Sons novos e meus sons

Estou pela primeira vez escrevendo dentro da minha casa nova. Nossa. De verdade. Assim, tipo, de papel passado, que nem o casamento. Eu demorei quase um ano pra conseguir chamar o André de marido sem rir, ou me sentir uma dona de casa louca dos anos 50. Será que com o apê vai ser assim também? Ainda não me acostumei com os sons. Eles quase não existem, veja bem. Mais às vezes a porta do vizinho bate e eu não sei se foi aqui ou não. Sou de novo um alien, uma estranha, uma estrangeira, mesmo dentro da minha casa.

Olho um pouco pro lado e vejo meu cão, o Picot, esparramado no sofá. Temos um sofá esparramável agora. Isso também me assusta um pouco. Percebo que o som dos meus dedos nas teclas soam altos demais. A casa está silenciosa. O som é estranho. Parece que digito com mais força que o necessário. Parece que desaprendi a escrever. Esses sons, essa falta de som, vão me deixar louca. Pauso a escrita e aperto o play. Respiro, inspiro e expiro profundamente com as primeiras notas. Enya. É clichê. Eu sei. Mas as palavras voltam a fluir junto com o Oniroco nos meus ouvidos. Já não escuto meu pescoço estralando, a borracha das botas apitando no piso azulejado ou o som das minhas teclas ou das outras, pois em outro cômodo o André também está no computador dele. Dois mundos, duas vidas. Nessa nova casa cabem muitas.

É a segunda vez que mobílio uma casa quase que de uma vez só, considerando o básico. Isso sempre me assusta. Me sinto ousada demais, comprometida demais com essa vida, esse futuro. Mas aí lembro que não é a primeira vez que faço isso. Já aprendi que as coisas, os objetos, os móveis, as roupas, eles vêm e vão, com o vento, com a vida. E a minha é dessas. Às vezes me sinto abençoada até demais, e fico com medo do que espreita na próxima esquina. Em outras lembro de tudo o que já passei, e lembro que mesmo quando a onda sobe, consigo ver claramente, por baixo das espuma branca, o verde claro, o verde escuro e o azul profundo. Sim, eu conheço intimamente aquele azul profundo. Já estive lá tempo suficiente para aprender a respirar embaixo d’água. Para aprender que tenho nos meus braços fibra suficiente para retornar, quantas vezes forem necessárias. Sobrevivo ao mar porque sou maré. Vou e venho mais que ele, vou e venho porque sou quem o faz subir e descer.

Tinha esquecido do chá. Verde com raspas de laranja. Comprei em Granada. Que cidade maravilhosa. Estou devendo os detalhes dessa mudança louca e incrível. 2005, uma mudança de casa, a da infância para o purgatório. 2009, do purgatório para a (única de verdade) casa da minha mãe. 2012, fuga cega de lá, fugindo da morte e do futuro, refúgio no porto seguro da família. 2013, minha casa de bonecas, meu mundo turquesa, branco e lilás, com pássaros em todos os cantos! 2014/2015, um mês na casa do outro, descobrindo a vida a dois. 2015, a construção de um lar a dois. Pedacinhos da minha casa de boneca se fundiram com móveis de família, coisas que já estavam lá, novo e velho e sua síntese. 2016/2017, país, cidade, praticamente mundo novo. Nada meu, nada nosso. Nenhum direito à propriedade. Muito direito à liberdade. Neve e montanhas. Queijo de cabra e chocolate. Muita introspecção e muito saco de dormir, fogareiro e lampião. 2017/2018, ufa! Uma casa para chamar de nossa. Ikea. Espaço. Quartos. Assim, no plural. O barulho do trem na janela, e todos esses outros barulhos que ainda não sei nomear. 9 casas, e contando.

Só tive cortinas, dessa que se compra na loja, decorativa, em duas delas. As duas que mobiliei. As outras ou eram muito passageiras, ou não eram tão minhas. Quando pendurei aquelas cortinas turquesa, cheias de pássaros brancos, sabia que precisava daquela luz azul filtrada, e daqueles pássaros para decorar minha pequena gaiola de 20m2. Vivi empoleirada ali o tempo suficiente para aprender a voar. E voei muito. Muito mais longe do que imaginava. Só não tinha aprendido ainda, que para levar um coco, são necessárias duas andorinhas. Talvez por isso esse novo voo seja tão longo e as distâncias tão grandes. Agora somos duas andorinhas, levando esse coco pelo mundo. Olho minhas cortinas cinza. Penso nisso. Eu, que sempre fui fã das cores, de tudo junto e misturado, das casa de boneca, dos contos de fadas, agora tenho uma casa monocromática. Preto. Branco. Cinza. Talvez aqui eu perca o medo ou me acostume com a ideia de ser adulta. Não, o fato de 31 anos ainda não me fez aprender isso.

Ao mesmo tempo que vejo nesses muitos quartos, assim, no plural, e nos tons sérios, uma vida possivelmente mais adulta e muitas possibilidades e desafios incríveis, além de oportunidades muito boas e concretas, se abrindo nesse novo horizonte, sei que o armário da cozinha continua tendo cookies e chocolate cremoso. Que a faxina continua sendo postergada ao limite. Que nós ainda fazemos fortes de travesseiros, e todas essas almofadas desse enorme sofá somadas à mesa de centro só fazem isso ficar mais fácil.

Que parte da nossa decoração, a única do momento, se constitui em mini personagens de desenho animado, de plástico colorido, que ganhamos na promoção do supermercado. Agora nossos livros de filosofia e línguas dividem a prateleira com o Capitão Cueca, o burro do Sherk e a Zebra de Madagascar. Espero que essa síntese, das cortinas cinza e do burro de madagascar cueca me ajudem a continuar crescendo, a continuar mais próxima da espuma branca do que do azul profundo. Que eu não tenha medo dele, mas me lembre bem da sua cor e da sua falta total de sons para que os sons estranhos de agora não me assustem.

Lauper canta na minha orelha e eu lembro que é parte da vida só querer diversão. Que eu me autorizo a ter 31 anos, um apartamento digno de adultos e comer chocolate cremoso por cima dos cookies enquanto assisto maratonas do netflix debaixo do forte de travesseiros. Que eu me autorizo a me sentir soterrada pela burocracia, e que a vontade de jogar tudo pra cima não é só minha. Quem sabe um  pouco de som dos 80’s dançando na sala com o cachorro e rindo do marido não façam eu me acostumar com todo esse cinza, toda essa papelada e toda essa vida concreta da mesma forma que me acostumei com a palavra marido. Perdi o medo dela, depois de revirar que nem uma bala na boca, esperando derreter, que nem doce.

Continuo com medo dos ventos que me levam por aí em busca de novos sons e novos chocolates. Mas já sei que em vez de perder casas, vou colecionando elas. E pra deixar o momento mais perfeito a Salmazo me canta sobre a palhoça dela. Acho que vou lá tirar nossa fotografia do dia, e encher essa sala dos meus sons. Desconecto o fone de ouvido do computador e salvo o texto. Vou dançar comendo chocolate cremoso.

 

Big Little Lies

Apesar do texto ir ao blog na terça, hoje é sábado. São quase 18h e eu estou atônita, olhando para a tela do meu computador depois de terminar de assistir Big Little Lies, sem saber o que pensar, o que sentir, além de que eu queria muuuuuuuuito nesse momento dar um abraço bem forte em todas as mulheres que eu conheço e dizer “Você não está sozinha! Está tudo bem!”

Eu não vou dar spoilers, e peço a gentileza que não deem, caso deixem comentários, mas recomendo fortemente que assistam! Especialmente se você for mulher. Não é um seriado leve. É forte, os temas são pesados. Mas fala muito profundamente com o âmago da realidade de ser mulher. Mesmo que seja de uma mulher linda, rica, californiana.

Esse seriado é extremamente relevante, embora possa não parecer a princípio, porque fala de algo que hoje em dia é norma: a falsa realidade, a vida aparente. Lembre-se sempre, sempre, que todas as pessoas do mundo, apesar das fotos de viagens, comidas lindas e gostosas, amorzinhos sem fim e tudo o mais que o facebook, instagram e mídias sociais representam hoje em dia, todos são humanos! E todos nós levamos uma bagagem bem pesada nas costas!

Algumas bagagens são mais violentas, outras mais amorosas, algumas mais sofridas em silêncio e outras aos berros, mas todos nós temos uma bagagem enorme. E todas as mulheres apendem desde cedo a sorrir, serem bonitas, apesar de, e justamente porquê possuem, suas bagagens.

Tratem as pessoas com amor, a gente nunca sabe o quanto o outro precisava daquele abraço, daquele elogio sincero, daquela pausa pro café, pra desabafar, pra sentir confiança em contar com o outro. E mulheres, minhas irmãs, sejam mais solidárias! A gente sabe o quanto cada uma sofre, e sabemos que por trás de cada sorriso existe muuuita bagagem! Vamos nos olhar nos olhos de forma a ir além dos sorrisos, e dar amparo à alma! É tudo que ofereço e peço!

De quebra, assista quando puder. São 7 episódios de aproximadamente 1h cada. Veja na ordem. Não veja o sétimo antes de nenhum outro. Você só respira aliviada nos últimos 10 minutos. Até lá, perceba na maldade humana o reflexo de outras maldades, e perceba que os ciclos não se rompem sem muito amor, muito apoio e muita sororidade!

Ah sim, aproveita e baixa também a trilha sonora, vale a pena!

Aproveito pra deixar aqui essa dose de amor bem nessa semana que completei meus 31 anos. Sim, eu amo ser uma mulher na casa dos 30! E sinto que ficará cada vez melhor! ❤

bll cafebll

 

Dicas de Filmes – 1º parte: Filmes para Entender o Mundo

Esses dias um amigo fez um post no Facebook pedindo sugestões de filmes. Fiquei um bom tempo pensando, já que ele se declara um não fã de cinema e queria conhecer. De tanto pensar, me veio a ideia de fazer esse post.

Vou dividir minhas sugestões em tópicos, para auxiliar nas escolhas de quem quiser pegar as dicas e fazer umas maratonas de filmes com muita pipoca e chocolate em casa!

Tendo feito uma primeira seleção de cinco títulos, organizados sob o tema: Para entender o Mundo, convidei o André para escrever um pouco sobre cada um deles! Nos próximos posts dessa série vamos comentar juntos outras categorias de filmes, como drama, ação, suspense, e categorias temáticas, como a de hoje, unindo filmes por um fim condutor próprio, como Homem X Natureza, e outros do tipo:

(by André):

O primeiro quinteto de filmes que sugerimos são focados em denuncias e abusos do sistema capitalista. Claro que, como sempre, sofrem os mais fracos. Por isso são filmes um pouco mais difíceis de se achar, pois dependem que pessoas que não sofram diretamente a violência e tenham o senso de justiça para denunciá-las. Também são filmes que raramente ganham algum prêmio, já que o destaque deles certamente faz com que alguns grupos influentes percam prestígio e, consequentemente, dinheiro.

Dá pra perceber pela lista que fizemos que a África é tema recorrente para falarmos de exploração e abusos. Dois filmes se passam integralmente nele e outro tem uma extensa parte sobre o continente. Lá, nem as leis são consideradas leis pelos órgãos internacionais e nem as pessoas são consideradas pessoas pela mídia internacional ou pelas empresas. Basta ver o destaque que algumas poucas mortes na Europa ou Estados Unidos recebem, quando comparado com massacres gigantescos na Nigéria ou na Republica democrática do Congo (onde, aliás, os belgas mataram mais congolenses do que Hitler matou judeus…). O resultado disso é o aproveitamento de diversas indústrias para ampliar seus lucros a todo custo.

Outro tópico importante de se ressaltar na nossa lista é o papel da ignorância para que tais atividades continuem funcionando. Em todos eles, a falta de conhecimento do público geral sobre as atrocidades cometidas faz com que não haja pressão para mudanças. Muito mais seguro para os investimentos assim, pois o silêncio de alguns jornais, seja com propina ou assassinatos, sai mais barato do que comprar parlamentares ou juízes em nações desenvolvidas para evitar punições, e ainda ter que arcar com os custos da perda de reputação.

Alguns deles trabalham também a sinergia de corrupção entre companhias e políticos. Claro, todos nós gostamos de pensar que o “mundo ocidental” é democrático. Mas por isso mesmo fechamos os olhos para a velocidade com a qual o capital mobiliza parlamentos e presidentes por trás dos panos, às vezes compartilhando os espólios de suas empreitadas, às vezes fazendo o trabalho sujo que os próprios governos não querem fazer. O resultado é a venda de uma imagem adorável e trabalhadora para a população, mérito dos infames marqueteiros, mas uma realidade asquerosa de compactuação com o que há de mais deturpado na sociedade.

Imagino que conseguimos cobrir uma gama de setores escusos com esses filmes, com carne, armas, fármacos, petróleo e jóias. Claro, há muitos mais filmes, mas esses são diversificados e com qualidade garantida!

  1. Filmes para entender o mundo 
    1. Cowspiracy (2014)
    2. Terra Prometida (2012)
    3. Senhor das Armas (2005)
    4. Diamantes de Sangue (2006)
    5. O Jardineiro Fiel (2005)

Atwood e as Handmaids

Eu comecei The Handmaid’s Tale por causa da série, que está em destaque e comecei a ver referências na minha timeline do facebook o tempo todo. Li em menos de uma semana. Devorei! Recomendo fortemente o livro, que é de 1985, um ano mais velho que eu e tão atual como nunca, infelizmente. Geralmente sou um pouco cética com livros que bombam por causa de filmes, séries, adaptações, visibilidade midiática, porque muitas vezes é feito um marketing em cima da história apenas para que a versão mais vendável e “palatável”, geralmente a visual, ganhe destaque.

Vejo isso acontecer com muitos best-sellers e por isso desanimo um pouco da leitura quando há muito bafafá sobre os subprodutos de um livro. Há, claro, exceções. As Crônicas de Gelo e Fogo, do Geroge Martin, eu só descobri graças à série, Game of Thrones, e devorei rapidamente os 5 livros disponíveis antes mesmo de terminar de assistir à primeira temporada da série. Gosto muito de ambos, livros e séries. Outras adaptações ficaram muito famosas também, como as do Tolkien, Senhor dos Anéis e O Hobbit, e as da J.K. Rowling, com Harry Potter. Não sou contra adaptações, aliás, gosto muito de observar e comparar. Apenas acho que muitas vezes a atenção dada pela mídia é apenas promoção, marketing.

Dessa vez o que me fez ir conferir o livro foi o fato dele ser recomendado pela Emma Watson (eternamente a Hermione), que possui um clube de leitura feminista do Goodreads e eu resolvi ir conhecer.

Atwood é maravilhosa. O livro me surpreendeu muito. Atwood escreve de uma forma muito feminina, descrevendo a percepção de detalhes ínfimos, como as cortinas ou uma almofada, por linhas sem fim. Mas isso não se deve apenas ao detalhismo, ou excesso de descrição, muito pelo contrário. O efeito da descrição demorada é passar para o leitor a ansiedade da espera a qual a personagem é submetida diariamente na sua vida. Conforme a narrativa se desenvolve as descrições lentas vão abrindo espaço para descrições brutas, às vezes beirando o escatológico (algo que me agrada muito para quebrar com a visão feminina equivalente a delicadeza), e a exposição à brutalidade é também uma forma de gerar no leitor a repulsa sentida pela personagem, bem como sua indiferença em outros momentos.

Assim, para todas as leitoras, existe uma identificação que vai além da mera empatia para com a personagem. Ela é uma mulher. Ela é qualquer mulher. Ela é todas as mulheres. Nesse brilhantismo, Atwood discorre usando uma distopia (cada vez mais próxima da realidade, infelizmente) para agudizar todas as brutalidades sofridas pela mulher na sociedade.

Não vou dar spoilers, mas recomendo o livro. A temática, do ponto de vista político é absurdamente necessária nesse momento, e o estilo é arrebatador, justamente pela proximidade que trás das personagens, com todas e todos nós. Nesse livro não há monstros e heróis, há pessoas, humanos, cheios de defeitos, subprodutos do sistema, cada um com seus vícios, sofrimentos, solidões, ânsias, desejos e penúrias. As consequências são sim monstruosas, mas a forma de mostrá-las, todas as personagens tão humanas, nos faz pensar menos num mundo de Batmans e Mulheres Maravilhas, e mais no nosso mundo.

Mulheres, fiquem atentas! Não podemos ceder nos nossos direitos! Homens, leiam, e façam a reflexão. Pensem nessa narrativa dessa forma humana e imagine seu papel na narrativa que queremos construir nesse mundo.

Recomendo dois textos, mas já advirto que há **spoiler** em ambos!

Tive o prazer de terminar de ler The Handmaid’s Tale no Dia do Canadá e me deparei com esse perfil feito pelo The New Yorker da Atwood, e achei brilhante. É um texto longo, mas dá pra conhecer mais sobre a autora!

Depois me deparei com esse texto da Boitempo, The Handmaid’s Tale: um aviso de incêndio para o cenário político atual, que também me colocou para pensar! Ficam aqui então as sugestões de leituras!

Deixem comentários com suas percepções! Nolite te bastardes carborundorum!

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Bela Watson

Eu cresci apaixonada pela Bela, da Disney, do filme A Bela e a Fera, de 1991. Desde que vi o filme me identifiquei profundamente. Minha barbie favorita era a Bela (versão vestido azul, camponesa), com um livro na mão. Pra mim ela será sempre a não-princesa, lembrando que ela é camponesa, que amava ler e conhecer coisas novas. Amava o pai e nunca teve medo da Fera. Pra mim ela sempre foi sinônimo de liberdade!

Nos últimos anos comecei a ver muita gente fazer a crítica e levantar a questão da Síndrome de Estocolmo, onde o sequestrado se apaixona pelo sequestrador, numa alusão de que isso era o que tinha acontecido entre a Bela e a Fera e que romantizar isso é romantizar um abuso. Essa visão sempre me incomodou um pouco, mas aceitei a crítica, achando que o incomodo poderia vir justamente da minha dificuldade em desconstruir meus símbolos de infância,  afinal, eu também cresci vendo Disney.

Ano passado a Emma Watson anunciou que faria a nova versão do filme, A Bela e Fera, também Disney, uma releitura que promete ser fiel à animação de 1991. Amei! Já sou fã da Emma pelo trabalho com Hermione, outra personagem com a qual me identifiquei profundamente na adolescência, a menina inteligente, bookworm, que não leva desaforo pra casa, e ainda luta pelas questões sociais (leia os livros e descubra a atuação dela na libertação dos elfos domésticos da situação de escravidão).

Alguns blogs e páginas que eu sigo vieram com a crítica. Que eu acho sempre válida de ser feita, especialmente para não aceitarmos o peso da influência Disney sem questionamentos. Criticaram a Emma por aceitar o papel, iludindo milhões de fãs, que já a admiram pelo papel de Hermione, no papel de Bela, a menina bonita da vila, que sequestrada pela Fera, aceita um relacionamento abusivo (a Fera além de prendê-la, grita, faz exigências e etc), em troca de uma biblioteca e da esperança que ele mude. Essa crítica me incomodou de novo. E de novo, achei que fosse porque eu precisava rever meus próprios preconceitos, machismos e me desconstruir.

Li também a crítica à Watson pelo fato dela ser a representante da ONU Mulheres no programa He for She, que busca aumentar a consciência das mulheres e homens para a questão de gênero e fazer ações concretas para melhorar a situação da mulher no mundo, especialmente superando a violência doméstica e aumentando o acesso das mulheres à educação e conhecimento, e ainda assim aceitar ser a Bela, dadas as premissas negativas do filme, a Síndrome de Estocolmo, o machismo, as mudanças de humor e a promessa irreal de mudança. De novo me incomodei e de novo achei que precisava me rever meus conceitos.

Isso ficou me incomodando, lá no fundo da cabeça, da memória e do coração. E vi um meme da Emma, com uma camiseta com uma fala da Hermione: “When in doubt, got o the library”, (quando em dúvida, vá a biblioteca), uma alusão à capacidade da personagem de solucionar os maiores enigmas da saga Harry Potter consultando livros. E foi o que fiz. Só que em vez de livro, fui rever o filme A Bela e a Fera, da Disney de 1991.

Ressalto aqui que fiz minhas reflexões sobre o filme, versão 1991. Não sobre os livros com versões do conto. E explico porque. O livro pode conter outros aspectos, mas a minha influência pessoal foi o filme, que assisti em 1991, com 7 anos de idade. Além disso, o filme 2017 com a Watson é totalmente baseado no filme de 1991 e não no livro. Acrescento que não tinha reassistido o filme nunca mais. Estava com a memória dos meus 7 anos lá guardada. Dado o parêntesis, vamos aos fatos.

Ao assistir novamente a animação ficou claro pra mim os motivos pelos quais tanto gostei em 1991 e que são os mesmos pelos quais continuo admirando a animação ainda mais hoje. Sei que sou muito Bela e muito Hermione e entendo e corroboro a Emma pela aceitação do papel. Desde a primeira fala, a primeira música, a Bela diz que quer mais do que a vida provinciana da vila. Que quer conhecer o mundo. Sua paixão pelos livros não está limitada à leitura per si, mais ao conhecimento que ela trás.  Então vamos aos fatos que o início do filme nos trás: 1. A Bela e o pai não são originalmente daquela vila. 2. Ele é inventor (busca pelo novo e desconhecido) e é visto como louco na cidade. 3. Ele quer vender a invenção na feira para conseguir “uma vida melhor” para ele e sua filha. A parte de se mudar da vila após a venda não está explicitada e é uma interpretação pessoal baseada no que falam. Ressalto ainda que dadas as premissas, eles não sofrem necessidades básicas, e ambos desejam conhecer mais, “uma vida melhor” não diz respeito à questões de renda e sim de um local onde ambos não sejam vistos como loucos, ou diferentes, por querem conhecimento.

O Gaston. Se eu já odiava essa personagem desde 1991, agora só piorou. Ele sim é a representação completa do machista. Além de se achar a criatura mais linda, gostosa e poderosa do universo, o idiota tem um mindset mais fechado que cofre de banco. Ele deliberadamente diz que quer casar com a Bela porque ela é a mais bonita, e portanto ele tem o direito de possuí-la, como um troféu, a trophy-wife, para o maior caçador da região. Isso sem nem mencionar que ele é caçador. Mas mais do que isso, ele menospreza ela, e todos os demais, homens e mulheres, e é completamente incapaz de perceber que ela jamais ficaria com alguém como ele, quiça ficaria na vila, algo que parece muito duvidável. Isso sem falar na menção aos 6 ou 7 filhos e na obrigação de cuidar dele, inclusive com massagens nos pés. E além disso, o desprezo dele pelos livros, os quais ele considera perigosos pois fazem pensar. Ele joga o livro dela na lama, põe os pés imundos em cima e despreza o que os livros representam, o conhecimento e a liberdade, tanto quanto pode.

Gaston se supera e consegue ainda um plano macabro envolvendo pagamento em dinheiro para aprisionar o pai de Bela, como maneira de “convencê-la” a se casar com ele. Sua reação quando descobre a existência da tal Fera é a de caçador, exterminamos e pronto. Quando percebe a afeição da Bela pela Fera e se sente preterido, aí torna o assunto pessoal. Gaston representa toda a intolerância com o desconhecido ao incitar a vila a matar a Fera, além de prender a própria Bela e seu pai no porão para não avisarem a Fera a tempo. Mas lidar com o Gaston é fácil, ele é o vilão. Medíocre como esperado. Violento como esperado.

E assim as críticas recaem sobre a Fera. A Fera é a personagem mais esférica, na minha opinião. Ouvi críticas sobre a inconsistência da animação pois a bruxa amaldiçoa o jovem príncipe, e diz que suas chances de voltar a ser humano acabariam no seu 21º aniversário e depois no filme os objetos/servos do castelo comentam que já estão naquela forma a 10 anos. Para mim isso não é uma inconsistência, é apenas o fato de que não envelhecem enquanto estão amaldiçoados, tanto que o pequeno Chip continua sendo uma criança pequena nesses 10 anos. Além disso há que se lembrar que ele poderia ser bem novo e ainda assim “senhor” do castelo dadas as premissas da época.

Quando foi encantado, o jovem príncipe se recusa a ajudar uma mendiga, acusando-a de ser feia e maltrapilha e por isso ela o transforma em fera hedionda, e ainda por cima faz com que a quebra do feitiço venha apenas quando alguém conseguir amá-lo apesar da forma. Por mais que eu ache que o príncipe estava absolutamente errado, e era um ser arrogante e aristocrático (características redundantes nesse contexto), a bruxa pegou pesado ao incluir no castigo todos os servos, que não tinham nada a ver com isso, e que também ficaram amarrados pelo time frame da maldição. Além de arrogante, o jovem príncipe agora vira Fera, absolutamente solitário e sem ter a menor ideia de como amar alguém ou se fazer amado. Se ele tivesse continuado igualmente arrogante o castelo seria limpo, lindo, apesar de assustador e ele seria uma Fera dominadora. Mas ao contrário do Gaston, sempre com a auto-estima no céu, a Fera duvida de si mesma e do mundo. Como um bicho acuado e seu canto, ainda que esse canto seja um castelo, e com todo o passado arrogante por trás.

Essa dualidade faz dele um ser cheio de mudanças de humor e muita dificuldade de se relacionar, com quem quer se seja, além da solidão crônica. Não acho que isso seja justificativa para seu comportamento arrogante inicial, mas certamente deve ser considerado depois de 10 anos. É fato que apesar da maldição, ele só esperava ser deixado em paz, em sua solidão amaldiçoada.

Quando o pai da Bela entra no castelo, o que não deixa de ser uma invasão, e é bem-recebido pelos servos-objetos, a Fera se torna agressiva, sim, mas como um bicho acuado. Com vergonha e medo de que o vejam, de que saibam de sua existência. E o prende não para diversão própria ou crueldade pura, mas como resultado desse medo e dessa frustração, somados à arrogância anterior.

Mas vamos a Bela. Todos falam de Gaston e da Fera, para explicar os acontecimentos, como se a Bela fosse um ser inanimado que só acompanha os homens da história, pai, Gaston, Fera, quando na verdade ela é o centro e o motivo dos acontecimentos principais. Desde o início Bela se declara enfadada com a vida provinciana e com sede de conhecimento. Ela é segura de si e muito firme, sendo muitas vezes teimosa e autoritária também.

Ao encontrar o pai no castelo ela pede para ficar no lugar dele, e se observado com cuidado, não só para salvar o pai, que como diz já está velho, mas pela mudança. Pela curiosidade. Por mais que uma vida provinciana. Claro que ela chora, e questiona as próprias escolhas, como fazemos todas. E no mesmo momento descobre que o castelo não sera sua prisão, que ela tem liberdade ali dentro e sera servida, apenas a Ala Oeste é proibida. Na primeira oportunidade ela vai até a ala, desrespeitando a regra, por curiosidade e sede de conhecimento. Ao ser confrontada pela Fera, que estava em seu direito de proibir a ida a ala, embora não no direito de aprisionar ninguém, Bela sai do castelo. E ao sair diz “sei que dei minha palavra, mas não posso ficar nem mais um minuto aqui”, e ninguém a impede, nem a Fera. Desconstruindo um pouco a ideia de prisioneira e síndrome de Estocolmo.

Sai loucamente, a noite, numa floresta amaldiçoada, e é atacada. A Fera vem em seu salvamento e quase morre. Ela podia ter seguido para casa daí, mas decide voltar. Talvez por culpa ou remorso, mas acho que também pela gratidão e pela curiosidade. Não só a curiosidade com a Fera, mas com todo o castelo, com todo aquele mundo. E lá fica, e lá descobre aquelas pessoas fantásticas, e, claro, a biblioteca dos sonhos. Nesse ponto, existe, claro, o peso da “obrigação” da Bela de ficar, mas pela palavra dada e não pela força.

Já vi muitas pessoas interpretarem como alusivas as relações abusivas, onde não há violência física, mas sim psicológica, e onde a mulher muitas vezes fica por se sentir culpada, obrigada, devedora, ou não merecedora de algo melhor e acho super importante debater tudo isso, inclusive por meio de filmes e animações para que o debate chegue até as meninas. Mas não acho que é o caso da Bela. Ela parece estar sempre no controle. Ao contrário da Fera, que é inseguro, que apesar de ter acesso aquilo tudo desconhece muito, inclusive reluta em admitir a dificuldade em ler. Enquanto Bela me parece muito dona do próprio nariz, sabendo aproveitar tudo aquilo como ninguém.

No primeiro momento em que demonstra tristeza e fala que gostaria de ver o pai, a Fera proporciona a visão, por meio do espelho, e a “libera para ir”,  lembrando que ela já tinha saído antes. E ela vai para ajudar o pai, mas claramente relutante em ir.

Mais a frente, ao chegar na vila e descobrir toda a confusão com o pai, Gaston, os planos malígnos do asilo, e ao informar a vila sobre a Fera, na tentativa de salvar o pai, e de ambos sofrerem a prisão, fala para Gaston “o monstro é você, não ele”, deixando claro como se sentia em relação à Fera (e ao Gaston).

Outra coisa que em chamou atenção ao rever o filme é que ela não sabe do feitiço, não sabe que a Fera se transformaria, nem que aqueles objetos eram pessoas. Demonstrando que seus sentimentos por todos aqueles no castelo eram genuínos.

Em geral não estou aqui pra defender a Bela e a Fera enquanto filme, embora ache que mereça, mas sim pra defender a personagem da Bela. Que é uma mulher essencialmente curiosa, que busca conhecimento, que busca o mundo e que não se rende para ninguém. Quando é para se afastar do pai pelo que considera necessário, ela tem a coragem de fazer, para conhecer, para entender. A Bela se posiciona contra os avanços bem abusivos do Gaston, contra a injustiça à Fera, contra a própria Fera. Nos primeiros momentos, no primeiro dia se recusa a jantar com a Fera e diz isso em alto e bom som. A Bela não abaixa a cabeça. E por isso acho que é diminuí-la considerar que ela foi vítima da Síndrome de Estocolmo, da sedução por relação abusiva da Fera e ficou por isso. Essa não é a Bela que eu conheço.

A Bela que eu conheço é forte, corajosa e muito curiosa! Ama o desconhecido e vê as coisas pelas suas atitudes. Responde, é teimosa, faz o que quer, quando quer, não tem medo das consequências nem das represálias. A Bela é livre! E rever a animação me devolveu a confiança no meu gosto, desde os 7 anos. Na minha visão de uma mulher independente, sonhadora e curiosa. E tenho certeza que ninguém faria melhor jus a essa personagem que a Emma Watson.

(Little Town song, The Beauty and the Beast – 1991)

(Little Town song, The Beauty and the Beast – 2017)

Sonhos e aprendizado

(**Atenção: não são spoilers, mas há comentários sobre os filmes Into the Wild e Capitão Fantástico que falam de suas conclusões**)

Às vezes acho que é um reflexo da minha geração, que ao mesmo tempo tem muito acesso à informação e muitas desilusões. A vontade de largar tudo e ir viver aventuras, em se embrenhar no mato, conhecer o mundo, se conhecer, não nos larga. Mais é mais do que isso, tem uma parte grande de insatisfação e frustração, em dificuldade de viver da forma “esperada” e muitos sonhos que parecem nos isolar tanto dos demais, especialmente da geração anterior. Mas aí (re)leio Walden, e percebo que o Thoreau já sentia tudo isso, e percebo que o gap não é necessariamente geracional, mas entre pessoas, almas, espíritos, aqueles que simplesmente veem o mundo de outra forma.

Em busca desses sonhos muitas vezes nos perdemos, erramos e acertamos, e temos momentos de felicidade e momentos de desespero, tormenta e bonança, assim como em qualquer caminho de vida. A maior lição do Alexander Supertramp é que a felicidade precisa ser compartilhada, e isso nos ensina, especialmente aos mais introspectivos (pra não dizer anti-sociais) que é preciso cuidado para não se isolar demais. A maior lição do Capitão Fantástico é que precisamos ceder um pouco, ser menos estritos e exigentes na ideologia pois ainda que trilhemos caminhos próprios, estamos no mesmo mundo e o contato com a sociedade continua.

Ao mesmo tempo é importante perceber que aqueles que buscam esse auto-conhecimento não o fazem apenas por egoísmo ou insatisfação, existem conceitos ideológicos fortíssimos que os orientam, e os que discordam desses conceitos não conseguem compreender, concordar ou aceitar as decisões tomadas, e muitas vezes não estão dispostos a tentar entender. Se para quem se isola falta habilidade social e paciência, para quem conhece o “isolado” falta empatia e aceitação das diferenças. De um modo geral, diria que todos deveriam, pelo menos temporariamente, se jogar no mato, rever os conceitos, repensar a alimentação, a relação com o meio ambiente e o sistema no qual vivemos em sociedade, que nos exige tanto consumo e tantas energia, muitas vezes desperdiçados.

Eu tenho buscado simplificar minha vida nos últimos anos. Para quem lê aqui com frequência sabe dos meus processos, de perdas familiares, mudanças e busca por auto-conhecimento. A primeira fase foi de reconstrução e consequente acúmulo. Precisei mostrar pra mim (e também para a família e para a sociedade, mas essencialmente para mim) que tinha capacidade de ter. Ter. Emprego, dinheiro, casa, móveis, roupas (simples e chiques), coisas, eventos, agenda social. Cumpri! Talvez não a contento de todas as expectativas, mas a contento da minha. E mesmo enquanto construía esse caminho ia deixando portas abertas, adquirindo habilidades e condições de seguir outros, de precorrer caminhos, conhecer outras oportunidades.

Há alguns anos venho construindo um outro caminho, e não sei por quanto tempo ficarei nele. Mas um caminho que tem uma dose de desconstruído. Enquanto tive um período de acúmulos, seja de renda, bens, objetos, e mesmo de momentos, pessoas, amizades, oportunidades, agora estou no de desapego! Desde a mudança de Brasília para São Paulo fui me desfazendo de muitas coisas. E também de muitas obrigações. Por exemplo, durante 2 anos usei lingerie combinando todos os dias! Não falhou unzinho! Geralmente era sutiã e calcinha conjunto, combinado mesmo, mas se não fosse conjunto era no mínimo da mesma cor e estilo. Fiz porque achava isso o máximo? Não. Fiz pra experimentar. 99% do tempo ninguém viu, e ninguém sequer soube que eu estava combinada, mas eu sabia. Fiz por mim! Foi um momento próprio e peculiar que fez sentido num período de reconstrução da minha auto-estima, e também de aperfeiçoar a librianisse.

Agora estou num período em que reduzi drasticamente meu guarda-roupa, inclusive de underwear, e com isso estou praticando descombinar, inclusive pra trabalhar o psicológico e não ficar com mania de perfeccionismo. E sabe o que é mágico? Minha vida não é melhor nem pior com ou sem calcinhas combinadas. Tudo faz parte do que faz sentido em cada momento. Se vou usar um top de sustentação de exercício físico não faz nenhum sentido combiná-lo com a calcinha como se fosse um conjunto, porque não é. Não é prático e nem necessário! Mas se quero tenho lá um outro conjunto guardado pra um momento especial, que pode ser a dois, ou apenas aquele dia que eu quero me sentir linda, e ninguém nem vai saber!

Mas o que calcinhas têm que ver com isso? Com o mato, e uma vida mais isolada? São um exemplo. Um exemplo pequeno, só pra demonstrar meu caminho. Esse caminho de auto-conhecimento, especialmente quando aliado a questões ideológicas nos afasta das pessoas, e da sociedade tradicional. O que me diferencia drasticamente do Thoreau é isso aqui, eu não escrevo um diário, eu escrevo um blog! Ainda que sem internet em casa, usando um pouquinho de 4G no celular pra publicar algumas fotos, e respondendo e-mails e atualizando o blog 3X por semana na biblioteca pública, eu ainda estou conectada quase sempre!

Com minha profissão, enquanto professora de idiomas, consigo trabalhar de qualquer lugar com uma conexão e podendo usar o skype. Sem falar em outras opções que o mundo atual nos proporciona, ensino virtual, ensino à distância, cursos, etc. Nisso a internet mudou a vida dos “isolados” nos permitindo selecionar quais partes isolam e quais não (sem tanta seleção assim quando falamos de Facebook e outras mídias sociais, mais ainda assim, participar delas é opcional e para mim é um excelente jeito de manter a família informada de que eu tô viva e bem, e no mato!).

Os que se isolam, buscando não só o auto-conhecimento, mas a paz interior e exterior, a aventura, uma outra relação com a vida, o mundo, a sociedade, as pessoas, os animais, etc, sentem muita solidão. Essa lição está presente em todos os filmes e livros que relatam os que buscam esse caminho. Contudo, o que sinto fortemente, é que essas pessoas, e me incluo nelas, não nos sentimos na verdade parte de nada, plenamente, nem do mato. Talvez só de nós mesmos. Já existe um nível de solidão aguçado mesmo na maior metrópole, mesmo na festa mais cheia, mesmo entre familiares e amigos. Como alguém que acabou de morar 2 anos em São Paulo posso atestar.

Essa parte da solidão e da insatisfação vem justamente das questões ideológicas. Nunca consegui me sentir plenamente parte de um grupo, nunca concordei plenamente com uma religião, nunca concordei plenamente com uma linha pedagógica, com uma escola onde trabalhei, com as leis que regem nenhum país. Claro que as afinidades aumentam ou diminuem de um grupo, escola, país, pessoas, pra outros. E claro que em alguns me senti muito mais à vontade e acolhida! Mas sempre tem aquele pouquinho que questiona. E ao questionar vem uma certa solidão, um certo vazio. É o mal dos que não conseguem comprar o pacote fechado. Nenhum deles. Sempre tem aquela partezinha que a gente preferia mudar.

Para não morrer de infelicidade há que se exercitar a tolerância. Alguns pacotes até consigo comprar “fechados” mesmo sem concordar 100%, porque concordo com a maior parte, e preciso viver. Mas explico isso, porque é um sentimento constante, em qualquer parte do mundo. Aliás, viajar muito tem a ver com essa insatisfação. A necessidade de conhecer tudo e a si mesmo, buscar alternativas, aprender outros mecanismos, tudo nessa busca de compor o melhor pacote possível pra viver.

Quem não entende o que eu tô fazendo, é isso! Eu to procurando as peças de lego que melhor se encaixem na minha alma, ainda que fiquem buraquinhos, de preferência, os menores possíveis. Das lições que tirei até agora, tanto por experiência própria quanto da leitura de filmes e livros sobre outros insatisfeitos e curiosos, a principal é essa: os que se isolam precisam aprender a ceder. O isolamento e a rigidez ideológica levam a um nível de solidão e insatisfação trágicos. É preciso que sigamos nossa busca por conhecimento e felicidade medindo os passos, dois pra frente e um pra trás, mantendo assim outras pessoas próximas.

E o desafio maior é saber lidar com a incompreensão de familiares a amigos, e outras pessoas, que julgam, se acham cortadas ou isoladas, ou discordam, e com isso ficam ainda mais distantes, pois o vácuo passa a ser não somente físico, mas também emocional. E precisamos aprender e aceitar que algumas pessoas, às vezes das mais queridas, vão se distanciar, ou nós vamos nos distanciar, e que por pior que pareça isso pode ser o que há de mais saudável para ambos.

O equilíbrio vem dessa aceitação, de todas as partes. Algumas pessoas precisam ir! E não adianta perguntar pra onde? Ou porque? Ou pra fazer o que? Porque a resposta não vai satisfazer. Os que vão, o fazem porque precisam! Vão viver por aí, porque não sabem viver num lugar só! Vão viver de forma estranha, comer, andar, vestir, tudo estranho, simplesmente porque são estranhos. E acredite, estão felizes assim! E os que vão precisam aprender a ser tolerantes com todas as perguntas, incompreensões e até mesmo  algumas hostilidades. Responder com honestidade sempre e seguir, ainda que isso custe algumas relações. Os que aceitam, ainda que não compreendam, ficarão próximos, mesmo a que léguas de distância!

Com isso, deixo vocês com uma citação do Thoreau em Walden e os trailers de Into de Wild e Capitão Fantástico. E não, eu não estou indo morar numa cabana no mato e nem num ônibus abandoado (ainda, hahahaha). Eu estou numa fase, que talvez seja de transição, ou talvez seja uma conciliação entre mundos, de cidade pequena, internet menos frequente, mato intenso umas 2 ou 3 X na semana. Trabalho à distância. Agradeço profundamente o amor e a companhia daqueles que aceitam me acompanhar mesmo de longe! E agradeço profundamente porque achei um outro maluco que concorda tanto que resolveu acompanhar de perto! ❤

Ps: achei essa entrevista sobre o livro Andar, Uma Filosofia, do filósofo francês Frederic Gros, e pretendo ler o livro em breve. Destaco aqui dois trechos da entrevista e deixo o link pra vocês, além da sugestão de leitura. Quem sabe não inspira alguns a caminharem mais, a desobedecerem mais, ou não te faz compreender melhor as andanças daquele amigo ou membro da família?!

“Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud gostavam de caminhar. E eles o faziam de formas diferentes. As caminhadas do jovem Rimbaud, dispersas e desorganizadas, estavam cheias de raiva, enquanto Nietzsche procurava nelas o tom e a energia da marcha. Kant era metódico e sistemático: o fazia todo dia, à mesma hora, na mesma rota. Todos acabaram mudando seus escritórios de trabalho para o campo, onde as idéias fluíam mais livremente e em plena natureza. Analisando de perto, estas caminhadas guardam alguns paralelos com seus pensamentos, diz o filósofo francês (e grande caminhador ) Frederic Gros no livro ‘Andar. Uma filosofia’.” (…) “Esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação.”

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/caminhar-um-meio-de-desobedecer/

thoreau

Nunca me apaixonei

Fazendo um paralelo com aquele filme da Drew Barrymore (amo ela, amo o loiro grunge esquisito dela, os filmes aleatórios dela, e o fato dela ser uma hollywoodiana tão cheia de peculiaridades pouco aceitas em Hollywood, embora até comuns) Nunca Fui Beijada, segue uma historinha de fim de semana. Soltando a frase bombástica: nunca me apaixonei! Corram para as montanhas, porque tem muita gente que se ler isso vai querer entender, então caso você seja um leitor, respire fundo, mantenha a calma e leia até o fim primeiro. Sim, já amei! Amei muito! Não, nunca me apaixonei. Não sei que gosto tem, que cor tem, que forma tem, se é que tem.

Primeiro deixe-me falar sobre as diversas formas de amor e de separá-las bem da paixão. Amor é uma coisa linda, na qual minha vida sempre esteve imersa. Cresci numa família muito amorosa e de cedo experimentei amor em doses cavalares. Amor de mãe, amor de avô, amor de avó, de tio, tia, primo, prima, vizinho, amigo, cachorro, o de cachorro, aliás, é um dos mais incondicionais e maravilhosos e devia constar no topo da lista! Mas sempre duvidei do tal amor homem-mulher. Acho que já comentei isso aqui em outros textos. Talvez tenha sido um reflexo da relação dos meus pais que foi muito conturbada, cheia de desconfianças e traições e do fato deles terem, por isso, se separado antes de eu nascer. Talvez seja porque minha mãe nunca mais teve nenhum outro relacionamento, que eu saiba pelo menos não, então não importa, não convivi com paixão.

Tinha meus avós, ok. Fato que eles demonstraram um casamento sólido e baseado no companheirismo, de cinquenta e seis anos. Inclusive vi minha avó definhar em depressão até a morte em poucos anos depois da ida do meu avô. Mas isso foi mais tarde, quando já tinha descoberto que o amor era possível. Na adolescência meus avós eram, para mim, seres obviamente assexuados, que inclusive habitavam quartos separados, e que eram muito amigos, muito companheiros e tinham uma bela e enorme família para cuidar. Isso não me inspirava nada relacionado à paixão.

Minha mãe era uma Rapunzel. E eu conheci a história que fica depois do fim do livro. Quando eu nasci ela já estava com os cabelos curtos e lá no alto da torre. Trancada por conta própria. Já tinha fugido da torre, já tinha se aventurado, já tinha dado errado, já tinha se assustado, e para a torre ela voltou e lá ficou. Nunca me prendeu, pelo contrário, de cedo me ensinaram a escalar as paredes da torre, a brincar com cordas, e virei logo moleca, nem o isolamento me assustava, nem a altura, nem a distância com a civilização. Ia e vinha e me acostumei com a solidão e a reclusão dela como algo natural. Existia o mundo, e existia a torre da Rapunzel. E essa Rapunzel era esperta, como ela sabia falar com os pássaros, habilidade perfeita e inata, lá da época de torre original, quando os cabelos eram longos e hippies, ela continuou utilizando os pássaros e sua música como ponte com o mundo. E os que ouviam sua voz, sua música e sua conversa com os pássaros achavam que ela estava entre eles, vivendo no mundo. Alguns poucos sabiam que isso era apenas uma artimanha para ela permanecer na torre.

Seja como for, fui uma adolescente muito cética. Tive minhas paixonites, crushes, tive sim. Umas duas ou três, dependendo da intensidade considerada. Uma só dependendo de outras. Nada que tenha virado nada. Nem em beijos resultaram. Foi uma coisa bem leve, embora algumas coisas tenham me marcado para sempre. Meu amor de adolescência foi forte, pleno e perdura até hoje no que diz respeito as amizades. Aprendi a construir uma família com muitos sobrenomes e o amor continuou a transbordar. Livros e filmes de aventura, de amizade, de sair pelo mundo e encontrar seu sentido nele sempre me cativaram. Os românticos não. Alguns filmes me marcaram e gosto muito, porque foram icônicos da minha geração, como O Casamento do Meu Melhor Amigo, Nothing Hill, 10 Coisas que Odeio em Você e outros. Mas nunca me vi ali.

Sempre sofri de nostalgia de algo que não sei bem até hoje o que é. Essa nostalgia passa e me emociona pois parece que me encontro quando viajo, quando caminho por aí. A melhor definição já esteve num Bloquinho por aqui, uma saudade de coisas que nunca vi ou vivi. E sempre achei que perseguir essa sensação fazia mais sentido do que tentar me apaixonar. Outra coisa que muito me angustiava e angustia até hoje é o hábito que percebo em amigos e conhecidos (e até em desconhecidos) de querer tanto ter alguém ou estar em uma relação que isso se torna mais importante do que a pessoa em si. Sempre achei isso bizarro. Entendo os outros, mas acho um belo tiro no pé.

Com todas essas sensações, sentimentos e crenças, coloquei essas ideias românticas de lado, e comecei minhas viagens. E entre muitos livros, que são viagens, muita música, que são viagens, e viagens propriamente ditas, fui aumentando, em vez de saciar, minha saudade de tudo que nunca vivi. E fui uma adolescente sem histórias românticas, ou com alguns casos, ou causos para contar, de coisas que na verdade nunca aconteceram. Só que eu não tinha essa consciência assim de tudo isso, dessa forma organizada, na época. Só sabia que o mundo romântico me bastava na música e nos livros.

Um dia, viajando, vivendo aventuras, conheci alguém que decidiu enfrentar minha descrença. Apareceu e reapareceu. Insistiu. Se fez presente na minha vida. Foi meu cavaleiro, espada em punho, cavalo branco, pronto para salvar uma donzela de uma alta torre. Já expliquei essa história aqui também. Mas eu, sendo filha de uma Rapunzel exilada por escolha própria, era íntima da torre, e não precisava ser salva. Não me apaixonei. Mas gostei da coragem de insistir do moço. Era a primeira vez que eu não era imediatamente classificada como amiga e pronto. Já estando com meus dezoito anos, resolvi viver essa história e ver onde ela iria. Nunca imaginei.

Minha vida virou tormenta e por mais de dez anos naveguei águas impossíveis que naufragaram quase todos os navios que estavam na minha frota. Eu sobrevivi. Um tanto quanto náufraga, mas sobrevivi. E o cavaleiro se fez! Todos os apuros inimagináveis apareceram em minha vida. E ele pode ser tudo o que ele queria ser para uma donzela. Me fiz donzela para que ele pudesse ser um porto seguro nessa tormenta, e assim o foi, por muitos anos. E nesses anos o amor nasceu e cresceu lentamente. E amei muito. Muito mais do que jamais achei que seria capaz, ou que era possível, ou que existia. Mas nunca me esquecerei, que a primeira vez que disse “eu te amo”, era mentira. E eu sabia muito bem disso. E demorou muito tempo até que aquelas palavras saíssem de minha boca com significado real. Algumas pessoas tem histórias complexas a respeito de suas primeiras relações sexuais. Para mim o complexo foi esse primeiro “eu te amo”. Nunca me esquecerei o lugar, a roupa que vestia, como agi. E muito menos de que cada palavra saiu lentamente da minha boca, o que deve ter soado marcante, mas a hesitação não era alegria. Era medo de estar fazendo uma besteira.   Até que a tormenta passou, e já não havia mais o que salvar, não havia espaço para um cavaleiro ali mais. E eu até demorei para perceber isso, ainda rota dos naufrágios.

O tempo foi passando, e a vida romântica continuou sendo ficção na minha vida. Livros, filmes, e muita nostalgia e saudades não sei de que, misturadas agora com saudades infinitas de todos os que se foram nos meus naufrágios. Um dia, conversando com algumas amigas muito queridas, comecei a tentar explicar minhas expectativas, ou falta delas, em relacionamentos, e a própria falta de novos relacionamentos. Enfim, falávamos de amor, de paixão, de solidão, de rejeição, de realização. E foi só ali, enquanto tentava me explicar para aquelas amigas, cheias de conselhos tão bem intencionados e tão distantes e vazios para mim, que percebi: nunca tinha em apaixonado.

Depois dessa constatação, um tanto quanto perturbadora, aos vinte e sete anos de idade, voltei para meu romantismo platônico, tão presente e farto, na música e na literatura. E olhando nos espelhos da minha alma, que muitas vezes são os livros, os filmes e a música, comecei a desvendar o mistério. Uma parte desse mistério vem da descrença que nasceu na infância e cresceu na adolescência. Uma parte da minha falta de paixão vem do excesso de amor verdadeiro e amizade. Outra parte vem do fato de que tendo tido um relacionamento muito longo, e muitos problemas familiares, não passei pela fase de muitos namoros de adolescência e/ou primeira juventude, anos de faculdade, nem nada disso.

E olhando mais a fundo vi meu medo. Um medo enorme, e tão irracional quanto meu medo de borboletas. Eu não tinha esse medo antes, assim como na infância também não tinha medo de borboletas e até brincava de deixa-las pousarem no meu dedo enquanto cuidava do jardim com minha avó. Um medo que veio pelo fato de nunca ter lidado com isso até os quase trinta anos de idade. Não, eu não estou brincando. De novo, sim, eu já amei e muito. Sim, eu já tive quedas por vários meninos e rapazes, e até me peguei pensando que poderia dar certo com um ou dois nesse meio tempo. Mas para por aí.

Num dado momento, percebi, quando assistir ao filme Ruby Sparks, que eu sempre esperei ser Ruby. Esperei ser musa, esperei ser admirada, procurada, ansiada. Mas eu não sou assim. Não sou porque eu não quero isso. Não quero desespero, não quero inquietude. Prefiro a solidão aos joguinhos tão comuns por aí. Lembram-se que nasci e fui criada na torre? Pois é, sei muito bem que gosto tem. Sei viver princesa na torre sem precisar de nenhum dragão ou besta-fera de guarda. Também não preciso de nenhum príncipe ou cavaleiro para me salvar. Subo e desço quando quero, e saio por aí.

E aí percebi. Eu não sou Ruby. Eu sou o escritor. Eu escrevo essa história. Eu escrevo a minha história. E torno-a mais e menos real. E a cada dia ela se torna mais surreal. Só que sou Alice e sou Sofia também. E por isso aprendi que me perco nos longos passeios nos jardins que acabam no País das maravilhas e me esqueço de voltar, de retomar o que chamam de vida, e de escreve-la. Quando retorno, a cada palavra digitada sou mais Sofia, e viro personagem, enquanto meus personagens saem do papel e viram realidade. E o que isso tem com a paixão, JuReMa? Tudo. E nada. Pois pode ser que a realidade seja mais surpreendente que a ficção, ou não. Pode ser que essa tal paixão, e esse tal amor, de música, de filmes e de livros exista, ou pode ser que não.

Enquanto isso, sigo minhas andanças despreocupada. Vou escrevendo minha história, transformando minha vida em palavras e as palavras na minha vida. E olha a lua pela janela, e solto minhas palavras no vento, no tempo. Já amei, amo muito, e sou abençoada por ter muito amor na minha vida. Já tive quedas, crushes e tenho causos para contar. E essa história ainda está sendo escrita. Para Alice, para Sofia, para JuReMa.

 

 

 

 

Para meus pais

Sim, pais, no plural. Eu não vou conseguir dizer tudo o que gostaria nesse momento. Talvez a reflexão completa fique para outro dia, talvez para outro ano. Mas o dia dos pais está aí, na curva do fim de semana. Quando eu nasci, meus pais estavam separados, e eu só fui registrada pelo meu pai aos 13 anos de idade, tendo conhecido-o apenas aos 11. Isso me deixou um vazio. Esse vazio foi rapidamente preenchido, desde a primeira noite no hospital, por uma miríade de pais, que sendo avô, tios, padrinho, amigos da minha mãe, me trouxeram vários mundos de presente. Nas minhas primeiras noites de vida eu já tive pais diferentes, já que as companhias da minha mãe nas primeiras noites  variaram, revezamentos entre família e família, a de sangue, a aquela que ela escolheu ao longo da vida, os amigos eternos. E todos os meus pais queriam me ver, e se declaravam meus pais para poderem visitar o bifinho de um quilograma que a apressadinha de sete meses aqui era.

Meu grande pai sempre foi, e sempre será, sem dúvida, meu avô! Meu mago, meu professor, meu mestre, meu Gepeto, meu Mágico de Oz, a pessoa mais maravilhosa que eu já tive o prazer e a honra de conhecer na minha vida! Se fosse falar sobre tudo o que ele representa para mim, um romance em forma de trilogia não seria o bastante. Inventor, professor, cuidador, dono de uma inteligência e um caráter ímpares, seu André Reis, meu mestre, o grande amor da minha vida! Se eu não mudar de tópico não escrevo até o fim, afinal meu teclado não é à prova d’água.

Meus tios tão queridos, tão amados! Minha mãe sempre teve uma verdadeira esquadra à disposição! Nossos cavaleiros, príncipes nessa família de Reis. Meus três Mosqueteiros e D’Artagnan! Cada um com sua peculiaridade, seus humores, seus cuidados, suas personalidades únicas. Em comum o amor, o caráter e o impulso dessa família, tão fortes, tão presentes em cada geração.

Meu irmão, que por ser mais velho, teve um papel fundamental na minha adolescência, e na minha introdução na família Marra. Se eu cresci com os valores Reis, na adolescência veio a Marra. Uma combinação perspicaz, e com um timming muito interessante para minha formação. Cada dia mais meu amigo, me orgulho do pai que ele é para meus sobrinhos e de ser sua irmãzinha.

Meu pai. Alma de poeta, olhos de Sinatra. Nenhum título para definir melhor esse boêmio, especialista em música, jornalista como mandava o clichê da época, amante dos vinhos, amante da vida, amante. Com todas as dificuldades de relacionamento criadas por essa história de vida, foi graças ao ímpeto de desafiar os pais na adolescência que eu me aprofundei em leituras, especialmente de arte, filosofia, história e conhecimentos de cultura mundial, para debater com esse poeta. Quando ouvi da minha mãe as reclamações indiretas dele de que eu estava sendo muito polêmica, e desafiava-o no debate, dei-me por satisfeita. Aprendi muito com seu Beluco, tanto por tudo que ele fez, como pelo que não fez. E cresci desfazendo castelos de ilusão e repondo-os por castelos de cultura, música, arte, filosofia, e toda essa magia dos poetas.

Por fim, há a perda. E, por isso, faço uma reminiscência com gostinho de bloquinho de três, trazendo dessa vez três filmes, e não três músicas. Para mim, o dia dos pais sempre foi um dia estranho, um dia atípico. Hoje, e para sempre, talvez, é um dia de saudades, um dia de pensar nesses homens, todos muito maravilhosos que fazem e fizeram parte da minha vida. E, agravadas pelas perdas, trago comigo memórias fantasiosas, com as quais tento conhecer melhor meus mitos, meus pais. Decepções vieram com as percepções de adulta, já que perdi pai e avô aos 19 anos, e minha convivência com eles nunca se deu na fase adulta, e se mesclam à admiração por outras coisas que a criança não compreendia.

Por todos, e por tudo, transbordo de gratidão! Foi, tem sido, e sempre será, uma honra!