Português X Português

Estando no meio da mudança para Portugal, me deparo com esse vídeo que já conhecia, mas que é absolutamente maravilhoso, do Gregório Duvivier conversando com Ricardo Araújo Pereira, ambos conhecidos por serem roteiristas, discutindo a língua portuguesa e suas nuances brasileiras e lusitanas!

É um pouco longo, mas vale a pena!

 

Transmitido ao vivo em 21 de jun de 2017 pela Unibes Cultural
Um Português e um Brasileiro entram num bar – Humor de Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier Experimenta Portugal 2017 Como parte da programação do Experimenta Portugal 2017, o humorista português Ricardo Araujo Pereira e o brasileiro Gregório Duvivier se encontram para um evento imperdível na Unibes Cultural, no dia 21 de junho de 2017, com muito humor, inteligência e a relação cultural entre os dois países.
Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo Pereira nasceu em Lisboa, em 1974. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica, começou a carreira como jornalista no Jornal de Letras. É roteirista desde 1998. Em 2003, com Miguel Góis, Zé Diogo Quintela e Tiago Dores, formou o grupo humorístico Gato Fedorento. Escreve semanalmente na revista Visão e é um dos elementos do programa da TSF Governo Sombra. Assinou, em 2012, a rubrica Mixórdia de Temáticas, na Rádio Comercial. Com a Tinta-da-china, publicou quatro livros de crónicas — Boca do Inferno (2007), Novas Crónicas da Boca do Inferno (2009), A Chama Imensa (2010) e Mixórdia de Temática (2012) —, além de Se não entenderes eu conto de novo, pá (Brasil, 2012). Coordena a Coleção de Clássicos de Literatura de Humor, que integra autores como Charles Dickens, Denis Diderot e Jaroslav Hasek.
Gregório Duvivier
Escritor, ator, roteirista e humorista, o carioca Gregório Duvivier é um dos criadores do coletivo de humor Porta dos Fundos e colunista do jornal Folha de S.Paulo. É autor de livros como “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora”, “Ligue os pontos – Poemas de amor e Big Bang” e “Put Some Farofa”. No cinema, contabiliza participações em mais de duas dezenas de filmes e tem na carreira peças de teatro, roteiros para a TV e séries para a web. Filho da cantora Olivia Byington e do músico Edgar Duvivier, é formado em Letras na PUC-Rio e começou a atuar aos nove anos no curso de teatro Tablado. Aos 17 formou o grupo que faria a peça Z.É., Zenas Emprovisadas, que ficou por seis anos em cartaz e em turnês pelo País. Em 2013 foi escolhido melhor ator do ano pela Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro pela atuação na peça Uma Noite na Lua.

 

Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

Eu

Então, essa é a minha última semana nessa casa. Na madrugada da sexta para o sábado que vem, pego a estrada rumo a uma nova etapa, uma nova aventura. A caneca de chá está aqui ao meu lado. Faz um calor desesperador. Janela aberta. Ventiladores de teto ligados. Eles estavam na minha To Do List de 2014, check and done! Colocados no teto! Esse ano cumpri com absolutamente todas as minhas metas pré-estabelecidas e fui além. Estou extremamente satisfeita comigo mesma e com a minha vida.

Bate uma alegria, uma ansiedade, uma vontade de chegar logo na nova fase. Dessa vez, entretanto, não sinto o gosto amargo das despedidas. Primeiro porque dessa vez, pela primeira vez na minha vida, ninguém se foi, seja de uma forma ou de outra. Quem está indo sou eu. E isso faz toda a diferença. Quem fica, quando os outros vão, fica só, fica no mesmo lugar, que precisa ser reinventado para cobrir o vazio. Dessa vez vou rumo ao cheio. E a muitos vazios também. Espero poder preenche-los. Levar comigo minha música, meu cheiro, meus passarinhos, minhas estórias.

Vou porque quero, não porque preciso. Vou porque construí o caminho, a ponte está feita e agora é só cruza-la. Há uma alegria infinita nesse processo. Sei que não existe, na verdade, um chegar lá. Que apenas cruzo para continuar na estrada. E que ela seja longa! E cheia de novidades sempre! Essa ida tem tudo de começo. Estou acostuma a mudanças que são finais. Essa agora é um início. Às vezes penso que é apenas um capítulo novo. Mas na verdade farejo ares de outro volume. Como se algumas mudanças fossem, per si, drásticas demais para estarem contidas naquele mesmo velho livro.

Outro fator que me leva a essa ideia é a natureza dessa mudança. Nada tem gosto de inevitabilidade, tudo tem gosto de escolha própria. Nesse sentido, posso afirmar, que estou me dando o maior luxo da minha vida até hoje. Afinal, é um enorme privilégio poder fazer essas escolhas, ter as condições de realiza-las, e ainda por cima, saber que é tudo por mim, de mim, para mim. Presente de natal, ano novo, de vida. De vida nova. Sempre coloquei as obrigações e as necessidades em primeiro lugar. E elas sempre me exigiram muito. Essa história de livres escolhas baseadas em desejos, sonhos e realizações é uma tremenda novidade.

Não pense, contudo, que essa guinada aconteceu no natal. A primeira mudança, física inclusive, quando vim morar no meu pequeno aposento do alto dessa torre de onde vos escrevo, foi voluntária. Não foi fim, foi o início de um começo, ou o começo de um início. O início do meu começo. Completo agora um ano de meio de dedicação exclusiva à Juliana, à JuReMa, à Ju, à Juju, à tia Juju, à Marra, a todas essas que moram em mim. E, finalmente comecei a alcançar bons resultados, advindos dessa dedicação de corpo, mente e alma, ao meu corpo, minha mente e minha alma. Me sinto lustrada e polida.

Sei que já disse um pouco de tudo isso aqui, e receio cair na repetição e nas mesmices daqueles que se aventuram na linguagem das palavras escritas. Mas preciso tentar eternizar a sensação de plenitude desse momento. O fruto da dedicação voltada ao interior, ao meu Eu. Porque se tem uma coisa que eu aprendi, com toda certeza, até hoje, é que a vida é dinâmica, e está sempre pronta para me jogar de um lado para o outro, sempre! E estou segura de que outras infinitas mudanças virão, e que algumas delas serão inícios, outras finais, e que em algumas poderei tomar decisões efetivas, em outras terei que acompanhar a maré para não afogar.

O que preciso ter como um tesouro, como um sentimento encapsulado e guardado num berloque junto ao peito, é essa sensação de plenitude e satisfação que hoje possuo, sozinha. A certeza de que, assim como hoje eu construí um lar só meu, depois de todas as marés às quais já sobrevivi, posso reconstruí-lo a qualquer tempo, em qualquer lugar. Hoje sei que sou capaz disso. E que sou capaz disso não só hoje, pois esse aprendizado é para a eternidade. Uma vez alcançado, pode até enferrujar com o tempo, se não for lubrificado, mas sempre poderá ser reativado. E pretendo mantê-lo bem oleado.

Que a caneca de chá se mantenha sempre minha fiel companheira. E, independentemente do que o futuro trará, as palavras sempre serão meu consolo, minha vida, minha alma, se fragmentando ao vento, e sendo reconstituída em cada esquina, em cada prato de comida, em cada viagem, em cada livro lido, em cada mensagem trocada com os amigos e familiares, em cada olhar daqueles que me veem, me leem. Nunca estarei sozinha, pois aprendi a me fazer presente na solidão, e a preenche-la, a preencher-me na vida dos outros, a preencher os outros na vida minha.

Sejam as selfies, as fotos, a superexposição do facebook, as mensagens em horários indevidos, os grupos silenciados do whatsapp, as ligações demoradas do Skype, os passeios no parque, as conversas de corredor, os almocinhos, as saídas, as piscinas, as pedaladas na rua, as trilhas no mato, eu sempre me faço presente, sozinha ou acompanhada. Seja Juliana, Ju, Jujuba, JuReMa, tia Juju, tia Juba, Marra, seja quem eu for para os outros, eu me reinvento e estou lá para eles. E eles se tornam presentes para mim!

Por isso, olho a caneca de chá, e digo a ela que se prepare para horas de plástico bolha, pois vamos em mais uma aventura! E, com toda certeza, terei muitas e muitas palavras nas quais me dissolver ao longo dessa nova estrada. Sejam os tijolos amarelos ou vermelhos, passe um coelho apressado em meu caminho e eu decida segui-lo por algum tempo, seja a viagem surreal como o desejo de um gênio da lâmpada, a menina será sempre Alice, pronta para desbravar o País das Maravilhas, e tornar seus medos, amigos. A menina será sempre Sofia, tornando-se palavras enquanto vira realidade. Que venha 2015, e o resto da vida!

Brasília, domingo, onze da manhã, de um ano qualquer

Era domingo. Onze da manhã. E daí? – você me pergunta. Acordou tarde? Não. Não é isso. Não importa que horas acordei. Que horas fui dormir. Domingo era o dia dela. E onze da manhã sua hora. A hora do rádio. Não era a hora da Voz do Brasil. Era a hora da voz do meu Brasil. Do meu mundo. Da minha mãe.

Olhei a xícara de chá ao meu lado. Dourada com corujas, algumas de óculos. Tão eu. Presente de aniversário. Olhei o pequeno bule roxo, cheio do chá matinal, orgânico, detox. Tão eu. Comprado sob os auspícios de casa nova, e já vão lá um ano e meio de uso, de casa, de chás. Cocei a cabeça, cabelo preso, embaraçado da noite de sono ainda. Tão eu. Sempre assim. Um dia de folga, e de pijamas e com uma xícara, preferencialmente uma caneca, de chá nas mãos, e já lá estou, com um livro, uma leitura, uma aventura. Ou com letras nos dedos.

Ah essas letrinhas que não me deixam mais. Falo pelos cotovelos, e como dizia ela, ainda bem que nasci só com dois, se não ninguém aguentava. Melhor traduzir em palavras. Em rabiscos. Tanta ideia, tanto sentimento, tanta vontade de se pôr para fora. Minha voz era minha ouvinte número um. E tão boa que cresci mal acostumada no que diz respeito às boas companhias.

Ainda que fossemos mãe e filha, por diversos motivos, por sermos as duas filhas dentro da casa dos meus avós, por sermos as duas meninas, por sermos as duas só nós duas, fomos amigas. Não exatamente como amigas, claro. Eu diria mais como colegas de quarto. Minha mãe foi sim, minha roomie. Desde muito nova pude participar nas escolhas de como nossa vida seria, e ajudá-la a dar contorno e forma a todas as pequenas escolhas. Em parte porque ela deixava, estimulava e cultivava em mim a liberdade de escolhas e a tomada de decisões. Em parte porque ela mesma estava perdida e precisava de ajuda. Em parte porque fui criada, por ela e todos os demais familiares, como um ser humano, cujas ideias e sentimentos deviam ser respeitados, independentemente da idade.

Nosso ponto máximo de vida de roomie foi a casa do condomínio. Quando moramos sozinhas de novo. Já tínhamos vivenciado essa aventura muitos anos antes, na 407 norte. Naquela época moramos só as duas por cerca de três anos num apezinho pequeno e aconchegante. Com estantes feitas pelo vovô Gepeto, cheias de violetas e o rádio, embaixo da janela da sala. O banquinho de índio da vovó, emprestado para nós, com o telefone e mais uma violeta em cima, ao lado do sofá. O telefone verde, que para discar era necessário girar aquela roda de acrílico, já amarelada, e esperar cada número fazer sua quantidade de tec-tec-tecs até poder discar o próximo.

Naquela época eu ainda era muito nova. Vivemos lá entre meus cinco e oito anos. E lá aprendi a fazer vitamina de café da manhã, do jeito que ela gostava, com leite de soja e castanhas do Pará. E aprendi a noite a fazer a sopa de aveia e cenoura da vovó. Minha vida de sopas começou lá e eu nem sabia. De tomadora de sopa começou muito antes, desde que nasci. Mas de fazedora, começou lá. E um dia fomos buscadas por vovó magico de Oz, salvador de toda intempérie. Aquela empreitada não deu em nada.

Mas o que é na vida que tem que dar em alguma coisa? Que mania de buscar resultados mirabolantes de contos de fadas essa! Aqueles anos, com tudo que eles trouxeram, com os risos e o choro. Com minha frustração em não poder correr para minha árvore no jardim depois de uma briga em casa, que me fazia esconder debaixo da mesa da sala para chorar. E os risos de mel dela ao descobrir que metade do meu emburro era pela briga e a outra metade pela falta da árvore. As tempestades de verão assistidas da janela, com muita música alta acompanhando. As vitaminas de café da manhã aos domingos de sol, com as janelas abertas e, sempre, o rádio ligado. A primeira vez que ouvi ETC da Cássia foi assim. No rádio, tomando uma vitamina, ao som das gargalhadas dela, que se divertia tanto com a vitamina, o rádio e a letra.

Muitos anos depois, no condomínio, estávamos sós, não por escolha, mas por falta dela. A coisa mais significativa que apreendi com as perdas foi que o sofrimento de um ente querido que morre tem como alívio doce a certeza de que apesar de todo o sofrimento, a única coisa que cada um deles com toda certeza não queria, era me deixar sozinha. A maior preocupação de quem se vai para cumprir com as missões dessa vida é a preocupação de que quem fique, fique bem. Com muito amor na alma. Tudo o mais dói muito. É, em quase todos os sentidos, a pior dor que se pode sentir. Mas seu afago na alma é esse. A certeza de que os que foram, estariam, e de certa forma estarão, comigo sempre.

É o exato oposto das dores de um coração partido. As pequenas, e às vezes grandes, dores de um amor são o contrário disso. Existem infinitas variáveis, que mudam a cada caso, a cada dia, a cada estória, a cada amor. A única constante, é a certeza de que aquela pessoa não queria mais estar com você. E é por isso que dói. Mesmo quem se vai pela mais definitiva das razões, a morte, queria estar junto. Quando são por incompatibilidades do coração, nada é definitivo, além da certeza de que não se quer estar junto nunca mais.

Acho que por isso tantas vezes as pessoas, e incluo a mim mesma nessa lista, sendo ser humana que sou, sentem tanto receio de iniciar novas fases, ou de se jogar em novas situações. Existe o medo do desconhecido. Existe o receio de se revelar e de descobrir as entranhas alheias. E a cada ano que passa existem mais bagagens sobre os ombros de todos que andam sobre a Terra. E as bagagens lhes pesam os ombros, e lhes fazem lembrar de tudo o que já foi.

Não se apegue ao que já foi. Nem por motivos de amor, nem de morte, nem de vida. Quando olho no relógio e vejo que são onze horas de domingo, lembro dela. Dos risos de mel. Das músicas cantaroladas. Do rádio. Da sua voz duplicada dentro de casa, ao vivo, e a gravada, a me contar as mais maravilhosas histórias da nossa música. Lembro das violetas e da vitamina. Lembro das cócegas nos dias de bom humor e das caras fechadas nos dias de mau humor. Lembro com carinho. E guardo essa luz dourada em meu peito para sempre.

Olhei para a caneca dourada, com corujas de óculos. Olhei para as flores na almofada. Olhei para as fotos na estante. Os discos e as violetas na janela. Tenho vivido essa nova aventura e já se vão lá um ano e meio de vida sozinha, mas nunca solitária. De viagens incríveis. De aproveitar as vantagens de ser rainha do meu castelo, imperadora, podendo dar todas as ordens, por não dividir o poder com ninguém. E ao mesmo tempo cumprindo com todas as ordens, por ser também a única executora delas nesse espaço. Tão eu. Olhei meus passarinhos, os de barro na estante, o de madeira, Espirito-Santo mineiro, os de pano, no fundo azul da cortina filtrando o sol pela janela. Tão eu.

Olho para tudo isso, e guardo essa luz dourada em meu peito para sempre. Isso é o meu hoje. Aquilo foi meu ontem. E só a vida dirá o que meu amanhã me reserva. Não tenho medo do futuro, embora, hoje, tenha mais saudades dele do que do passado. Vivo hoje, penso e planejo o amanhã, me delicio com as memórias de ontem. Às onze de domingo sempre serão dela. Mas existem ainda todos os outros seis dias da semana, e as outras vinte e três horas do dia, os pores do sol, em terras distantes, os nasceres do sol acompanhados de tapiocas, para serem preenchidos. E enquanto isso vou me traduzindo em palavras. Sofio-me dia a dia. Inclusive, e, especialmente, às onze horas da manhã, de domingo.

But trust me on the sunscreen

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscreen)

Ladies and gentlemen of the class of ’99
“Wear sunscreen”

If I could offer you only one tip for the future, “sunscreen” would be it.

The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists, whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience.
I will dispense this advice NOW!
Enjoy the power and beauty of your youth.
Oh, never mind.

You will not understand the power and beauty of your youth until they’ve faded.

But trust me, in 20 years, you’ll look back at photos of yourself and recall in a way you can’t grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked.
You are not as fat as you imagine.
Don’t worry about the future.
Or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubble gum.

The real troubles in your life are apt to be things that never crossed your worried mind, the kind that blindside you at 4 pm on some idle Tuesday.
Do one thing every day that scares you.

Sing
Don’t be reckless with other people’s hearts.
Don’t put up with people who are reckless with yours.

Floss
Don’t waste your time on jealousy.
Sometimes you’re ahead, sometimes you’re behind.
The race is long and, in the end, it’s only with yourself.

Remember compliments you receive.
Forget the insults.
If you succeed in doing this, tell me how.
Keep your old love letters.
Throw away your old bank statements.

Stretch
Don’t feel guilty if you don’t know what you want to do with your life.
The most interesting people I know didn’t know at 22 what they wanted to do with their lives.
Some of the most interesting 40-year-olds I know still don’t.

Get plenty of calcium.
Be kind to your knees.
You’ll miss them when they’re gone.

Maybe you’ll marry, maybe you won’t.
Maybe you’ll have children, maybe you won’t.
Maybe you’ll divorce at 40.

Maybe you’ll dance the funky chicken on your 75th wedding anniversary.
Whatever you do, don’t congratulate yourself too much, or berate yourself either.
Your choices are half chance.
So are everybody else’s.

Enjoy your body.
Use it every way you can.
Don’t be afraid of it or of what other people think of it.
It’s the greatest instrument you’ll ever own.

Dance
Even if you have nowhere to do it but your living room.
Read the directions, even if you don’t follow them.

Do not read beauty magazines.
They will only make you feel ugly.

“Brother and sister together we’ll make it through,
Someday a spirit will take you and guide you there
I know that you’re hurting but I’ve been waiting there for you
and I’ll be there just helping you out
whenever I can…”

Get to know your parents.
You never know when they’ll be gone for good.

Be nice to your siblings.
They’re your best link to your past and the people most likely to stick with you in the future.
Understand that friends come and go,
but with a precious few you should hold on.
Work hard to bridge the gaps in geography and lifestyle, because the older you get,
the more you need the people who knew you when you were young.
Live in “New York City” once, but leave before it makes you hard.
Live in “Northern California” once, but leave before it makes you soft.

Travel
Accept certain inalienable truths:
Prices will rise.
Politicians will philander.
You, too, will get old.
And when you do, you’ll fantasize that when you were young, prices were reasonable, politicians were noble, and children respected their elders.

Respect your elders.
Don’t expect anyone else to support you.
Maybe you have a trust fund.
Maybe you’ll have a wealthy spouse.
But you never know when either one might run out.
Don’t mess too much with your hair or by the time you’re 40 it will look 85.
Be careful whose advice you buy, but be patient with those who supply it.
Advice is a form of nostalgia.

Dispensing it is a way of fishing the past from the disposal, wiping it off, painting over the ugly parts and recycling it for more than it’s worth.
But trust me on the sunscreen.

“Brother and sister together we’ll make it through,
Someday a spirit will take you and guide you there
I know that you’re hurting but I’ve been waiting there for you
and I’ll be there just helping you out
whenever I can…”

Everybody’s Free, Everybody’s Free To Feel Good!

Everybody’s Free (To Wear Sunscreen) (Tradução)

Senhoras e senhores da turma de 99
Usem filtro solar…
se eu pudesse dar um conselho em relação ao futuro,
diria: usem filtro solar.
Os benefícios, a longo prazo, do uso do filtro solar
foram cientificamente provados. Os demais conselhos
que dou baseiam-se unicamente em minha própria
experiencia. Eis aqui um conselho.
Desfrute do poder da beleza de tua juventude.
Ou esqueça, você só vai compreender o poder e a beleza
de tua juventude quando já tiverem desaparecido.
Mas acredite em mim, dentro de vinte anos, você,
olhará suas fotos e compreenderá, de um jeito que
não pode compreender agora, quantas oportunidades se
abriram para você era realmente fabuloso/a. Você
não eh tao gordo quanto você imagina. Não se
preocupe com o futuro, ou se preocupe, se quiser,
sabendo que a preocupação eh tao eficaz quanto
tentar resolver uma equação de álgebra
mascando chiclete. É quase certo que os problemas que
realmente têm importância em tua vida são aqueles que
nunca passaram por tua mente, tipo aqueles que
tomam conta de você as 4 da tarde em alguma
terça feira ociosa. Todos os dias, faça alguma coisa
que seja assustadora. Cante.. não trate os sentimentos alheios
de forma irresponsável. Nao tolere aqueles que agem de forma
irresponsável em relação a você. Relaxe.. não perca tempo com a inveja.
Algumas vezes você ganha, algumas vezes você perde.
A corrida é longa e, no final, tem que contar só com você.
Lembre-se dos elogios que recebe. Esqueça os insultos.
(Se conseguir fazer isto, me diga como).
Guarde tuas cartas de amor.
Jogue fora teus velhos estratos bancários. Estique-se..
Não tenha sentimento de culpa se não sabe muito bem
o que quer ser da vida.
As pessoas mais interessantes que conheço não tinham,
aos 22 anos, nenhuma ideia do que fariam da vida.
Algumas das mais interessantes de 40 anos que conheço
ainda não sabem.
Tome bastante cálcio, seja gentil com teus joelhos.
Você sentirá falta deles quando não funcionarem mais.
Talvez você se case, talvez não.
Talvez tenha filhos, talvez não.
Talvez se divorcie aos 40, talvez dance uma valsinha quando
tiver 75 anos de casamento.
O que quer que faca, não se orgulhe nem se critique demais.
Todas as tuas escolhas tem 50% de chance de dar certo,
Como as escolhas de todos os demais.
Curta teu corpo da maneira que puder, não tenha medo dele
ou do que as outras pessoas pensem dele.
Ele eh teu maior instrumento.
Dance.. mesmo que o único lugar que você tenha para dançar
seja tua sala de estar. Leia todas as indicações,
mesmo que você não as siga. Não leia revista de beleza, a
unica coisa que elas fazem é mostrar você como uma
pessoa feia.
Saiba entender teus pais, você nunca soube a falta que
vai sentir deles. Seja agradável com teus irmãos, eles são
teu maior vinculo com teu passado e aqueles que, no futuro,
provavelmente nunca deixaram voce na mao. Entenda que
os amigos vão e vêm, mas que ha um punhado deles,
precioso, que você tem que guardar com carinho.
Trabalhe duro para transpor os obstáculos geográficos
e da vida, porque, quanto mais você envelhece tanto mais
precisa das pessoas que conheceram você na juventude.
“More em Nova Iorque, mas mude-se antes que a cidade transforme
voce em uma pessoa dura. More na Califórnia, mas mude-se
antes de tornar-se uma pessoa muito mole”.
Viaje.. aceite certas verdades eternas:
Os preços sempre vão subir; os políticos são todos
corruptos e mulherengos; você também vai envelhecer.
E quando envelhecer, vai fantasiar que, quando era jovem,
os preços eram acessíveis, os políticos eram nobres
de alma e as crianças respeitavam os mais velhos.
Respeite as pessoas mais velhas. Não espere apoio de ninguém.
Talvez você tenha uma aposentadoria.
Talvez tenha um conjugue rico.
Mas, você nunca sabe quando um ou outro podem desaparecer.
Não mexa muito em teu cabelo. Senão, quando tiver 40 anos
vai ficar com a aparência de 85.
Tenha cuidado com as pessoas que lhe dão conselhos,
mas seja paciente com elas. Conselho é uma forma de nostalgia.
Dar conselhos eh uma forma de resgatar o passado
da lata de lixo, limpa-lo, esconder as partes feias e
recicla-los por um preço maior do que realmente vale.
Mas, acredite em mim quando eu falo do filtro solar.

A nostalgia do fim de ano: O Natal da Saudade

Hoje estou extremamente nostálgica. Estaria preocupada não fosse o já marcado almoço de Natal de família para amanhã, que me garante que suprirei boa parte dessa nostalgia, já que em festas de família, não há nada mais padrão do que ver fotos antigas, comparar o evento com os de anos anteriores e rever membros da família que não víamos a meses. Gosto de tudo isso, de todo o clichê envolvido, da poesia que existe na poeira levantada desses momentos. Mas além disso tudo existe uma outra nostalgia, um outro nível de nostalgia que me ataca nessa época.

Sempre fui uma pessoa muito nostálgica desde a infância, e contemplativa. Tenho essa tendência a observar momentos e depois revivê-los em minha mente, saboreando-os, perfumando-os, esmerilando-os. Contando a estória da história, e muitas vezes modificando-a um tantinho para guardar uma memória romanceada, com direito a filtros de cor e luz e trilha sonora, e que fique bem claro, minha mente já fazia isso muitos e muitos anos antes do Instagram.

Todo ano, quando começam a aparecer as luzes de Natal é como se se abrisse um portal. Como se os mundos se conectassem, e um pouco do meu mundo mágico pessoal, da literatura e da música, onde habitam todos os meus amigos e paragens mais queridos, migrasse um pouco para essa terra média, e especialmente durante o nascer e pôr do sol, eu estivesse com um pé na realidade e outro na fantasia. Isso faz com que eu tenha muita saudade de coisas que nunca vivi. São os momentos que sinto como se estivesse estudado em Hogwarts e estivesse saudosa do Baile de Inverno. Ou como se alguém tivesse deixado a porta do guarda-roupa aberta e os ventos nevosos de Nárnia estivessem invadindo meu verão chuvoso brasiliense.

E ao mesmo tempo sinto falta das histórias contadas pela vó na frente da lareira. Sinto uma falta que dói dos meus avós e sinto de verdade o cheiro dos ramos de cipreste molhados de chuva que podávamos do jardim e usávamos pra decorar a melhor árvore de Natal de todo o mundo, que era de mentira e de verdade ao mesmo tempo, trazendo o cheiro do Natal para dentro da sala sem matar árvore nenhuma. Obviamente uma invenção do super-homem, melhor avô do mundo.

Fico nostálgica e escuto Nat King Cole em minha mente, relembrando os artesanatos decorativos que fazia com a vovó, escolhendo cuidadosamente no quintal pinhas, e ramos de algodão, e pedras, para tingir de dourado e folhas secas que seriam pintadas de verde e vermelho e se mesclariam nas gamelas de barro e madeira, cheias de frutas da estação e castanhas. Sinto falta da excitação que tomava conta de todos, a ansiedade de ver toda a família reunida. E sim, era muito mais do que válida a expressão “se arrumar toda pra ficar na sala”! E como adorávamos!

Cada pedaço de papel guardado e todas aquelas tardes fabricando meus próprios cartões de Natal antes de enviá-los aos amigos. Já era uma coisa meio antiquada, mas eu amava comprar selos, e grudar envelopes, ter que anotar os endereços com CEP dos amigos, ou passar horas consultando o livro dos Correios para poder fazer surpresa. Além dos cartões eu tinha a função de empacotadora oficial da família. Comprávamos os rolos de papel natalino, um bom durex novo, fitas, muitas fitas. E assim se passavam manhãs de férias nas quais eu praticava a habilidade de fazer belos laços. Sempre tinha alguma lembrancinha esquecida, que era improvisada de última hora, um embrulho a ser feito dentro do carro antes de chegar na festa.

E assistir à minha avó arrumando a casa, tomando parte naquele processo de enfeitar e tornar festivo cada momento. E também quando eu a via se arrumar. Sempre achei um momento tão íntimo e tão maravilhoso. Minha musa, minha diva. Quando ela sentava na mureta do box, de frente para sua parede de espelho do banheiro, de roupão e bobs no cabelo, depois de tudo pronto e banho tomado. E eu sentava no chão pra assistir aquela transformação maravilhosa, e via cada cacho cair do bobs, cada pincelada de maquiagem, cada expressão facial estranha para aplicar bem um batom. Combinação cor da pele embaixo do vestido, e uma ajudinha da neta proativa pra fechar um zíper, um botão nas costas ou um fecho de sapato. E sempre, o gran finale, quando ela, já toda pronta, ficava com apenas o colar na mão e me pedia para ver se o vovô já estava pronto e chamá-lo. Ele vinha cheiroso do banho, de camisa, sempre em tons de azul e frequentemente listrada. Ela só abria a mão, sem uma palavra, e ele colocava o colar nela. E só então descíamos as escadas para receber a família e viver mais um Natal.

E mesmo enquanto eu vivia todos aqueles momentos, como se minha vida fosse um filme, sentia nostalgia, saudades do que nunca vivi. Ou do que estava vivendo. E me perdia fitando o pisca-pisca das luzes da árvore por horas. De um jeito bom, meditativo. Sinto falta hoje em dia de morar numa casa imensa, e de poder fugir do mundo, e me sentar naquela sala de pé direito desproporcionalmente alto, com todas as luzes apagadas, numa almofada no chão, tarde da noite, e ficar acompanhando as luzes em sua dança, em frente à árvore. Até que muito tempo depois minha mãe chegava em silencio, sentava ao meu lado, passava o braço ao meu redor, e depois de minutos em silêncio me perguntava se estava tudo bem. Ela sabia que eu precisava de momentos fora dessa realidade, entendia, apoiava, respeitava. E meditávamos juntas um pouquinho, abraçadas, naquela dança de luzes, no escuro, com aqueles cheiros e sons tão familiares. Até que ela me chamava pra ir dormir. Sem se preocupar com horário pois eu já estaria de férias da escola naquela altura do ano. Eram momentos de cumplicidade. De sentimentos profundos que sempre tive e nunca entendi. Momentos em que reconhecíamos a existência deles sem questioná-los.

Sempre fui nostálgica. Hoje sou saudosa. Não tinha motivos aparentes pra nostalgia antes. Tenho muitos pra saudade hoje.

Tudo novo, tudo heranças: o meu primeiro domingo sossegado

xícaras de anjo(Texto de 14/07/2013)

Acordo eu hoje, quatorze de julho de 2013, em meu apartamento. Sim, meu e só meu. Esse é meu primeiro domingo sossegado aqui. Me mudei tem uma semana, e hoje acordei sem pressa, sem prazos, sem horários, pela primeira vez desde a mudança.

Depois de passar uma semana carregando, desencaixotando, comprando, buscando e arrumando, posso dizer que finalmente está habitável. Ainda há muito a se fazer, mas a estrutura está pronta. Pois bem, eis que me levanto e decido curtir. Ainda de pijama, ligo uma música, e por querer esse clima calmo de aconchego, quis ouvir o que é mais eu mesma, Skank. Escolhi pela banda e deixei no randômico.

Abri a geladeira, peguei uma maçã, e coloquei um pouco de leite de soja pra esquentar, enquanto a cafeteira ficava pronta pra passar o café. Coloquei a mesa, peguei a geleia de laranja e esquentei um pão sírio do congelador na frigideira. Tudo muito cotidiano, muito familiar. Me sentei a mesa, e comecei a comer a maçã a dentadas enquanto o café esfriava só o suficiente para tomar, e a manteiga derretia no pão quente. E olhei a minha volta.

Tudo novo, e tudo tão familiar. Sem perceber, me joguei numa armadilha tão bem tramada que, só escrevendo para sair dela agora. Percebi que embora tudo seja novo, casa nova, louças novas, comida recém-comprada. Tudo soava como sempre na minha vida. Como meu âmago. Tudo herança.

A geleia eu comprei três dias atrás para um evento do trabalho, mas lendo o rotulo me lembrei que geleia de laranja, uma que gosto muito, era a preferida da minha mãe. E o pão sírio requentado, foi comprado pra minha festa de open house na sexta, mas esquentar pão na frigideira pra comer com geleia era a cara dela.

E o café, ah o café! Máquina nova, presente lindo dos meus tios, e as xícaras compradas por ela em Paris em 2010. Uma rosa e uma azul, tudo em dois. Não para um casal, como seria de se imaginar, mas para nós duas, mãe e filha. E me vi numa mesa nova, de dois lugares, com dois jogos americanos postos, e as duas xicaras parisienses me olhando, com suas asas de anjo. Sim, são xicaras com asas, asas de anjo.

E de repente vi que ela está em mim! De um tanto, mas de um tanto que não dei conta e desabei. Sim, é tudo novo, tudo escolhido por mim, mas poderia ser em qualquer das casas em que vivi minha vida toda, tudo tão familiar, os sons, os cheiros, os gostos. Foi escolhido por mim, mas poderia ter sido por ela.

E dói! Ao mesmo tempo o vazio se preenche e se faz mais presente do que nunca! Me vi nela e a vi em mim. Sei que não estou sozinha. Em um ano e meio nunca me senti tão próxima dela quanto nesse café da manhã, e ainda assim estou absolutamente sozinha.

E assim começo essa nova fase da minha vida, uma fase gostosa e saudosa, onde tudo é novo e tudo é herança.

Cutucando a colmeia: o reinício da música

(texto escrito a cerca de um ano – Abril de 2013, logo depois do aniversário de Brasília)

Eu voltei a ouvir a rádio Nacional F.M. 96.1!

Esse texto é uma tentativa, depois de escrever a primeira linha já enxergo o computador meio borrado, não sei se vou conseguir terminar…

Eu cresci envolta em música, sempre todos os minutos da minha vida! Tive mãe, pai, avós, todos muito musicais, cada um à sua forma, compondo uma bela harmonia no conjunto da obra.

Apesar de nunca ter parado de ouvir música, confesso que fiquei um ano sem ouvir a Nacional, tentei várias vezes, pra mudar de estação menos de cinco minutos depois em meio a muito choro. A primeira vez que ouvi a voz dela no rádio meu impulso irracional foi correr pro estúdio da rádio, pra ver se ela estava perdida por lá. Samba também dói! Mas foi ouvindo samba de novo que percebi que samba dói! Pra mim e pra todo mundo! E foi assim, com samba, que eu resolvi cutucar a colmeia!

Sim, eu sei que o ditado é cutucar o vespeiro, mas de um vespeiro só sai dor. Da colmeia, entretanto, se você aguentar algumas picadas, pode saborear umas gotinhas de mel! Estava muito fraca para as picadas antes, mas agora começo a escrever a minha bitter-sweet symphony, e o amargo da dor se mistura com o doce da música e de todas as lembranças que me abraçam quando a escuto. Abraços de fantasma, só o espectro do que já foi, mas doces!

Charlie Haden & Pat Metheny, Beyond the Missouri Sky, o único disco do meu pai para minha mãe, com dedicatória. E como ela ouvia esse disco! Charlie Haden & Keith Jarrett, Jasmine, foi também o único disco que ela trouxe da viagem a Paris! O único! O baixo que ela tanto amava e que me ensinou a amar!

Tínhamos tantas brincadeiras que envolviam a música e a rádio! Para mim eram só brincadeiras, mas como aprendi! Ela fazia meu Memória Musical de anos em anos! Anotava tudo! A primeira vez que ela fez eu devia ter um seis anos e só consegui pedir uma música, Hit the Road Jack, Ray Charles! Amava o disco, tínhamos o vinil, e na capa tinha um coelhinho, que eu achava que indicava, portanto, ser apropriado para crianças! Pedia para ouvir o disco do coelhinho toda hora!

Ouvíamos rádio e ela me perguntava voltando do Canarinho pra casa, “Isso é Jazz ou Blues?”, “Isso é Samba ou Choro?”. Não eram fáceis, ela ria alto quando eu errava e eu ficava com medo de decepcioná-la! Mas ela ria alto quando eu acertava também, e cantava! E a chance de ouvir ela cantar era suficiente pra me fazer superar o medo de errar, era minha grande recompensa! Ela cantava poucas vezes pra maravilha que era ouvir!

Ela ouvia Pink Floyd quando queria gritar e chorar, eu aprendi a ir dormir sendo “ninada” por essas músicas. Anos e anos depois, aprendi a acordar com samba todo domingo de manhã, um samba triste que escondia as lágrimas dela, derramadas pela perda do meu avô! E ela cantava, e chorava, e ria, e choramingava.

Meu avô! My very own superman! Tom Jobim e George Gershiwn! Tamborilados na ponta do dedo enquanto ele lia o jornal, ou anos mais tarde, jogava uma paciência no computador, nas manhãs de domingo. A música que eu ouvia enquanto nadava na piscina e ele lia o jornal me vigiando. E a vovó nos trazia um suco de manga do pé, e esperávamos o resto da família chegar pro singelo almoço de mais de trinta pessoas só da família mais próxima, todo domingo! Minha infância teve cheiro de manga e jabuticaba do pé, cloro da piscina, e som de Tom Jobim e Gershwin! E dos sons da vovó, de Armstrong, e Autum Leaves! A primeira música que gravei do computador, baixado para ela, a pedidos, Autum Leaves. Eu ouvia esses sons enquanto pregava e despregava botões de um retalho toda manhã nas férias para aprender a pregar botões.

E as outras brincadeiras que minha mãe e eu fazíamos. Bloquinhos de três músicas! Bem ao estilo radialista! Ela pegava uma música que eu gostava, estava ouvindo muito na época, e me mostrava as referências originais, e ouvíamos juntas pra ver se ficavam boas juntas, se ficassem, viravam um bloquinho! Meu bloquinho preferido sempre foi Águas de Março (Tom Jobim), Reza (Elis Regina) e Sambatron (Skank). Escutem as três nessa ordem, vai fazer sentido!

E outros, vários outros! Quantos Chicos, quantas brincadeiras, quantas referências e piadinhas internas. Quantas vezes não falamos que era culpa do Ahmed (vide DVD Cidades, Chico Buarque), ou quantas vezes ela não me convenceu de que Domingo no Parque foi feito pra mim, e Beatriz pra ela! Um verão inteiro na Bahia ouvindo “to te esperando na janela, ai, ai” e tirando fotos minhas posando nas janelas, e outros, tantos outros momentos!

Tem muito mais a ser dito a respeito da minha memória musical, mas por hoje não consigo mais! Dói! Dói, mas é doce!

Diários do Cena Dias 10 e 11: O Brasil, a Infância e o Fim

Ontem eu ouvi uma peça toda em brasileiro! Ouvi os sons da floresta, me encantei com meu próprio país e lembrei que ele também é das Maravilhas!
Recusa

Hoje eu chorei! Hoje chorei muito. Começou com uma lagrima pequena, ja conhecida, que brota no canto do olho quando falam em dor e descrevem aqueles que a conhecem. Sequei com a ponta dos dedos em movimento que ja é reflexo. Segui pelo mundo Magico do Cena, so que aos pouco ele foi se transformando e sem ter batido os calcanhares três vezes eu estava de novo em casa, so que numa casa que nao existe mais, e nao tinham nem 11 anos ainda. Aos pouco vi com meus olhos, porém revi detrás deles meus primos dormindo juntos, o André fazendo panqueca em cima do banco e grudando massa no teto. Eu, Dani e Carol dentro das roupas da vovó. Lembrei do Canarinho, da ida a Disney, de banho de banheira com amigas e biscoitos e cheddar em spray! Lembrei também de toda a solidão apesar dos amigos irmãos, das brigas na escola, de como aprendi levando um soco que eu era daquelas que nasceram pra dar a cara a tapa.
Lembrei dos meus oito amigos-irmão, dos balões de água na madrugada, dos passeios re bicicleta, das noites sem fim, das gotinhas sexys causadas pelo protetor solar. Lembrei dos meus avós nos ensinado a dançar valsa. Dos excessos de doce nas madrugadas. Da piscina. Dos milhares de jogos. Dos acampamentos no quintal. Da lona das barraca ensaboada enquanto nos jogávamos deslizando no morrinho do jardim.
Dos lanches do vovô! Do Nescau de liquidificador. Dos cachorros quentes na casa da Isa, dos cafés da manha na Flávia. Das mil despedidas do Fábio.
Me lembrei de mim mesma e de um tempo antes da dor! E ao mesmo tempo de como ja havia dor, reclusão, como ja era eu mesma, antes dos 11 anos!
Como estaremos daqui a dez anos? Ja se passaram mais de 10, e essas mesma pessoas foram as que me ajudaram a esvaziar minha casa depois da morte da minha mãe. Alguns moram longe, outros perto. O coração da gente aprende a se expandir, a cobrir o mundo pra que ninguém escape mesmo a distancia!
Dores novas e dores velhas, amizades novas e amizade velhas, primos, amores, irmãos! Hoje eu chorei, por mim e por outros, pelo real e pelo fantástico! E volto pra casa com um sorriso no rosto, lagrimas nos olhos e o coração aquecido! Obrigada Cena Contemporânea! Obrigada Guilherme Reis!!!
Matéria Prima
 

Diários do Cena Dia 9: O Som do Vento

Hoje é dia de muita música! E hoje foi ate agora um dia de muita magia. Oz e o País das maravilhas juntos nao são suficientes pra explicar a atmosfera de magia a qual o Jambinai me transportou! 
Hoje eu vi uma banda de rock! E o que há de tão magico nisso, me perguntam vocês. A principio, nada! Mas hoje eu vi instrumentos que desconhecia, e ouvi o som do vento, tocado, manejado por mãos de fada. Hoje eu vi seres encantados capazes de tocar cinco instrumentos musicais de uma vez só. Hoje eu vi uma força surgir nas mãos de velocidades inumanas e ser refletido nos rostos de duas doces fadas, que ao produzir aquele som fascinavam! Como sereias das profundezas seus sons prendiam, encantavam e pareciam capazes de matar alguém com nada mais que hashis da a velocidade, habilidade e intensidade daqueles pares de mãos!
Hoje eu conheci um doce rapaz de olhos puxados que toca além de tudo, com os calcanhares!
Vocês se lembram de outros sul coreanos que me fizeram entender e acreditar nos filmes de seres voadores? Pois bem, hoje eu presenciei algo tão incrível quanto, a capacidade deles me fazerem voar. Foi sem perceber, quando me dei conta ja tinha sido transportada de uma dimensão para outra e para outra de novo! Sem pausa, transitando entre mundos, entre sons, entre culturas, entre civilizações, entre milhares de anos, me perdendo em mim mesma!
Agora tem mais! Estou na praça de Absolem e a magica continua!
Ainda temos dois dias passeando pelas estadas coloridas, ou melhor ainda, sobrevoando-as, confundindo os tijolos amarelos com os vermelhos, sendo levada pelo vento, em seu som!

Jambinai