BPM no JuReMa: São Paulo X La Seu

Apesar de hoje já não estar mais morando em La Seu D’Urgell, a experiência de quase um ano nessa cidadezinha de apenas 12.500 habitantes marcou minha vida. Foi uma no off, pra descansar, colocar os pensamentos e sentimentos em dia, descobrir muito sobre meus gostos e vontades, repensar a vida e o mundo, e tentar achar meu lugar nessa interseção. Dia 19/12/17, o BPM publicou meu texto com esse comparativo absurdo entre viver numa das maiores cidades do mundo e numa pequenina.

Coloco aqui algumas frases para dar o gostinho e te convido a clicar aqui e ler o texto na íntegra.

“No Brasil eu já vivi em Brasília e em São Paulo, e embora as experiências tenham sido muito diferentes, são duas grandes cidades, com inúmeras oportunidades e problemas urbanos derivados de seus tamanhos e importância econômica e política. Nem eu nem meu marido nunca havíamos morado em uma cidade pequena, apenas passado algumas férias em lugares menores, mas sem a experiência da vida cotidiana, que é sempre muito diferente.

Quando estávamos avaliando nossas possibilidades de vir para a Europa essa dúvida, entre cidade grande e interior surgiu. Fizemos algumas listas de pontos positivos e negativos, e, por fim, e pelas necessidades e conveniências da vida acabamos parando em La Seu D’Urgell, uma cidade de aproximadamente 12.500 habitantes, na fronteira com Andorra. Para quem saiu direto do centro de São Paulo, uma anomalia em termos de tamanho, uma das maiores cidades do mundo, foi um choque e tanto. Já falei aqui um pouco sobre os choques culturais da chegada, mas dessa vez queria me atrever a fazer esse comparativo tão desproporcional entre as duas cidades.”

Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

29

Essa semana estou completando 29 anos. Vinte e nove primaveras, já que sou de outubro. Mas não vou escrever sobre o que significa tornar-me uma mulher de vinte e nove anos. E não vou porque não sei. Não faço a menor ideia. Primeiro porque acho que cada mulher chega a esse momento de um jeito. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens, para não dizer sua sorte e seu azar, ou suas escolhas e seus destinos. O que é fazer vinte e nove para uma mulher que cresceu na pobreza e chega a idade plena adulta com uma conquista de um emprego? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que sempre teve tudo e nunca lutou por nada e está agora numa bela casa? O que é fazer vinte nove anos para uma síria recém-chegada ao Brasil, refugiada de guerra que celebra simplesmente vinte e nove anos de sobrevivência? O que é fazer vinte e nove anos para uma mulher que está casada, talvez já com um filho ou dois? O que é fazer vinte e nove anos e ser uma mulher solteira, que vive feliz seus dias em paz?

Eu não sei. Eu sou algumas dessas às vezes. Tenho meus anseios, meus receios, minhas bênçãos, minha guerra e minha paz. Enquanto escrevo, escuto os gritos animados que ecoam pelas janelas. Nos últimos nove meses tenho sido moradora de uma zona de “baladas”, na cidade grande e meus fins de semana possuem noites de muitos gritos, música, garrafas quebradas, brigas na madrugada, cantorias sem fim, e tudo isso de debaixo das minhas cobertas. O barulho não me incomoda. Meu sono é de pedra. Mas às vezes fecho os olhos e lembro dos meus grilos, da grama molhada de orvalho, dos latidos e uivos dos cachorros, e até um mugido ocasional ao fundo. Minha vida em Brasília foi, durante muitos anos, em casas afastadas.

Hoje o que eu mais gostaria, virando esses vinte e nove anos seria sentar na varanda da casa onde morei com minha mãe em seus últimos anos. Gostaria de sair do trabalho, da aula, no início da noite e ir até lá, mesmo que já não morasse lá, pois mesmo que ela estivesse viva, já não imagino que fossemos dividir a mesma casa ainda. Mas iria até lá, pelo menos uma vez por semana à noite, só para tirar os sapatos e pisar na grama molhada, fazer uma xícara de chá, abraça-la forte, e convidá-la para sentar na varanda. Ouvir os insetos, me incomodar com os pernilongos e as mariposas na luz. Suar no calor de Brasília. Secar a testa com o verso da mão, cruzar as penas em cima da poltrona, mesmo estando de vestido, olhar para ela e admira-la. Gostaria de dizer: “Mãe, hoje eu te entendo tanto. Te entendo cada vez mais”, e gostaria de pedir desculpas pelas minhas arrogâncias da adolescência e do início de vida adulta.

Eu sei que precisei negá-la, precisei contesta-la, como acho que todos os filhos precisam, para crescer, criar suas próprias opiniões e se desenvolver. Não faria nada diferente. Não quero mudar o passado. Mas gostaria de dizer que hoje ela faz mais sentido para mim. Não era perfeita, e não quero nem pretendo endeusa-la num culto pós mortem maluco. Mas hoje sinto falta da relação mãe e filha adulta. Sempre fomos muito amigas. Gostaria de poder falar para ela que agora a compreendo melhor. Queria muito ir até lá, e sem sapatos, de pernas cruzadas, ouvir suas histórias tão gostosas, ouvir suas entrevistas ainda sem edição, seus discos, conhecer um novo artista em primeira mão.

Ela acenderia um cigarro e aquilo me incomodaria muito como sempre. Mas dessa vez eu não iria brigar. Eu agora entendo. Hoje não sinto mais aquela raiva ultrajada. Hoje eu gostaria de pegá-la pela mão, e leva-la para minha aula de Yôga. Gostaria de viajar com ela, e lhe mostrar o mundo com meus olhos. Hoje eu faria um belo jantar vegetariano para ela, na esperança de que o modo alimentar que eu adotei fosse fascina-la e auxiliá-la com o problema crônico de baixo peso, e, na minha opinião, uma anorexia não diagnosticada.

E o mais importante, eu não faria nada disso para salvá-la, e nem esperaria que ela fizesse Yôga e nem que virasse vegetariana. Ela adulta, seguiria fazendo o que bem entende. Eu não ficaria com raiva, entenderia, como hoje entendo uma amiga. Eu faria tudo isso só pelo prazer de compartilhar o meu eu adulto com ela. Gostaria de mostrar para ela minhas escolhas, minhas experiências. A verdade é que com o passar dos anos eu sinto menos falta do colo de mãe e muito mais falta da minha melhor amiga.

Hoje, aos vinte e nove, órfã, mestranda, escritora e acadêmica wanna-be, louca pelo mundo, viajante, leitora ávida, eu sei que seria uma amiga ainda melhor na convivência com ela. A verdade é que sinto muita falta das minhas outras amigas e amigos de Brasília. Mas ao mesmo tempo me impressiono com tudo que São Paulo me deu nesses poucos meses. Tenho aqui já uma vida tão rica quanto a que sempre tive em casa. A verdade é que desde que perdi a casa dos meus avós, muitos anos antes de deixar Brasília, já não me sentia verdadeiramente em casa. Desci então que o mundo seria minha casa. Em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Fiz minha casa no meu coração, como diz o Skank, e tem funcionado muito bem.

Fui convidar alguns amigos para um abraço no dia desse meu ano novo, e já não sei como acomodar a todos na minha casinha. Mas estão todos já no coração. Amigos novos e antigos, familiares longe ou perto. Eu não faço ideia de como seja ter vinte e nove anos. Mas nunca me senti tão segura, tão realizada. Nesse momento eu não penso em ter filhos, não penso em casamentos formais, mas o porteiro diz para o meu namorado: “O pacote da sua esposa chegou! ”, quando recebo algo pelo correio. Não posso corrigi-lo. Tenho vinte e nove anos e moro com alguém em um relacionamento sério, monogâmico e, mais importante, feliz.

Semana passada me vi envolvida em tantos assuntos novos, registrar na Biblioteca Nacional um trabalho coletivo autoral, auxiliar um refugiado em meio ao meu trabalho voluntário na ONG, acompanhar algumas palestras internacionais e tentar aprender a publicar em periódicos internacionais de relevância acadêmica, ouvir as impressões do ministro de economia uruguaio sobre os novos rumos da América Latina, recebi muitos e muitos ensaios para corrigir. Não as provas de inglês de sempre, mas ensaios acadêmicos de graduação, que corrigirei no meu estágio como mestranda. Além disso fiz torta de maçã, do zero.

É, olho meus vinte e nove anos e os vejo como inegáveis. E como são maravilhosos. Nunca pensei que já ia ter vivido tanta coisa, e ter tanta história para contar. Mas aí eu olho para meus dedos, que batem freneticamente no teclado e vejo que as juntas dos dedos já não são lisinhas, os nós dos dedos já carregam suas marcas, e deixam minhas mãos tão incrivelmente parecidas com as mãos da minha mãe. E lembro de como eu gostaria de sentar com ela na varanda para um chá e contar tudo isso, só pelo prazer de sua companhia. Depois eu voltaria para casa, que podia até ser essa aqui em São Paulo, com a vida corrida e cheia de surpresas gostosas que tenho vivido, mas se eu tivesse um momento de poço dos desejos seria esse chá.

Os barulhos na rua estão cessando. Afinal, já é domingo de madrugada, e uma hora todos vão dormir. Amanhã levantarei cedo, tenho um artigo para escrever e uma faxina para fazer. A semana passará bem depressa, e na sexta-feira os vinte e nove chegarão. Os amigos visitarão, e a vida continuará. Mas quem sabe hoje à noite eu não sonho que estou naquela varanda, contando tudo isso para ela? Em sonho já está bom. Uma vista breve, sabe, só para ela saber como minha vida vai. Só para eu ganhar um beijo e um abraço. Só para eu me sentir um pouquinho filha e criança, mesmo com 29.

Eu

Então, essa é a minha última semana nessa casa. Na madrugada da sexta para o sábado que vem, pego a estrada rumo a uma nova etapa, uma nova aventura. A caneca de chá está aqui ao meu lado. Faz um calor desesperador. Janela aberta. Ventiladores de teto ligados. Eles estavam na minha To Do List de 2014, check and done! Colocados no teto! Esse ano cumpri com absolutamente todas as minhas metas pré-estabelecidas e fui além. Estou extremamente satisfeita comigo mesma e com a minha vida.

Bate uma alegria, uma ansiedade, uma vontade de chegar logo na nova fase. Dessa vez, entretanto, não sinto o gosto amargo das despedidas. Primeiro porque dessa vez, pela primeira vez na minha vida, ninguém se foi, seja de uma forma ou de outra. Quem está indo sou eu. E isso faz toda a diferença. Quem fica, quando os outros vão, fica só, fica no mesmo lugar, que precisa ser reinventado para cobrir o vazio. Dessa vez vou rumo ao cheio. E a muitos vazios também. Espero poder preenche-los. Levar comigo minha música, meu cheiro, meus passarinhos, minhas estórias.

Vou porque quero, não porque preciso. Vou porque construí o caminho, a ponte está feita e agora é só cruza-la. Há uma alegria infinita nesse processo. Sei que não existe, na verdade, um chegar lá. Que apenas cruzo para continuar na estrada. E que ela seja longa! E cheia de novidades sempre! Essa ida tem tudo de começo. Estou acostuma a mudanças que são finais. Essa agora é um início. Às vezes penso que é apenas um capítulo novo. Mas na verdade farejo ares de outro volume. Como se algumas mudanças fossem, per si, drásticas demais para estarem contidas naquele mesmo velho livro.

Outro fator que me leva a essa ideia é a natureza dessa mudança. Nada tem gosto de inevitabilidade, tudo tem gosto de escolha própria. Nesse sentido, posso afirmar, que estou me dando o maior luxo da minha vida até hoje. Afinal, é um enorme privilégio poder fazer essas escolhas, ter as condições de realiza-las, e ainda por cima, saber que é tudo por mim, de mim, para mim. Presente de natal, ano novo, de vida. De vida nova. Sempre coloquei as obrigações e as necessidades em primeiro lugar. E elas sempre me exigiram muito. Essa história de livres escolhas baseadas em desejos, sonhos e realizações é uma tremenda novidade.

Não pense, contudo, que essa guinada aconteceu no natal. A primeira mudança, física inclusive, quando vim morar no meu pequeno aposento do alto dessa torre de onde vos escrevo, foi voluntária. Não foi fim, foi o início de um começo, ou o começo de um início. O início do meu começo. Completo agora um ano de meio de dedicação exclusiva à Juliana, à JuReMa, à Ju, à Juju, à tia Juju, à Marra, a todas essas que moram em mim. E, finalmente comecei a alcançar bons resultados, advindos dessa dedicação de corpo, mente e alma, ao meu corpo, minha mente e minha alma. Me sinto lustrada e polida.

Sei que já disse um pouco de tudo isso aqui, e receio cair na repetição e nas mesmices daqueles que se aventuram na linguagem das palavras escritas. Mas preciso tentar eternizar a sensação de plenitude desse momento. O fruto da dedicação voltada ao interior, ao meu Eu. Porque se tem uma coisa que eu aprendi, com toda certeza, até hoje, é que a vida é dinâmica, e está sempre pronta para me jogar de um lado para o outro, sempre! E estou segura de que outras infinitas mudanças virão, e que algumas delas serão inícios, outras finais, e que em algumas poderei tomar decisões efetivas, em outras terei que acompanhar a maré para não afogar.

O que preciso ter como um tesouro, como um sentimento encapsulado e guardado num berloque junto ao peito, é essa sensação de plenitude e satisfação que hoje possuo, sozinha. A certeza de que, assim como hoje eu construí um lar só meu, depois de todas as marés às quais já sobrevivi, posso reconstruí-lo a qualquer tempo, em qualquer lugar. Hoje sei que sou capaz disso. E que sou capaz disso não só hoje, pois esse aprendizado é para a eternidade. Uma vez alcançado, pode até enferrujar com o tempo, se não for lubrificado, mas sempre poderá ser reativado. E pretendo mantê-lo bem oleado.

Que a caneca de chá se mantenha sempre minha fiel companheira. E, independentemente do que o futuro trará, as palavras sempre serão meu consolo, minha vida, minha alma, se fragmentando ao vento, e sendo reconstituída em cada esquina, em cada prato de comida, em cada viagem, em cada livro lido, em cada mensagem trocada com os amigos e familiares, em cada olhar daqueles que me veem, me leem. Nunca estarei sozinha, pois aprendi a me fazer presente na solidão, e a preenche-la, a preencher-me na vida dos outros, a preencher os outros na vida minha.

Sejam as selfies, as fotos, a superexposição do facebook, as mensagens em horários indevidos, os grupos silenciados do whatsapp, as ligações demoradas do Skype, os passeios no parque, as conversas de corredor, os almocinhos, as saídas, as piscinas, as pedaladas na rua, as trilhas no mato, eu sempre me faço presente, sozinha ou acompanhada. Seja Juliana, Ju, Jujuba, JuReMa, tia Juju, tia Juba, Marra, seja quem eu for para os outros, eu me reinvento e estou lá para eles. E eles se tornam presentes para mim!

Por isso, olho a caneca de chá, e digo a ela que se prepare para horas de plástico bolha, pois vamos em mais uma aventura! E, com toda certeza, terei muitas e muitas palavras nas quais me dissolver ao longo dessa nova estrada. Sejam os tijolos amarelos ou vermelhos, passe um coelho apressado em meu caminho e eu decida segui-lo por algum tempo, seja a viagem surreal como o desejo de um gênio da lâmpada, a menina será sempre Alice, pronta para desbravar o País das Maravilhas, e tornar seus medos, amigos. A menina será sempre Sofia, tornando-se palavras enquanto vira realidade. Que venha 2015, e o resto da vida!

Brasília, domingo, onze da manhã, de um ano qualquer

Era domingo. Onze da manhã. E daí? – você me pergunta. Acordou tarde? Não. Não é isso. Não importa que horas acordei. Que horas fui dormir. Domingo era o dia dela. E onze da manhã sua hora. A hora do rádio. Não era a hora da Voz do Brasil. Era a hora da voz do meu Brasil. Do meu mundo. Da minha mãe.

Olhei a xícara de chá ao meu lado. Dourada com corujas, algumas de óculos. Tão eu. Presente de aniversário. Olhei o pequeno bule roxo, cheio do chá matinal, orgânico, detox. Tão eu. Comprado sob os auspícios de casa nova, e já vão lá um ano e meio de uso, de casa, de chás. Cocei a cabeça, cabelo preso, embaraçado da noite de sono ainda. Tão eu. Sempre assim. Um dia de folga, e de pijamas e com uma xícara, preferencialmente uma caneca, de chá nas mãos, e já lá estou, com um livro, uma leitura, uma aventura. Ou com letras nos dedos.

Ah essas letrinhas que não me deixam mais. Falo pelos cotovelos, e como dizia ela, ainda bem que nasci só com dois, se não ninguém aguentava. Melhor traduzir em palavras. Em rabiscos. Tanta ideia, tanto sentimento, tanta vontade de se pôr para fora. Minha voz era minha ouvinte número um. E tão boa que cresci mal acostumada no que diz respeito às boas companhias.

Ainda que fossemos mãe e filha, por diversos motivos, por sermos as duas filhas dentro da casa dos meus avós, por sermos as duas meninas, por sermos as duas só nós duas, fomos amigas. Não exatamente como amigas, claro. Eu diria mais como colegas de quarto. Minha mãe foi sim, minha roomie. Desde muito nova pude participar nas escolhas de como nossa vida seria, e ajudá-la a dar contorno e forma a todas as pequenas escolhas. Em parte porque ela deixava, estimulava e cultivava em mim a liberdade de escolhas e a tomada de decisões. Em parte porque ela mesma estava perdida e precisava de ajuda. Em parte porque fui criada, por ela e todos os demais familiares, como um ser humano, cujas ideias e sentimentos deviam ser respeitados, independentemente da idade.

Nosso ponto máximo de vida de roomie foi a casa do condomínio. Quando moramos sozinhas de novo. Já tínhamos vivenciado essa aventura muitos anos antes, na 407 norte. Naquela época moramos só as duas por cerca de três anos num apezinho pequeno e aconchegante. Com estantes feitas pelo vovô Gepeto, cheias de violetas e o rádio, embaixo da janela da sala. O banquinho de índio da vovó, emprestado para nós, com o telefone e mais uma violeta em cima, ao lado do sofá. O telefone verde, que para discar era necessário girar aquela roda de acrílico, já amarelada, e esperar cada número fazer sua quantidade de tec-tec-tecs até poder discar o próximo.

Naquela época eu ainda era muito nova. Vivemos lá entre meus cinco e oito anos. E lá aprendi a fazer vitamina de café da manhã, do jeito que ela gostava, com leite de soja e castanhas do Pará. E aprendi a noite a fazer a sopa de aveia e cenoura da vovó. Minha vida de sopas começou lá e eu nem sabia. De tomadora de sopa começou muito antes, desde que nasci. Mas de fazedora, começou lá. E um dia fomos buscadas por vovó magico de Oz, salvador de toda intempérie. Aquela empreitada não deu em nada.

Mas o que é na vida que tem que dar em alguma coisa? Que mania de buscar resultados mirabolantes de contos de fadas essa! Aqueles anos, com tudo que eles trouxeram, com os risos e o choro. Com minha frustração em não poder correr para minha árvore no jardim depois de uma briga em casa, que me fazia esconder debaixo da mesa da sala para chorar. E os risos de mel dela ao descobrir que metade do meu emburro era pela briga e a outra metade pela falta da árvore. As tempestades de verão assistidas da janela, com muita música alta acompanhando. As vitaminas de café da manhã aos domingos de sol, com as janelas abertas e, sempre, o rádio ligado. A primeira vez que ouvi ETC da Cássia foi assim. No rádio, tomando uma vitamina, ao som das gargalhadas dela, que se divertia tanto com a vitamina, o rádio e a letra.

Muitos anos depois, no condomínio, estávamos sós, não por escolha, mas por falta dela. A coisa mais significativa que apreendi com as perdas foi que o sofrimento de um ente querido que morre tem como alívio doce a certeza de que apesar de todo o sofrimento, a única coisa que cada um deles com toda certeza não queria, era me deixar sozinha. A maior preocupação de quem se vai para cumprir com as missões dessa vida é a preocupação de que quem fique, fique bem. Com muito amor na alma. Tudo o mais dói muito. É, em quase todos os sentidos, a pior dor que se pode sentir. Mas seu afago na alma é esse. A certeza de que os que foram, estariam, e de certa forma estarão, comigo sempre.

É o exato oposto das dores de um coração partido. As pequenas, e às vezes grandes, dores de um amor são o contrário disso. Existem infinitas variáveis, que mudam a cada caso, a cada dia, a cada estória, a cada amor. A única constante, é a certeza de que aquela pessoa não queria mais estar com você. E é por isso que dói. Mesmo quem se vai pela mais definitiva das razões, a morte, queria estar junto. Quando são por incompatibilidades do coração, nada é definitivo, além da certeza de que não se quer estar junto nunca mais.

Acho que por isso tantas vezes as pessoas, e incluo a mim mesma nessa lista, sendo ser humana que sou, sentem tanto receio de iniciar novas fases, ou de se jogar em novas situações. Existe o medo do desconhecido. Existe o receio de se revelar e de descobrir as entranhas alheias. E a cada ano que passa existem mais bagagens sobre os ombros de todos que andam sobre a Terra. E as bagagens lhes pesam os ombros, e lhes fazem lembrar de tudo o que já foi.

Não se apegue ao que já foi. Nem por motivos de amor, nem de morte, nem de vida. Quando olho no relógio e vejo que são onze horas de domingo, lembro dela. Dos risos de mel. Das músicas cantaroladas. Do rádio. Da sua voz duplicada dentro de casa, ao vivo, e a gravada, a me contar as mais maravilhosas histórias da nossa música. Lembro das violetas e da vitamina. Lembro das cócegas nos dias de bom humor e das caras fechadas nos dias de mau humor. Lembro com carinho. E guardo essa luz dourada em meu peito para sempre.

Olhei para a caneca dourada, com corujas de óculos. Olhei para as flores na almofada. Olhei para as fotos na estante. Os discos e as violetas na janela. Tenho vivido essa nova aventura e já se vão lá um ano e meio de vida sozinha, mas nunca solitária. De viagens incríveis. De aproveitar as vantagens de ser rainha do meu castelo, imperadora, podendo dar todas as ordens, por não dividir o poder com ninguém. E ao mesmo tempo cumprindo com todas as ordens, por ser também a única executora delas nesse espaço. Tão eu. Olhei meus passarinhos, os de barro na estante, o de madeira, Espirito-Santo mineiro, os de pano, no fundo azul da cortina filtrando o sol pela janela. Tão eu.

Olho para tudo isso, e guardo essa luz dourada em meu peito para sempre. Isso é o meu hoje. Aquilo foi meu ontem. E só a vida dirá o que meu amanhã me reserva. Não tenho medo do futuro, embora, hoje, tenha mais saudades dele do que do passado. Vivo hoje, penso e planejo o amanhã, me delicio com as memórias de ontem. Às onze de domingo sempre serão dela. Mas existem ainda todos os outros seis dias da semana, e as outras vinte e três horas do dia, os pores do sol, em terras distantes, os nasceres do sol acompanhados de tapiocas, para serem preenchidos. E enquanto isso vou me traduzindo em palavras. Sofio-me dia a dia. Inclusive, e, especialmente, às onze horas da manhã, de domingo.

Eu me Chamo JuReMa

Hoje a menina se arrumou para sair de casa, despretensiosa. Já eu estava um pouco IMG_0732ansiosa. O fim de semana foi de paz para as duas, pra mim e para a menina. Descansamos depois de muitos dias de trabalho, e a menina largou seus livros por uma dose rara de TV e jogos. Já eu me entretive com a paisagem e com a família, irmão e sobrinhos. Meu caderninho ficou guardado na bolsa, junto com os livros da menina. Esse fim de semana a menina não estava muito Alice e nem eu muito reminiscente.

E foi assim, de espirito leve, que entrei naquela fila. Admiro muitas coisas e pessoas diversas, mas existe em mim uma fã, uma tiete, que não necessariamente possui a admiração solene que tenho pelas belas obras, mas uma que só quer sentir a emoção fulgaz das coisas pequenas que me falam à alma. E para distrair a minha leve ansiedade, deixei a menina brincar pelos corredores do shopping, e ela fez o que faz de melhor, sentou-se no chão, ali no meio daquela gente toda, tirou um de seus livros da minha bolsa e pôs-se a ler, para dar uma fugidinha daquele lugar tão artificial. Talvez não houvesse tempo hábil entre uma passada da fila e a próxima para nos jogarmos na toca do coelho, mas para um crônica rápida sempre há tempo. E assim, a menina optou por ser menos Alice e mais Adriana naquele momento.

E foi assim, que Sofia despertou em mim. Foi na página setenta e cinco, que eu li o título, “A Mocinha”. E a menina me olhou toda animada, se reconhecendo nas páginas. E empurrei Sofia para dentro sob o argumento de que aquelas páginas não eram dela, e eu ainda estava no meio do shopping movimentado, imersa em realidade, por mais que a menina solta já estivesse sentada no chão, de “perninhas de índio”, como uma criança perdida na sua vida adulta.

E foi ao ler as páginas da mocinha que a menina me disse que se a mocinha podia ser, ela também podia. Olha como a mocinha é como você, a menina me disse. E isso eu não podia contestar. O problema foi a Sofia. Como alguém já experiente em sair das páginas de um livro e migrar para a realidade, ela se inflou toda com o reconhecimento da menina, que se adrianava nas palavras da mocinha. Respirei fundo para acalmar aquela mulherada que se apoderava da situação, e retomar o controle da realidade, já que eu era a única que dominava a realidade ali.

Foi quando olhei para frente, guardando o livro da menina, a história da mocinha já finda, e peguei o meu livro para fazer o que tinha ido fazer ali, tietar. Mas eis que nesse momento, Sofia já tinha saído das páginas, e se apoderou de mim com a força da Alice. E vi na minha frente um outro ser que também é vários. Vi Pedro, vi Antônio, vi Gabriel, e vi também o Chapeleiro Maluco. Já estava muito longe, toca adentrada sem perceber, e discorria sobre as maravilhas desse país imaginário tão real. Num borrão digno da ficção, até agora não sei se estou cheia de reminiscência sobre o meu passado, meu presente ou meu futuro. Não sei se a menina, então Alice, feliz com o encontro com o Chapeleiro se deixou levar pelas maravilhas. Não sei se Sofia saiu das páginas para a vida real e me empurrou para preencher seu vazio dentro do livro.

Talvez tenha virado palavras, para que elas pudessem ganhar vida. A sensação é a de ressaca. Ressaca forte como a do mar. Que me balança e enche de náuseas. E nesse balanço percebo que meu mar e feito de palavras, polvilhadas de poesia. E que minhas reminiscências se misturaram de forma inseparável com as aventuras da menina. E que somos uma. Sempre fomos uma. Hoje, Eu me Chamo Menina. Eu me Chamo Alice. Eu me Chamo Adriana. Eu me Chamo Sofia. Eu me Chamo JuReMa.

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A nostalgia do fim de ano: O Natal da Saudade

Hoje estou extremamente nostálgica. Estaria preocupada não fosse o já marcado almoço de Natal de família para amanhã, que me garante que suprirei boa parte dessa nostalgia, já que em festas de família, não há nada mais padrão do que ver fotos antigas, comparar o evento com os de anos anteriores e rever membros da família que não víamos a meses. Gosto de tudo isso, de todo o clichê envolvido, da poesia que existe na poeira levantada desses momentos. Mas além disso tudo existe uma outra nostalgia, um outro nível de nostalgia que me ataca nessa época.

Sempre fui uma pessoa muito nostálgica desde a infância, e contemplativa. Tenho essa tendência a observar momentos e depois revivê-los em minha mente, saboreando-os, perfumando-os, esmerilando-os. Contando a estória da história, e muitas vezes modificando-a um tantinho para guardar uma memória romanceada, com direito a filtros de cor e luz e trilha sonora, e que fique bem claro, minha mente já fazia isso muitos e muitos anos antes do Instagram.

Todo ano, quando começam a aparecer as luzes de Natal é como se se abrisse um portal. Como se os mundos se conectassem, e um pouco do meu mundo mágico pessoal, da literatura e da música, onde habitam todos os meus amigos e paragens mais queridos, migrasse um pouco para essa terra média, e especialmente durante o nascer e pôr do sol, eu estivesse com um pé na realidade e outro na fantasia. Isso faz com que eu tenha muita saudade de coisas que nunca vivi. São os momentos que sinto como se estivesse estudado em Hogwarts e estivesse saudosa do Baile de Inverno. Ou como se alguém tivesse deixado a porta do guarda-roupa aberta e os ventos nevosos de Nárnia estivessem invadindo meu verão chuvoso brasiliense.

E ao mesmo tempo sinto falta das histórias contadas pela vó na frente da lareira. Sinto uma falta que dói dos meus avós e sinto de verdade o cheiro dos ramos de cipreste molhados de chuva que podávamos do jardim e usávamos pra decorar a melhor árvore de Natal de todo o mundo, que era de mentira e de verdade ao mesmo tempo, trazendo o cheiro do Natal para dentro da sala sem matar árvore nenhuma. Obviamente uma invenção do super-homem, melhor avô do mundo.

Fico nostálgica e escuto Nat King Cole em minha mente, relembrando os artesanatos decorativos que fazia com a vovó, escolhendo cuidadosamente no quintal pinhas, e ramos de algodão, e pedras, para tingir de dourado e folhas secas que seriam pintadas de verde e vermelho e se mesclariam nas gamelas de barro e madeira, cheias de frutas da estação e castanhas. Sinto falta da excitação que tomava conta de todos, a ansiedade de ver toda a família reunida. E sim, era muito mais do que válida a expressão “se arrumar toda pra ficar na sala”! E como adorávamos!

Cada pedaço de papel guardado e todas aquelas tardes fabricando meus próprios cartões de Natal antes de enviá-los aos amigos. Já era uma coisa meio antiquada, mas eu amava comprar selos, e grudar envelopes, ter que anotar os endereços com CEP dos amigos, ou passar horas consultando o livro dos Correios para poder fazer surpresa. Além dos cartões eu tinha a função de empacotadora oficial da família. Comprávamos os rolos de papel natalino, um bom durex novo, fitas, muitas fitas. E assim se passavam manhãs de férias nas quais eu praticava a habilidade de fazer belos laços. Sempre tinha alguma lembrancinha esquecida, que era improvisada de última hora, um embrulho a ser feito dentro do carro antes de chegar na festa.

E assistir à minha avó arrumando a casa, tomando parte naquele processo de enfeitar e tornar festivo cada momento. E também quando eu a via se arrumar. Sempre achei um momento tão íntimo e tão maravilhoso. Minha musa, minha diva. Quando ela sentava na mureta do box, de frente para sua parede de espelho do banheiro, de roupão e bobs no cabelo, depois de tudo pronto e banho tomado. E eu sentava no chão pra assistir aquela transformação maravilhosa, e via cada cacho cair do bobs, cada pincelada de maquiagem, cada expressão facial estranha para aplicar bem um batom. Combinação cor da pele embaixo do vestido, e uma ajudinha da neta proativa pra fechar um zíper, um botão nas costas ou um fecho de sapato. E sempre, o gran finale, quando ela, já toda pronta, ficava com apenas o colar na mão e me pedia para ver se o vovô já estava pronto e chamá-lo. Ele vinha cheiroso do banho, de camisa, sempre em tons de azul e frequentemente listrada. Ela só abria a mão, sem uma palavra, e ele colocava o colar nela. E só então descíamos as escadas para receber a família e viver mais um Natal.

E mesmo enquanto eu vivia todos aqueles momentos, como se minha vida fosse um filme, sentia nostalgia, saudades do que nunca vivi. Ou do que estava vivendo. E me perdia fitando o pisca-pisca das luzes da árvore por horas. De um jeito bom, meditativo. Sinto falta hoje em dia de morar numa casa imensa, e de poder fugir do mundo, e me sentar naquela sala de pé direito desproporcionalmente alto, com todas as luzes apagadas, numa almofada no chão, tarde da noite, e ficar acompanhando as luzes em sua dança, em frente à árvore. Até que muito tempo depois minha mãe chegava em silencio, sentava ao meu lado, passava o braço ao meu redor, e depois de minutos em silêncio me perguntava se estava tudo bem. Ela sabia que eu precisava de momentos fora dessa realidade, entendia, apoiava, respeitava. E meditávamos juntas um pouquinho, abraçadas, naquela dança de luzes, no escuro, com aqueles cheiros e sons tão familiares. Até que ela me chamava pra ir dormir. Sem se preocupar com horário pois eu já estaria de férias da escola naquela altura do ano. Eram momentos de cumplicidade. De sentimentos profundos que sempre tive e nunca entendi. Momentos em que reconhecíamos a existência deles sem questioná-los.

Sempre fui nostálgica. Hoje sou saudosa. Não tinha motivos aparentes pra nostalgia antes. Tenho muitos pra saudade hoje.

A menina, velha mulher

A menina já não era tão menina assim. Alguns dias se sentia muito velha, outros, nova demais. Na verdade, ela era, como todas as outras, dona de um coração de menina, daqueles que acordam felizes, só porque faz sol. Era também dona de um corpo de mulher, daqueles que as fazem se descabelar na hora de escolher uma roupa e chamam uma atenção que às vezes é bem-vinda, e em outras odiada. Era também dona de um espírito e alma de velha. Daqueles capazes de passar horas procurando um pelo em ovo, só para achar, eventualmente, não um pelo, mas uma pluma, coladinha na frágil casca, e se lembrar que não importa quem veio primeiro, o ovo o galinha, importa, que a galinha também era fêmea, mesmo que o ovo nem sempre o seja, e isso a faz considerar a galinha primeiro, primeira.

Era aquela hora. Uma hora desconhecida pelos seres do gênero masculino. Uma hora tão feminina, que faltam palavras para descrevê-la, embora sobre sentimento. Assim como às mulheres, às vezes lhes faltam palavras, mas sempre sobram sentimentos. Nessa hora o carro é quente, o ônibus é cheio, o trânsito é barulhento. O calor daqueles meios de transporte contrasta com a leve brisa que a noite vem trazendo, e a menina arrepia, apesar de suar de calor. Naquela hora o estômago ronca de fome, mas a boca azeda, e o enjoo faz a vontade de comer ir embora.

A menina olha para o céu. Ele ainda é azul. Não azul claro, como no amanhecer, mas um azul hortênsia, como a flor, claro, porém profundo. O mundo, entretanto, já é tomado de sombras, as silhuetas das árvores já são formas pretas contrastando com o ainda azul do céu. E há um brilho que beira o rosa e é também dourado, de um sol que já não se vê. E bonito, e triste. A menina olha para o céu, vê um quarto de lua minguante, prateada, começando a se apoderar de seu céu noturno, seu céu feminino. A lua já brilha, embora ainda não seja exatamente noite. E eis que de repente, não mais do que de repente, lá está ela, uma pequena estrela a fazer companhia a sua lua, como mãe e filha, duas mulheres no céu. A menina suspira, sem saber porque sofre. E, ao mesmo tempo já sabe, é a hora da estrela.

O sinal abriu e a menina mulher tem que dirigir, fluir na correnteza do trânsito e chegar em casa. Chegar em casa para quê? O que a espera depois da hora da estrela? Dizem que o crepúsculo é a hora do predador, pois as presas não veem bem quando ainda não é noite, mas também não é mais dia. Para a menina isso não ajudava em nada, pois as mulheres são tanto presa quanto predadoras. Depende do dia, do sol, da lua. Mas a hora da estrela, era a hora em que a menina, a mulher e a velha se encontravam. O coração puro da menina via naquele contraste de cores, no brilho da lua, a magia do mundo. E imaginava todos os contos de fadas, onde os amores são possíveis, mesmo quando impossíveis. E a mulher suspirava, e se cansava ao saber que teria que se decidir presa ou predadora, com o cair da noite. Já a velha ria um riso amargo, e se lembrava de todas as dores do mundo, pois com a noite cessam os afazeres e afloram as emoções. E a hora da estrela é a hora da melancolia.

Nessa hora as meninas, não apenas essa, mas todas, têm, a cada dia, de decidir se porão a mesa para o jantar da família ou se correrão, fugirão para o ar puro das montanhas mais altas e distantes, ou para o ventos das praias mais ermas e solitárias. Todas? Sim, todas. Sejam elas meninas, mulheres ou velhas, nessa hora, a cada dia, existe uma decisão sendo tomada. Em cada coração, cada corpo, cada espírito. E durante muitos e muitos anos a menina, que não era tão menina, e nem tão velha, já tinha posto muitas e muitas mesas. Não ovos, mas mesas. Mas em sua lógica os ovos vinham em segundo. Ou talvez em terceiro, e as mesas em segundo. E servido muitos jantares. Não, a menina não tinha marido ou filhos esperando aquele jantar, mas já teve, algum dia, mãe, pai, avô, avó, família.

Só que a menina já tinha fugido também. Justamente por não ter marido e filhos, pode fugir sem que ninguém desse por sua falta. E foi até o alto de montanhas, e desceu até a onde a maré marca a areia. Respirou o vento do mar e o ar das folhas das árvores. E descobriu, que mesmo lá, na distância, mesmo lá, existem maridos, filhos, família, ovos. E que eles jantam. E quando não há ninguém? Na selva urbana, em seu caixote de concreto, a menina janta. Sim, pois apesar dos calafrios do dia quente que decai em noite fresca, e apesar da fome do corpo e do enjoo da alma, ela janta. Mesmo sozinha, ela janta. E corre, e nada, e contempla o mundo da janela. E a vida continua. Seja pelo ovo, ou pela galinha.

E nessas horas, nas horas da estrela, a menina queria ter uma máquina. Sim, uma máquina que superasse o tempo e o espaço, e resolvesse as mazelas do mundo, driblasse a desgraça. Nessas horas ela gostaria de caminhar sobre as flores amarelas do ipê. Ela gostaria de achar, ou talvez só de procurar, um amor. Nessas horas ela, menina, mulher ou velha, se sente princesa. E então ela se lembra, do seu remédio, do seu antídoto. Da sua música e dos seus livros. Sim, ela é menina, mas também são meninas as Clarices e as Cecílias, as Adrianas e as Alices. E todas elas entendem as angústias do ovo, da máquina, do amor, do mundo, da hora da estrela. E a menina cultiva, como quem procura um amor, sua felicidade clandestina. Aquela, que vem na hora da estrela, quando ela está sozinha. E ela agradece à Elis por sua reza e à Cassia por sua malandragem, que a permitem ser menina, mulher e velha. E ela se lembra de que a vida é querida, mesmo quando a felicidade é clandestina.

E a velha ri, a mulher chora e a menina ama muito a vida querida, pois nela existem também os Toms, Tims, Chicos, Vinícius, Samueis, Fernandos, Manoeis, Joãos, todos os Johns, Chets, Miles, que sabem que é preciso ter cuidado na hora da estrela. E fazem graça, pois sabem que as mulheres são vinte duas em uma. São garotas de Ipanema, nacionais, ou funny valentines. São como joaninhas no jardim. São como a galinha, que bota o ovo. E também bota a mesa do jantar.  E apesar de tentar, eles nunca às compreenderão. E elas contemplarão o mundo como velhas que riem com amargura de tudo o que já foi, como uma onda no mar. E serão mulheres de corpos metamórficos, como mutantes, angustiadas, presas e predadoras. E serão meninas de coração puro, que procuram um amor. Mas nunca entenderão que a hora da estrela, quando a lua aparece no céu, é delas. Só delas. E que nessas horas, apesar de tudo, a vida é querida.

Em alguns dias as Alices mudam de tamanho, seguem coelhos, fogem de seus mundos, atravessam barreiras, viajam no vento, em furacões. Encontram e são encontradas. Dançam, rezam, passam. E a menina vive, sua vida querida, sabendo que sempre se angustiará na hora da estrela. E que não adianta fugir. Que nenhuma máquina resolverá seus problemas.  Nem mesmo o do ovo e da galinha. Que nenhum homem ou mulher arrumará seu mundo, consertando-o depois de todos os pequenos e grandes estragos dos anos. Mas que ela mesma pode ser sua própria arrumadora. Afinal, mesmo quando a mulher está em metamorfose, e enquanto a velha contempla o mundo, entre rezas e malandragens, a menina tem um coração puro. E que sua alma não é pequena. E ela tem essa mania de explicação. Um amor pelas palavras. E enquanto ela procura por um amor, na verdade, ela encontra palavras. E enquanto ela procura pelas palavras certas, encontra muito amor, de vários tipos, certos ou errados. Longos ou breves. Que sejam, então, eternos, enquanto durem. Mesmo que durem só uma hora, a hora da estrela.

Meu corpo aquieta e minha mente acorda

Conforme dezembro segue e 2013 se esvai meu corpo aquieta e minha mente acorda. Às vezes é como se eu estivesse sonhando por muito tempo e começasse a acordar, mas a verdade é que parece muito mais que estou sonhando um sonho muito real. Acho que finalmente cai na toca do coelho de vez, e no mundo é o País das Maravilhas. E lembrem-se, não só de flores é feito o País das Maravilhas, Alice sempre passa por poucas e boas, e não por acaso tem de vestir armadura, empunhar espada e enfrentar em luta corporal (seus? os?) medos.

Existem coisas que sempre habitaram minha mente, meu corpo, minha essência. Não sei se são memórias, se trago-as de outras vidas, se eram sementes que levaram esses vinte e sete anos germinando. Mas fato é que tenho visto-as brotar. Literalmente, as coisas tem brotado na minha vida. Assim, elas aparecem, e ao vê-las fico pensativa entre o dejá vu, falha na Matrix, sonho acordada, Mundo Mágico de Oz ou País das Maravilhas. Fato é que tenho vivido os dias tão cotidianamente, nada de especial aconteceu, e, ainda assim, volto a me sentir com meus quinze anos quando o Jostein Gaarder me fez sentir pela primeira vez a pulga que sobe o pelo do coelho e se dá conta de que é uma pulga e seu mundo é um coelho, que está saindo de dentro da cartola do mágico, e assim, na companhia de Sophia, volto a me maravilhar com o brilho dos raios de sol na poeira que flutua no ar.

Sempre tive esses momentos surreais, hiper-reais de me maravilhar com mundo só porque ele é. Mas eram momentos breves, brisas que tocam o rosto e passam. E cada vez mais essas brisas estão se juntando, e esse ano me senti no olho de um furacão, uma pena levada nas correntes térmicas, mas ao contrário do que vinha me acontecendo nos últimos anos, esse não foi um furacão de me fazer perder o chão, pelo contrário, ele é apenas a soma das brisas de contemplação maravilhada, que me fez voar, a princípio no que parecia ser sem direção, mas que agora percebo que minha intuição estava certa, e não era sem direção. Esse novo furacão veio para me trazer o chão.

Mudei de computador, de carro, de casa. Mudei a cor do cabelo, mudei minha alimentação. Percebi quantas prioridades estavam invertidas, tenho trabalhado nelas. Ainda não mudei tudo o que quero, preciso e posso. Voltei a confiar em mim mesma. Sempre fui excessivamente segura, até de mais, o que já me gerou problemas dos mais variados, de desilusões a soco na cara. Mas vacilei, senti o peso do mundo nos ombros, a poeira que se esvaiu da minha última guerra. Agora me lembrei, não é nos ombros que se carrega o mundo quando se é feliz, é com as pernas que a gente o abraça. O que pode parecer meio maluquinho para a maioria das pessoas, mas, convenhamos, é muito mais confortável e feliz.

Hoje coleciono receitas saudáveis, faço minhas compras, dirijo meu carro e se quiser até tomo meu pileque, o que não é comum, mas é decisão minha. Não me sinto uma criança chorando baixo pelos cantos, e também não estou mais com aquela pressa de morder o calcanhar do tempo pra ele correr. Aprendi a seguir as ondas, já que tudo que era há um segundo agora já não é mais, e a viver no presente. Apesar de ainda estar na casa dos vinte anos já sou uma pessoa muito cheia de passados, e vivi os últimos anos correndo atrás de um futuro planejado, escolha única, salvação de vida, e, enquanto isso, não vi o presente passar.

Em 2013 eu achei o presente de novo. Já quis mudar o mundo, salvá-lo de si mesmo, perdi as forças. Reencontrei-as para cuidar de mim. Hoje eu me mudo, e me encontro, no dia de hoje, a cada dia. Às vezes divago um pouco, às vezes um muito, mas volto. Fiz muitos amigos novos. Não sei se serão eternos ou passageiros, mas fato é que serão eternos enquanto durem. E serei eternamente grata a passagem de cada pessoa em minha vida. Em 2013 eu senti muita gratidão. Por estar viva, por conquistar às várias coisas que conquistei, por manter muitas das que me são queridas, por aprofundar laços bonitos, por verem se soltar nós que já estavam velhos e desgastados. Em 2013 eu renasci porque aprendi a viver de novo. Voltei a rir sozinha, e dançar e cantar quando estou sozinha em casa, o que agora é sempre que estou em casa, e me sinto como na adolescência de novo. Só que em vez de brigadeiro eu recuperei as sopinhas da vovó.

Em 2013 eu comecei a perder meu medo de escrever. Estranho isso né?! Eu sou tão tagarela que minha mãe dizia, com razão, que dois cotovelos não me bastavam. Mas sempre tive uma vontade enorme de escrever e um medo da duração dessas palavras. Da irreversibilidade da escrita. É como talhar a pedra. Parece tão definitivo. Perdi o medo do definitivo. Nada é definitivo! E se for também, porque não? Será presente em minha vida enquanto for bom. De novo, que seja eterno enquanto dure. O que? O amor? A vida? Não, e sim! Tudo! Que tudo seja eterno enquanto dure. A família, às casas onde moro, morei, morarei, os livros, as pessoas, as comidas, os hobbies, as atividades físicas, a vida.

Tenho metas, muitas. Tenho sonhos até demais, os metafóricos e aqueles enquanto durmo. Tenho planos concretos, e aqueles mais sonhadores. Amo Brasília concreta abstrata, e também amo a vontade de seguir o vento e conhecer o mundo. Parei de excluir e resolvi incluir. Em 2013 aprendi a fazer uma lista de tudo que alcancei e dispenso com gosto a tal lista de metas para o ano que vem. Ano que vem virá, e com ele outros ventos, outros gostos, outras paragens. Feliz 2013, feliz ano velho, feliz ano novo, feliz.

Alice

A menina se imaginava velha. Às vezes se sentia velha, às vezes só imaginava como seria quando fosse. Se imaginava contando para os netos sua ida ao País das Maravilhas. A menina era também Alice.

Ela cresceu num jardim. Grande, enorme para sua pouca idade, e, mesmo para os adultos, era desproporcional para a cidade onde vivia. Naquele jardim a menina plantou e colheu os mais doces frutos, as mais cheirosas ervas e os mais frescos vegetais. Naquele jardim, ela sonhou, chorou, leu, dormiu, caiu, correu e descobriu vários universos, debaixo de cada pedra, de cada casca de árvore, de cada folha. Ficou amiga de muitos animais e foi até convidada para o casamento das formigas, feito com as flores brancas das jabuticabeiras, uma vez.

Nesse jardim a menina aprendeu que existiam portas para estes outros universos, e às vezes se perdia entre eles. Um dia estava com os tatus-bolas, passeando debaixo das pedras, sendo senhora da chuva, entre samambaias e seixos rolados. Em outros, se perdia entre as folhas das árvores, comendo amoras ou chupando mangas. Algumas vezes levava algum convidado para passear em seu reino, e estes variavam entre amigos reais e imaginários, famílias de barbies ou personagens de livros, que a acompanhavam nas aventuras do dia.

Talvez por isso a menina não tenha estranhado no dia em que resolveu seguir o coelho toca a dentro. Não estava mais em seu jardim. Ele já não existia havia alguns anos. Ela estava perdida, como uma pena sendo levada pelo vento, só que esse vento era uma tempestade. E depois de anos se agarrando às velas de seu navio, controlando o curso de sua vida com punhos de aço, a menina foi. Simplesmente, foi. Levada sem controle pelo vento, e se viu diante da toca do coelho. Pulou. Pulou como uma Alice que sabe onde vai. Foi surpreendida por ser reconhecida no País das Maravilhas, e não pelo quão fantástico ele era. Ela conhecia a fantasia. E agora a fantasia conhecia Alice.

A menina parou. Levantou os olhos. Levantou-os do que? Estava lendo? Escrevendo? Dormindo? Sonhando? Em que momento a realidade e a fantasia tinham se mesclado? Tinham se mesclado? Ou sempre foram a mesma coisa? Aquela sensação de portas para os diversos universos se apoderava da menina fortemente, mais uma vez. Estaria ela em seu jardim? Ou na praça, no museu? O dia era noite e a noite era dia. Sua vida pulsava novamente. Ela abriu os olhos e se viu dez anos antes e dez anos depois. Tinha sobrevivido a sua guerra.

E como uma veterana, olhava o mundo novamente e se perguntava como podiam viver tão prosaicamente todos aqueles civis. E ao mesmo tempo era, ela mesma, a mais lúdica das criaturas. Será que ainda estava no País das Maravilhas? Será que simplesmente não tinha acordado? Seria aquele mais um truque? Não, ela só tinha achado o caminho de volta. E de repente, o vestido azul da Alice era parte de seu guarda-roupas real, e ao acordar, a menina percebia, dia após dia, que os sapatinhos vermelhos da Dorothy continuavam em seus pés. Ela era Alice. E o seu mundo era também o País das Maravilhas.

Como aqueles personagens se encaixavam nos dois mundos ainda era para ela um grande mistério, mas agora ela começa a conviver com Absolem ao mesmo tempo que ia ao trabalho, afinal, a menina era mulher. E se podia atender uma ligação de Absolem enquanto estava no trânsito, então talvez, somente talvez, a menina finalmente entendesse porque o coelho tinha tanta pressa. Estava correndo de algo? Ou em direção a algo? E porque havia permitido que Alice o seguisse, e caísse no País das Maravilhas? Teriam sido ordens da Rainha de Copas? Ou da Rainha Branca? Ou do Chapeleiro? Teriam sido ordens? Foi o coelho que levou Alice ao País das Maravilhas? Ou foi Alice que seguiu, inadvertidamente, o coelho?

Ou teria sido seu furacão, aquele que a transportava como uma pena, perdida, que a teria levado ao Mundo Mágico de Oz? Estava em Oz, então? Era o Mágico uma farsa? E a menina sorriu. Sim era! Tudo era uma farsa, uma grande mentira. Ela era a Mágica de Oz. E com que habilidade tinha feito com que todos acreditassem que era poderosa e poderia manter as trevas distantes, mesmo nos piores dias. Enquanto o reino se vangloriava e todos se divertiam nos jardins, Alice se lembrava de como havia matado seus monstros e vencido todas aquelas batalhas, apenas usando sua capacidade de fazer os outros acreditarem que ela era a Mágica. Quantas vezes a menina não se desesperou? Em quantas não desacreditou de tudo e todos.

Mas como deixar o reino sofrendo? Como deixar o reino ver que ela sofria? Alice não sofre. Alice é o Mágico de Oz. E sob uma cortina de fumaça, ela bateu os calcanhares mais uma vez, e acordou em casa. Onde as pessoas não acreditam em coelhos e tocas, embora corram atrasadas todos os dias. A menina sorria ou ver os atrasados, e trocava sorrisos misteriosos com o gato cada vez que vislumbrava as portas entre os universos espalhadas pelo mundo. Não mais em seu jardim, onde a menina sorria, chorava, brincava e descobria a vida. Agora, seu jardim era o mundo. E no mundo ela sorria, chorava, brincava e descobria a vida.

Seria tão absurdo assim, que os universos todos fossem só um mundo? Só o mundo? A menina olhava a vida como quem lê um livro. Ela lia a vida. A menina era Alice. E ela não estava preparada para aceitar que o mundo não é o País das Maravilhas. Mas finalmente, ela estava preparada para exercer suas habilidades de Mágico de Oz, e transformar o mundo em um País das Maravilhas. Em meio a espantalhos e leões, chapeleiros e lebres, regada a chá, ela costurava cada uma de suas emoções, como quem costura o Peter Pan de volta à sua sombra. E com esses remendos, ela remendava sua própria alma.

Agora a menina não precisava mais de um furacão para ser transportada para Oz. E nem de cair em abismos. Ela aprendeu a ver as portas, ela aprendeu a voar. E com suas novas asas ela poderia subir aos céus, e aterrissar em Oz, ou poderia descer suavemente a toca do coelho, e seguir pelo País das Maravilhas. Alice não tinha asas. Mas a menina tinha. A menina era Alice de asas.