Outono

Tiro o casaco impermeável, mas fico com preguiça de tirar o gorrinho da cabeça. Passei o dia todo com as botas de caminhada nos pés, embora tenha saído só um pouco pela manhã e uma voltinha com o cachorro à noite. As meias que vinha usando já me parecem finas nos pés, oferecendo pouco volume entre meus dedos e as palmilhas, que ao caminhar esfriam rapidamente, apesar das solas grossas da bota. Ao tirar as botas os pés esfriam rápido demais, apesar das meias frias. No meia da tarde fui revirar meu saco de meias e puxar para o topo as meias grossas de inverno…

Coloco a xícara de chá na mesa. É a terceira do dia. Pela manhã tomei rooibos com framboesa. Após o almoço uma infusão de hortelã e agora à noite uma de camomila. Quando sentei para ler um pouco, no fim da tarde, me enrolei na manta peruana que mora no sofá. Conseguia sentir nos braços a na parte da baixo das canelas a diferença térmica das coxas e abdômen, aquecidos pela manta e o resto não. Ainda não é tão frio, não estou de casaco em casa, não tremo de frio sem essa roupa toda, mas a manta, o cachecol e o gorro me dão aquela relaxada extra, que só um toque morno, de carinho, de massagem, de amor, nos trazem. É outono.

Não oficialmente, ainda claro! Essa mudança oficial chega essa semana, mas o outono chegou uns dias antes, pra já ir avisando à que veio. Essa noite chegaremos a 0ºC na madrugadinha. Depois ainda vai esquentar um pouco, até o fim da semana o sol abre um pouquinho, entre nuvens, e ficaremos entre 22º e 8º, mas hoje a máxima foi 18º, com chuva fina, céu cinza. Mas não é o cinza que dói, que desanima. É o cinza mais caloroso que eu conheço. Aquele clima que faz a gente ficar feliz de estar junto, aconchegado no sofá, debaixo das cobertas! É o clima perfeito pra dormir de conchinha, pra ver filme debaixo das mantas comendo pipoca recém-feita, pra abraçar o cachorro e cochilar depois do almoço, sentindo o calor que emana de cada outro ser dentro da casa.

O outono pra mim é amor! É a estação mais calorosa! É quando estar junto é mais gostoso, mas não indispensável! No verão é quente demais para ficar tão junto, tão perto. No verão, quando o suor se mistura é por pouco tempo, e existe um calor que vem de fora, que nos faz precisar de um espaço, físico, mental e emocional para não derreter, sucumbir sob o mormaço. O inverno é quando estar junto é sobrevivência. É um tempo muito estéril, de muita reflexão, de mente solitária, ativa, afiada como o gelo sob a neve. O estar junto, quando possível, não é escolha, é necessidade. A primavera é quando a gente ganha a independência, e embora estar junto ainda não seja tão desafiador quanto durante o verão, já é possível estar longe e depois do longo inverno nada melhor que sair por aí, andar, respirar o ar fresco, e tomar o sol morno, ver as flores surgirem.

O outono não, não por acaso o mundo fica amarelo, laranja e vermelho. As luzes e as cores representam esse calor, tão humano, tão animal, tão do aconchego, tão do outono. As mãos agradecem a xícara de chá quente nas mãos, as orelhas agradecem o gorro na cabeça e os pés ficam gratos pelas meias grossas. Mas ainda não é necessidade, sobrevivência, é amor, afago, aconchego! É quando tudo fica propício para o carinho e o cafuné, uma conversa um volta da fogueira, uma lareira, um chocolate-quente.

O gorro finalmente sai da cabeça e as botas dos pés, quando com uma mão vou despindo-os e com a outra bato no teclado, pois é dia das palavras saírem. o chá já acabou, e a louça ainda precisa ser lavada. Com água morna. O cabelo só vou lavar amanhã. Começou aquela época da minha predileção de banhos no meio do dia, quando ainda é quente e não preciso do secador.

Ah, meu querido outono, que bom que você chegou! A gente vai se amar muito nesse aconchego de carinhos e cores mornas, enquanto a chuva vai acalmando os ânimos lá fora, limpando as farras do verão, e preparando o mundo pra neve do inverno. Enquanto isso os livros, os chás, os chocolates, as pipocas quentinhas vão se tornando tão especiais! Ler um livro debaixo das mantas passa a ser o melhor hobby do mundo, e o banho morno devolve a sensibilidade dos dedos dos pés e das mãos, transformando esse simples hábito higiênico diário em mais um ato de auto-amor!

Agora vou para minha ducha quentinha, e o pijama vai ser completado com as meias grossas e um casaco molengo bem enrolado no corpo. Depois quem sabe, mais um chá ou um chocolate-quente antes de dormir.

Vem, outono! Vamos se amar muito! ❤

Spiritual

Faz tempo que não entro aqui. Faz tempo que não me escuto. Ocupada? Sim. Mas é mais que isso, é uma agitação e uma ansiedade que me fazem evitar o contato íntimo com a minha alma. Semana passada ouvi de uma amiga e professora, uma frase que ouvia da minha mãe com alguma frequência: “Ju, você precisa prestar mais atenção na respiração!”. É incrível como quando me abalo o que primeiro sofre é a respiração. Fico desequilibrada, desconectada, física, emocional e mentalmente.

Nas últimas semanas o tempo passou, e eu não. Ou eu passei, e o tempo não. Parece que eu e o tempo estamos desencaixados, descompassados. Ele não sobra, mas também não falta, e ainda assim não consigo cumpri-lo, cumprimenta-lo, olha-lo nos olhos. Estamos em vibrações diferentes. O desejo de dormir, de apagar, de vê-lo passar sem minha participação, aumenta.

Mas quando isso acontece nos distanciamos cada vez mais, fico fora do eixo, fora de mim, fora do tempo. Hoje isso chegou num pico. Percebo meu desequilíbrio. Tive vários pesadelos. Chorei algumas vezes, por cada besteira, ao longo do dia. Agora mesmo sinto meus olhos marejarem e as letras na tela embaçam por alguns segundos. Bebo mais um gole do chá, canela e gengibre, e volto a enxergar.

E o que há de errado, você me pergunta? E eu te digo, nada! E eu me pergunto, o que há de errado, Jurema? E me respondo: o mundo! Decepções, ansiedades, prazos, a loucura das pessoas. Existe algo de muito libertador em trabalhar de casa, estudar, fazer seu horário. E existe algo de muito tedioso, brochante e carregado em expectativas frustradas e ansiedades em escrever e reescrever o mesmo texto por dois anos. Em marcar e ter aulas particulares desmarcadas, em planejar breves viagens de fim de semana e ver a chuva cair, e a mochila voltar pro armário intacta, em fazer planos e eles serem esmagados pelo dia-a-dia inescrupuloso da vida na cidade grande, a cidade que não dorme, onde ninguém tem tempo, ninguém se vê, e um simples café é remarcado 3 ou 4 vezes antes de dar certo, se é que vai dar.

O celular vibra, incessantemente, 24h por dia, 7 dias na semana. Quantas mensagens e ligações são de fato, mensagens para você? Amigos, conversas, familiares? 2 ou 3 talvez, em uma semana boa. Trabalho, negócios, prazos, congressos, eventos, discussões nulas, negociações, preços, consultas, essas ocupam as outras horas todas. Mais uma vibrada, e eis que às vezes são familiares ou amigos de verdade. Pontos de luz. Problemas que se destravam, amizades que se renovam.

Alguns dias são tranquilos, e estar em casa é estar em paz. Alguns dias são angustiantes. Alguns dias são tristes e chuvosos. Alguns dias são de picnic no parque e caminhadas que renovam o amor pela vida. O chá, sempre fiel, ajuda. E a música, essa cura, resolve, acalma a respiração, me traz pro eixo de novo. Se escrevo isso agora é só porque fiz uso do meu remédio preferido, acabei de ouvir Beyonde the Missouri Sky inteirinho de novo. Mais uma vez. Só assim pra conseguir ao menos desabafar. Já compartilhei esse remédio dos anjos mil vezes com vocês. Deixo aqui de novo, novamente, sempre, e pra sempre, a música que me acalma, me traz pro eixo, de um tanto que a tenho na pele!

Que amanhã possa ser um dia de mais eu e menos mundo!

Chá

Eu amo chá! ❤

cha + chaleira

Pouso a xícara e venho escrever esse parágrafo. Aqui minhas reminiscências são expostas por sua matéria-prima, seu combustível básico, o meu chá diário. Se tem algo que não dispenso é o chá. Então resolvi compartilhar um pouco com vocês sobre essa paixão. Afinal, beber chá é mais do que só beber algo, é um ritual. Meu dia começa com a água na chaleira. O fato de ter que esperar ela ferver, enquanto seleciono o sabor e preparo os infusores, depois de colocar a água, ter que esperar o chá ficar pronto, depois esperar esfriar, faz com que não seja um ato desconectado, só servir e beber, o chá exige atenção e um tempo próprio. Só dele. Que ninguém apressa, nem a correria dos dias atuais. E o meu acordar vai no ritmo do chá. O dormir também. Ficar aqueles 15 min com o chá na mão, esperando a temperatura certa, é o tempo exato para acalmar a mente, desconectar. Para mim, tomar chá é também meu momento de introspecção, de pensar nos pensamentos. De me planejar para o dia, ou de revisar o dia antes de dormir. É realmente um ritual!

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Chás, tal como os chamamos em geral, são a infusão de folhas de uma planta, e suas variedades, das quais fazemos o chá preto, o verde, o branco, etc. Mas chás também podem ser resultado das infusões de outras ervas, sementes, folhas, e mesmo incluir outros processos como a fervura de raízes e cascas, ou mesmo a fermentação, como no caso do kombucha.

O que mais faço no meu dia-a-dia são as infusões de ervas, e fervura de raízes e cascas, mas às vezes faço também o chá propriamente dito, seja o verde, ou o preto, ou o mate. Chá é muito simples e gostoso, basta ferver a água e colocar sobre o famoso saquinho de chá, mas como boa apreciadora, isso é muito básico. Existem vários detalhes que permeiam a arte do chá. A primeira é nunca despejar sobre as folhas de infusão a água fervendo, o ideal é algo em torno de 95 graus celsius. Na falta de um termômetro só pra isso, deixe a água ferver, apitar a chaleira, soltar fumaça, desligue o fogo e espere cerca de 2 a 3 min antes de despejá-la sobre a infusão.

Outra dica boa é evitar os famosos saquinhos. No exterior é comum conseguirmos comprar pelo mesmo preço chás embalados em saquinhos de tule costurado, mas aqui no Brasil a regra é o saquinho de um papel fino, parecido com o do coador de café, que é colado. Para quem toma chá de vez em quando, isso não faz diferença, mas pra quem toma com frequência é bom evitar. Com a água muito quente parte dessa cola se dissolve, e com o tempo ingerimos mais dela do que seria recomendado.

Outro bom motivo é você poder fazer suas próprias combinações. Aqui em São Paulo tenho comprado minhas folhas secas na zona cerealista, mas muitas lojas de produtos naturais vendem o chá à granel ou mesmo em embalagens, mas ele vem por peso e não em saquinhos. Aí convém você ter alguns tipo de infusores em casa. Eu tenho o individual, em formato de folhas, a garrafa de vidro e o bule para duas xícaras e meia, ou quatro servidas sem ser cheias. Quando faço com gengibre e canela, em vez de usar chaleiras e bules, fervo a raiz e a casca com a água, coo e coloco em uma garrafa térmica, para ir tomando ao longo do dia.

Às vezes faço com flor de hibisco e canela, para tomar quente, ou hibisco e limão, e deixo na geladeira para esfriar, também conhecida como água de jamaica. Às vezes faço o mate cozido, bato com limão e hortelã e deixo esfriar. Nunca adoço meus chás com nada, pois prefiro puro, amo doces, mas não gosto de bebidas doces (exceção só pro chocolate-quente do inverno).

Algumas das minhas combinações preferidas incluem: cidreira + chá verde + hortelã; cidreira + camomila + hortelã, são dois ótimos digestivo. Cidreira + camomila + erva-doce é meu preferido antes de dormir e é conhecido como meu chá esquenta coração. Mate + limão + hortelã gosto frio como refresco! Hibisco + canela e gengibre + canela são meus preferidos para tomar ao longo do dia. Hibisco + limão gelado (água de jamaica) também é ótimo em dias quentes.

chás gelados

Entre os clássicos, dos que a gente já compra pronto amo o Earl Grey e Lady Grey, English Breakfast. Entre marcas amo Lipton, Twinings, Tribal Brasil, Celestial Seasonings, e os herbais da Bio2. Se algum dia você estiver em Paris, vá a Mariage Fréres, uma loja de chá incrível, com vários tipo de chás, bules, chaleiras e infusores. E eles tem um cardápio só de chás! Em São Paulo recomendo a Tea Connections. Mas a verdade é que existem poucos chá que eu não gosto! E amo experimentar as novas combinações! Isso sem falar que eles são os companheiros de leitura, trabalho e estudos perfeitos!

cha _ walden

Uma coisa que aprendi com a cultura do chá chinesa é porque as xícaras chinesas não possuem “asas”. E a dica é importante. Quando seguramos a xícara pela alça, diminuímos o contato do calor com o corpo, e assim perdemos nosso termômetro mais importante! Para saber se a bebida quente está na temperatura ideal para o consumo, sem danificar tecidos internos e nem machucar as mucosas, basta segurar a xícara com as duas mãos, sem se machucar e sem sentir necessidade de soltar. Pronto, pode beber eu chá em paz!

É sempre bom lembrar que chás possuem efeitos variados no corpo, alguns possuem cafeína, outros são diuréticos, outros termogênicos, então sempre consulte um profissional e evite tomar em quantidade exagerada. Como sempre, o bom senso imperando, dá tudo certo.

Espero que os chás consigam aquecer o coração de vocês tanto quanto o meu!

cha vidro

 

Cinza

Tirei os fones do ouvido, enrolei-os meticulosamente, como todas as outras vezes, enlaçando a volta final, para que não embolem, mesmo sabendo que todas as vezes quando os pego de novo, estão embaraçados, como todos os fios de fones do mundo. Fechei o caderno depois de anotar o conteúdo dado no dia. Tomei o último gole do chá, já meio frio, na caneca. Fechei o estojo. Empilhei tudo para guardar, a caneca na mão, e depois de deixar os livros, cadernos e estojo no quarto, de guardar o fone na gaveta, coloquei a caneca na pia. Voltei para o computador, único item que foi deixado sobre a mesa, e olhei pela janela. Cinza. O dia está nublado. Talvez chova mais tarde.

Levantei e busquei os fones na gaveta de volta. Hoje preciso de música para trabalhar. Hoje preciso de cor interna para lidar com o cinza do mundo. Não é o dia nublado que me incomoda, pelo contrário, amo dias chuvosos. Sou daquelas que gosta da chuva, das xícaras de chá, dos livros e das cobertas. Amo o frio. E todo esse cenário que me leva a introspecção. Mas hoje o cinza com o qual luto não é o do céu. É o da alma.

Plim. Mensagem. Uma grande amiga. Pequenos pontos de cor e luz no meu dia. Um carinho que ganho enquanto ele passa do quarto para cozinha e me afaga, sem querer atrapalhar o trabalho. Mais um ponto de cor e luz. Entretanto o cinza persiste. Antes de tirar os fones a primeira vez, estava em aula. Conversava com um amiga e aluna. Existe um cansaço pairando no ar. Cinza. Me sinto cansada. Mentira. A energia está aqui. O que falta é motivação. Cinza. Fazer por que? Fazer pra que? Fazer com que objetivo? Tudo está cinza.

Pena que o chá já acabou. Podia tomar mais uma caneca agora. A Tiê no fone me traz um pouco de cor. E as palavras derramam dos dedos em busca de luz. E o cinza continua em frente aos olhos. Fazia tempo que não sentia essa desmotivação toda. E aí, mesmo sem chá, começam as reflexões. Que tanto de cinza é esse na alma? Já sofri saudades profundas. Elas nunca me abandonam de todo, mas estão bem no momento. E ainda assim eu queria colo. Colo, cafuné, de mãe. Daqueles que espantam o cinza da alma.

Quanto mais velha fico, mais percebo o valor da motivação. O brilho dos objetivos claros. E nesse momento sofro duplamente com essa crise metodológica, no trabalho e na vida. Na alma. Qual é o objetivo que vai me tirar de todo esse cinza? Vim para fazer o mestrado e amo muito tudo o que ele me proporciona, especialmente as pessoas e as discussões. Mas será que vou ser uma professora universitária? Será que esse é o objetivo real? Será que terei um emprego no qual me sinta feliz? Que espante o cinza?

Trabalho voluntário, representação discente, estágio. Trabalhar com refugiados, pessoas que precisam muito. Ouvir algum agradecimento. Um elogio de algum professor. De um amigo. De um aluno. Uma boa companhia. Um momento de luz. Pontos de cor. E ainda assim o cinza está lá. Já tive momentos muito piores e consegui ver as cores com mais clareza que agora. Em parte, acho que esse cinza está aí justamente porque nesse momento não tenho prazos curtos, metas imediatas, motivações cotidianas, tudo é de médio a longo prazo, e nesse intervalo o cinza se espalha, na dúvida, na incerteza.

Outro ponto é o cinza que está no mundo. Quanta incerteza estamos vivendo. Quanto impacto sobre sonhos ideológicos. A política não está favorecendo, como disse Clarice no último álbum. Cercados de ódio, vendo crescer posições intolerantes. Cinza. Cinza na alma. Notícias de violências absurdas perpetuadas diariamente. E muitos concordando. De outro lado o circo, quanta informação inútil e incerta circulando. Quanta briga por coisa pouca, quanta falta de posicionamento em coisas grandes.

E não digo em relação a política interna só. Mulheres estão sendo estupradas como moeda de pagamento por serviços de “segurança” de soldados em zonas de conflito. Crianças estão tendo que pagar sua água com sexo oral. Não, isso não é sexo, é violência. E ela está aí. Uma parte de mim pensa: mas sempre esteve e antes só não sabíamos, não era denunciado, então agora estamos na verdade melhorando, pois pelo menos a denúncia está acontecendo. E aí penso, sim, mas se a informação está chegando, o que estamos fazendo de concreto?

Cinza. Sempre tive problemas em ficar só no conceitual. Minha alma queima e quero sair por aí, fazendo justiça com as próprias mãos. Até me lembrar que serei uma das primeiras a morrer se assim fizer. Aí tudo fica cinza de novo. E tenho vontade de ir para o meio do mato. Plantar minhas batatas e por lá ficar. Bem longe de tudo e todos. E deixar que se virem. E então vem o cinza, o cinza de estar sendo egoísta e não fazer nada para mudar a estrutura. E aí vem o cinza que surge do desespero de tentar fazer algo e não conseguir. Frustração.

O cinza tem muitos matizes: a indiferença, o ódio, a frustração, o egoísmo, o medo, e principalmente, a incerteza. O dia está cinza, mas minha alma está cinza pois não sei o que fazer. Hoje não sei qual dos caminhos poderia colori-la mais. Às vezes opto por me doar, e ajudo todos que consigo. Às vezes fico egoísta, e invisto em mim mesma, quem sabe não mudamos pelo exemplo? Às vezes fico otimista, e acho que nos reinventaremos no fim do arco-íris, com todas as cores. Às vezes acho que sei o que estou fazendo.

E em outros dias, só quero as cobertas, o chá e que o tempo passe para transformar minhas incertezas em fatos e acontecimentos, para diminuir a angustia de viver. E quando acho que nada mais tem solução no mundo, que estamos condenados e que nada que eu faça pode mudar nada, aí, bem aí, eu coloco os fones e ouço música. A chaleira ferve e eu faço um chá. A máquina para e eu penduro a roupa com cheiro de lavada. O alarme soa, e eu arrumo a mochila e cumpro com as missões do dia. E a vida volta. Entre obrigações, alegrias, pequenos sucessos. E assim vamos, até a próxima onda cinza. Até que a dúvida volte.

Certeza eu não tenho de nada. Só de que não adianta se entregar ao cinza. Tá difícil sim, pra alguns mais do que pra outros. As angustias e frustrações são muitas. Mas as alegrias e conquistas também. Enquanto isso vou cumprindo com as obrigações e alimentando os sonhos. Mudando o ângulo, ficando de ponta cabeça toda noite para ver a vida de outro lado, e achar soluções na minha imensidão azul, que afasta o cinza e as incertezas temporariamente. Entre tantas dúvidas, sei que resta viver. Tiro o fone mais uma vez, olho pela janela e há um sutil amarelado do sol acima das nuvens. Ele tá lá. Sempre. O dia continua cinza, mas sei onde procurar luz.E sei que tenho que aprender a conviver com o cinza.

29

Essa semana estou completando 29 anos. Vinte e nove primaveras, já que sou de outubro. Mas não vou escrever sobre o que significa tornar-me uma mulher de vinte e nove anos. E não vou porque não sei. Não faço a menor ideia. Primeiro porque acho que cada mulher chega a esse momento de um jeito. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens, para não dizer sua sorte e seu azar, ou suas escolhas e seus destinos. O que é fazer vinte e nove para uma mulher que cresceu na pobreza e chega a idade plena adulta com uma conquista de um emprego? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que sempre teve tudo e nunca lutou por nada e está agora numa bela casa? O que é fazer vinte nove anos para uma síria recém-chegada ao Brasil, refugiada de guerra que celebra simplesmente vinte e nove anos de sobrevivência? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que está casada, talvez já com um filho ou dois? O que é fazer vinte e nove anos e ser uma mulher solteira, que vive feliz seus dias em paz?

Eu não sei. Eu sou algumas dessas às vezes. Tenho meus anseios, meus receios, minhas bênçãos, minha guerra e minha paz. Enquanto escrevo, escuto os gritos animados que ecoam pelas janelas. Nos últimos nove meses tenho sido moradora de uma zona de “baladas”, na cidade grande e meus fins de semana possuem noites de muitos gritos, música, garrafas quebradas, brigas na madrugada, cantorias sem fim, e tudo isso de debaixo das minhas cobertas. O barulho não me incomoda. Meu sono é de pedra. Mas às vezes fecho os olhos e lembro dos meus grilos, da grama molhada de orvalho, dos latidos e uivos dos cachorros, e até um mugido ocasional ao fundo. Minha vida em Brasília foi, durante muitos anos, em casas afastadas.

Hoje o que eu mais gostaria, virando esses vinte e nove anos seria sentar na varanda da casa onde morei com minha mãe em seus últimos anos. Gostaria de sair do trabalho, da aula, no início da noite e ir até lá, mesmo que já não morasse lá, pois mesmo que ela estivesse viva, já não imagino que fossemos dividir a mesma casa ainda. Mas iria até lá, pelo menos uma vez por semana à noite, só para tirar os sapatos e pisar na grama molhada, fazer uma xícara de chá, abraça-la forte, e convidá-la para sentar na varanda. Ouvir os insetos, me incomodar com os pernilongos e as mariposas na luz. Suar no calor de Brasília. Secar a testa com o verso da mão, cruzar as penas em cima da poltrona, mesmo estando de vestido, olhar para ela e admira-la. Gostaria de dizer: “Mãe, hoje eu te entendo tanto. Te entendo cada vez mais”, e gostaria de pedir desculpas pelas minhas arrogâncias da adolescência e do início de vida adulta.

Eu sei que precisei negá-la, precisei contesta-la, como acho que todos os filhos precisam, para crescer, criar suas próprias opiniões e se desenvolver. Não faria nada diferente. Não quero mudar o passado. Mas gostaria de dizer que hoje ela faz mais sentido para mim. Não era perfeita, e não quero nem pretendo endeusa-la num culto pós mortem maluco. Mas hoje sinto falta da relação mãe e filha adulta. Sempre fomos muito amigas. Gostaria de poder falar para ela que agora a compreendo melhor. Queria muito ir até lá, e sem sapatos, de pernas cruzadas, ouvir suas histórias tão gostosas, ouvir suas entrevistas ainda sem edição, seus discos, conhecer um novo artista em primeira mão.

Ela acenderia um cigarro e aquilo me incomodaria muito como sempre. Mas dessa vez eu não iria brigar. Eu agora entendo. Hoje não sinto mais aquela raiva ultrajada. Hoje eu gostaria de pegá-la pela mão, e leva-la para minha aula de Yôga. Gostaria de viajar com ela, e lhe mostrar o mundo com meus olhos. Hoje eu faria um belo jantar vegetariano para ela, na esperança de que o modo alimentar que eu adotei fosse fascina-la e auxiliá-la com o problema crônico de baixo peso, e, na minha opinião, uma anorexia não diagnosticada.

E o mais importante, eu não faria nada disso para salvá-la, e nem esperaria que ela fizesse Yôga e nem que virasse vegetariana. Ela adulta, seguiria fazendo o que bem entende. Eu não ficaria com raiva, entenderia, como hoje entendo uma amiga. Eu faria tudo isso só pelo prazer de compartilhar o meu eu adulto com ela. Gostaria de mostrar para ela minhas escolhas, minhas experiências. A verdade é que com o passar dos anos eu sinto menos falta do colo de mãe e muito mais falta da minha melhor amiga.

Hoje, aos vinte e nove, órfã, mestranda, escritora e acadêmica wanna-be, louca pelo mundo, viajante, leitora ávida, eu sei que seria uma amiga ainda melhor na convivência com ela. A verdade é que sinto muita falta das minhas outras amigas e amigos de Brasília. Mas ao mesmo tempo me impressiono com tudo que São Paulo me deu nesses poucos meses. Tenho aqui já uma vida tão rica quanto a que sempre tive em casa. A verdade é que desde que perdi a casa dos meus avós, muitos anos antes de deixar Brasília, já não me sentia verdadeiramente em casa. Desci então que o mundo seria minha casa. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Fiz minha casa no meu coração, como diz o Skank, e tem funcionado muito bem.

Fui convidar alguns amigos para um abraço no dia desse meu ano novo, e já não sei como acomodar a todos na minha casinha. Mas estão todos já no coração. Amigos novos e antigos, familiares longe ou perto. Eu não faço ideia de como seja ter vinte e nove anos. Mas nunca me senti tão segura, tão realizada. Nesse momento eu não penso em ter filhos, não penso em casamentos formais, mas o porteiro diz para o meu namorado: “O pacote da sua esposa chegou! ”, quando recebo algo pelo correio. Não posso corrigi-lo. Tenho vinte e nove anos e moro com alguém em um relacionamento sério, monogâmico e, mais importante, feliz.

Semana passada me vi envolvida em tantos assuntos novos, registrar na Biblioteca Nacional um trabalho coletivo autoral, auxiliar um refugiado em meio ao meu trabalho voluntário na ONG, acompanhar algumas palestras internacionais e tentar aprender a publicar em periódicos internacionais de relevância acadêmica, ouvir as impressões do ministro de economia uruguaio sobre os novos rumos da América Latina, recebi muitos e muitos ensaios para corrigir. Não as provas de inglês de sempre, mas ensaios acadêmicos de graduação, que corrigirei no meu estágio como mestranda. Além disso fiz torta de maçã, do zero.

É, olho meus vinte e nove anos e os vejo como inegáveis. E como são maravilhosos. Nunca pensei que já ia ter vivido tanta coisa, e ter tanta história para contar. Mas aí eu olho para meus dedos, que batem freneticamente no teclado e vejo que as juntas dos dedos já não são lisinhas, os nós dos dedos já carregam suas marcas, e deixam minhas mãos tão incrivelmente parecidas com as mãos da minha mãe. E lembro de como eu gostaria de sentar com ela na varanda para um chá e contar tudo isso, só pelo prazer de sua companhia. Depois eu voltaria para casa, que podia até ser essa aqui em São Paulo, com a vida corrida e cheia de surpresas gostosas que tenho vivido, mas se eu tivesse um momento de poço dos desejos seria esse chá.

Os barulhos na rua estão cessando. Afinal, já é domingo de madrugada, e uma hora todos vão dormir. Amanhã levantarei cedo, tenho um artigo para escrever e uma faxina para fazer. A semana passará bem depressa, e na sexta-feira os vinte e nove chegarão. Os amigos visitarão, e a vida continuará. Mas quem sabe hoje à noite eu não sonho que estou naquela varanda, contando tudo isso para ela? Em sonho já está bom. Uma vista breve, sabe, só para ela saber como minha vida vai. Só para eu ganhar um beijo e um abraço. Só para eu me sentir um pouquinho filha e criança, mesmo com 29.

Bananas no centro de mesa e flores na parede

Os últimos meses têm sido impossíveis de tempo. Nem ler as mil mensagens do WhatsApp, nem fazer as unhas, nem mesmo escrever e me compartilhar em palavrinhas de alma, apenas aquela bolinha vermelha acusadora com um número de mais de três dígitos me encarando na tela do celular. Às vezes consigo aguar minha flor de maio. E pelo menos uma vez por mês meu momento preferido acontece: o sábado de manhã sozinha em casa! O café da manhã tomado de pijama, tarde, já para lá do meio da manhã, com música tocando. E eu posso olhar minha própria sala, e reparar no prato azul com o cacho de bananas amadurecendo em cima, tomar um gole de chá, e observar as flores de metal retorcido de Ouro Preto, enfeitando diagonalmente minha parede. A assinatura perfeita do meu conto de fadas. A flor que enfeita a primeira letra do meu Era Uma Vez.

Mesmo sabendo que ter levantado tarde me custou uma manhã sem estudar e que isso se tornará uma noite longa de estudos para compensar. Mesmo incluindo na minha manhã de paz a arrumação da baguncinha de ontem, da louça do jantar das visitas, mesmo sabendo que almoçarei tarde por tomar café tarde, vale a pena. É minha manhã de alma. Eu estou amando muito dividir casa. É muito gostoso chegar do trabalho cansada e poder conversar sobre as bobagens do dia, a melhor parte é não comer sozinha. Alguém que te espera para jantar, e muitas vezes quando você chega a comida já está pronta e quentinha. Compartilhar um ombro vendo um filme antes de dormir, ou um jogo de tabuleiro depois do jantar quando sobra uma horinha a mais, ou, mais verdadeiramente, quando ignoro os compromissos de estudo e me dou, nos dou, essa horinha de jogo ou filme, simplesmente porque não vale a pena perder essa convivência e minha cabeça pede pausa.

Mas mesmo com minhas meditações, e com as pequenas pausas do dia-a-dia, eu sou daquelas pessoas estranhas que precisa de um período que seja sozinha. Arrumar meus próprios pensamentos, ouvir minha música sem ninguém falar nada durante o processo, simplesmente olhar pela janela, ou deitar no sofá e pensar. E, quem sabe num dia de sorte, depois dessa introspecção ainda ter tempo de pegar o computador e cuspir toda essa reflexão em palavras, pedações de alma postos para fora.

Acho que hoje mesmo não vou conseguir escrever tudo o que gostaria. Já estou relativamente atrasada. Já troquei os estudos e sei que a noite será longa. Já passei a manhã de pijama, e por mais acolhedoras que as bananas e as flores na parede sejam, meus minutos de paz estão contados e a vida urge lá fora. Ruge, e pede pressa, enquanto eu só peço calma. Viver em outra cidade, e trabalhar e fazer um mestrado ao mesmo tempo, além de ter levado um relacionamento sério para outro nível de convivência, morando junto, tem castigado minha vida social. Me sinto sempre em dívida, com todos, comigo mesma. Não consigo estudar nem de longe tudo o que precisava, e vamos e convenhamos, essa é a prioridade número um, também não consigo dedicar-me quase nada ao trabalho, e na prática ele é o que mais consome meu tempo. Apesar das pausas forçadas, consigo dar menos de um quinto da atenção mínima ideal ao relacionamento. A casa nem se fala. Mercado e limpeza acontecem quando possível, às vezes de quinze em quinze dias. Às vezes nem falo…

Os amigos me consideram desaparecida. Ainda assim os dias que separo para vê-los me custam noites insones de estudos depois. E nesse malabarismo circense de tempo, me aparecem aqui e ali uma manhã de sábado abençoada. E quando respiro fundo, sentada na mesa da sala, dou o último gole do chá, sinto o cheiro adstringente das bananas ainda meio verdes, e olho as flores na parede, lembro que estou vivendo meu conto de fadas. Porque os contos de fadas reais são assim, maravilhosos, incríveis, cheios de oportunidades perfeitas, e exigem das suas personagens muito esforço, e não dão trégua nem tempo. Nos contos de fadas reais, não existe felizes para sempre, mas podem existir bananas no centro da mesa, um bolinho de mandioca com coco, feito ontem, esperando o lanche da tarde com chá, a louça do jantar com amigos lavada pingando na cozinha, uma música gostosa tocando, e flores na parede. E uma manhã gostosa de sábado entre o sem tempo de hoje e a pressa do amanhã.