O Silêncio e o Caminhar

Já falei algumas vezes aqui no blog sobre a importância do caminhar na minha vida. Sempre amei dar longos passeios a pé, fiz muito isso com minha mãe quando criança, continuei na adolescência, economizando nos ônibus e indo a pé sempre que possível. Quando estava no carro ou no ônibus, com frequencia via uma ruela, um morro, uma trilha que se perdia e me pegava sonhando em segui-la, em andar até descobrir o que tinha do outro lado. Sempre tive essa curiosidade e esse amor pela caminhada.

Além disso, desde cedo me acostumei com o fato de que ao andar, em silêncio, meus pensamentos se organizam, reorganizam e a vida fica mais fácil. O banho é também um bom momento, mas procuro não gastar muita água e em 5 ou 10 minutos não consigo fazer toda a reflexão de uma caminhada de 2h, ou mesmo uma de 5h ou 6h quando o corpo e a mente atingem um outro patamar.

Busco caminhar por prazer, mas se fico muito tempo sem, e esse muito tempo para mim hoje em dia é coisa se 4 dias, me sinto inquieta. Preciso nem que seja de uma volta de 1h. Sempre opto por sair para uma caminhada solitária quando estou com raiva, quando um desentendimento aconteceu. Sair de perto, acalmar as emoções, deixar o choro fluir e depois reorganizar os sentimentos e os pensamentos, alinhar a melhor forma de expôr e só depois voltar para uma conversa, faz parte de um procedimento que evita brigas e resolve desentendimentos muito bem.

A caminhada e o silêncio também me ajudam com a parte criativa, e muitas vezes volto cheia de ideias, desde pequenas coisas do dia-a-dia, passando por textos que compartilho aqui, até decisões importantes de mudança de vida.

Já comentei sobre o livro Caminhar, do Thoreau, e o Caminhar: Uma Filosofia do Gròs no post Sonhos e Aprendizados. Hoje compartilho com vocês o post “Ficar em silêncio e caminhar são hoje em dia duas formas de resistência política” do blog Desenhares, de Sílvio Diogo, no qual ele traduz para o português a entrevista homônima publicada originalmente em espanhol no Diario de Sevilla, do sociólogo e filósofo francês, David Le Breton. Espero que gostem da reflexão e fica também a dica de leitura dos livros do Le Breton, mencionados na entrevista, os quais ainda não li, mas já estão na minha lista.

Boa semana, e boas caminhadas e silêncios!

Serra del Morral

19/01/17

Fizemos essa trilha bem pertinho da cidade pra ver de perto o que o nosso mapa indica como Torreta dels Moros e Torre de Sant Climenç. O caminho foi todo por uma serra baixa que faz a parede nordeste do vale de Castellbó, com a ida pelo lado Sul e a volta pelo lado norte. Foi uma trilha curta e sem grandes dificuldades, e as recompensas que ela trouxe foram menos exuberantes do que em outros locais como os Estanys de la Pera ou Pic Negre, mas ainda assim foi agradabilíssima e ainda fizemos algumas amizades inter-espécies no caminho! Começamos e terminamos por Aravell.

Aravell (1) – Hotel Rural Mas d’en Roqueta Pirineos (2) – Torrent de Mas d’en Roqueta (3) – Mardiscla (4) – Torreta dels Moros (5) – Torre de Sant Climenç(6).

1 – Essa cidadezinha parece quase inteiramente composta de “segundas casas”. Tudo parecia muito caro e fechado, além da presença incomum de um campo de golfe. Na verdade, pouco mais pode ser dito desse lugar, exceto que não é muito convidativo e que abundam as placas de “propiredade privada, proibido passar”…

2 – O caminho seguiu até esse hotel, que parecia ter pouco movimento na ocasião. Há quadras de tênis e outras coisas do estilo. O que realmente fez valer a pena ignorar as placas avisando para não passar foram 2 cabras muito simpáticas em um recinto de madeira!

3 – Subindo pela lateral direita do hotel, a trilha faz uma curva a direita e logo outra a esquerda. Nesta segunda, uma pequena estradinha de terra sai pelo lado. Depois de evitar vários caminhos onde as placas nos proibiam, resolvemos ignorar o aviso e passamos a linha imaginaria dessa tal propriedade (não havia sequer um arame para demarcar). O caminho então seguiu até um riachinho encoberto por uma mata alta e depois o acompanhou. Eventualmente a estrada nos obrigou a uma virada brusca à esquerda e uma ladeira inclinadíssima surgiu, como esperado pelo mapa.

4 – Depois de subir um trecho curto mas quase vertical, chegamos ao topo da Serra del Morral, e a estrada seguiu até uma casa isolada na montanha e que serve como marco na trilha. Não sei quem vive ali, mas imagino que tenha alguma habitação permanente, pois havia um cachorro que nos detectou de longe. A vista deste local é privilegiada!

5 – Quase passamos reto por aqui. Eu vi num canto afastado da estrada uma construção antiga de pedra e ao verificarmos percebemos que já era a tal Torreta. Parece bem antiga, a maior paerte dela já desabou. Também não é muito grande, até porque só serviria pra vigiar o tal vale de Castellbó, que não é assim um vale tão importante. Paramos aqui para almoçar um pouco de pão e pra eu procurar minha funda que eu tinha feito na noite anterior e já perdido. Mas achei, ainda bem! Mais na frente há uma outra ruína, no meio da neve, que parecia uma casa.

6 – A estrada bifurca algumas vezes depois da Torreta, mas mantendo a esquerda é possível dar a volta na serra. Chegamos a outra casa de grande porte, identificada como a Torre de Sant Climenç. Não vimos nenhuma torre, no entanto… Havia sim 3 cavalos soltos num pasto próximo, dois dos quais muitos dados. Vieram nos receber e ficaram pedindo carinho e nos seguindo. Mais um pouco e eu teria trazido eles para o apartamento para dormir conosco de conchinha. Mas acho que eles não conseguiriam entrar no elevador… Também havia uma igreja abandonada ali pertinho, descendo uma encosta e atravessando um rio e um espinheiro. O machado novo que levei (sim, eu comprei um machado!) quase foi útil, mas a Ju achou caminhos escondidos pelo meio dos espinhos e o meu trabalho foi em vão. Conseguimos depois de muito esforço e muitos cortes entrar na igreja, pensando constantemente em quem teria construído aquele coisa tão isolada. Dali, o caminho de volta foi só seguir pela estrada de volta até o hotel já mencionado.

Obs da JuReMa: na volta, já na cidadezinha de Aravell, enquanto andávamos na direção do carro, vi uma raposa linda, próxima a cerca do campo de golfe. Mostrei pro André e dessa vez ele viu também! (já tinha visto outra na estrada, mas como ele estava dirigindo não viu). Tentamos nos aproximar, mas no primeiro movimento ela fugiu. Foto, só as da memória! 

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La Seu – Aravell fizemos de carro. Até o Hotel Rural foi a pé. 

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O trecho em laranja o google não marca, então fiz a mão mesmo. Seguimos pelo rio, até começar a subida, como descrito no texto. O trecho em azul é mais bem marcado, como uma estrada, o que fizemos em laranja são trilhas mais fechadas. O ponto marcado como Unnamed Road é a Torre de Sant Climenç. O trecho em laranja não está contabilizado e deve ter acrescentado cerca de  1h, na caminhada, dado que é uma subida. 

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Não parece, mas essa era a ladeira quase vertical. Minhas panturrilhas ficaram cheias de lembranças desse local no dia seguinte. 

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Torreta dels Moros

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Torre de Sant Climenç

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A igrejinha em ruínas lá em baixo

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o mar de espinheiros ao redor dela que deixou lembranças

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Essa comemoração toda era por ter entrado! Ficamos um bom tempo até conseguir acessar a porta por causa dos espinheiros. 

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Trilha Solsona – Pont de la Frau

08/01/17 – Trilha por Solsona, até a Pont de la Frau

Fomos mais uma vez para uma província vizinha, agora mais ao sul, onde os picos são mais baixos e os vales mais largos. Na província de El Solsonès, o clima e a paisagem são mais amenos do que os de ALt Urgell, e por isso essa trilha foi bem fácil de completar, comparando com outras que já fizemos. O percurso foi:

Solsona – Pont de la Frau – Barranc de Pallares – Castellvell – Solsona

O caminho começa na própria cidade de Solsona, capital da província, uma cidade que não tem mais de 10.000 habitantes, mas tem um centro histórico realmente incrível! Seguimos por uma trilha que indica a Pont de la Frau dentro da própria cidade. O roteiro que tínhamos visto em casa seguiria para o camping El Solsones, mas preferimos seguir pela trilha que encontramos pessoalmente, quase margrando o Riu Negre pelo lado leste. Passamos por algumas propriedades rurais muito bem cuidadas, como um pequeno haras e alguns casarões reformados, até que a trilha entrou por um bosque mais fechado. De repente, vimos uma imensa coluna de pedra e percebemos que já estávamos embaixo da tal ponte. Ela é realmente altíssima, apesar de assustadoramente estreita. Subimos a encosta oeste do rio e chegamos até o começo da ponte, a qual não tivemos coragem de atravessar… Havia gelo em um trecho sombreado, e uma queda ali certamente seria fatal. Não vimos motivos para arriscar.

Seguimos então de volta para a cidade pelo lado oeste do rio, onde o bosque as vezes adquire uma inclinação absurda e repentina. Não tente passar por qualquer uma das ramificações da trilha, se achar um terreno dificil, volte e pegue outro caminho! Depois disso passamos por uma granja bem simples, mas com uma vista maravilhosa para o vale abaixo. Aqui o bosque acabava e atrilha seguia por plantações e casinhas isoladas. Encontramos um corajoso pai andando de bicicleta com umas 4 crianças, que se espalhavam e tentavam ir por outros caminhos com frequencia, enquanto ele pastoreava todos, ao mesmo tempo que carregava quantidades imensas de casacos. As benesses da vida em uma cidade pequena! Em um dado momento a trilha fez um cotovelo bem fechado e logo entramos em um parque meio que saído das lembranças de infância, chamado Barranc de Pallares. Havia mesinhas de piquenique pintadas como cogumelos, havia churrasqueiras no meio de bosques, um pequeno playground, tudo feito de maneira simples e cuidadosa. O local era tão acolhedor que acabamos passando reto pela curva da trilha e demoramos um tempinho para nos realocar.

Dali, a trilha segue por baixo da estrada, por um cano gigante, seguindo por uma encosta de pedra onde uma mesinha de piquenique foi instalada logo abaixo e mais um pequeno parque pouco acima desta encosta. Depois dessa breve interrupção para espaços de lazer, novamente o caminho segue por entre propriedades rurais e bosques, enquanto contorna o morro no qual está o Castellvell. Não muito longe dali, a estrada passa e leva em pouco tempo até o próprio castelo, que é uma miríade de coisas, menos um castelo. Há uma torre, um pomar, uma igreja e uma habitação que parece ser eclesiástica, mas nada é exatamente uma fortificação. De qualquer maneira, o Catellvell fica logo acima de Solsona e dá uma vista bem aberta para a cidade e para a região em volta, onde o terreno ondula mas não chega a formar montanhas ou colinas. Voltamos para a cidade por uma pequena trilha que sai do “castelo” e entra por um bairro afastado de Solsona, onde algumas casas realmente impressionantes pairam sobre o resto da cidade. Tivemos alguma dificuldade em dar a volta ali, pois poucas ruas desciam na direção que queríamos, mas eventualmente conseguimos dar a volta.

Não foi a trilha mais bonita ou mais desafiadora que fizemos, mas tivemos uma excelente sensação de estar em um ambiente mais tranquilo, mais adequado para famílias do que para aventureiros. O caminho menos acidentado e a presença de campos de agricultura dão a sensação (real) de que estamos em uma zona rural, mas não selvagem. Além do que tivemos a oportunidade de rever Solsona e aproveitar também os cuidados incisivos de alguns imigrantes que montaram um restaurante e eram os únicos que estavam aberto no domingo! Sempre procure pelos Doner Kebabs se quiser comer bem e barato!

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Pont de la Frau

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Desvio da trilha ao observar o parque 

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Chegando ao Castellvell pela estrada

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Solsona, já ao entardecer

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Na volta paramos em Organyá, só para eu tirar foto dessa árvore de natal linda deles! (by JuReMa)

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