aqui. Me olhando. É tipo filme de terror, ela me olha mesmo quando fecho os olhos pra dormir, mesmo quando assisto um filme, mesmo quando passeio no fim de semana. E quando finalmente sento no computador, depois de passar um bom tempo lendo textos da pesquisa, e o cursor fica piscando. E agora, José? Ou deveria dizer, e agora, Sérgio?

A música acabou, mas o CD novo me garantirá 30min de devaneios. O cursor ainda pisca. Refiz a introdução. Segundo meus estudos mais recentes, que envolvem três livros diferentes de metodologia e um workshop, isso é normal. E até 2017 vou reescrevê-la muitas vezes. Será? Espero que sim? Eu já sei, com essa idade, quase 30, que a minha dissertação é um problema meu. Ninguém me mandou fazer. Eu quis. Ninguém me obrigou a querer. Se meu mestrado me persegue 30h por dia, 8 dias na semana, isso é problema meu, e, de todos os pós-graduandos e pesquisadores, que são obrigados a aprender a gerenciar seu próprio tempo, suas próprias ansiedades e expectativas.

 

A roupa na máquina é problema meu. O feijão no fogo é problema meu. A louça é problema meu. O pudim de chia é problema meu. A escolha ente pudim de chia e doce de leite é problema meu. E a verdade é essa, que todos nós, aceitando sua vida adulta, passamos a ser nossos próprios problemas. Convém lembrar que nem todos aceitamos. Alguns continuam se enganando, se enrolando. Ou resolvem pagar outros para fazer por eles, e continuam com suas babás na vida adulta. E não estou criticando per si aqueles que possuem funcionários, mas sim a lógica bizarra do nosso país, que alimenta essa estrutura, fornece essa possibilidade.

 

Alguns aceitam a vida com empregos convencionais, e claro, enfrentam todos os percalços dessa escolha, como eu já fiz, e fiz muito, foram 10 anos de carteira assinada. A gente reclama do horário, do salário, dos chefes, dos colegas, do plano de saúde, das férias, da vida. Aí você escolhe ser autônoma e pesquisadora, e vê que tudo agora é problema seu. Não existe férias, existe culpa de não estar estudando e produzindo. Não existe horário, existe demanda de cliente. Não existe salário, existem as contas para pagar no fim do mês, implacavelmente. E a certeza de que você está nessa situação não por que foi a que a vida te concedeu, mas por escolha própria, ou seja, é tudo problema seu.

 

Estando em outra cidade, sem os amigos de sempre pra choramingar no ombro, sem a possibilidade de encontrar rapidinho pra comer uma besteira, jacar, e desabafar. Tem whatsapp e Skype, e claro, tudo isso ajuda. Mas não é igual. E a saudade aperta, e sei que estou aqui não porque a vida impôs, mas porque quis, e essa saudade é problema meu. E quando os problemas surgem, e quando dá vontade de correr pro colo da mãe, quando você não sabe o que fazer de algum livro velho, porém de estimação, ou aqueles casacos de frio que você não tem onde guardar e deixa no sótão dos pais, nessas horas eu sei que não tenho mais os meus, e meus livros, meus casacos, meus problemas, são todos meus.

 

E a vida é boa, então me recompensa sempre com novos amigos, novas oportunidades, amores de vida, um companheiro inigualável, uma cidade que parecia tão terrível e me recebeu de braços abertos, me acolheu em seu seio, e me faz transitar por suas ruas com mais naturalidade do que nunca, justamente por permitir que toda minha estranheza seja natural. E nas reviravoltas da vida continuo sendo muito feliz com minhas escolhas. Cada vez mais. E ainda assim, tenho constantemente aquela vontade de jogar tudo pro alto. Virar eremita.

 

Mas se estivesse no alto de uma montanha, a busca por comida, o frio da noite, o calor da pedra ao sol, a circulação travada nas pernas em meditação, seriam todos problemas meus. A verdade, querida Clarice, é que nossa vida é problema nosso, e essa percepção é extremamente libertadora, ao mesmo tempo que joga toda a responsabilidade das nossas escolhas e ações irreversivelmente e exclusivamente em nossas costas. Então te agradeço pelos devaneios, mas tenho que tirar o feijão do fogo, comer meu pudim (porque de doce de leite já chega o fim de semana), e tenho que encarar aquele cursor piscante, porque essa vida é problema meu, eu sou problema meu, então vou lá me resolver.

 

 

Alice em Oz: Sofia

Hoje sou Sofia. A certeza de que tornei-me personagem bate à porta. Posso não ser uma personagem famosa, posso não ser uma personagem publicada. Mas tenho certeza de que Deus está bancando o escritor, como diria Clarice. Vejam bem, como já devem saber, sou uma adepta da literatura, e sempre li muito. E esses seres estranhos que dividem essa dita realidade com muitas outras, que vem principalmente de livros, mas também de gibis, jogos, músicas, e todos os demais lugares imaginários por onde passei enquanto crescia, e por onde passo sempre que posso, tendem a perceber a própria vida de uma forma um tanto quanto literária. Isso inclui uma dose de drama, uma dose de fantasia, uma dose de nostalgia, uma pitada de coragem e outra de sofrimento, um tempero de brilhantismo e outro de tédio. E nos faz conviver com personagens, tornando-nos a nós mesmos em um certo tipo de personagem.

Eis que eu sempre tive uma birra incrível com dramas e romances que consideravam o destino tão fatídico, tão categórico, que se impunha sobre as vontades das personagens. Também sempre fui crítica da ação padrão dos heróis, de sempre cair no plano maligno, estupidamente, em nome de ações de coragem, valentia e amor. A forma como o destino aprisionava as personagens de Austin ou das irmãs Bronte sempre me deixou indignada. E mesmo sabendo que a própria Austin abdicou do casamento e seguiu como escritora, contra os padrões da época, somente para não recair nas armadilhas do destino, suas personagens geralmente não tiveram o mesmo tratamento. Eu sempre falei aos quatro ventos que se estivesse vivendo em tempos antigos, eu seria a mais terrível das filhas, pois não usaria os espartilhos nem me casaria por arranjo. E muito menos deixaria de dizer o que penso.

Então, por mais que minha vida sempre tenha sido cabalística, e cheia de referências comparativas com minhas personagens preferidas, nunca me vi, realmente, como uma personagem. Mesmo tendo lido O Mundo de Sofia no ano que completaria quinze anos, sentada no alto da minha árvore no jardim, com meu labrador branco, Tobi, de fiel guarda aos meus pés. Mesmo tendo viajado com a escola para os Estados Unidos aos quinze, e lido Harry Potter e o Cálice de Fogo enquanto estava nos dormitórios da National American University e pedia ao Reed Abrahamson para me ensinar a ler os nomes das personagens, incluindo o da Hermione corretamente. Mesmo nessa viagem tendo vivido a experiência do ônibus quase virar na estrada e observar os cervos fugindo dos ursos e lobos, e de sermos salvos pelos índios Sioux, e ter voltado dessa viagem amiga de uma família de estudiosos que costumava fazer trilhas nas montanhas nos fins de semana, e que nos alertou sobre as dificuldades de convivências com os índios da região, e de ter ganhado lá um medalhão protetor de lobo e um coração de cristal, mesmo assim, nunca tinha me visto realmente como uma personagem.

Afinal, eu não cresci num armário, embora tenha brincado muito em uma adega que ficava embaixo da escada. Eu não achei Nárnia no fundo do armário, embora já tenha dormido entre roupas e casacos da minha avó no closet dela só porque chovia e ela nos trancava lá com medo dos temporais. Eu não cresci num castelo, só numa casa com sótão e porão, e portões de toras de madeira com dobradiças aparentes e jardim interno de samambaias onde meu avô controlava a chuva. Eu não aprendi a falar com os animais, embora minha mãe conversasse com os passarinhos e eles respondessem. Eu não cresci órfã, embora tenha vivido sem meu pai até os onze anos, conhecido ele em circunstâncias incrivelmente vitais no desenrolar do meu roteiro de vida.

Hoje, entretanto, sou Sofia. Hoje sou uma professora órfã, que vive num pequeno cômodo no oitavo andar, minha própria torre, entre muitos e muitos pássaros, reais e decorativos. Hoje eu vejo fios soltos sendo reincorporados na trama do meu tecido. Vejo esse tecido e percebo nele as marcas dos cortes bem cerzidos, tão visíveis quanto a cicatriz que hoje carrego na testa, ou seja, só para aqueles que estão perto o suficiente para ver. Sim, hoje em dia eu tenho uma cicatriz na testa. Só não é no centro, mas na têmpora esquerda.

Mas muito mais relevante é como eu percebo hoje as questões relativas a destino, escolhas e o quão eu posso decidir e o quanto Deus banca o escritor. Sempre acreditei no livre-arbítrio e continuo acreditando.  Ao mesmo tempo creio em destino. E não acho que seja contraditório. Temos que fazer por onde, e podemos decidir quais estradas pegar. Ao mesmo tempo existem coisas que aparecerão na nossa vida ou sumirão dela com tanta explicação quando o gato de Cheshire de Alice. Doroty chega a Oz num tornado, levada como uma pena, como diria John Mayer, e volta batendo os calcanhares de seus sapatinhos vermelhos três vezes. Lá ela procura algumas estradas. Sabemos qual ela tomou, mas e os tijolos vermelhos? Para onde vão? E o que teria acontecido caso suas escolhas fossem outras? Teria ela tido o mesmo resultado? E Alice? E se ela não tivesse seguido o coelho? E a Alice de Tim Burton, que duvida tanto de sua própria identidade? E se ela não tivesse lutado contra o jaguadarte?

Essa semana completo meus vinte e oito verões. Há dez verões atrás eu tinha minha vida tão resolvida. Era tão dona do meu nariz. Tinha tantas certezas. E aí meu tornado chegou. Caí em Oz, segui os tijolos amarelos, tive que pôr em prática todos os conhecimentos do meu querido Mágico para conseguir driblar as tragédias da vida, vencer as bruxas verdes, e com muito disfarce continuar livre e viva para segui o coelho, e cair no País das Maravilhas. Lá questionei minha verdadeira identidade várias vezes, e mais uma vez enfrentei minhas batalhas. Eu não preciso mais bater os calcanhares ou aporrinhar Absolem por uma resposta, pois já sei que voltar para casa não significa mais nada. Minha casa é onde estou. Seja lá onde isso for. E como for. Eu sou minha casa. Eu sou Alice, e já passei por Oz, pelo País das Maravilhas e por muitas outras terras fantásticas.

Hoje sou Sofia, e estou aprendendo que às vezes a vida traz novas lições quando menos espero. Hoje sou um pouquinho personagem de Austin ou Bronte, pois estou tendo o gostinho do que significa ter que esperar respostas do destino, acontecimentos da vida, para descobrir quais caminhos se abrirão e quais fecharão. Se é que algum se abrirá ou fechará. Continuo fazendo o que sei fazer de melhor, como diria Skank (vocês não acharam que escapariam, né?) eu abro a porta, eu grito, eu berro, eu enfrento, eu vou de charrete ou caminhão, eu vou a pé, mas eu vou! Para onde? Para onde a vida me levar! Qual a cor dos tijolos eu não sei. Também não sei onde eles vão dar. Mas hoje, eu Sofia, já não tenho as certezas dos dezoito. Eu recebo as incertezas dos vinte e oito de braços abertos. Sabendo que preciso continuar tomando decisões, e lutando minhas batalhas. Mas só. O que brotará no meu caminho, a vida dirá.

Hoje sou Sofia sem precisar ser personagem real ou imaginária. Hoje sou Sofia não porque eu mesma me transformo lentamente em palavras. Hoje sou Sofia porque aceitei que Deus banca o escritor. E enquanto esse Show de Truman continua, a única coisa que aprendi a controlar foi a trilha sonora! Boa musica a todos! Que os passarinhos tragam boas novas! Que a ansiedade por resultados, sejam o das eleições, o das provas, o das minhas ações, seja amenizada pela certeza de que sou Sofia, personagem, vivendo uma história, às vezes cômica, às vezes triste, às vezes romântica, e sempre de muita aventura. Ainda não sei para onde, mas sei que eu vou, e a felicidade não será clandestina!

But trust me on the sunscreen

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscreen)

Ladies and gentlemen of the class of ’99
“Wear sunscreen”

If I could offer you only one tip for the future, “sunscreen” would be it.

The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists, whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience.
I will dispense this advice NOW!
Enjoy the power and beauty of your youth.
Oh, never mind.

You will not understand the power and beauty of your youth until they’ve faded.

But trust me, in 20 years, you’ll look back at photos of yourself and recall in a way you can’t grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked.
You are not as fat as you imagine.
Don’t worry about the future.
Or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubble gum.

The real troubles in your life are apt to be things that never crossed your worried mind, the kind that blindside you at 4 pm on some idle Tuesday.
Do one thing every day that scares you.

Sing
Don’t be reckless with other people’s hearts.
Don’t put up with people who are reckless with yours.

Floss
Don’t waste your time on jealousy.
Sometimes you’re ahead, sometimes you’re behind.
The race is long and, in the end, it’s only with yourself.

Remember compliments you receive.
Forget the insults.
If you succeed in doing this, tell me how.
Keep your old love letters.
Throw away your old bank statements.

Stretch
Don’t feel guilty if you don’t know what you want to do with your life.
The most interesting people I know didn’t know at 22 what they wanted to do with their lives.
Some of the most interesting 40-year-olds I know still don’t.

Get plenty of calcium.
Be kind to your knees.
You’ll miss them when they’re gone.

Maybe you’ll marry, maybe you won’t.
Maybe you’ll have children, maybe you won’t.
Maybe you’ll divorce at 40.

Maybe you’ll dance the funky chicken on your 75th wedding anniversary.
Whatever you do, don’t congratulate yourself too much, or berate yourself either.
Your choices are half chance.
So are everybody else’s.

Enjoy your body.
Use it every way you can.
Don’t be afraid of it or of what other people think of it.
It’s the greatest instrument you’ll ever own.

Dance
Even if you have nowhere to do it but your living room.
Read the directions, even if you don’t follow them.

Do not read beauty magazines.
They will only make you feel ugly.

“Brother and sister together we’ll make it through,
Someday a spirit will take you and guide you there
I know that you’re hurting but I’ve been waiting there for you
and I’ll be there just helping you out
whenever I can…”

Get to know your parents.
You never know when they’ll be gone for good.

Be nice to your siblings.
They’re your best link to your past and the people most likely to stick with you in the future.
Understand that friends come and go,
but with a precious few you should hold on.
Work hard to bridge the gaps in geography and lifestyle, because the older you get,
the more you need the people who knew you when you were young.
Live in “New York City” once, but leave before it makes you hard.
Live in “Northern California” once, but leave before it makes you soft.

Travel
Accept certain inalienable truths:
Prices will rise.
Politicians will philander.
You, too, will get old.
And when you do, you’ll fantasize that when you were young, prices were reasonable, politicians were noble, and children respected their elders.

Respect your elders.
Don’t expect anyone else to support you.
Maybe you have a trust fund.
Maybe you’ll have a wealthy spouse.
But you never know when either one might run out.
Don’t mess too much with your hair or by the time you’re 40 it will look 85.
Be careful whose advice you buy, but be patient with those who supply it.
Advice is a form of nostalgia.

Dispensing it is a way of fishing the past from the disposal, wiping it off, painting over the ugly parts and recycling it for more than it’s worth.
But trust me on the sunscreen.

“Brother and sister together we’ll make it through,
Someday a spirit will take you and guide you there
I know that you’re hurting but I’ve been waiting there for you
and I’ll be there just helping you out
whenever I can…”

Everybody’s Free, Everybody’s Free To Feel Good!

Everybody’s Free (To Wear Sunscreen) (Tradução)

Senhoras e senhores da turma de 99
Usem filtro solar…
se eu pudesse dar um conselho em relação ao futuro,
diria: usem filtro solar.
Os benefícios, a longo prazo, do uso do filtro solar
foram cientificamente provados. Os demais conselhos
que dou baseiam-se unicamente em minha própria
experiencia. Eis aqui um conselho.
Desfrute do poder da beleza de tua juventude.
Ou esqueça, você só vai compreender o poder e a beleza
de tua juventude quando já tiverem desaparecido.
Mas acredite em mim, dentro de vinte anos, você,
olhará suas fotos e compreenderá, de um jeito que
não pode compreender agora, quantas oportunidades se
abriram para você era realmente fabuloso/a. Você
não eh tao gordo quanto você imagina. Não se
preocupe com o futuro, ou se preocupe, se quiser,
sabendo que a preocupação eh tao eficaz quanto
tentar resolver uma equação de álgebra
mascando chiclete. É quase certo que os problemas que
realmente têm importância em tua vida são aqueles que
nunca passaram por tua mente, tipo aqueles que
tomam conta de você as 4 da tarde em alguma
terça feira ociosa. Todos os dias, faça alguma coisa
que seja assustadora. Cante.. não trate os sentimentos alheios
de forma irresponsável. Nao tolere aqueles que agem de forma
irresponsável em relação a você. Relaxe.. não perca tempo com a inveja.
Algumas vezes você ganha, algumas vezes você perde.
A corrida é longa e, no final, tem que contar só com você.
Lembre-se dos elogios que recebe. Esqueça os insultos.
(Se conseguir fazer isto, me diga como).
Guarde tuas cartas de amor.
Jogue fora teus velhos estratos bancários. Estique-se..
Não tenha sentimento de culpa se não sabe muito bem
o que quer ser da vida.
As pessoas mais interessantes que conheço não tinham,
aos 22 anos, nenhuma ideia do que fariam da vida.
Algumas das mais interessantes de 40 anos que conheço
ainda não sabem.
Tome bastante cálcio, seja gentil com teus joelhos.
Você sentirá falta deles quando não funcionarem mais.
Talvez você se case, talvez não.
Talvez tenha filhos, talvez não.
Talvez se divorcie aos 40, talvez dance uma valsinha quando
tiver 75 anos de casamento.
O que quer que faca, não se orgulhe nem se critique demais.
Todas as tuas escolhas tem 50% de chance de dar certo,
Como as escolhas de todos os demais.
Curta teu corpo da maneira que puder, não tenha medo dele
ou do que as outras pessoas pensem dele.
Ele eh teu maior instrumento.
Dance.. mesmo que o único lugar que você tenha para dançar
seja tua sala de estar. Leia todas as indicações,
mesmo que você não as siga. Não leia revista de beleza, a
unica coisa que elas fazem é mostrar você como uma
pessoa feia.
Saiba entender teus pais, você nunca soube a falta que
vai sentir deles. Seja agradável com teus irmãos, eles são
teu maior vinculo com teu passado e aqueles que, no futuro,
provavelmente nunca deixaram voce na mao. Entenda que
os amigos vão e vêm, mas que ha um punhado deles,
precioso, que você tem que guardar com carinho.
Trabalhe duro para transpor os obstáculos geográficos
e da vida, porque, quanto mais você envelhece tanto mais
precisa das pessoas que conheceram você na juventude.
“More em Nova Iorque, mas mude-se antes que a cidade transforme
voce em uma pessoa dura. More na Califórnia, mas mude-se
antes de tornar-se uma pessoa muito mole”.
Viaje.. aceite certas verdades eternas:
Os preços sempre vão subir; os políticos são todos
corruptos e mulherengos; você também vai envelhecer.
E quando envelhecer, vai fantasiar que, quando era jovem,
os preços eram acessíveis, os políticos eram nobres
de alma e as crianças respeitavam os mais velhos.
Respeite as pessoas mais velhas. Não espere apoio de ninguém.
Talvez você tenha uma aposentadoria.
Talvez tenha um conjugue rico.
Mas, você nunca sabe quando um ou outro podem desaparecer.
Não mexa muito em teu cabelo. Senão, quando tiver 40 anos
vai ficar com a aparência de 85.
Tenha cuidado com as pessoas que lhe dão conselhos,
mas seja paciente com elas. Conselho é uma forma de nostalgia.
Dar conselhos eh uma forma de resgatar o passado
da lata de lixo, limpa-lo, esconder as partes feias e
recicla-los por um preço maior do que realmente vale.
Mas, acredite em mim quando eu falo do filtro solar.

Quedas dramáticas

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.