Outono

Tiro o casaco impermeável, mas fico com preguiça de tirar o gorrinho da cabeça. Passei o dia todo com as botas de caminhada nos pés, embora tenha saído só um pouco pela manhã e uma voltinha com o cachorro à noite. As meias que vinha usando já me parecem finas nos pés, oferecendo pouco volume entre meus dedos e as palmilhas, que ao caminhar esfriam rapidamente, apesar das solas grossas da bota. Ao tirar as botas os pés esfriam rápido demais, apesar das meias frias. No meia da tarde fui revirar meu saco de meias e puxar para o topo as meias grossas de inverno…

Coloco a xícara de chá na mesa. É a terceira do dia. Pela manhã tomei rooibos com framboesa. Após o almoço uma infusão de hortelã e agora à noite uma de camomila. Quando sentei para ler um pouco, no fim da tarde, me enrolei na manta peruana que mora no sofá. Conseguia sentir nos braços a na parte da baixo das canelas a diferença térmica das coxas e abdômen, aquecidos pela manta e o resto não. Ainda não é tão frio, não estou de casaco em casa, não tremo de frio sem essa roupa toda, mas a manta, o cachecol e o gorro me dão aquela relaxada extra, que só um toque morno, de carinho, de massagem, de amor, nos trazem. É outono.

Não oficialmente, ainda claro! Essa mudança oficial chega essa semana, mas o outono chegou uns dias antes, pra já ir avisando à que veio. Essa noite chegaremos a 0ºC na madrugadinha. Depois ainda vai esquentar um pouco, até o fim da semana o sol abre um pouquinho, entre nuvens, e ficaremos entre 22º e 8º, mas hoje a máxima foi 18º, com chuva fina, céu cinza. Mas não é o cinza que dói, que desanima. É o cinza mais caloroso que eu conheço. Aquele clima que faz a gente ficar feliz de estar junto, aconchegado no sofá, debaixo das cobertas! É o clima perfeito pra dormir de conchinha, pra ver filme debaixo das mantas comendo pipoca recém-feita, pra abraçar o cachorro e cochilar depois do almoço, sentindo o calor que emana de cada outro ser dentro da casa.

O outono pra mim é amor! É a estação mais calorosa! É quando estar junto é mais gostoso, mas não indispensável! No verão é quente demais para ficar tão junto, tão perto. No verão, quando o suor se mistura é por pouco tempo, e existe um calor que vem de fora, que nos faz precisar de um espaço, físico, mental e emocional para não derreter, sucumbir sob o mormaço. O inverno é quando estar junto é sobrevivência. É um tempo muito estéril, de muita reflexão, de mente solitária, ativa, afiada como o gelo sob a neve. O estar junto, quando possível, não é escolha, é necessidade. A primavera é quando a gente ganha a independência, e embora estar junto ainda não seja tão desafiador quanto durante o verão, já é possível estar longe e depois do longo inverno nada melhor que sair por aí, andar, respirar o ar fresco, e tomar o sol morno, ver as flores surgirem.

O outono não, não por acaso o mundo fica amarelo, laranja e vermelho. As luzes e as cores representam esse calor, tão humano, tão animal, tão do aconchego, tão do outono. As mãos agradecem a xícara de chá quente nas mãos, as orelhas agradecem o gorro na cabeça e os pés ficam gratos pelas meias grossas. Mas ainda não é necessidade, sobrevivência, é amor, afago, aconchego! É quando tudo fica propício para o carinho e o cafuné, uma conversa um volta da fogueira, uma lareira, um chocolate-quente.

O gorro finalmente sai da cabeça e as botas dos pés, quando com uma mão vou despindo-os e com a outra bato no teclado, pois é dia das palavras saírem. o chá já acabou, e a louça ainda precisa ser lavada. Com água morna. O cabelo só vou lavar amanhã. Começou aquela época da minha predileção de banhos no meio do dia, quando ainda é quente e não preciso do secador.

Ah, meu querido outono, que bom que você chegou! A gente vai se amar muito nesse aconchego de carinhos e cores mornas, enquanto a chuva vai acalmando os ânimos lá fora, limpando as farras do verão, e preparando o mundo pra neve do inverno. Enquanto isso os livros, os chás, os chocolates, as pipocas quentinhas vão se tornando tão especiais! Ler um livro debaixo das mantas passa a ser o melhor hobby do mundo, e o banho morno devolve a sensibilidade dos dedos dos pés e das mãos, transformando esse simples hábito higiênico diário em mais um ato de auto-amor!

Agora vou para minha ducha quentinha, e o pijama vai ser completado com as meias grossas e um casaco molengo bem enrolado no corpo. Depois quem sabe, mais um chá ou um chocolate-quente antes de dormir.

Vem, outono! Vamos se amar muito! ❤

Chá

Eu amo chá! ❤

cha + chaleira

Pouso a xícara e venho escrever esse parágrafo. Aqui minhas reminiscências são expostas por sua matéria-prima, seu combustível básico, o meu chá diário. Se tem algo que não dispenso é o chá. Então resolvi compartilhar um pouco com vocês sobre essa paixão. Afinal, beber chá é mais do que só beber algo, é um ritual. Meu dia começa com a água na chaleira. O fato de ter que esperar ela ferver, enquanto seleciono o sabor e preparo os infusores, depois de colocar a água, ter que esperar o chá ficar pronto, depois esperar esfriar, faz com que não seja um ato desconectado, só servir e beber, o chá exige atenção e um tempo próprio. Só dele. Que ninguém apressa, nem a correria dos dias atuais. E o meu acordar vai no ritmo do chá. O dormir também. Ficar aqueles 15 min com o chá na mão, esperando a temperatura certa, é o tempo exato para acalmar a mente, desconectar. Para mim, tomar chá é também meu momento de introspecção, de pensar nos pensamentos. De me planejar para o dia, ou de revisar o dia antes de dormir. É realmente um ritual!

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Chás, tal como os chamamos em geral, são a infusão de folhas de uma planta, e suas variedades, das quais fazemos o chá preto, o verde, o branco, etc. Mas chás também podem ser resultado das infusões de outras ervas, sementes, folhas, e mesmo incluir outros processos como a fervura de raízes e cascas, ou mesmo a fermentação, como no caso do kombucha.

O que mais faço no meu dia-a-dia são as infusões de ervas, e fervura de raízes e cascas, mas às vezes faço também o chá propriamente dito, seja o verde, ou o preto, ou o mate. Chá é muito simples e gostoso, basta ferver a água e colocar sobre o famoso saquinho de chá, mas como boa apreciadora, isso é muito básico. Existem vários detalhes que permeiam a arte do chá. A primeira é nunca despejar sobre as folhas de infusão a água fervendo, o ideal é algo em torno de 95 graus celsius. Na falta de um termômetro só pra isso, deixe a água ferver, apitar a chaleira, soltar fumaça, desligue o fogo e espere cerca de 2 a 3 min antes de despejá-la sobre a infusão.

Outra dica boa é evitar os famosos saquinhos. No exterior é comum conseguirmos comprar pelo mesmo preço chás embalados em saquinhos de tule costurado, mas aqui no Brasil a regra é o saquinho de um papel fino, parecido com o do coador de café, que é colado. Para quem toma chá de vez em quando, isso não faz diferença, mas pra quem toma com frequência é bom evitar. Com a água muito quente parte dessa cola se dissolve, e com o tempo ingerimos mais dela do que seria recomendado.

Outro bom motivo é você poder fazer suas próprias combinações. Aqui em São Paulo tenho comprado minhas folhas secas na zona cerealista, mas muitas lojas de produtos naturais vendem o chá à granel ou mesmo em embalagens, mas ele vem por peso e não em saquinhos. Aí convém você ter alguns tipo de infusores em casa. Eu tenho o individual, em formato de folhas, a garrafa de vidro e o bule para duas xícaras e meia, ou quatro servidas sem ser cheias. Quando faço com gengibre e canela, em vez de usar chaleiras e bules, fervo a raiz e a casca com a água, coo e coloco em uma garrafa térmica, para ir tomando ao longo do dia.

Às vezes faço com flor de hibisco e canela, para tomar quente, ou hibisco e limão, e deixo na geladeira para esfriar, também conhecida como água de jamaica. Às vezes faço o mate cozido, bato com limão e hortelã e deixo esfriar. Nunca adoço meus chás com nada, pois prefiro puro, amo doces, mas não gosto de bebidas doces (exceção só pro chocolate-quente do inverno).

Algumas das minhas combinações preferidas incluem: cidreira + chá verde + hortelã; cidreira + camomila + hortelã, são dois ótimos digestivo. Cidreira + camomila + erva-doce é meu preferido antes de dormir e é conhecido como meu chá esquenta coração. Mate + limão + hortelã gosto frio como refresco! Hibisco + canela e gengibre + canela são meus preferidos para tomar ao longo do dia. Hibisco + limão gelado (água de jamaica) também é ótimo em dias quentes.

chás gelados

Entre os clássicos, dos que a gente já compra pronto amo o Earl Grey e Lady Grey, English Breakfast. Entre marcas amo Lipton, Twinings, Tribal Brasil, Celestial Seasonings, e os herbais da Bio2. Se algum dia você estiver em Paris, vá a Mariage Fréres, uma loja de chá incrível, com vários tipo de chás, bules, chaleiras e infusores. E eles tem um cardápio só de chás! Em São Paulo recomendo a Tea Connections. Mas a verdade é que existem poucos chá que eu não gosto! E amo experimentar as novas combinações! Isso sem falar que eles são os companheiros de leitura, trabalho e estudos perfeitos!

cha _ walden

Uma coisa que aprendi com a cultura do chá chinesa é porque as xícaras chinesas não possuem “asas”. E a dica é importante. Quando seguramos a xícara pela alça, diminuímos o contato do calor com o corpo, e assim perdemos nosso termômetro mais importante! Para saber se a bebida quente está na temperatura ideal para o consumo, sem danificar tecidos internos e nem machucar as mucosas, basta segurar a xícara com as duas mãos, sem se machucar e sem sentir necessidade de soltar. Pronto, pode beber eu chá em paz!

É sempre bom lembrar que chás possuem efeitos variados no corpo, alguns possuem cafeína, outros são diuréticos, outros termogênicos, então sempre consulte um profissional e evite tomar em quantidade exagerada. Como sempre, o bom senso imperando, dá tudo certo.

Espero que os chás consigam aquecer o coração de vocês tanto quanto o meu!

cha vidro

 

Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

E as ferramentas?

Eu sempre gostei de uma boa caixa de ferramentas. Meu avô era um verdadeiro Dr. Pardal, MacGyver e senhor buginganga. Cresci numa oficina, visitei várias. Durepox, estopa, e voltímetro faziam parte do meu vocabulário infantil. Além de perfunctório! Palavra preferida herdada do super vovô. Além do gosto por ferramentas. Meu gosto por ferramentas só não é maior que meu amor por artigos de papelaria, canetas e lápis coloridos, cadernos variados, papel colorido. Mas o gosto por ferramentas sutis ficou. Ferramentas intelectuais, ferramentas digitais, ferramentas emocionais. Eu sou daquelas que funciona bem se tiver um sistema. Adoro uma novidade. Mesmo que ela seja uma grande velharia, mas que surge para mim como uma grande e “nova” ferramenta.

A música Vagabunda, da Clarice, de excelente qualidade, vai terminando, num fading providencial. Música, é para mim, uma ferramenta. E das mais usadas. Não sei fazer música, não sei cantar, e isso não é charminho, odeio quem usa o charminho como ferramenta, é sério, sou uma negação em música. Mas é uma excelente ferramenta, em vários sentidos, uso para mudar o humor, para manter o humor, como companhia, para me exercitar, para cozinhar (cozinhar sem música é fatal), para estudar, escrever, ler, com fones, para abafar o barulho do ônibus, do trânsito, dos assédios nojentos de rua, para me manter no meu mundo de paz.

Bem no fading encaixa-se meu alarme, lembrando que é a hora do plus do remédio homeopático que estou tomando para uma queimadura de panela, feia, porém feita de forma muito idiota, fazendo pipoca e bolo. Homeopatia é para mim uma ferramenta. Não só no sentido óbvio, de ser usada como remédio e, portanto, tendo um fim claro e útil. Mas é uma ferramenta pois me permite sair do circuito convencional de saúde-doença, é uma ferramenta para o autoconhecimento, já que já passei muito mal com remédios, é uma ferramenta para fugir de efeitos colaterais.

A cozinha, essa mesma que me gerou uma queimadura fazendo pipoca e bolo, olha a criatura besta sem coordenação motora, é uma super ferramenta também. É meu instrumento de saúde, de terapia, de paz, de felicidade. É a segunda forma, além de escrever, de me compartilhar. Mudar minha alimentação, me tornar vegetariana, e, mais que isso, buscar conhecimento sobre a cozinha, sobre meu corpo, sobre as reações, compreender minhas alergias, intolerâncias, preferências orgânicas, e entender que para ser tudo que eu posso e tudo que eu quero ser, cozinhar é uma ferramenta indispensável. Não é só uma questão de comer saudável, ou seguir o nutricionista, é a minha revolução. Física, emocional, psicológica, social, ambiental.

Cozinhar é a ferramenta que me permite comprar ingredientes de verdade, e fabricar meu alimento do zero. Quase não vou mais ao mercado. Aqui é feira e cereais e farinhas vendidos à granel, comprados como matéria base. E me livrar do sistema, por mais besta que pareça, tem impactos imensos. É o que eu como indivíduo posso fazer de melhor para o meio ambiente, para meu próprio corpo, e com a vantagem de que ainda posso compartilhar isso com os outros. Seja como troca de informações, receitas, visitas, comidinhas. Dar uma fatia de bolo para uma visita é uma ferramenta para inseri-la num debate que pode se tornar muito profundo, e que pode tomar muitos caminhos, mas que é sempre revolucionário.

Ganhei um beijo surpresa do meu amor, que veio me dizer que eu sou linda porque eu estava cantando Clarice Falcão. Sim, eu canto tão mal, mas tão mal, que gera reações desse tipo, com direto ao aviso de “não precisa parar de cantar, só vim dizer que você é linda”! Naquele melhor esquema de quando você vê um bichinho muuuuuuuuuito feio e diz que é lindo de tão feio. Então: eu cantando. Entre risos, um pouco de vergonha e muito de liberdade, segui no meu esganiçado tom desconexo.

Hoje foi um dia muito bom, de muito amor. Foi um dia de extrema conexão comigo mesma. Comecei acordando naturalmente, sem alarme, as 8h30, horário incrível, nem cedo demais nem tarde. Bebi água, tomei um limão espremido, botei roupa para lavar, sempre me sinto eficiente quando a roupa está limpa, o cesto vazio, parece que eu venci a história sem fim da vida adulta. Depois taquei o EVA no chão e mergulhei na minha imensidão azul. Pratico Método DeRose, e esse possui inúmeras ferramentas que eu uso todos os dias, que me são tão caras e queridas! Não tenho como falar das minhas ferramentas sem mencionar essa filosofia que me proporcionou tantos meios de ser, plenamente.

Depois li um pouco. Ler: a ferramenta básica da vida. Inclusive compartilhei hoje um meme com esses dizeres, “ ler é a forma de instalarmos um software em nós mesmos”. Perfeita! Sempre lembro de Matrix e daquela forma de instalar habilidades com um plug na nuca. Na real, isso se faz com os olhos e a leitura. Ou com o som, e a audição, mas basicamente com a retransmissão dos conhecimentos acumulados no mundo pelas sociedades. Na sequência rolou um spa em casa, fiz minhas próprias unhas, com direito a bacia de água quente, creme esfoliante de pedra pome, e gel para pernas cansadas. Amo saber fazer minhas próprias unhas.

Almoçamos comida caseira e fresca, o que aqui em casa é a regra e ainda assim me sinto plena a cada refeição por essa constatação. Depois fui para um workshop incrível, cheio de prática, novos conhecimentos e muito amor. Da Alana Rox, do The Veggie Voice. Ela tem instagram, Facebook e etc. Cheia de ferramentas incríveis e pronta para compartilhá-las com todos. Voltei me sentindo leve, apesar de ter comido muuuito! Voltei me sentindo plena. Sentei para conversarmos sobre o dia dos dois, teve massagem no pé, acompanhada de um chá relaxante.

Sim, a vida pode ser muito boa! Quem me conhece de perto sabe que já passei por muitos momentos extremamente tristes e solitários. Quem lê o blog desde o início, ou já leu todas as reminiscências sabe também. Minha vida sempre foi cheia de privilégios, mas nunca foi um mar de rosas. E aprendi muitas lições. E nesses anos todos sempre ouvi dos amigos e familiares mais próximos que eu sou uma pessoa muito forte. Porque mesmo passando por tudo isso, sou uma pessoa “feliz”.

Garanto que tenho muitos momentos infelizes. Mas sim, no geral, posso dizer que sou feliz. E esse sentimento não vem do nada. Vem da construção diária que faço dele com todas essas ferramentas: a música (que me remete sempre à minha mãe! ❤ E também ao meu avô e ao meu pai), a culinária (que me remete à minha avó, e também à Isadora, minha cunhada-irmã-mais-velha, que me ensinou muitas coisas, entre elas o amor pela comida), o cultivo pela saúde (que me remete à minha mãe, inclusive pela forte memória dos problemas graves de saúde e peso que ela enfrentou e que até hoje são subestimados na nossa sociedade), as palavras (seja pela leitura ou pela escrita, essas me remetem à JuReMa, meu pseudônimo literário. Minha essência).

Referências existem muitas, várias que ficaram faltando, inclusive. Meu maior instrumental de vida até hoje se chama André Reis e quem o conheceu sabe que ele era um rol de ferramentas para a vida inigualável! A ele todo meu amor e gratidão. Mas além dos familiares, que todos construíram esse meu rol de ferramentas, adiciono alguns amigos, algumas personalidades, alguns professores, algumas filosofias. Todos esses mudaram minha vida de forma muito mais profunda do que conseguem imaginar.

Último alarme do plus. A queimadura está quase boa já. O álbum da Clarice já acabou e já estou no meio do da Tiê. O ventilador sopra a toalha que está no cabelo em formato de turbante. E a noite segue quente, mas feliz. E meu calor interno está resplandecente com esse dia lindo e cheio de amor próprio e pelos outros. Mas eu queria terminá-lo compartilhando um pouco de toda essa felicidade e desse amor na forma de palavras, como uma retribuição. Que todos vocês saibam, portanto, que minha felicidade não vem do nada, ela é construída, e eu uso muitas ferramentas.

Algo que permeia todas elas e que me faz me sentir incrível é a autossuficiência. É maravilhoso e totalmente empoderador saber fazer minhas próprias unhas, minha comida, arrumar meu cabelo, andar pela cidade sozinha de transporte público, me exercitar em casa, meditar, cantar (ainda que mal), ouvir o que eu quiser. Ser! Essas ferramentas todas são para que eu seja quem eu quiser, quem eu sou, na minha plenitude. E a JuReMa agradece. Ela sou eu, e além de ferramenta, ela é realização. Obrigada! ❤

Por Bia

Às vezes eu choro. Às vezes é uma lágrima sutil, um escorrer de canto de olho. Às vezes chega a me embaçar as vistas. Mas as vezes é um dilúvio! Choro, fico desfigurada, o nariz incha e avermelha, os olhos saltam do rosto, a coriza escorre em torvelinhos por sobre o lábio e meleca a blusa, ou a coberta, o que estiver mais próximo. Não é bonito! E eu não sou a Bailarina, que nem remela tinha. Choro, choro com força, choro com alma.

Hoje estava comentando com um amigo, mais cedo, sobre a realização de metas. Ontem com outros amigos muito queridos, comentei a mesma coisa. Todo fim de ano eu sempre tive o hábito de fazer aquele famoso balanço, checar as realizações, os sonhos, as preguiças, e sempre sobrou algo na minha lista. Um certo item por fazer, daqueles que provavelmente nunca ia receber o check, na minha check list.

Ano passado foi diferente. Terminei 2013 me sentindo extremamente cansada, mas muito feliz. Depois de um ano de desapego, desenganos, e desassossegos, consegui na verdade, ter um sossego só meu, e descansar. 2013 foi um ano de recuperação, um ano sanativo, para fechar feridas, e tornar a pele mais áspera, ralando ela por aí na lixa da vida de todo dia. 2014 foi diferente. Foi um ano de olhar para dentro. De colocar fermento nas ideias, de amassar esse pão até suar, e doer os braços, e depois enrolá-lo no pano, e colocá-lo em lugar morno para fermentar. Em 2014, eu fermentei. O pão assou, e está com aparência muito bonita. Só poderei comê-lo e reparti-lo, contudo, em 2015, e daí em diante. Depois eu conto se o gosto era tão bom quanto o cheiro.

E se no anoitecer de 2013 veio meu cansaço, meu desassossego, meu eu solitário, percebendo-se, único e indivíduo, como nunca antes, em 2014, antes que as luzes se apaguem me sinto coletiva. Nunca me senti tão bem quista, tão amada, por pessoas tão diferentes. Sinto o calor vindo de velas invisíveis, e apesar dos braços doloridos e da testa suada de tanto amassar o tal pão, não sinto o cansaço. Sinto uma certa ansiedade para poder parti-lo, mas só. As mudanças que 2015 me trará prometem ser grandes, e só o tempo, o longo prazo, me dirá o quão grandes elas poderão ser. Mas não me antecipo. Tenho, no mínimo, uma década nas costas de aprendizados para saber que a vida se vive um dia após o outro, com a cabeça no presente, que é a verdadeira dádiva.

E essas mudanças que os ventos de 2015 me antecipam me fizeram remexer gavetas. Quis limpar física, psicológica e mentalmente algumas gavetas antes de me levar para outras trilhas, antes de abastecê-las de novas relíquias. E ao remexer as gavetas me encontrei. Todinha lá. Há mais de uma década atrás. Do jeitinho que sou! E ao mesmo tempo outra. Cresci e aprendi mais do que em algumas vidas inteiras nessa década. E parte desse aprendizado culminou num mês de desapego, no qual estou me desfazendo de muita coisa: um terço de guarda-roupa, dois rabos de cavalo de cabelo meu da adolescência doados, várias lindas e maravilhosas cartas de infância jogadas fora, porque o amor fica, mas o papel precisa ser reciclado, fotos distribuídas, outras scaneadas, e muitas camadas de Jurema lixadas e polidas, no melhor esquema pedra-pomes para a alma.

Nesse processo eu reli algumas cartas que minha mãe, maravilhosa, me escreveu. Chorei. Li para uma amiga, e chorei mais modestamente. Reli sozinha e me acabei no travesseiro com baba e meleca escorrendo pelo queixo. Não consegui comer, fiz chá, resolvi ver TV. Enjoei de cinco filmes bestas modernos e achei que ia precisar sair e ir passear no parque para acalmar a alma, mas estava chovendo. Achei na lista de filmes disponíveis Como Água para Chocolate, um dos favoritos de dona Bia. Vi inteiro. Chorei no fim de novo até o ponto melequento. Desisti das melecas. Me refiz. E resolvi lidar com essa nova onda de emoções que mesclam uma saudade absurda, com um desejo incompreensível de ter minha mãe por perto, e ouvir suas opiniões e conselhos, ainda que eu fosse negá-los e fazer tudo do meu jeito, como sempre foi. Ela nunca deixou de falar, eu nunca deixei de ouvir e tanto ela como eu sempre fizemos o que bem entendemos. Com muito amor, muito respeito mútuo e grande admiração.

E a minha forma de lidar com isso é escrevendo. Compartilhando a alma. Me abrindo para o mundo. Me quebrando em sílabas e letras para me refazer nessa mensagem de palavras que já não me pertencem quando deixam meus dedos, mas que levam e lavam minha alma. E hoje faço algo inédito, algo célebre e que creio não terei oportunidade de fazer novamente. Divido com vocês a transcrição exata de uma das cartas de dona Bia para mim! Olha a honra, hein! Hoje abro em palavras uma parte muito íntima da alma de outro alguém. E contrariando-a, pois na carta está escrito que é particular. Eu, entretanto, não consigo ser privada. Com vocês, Bia Reis:

“Eta, eta, eta, é a lua é o sol é a luz de Tieta… milhares de casinhas coloridas, aquele típico casario baiano, de casinhas pequenas e coloridas. Eta, eta eta, é a lua é o sol… encerramento do filme no clímax, é claro que sinto sua falta. É assim, nos detalhes, às vezes os mais comuns, que a saudade aperta, né o coração só não, aperta tudo: o peito, o estomago, a barriga e a cabeça. Aí eu sinto muita falta e consigo ter alguma noção do quanto estamos ligadas. É por isso mesmo, do quanto foi bom você ter se metido nessa aventura maravilhosa de passar um tempo em outro país. Assim, de repente, só 1 mês, no meio da final da Copa do Mundo, Brasil ganhando, vocês foram… Eu, que nem sabia como ia te criar, quando você nasceu, fui correndo, e aprendendo, e fazendo tudo o que era preciso, e aprendendo, e tentando, e sentindo, e aprendendo, e até que foi tudo dando certo. Com todas as dificuldades iniciais, você foi, ou nós fomos, superando uma por uma e crescendo, bem, saudável, bonita e inteligente e etc… Eu fui à luta de crescer também, batalhei e continuo batalhando para sempre estar consciente, ligada no seu desenvolvimento pessoal, no espaço que você necessita para crescer e ser e também no meu crescimento. Sei que seus voos serão cada vez mais altos e espero estar à altura, para apreciá-los com orgulho. Você cresceu, e nós duas precisamos exercitar nossa individualidade, ir diminuindo a intensidade da energia do cordão umbilical. Que é eterna, graças a Deus, que nunca será possível extinguir, acabar. Sempre seremos ligadas e eu sou feliz e agradecida aos céus por isso, mas é importante exercitar o ser independente. Por isso gostei que você foi. De vez em quando um detalhe aciona a saudade e o peito aperta, te deixando meio sem ar, a barriga dói, você suspira… Te adoro. 06/07/2002 – sábado”

É mãe, tem hora que um detalhe aciona a saudade, e o peito aperta, a barriga dói, a cabeça dói, tudo dói, e eu não só suspiro, como explodo em lágrimas, exagerada nas emoções como sempre fui. Não há palavras suficientes no universo para demonstrar o quão incrivelmente grata eu fico por poder ler essas palavras doze anos depois. Não apenas porque elas contêm muito amor e uma reflexão emocional louvável para qualquer mãe, o que me faz admirar dona Bia mais do que nunca, mas também porque nesses momentos de transição, eu às vezes sonho em saber o que ela diria para mim, qual conselho daria.

Pois bem, aí está seu eterno conselho. Tenho certeza de que essas mesmas palavras poderiam ser ditas por ela para essa minha próxima aventura. Tenho certeza de que foram ditas, e não a toa reli essa carta hoje. Reforço com essa experiência a importância de sermos seres humanos bons e conscientes. Ela não sabia que não estaria aqui doze anos depois para me dar o conselho apropriado para cada momento. Mas eu fui criada com conselhos que valem para a vida toda, e isso não tem preço! É um nível de amor e de respeito aos quais agradeço diariamente! Obrigada mãe, obrigada universo! Obrigada 2014! Obrigada!

Panetone e outras histórias

O panetone era chique, coberto de glacê e gotas de chocolate preto e branco. Massa amanteigada, padaria francesa. As palavras ecoavam na cabeça: “Leva para casa e come com sua família”, e enquanto isso eu ia tirando ele da caixa no trabalho mesmo, cortando e oferecendo aos colegas. Afinal, aquela era, também, minha família, pelo menos nos últimos três anos.

Existem várias formas de alguém passar por esse sentimento. O de estar só. Não digo o da solidão. Nunca fui solitária. É o estar só cotidianamente mesmo. Algumas pessoas já nasceram em famílias pequenas e atribuladas por tarefas, o que sempre as tornou sós. Eu vim de uma família enorme. E ao mesmo tempo fui filha única. Tenho dois irmãos e nunca dividi casa com eles. Ao mesmo tempo, dividia meu castelo encantado cerca de três dos sete dias da semana com outros onze primos reais. A família grande nunca deixou espaço para o estar sozinha dessa forma.

Passei inúmeras manhãs de sol e tardes de chuva só em casa, conversando com passarinhos nas árvores, esperando piratas atracarem no mini píer do fim do jardim, lendo incontáveis livros, jogando jogos de dois mesmo sendo só uma. Mas nunca estava só, não no sentido prático. Sempre tinha comida e gente cozinhando, e alguém para fazer um barulho, por uma música, ver uma TV ao fundo. Um cachorro para latir, vários passarinhos para acompanhar o som do vento.

Um dia isso muda. Às vezes, simplesmente porque as pessoas saem de casa e moram sozinhas. Às vezes porque perdem os pais. Às vezes porque fazem uma viagem, um curso no exterior, um intercâmbio, mudam de cidade, ou qualquer outro motivo que às separe da rotina na qual cresceram. Eu vivenciei todos esses motivos. Aprendi com alguma dificuldade, visto que vim daquele background de doze primos em casa todos os fins de semana, a fazer comida para um. A doar todos os presentes de páscoa, dia dos professores e Natal, quando são comida. Compartilha-los com a família do dia a dia, que são os colegas de trabalho.

Isso também gera a sensação de dominação total do espaço. Hoje, meus vinte e nove metros quadrados não se comparam ao castelo de três andares, piscina e quintal tamanho semi fazenda, indo até a beira do lago no qual cresci. Mas eles são todos meus. Cada milímetro quadrado de espaço é decidido exclusivamente por mim. Decorado, limpo ou sujo, cheio ou vazio, bonito ou feio, meu, e só meu. E quando vim apoderar-me desses poucos metros, tão meus, pude fazer algo até então inédito, que era ser ditadora do meu reino de uma pessoa só. E por isso, curti cada segundo das decisões tomadas à um. Decorei, arrumei e perfumei ao meu gosto, e só meu.

Por que isso, Jurema? Não pergunto o porquê desse cuidado com seus metros, mas o porquê de contar. Bem, respondo-lhe, Jurema, porque ouço de todos os que aqui vem que sou muito organizada. Até a faxineira já me disse mais de uma vez que gosta muito de vir limpar minha kit uma vez na semana, pois ela é a mais organizada do prédio. Agradeço os elogios, aos quais fico um pouco cética, e também um pouco constrangida. Em especial porque não faço questão e nem esforço para que seja assim. É simplesmente o fato de poder cuidar do que é meu, e tornar meus dias mais floridos, mais apassarinhados, mais coloridos e iluminados.

Quando vim dominar meu império de menos de trinta metros quadrados, vim muito fragilizada, muito dolorida. Precisava provar para mim mesma, e consequentemente para o mundo, que era capaz de ser só. E nesse impulso não quis criar para mim um centro de refugiados de uma pessoa só, quis e criei um lar. Hoje sei, e tenho uma confiança enorme em mim mesma, que sou capaz de ter um lar, completo, bonito, arrumado, cheiroso, com comida, roupa lavada, só para mim. E essa certeza, essa confiança me cobriram de toda a proteção que a Jurema fragilizada precisava. Hoje sei que posso rodar o mundo, a pé ou de avião, sozinha ou acompanhada, que, meu lar, eu levo comigo.

Não são pelos vinte e nove metros decorados. É pela certeza de que minha alma vive num lugar florido, colorido, apassarinhado e feliz. Seja lá onde isso for. E que eu não estou solitária nunca, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Às vezes gosto muito de ficar sozinha. Nem conseguiria me abrir em palavras aqui, caso não tivesse esse tempo e esse espaço, onde só existimos eu, meus dedos frenéticos, o teclado do computador e minha caneca de chá. Sim, claro, o chá é o combustível imprescindível para as minhas manhãs de desabafos coletivos, onde despejo sentimentos convertidos em palavras ao vento.

E enquanto ia lendo um pouco do último livro que ganhei, pernas pro ar naquela sala dos professores, à espera de uma grande amiga para um almocinho de sábado, ia assistindo ao panetone de glacê e gotas de chocolate preto e branco ir sendo consumido, pedaço a pedaço por todos aqueles que de alguma forma são, foram, ou ainda serão minha família do dia a dia. Aquele foi meu último dia, pelo menos dessa fase, naquela sala, naquela família. E me dividi em forma de panetone. O mundo é definitivamente redondo e gira.

Em 2012 passei por talvez o pior ano da minha vida. Perdi minha voz de mel para outra dimensão, quebrei a cabeça, literalmente, e reordenei por motivos externos minha vida, pelo menos umas três vezes. Mudei de emprego, quando estava profundamente desiludida com minha capacidade de ser internacionalista. Mudei para a casa dos meus tios, como uma refugiada de sentimentos, que vai para onde a acolhem, saindo de onde já não há mais amor. Perdi o prazo de um edital, tive que adiar o sonho de um mestrado, com um mês de tylenol de seis em seis horas na cabeça quebrada. Vi pela última vez, no último dia desse ano cruel, aquele que foi meu príncipe no cavalo branco, por mais de oito anos.

Fosse eu outra, fosse o roteiro da minha vida menos incrível, fosse o mundo menos humanamente bondoso comigo, e 2013 eu seria uma pessoa extremamente depressiva e descrente da vida. Quiçá viva. Mas eu adormeci num avião e 2013 amanheceu na neve. Se algum dia eu já ganhei um presente que posso dizer que definitivamente me salvou a vida, foi aquele curso e aquela viagem. Por eles, e por tudo o mais, agradeço aos meus quatro cavaleiros reais, minha cavalaria muito mais eficiente que o exército de águias do Hobbit, muito mais invencível que qualquer herói de qualquer filme de realidade fantástica. Meus Reis sabem compor uma vida irreal como ninguém.

E no frio eu me encontrei, e de volta ao calor eu resolvi conquistar meu espaço não mais de refugiada dos sentimentos, mas de dona, plena, rainha deles. E fiz meu reino no alto de uma minúscula torre, onde a felicidade se faz presente todos os dias, só para mim. E fiz amigos novos, e encontrei os velhos várias vezes, e saí, e vi o mundo, viajei, tanto, que em 2014 tive que renovar. Fui obrigada a trocar de bicicleta, de bota de trilha, de mochila de viagem e de casaco impermeável. Mês após mês refiz meu kit de aventuras, porque os antigos já não aguentavam o meu novo ritmo.

E nesse processo eu aprendi a viver da minha própria renovação. Aprendi a conquistar o mundo com um passo depois do outro. Aprendi a compartilhar minhas aventuras com desconhecidos de passagem, e com velhos amigos, fosse através de uma foto, uma rede social, uma conversa de bar, uma saída, uma festa, uma viagem, uma trilha, um banho de piscina. E em 2014 colhi frutos inesperados. Se em 2013, eu semeei todo esse amor em mim mesma, em 2014, dei frutos. Doces e muito melhores do que eu jamais podia esperar. Meu presente de Natal eu venho ganhando dia após dia ao longo desse ano.

Amizades lindas e eternas, pessoas em quem confio profundamente, amigos para toda hora. Aprendizados incríveis, saltos na carreira, títulos novos adquiridos, certificados e diplomas. Muitas ferramentas novas. Muitos livros novos, muitos mundos novos. Países novos, carimbos novos no passaporte. Até a carteira de motorista tive que renovar. E lá se vai a comprovação de que já tenho dez anos de motorista. Com alguns quilos a menos, fui obrigada a renovar o guarda-roupa também. Com a certeza de qual carreira quero perseguir, essa renovação foi bem-vinda, e pude me desfazer de algumas fantasias que sei que não vou precisar usar. Não vou precisar me travestir de alguém que não sou, e conseguirei assim mesmo seguir com minha vida. Outras fantasias, ditas mais convencionais, eu adicionei ao guarda-roupa, feita a mão, diretamente do meu imaginário para a realidade, prima-irmã do blog, onde Sofio-me e Alice me torno.

O mestrado chegou, e um novo amor também. 2015 ainda não chegou, mas já se anunciou em ventos tão bons. Minha casa é onde está meu coração, já dizia Skank, já citei eu mesma tantas vezes aqui. E voo nas asas que criei para mim mesma, que tão lentamente abri, que tão simbolicamente desenhei. O panetone acabou antes que saísse pro almocinho. Minha família de dia a dia tecia comentários eventuais sobre a massa, a manteiga ou o açúcar. Saí sem me despedir. A despedida oficial foi na quinta-feira, alguns dias antes. Não quero o sabor amargo das lágrimas tristes, quero a visão limpa e clara das lagrimas felizes. E o doce do panetone em suas bocas. De 2014 tenho uma coisa a dizer: MUITO OBRIGADA!

Pra apegar

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

 

 

 

 

 

O Dia do Amor

A menina colocou a mão dentro da bolsa enquanto dirigia. Olhos na pista, uma mão no volante e a outra remexendo os bolsos internos. O ar de sua cidade já começava a ressecar e os lábios da menina pediam arrego, pediam umidade, pediam silêncio e sossego. Naquele breve momento de trânsito entre sua casa e o trabalho, numa manhã qualquer, isso significa achar o hidratante labial. Aquele pequeno objeto com formato de batom, um pequeno cilindro de plástico branco com a tampa levemente abaulada, como o topo da cabeça de um elefante asiático.

Porque a comparação com o elefante? Algo tão pequeno como aquele batom, e a menina pensando em elefantes. Em sua mente veio a imagem perfeita. O livro pequeno, quadrado, capa grossa em papel brilhante branco. Lateral de espiral, como um caderno, recoberta pela grossa capa branca. Dentro a maravilha das maravilhas, algumas páginas era transparências com desenhos pintados, que quando viradas revelavam mistérios incríveis. Era pequeno, mas um dos livros mais divertidos que a menina teve na infância. Não era um livro de estórias. Continha fatos científicos, curiosidades sobre a vida natural. Seu título? Elefantes! Não eram sequer os animais preferidos da menina. Mas aquelas páginas transparentes, que contavam, escondiam e revelavam, para sempre conquistaram a menina.

Enquanto esses pensamentos iam e vinham de sua mente a mão continuava a circular dentro da bolsa, procurando o fatídico protetor labial. Um ato tão comum, tão feminino, parte de seu cotidiano, a eterna procura das mulheres por itens sumidos no infinito do fundo de suas bolsas. Toda mulher é Mary Poppins quando se trata de achar coisas em suas bolsas. Um carro freou em sua frente. Seus olhos se focaram no presente enquanto os pés rapidamente mudavam de pedais e a mão sobressalente saía rapidamente da bolsa para a marcha, numa troca rápida de papéis entre Poppins e piloto.

Nada acontecera. Parara o carro com distancia suficiente do próximo. Mas parar naquela via? Uma via expressa? Não fazia sentido! Aproveitando o momento ilógico, a menina, já com o carro parado no engarrafamento esdrúxulo da via expressa, olha para dentro da bolsa e vê logo em sua cara o tal protetor labial. Mas que loucura é essa que quando não consegue olhar não acha logo, e quando já não precisa mais de malabarismos, lá está?! Enfim, ela pega o batom, aproveita a inércia, baixa a pala de sol, abre o espelho, passa o protetor e os lábios muito lhe agradecem. Parece até que bebeu água. Hum, água. Numa velocidade que não ultrapassa os dez por hora ela aproveita e bebe água, ajeita o cabelo, limpa os óculos. Guarda tudo na bolsa novamente.

O transito volta a andar antes que a menina conseguisse devolver todos os itens para a bolsa. Justamente o protetor labial ficou em seu colo. Com uma mão no volante, a outra volta para a bolsa, com o batom na mão, tentando encaixa-lo no bolso interno. E nesse momento seus dedos esbarram num pequeno coração. O batom fica no bolsinho, a mão não volta vazia. Volta com um pequeno pedaço de papel de caderno entre os dedos. Ela sorri. Tinha se esquecido completamente daquele bilhete. Sua mente fez contas velozes. Deveria estar ali há exatamente um ano. Nossa, que horror! Não esvaziara aquela bolsa de dia a dia em todo esse tempo? Fez uma nota mental para trocar de bolsa assim que entrasse de férias, uma semana depois, e lavar aquela urgentemente.

O transito andava e o pequeno bilhete continuava em seus dedos. Assim que estacionou, guardou-o sem aquela brincadeira ligeiramente perigosa de caçar dentro de sua bolsa com uma mão só.

Antes disso, entretanto, sua mente divagou. Não precisava abrir o bilhete para saber seu conteúdo. Um papel de caderno, letras batidas pelo ferro da máquina de escrever em fita, um pequeno coração cor de rosa, ligeiramente alongado, fechando. Dentro um poema de internet, adicionado de seu primeiro e quase desconhecido apelido, dado por uma antiga amiga de sua mãe. Não, aquele não era um bilhete de amor. Não havia nenhum relacionamento entre aquele que o entregou e a menina. Na verdade aquele bilhete possuía outras duas cópias. O mesmo papel de caderno cortado em tamanho pequeno, a mesma letra batida à máquina, o mesmo coração alongado no fecho. Os poemas variavam de acordo com a garota que o recebeu.

Foram todos escritos a quatro mãos. De um garoto e sua irmã. Entre aquelas três amigas que incluíam a menina, o amigo e a irmã, nada de amor. Uma brincadeira. Um dia dos namorados passado entre solteiros, um mimo entre amigos. Uma gentileza. Sim, gentileza gera gentileza. Pequenos gestos. Gestos de amizade. Gestos de amor? Sim. Aquele não era o único. A vida da menina estava polvilhada de muito amor. Muitos amigos queridos. Muitos familiares amados. Entre homens e mulheres, de todas as idades, com diferentes tipos de relação, em diferentes ambientes, havia entre todos, muito amor. Havia muito amor da vida da menina. Como dizer que não havia amor ali. Sim, havia muito amor.

A menina sempre foi muito cética em relação ao amor. Esse amor, tradicionalmente chamado de amor homem-mulher. Como chamar esse amor hoje em dia? Como explicar os diferentes tipos de amor? Explicar para quê? A menina viveu um relacionamento bonito, e que lhe ensinou muito. E que acabou. E o tempo passou. E nesse período em que a menina é solteira, ela amou muito, e tem sido mais amada ainda. Como lidar com esse sentimento? Amor sempre foi algo inusitado para a menina.

Bilhete na bolsa, ela tranca o carro, guarda a chave, e vai em direção às escadas da escola. Anda pelos corredores, em direção a sua sala. No caminho uma fila de crianças de cerca de quatro ou cinco anos. Estão saindo de outras atividades, balé, judô. Alguns na fila são seus alunos. Mas a aula com a menina é no outro dia. Ainda assim, uma menininha de tchutchu rosa sai da fila, corre a abraça as pernas da menina, local que alcança, enquanto fala “Oi, teacher”! A pequena criatura rosa ganha da menina um beijo nos cabelos. E enquanto ela equilibra seus livros, materiais, bolsa, chave do carro, garrafa de água, para que tudo não despenque, eis que recebe outro aperto na região da barriga dessa vez, alguns passos à frente no corredor. A mudança de altura do abraço indica a variação de idade da criança em questão. Dessa vez é uma que terá aula naquele dia. Veio correndo, ajuda a menina, nesse momento professora, a abrir a porta da sala. Está animada e com um sorriso nos lábios. Puxa um papel meio amassado de dentro do quimono suado e entrega à menina com entusiasmo, “fiz esse desenho pra você, teacher”!

A menina recolhe o papel com mais um beijo entre cabelos suados, e põe todo seu material sobre a mesa. Só então desamassa o papel, e se depara com um sonoro “I love you”, com direito a coração no lugar do love, seguido de um ticher, com erro de grafia. Um sorriso de canto de boca, daqueles ligeiramente tortos brota no rosto da menina. Emoção pelo carinho gratuito, graça no erro cometido, e acima de tudo amor. O papel volta ao seu amassado já cativo, e a menina o coloca na bolsa. E segue com sua vida. Seu dia de trabalho. Agora, polvilhado de mais amor. Amor amigo, amor infantil, amor que nem sempre é amor. Gentileza.

A menina não gosta de dirigir no lusco-fusco do anoitecer. Mas aguarda pacientemente na porta da escola. Já são seis, logo eles estarão no carro. Ouve uma música para aquietar a mente. Abre os olhos com uma leve batida na janela. Destranca o carro por dentro e entram aqueles dois seres humanos tão seus. O menino mal se acomodou no banco, e a menina já está ganhando um beijo na bochecha daquela outra menina linda, de cabelos negros e olhos de ressaca, olhos de Capitu. Ao se desvencilhar do beijo a menina anuncia “vamos fazer um yakissoba de jantar”?! É uma pergunta e uma afirmação. Seu sobrinho abre um sorriso genuíno, “Vamos”!

A menina sai do banho, coloca o pijama. Olha pela janela. Não está em casa. Está na casa de sua cunhada, sua irmã. Está cuidando dos sobrinhos aqueles dias. Os pais viajaram em diferentes errandas. Ela olha as luzes da quadra e posiciona o travesseiro de forma que durma melhor. Ainda não deitou. Está se ambientando num quarto que não é seu. Ouve uma leve batida na porta seguida de um “tia…”. E encara aqueles olhos de Capitu, que seguram uma escova de cabelo entre as mãos. De pijama e cabelos molhados a menina senta de costas para a menina. Sem palavras. Só gestos e carinho, e ela desembaraça os cabelos negros, grossos e lindos daquela pequena. Depois leva-a até sua cama e com beijo na testa diz “Durma com os anjos, sonhe comigo e não caia da cama”! Ganha um sorriso de volta, e no escuro, enquanto espera o sono vir, a menina recebe as lágrimas nos olhos. Aquelas foram as palavras que ouviu todos os dias por vinte e cinco anos antes de dormir, vindas na voz de mel de sua mãe. Não às ouvia a pouco mais de dois anos. O futuro daquelas palavras reencontrava existência agora. Seriam repetidas pela menina para outras pequenas meninas. Gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Mais amor, por favor.

Outro dia de trabalho. A menina abre o armário, para colocar sua bolsa e pegar as provas que aplicará naquela tarde. Um chocolate a olha de volta. Pela marca e alto teor de cacau a menina já sabe quem o depositou ali. Uma amiga de trabalho. Gentileza gera gentileza. Amor. Saboreou o doce daquele amor de cacau, assim como sentiu o amor em cada fio de cabelo negro e no beijo de boa noite. O amor tinha gosto de shoyo naquele sorriso de seu jovem cozinheiro. O amor era brega e sutil naquele adesivo de coração alongado no papel de caderno. O amor era inocente e gratuito naqueles abraços nas pernas e barriga pelos corredores da escola. O amor era perfeito nos erros de grafia. O amor polvilhava a vida da menina. Todos os dias, em todas as coisas. O amor é tão mais do que se canta em verso e prosa.

Agora e menina sabia, que aqueles anos órfã, aqueles anos solteira, aqueles anos sozinha de várias formas, eram, dia a dia, cheios, muito cheios de amor. É o amor dos outros. É o amor do sol que nasce a cada dia. É o amor de cada xícara de chá que ela preparava com muito amor, para tomar enquanto divagava olhando a lua pela janela antes de dormir. É o amor que vinha em cada gota de chá que ela tomava, e em cada palavra que brotava de seus dedos. O chá entrava e as palavras saiam, noite a fora. Noite a dentro. Amanhã é dia dos namorados. Amanhã é dia de jogo de futebol. Amanhã muitas pessoas celebrarão o amor à sua maneira. E muitas outras chorarão ou tornar-se-ão amargas pela falta dele.

Não falta amor no mundo! Não falta amor na vida! Gentileza gera gentileza. Amor. Mais amor, por favor. Por si! Pelos outros. Pelo amor que há no mundo. E assim, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e todas as outras olharam para a menina de dentro para fora. E a menina se viu tão bem acompanhada. Por todos os seus livros, todos os seus chás, todos os seus amores. E agradeceu! E a cada vez que ela agradecia, o amor crescia, fruía, fluía. Que o amor seja a dois, a três, a todos, a um só. Que o amor seja verde e amarelo, ou rosa, ou vermelho, ou azul. Mas que seja verdadeiro. Puro. E que, antes de mais nada, seja amor. E assim, a menina, já em sua cama, findo mais um dia de trabalho, fechou o computador. Aquietou os dedos e as palavras que nasciam dele, e desejou a si e ao mundo, mais amor.

Confissões de não-adolescente

Eu, como muitas outras pessoas, já passei pelas aventuras e desventuras de ter uma televisão por assinatura e tudo o que cancelamentos, discussão sobre preços, planos, renovações, fidelidades, e assinaturas podem gerar. Da euforia a depressão, da mágoa à raiva, da alegria simples a desilusão, por fim, eu desisti. Mantive apenas a conexão vital da internet e me rendi as modernidades, adquirindo uma Apple TV que conecta minha conta Netflix a minha tv. Propagandas a parte, por enquanto estou feliz, e dediquei minhas noites de férias a colocar em dia a sétima temporada de How I Met Your Mother.

Para aqueles não familiarizados com a série, trata-se, grosso modo, de um grupo de amigos contando suas peripécias ao longo de nove anos, e falando de todo tipo de relacionamentos. Tenho um cérebro que se dedica, em plano de fundo, a fazer conexões de todo tipo, seja relacionar livros lidos, citações, músicas com letras correlatas ou acreditar num mundo cabalístico, e, fato é, que estou sempre vendo ligações entre qualquer coisa e coisa nenhuma. Citando Skank, para exemplificar o que acabei de dizer, se Tom Jobim pode, eu também posso, embora as minhas palavras sejam muitas e não uma nota só, já vivi tanta coisa que não acredito em nada, ou no meu caso, acho que passei a acreditar em tudo.

E um dos episódios assistidos mostra os amigos num ritual de a cada três anos assistirem juntos a trilogia Star Wars e conversar sobre como suas vidas estarão em mais três anos, na data do próximo ritual. Pois bem, deixando a série de lado, tentei ir dormir, e me peguei fazendo a mesma coisa. Imaginando não como estará minha vida em três anos, mas em como eu imaginei, nos últimos nove anos, que minha vida estaria a cada três, e como, obviamente ela não esteve. Assim como na série, meus melhores amigos são os mesmos, há muito mais do que nove anos, embora novos tenham se adicionado com parcimônia ao longo desse tempo. Agora, finalmente, cheguei, em termos de casa e situação financeira, em algo parecido com o que acreditava que estaria há uns seis anos atrás, embora nunca fosse capaz de sonhar com as circunstâncias. Sabedora de que a vida é sempre mais estranha que a ficção, deixei, numa espécie de meditação ativa, meus pensamentos simplesmente virem e irem e o resultado foi tão inusitado que resolvi escrevê-lo.

A cerca de nove anos atrás comecei um relacionamento que se tornou sério e ocupou oito anos da minha vida. Nunca imaginei que isso aconteceria, mas deixei que acontecesse e agradeço por assim ter feito. Hoje sei como é ter um relacionamento sério e longo, e mesmo sabendo que cada relacionamento será diferente, tenho a oportunidade de me conhecer num desse tipo, e ainda estar numa idade em que tudo é possível, já tendo experimentado algo assim. Por outro lado, nesse um ano que se completou, de solteirice, tive a oportunidade de me testar e saber como reajo a circunstancias fugazes. Não me decepcionei. Pelo menos não no conjunto da obra. Obviamente, tive inúmeros momentos de decepção, comigo mesma e alheios.

Mas entre pensamentos que iam e vinham, pensei em como conheci e me relacionei, fossem novas amizades, ou não, com pessoas de todos os tipos. Sou eclética, embora mantenha um bottom line alto. É como na música, raramente ouço aos hits do momento, embora eles estejam presentes e marcantes, mas gosto do lado B de muitos artistas, e fuço para conhecer aquilo que não é visível a todos que os escutam fugazmente. Ou como com os livros, já li muito best seller, mas também detenho títulos muito pouco conhecidos, sem falar nos clássicos. E em meio a maré de pensamentos lembrei das brincadeiras de Barbie e de como meu Ken nunca teve nome. E é aqui que eu parei, e pensei de verdade. Minhas primas davam a seus Kens, naturalmente, seus nomes preferidos. Eu não. Eu não queria estigmatizar o Ken. Não queria escolher seus atributos e depois sonhar com eles. Queria que o Ken simplesmente fosse. Desde que eu pudesse brincar com as outras meninas, e que minha Barbie tivesse uma família, não queria decidir nada a respeito do meu Ken. Nem seu nome, nem seu trabalho, queria que ele existisse apenas. Logicamente ele era um boneco, e nunca foi nada. E ficou ali, aquela interrogação. Sempre deixei o espaço do Ken em aberto, para ver o que a vida me traria. Vale ressaltar que passei alguns anos escolhendo cuidadosamente minhas Barbies, e embora sempre tenha amado todas as que ganhei, tinha um orgulho escuso de ter uma família completa, Barbie, Ken, Stacy, e duas filhas menores, onde todos tinham cabelos castanhos, e dois deles, a Barbie e a criança, olhos mel. Por mais besta que pareça, era muito difícil não ter só Barbies loiras. Com alguma sorte juntei a Bela (da Fera) com um Ken inspirado no Tom Cruise (moreno) e consegui essa façanha. Não que eu tenha preferência por pessoas loiras ou morenas, mas era um feito ter uma família de castanhos em um universo de loiros.

Passada a infância, e com ela as Barbies, continuei sem dar nome ao meu Ken. Ao contrário das minhas amigas, que faziam listas de atributos desejados no amor de adolescência, eu só queria viver. E, secretamente, sempre desejei que a vida me surpreendesse. Com isso fiz amigos de todos os tipos e gostos, e continuei eclética. Não namorei na adolescência, por opção. Tive um longo relacionamento, só porque queria ver como seria. Vi e gostei. Acabou e gostei também.

Eu sempre soube do que não gosto, e quando começo a não gostar de algo, saio logo de perto, e aquilo acaba. E então, finalmente, caiu a ficha. Eu sempre soube do que não gostava. Mas, do que eu gosto? Ou melhor, o que eu desejo? Nunca me arrisquei a desejar nada! Pelo menos não no campo do amor. Sempre achei que queria deixar a vida, o destino, Deus, o Universo, decidirem por mim. Será que eu teria direito a algo? Será que seria merecedora a encontrar alguém algum dia? Nunca quis definir uma resposta pra isso. E você me pergunta, oito anos num relacionamento e você não sonhava com o futuro? Sim! Sonhei muito. Só que sempre com os futuros. Nunca um só. Sempre vi todas as portas abertas, para você e eu, citando Skank de novo (olha o vício). Imaginar cenários sempre foi fácil pra mim. Vivo a vida jogando xadrez, e tenho vários movimentos planejados para cada um que a vida faz. E assim tenho conseguido ir me adaptando.

Sempre tive orgulho disso. Quem não gostaria de conviver, seja como filha, prima, sobrinha, irmã, amiga, namorada, com alguém flexível, disposto a ver o que a vida lhe reserva depois da curva, aberto a possibilidades? Isso tudo tende a ser muito bom. Mas e o que eu quero? O que eu gostaria? Eu não sei. E eu não sei porque nunca me permiti sequer pensar nisso. Nunca quis dar um nome para o meu Ken para não identifica-lo com alguém e criar expectativas. Continuo achando que não é bom criar expectativas. Odeio quando vejo as pessoas procurando por relacionamentos como quem procura preencher uma vaga de emprego, currículo à mão, sempre excluindo aqueles que não atendem os pré-requisitos. Não acho que isso funcione.

Mas comecei a pensar que também é preciso saber o que se quer. Eu ainda tenho que pensar melhor sobre isso. Eu ainda não sei o que eu quero. Mas agora sei que para ter, tenho que querer. Tenho que saber querer (e olha a citação ai de novo). Claro, nessa brincadeira meditativa, se eu simplesmente deixar os pensamentos virem, eles virão e também irão. As pessoas virão, e também irão. Mas onde eu quero chegar? Ou por onde eu quero ir? Não me importa o como, mas seria interessante saber pelo menos o que.

É um rascunho ainda, assim como eu sou um rascunho ainda, rabiscado sobre um papel amassado. Declaração mor de amor pra mim é a letra de Sutilmente. Mas será que eu sei ser simples, sutil, suave, súbita? Eu não tenho medo de me deparar com o desconhecido. Mas hoje eu descobri que tenho medo de querer. É como meu medo de borboletas. Sim, eu tenho pânico de borboletas. Cobras, aranhas, baratas, bestas-feras, já enfrentei e enfrento de novo a qualquer hora. Mas corro, perco a compostura, com borboletas.  Entranho? Muito! Sempre achei sem explicação. Hoje, comecei a entender. Não tenho medo do que todos tem medo. Aquilo que é desafio por definição eu enfrento de olhos fechados. Mas rapaz, pense num medo de tudo o que é simples, sutil, suave e súbito.

E pela primeira vez eu sei uma das coisas que quero. É a primeira da lista, e espero de coração que essa lista nunca seja extensa. Quero que minha lista seja simples, sutil, suave. Súbita? Talvez. Mas sei que desejo que algum dia, seja lá quem for o Ken, seja alguém que compreenda que apesar de enfrentar todos os monstros da vida, eu preciso que me dê a mão e me leve como se levaria uma criança, quando se tratar de lidar com aquilo que é simples, sutil, suave e súbito.  Sempre amei a poesia, e sou admiradora, seja Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, ou mesmo Pedro Gabriel, a.k.a. Antônio (último dos meus vícios, paixões). Sei reconhecer a poesia. Mas só hoje reconheci que sou eu também poeta, e não aprendi a amar.