Gypsy Heart

Meu coração é nômade e esse assunto não é novidade já existem alguns posts com a temática. Mas eis que agora me vejo novamente numa casa nova, numa cidade nova e dessa vez num país novo. Então resolvi escrever de forma um pouco mais pragmática contando sobre minhas mudanças e meu gypsy heart!

A caneca na minha mão é a mesma: NYU Sister! Ganhei do meu primo-irmão e essa já é minha quarta casa com ela! O chá varia o sabor. A vista muda bastante e até mesmo a família. Aliás, essa varia mais do que eu teria imaginado na minha vida.

Aos 15 anos fui para Rapid City, South Dakota, num intercâmbio de verão. Fiz muitas caminhadas nas montanhas e percebi que não conseguiria viver sem isso. Sem as viagens, sem conhecer lugares novos, sem estar sozinha por mais tempo do que as outras pessoas consideram normal. Foi circulando o Sylvan Lake, e conversando com uma queridíssima amiga de infância que percebi que o que eu mais queria com aquela idade era sair de casa. Não porque ela fosse ruim ou porque eu tivesse problemas com a família, muito pelo contrário, cresci numa casa cheia de amor, incentivo e liberdade, e mesmo com a parte da família mais complicada, a paterna, ouso dizer que dos 15 aos 19 foi o período de maior e melhor convivência!

A vida me segurou junto a família por alguns anos mais, os últimos que eu passaria com eles, e por isso agradeço não ter saído antes. Aos meus 18 nos mudamos da casa onde cresci, com o melhor quintal do mundo e todas as minhas memórias mais queridas, felizes, o lugar que me fez quem eu sou! Não consigo passar 1 dia sem lembrar e falar daquela casa mágica! Daquele casarão que meus avós transformaram em muito mais do que um lar, era o verdadeiro porto seguro da família, o paraíso dos netos, a terra da brincadeira, a melhor escola, o melhor clube, o melhor pomar, a melhor horta. Era nossa colônia de férias, o reforço escolar, era nossa vida! E que privilégio ter tido essa vida naquela casa! Nenhum castelo de conto de fadas faz jus! Lá era melhor!

Fomos para outra casa, ainda os quatro integrantes da família então, eu, minha mãe e meus avós maternos. Essa segunda casa, onde vivi cerca de 4 anos e meio, foi meu purgatório. Nunca gostei muito dela, tinha uma sala grande e escura, janelas grandes demais para abrir e fechar com facilidade nos quartos, a terra do quintal tinha muito plástico e restos de construção misturados, mas fizemos nossa vida da melhor forma lá. E foi morando lá que fiz minha faculdade, foi o lugar onde menos dormi. Foram anos de hospital, foi onde perdemos meus avós. Mas foi também onde meus cachorros, os meus mesmo, não da família, vieram, e foram meu alento. Desse lugar não guardo muito amor. Mas sei que foi útil e compreendo o papel daquela casa e desses anos na minha vida. Trabalhei muito, estudei muito, e tive um banheiro só pra mim pela primeira vez, um luxo muito útil nessa fase de dificuldades e horários loucos.

De lá nos mudamos para a que ficou na minha memória oficialmente como a casa da minha mãe! Como ela morou muitos anos com os pais, e quase toda a nossa vida juntas, essa foi a casa dela. Como já era adulta e já trabalhava, lá pude contribuir, e vivíamos como roomies. Foi quando pude decidir mais sobre a casa, embora não fosse ainda minha casa. É um lugar lindo e até hoje é minha casa na cidade onde nasci. Existe um carinho eterno por esse lugar, pois foi onde me tornei mulher de fato. Onde assumi oficialmente a responsabilidade pela minha vida, e muitas vezes pela dela também, onde recebi meu diploma, onde paguei contas pela primeira vez.

Além disso era uma casa de tamanho perfeito, bem menor do que as anteriores. Isso é um ponto muito curioso. Minhas casas tendem a diminuir. E não só por necessidade, mas por gosto. É o gypsy heart falando. É minha vocação pela viagem, por estar leve. O peso das coisas, as raízes, foram coisas que fui deixando aos poucos pra trás. Morei nessa casa por 3 anos e meio. Saí de lá de forma muito confusa, em meio a morte da minha mãe, e demorei muitos meses para conseguir me despedir do lugar.

Morei depois disso por 1,5 ano com meu padrinho, e recebi muito amor e carinho de todos naquela casa. Tive um quarto cuidadosamente arrumado para mim, e muita liberdade e apoio. Ficou como minha casa oficial. Mesmo depois de já ter saído de lá faz 4 anos, continua sendo meu endereço pra assuntos oficiais, pois como me mudo com frequência, sei que se a correspondência mais essencial chegar lá, serei encontrada! Cresci emocionalmente muito lá. Foi rápido e na marra.

Fui então finalmente morar sozinha. 11 anos depois daquela volta no Sylvan Lake, quando já tinha decidido isso como minha meta pessoal. Montei minha casa de bonecas, num dos menores lugares que já morei. Só não foi o menor, porque morei por 40 dias em Londres num menor ainda! Mas meu cantinho pequenino foi meu lugar de reconstrução. Foi onde mais tive coisas e posses minhas, apesar do tamanho, era tudo meu ali. Ali me recuperei, corpo, alma, mente, tudo! Mudei minha alimentação, li como nunca, trabalhei como nunca, dancei como nunca, pois de fato não tinha ninguém olhando. Lá aprendi o prazer de estar sozinha. De chorar em voz alta, berrar, de rir só, de ouvir a música que quisesse, de usar a roupa que quisesse ou nenhuma. De ficar horas calada contemplando a janela. Lá me achei como nunca. Se houve um lugar que fui JuReMa, da forma mais plena, foram naqueles 20m2.

De lá fui pra outra cidade, juntei as escovas de dente. Morei em dois apês em SP. Um por um mês e outro que foi mais que minha casa. Foi nossa casa. Bonita, arrumada, bem localizada, acolhedora. Lar dos amigos. Ali poderia ter morado o resto da minha vida.Morei 2 anos.  Bom, talvez não tanto, pois a cidade grande foi me engolindo, os gritos advindos da balada, o barulho do trânsito, o ritmo frenético da metrópole foram acordando no meu coração a necessidade de seguir andando.

Vocês já viram o filme Chocolate? Se não, vejam! Hoje! Eu sou assim, se o vento bate torto, eu tenho que segui-lo. Durante muito tempo achei que uma hora uma pessoa finalmente me faria sossegar. Quebrar minhas amarras com o passado e sossegar. Mas foi o contrário. Encontrei outra alma nômade, perdida por aí enquanto andávamos, nos procurando e procurando seja lá o que for que tanto procuramos nessas andanças.

Me casei, de papel passado, para poder viajar mais, ir mais longe. Não foi pra sossegar. Em vez de comprar uma casa e fazer uma lista de presentes, vendemos tudo o que tínhamos! Casamos para partir! E cá estou, em uma nova casa. E sabe do mais incrível. Ela já tem data marcada pra não seguir sendo nossa. Os planos ainda estão disformes, ainda existem burocracias e necessidades, mas não creio que será meu lar por mais de 1,5 ano. E assim posso dizer que em 13 anos, desde os meus 18, vivi em 8 casas, fiz mudanças grandes, mudanças pequenas, às vezes fui com a roupa do corpo e mais uma mochila, às vezes paguei caminhões e levei tudo. Uma coisa se consolidou com força e certezas inigualáveis, minha casa é onde meu coração está.

Não sou do tipo de gente que coleciona coisas ou conquistas, sou do tipo que coleciona memórias e lugares no mapa! Sou agoniada por natureza, nasci antes da hora, de 7 meses, e sinto que estou sempre assim, uns meses adiantada, uma vida atrasada! Quero poder seguir andando e ver o que esse mundão tem pra me mostrar. Quero conhecer os lugares pela inclinação do sol e as estações pelo cheiro do ar. Já não tenho problema nenhum em ter poucas coisas e quanto menos tenho, mais acho que possuo em excesso. Agora estou sonhando com uma vida ainda mais nômade. Quero poder não dormir duas noites no mesmo lugar. E assim sigo. Inquieta para os que olham de fora, mas cada vez mais segura de mim! A certeza de que essa sou eu, e que me comporto assim mesmo. E que não busco nada para substituir, apenas para ampliar.

Já achei que estivesse buscando aquilo que faltava. Hoje sei que não me falta nada, nunca faltou. Só faltava essa certeza. Sempre tive e sempre terei tudo o que preciso dentro de mim. Mas preciso continuar seguindo. Essa sensação de que o mundo todo é minha casa e de que me sinto bem e a vontade onde quer que eu vá é a melhor. Quando lugar nenhum é a sua casa, mas todos os lugares são, essa sim é minha grande conquista! Saber disso é o que me traz paz.

Há claro o período de adaptação, conhecer os eletrodomésticos novos, aprender os novos horários, descobrir os melhores mercados, e aí, quando estiver bem conhecido, rotineiro e seguro, aí a gente pega a vida e sacode, joga tudo no ar e vamos descobrir onde tudo caiu, junto e misturado, como as novas runas que indicam um novo caminho. Aprendi que essa incerteza não é triste e nem solitária, a incerteza é minha maior certeza!

Não se assuste mundo, por favor. Algumas almas são nômades. Algumas pessoas precisam ir e vir para conseguir continuar vivas. Deixar pra trás não significa não gostar, apenas o impulso de seguir que é mais forte. Sempre achei que essa minha necessidade me faria muito solitária, mas hoje, além de ter encontrado outro nômade, descobri que só coleciono amigos, trabalhos, pessoas, locais, como quem coleciona jogos americanos novos a cada primavera. Algumas coisas não mudam, outras mudam todos os dias. O sabor do chá na caneca muda sempre, essa caneca já está comigo há 4 casas! E talvez não esteja na próxima, ou talvez esteja, mas o hábito do chá certamente estará. Minha certeza hoje não está nas coisas, em nenhuma delas, está em mim!

Quem é Juliana? A menina da caneca roxa? Dos óculos vermelhos? Não ou sim. Mas a Juliana é certamente aquela que ama chá, a vegetariana, a brasileira, a que ama livros, a que faz Yôga, a que fala demais e alto demais, a que chora pela família que já se foi 1X por mês, a que gosta de viajar. E para ser assim, para ser eu mesma, posso e devo ser em qualquer lugar!

Quantas casas contabilizarei até o fim dessa década de vida que só começou? Pretendo bater meus recordes! ❤

Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

Brasília, domingo, onze da manhã, de um ano qualquer

Era domingo. Onze da manhã. E daí? – você me pergunta. Acordou tarde? Não. Não é isso. Não importa que horas acordei. Que horas fui dormir. Domingo era o dia dela. E onze da manhã sua hora. A hora do rádio. Não era a hora da Voz do Brasil. Era a hora da voz do meu Brasil. Do meu mundo. Da minha mãe.

Olhei a xícara de chá ao meu lado. Dourada com corujas, algumas de óculos. Tão eu. Presente de aniversário. Olhei o pequeno bule roxo, cheio do chá matinal, orgânico, detox. Tão eu. Comprado sob os auspícios de casa nova, e já vão lá um ano e meio de uso, de casa, de chás. Cocei a cabeça, cabelo preso, embaraçado da noite de sono ainda. Tão eu. Sempre assim. Um dia de folga, e de pijamas e com uma xícara, preferencialmente uma caneca, de chá nas mãos, e já lá estou, com um livro, uma leitura, uma aventura. Ou com letras nos dedos.

Ah essas letrinhas que não me deixam mais. Falo pelos cotovelos, e como dizia ela, ainda bem que nasci só com dois, se não ninguém aguentava. Melhor traduzir em palavras. Em rabiscos. Tanta ideia, tanto sentimento, tanta vontade de se pôr para fora. Minha voz era minha ouvinte número um. E tão boa que cresci mal acostumada no que diz respeito às boas companhias.

Ainda que fossemos mãe e filha, por diversos motivos, por sermos as duas filhas dentro da casa dos meus avós, por sermos as duas meninas, por sermos as duas só nós duas, fomos amigas. Não exatamente como amigas, claro. Eu diria mais como colegas de quarto. Minha mãe foi sim, minha roomie. Desde muito nova pude participar nas escolhas de como nossa vida seria, e ajudá-la a dar contorno e forma a todas as pequenas escolhas. Em parte porque ela deixava, estimulava e cultivava em mim a liberdade de escolhas e a tomada de decisões. Em parte porque ela mesma estava perdida e precisava de ajuda. Em parte porque fui criada, por ela e todos os demais familiares, como um ser humano, cujas ideias e sentimentos deviam ser respeitados, independentemente da idade.

Nosso ponto máximo de vida de roomie foi a casa do condomínio. Quando moramos sozinhas de novo. Já tínhamos vivenciado essa aventura muitos anos antes, na 407 norte. Naquela época moramos só as duas por cerca de três anos num apezinho pequeno e aconchegante. Com estantes feitas pelo vovô Gepeto, cheias de violetas e o rádio, embaixo da janela da sala. O banquinho de índio da vovó, emprestado para nós, com o telefone e mais uma violeta em cima, ao lado do sofá. O telefone verde, que para discar era necessário girar aquela roda de acrílico, já amarelada, e esperar cada número fazer sua quantidade de tec-tec-tecs até poder discar o próximo.

Naquela época eu ainda era muito nova. Vivemos lá entre meus cinco e oito anos. E lá aprendi a fazer vitamina de café da manhã, do jeito que ela gostava, com leite de soja e castanhas do Pará. E aprendi a noite a fazer a sopa de aveia e cenoura da vovó. Minha vida de sopas começou lá e eu nem sabia. De tomadora de sopa começou muito antes, desde que nasci. Mas de fazedora, começou lá. E um dia fomos buscadas por vovó magico de Oz, salvador de toda intempérie. Aquela empreitada não deu em nada.

Mas o que é na vida que tem que dar em alguma coisa? Que mania de buscar resultados mirabolantes de contos de fadas essa! Aqueles anos, com tudo que eles trouxeram, com os risos e o choro. Com minha frustração em não poder correr para minha árvore no jardim depois de uma briga em casa, que me fazia esconder debaixo da mesa da sala para chorar. E os risos de mel dela ao descobrir que metade do meu emburro era pela briga e a outra metade pela falta da árvore. As tempestades de verão assistidas da janela, com muita música alta acompanhando. As vitaminas de café da manhã aos domingos de sol, com as janelas abertas e, sempre, o rádio ligado. A primeira vez que ouvi ETC da Cássia foi assim. No rádio, tomando uma vitamina, ao som das gargalhadas dela, que se divertia tanto com a vitamina, o rádio e a letra.

Muitos anos depois, no condomínio, estávamos sós, não por escolha, mas por falta dela. A coisa mais significativa que apreendi com as perdas foi que o sofrimento de um ente querido que morre tem como alívio doce a certeza de que apesar de todo o sofrimento, a única coisa que cada um deles com toda certeza não queria, era me deixar sozinha. A maior preocupação de quem se vai para cumprir com as missões dessa vida é a preocupação de que quem fique, fique bem. Com muito amor na alma. Tudo o mais dói muito. É, em quase todos os sentidos, a pior dor que se pode sentir. Mas seu afago na alma é esse. A certeza de que os que foram, estariam, e de certa forma estarão, comigo sempre.

É o exato oposto das dores de um coração partido. As pequenas, e às vezes grandes, dores de um amor são o contrário disso. Existem infinitas variáveis, que mudam a cada caso, a cada dia, a cada estória, a cada amor. A única constante, é a certeza de que aquela pessoa não queria mais estar com você. E é por isso que dói. Mesmo quem se vai pela mais definitiva das razões, a morte, queria estar junto. Quando são por incompatibilidades do coração, nada é definitivo, além da certeza de que não se quer estar junto nunca mais.

Acho que por isso tantas vezes as pessoas, e incluo a mim mesma nessa lista, sendo ser humana que sou, sentem tanto receio de iniciar novas fases, ou de se jogar em novas situações. Existe o medo do desconhecido. Existe o receio de se revelar e de descobrir as entranhas alheias. E a cada ano que passa existem mais bagagens sobre os ombros de todos que andam sobre a Terra. E as bagagens lhes pesam os ombros, e lhes fazem lembrar de tudo o que já foi.

Não se apegue ao que já foi. Nem por motivos de amor, nem de morte, nem de vida. Quando olho no relógio e vejo que são onze horas de domingo, lembro dela. Dos risos de mel. Das músicas cantaroladas. Do rádio. Da sua voz duplicada dentro de casa, ao vivo, e a gravada, a me contar as mais maravilhosas histórias da nossa música. Lembro das violetas e da vitamina. Lembro das cócegas nos dias de bom humor e das caras fechadas nos dias de mau humor. Lembro com carinho. E guardo essa luz dourada em meu peito para sempre.

Olhei para a caneca dourada, com corujas de óculos. Olhei para as flores na almofada. Olhei para as fotos na estante. Os discos e as violetas na janela. Tenho vivido essa nova aventura e já se vão lá um ano e meio de vida sozinha, mas nunca solitária. De viagens incríveis. De aproveitar as vantagens de ser rainha do meu castelo, imperadora, podendo dar todas as ordens, por não dividir o poder com ninguém. E ao mesmo tempo cumprindo com todas as ordens, por ser também a única executora delas nesse espaço. Tão eu. Olhei meus passarinhos, os de barro na estante, o de madeira, Espirito-Santo mineiro, os de pano, no fundo azul da cortina filtrando o sol pela janela. Tão eu.

Olho para tudo isso, e guardo essa luz dourada em meu peito para sempre. Isso é o meu hoje. Aquilo foi meu ontem. E só a vida dirá o que meu amanhã me reserva. Não tenho medo do futuro, embora, hoje, tenha mais saudades dele do que do passado. Vivo hoje, penso e planejo o amanhã, me delicio com as memórias de ontem. Às onze de domingo sempre serão dela. Mas existem ainda todos os outros seis dias da semana, e as outras vinte e três horas do dia, os pores do sol, em terras distantes, os nasceres do sol acompanhados de tapiocas, para serem preenchidos. E enquanto isso vou me traduzindo em palavras. Sofio-me dia a dia. Inclusive, e, especialmente, às onze horas da manhã, de domingo.

A nostalgia do fim de ano: O Natal da Saudade

Hoje estou extremamente nostálgica. Estaria preocupada não fosse o já marcado almoço de Natal de família para amanhã, que me garante que suprirei boa parte dessa nostalgia, já que em festas de família, não há nada mais padrão do que ver fotos antigas, comparar o evento com os de anos anteriores e rever membros da família que não víamos a meses. Gosto de tudo isso, de todo o clichê envolvido, da poesia que existe na poeira levantada desses momentos. Mas além disso tudo existe uma outra nostalgia, um outro nível de nostalgia que me ataca nessa época.

Sempre fui uma pessoa muito nostálgica desde a infância, e contemplativa. Tenho essa tendência a observar momentos e depois revivê-los em minha mente, saboreando-os, perfumando-os, esmerilando-os. Contando a estória da história, e muitas vezes modificando-a um tantinho para guardar uma memória romanceada, com direito a filtros de cor e luz e trilha sonora, e que fique bem claro, minha mente já fazia isso muitos e muitos anos antes do Instagram.

Todo ano, quando começam a aparecer as luzes de Natal é como se se abrisse um portal. Como se os mundos se conectassem, e um pouco do meu mundo mágico pessoal, da literatura e da música, onde habitam todos os meus amigos e paragens mais queridos, migrasse um pouco para essa terra média, e especialmente durante o nascer e pôr do sol, eu estivesse com um pé na realidade e outro na fantasia. Isso faz com que eu tenha muita saudade de coisas que nunca vivi. São os momentos que sinto como se estivesse estudado em Hogwarts e estivesse saudosa do Baile de Inverno. Ou como se alguém tivesse deixado a porta do guarda-roupa aberta e os ventos nevosos de Nárnia estivessem invadindo meu verão chuvoso brasiliense.

E ao mesmo tempo sinto falta das histórias contadas pela vó na frente da lareira. Sinto uma falta que dói dos meus avós e sinto de verdade o cheiro dos ramos de cipreste molhados de chuva que podávamos do jardim e usávamos pra decorar a melhor árvore de Natal de todo o mundo, que era de mentira e de verdade ao mesmo tempo, trazendo o cheiro do Natal para dentro da sala sem matar árvore nenhuma. Obviamente uma invenção do super-homem, melhor avô do mundo.

Fico nostálgica e escuto Nat King Cole em minha mente, relembrando os artesanatos decorativos que fazia com a vovó, escolhendo cuidadosamente no quintal pinhas, e ramos de algodão, e pedras, para tingir de dourado e folhas secas que seriam pintadas de verde e vermelho e se mesclariam nas gamelas de barro e madeira, cheias de frutas da estação e castanhas. Sinto falta da excitação que tomava conta de todos, a ansiedade de ver toda a família reunida. E sim, era muito mais do que válida a expressão “se arrumar toda pra ficar na sala”! E como adorávamos!

Cada pedaço de papel guardado e todas aquelas tardes fabricando meus próprios cartões de Natal antes de enviá-los aos amigos. Já era uma coisa meio antiquada, mas eu amava comprar selos, e grudar envelopes, ter que anotar os endereços com CEP dos amigos, ou passar horas consultando o livro dos Correios para poder fazer surpresa. Além dos cartões eu tinha a função de empacotadora oficial da família. Comprávamos os rolos de papel natalino, um bom durex novo, fitas, muitas fitas. E assim se passavam manhãs de férias nas quais eu praticava a habilidade de fazer belos laços. Sempre tinha alguma lembrancinha esquecida, que era improvisada de última hora, um embrulho a ser feito dentro do carro antes de chegar na festa.

E assistir à minha avó arrumando a casa, tomando parte naquele processo de enfeitar e tornar festivo cada momento. E também quando eu a via se arrumar. Sempre achei um momento tão íntimo e tão maravilhoso. Minha musa, minha diva. Quando ela sentava na mureta do box, de frente para sua parede de espelho do banheiro, de roupão e bobs no cabelo, depois de tudo pronto e banho tomado. E eu sentava no chão pra assistir aquela transformação maravilhosa, e via cada cacho cair do bobs, cada pincelada de maquiagem, cada expressão facial estranha para aplicar bem um batom. Combinação cor da pele embaixo do vestido, e uma ajudinha da neta proativa pra fechar um zíper, um botão nas costas ou um fecho de sapato. E sempre, o gran finale, quando ela, já toda pronta, ficava com apenas o colar na mão e me pedia para ver se o vovô já estava pronto e chamá-lo. Ele vinha cheiroso do banho, de camisa, sempre em tons de azul e frequentemente listrada. Ela só abria a mão, sem uma palavra, e ele colocava o colar nela. E só então descíamos as escadas para receber a família e viver mais um Natal.

E mesmo enquanto eu vivia todos aqueles momentos, como se minha vida fosse um filme, sentia nostalgia, saudades do que nunca vivi. Ou do que estava vivendo. E me perdia fitando o pisca-pisca das luzes da árvore por horas. De um jeito bom, meditativo. Sinto falta hoje em dia de morar numa casa imensa, e de poder fugir do mundo, e me sentar naquela sala de pé direito desproporcionalmente alto, com todas as luzes apagadas, numa almofada no chão, tarde da noite, e ficar acompanhando as luzes em sua dança, em frente à árvore. Até que muito tempo depois minha mãe chegava em silencio, sentava ao meu lado, passava o braço ao meu redor, e depois de minutos em silêncio me perguntava se estava tudo bem. Ela sabia que eu precisava de momentos fora dessa realidade, entendia, apoiava, respeitava. E meditávamos juntas um pouquinho, abraçadas, naquela dança de luzes, no escuro, com aqueles cheiros e sons tão familiares. Até que ela me chamava pra ir dormir. Sem se preocupar com horário pois eu já estaria de férias da escola naquela altura do ano. Eram momentos de cumplicidade. De sentimentos profundos que sempre tive e nunca entendi. Momentos em que reconhecíamos a existência deles sem questioná-los.

Sempre fui nostálgica. Hoje sou saudosa. Não tinha motivos aparentes pra nostalgia antes. Tenho muitos pra saudade hoje.

Tudo novo, tudo heranças: o meu primeiro domingo sossegado

xícaras de anjo(Texto de 14/07/2013)

Acordo eu hoje, quatorze de julho de 2013, em meu apartamento. Sim, meu e só meu. Esse é meu primeiro domingo sossegado aqui. Me mudei tem uma semana, e hoje acordei sem pressa, sem prazos, sem horários, pela primeira vez desde a mudança.

Depois de passar uma semana carregando, desencaixotando, comprando, buscando e arrumando, posso dizer que finalmente está habitável. Ainda há muito a se fazer, mas a estrutura está pronta. Pois bem, eis que me levanto e decido curtir. Ainda de pijama, ligo uma música, e por querer esse clima calmo de aconchego, quis ouvir o que é mais eu mesma, Skank. Escolhi pela banda e deixei no randômico.

Abri a geladeira, peguei uma maçã, e coloquei um pouco de leite de soja pra esquentar, enquanto a cafeteira ficava pronta pra passar o café. Coloquei a mesa, peguei a geleia de laranja e esquentei um pão sírio do congelador na frigideira. Tudo muito cotidiano, muito familiar. Me sentei a mesa, e comecei a comer a maçã a dentadas enquanto o café esfriava só o suficiente para tomar, e a manteiga derretia no pão quente. E olhei a minha volta.

Tudo novo, e tudo tão familiar. Sem perceber, me joguei numa armadilha tão bem tramada que, só escrevendo para sair dela agora. Percebi que embora tudo seja novo, casa nova, louças novas, comida recém-comprada. Tudo soava como sempre na minha vida. Como meu âmago. Tudo herança.

A geleia eu comprei três dias atrás para um evento do trabalho, mas lendo o rotulo me lembrei que geleia de laranja, uma que gosto muito, era a preferida da minha mãe. E o pão sírio requentado, foi comprado pra minha festa de open house na sexta, mas esquentar pão na frigideira pra comer com geleia era a cara dela.

E o café, ah o café! Máquina nova, presente lindo dos meus tios, e as xícaras compradas por ela em Paris em 2010. Uma rosa e uma azul, tudo em dois. Não para um casal, como seria de se imaginar, mas para nós duas, mãe e filha. E me vi numa mesa nova, de dois lugares, com dois jogos americanos postos, e as duas xicaras parisienses me olhando, com suas asas de anjo. Sim, são xicaras com asas, asas de anjo.

E de repente vi que ela está em mim! De um tanto, mas de um tanto que não dei conta e desabei. Sim, é tudo novo, tudo escolhido por mim, mas poderia ser em qualquer das casas em que vivi minha vida toda, tudo tão familiar, os sons, os cheiros, os gostos. Foi escolhido por mim, mas poderia ter sido por ela.

E dói! Ao mesmo tempo o vazio se preenche e se faz mais presente do que nunca! Me vi nela e a vi em mim. Sei que não estou sozinha. Em um ano e meio nunca me senti tão próxima dela quanto nesse café da manhã, e ainda assim estou absolutamente sozinha.

E assim começo essa nova fase da minha vida, uma fase gostosa e saudosa, onde tudo é novo e tudo é herança.

Cutucando a colmeia: o reinício da música

(texto escrito a cerca de um ano – Abril de 2013, logo depois do aniversário de Brasília)

Eu voltei a ouvir a rádio Nacional F.M. 96.1!

Esse texto é uma tentativa, depois de escrever a primeira linha já enxergo o computador meio borrado, não sei se vou conseguir terminar…

Eu cresci envolta em música, sempre todos os minutos da minha vida! Tive mãe, pai, avós, todos muito musicais, cada um à sua forma, compondo uma bela harmonia no conjunto da obra.

Apesar de nunca ter parado de ouvir música, confesso que fiquei um ano sem ouvir a Nacional, tentei várias vezes, pra mudar de estação menos de cinco minutos depois em meio a muito choro. A primeira vez que ouvi a voz dela no rádio meu impulso irracional foi correr pro estúdio da rádio, pra ver se ela estava perdida por lá. Samba também dói! Mas foi ouvindo samba de novo que percebi que samba dói! Pra mim e pra todo mundo! E foi assim, com samba, que eu resolvi cutucar a colmeia!

Sim, eu sei que o ditado é cutucar o vespeiro, mas de um vespeiro só sai dor. Da colmeia, entretanto, se você aguentar algumas picadas, pode saborear umas gotinhas de mel! Estava muito fraca para as picadas antes, mas agora começo a escrever a minha bitter-sweet symphony, e o amargo da dor se mistura com o doce da música e de todas as lembranças que me abraçam quando a escuto. Abraços de fantasma, só o espectro do que já foi, mas doces!

Charlie Haden & Pat Metheny, Beyond the Missouri Sky, o único disco do meu pai para minha mãe, com dedicatória. E como ela ouvia esse disco! Charlie Haden & Keith Jarrett, Jasmine, foi também o único disco que ela trouxe da viagem a Paris! O único! O baixo que ela tanto amava e que me ensinou a amar!

Tínhamos tantas brincadeiras que envolviam a música e a rádio! Para mim eram só brincadeiras, mas como aprendi! Ela fazia meu Memória Musical de anos em anos! Anotava tudo! A primeira vez que ela fez eu devia ter um seis anos e só consegui pedir uma música, Hit the Road Jack, Ray Charles! Amava o disco, tínhamos o vinil, e na capa tinha um coelhinho, que eu achava que indicava, portanto, ser apropriado para crianças! Pedia para ouvir o disco do coelhinho toda hora!

Ouvíamos rádio e ela me perguntava voltando do Canarinho pra casa, “Isso é Jazz ou Blues?”, “Isso é Samba ou Choro?”. Não eram fáceis, ela ria alto quando eu errava e eu ficava com medo de decepcioná-la! Mas ela ria alto quando eu acertava também, e cantava! E a chance de ouvir ela cantar era suficiente pra me fazer superar o medo de errar, era minha grande recompensa! Ela cantava poucas vezes pra maravilha que era ouvir!

Ela ouvia Pink Floyd quando queria gritar e chorar, eu aprendi a ir dormir sendo “ninada” por essas músicas. Anos e anos depois, aprendi a acordar com samba todo domingo de manhã, um samba triste que escondia as lágrimas dela, derramadas pela perda do meu avô! E ela cantava, e chorava, e ria, e choramingava.

Meu avô! My very own superman! Tom Jobim e George Gershiwn! Tamborilados na ponta do dedo enquanto ele lia o jornal, ou anos mais tarde, jogava uma paciência no computador, nas manhãs de domingo. A música que eu ouvia enquanto nadava na piscina e ele lia o jornal me vigiando. E a vovó nos trazia um suco de manga do pé, e esperávamos o resto da família chegar pro singelo almoço de mais de trinta pessoas só da família mais próxima, todo domingo! Minha infância teve cheiro de manga e jabuticaba do pé, cloro da piscina, e som de Tom Jobim e Gershwin! E dos sons da vovó, de Armstrong, e Autum Leaves! A primeira música que gravei do computador, baixado para ela, a pedidos, Autum Leaves. Eu ouvia esses sons enquanto pregava e despregava botões de um retalho toda manhã nas férias para aprender a pregar botões.

E as outras brincadeiras que minha mãe e eu fazíamos. Bloquinhos de três músicas! Bem ao estilo radialista! Ela pegava uma música que eu gostava, estava ouvindo muito na época, e me mostrava as referências originais, e ouvíamos juntas pra ver se ficavam boas juntas, se ficassem, viravam um bloquinho! Meu bloquinho preferido sempre foi Águas de Março (Tom Jobim), Reza (Elis Regina) e Sambatron (Skank). Escutem as três nessa ordem, vai fazer sentido!

E outros, vários outros! Quantos Chicos, quantas brincadeiras, quantas referências e piadinhas internas. Quantas vezes não falamos que era culpa do Ahmed (vide DVD Cidades, Chico Buarque), ou quantas vezes ela não me convenceu de que Domingo no Parque foi feito pra mim, e Beatriz pra ela! Um verão inteiro na Bahia ouvindo “to te esperando na janela, ai, ai” e tirando fotos minhas posando nas janelas, e outros, tantos outros momentos!

Tem muito mais a ser dito a respeito da minha memória musical, mas por hoje não consigo mais! Dói! Dói, mas é doce!

Diários do Cena Dias 10 e 11: O Brasil, a Infância e o Fim

Ontem eu ouvi uma peça toda em brasileiro! Ouvi os sons da floresta, me encantei com meu próprio país e lembrei que ele também é das Maravilhas!
Recusa

Hoje eu chorei! Hoje chorei muito. Começou com uma lagrima pequena, ja conhecida, que brota no canto do olho quando falam em dor e descrevem aqueles que a conhecem. Sequei com a ponta dos dedos em movimento que ja é reflexo. Segui pelo mundo Magico do Cena, so que aos pouco ele foi se transformando e sem ter batido os calcanhares três vezes eu estava de novo em casa, so que numa casa que nao existe mais, e nao tinham nem 11 anos ainda. Aos pouco vi com meus olhos, porém revi detrás deles meus primos dormindo juntos, o André fazendo panqueca em cima do banco e grudando massa no teto. Eu, Dani e Carol dentro das roupas da vovó. Lembrei do Canarinho, da ida a Disney, de banho de banheira com amigas e biscoitos e cheddar em spray! Lembrei também de toda a solidão apesar dos amigos irmãos, das brigas na escola, de como aprendi levando um soco que eu era daquelas que nasceram pra dar a cara a tapa.
Lembrei dos meus oito amigos-irmão, dos balões de água na madrugada, dos passeios re bicicleta, das noites sem fim, das gotinhas sexys causadas pelo protetor solar. Lembrei dos meus avós nos ensinado a dançar valsa. Dos excessos de doce nas madrugadas. Da piscina. Dos milhares de jogos. Dos acampamentos no quintal. Da lona das barraca ensaboada enquanto nos jogávamos deslizando no morrinho do jardim.
Dos lanches do vovô! Do Nescau de liquidificador. Dos cachorros quentes na casa da Isa, dos cafés da manha na Flávia. Das mil despedidas do Fábio.
Me lembrei de mim mesma e de um tempo antes da dor! E ao mesmo tempo de como ja havia dor, reclusão, como ja era eu mesma, antes dos 11 anos!
Como estaremos daqui a dez anos? Ja se passaram mais de 10, e essas mesma pessoas foram as que me ajudaram a esvaziar minha casa depois da morte da minha mãe. Alguns moram longe, outros perto. O coração da gente aprende a se expandir, a cobrir o mundo pra que ninguém escape mesmo a distancia!
Dores novas e dores velhas, amizades novas e amizade velhas, primos, amores, irmãos! Hoje eu chorei, por mim e por outros, pelo real e pelo fantástico! E volto pra casa com um sorriso no rosto, lagrimas nos olhos e o coração aquecido! Obrigada Cena Contemporânea! Obrigada Guilherme Reis!!!
Matéria Prima
 

Diários do Cena Dia 9: O Som do Vento

Hoje é dia de muita música! E hoje foi ate agora um dia de muita magia. Oz e o País das maravilhas juntos nao são suficientes pra explicar a atmosfera de magia a qual o Jambinai me transportou! 
Hoje eu vi uma banda de rock! E o que há de tão magico nisso, me perguntam vocês. A principio, nada! Mas hoje eu vi instrumentos que desconhecia, e ouvi o som do vento, tocado, manejado por mãos de fada. Hoje eu vi seres encantados capazes de tocar cinco instrumentos musicais de uma vez só. Hoje eu vi uma força surgir nas mãos de velocidades inumanas e ser refletido nos rostos de duas doces fadas, que ao produzir aquele som fascinavam! Como sereias das profundezas seus sons prendiam, encantavam e pareciam capazes de matar alguém com nada mais que hashis da a velocidade, habilidade e intensidade daqueles pares de mãos!
Hoje eu conheci um doce rapaz de olhos puxados que toca além de tudo, com os calcanhares!
Vocês se lembram de outros sul coreanos que me fizeram entender e acreditar nos filmes de seres voadores? Pois bem, hoje eu presenciei algo tão incrível quanto, a capacidade deles me fazerem voar. Foi sem perceber, quando me dei conta ja tinha sido transportada de uma dimensão para outra e para outra de novo! Sem pausa, transitando entre mundos, entre sons, entre culturas, entre civilizações, entre milhares de anos, me perdendo em mim mesma!
Agora tem mais! Estou na praça de Absolem e a magica continua!
Ainda temos dois dias passeando pelas estadas coloridas, ou melhor ainda, sobrevoando-as, confundindo os tijolos amarelos com os vermelhos, sendo levada pelo vento, em seu som!

Jambinai

Diários do Cena Dias 7 e 8: Oz

Hoje eu tava mais em Oz do que com a Alice. Hoje eu vi o Leao, o Homem de Ferro e o Espantalho. Coincidentemente estou com meus sapatinhos vermelhos hoje, mas nao, me nao vou bater os calcanhares três vezes! Isso só no domingo! O Homem de Lata, o Leao e o Espantalho eram um só homem e três personagens, que se subdividiam em muitos outros. Mocçambicano, mas poderia ser brasileiro, ja que é tantas coisas ao mesmo tempo. Hoje eu presenciei aquele que procura e encontra, que ja encontrou e ainda esta a procurar, sua coragem, seu coração, sua fibra, sua origem, seu âmago.
Esse semana é de muita música e dança.
Agora fui teletransportada por Absolem par o museu e de volta ao País das Maravilhas do Cena! Ouvi instrumentos que desconhecia a existência, e musicas que me fizeram sonhar. Amanha entrarei ainda mais desse belo mundo Sul Coreano, na companhia da lebre e demais seres fantásticos.

Ontem eu visitei a corte da Rainha vermelha. Um mundo feminino, irrequieto, belo, angustiado, emotivo, profundo e perfunctório! Fui dormir com a gostosa lembrança de como foi ler Lispector pela primeira vez e como me senti. Ontem lembrei! De cada microsensação revivida, inesperadamente em francês. Mas afinal, dizem que faz parte as cortes falar em línguas diversas.

Seguirei entre a estrada de tijolos amarelos, vermelhos e o país das maravilhas. Me restam poucos dias de viagem antes de bater os calcanhares três vezes.

Diários do Cena Dia 6: Bsb e Eu

Eu sei que o Cena está já em sei oitavo dia, mas não assisti a espetáculos no domingo nem segunda. Domingo fui para a praça, misto de Cena e Todos os Sons, ver a Baby do Brasil e foi divertido como sempre. Dessa vez tive a companhia dos amigos e fui eu mesma, sem Alice ou Oz, só a maravilha de Brasília, que já é mais do que qualquer coisa! 
Segunda tirei folga, afinal, apesar de não querer perder nada a vida continua, trabalho o dia todo, e algum momento preciso cuidar das tarefas do dia-a-dia.
Hoje retomei meu passeio pelo País das Maravilhas do Cena e dessa vez é um caminho sem voltas e nem pausas até o último minuto.
Como Alice conheci na última semana todo tipo de seres encantados, me inspirei mais do que poderia imaginar possível, ri muito, chorei um pouco, dormi quase nada e me maravilhei constantemente.
Hoje Alice viu pessoas que sabem voar! Conheci de perto aqueles que desafiam a gravidade, me fizeram duvidar das leis da física, e me sentir de fato no país das maravilhas. Entre tatames e tambores eu presenciei corpos perfeitos, se movendo com precisão cirúrgica e a graça dos pássaros. Devia estar, definitivamente, nos jardins da Rainha Branca, e os tambores deviam ser aqueles que preparam Alice para sua batalha. Um misto de beleza, emoção e força. Muita força em todos os sentidos.
Cheguei em casa e já menos Alice (já que hoje não teve Museu) e mais eu mesma, senti falta das minhas aulas de yoga. Equilíbrio perfeito, força, treino, harmonia, e a desconstrução de tudo isso em nome da emoção.

Boa noite e até amanha. Por sorte ainda temos mais cinco dias sendo conduzidos por Absolem de forma enigmáticas nesse mundo fantástico!

Pattern – Coreia do Sul