Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

Pão da Isadora ou Pão das Paineiras

O ano era 2002, mas podia ser também 2003 e 2004. Em 2002 estava fazendo acompanhamento psicológico, e com o passar do tempo e do desenrolar do acompanhamento, migramos das questões mais primitivas e essenciais que me levaram lá, para novas, e começamos a trabalhar com a construção da Juliana adolescente, a construção da Juliana adulta. Nesse período, que vai aí de 2002 a 2004, minha psicóloga me passava “deveres de casa” e eu possuía uma caderneta amarela onde anotava sonhos, momentos importantes, coisas que queria discutir com ela numa sessão futura e outras ideias. Nesse período começarmos a discutir o conceito de prosperidade e algumas frustrações que eu carregava advindas da carga familiar, meus planos para o futuro, a vontade de ser independe, de viajar.

Nesse período comecei alguns trabalhos de férias, e meus “bicos” de adolescente, que incluíam fabricar e vender bijuteria, lavar os carros da casa e da vizinhança, fazer as unhas de familiares, e com um troco aqui, outro ali, somados a presentes de aniversário, acabava conseguindo fazer pelo menos uma viagem de um fim de semana por ano, com a escola ou amigos, para uma cachoeira próxima, sem depender dos meus pais. Essas conquistas entravam no meu caderno de “Prosperidade” e eram debatidas nas sessões, e nesse período aprendi muito sobre como gerenciar meu orçamento próprio, fazer economias, alcançar metas e, principalmente, a difícil tarefa de precificar meus produtos e serviços.

Um belo dia cheguei na consulta e na minha caderneta da prosperidade estava escrito: “Hoje aprendi a fazer pão!”. Minha psicóloga perguntou o porquê de eu ter anotado aquilo no caderno exclusivo para a “Prosperidade” e embora não tivesse vendido nenhum pão, e aquele ato não tenha me trazido rendimentos monetários, e ainda assim eu tive, e ainda tenho, a sensação de que foi um dos atos mais prósperos que já realizei. Juntar aquelas farinhas, um pouco de água e ver ao longo de horas de trabalho, suor (vai sovar a massa na mão pra ver o que é malhação) e a paciência de esperar o pão crescer e finalmente dividi-lo com os familiares, é uma experiência extremamente próspera.

Poucos atos trazem tantos ensinamentos intrínsecos quanto fazer pão. A pedagogia Waldorf inclui o ato de fazer pão na escola e depois dividi-lo com os amigos e familiares como parte do processo de ensino, e depois de ter aprendido, eu compreendo e concordo. Existe algo mágico em saber fazer pão! Exige paciência, dedicação, determinação, e, dependendo da receita, muita gente no fim, para saborear tudo aquilo.

Em 2002 chegou minha afilhada Nathalia, e nessa época eu passava muito tempo na casa do meu irmão e da minha cunhada. A mãe dos meus sobrinhos, a Isa, é chef, cozinheira de mão cheia, e sempre foi uma pessoa muito agregadora, que teve uma papel fundamental na minha convivência com meus irmão no período da adolescência, especialmente pela diferença de idade significativa entre nós. Entre 2002 e 2004, nas tarde após a escola, ficava por lá, ajudava com os pequenos, e aprendia um pouco, um pouco sobre ser tia, um pouco sobre ser irmã.

E a fazer pão! Umas férias de julho, quando estava por lá, Nati pequena, saímos para comprar as coisas e aprendi a fazer pão. Foi com eles que dividi esse pão pela primeira vez e depois reproduzi a receita e a experiência com minha família materna, com meus amigos de infância e ao longo da vida venho reproduzindo essa experiência tão próspera e deliciosa de fazer e dividir comida com todos os que amo e tenho a oportunidade de partilhar refeições.

Nesses anos minha alimentação mudou muito, primeiro me tornei vegetariana, depois passei a ter uma preocupação maior com a escolha dos ingredientes para manter uma alimentação mais saudável e inteligente. Nesse campo das receitas pretendo compartilhar coisas novas e velhas, e a receita de pão da Isa, embora não seja a primeira, está entre as históricas.

Então vamos lá: Pão da Isadora (como eu chamo) ou  Pão das Paineiras :

Ingredientes:

* 3 tabletes de fermento biológico fresco

* 3 colheres de sopa de açúcar

* 3 ovos

* 1 colher de manteiga

* 1 copo de óleo

* 3 copos de água

* 1 e 1/2 kg de farinha de trigo

Preparo:

Misturar o fermento com o açúcar até derreter. Colocar em uma vasilha funda 1kg de farinha e o sal. Faça um buraco no centro e adicione: manteiga, óleo, ovos, água e o fermento já derretido. Ir acrescentando, aos poucos, o restante da farinha de trigo (a quantidade de trigo suficiente se dá quando a massa não grudar em suas mãos). Sovar a massa por 5 min. Deixar crescer por 1:30 hora (ou até dobrar de volume). Dividir a massa em partes e moldar os pães. Levar ao forno pré-aquecido por mais ou menos 40 minutos.

Ah, e pode rechear com o que quiser antes de assar!

(contato: isadoramarar@hotmail.com )

E a Nati (que hoje é adolescente) fazendo pão até com os pés!

 

 

E as ferramentas?

Eu sempre gostei de uma boa caixa de ferramentas. Meu avô era um verdadeiro Dr. Pardal, MacGyver e senhor buginganga. Cresci numa oficina, visitei várias. Durepox, estopa, e voltímetro faziam parte do meu vocabulário infantil. Além de perfunctório! Palavra preferida herdada do super vovô. Além do gosto por ferramentas. Meu gosto por ferramentas só não é maior que meu amor por artigos de papelaria, canetas e lápis coloridos, cadernos variados, papel colorido. Mas o gosto por ferramentas sutis ficou. Ferramentas intelectuais, ferramentas digitais, ferramentas emocionais. Eu sou daquelas que funciona bem se tiver um sistema. Adoro uma novidade. Mesmo que ela seja uma grande velharia, mas que surge para mim como uma grande e “nova” ferramenta.

A música Vagabunda, da Clarice, de excelente qualidade, vai terminando, num fading providencial. Música, é para mim, uma ferramenta. E das mais usadas. Não sei fazer música, não sei cantar, e isso não é charminho, odeio quem usa o charminho como ferramenta, é sério, sou uma negação em música. Mas é uma excelente ferramenta, em vários sentidos, uso para mudar o humor, para manter o humor, como companhia, para me exercitar, para cozinhar (cozinhar sem música é fatal), para estudar, escrever, ler, com fones, para abafar o barulho do ônibus, do trânsito, dos assédios nojentos de rua, para me manter no meu mundo de paz.

Bem no fading encaixa-se meu alarme, lembrando que é a hora do plus do remédio homeopático que estou tomando para uma queimadura de panela, feia, porém feita de forma muito idiota, fazendo pipoca e bolo. Homeopatia é para mim uma ferramenta. Não só no sentido óbvio, de ser usada como remédio e, portanto, tendo um fim claro e útil. Mas é uma ferramenta pois me permite sair do circuito convencional de saúde-doença, é uma ferramenta para o autoconhecimento, já que já passei muito mal com remédios, é uma ferramenta para fugir de efeitos colaterais.

A cozinha, essa mesma que me gerou uma queimadura fazendo pipoca e bolo, olha a criatura besta sem coordenação motora, é uma super ferramenta também. É meu instrumento de saúde, de terapia, de paz, de felicidade. É a segunda forma, além de escrever, de me compartilhar. Mudar minha alimentação, me tornar vegetariana, e, mais que isso, buscar conhecimento sobre a cozinha, sobre meu corpo, sobre as reações, compreender minhas alergias, intolerâncias, preferências orgânicas, e entender que para ser tudo que eu posso e tudo que eu quero ser, cozinhar é uma ferramenta indispensável. Não é só uma questão de comer saudável, ou seguir o nutricionista, é a minha revolução. Física, emocional, psicológica, social, ambiental.

Cozinhar é a ferramenta que me permite comprar ingredientes de verdade, e fabricar meu alimento do zero. Quase não vou mais ao mercado. Aqui é feira e cereais e farinhas vendidos à granel, comprados como matéria base. E me livrar do sistema, por mais besta que pareça, tem impactos imensos. É o que eu como indivíduo posso fazer de melhor para o meio ambiente, para meu próprio corpo, e com a vantagem de que ainda posso compartilhar isso com os outros. Seja como troca de informações, receitas, visitas, comidinhas. Dar uma fatia de bolo para uma visita é uma ferramenta para inseri-la num debate que pode se tornar muito profundo, e que pode tomar muitos caminhos, mas que é sempre revolucionário.

Ganhei um beijo surpresa do meu amor, que veio me dizer que eu sou linda porque eu estava cantando Clarice Falcão. Sim, eu canto tão mal, mas tão mal, que gera reações desse tipo, com direto ao aviso de “não precisa parar de cantar, só vim dizer que você é linda”! Naquele melhor esquema de quando você vê um bichinho muuuuuuuuuito feio e diz que é lindo de tão feio. Então: eu cantando. Entre risos, um pouco de vergonha e muito de liberdade, segui no meu esganiçado tom desconexo.

Hoje foi um dia muito bom, de muito amor. Foi um dia de extrema conexão comigo mesma. Comecei acordando naturalmente, sem alarme, as 8h30, horário incrível, nem cedo demais nem tarde. Bebi água, tomei um limão espremido, botei roupa para lavar, sempre me sinto eficiente quando a roupa está limpa, o cesto vazio, parece que eu venci a história sem fim da vida adulta. Depois taquei o EVA no chão e mergulhei na minha imensidão azul. Pratico Método DeRose, e esse possui inúmeras ferramentas que eu uso todos os dias, que me são tão caras e queridas! Não tenho como falar das minhas ferramentas sem mencionar essa filosofia que me proporcionou tantos meios de ser, plenamente.

Depois li um pouco. Ler: a ferramenta básica da vida. Inclusive compartilhei hoje um meme com esses dizeres, “ ler é a forma de instalarmos um software em nós mesmos”. Perfeita! Sempre lembro de Matrix e daquela forma de instalar habilidades com um plug na nuca. Na real, isso se faz com os olhos e a leitura. Ou com o som, e a audição, mas basicamente com a retransmissão dos conhecimentos acumulados no mundo pelas sociedades. Na sequência rolou um spa em casa, fiz minhas próprias unhas, com direito a bacia de água quente, creme esfoliante de pedra pome, e gel para pernas cansadas. Amo saber fazer minhas próprias unhas.

Almoçamos comida caseira e fresca, o que aqui em casa é a regra e ainda assim me sinto plena a cada refeição por essa constatação. Depois fui para um workshop incrível, cheio de prática, novos conhecimentos e muito amor. Da Alana Rox, do The Veggie Voice. Ela tem instagram, Facebook e etc. Cheia de ferramentas incríveis e pronta para compartilhá-las com todos. Voltei me sentindo leve, apesar de ter comido muuuito! Voltei me sentindo plena. Sentei para conversarmos sobre o dia dos dois, teve massagem no pé, acompanhada de um chá relaxante.

Sim, a vida pode ser muito boa! Quem me conhece de perto sabe que já passei por muitos momentos extremamente tristes e solitários. Quem lê o blog desde o início, ou já leu todas as reminiscências sabe também. Minha vida sempre foi cheia de privilégios, mas nunca foi um mar de rosas. E aprendi muitas lições. E nesses anos todos sempre ouvi dos amigos e familiares mais próximos que eu sou uma pessoa muito forte. Porque mesmo passando por tudo isso, sou uma pessoa “feliz”.

Garanto que tenho muitos momentos infelizes. Mas sim, no geral, posso dizer que sou feliz. E esse sentimento não vem do nada. Vem da construção diária que faço dele com todas essas ferramentas: a música (que me remete sempre à minha mãe! ❤ E também ao meu avô e ao meu pai), a culinária (que me remete à minha avó, e também à Isadora, minha cunhada-irmã-mais-velha, que me ensinou muitas coisas, entre elas o amor pela comida), o cultivo pela saúde (que me remete à minha mãe, inclusive pela forte memória dos problemas graves de saúde e peso que ela enfrentou e que até hoje são subestimados na nossa sociedade), as palavras (seja pela leitura ou pela escrita, essas me remetem à JuReMa, meu pseudônimo literário. Minha essência).

Referências existem muitas, várias que ficaram faltando, inclusive. Meu maior instrumental de vida até hoje se chama André Reis e quem o conheceu sabe que ele era um rol de ferramentas para a vida inigualável! A ele todo meu amor e gratidão. Mas além dos familiares, que todos construíram esse meu rol de ferramentas, adiciono alguns amigos, algumas personalidades, alguns professores, algumas filosofias. Todos esses mudaram minha vida de forma muito mais profunda do que conseguem imaginar.

Último alarme do plus. A queimadura está quase boa já. O álbum da Clarice já acabou e já estou no meio do da Tiê. O ventilador sopra a toalha que está no cabelo em formato de turbante. E a noite segue quente, mas feliz. E meu calor interno está resplandecente com esse dia lindo e cheio de amor próprio e pelos outros. Mas eu queria terminá-lo compartilhando um pouco de toda essa felicidade e desse amor na forma de palavras, como uma retribuição. Que todos vocês saibam, portanto, que minha felicidade não vem do nada, ela é construída, e eu uso muitas ferramentas.

Algo que permeia todas elas e que me faz me sentir incrível é a autossuficiência. É maravilhoso e totalmente empoderador saber fazer minhas próprias unhas, minha comida, arrumar meu cabelo, andar pela cidade sozinha de transporte público, me exercitar em casa, meditar, cantar (ainda que mal), ouvir o que eu quiser. Ser! Essas ferramentas todas são para que eu seja quem eu quiser, quem eu sou, na minha plenitude. E a JuReMa agradece. Ela sou eu, e além de ferramenta, ela é realização. Obrigada! ❤

Sobre querer abraçar o mundo com as pernas (mais uma vez)

Bebo água. Hoje não está tão frio, apesar de estar de calça, a camiseta é de mangas curtas e os pés no chinelo dispensaram as meias. Onde estão meus muitos shorts? Em Brasília nunca fiquei em casa estudando, lendo, trabalhando, cozinhando, de calças. Sempre short. Até no inverno. Inverno de frio leve à noite. Inverno de short e suéter. Setembro. Setembro nunca fez frio. É a época da seca desesperadora. Do calor seco que me fazia dançar a dança da chuva. De noites insones, banhos na madrugada, fins de semana no lago.

Lavei roupa, mas não consegui pendurar direito, pois as meias que estão no varal a três dias ainda não secaram. Choveu muito e fez muito frio nos últimos dias. Fiquei em casa, entre a T.V., o computador, o videogame, os amigos, os livros, os estudos, e as canecas de chá. Setembro frio e úmido. Semana da Pátria. Folga inesperada. Novidades sem fim. Em outubro lamentarei a falta da Semana do Saco Cheio. Cada cidade, suas folgas.

Na tela do notebook dois documentos do word superpostos, cinco pdfs, chrome com 6 abas abertas: email, facebook, email usp, plataforma online de materiais das disciplinas, google maps, decolar.com. A falta dos amigos, de saber notícias da cidade não me deixa deletar o facebook, nem deixar de abri-lo o tempo todo. A falta de tempo para estudar não me deixa ir vê-los. Três viagens sendo planejadas. Será que vai dar tempo de fazer todas? Será que vão caber no orçamento? Será que a bolsa vai sair?

Um dia pensei que os adultos tinham todas as respostas. Um dia pensei que mesmo que os adultos não as tivessem eu as teria. Passei os primeiros anos da minha vida adulta trabalhando e estudando como uma louca. Chorava de sono. Chorava pelas perdas. Nunca pelas incertezas. Eu sempre soube que ‘daria certo’. A vida vira de cabeça pra baixo. Quando tudo parecia que finalmente estava ‘dando certo’, cai na toca do coelho. Não quis mais. Não quero ser desses adultos que sabem tudo e ‘deram certo’. Não quero que minha vida seja sinônimo do meu trabalho ou mesmo da profissão.

Persigo já faz uns três anos o caminho dos loucos. Das Alices que caem em tocas de coelho. Das metamorfoses ambulantes. Dos Dom Quixotes que enfrentam moinhos urbanos. Das amantes de chocolate que se mudam quando bate o vento certo. E que ficam quando aparece o pirata certo. Que fazem suas próprias cores, seus próprios sabores, redefinem seus destinos. Eu definitivamente prefiro ser essa metamorfose ambulante. E além de não ter as mesmas opiniões formadas sobre tudo, abri mão das certezas e das respostas também. Quero ser feliz. Sou feliz.

Do meu jeito. Às vezes me sinto incrivelmente independente e competente. Aquela que lava, arruma, cozinha, estuda, faz dieta, escreve, disserta, opina, orienta, corrige, prepara aulas, faz traduções, lê cinco livros ao mesmo tempo, se depila, escolhe uma roupa bonita, pega o metrô, o ônibus, anda a pé, pratica a atividade física. Aquela que migra da legging pra camisa social, pra lingerie de renda, pro moletom da universidade com a fluidez de uma dessas supermulheres de anúncios fantasiosos. Sonho feminista.

Em outras sou ainda aquela adolescente, aquela criança, que só queria jogar jogos, dormir na casa da vó com os primos, na casa das amigas com o grupo infalível, andar de bicicleta, tomar um sorvete, comer qualquer coisa, dormir 12h por dia, trocar o dia pela noite, perder tempo, pedir uma pizza, dormir com a blusa do dia e sem as calças, deixar a louça na pia, esquecer que a louça e a pia existem. Perder as horas. Esquecer o relógio. Não abrir o email. Não desejar parabéns a ninguém. Nem falar muito com os outros. Aquela adolescente que ainda cultiva o seu lado egoísta sem culpa. Que faz porque é bom. Que se prioriza. Seus desejos. Sonho niilista.

Em outras horas bate o wonderlust. A vontade de fazer todas as mil viagens que já planejei. A vontade de não ter horários nem obrigações. Vender tudo, arrombar a poupança e sair por aí. Veja bem, muitas pessoas conseguem trabalhar loucamente, juntar dinheiro e passar um fim de semana da praia, outro na cachoeira, ir ver a família num feriado, e quem sabe até numas férias mais longas, de quinze ou vinte dias, fazer uma viagem internacional. Eu já fiz e faço todas essas. Mas não é dessas que eu sinto falta. Sinto também. Mas quando bate esse bichinho, o que queria era a loucura. Era ser Walden no mato, ser Supertramp a caminho do Alasca.

Aquelas viagens de quem se resumiu a uma mochila, ou uma kombi, e que não tem dia para acabar. As viagens de quem aboliu o sonho consumista. De quem não quer ter. Quer viver. Uma grande aventura. Aquelas viagens que vão tentar me deixar mais perto da carta de Hogwarts que não veio, quando eu caminhar pelo interior do Reino Unido a pé. Que vão me deixar mais perto Macondo quando eu atravessar a Colômbia no melhor estilo Diários de Motocicleta. Aquela viagem que vai revelar as profecias Incas e os segredos espiritualizados de quem ronda Bolívia e Peru até Machu Picchu. A transiberiana. Berlim-Bagdá. A transamazônica. O roteiro dos Hobbits da Nova Zelândia. O mundo como meu país das maravilhas. Sonho Alice.

E quando bebo mais um gole de água, no meu belo copinho florido. E levanto a cabeça para ver os livros me esperando enquanto continuo os estudos. Quando checo as abas do chrome e me lembro que tenho que começar a selecionar os programas de doutorado que gostaria de aplicar, pois ano que vem será importante já ficar de olho nas datas. E olho os amigos e a família no facebook e me lembro que ainda não planejei o natal desse ano. Quando olho o namorado deitado no sofá em frente, concentrado entre ligações de consultas, livros de estudo e jogos de computador. Percebo que sou mesmo é uma Menina Maluquinha, que quer abraçar o mundo com as pernas. E ser cada dia um pouco desses sonhos. Cada minuto do dia uma dessas mulheres.

E sabe qual a melhor parte? Cada dia encontro mais Maluquinhos por aí. Sofredores desses sonhos de incompletude, de metamorfoses ambulantes. Outros adultos que guardaram suas crianças e adolescentes com tanto carinho que nunca se despedirão delas, e assim seguirão com essa nossa esquizofrenia de ser tantos em um só. De alimentar esses sonhos todos. E enquanto isso sigo assim, estudando depois da faxina, escrevendo antes de jogar videogame, comendo chocolate hoje e vitamina de chia e linhaça amanhã, economizando enquanto espero a bolsa, e planejando a próxima grande viagem. Vivendo essa vida. Essa vida dos novos adultos que não encontraram as respostas certas. Ou talvez ainda não tenham encontrado a pergunta, mas sim algumas respostas. Vamos assim então, de mochila nas costas, livros debaixo do braço, toalha no ombro, em busca da pergunta do nosso 42.  Abraçar o mundo com as pernas.

Eu

Então, essa é a minha última semana nessa casa. Na madrugada da sexta para o sábado que vem, pego a estrada rumo a uma nova etapa, uma nova aventura. A caneca de chá está aqui ao meu lado. Faz um calor desesperador. Janela aberta. Ventiladores de teto ligados. Eles estavam na minha To Do List de 2014, check and done! Colocados no teto! Esse ano cumpri com absolutamente todas as minhas metas pré-estabelecidas e fui além. Estou extremamente satisfeita comigo mesma e com a minha vida.

Bate uma alegria, uma ansiedade, uma vontade de chegar logo na nova fase. Dessa vez, entretanto, não sinto o gosto amargo das despedidas. Primeiro porque dessa vez, pela primeira vez na minha vida, ninguém se foi, seja de uma forma ou de outra. Quem está indo sou eu. E isso faz toda a diferença. Quem fica, quando os outros vão, fica só, fica no mesmo lugar, que precisa ser reinventado para cobrir o vazio. Dessa vez vou rumo ao cheio. E a muitos vazios também. Espero poder preenche-los. Levar comigo minha música, meu cheiro, meus passarinhos, minhas estórias.

Vou porque quero, não porque preciso. Vou porque construí o caminho, a ponte está feita e agora é só cruza-la. Há uma alegria infinita nesse processo. Sei que não existe, na verdade, um chegar lá. Que apenas cruzo para continuar na estrada. E que ela seja longa! E cheia de novidades sempre! Essa ida tem tudo de começo. Estou acostuma a mudanças que são finais. Essa agora é um início. Às vezes penso que é apenas um capítulo novo. Mas na verdade farejo ares de outro volume. Como se algumas mudanças fossem, per si, drásticas demais para estarem contidas naquele mesmo velho livro.

Outro fator que me leva a essa ideia é a natureza dessa mudança. Nada tem gosto de inevitabilidade, tudo tem gosto de escolha própria. Nesse sentido, posso afirmar, que estou me dando o maior luxo da minha vida até hoje. Afinal, é um enorme privilégio poder fazer essas escolhas, ter as condições de realiza-las, e ainda por cima, saber que é tudo por mim, de mim, para mim. Presente de natal, ano novo, de vida. De vida nova. Sempre coloquei as obrigações e as necessidades em primeiro lugar. E elas sempre me exigiram muito. Essa história de livres escolhas baseadas em desejos, sonhos e realizações é uma tremenda novidade.

Não pense, contudo, que essa guinada aconteceu no natal. A primeira mudança, física inclusive, quando vim morar no meu pequeno aposento do alto dessa torre de onde vos escrevo, foi voluntária. Não foi fim, foi o início de um começo, ou o começo de um início. O início do meu começo. Completo agora um ano de meio de dedicação exclusiva à Juliana, à JuReMa, à Ju, à Juju, à tia Juju, à Marra, a todas essas que moram em mim. E, finalmente comecei a alcançar bons resultados, advindos dessa dedicação de corpo, mente e alma, ao meu corpo, minha mente e minha alma. Me sinto lustrada e polida.

Sei que já disse um pouco de tudo isso aqui, e receio cair na repetição e nas mesmices daqueles que se aventuram na linguagem das palavras escritas. Mas preciso tentar eternizar a sensação de plenitude desse momento. O fruto da dedicação voltada ao interior, ao meu Eu. Porque se tem uma coisa que eu aprendi, com toda certeza, até hoje, é que a vida é dinâmica, e está sempre pronta para me jogar de um lado para o outro, sempre! E estou segura de que outras infinitas mudanças virão, e que algumas delas serão inícios, outras finais, e que em algumas poderei tomar decisões efetivas, em outras terei que acompanhar a maré para não afogar.

O que preciso ter como um tesouro, como um sentimento encapsulado e guardado num berloque junto ao peito, é essa sensação de plenitude e satisfação que hoje possuo, sozinha. A certeza de que, assim como hoje eu construí um lar só meu, depois de todas as marés às quais já sobrevivi, posso reconstruí-lo a qualquer tempo, em qualquer lugar. Hoje sei que sou capaz disso. E que sou capaz disso não só hoje, pois esse aprendizado é para a eternidade. Uma vez alcançado, pode até enferrujar com o tempo, se não for lubrificado, mas sempre poderá ser reativado. E pretendo mantê-lo bem oleado.

Que a caneca de chá se mantenha sempre minha fiel companheira. E, independentemente do que o futuro trará, as palavras sempre serão meu consolo, minha vida, minha alma, se fragmentando ao vento, e sendo reconstituída em cada esquina, em cada prato de comida, em cada viagem, em cada livro lido, em cada mensagem trocada com os amigos e familiares, em cada olhar daqueles que me veem, me leem. Nunca estarei sozinha, pois aprendi a me fazer presente na solidão, e a preenche-la, a preencher-me na vida dos outros, a preencher os outros na vida minha.

Sejam as selfies, as fotos, a superexposição do facebook, as mensagens em horários indevidos, os grupos silenciados do whatsapp, as ligações demoradas do Skype, os passeios no parque, as conversas de corredor, os almocinhos, as saídas, as piscinas, as pedaladas na rua, as trilhas no mato, eu sempre me faço presente, sozinha ou acompanhada. Seja Juliana, Ju, Jujuba, JuReMa, tia Juju, tia Juba, Marra, seja quem eu for para os outros, eu me reinvento e estou lá para eles. E eles se tornam presentes para mim!

Por isso, olho a caneca de chá, e digo a ela que se prepare para horas de plástico bolha, pois vamos em mais uma aventura! E, com toda certeza, terei muitas e muitas palavras nas quais me dissolver ao longo dessa nova estrada. Sejam os tijolos amarelos ou vermelhos, passe um coelho apressado em meu caminho e eu decida segui-lo por algum tempo, seja a viagem surreal como o desejo de um gênio da lâmpada, a menina será sempre Alice, pronta para desbravar o País das Maravilhas, e tornar seus medos, amigos. A menina será sempre Sofia, tornando-se palavras enquanto vira realidade. Que venha 2015, e o resto da vida!

A Menina

Bloquinho de três é uma brincadeira de origens radialistas. Minha mãe trabalhou como radialista durante grande parte de sua vida, desde logo após meu nascimento, até sua morte. Cresci tendo o rádio como parte fundamental da vida, não somente como ouvinte, mas acompanhando produção e programação de perto. Umas das brincadeiras que minha usava para poder trabalhar e me distrair quando chegava em casa, era propor o desafio de combinar blocos de músicas que tivessem algo em comum ou que simplesmente fossem agradáveis de serem ouvidas em sequência. Após sua ida para outro universo, continuei a brincadeira, formando meus bloquinhos imaginários. Agora compartilho com vocês essa brincadeira. O desafio é que cada um descubra qual a conexão entre as músicas de cada bloco. Sempre lembrando que não há resposta correta, o gostoso é brincar, ouvir e cantar.

 

IMG_5671

 

 

 

 

 

 

 

Alice em Oz: Sofia

Hoje sou Sofia. A certeza de que tornei-me personagem bate à porta. Posso não ser uma personagem famosa, posso não ser uma personagem publicada. Mas tenho certeza de que Deus está bancando o escritor, como diria Clarice. Vejam bem, como já devem saber, sou uma adepta da literatura, e sempre li muito. E esses seres estranhos que dividem essa dita realidade com muitas outras, que vem principalmente de livros, mas também de gibis, jogos, músicas, e todos os demais lugares imaginários por onde passei enquanto crescia, e por onde passo sempre que posso, tendem a perceber a própria vida de uma forma um tanto quanto literária. Isso inclui uma dose de drama, uma dose de fantasia, uma dose de nostalgia, uma pitada de coragem e outra de sofrimento, um tempero de brilhantismo e outro de tédio. E nos faz conviver com personagens, tornando-nos a nós mesmos em um certo tipo de personagem.

Eis que eu sempre tive uma birra incrível com dramas e romances que consideravam o destino tão fatídico, tão categórico, que se impunha sobre as vontades das personagens. Também sempre fui crítica da ação padrão dos heróis, de sempre cair no plano maligno, estupidamente, em nome de ações de coragem, valentia e amor. A forma como o destino aprisionava as personagens de Austin ou das irmãs Bronte sempre me deixou indignada. E mesmo sabendo que a própria Austin abdicou do casamento e seguiu como escritora, contra os padrões da época, somente para não recair nas armadilhas do destino, suas personagens geralmente não tiveram o mesmo tratamento. Eu sempre falei aos quatro ventos que se estivesse vivendo em tempos antigos, eu seria a mais terrível das filhas, pois não usaria os espartilhos nem me casaria por arranjo. E muito menos deixaria de dizer o que penso.

Então, por mais que minha vida sempre tenha sido cabalística, e cheia de referências comparativas com minhas personagens preferidas, nunca me vi, realmente, como uma personagem. Mesmo tendo lido O Mundo de Sofia no ano que completaria quinze anos, sentada no alto da minha árvore no jardim, com meu labrador branco, Tobi, de fiel guarda aos meus pés. Mesmo tendo viajado com a escola para os Estados Unidos aos quinze, e lido Harry Potter e o Cálice de Fogo enquanto estava nos dormitórios da National American University e pedia ao Reed Abrahamson para me ensinar a ler os nomes das personagens, incluindo o da Hermione corretamente. Mesmo nessa viagem tendo vivido a experiência do ônibus quase virar na estrada e observar os cervos fugindo dos ursos e lobos, e de sermos salvos pelos índios Sioux, e ter voltado dessa viagem amiga de uma família de estudiosos que costumava fazer trilhas nas montanhas nos fins de semana, e que nos alertou sobre as dificuldades de convivências com os índios da região, e de ter ganhado lá um medalhão protetor de lobo e um coração de cristal, mesmo assim, nunca tinha me visto realmente como uma personagem.

Afinal, eu não cresci num armário, embora tenha brincado muito em uma adega que ficava embaixo da escada. Eu não achei Nárnia no fundo do armário, embora já tenha dormido entre roupas e casacos da minha avó no closet dela só porque chovia e ela nos trancava lá com medo dos temporais. Eu não cresci num castelo, só numa casa com sótão e porão, e portões de toras de madeira com dobradiças aparentes e jardim interno de samambaias onde meu avô controlava a chuva. Eu não aprendi a falar com os animais, embora minha mãe conversasse com os passarinhos e eles respondessem. Eu não cresci órfã, embora tenha vivido sem meu pai até os onze anos, conhecido ele em circunstâncias incrivelmente vitais no desenrolar do meu roteiro de vida.

Hoje, entretanto, sou Sofia. Hoje sou uma professora órfã, que vive num pequeno cômodo no oitavo andar, minha própria torre, entre muitos e muitos pássaros, reais e decorativos. Hoje eu vejo fios soltos sendo reincorporados na trama do meu tecido. Vejo esse tecido e percebo nele as marcas dos cortes bem cerzidos, tão visíveis quanto a cicatriz que hoje carrego na testa, ou seja, só para aqueles que estão perto o suficiente para ver. Sim, hoje em dia eu tenho uma cicatriz na testa. Só não é no centro, mas na têmpora esquerda.

Mas muito mais relevante é como eu percebo hoje as questões relativas a destino, escolhas e o quão eu posso decidir e o quanto Deus banca o escritor. Sempre acreditei no livre-arbítrio e continuo acreditando.  Ao mesmo tempo creio em destino. E não acho que seja contraditório. Temos que fazer por onde, e podemos decidir quais estradas pegar. Ao mesmo tempo existem coisas que aparecerão na nossa vida ou sumirão dela com tanta explicação quando o gato de Cheshire de Alice. Doroty chega a Oz num tornado, levada como uma pena, como diria John Mayer, e volta batendo os calcanhares de seus sapatinhos vermelhos três vezes. Lá ela procura algumas estradas. Sabemos qual ela tomou, mas e os tijolos vermelhos? Para onde vão? E o que teria acontecido caso suas escolhas fossem outras? Teria ela tido o mesmo resultado? E Alice? E se ela não tivesse seguido o coelho? E a Alice de Tim Burton, que duvida tanto de sua própria identidade? E se ela não tivesse lutado contra o jaguadarte?

Essa semana completo meus vinte e oito verões. Há dez verões atrás eu tinha minha vida tão resolvida. Era tão dona do meu nariz. Tinha tantas certezas. E aí meu tornado chegou. Caí em Oz, segui os tijolos amarelos, tive que pôr em prática todos os conhecimentos do meu querido Mágico para conseguir driblar as tragédias da vida, vencer as bruxas verdes, e com muito disfarce continuar livre e viva para segui o coelho, e cair no País das Maravilhas. Lá questionei minha verdadeira identidade várias vezes, e mais uma vez enfrentei minhas batalhas. Eu não preciso mais bater os calcanhares ou aporrinhar Absolem por uma resposta, pois já sei que voltar para casa não significa mais nada. Minha casa é onde estou. Seja lá onde isso for. E como for. Eu sou minha casa. Eu sou Alice, e já passei por Oz, pelo País das Maravilhas e por muitas outras terras fantásticas.

Hoje sou Sofia, e estou aprendendo que às vezes a vida traz novas lições quando menos espero. Hoje sou um pouquinho personagem de Austin ou Bronte, pois estou tendo o gostinho do que significa ter que esperar respostas do destino, acontecimentos da vida, para descobrir quais caminhos se abrirão e quais fecharão. Se é que algum se abrirá ou fechará. Continuo fazendo o que sei fazer de melhor, como diria Skank (vocês não acharam que escapariam, né?) eu abro a porta, eu grito, eu berro, eu enfrento, eu vou de charrete ou caminhão, eu vou a pé, mas eu vou! Para onde? Para onde a vida me levar! Qual a cor dos tijolos eu não sei. Também não sei onde eles vão dar. Mas hoje, eu Sofia, já não tenho as certezas dos dezoito. Eu recebo as incertezas dos vinte e oito de braços abertos. Sabendo que preciso continuar tomando decisões, e lutando minhas batalhas. Mas só. O que brotará no meu caminho, a vida dirá.

Hoje sou Sofia sem precisar ser personagem real ou imaginária. Hoje sou Sofia não porque eu mesma me transformo lentamente em palavras. Hoje sou Sofia porque aceitei que Deus banca o escritor. E enquanto esse Show de Truman continua, a única coisa que aprendi a controlar foi a trilha sonora! Boa musica a todos! Que os passarinhos tragam boas novas! Que a ansiedade por resultados, sejam o das eleições, o das provas, o das minhas ações, seja amenizada pela certeza de que sou Sofia, personagem, vivendo uma história, às vezes cômica, às vezes triste, às vezes romântica, e sempre de muita aventura. Ainda não sei para onde, mas sei que eu vou, e a felicidade não será clandestina!

Borboletas e o Tempo

A menina era Alice nessa noite. Tinha sido levada mais uma vez por Absolem para uma terra de elefantes velhos, e seus cemitérios. E aqueles grandes notáveis a tinham feito pensar muito. Pensar sobre a vida, sobre as marcas do tempo, sobre as imperfeições do mundo. Mas hoje a menina não estava conseguindo se concentrar nos diários que as viagens com Absolem requeriam. A menina, apesar de muito Alice nessa noite, era também Jurema. Jurema estava cada dia menos dissociável das demais meninas, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e tantas outras.

A menina estava em outra toca. Havia a toca de Absolem, mas havia outras, em outras paragens, e a menina, Alice que era, vivia se perdendo naqueles túneis fantásticos da vida surreal que vivia, tão real. Sua mente divagava sobre uma queda não muito distante. Naquela outra noite Alice havia caído num túnel sonoro e acordado num belo jardim. Riu da coincidência e lembrando-se que, sendo Alice, era muito curioso e conveniente acordar num belo jardim, mesmo que daquela vez não fosse Absolem que a tivesse transportado.

Esse jardim era belo, simples. Um pequeno lago na parte baixa. Num primeiro olhar parecia ser um lugar com poucos detalhes. Minimalista até, embora enorme. Aos poucos, conforme a luz do sol ia aquecendo seu corpo, despertando suas pernas, acordando sua mente, a menina Alice começou a achar os tesouros daquele jardim. Primeiro foram as corujas, duas pequenas amigas arregaladas e pintadinhas, que a olhavam da grama, vigiando seus próprios buracos. Mais tarde a menina foi sendo guiada, e descobriu as galinhas e galos, e perus. Descobriu os coelhos, de várias cores. As laranjas no pé. A lama, a grama e o sol.

E sua mente foi ainda para outro momento. Outro dia, outro sol. Num momento ainda mais surreal, embora o surrealismo estivesse competindo duramente com a realidade na sua vida de Alice. Entre telhados surreais de fato, conversando sobre o mundo, a menina lhe disse “Sabe, o problema é que tenho medo de borboletas!”, ao que ele lhe olhou chocado, como costumava acontecer e disse “Como? Elabore, por favor!”. Elaborar? Bom, isso era um pouco menos usual que o choque. A menina pensou muito, as palavras lhe escapavam, momentos de pouco domínio sobre essas danadinhas que lhe enganavam, torcendo a língua antes de lhe escaparem por entre os dentes. No papel, elas ficam presas, eternas nessa transferência entre mundos. Na boca, elas se perdem no ar, e voam longe. Mais perigosas do que borboletas.

“Tenho medo de borboletas. Simples assim. Sei que não é racional. Simplesmente fico aterrorizada na presença de borboletas. Admito que são muito bonitas, e delicadas. Mas prefiro que fiquem lá, longe de mim.” E ele lhe respondeu: “Mas borboletas não apresentam perigo nenhum! Não vão te machucar, não vão te fazer nenhum mal. Porque isso?”. A menina respirou fundo. Era tão difícil explicar. “Não é um medo normal. Como algumas pessoas tem medo de feras. Eu enfrento o que for. Bestas feras, monstros mitológicos, ratos e baratas, cobras e onças. Mas borboletas não!”. Ele tentava entender. Não era uma insistência baseada na irritação. Parecia querer que a menina pensasse mais sobre aquilo. “Entendo ter medo de leões, ou tubarões. Tenho pânico de tubarões. Mas de borboletas”. “Acho que é isso.”, Ela respondeu. “Não é medo. É pânico. Irracional. São aqueles bichinhos nojentos. Às vezes até fascinantes, pelas cores. Mas perigosos, venenosos. Queimam, machucam. São pequenos e fascinantes, mas fazem mal. E vivem para comer, até que se transformam. Criam asas, e saem por ai, se espalhando.”

A menina já estava arrepiada. Ele lhe olhava como se visse algo curioso. Continuou: “Mas é isso, se transformam. Não há nada mais incrível que a transformação. E depois que ela acontece, já não apresentam risco nenhum. Voam por ai, sim. Mas apenas para polinizar. Espalhar cor, alegria, vida, boa sorte. Nada mais. Não há o que temer.” A menina pensava. Ele tinha razão, é claro. Mas como explicar o pânico? O pânico é irracional. Não há explicação. Só a paralisação do medo. A inutilidade. A inação. A falta. O vazio.

A menina Alice estava no jardim. Observava a grama, a lama e o sol. Ele lhe disse: “Olha! Uma borboleta!”, e olhou sua reação. A menina já havia visto a borboleta de esguelha. Seu olhar captado pelo leve movimento. As vibrações daquelas pequenas e levíssimas asas. Ficou imóvel. Ele prosseguiu: “Parece ser uma daquelas borboletas curiosíssimas, que tem um número na asa. É o número 8, não?”, o tom era entusiasmado, mas ela sentia a leve tensão no ar. E, apesar de imóvel, continuava olhando a borboleta. Era muito pequena, muito mesmo. Não havia qualquer razão para teme-la. Mas, de novo, não era uma questão racional essa.

Ele, com um leve sorriso no rosto, continuou falando: “São raras essas? Não sei. Mas nunca vi uma antes? Você já? É mesmo uma daquelas com o número? Você consegue ver o número? Não dá para ter certeza sem ver, dá?” E o olhar da menina acompanhava o bater daquelas asas. Ela tinha quase certeza de que era a borboleta do número nas asas. Mas de fato, não dava para ter absoluta certeza sem ver.  A borboleta pousou numa folha há cerca de um metro, talvez até menos da menina. Sua respiração era controlada, e os movimentos precisos. Sem tirar os olhos da borboleta, ela ajoelhou.

Ele perguntou de novo: “E aí? Viu o número? É mesmo uma daquelas?” e ela respondeu: “Parece que sim, mas não dá para ver o número daqui. Mesmo de óculos, precisaria chegar mais perto para ter certeza.” Ele riu baixinho: “ Tá com medo?”, e a menina Alice, controlando a ironia, o pânico, que já não sentia na forma de pânico, talvez um leve desconforto, respondeu: “Bom, eu não fugi ainda né! Talvez não consiga chegar tão perto assim agora, mas to aqui, paradinha.”. Ele ajoelhou também e disse: “É um bom começo. E olha só, ela pousou. Talvez assim te dê um tempo para ver melhor. Talvez até para ver de mais perto, e ter certeza se é ou não aquela borboleta rara”, levantou e saiu.

Na noite de hoje, entre elefantes, a menina não se lembrava mais quem tinha voado primeiro, ela ou a borboleta. Mas sabia que não tinha fugido. E talvez, com o tempo, aprendesse a ver as imperfeições, as marcas, os números nas asas, as rugas dos elefantes. Talvez.

Alice no País de Gaudí

A menina acordou. Estava no avião. Seus olhos pesavam depois da noite insone. O cochilo rápido do primeiro voo só serviu para deixa-la ainda mais cansada e confusa. Perdida entre realidades. Em outros dias ela tinha sido a menina do caderninho vermelho, aquele que ganhara logo antes de ganhar também aquela outra viagem. Daquela vez se sentia como uma outra menina de capa vermelha, gorro vermelho, em missão, cumprindo obrigação e à espreita do lobo, mau ou não. Abriu a bolsa e tirou o caderninho. Dessa vez ele não era vermelho, era colorido, multicor. Na frente havia um desenho desconstruído de uma menina loira, uma pena de pássaro azul nos cabelos, um bico amarrado ao rosto. Aquele caderno não era ganhado, mas escolhido pela menina. Aquela viagem não era ganhada, era escolhida pela menina. A primeira vez que Alice vai ao País das Maravilhas é ao acaso, por assim se dizer. Mas depois não. Depois é porque quer. Porque precisa se reencontrar. Enfrentar suas guerras, e ganhar. Dessa vez a menina era Alice por escolha.

A menina sentou no sofá e ajeitou os cabelos molhados sobre o ombro esquerdo. Olhava a TV, era o penúltimo jogo da copa do mundo. Já não se importava com o resultado, não faria diferença alguma aquele placar da partida pelo terceiro lugar. Apesar de uma certa exaltação por parte dos telespectadores mais assíduos, a conversa começou. O que ela pensava? Difícil dizer assim, simplesmente em palavras. Sua mente se dividia em várias dela mesma. Uma queria acompanhar o placar, outra queria fazer amigos, uma terceira lutava contra o sono, e aquela, aquela desconfiada lá do fundo, se percebia Alice no país de Gaudí.

Perdida, maravilhada, desconcertada entre o sonho e a realidade. Que lugar era aquele, onde os próprios prédios da cidade pareciam acompanhar a dissolução de cores e formas de sua mente fértil? Incrível perceber que outros podiam compartilhar daquela loucura lúdica, disforme, surrealista, sutil e florida, de seu eu mais profundo. Se para a menina sempre foi difícil distinguir entre sonho e realidade, nessa cidade isso tornara-se impossível. Só umas duas bolhas na sola do pé, com aquela dor leve e constante, quase imperceptível, para mantê-la com os pés no chão.

Alice havia tomado conta. E ela passava pelas portas minúsculas e era também gigante, sem ao menos precisar comer ou beber nada mágico. Gol. Olhou o placar e percebeu o quão distante dalí estava. Talvez estivesse com Dalí e seus bigodes. Aquele era um pequeno mundo de bigodes, afinal de contas. A conversa continuava. Aos pouquinhos algumas palavras foram trazendo a menina à superfície e deixando Alice e Dalí no fundo de sua mente. Algumas daquelas palavras soavam mais claramente do que outras e ela ia utilizando-as para se recompor.

Saiu e voltou a sala dos bigodes quase sem perceber. A TV desligada, o jogo findo, nada importante. Era esse o jogo de ontem ou o de hoje? A Copa acabou? Parecia que sim. O placar não era importante, e nem mesmo o vencedor. As palavras que ressoavam eram a respeito da comida, da pizza, e de se essa era de queijo ou se tinha presunto. A menina não comia presunto, e, dessa vez, não era a única ali. Os dias se mesclavam, o ontem, o hoje e o amanhã. O real e o irreal. Fantasia, imaginação e realidade. Em parte porque a menina estava vivendo o sonho, em parte porque o sonho era real, e sempre porque ela era também Alice.

Os fogos de artifício eram de hoje ou de ontem? A praia tinha areia fria, mas o ar era quente. A cidade cheirava a férias. Havia uma alegria e uma leveza no ar que manteriam seus lábios com as quinas elevadas pelos próximos dias, assim como tinham feitos nos anteriores. Ela era feliz. Ponto. Era feliz sem precisar de um porquê. O mundo era seu, e ela finalmente reclamava seu pedaço com passos certeiros por rotas incertas. Percorria caminhos conhecidos pela primeira vez e se sentia em casa longe dela. Talvez estivessem certos, e ela fosse nômade e sua casa fosse onde seu coração está. Sempre eles. Sempre sua música. A noite, a praia, os rostos desconhecidos, exalando amizade e receptividade. E em sua mente as conversas, as trilhas, os mapas, os rumos, as possibilidades. Quanto mais longe ela ia, mais queria ir. Perder-se nas maravilhas daquele e de outros países. Como voltar? Não fisicamente, mas mentalmente? Talvez nem Absolem tivesse resposta dessa vez.

Acordou e foi tomar café, de pijama ainda, apesar da coletividade local. Conversaram de novo. Sempre um livro em mãos, como um farol a lhe guiar. Era raro não serem as suas mãos e seus olhos os que se ocupavam dos livros. Era tão raro, que eram os únicos, entre tecnologias e bigodes. Era seu último dia ali. A conversa fluía como nos dias anteriores. Melhor até. Cada vez melhor. Hoje ela iria a praia. Não como à noite. Entraria nas águas mediterrâneas e saborearia mais essa felicidade. Tinha a trilha sonora pronta. Saíra de casa com esse momento ensaiado. Mas a vida é sempre mais surreal do que a ficção. E apesar de saber disso, sempre se surpreendia.

Já trocada foi rumo ao mar. Mas não foi sozinha, como havia antecipado. Tinha companhia. E as ruas pareciam diminutas. Os minutos eternos. O sol ainda não brilhava. Talvez chovesse. Esse pensamento pingava em sua mente como uma torneira mal fechada, mas sem diminuir seu ânimo, apenas como um lembrete constante. Sentou-se na areia. Sentiu o sol. Já estava com calor após a caminhada. A menina olhou o mar, e perguntou-se, mais uma vez, se era verdade. Se ela era de verdade. Talvez fosse apenas um sonho da mente de alguma outra menina, pronta para dissipar-se com um acordar alheio.

O mar não estava frio e era pouco salgado. Era mar e não oceano. Era a primeira vez que ela entrava num mar não-oceânico. Apesar de ser filha do interior e da terra vermelha, a menina era também um pouco peixe, sempre pronta a testar as águas, embora fosse mesmo pássaro. Continuavam conversando. Quem era aquela pessoa? Seria um chapeleiro maluco? Seria O Chapeleiro Maluco? Ou seria o gato, que some deixando apenas a sombra do sorriso iluminado no escuro? Ouviu as gaivotas e lembrou-se que isso não era importante. Apenas que tinha uma companhia para disfrutar.

Sentou-se na areia, e apesar da brisa leve, deixou o sol secar a pele molhada. As gaivotas captavam seu olhar a cada voo, a cada mergulho. E isso não significava que a conversa não estivesse boa, muito pelo contrário, era uma das mais interessantes dos últimos tempos, a menina-pássaro apenas não podia resistir àquele espetáculo gratuito servido como um banquete, combinação perfeita de imagem, som, gosto, temperatura e tato. E lembrou-se então de ouvir a música que era um dos motivos por estar naquelas areias naquele momento.

Dividiu o fone. Era estranho ter companhia. Era reconfortante ter companhia. Era quase como se ela fosse um alien por ter companhia. Era aquilo real? A realidade é definitivamente mais estranha do que a ficção. Mais caminhadas. Era especialmente raro ter companhia para suas andanças. A menina era acostumada às reclamações que iam de indiretas a significativos nãos na cara ou até mesmo a indiferença quando o convite eram suas caminhadas ou pedaladas. Gostava de ir por ai sem hora para voltar e essa visão não é muito popular.

Subir aquele moro não era sacrifício algum, cada passo uma recompensa. A beleza do lugar maravilhava a menina a cada passo, mesmo já tendo estado ali duas vezes. A menina gostava de andar sem rumo porque o caminho é tão importante, ou mais do que o destino. Alice sabe disso. Alice se descobre Alice não quando chega o final do filme, do livro, da batalha. Mas em cada passo, em cada diálogo, em cada minuto de país das maravilhas. E cada pedacinho daquele dia era uma maravilha digna das sete.

O corpo secava e molhava, entre mar, sal, chuveiro, suor, andanças, ladeiras, piscina e sol.  E o protetor solar. Sim, para a menina era sempre muito importante lembrar do protetor solar. Ela só não sabia que em seu dia de Alice no país de Gaudí até o protetor serviria para tornar a realidade mais fantasiosa que a ficção. A menina começava a perceber que talvez e só talvez aquele fosse seu dia de protagonista. Apesar de ser muitas vezes Alice, nunca se considerou protagonista fora do papel. Era protagonista quando era Sofia. Quando se metamorfoseava em palavras. Mas fora das palavras, não era Sofia, não era Alice, era apenas a menina. Muitas vezes sem nome.

Em seu dia de protagonista, a menina Alice, que naquele momento estava longe de ser Sofia, muito mais viva na realidade fantasiosa do que no papel, serviu-se de um banquete e comeu como uma rainha, vermelha ou branca, até hoje não se sabe. E ao voltar a sala dos bigodes saia das folhas de papel como nunca, penetrando a realidade com força. A menina contemplou sua possível imagem, de bico e pena azul na cabeça, e pousou o lápis. Estava no avião e sua cabeça girava. Seria o sono? Esse seguramente a atormentava. Mas o lápis tornava-a Sofia de novo, empurrando-a para o papel. Confundindo novamente realidade e ficção. A aeromoça avisou que em breve serviriam o jantar. Ou seria o almoço? Entre fusos, falta de sono e muita irrealidade, nada mais parecia ter sentido prático.

Da sala dos bigodes a menina saiu em nova caminhada, de novo acompanhada. Mais que mania de companhia era essa agora? Onde estava a eremita? Andarilha solitária? Ao contemplar o papel, uma nova música, uma velha música, sempre com novos sentidos veio-lhe a mente. E de dentro daquele avião, entre lápis, papel, música e memória, a menina reviveu suas últimas vinte e quatro horas. Às vezes tinha certeza de que estava sendo filmada, como no Show de Truman e questionava com mais veemência a realidade e a fantasia. Talvez por ter a imaginação muito fértil, talvez por ser muito Alice ou muito Sofia, em seu mundo particular, em seu país de maravilhas, a menina tinha muita dificuldade em acreditar na realidade. Era mais fácil acreditar na fantasia.

Como convencer aquela menina, aquela Alice, aquela Sofia, aquela Clarice, aquela Adriana, que castelos e luas cheias, gaivotas e mar, fontes mágicas, prédios tortos e música sincronizada são reais? Impossível! E assim, apesar da pele ardida de sol, dos gostos ainda na boca, dos ouvidos ainda cheios de música, e com os lábios murmurando aquela música, a menina dormiu. Por horas e horas ela dormiu, até regressar a sua casa, a sua realidade. Para sempre perguntando-se se a realidade foi ficção, ou se a ficção pode ser real.

Lembrando-se da sala dos bigodes, a menina se perguntava se foi ela que entrou ali primeiro, sem sequer pedir a menor licença? Ali era todo aquele lugar e lugar nenhum. Ali, era apenas ali, ou era o mundo todo? Ali era a sala dos bigodes ou aquela cidade fantasiosa? Não se sabe, mas nos sonhos da menina naquele avião, permearam tardes há muito sonhadas. E a andarilha solitária lembrou de muitos e muitos anos trás, quando andando sozinha, entre a casa da sua avó e a da sua prima, cantarolava aquela música, na época recém lançada. Na época sem sentido, e se perguntando se algum dia cantaria algumas daquelas palavras por si. Menina Alice perdeu-se e reencontrou-se no País de Gaudí.

O Dia do Amor

A menina colocou a mão dentro da bolsa enquanto dirigia. Olhos na pista, uma mão no volante e a outra remexendo os bolsos internos. O ar de sua cidade já começava a ressecar e os lábios da menina pediam arrego, pediam umidade, pediam silêncio e sossego. Naquele breve momento de trânsito entre sua casa e o trabalho, numa manhã qualquer, isso significa achar o hidratante labial. Aquele pequeno objeto com formato de batom, um pequeno cilindro de plástico branco com a tampa levemente abaulada, como o topo da cabeça de um elefante asiático.

Porque a comparação com o elefante? Algo tão pequeno como aquele batom, e a menina pensando em elefantes. Em sua mente veio a imagem perfeita. O livro pequeno, quadrado, capa grossa em papel brilhante branco. Lateral de espiral, como um caderno, recoberta pela grossa capa branca. Dentro a maravilha das maravilhas, algumas páginas era transparências com desenhos pintados, que quando viradas revelavam mistérios incríveis. Era pequeno, mas um dos livros mais divertidos que a menina teve na infância. Não era um livro de estórias. Continha fatos científicos, curiosidades sobre a vida natural. Seu título? Elefantes! Não eram sequer os animais preferidos da menina. Mas aquelas páginas transparentes, que contavam, escondiam e revelavam, para sempre conquistaram a menina.

Enquanto esses pensamentos iam e vinham de sua mente a mão continuava a circular dentro da bolsa, procurando o fatídico protetor labial. Um ato tão comum, tão feminino, parte de seu cotidiano, a eterna procura das mulheres por itens sumidos no infinito do fundo de suas bolsas. Toda mulher é Mary Poppins quando se trata de achar coisas em suas bolsas. Um carro freou em sua frente. Seus olhos se focaram no presente enquanto os pés rapidamente mudavam de pedais e a mão sobressalente saía rapidamente da bolsa para a marcha, numa troca rápida de papéis entre Poppins e piloto.

Nada acontecera. Parara o carro com distancia suficiente do próximo. Mas parar naquela via? Uma via expressa? Não fazia sentido! Aproveitando o momento ilógico, a menina, já com o carro parado no engarrafamento esdrúxulo da via expressa, olha para dentro da bolsa e vê logo em sua cara o tal protetor labial. Mas que loucura é essa que quando não consegue olhar não acha logo, e quando já não precisa mais de malabarismos, lá está?! Enfim, ela pega o batom, aproveita a inércia, baixa a pala de sol, abre o espelho, passa o protetor e os lábios muito lhe agradecem. Parece até que bebeu água. Hum, água. Numa velocidade que não ultrapassa os dez por hora ela aproveita e bebe água, ajeita o cabelo, limpa os óculos. Guarda tudo na bolsa novamente.

O transito volta a andar antes que a menina conseguisse devolver todos os itens para a bolsa. Justamente o protetor labial ficou em seu colo. Com uma mão no volante, a outra volta para a bolsa, com o batom na mão, tentando encaixa-lo no bolso interno. E nesse momento seus dedos esbarram num pequeno coração. O batom fica no bolsinho, a mão não volta vazia. Volta com um pequeno pedaço de papel de caderno entre os dedos. Ela sorri. Tinha se esquecido completamente daquele bilhete. Sua mente fez contas velozes. Deveria estar ali há exatamente um ano. Nossa, que horror! Não esvaziara aquela bolsa de dia a dia em todo esse tempo? Fez uma nota mental para trocar de bolsa assim que entrasse de férias, uma semana depois, e lavar aquela urgentemente.

O transito andava e o pequeno bilhete continuava em seus dedos. Assim que estacionou, guardou-o sem aquela brincadeira ligeiramente perigosa de caçar dentro de sua bolsa com uma mão só.

Antes disso, entretanto, sua mente divagou. Não precisava abrir o bilhete para saber seu conteúdo. Um papel de caderno, letras batidas pelo ferro da máquina de escrever em fita, um pequeno coração cor de rosa, ligeiramente alongado, fechando. Dentro um poema de internet, adicionado de seu primeiro e quase desconhecido apelido, dado por uma antiga amiga de sua mãe. Não, aquele não era um bilhete de amor. Não havia nenhum relacionamento entre aquele que o entregou e a menina. Na verdade aquele bilhete possuía outras duas cópias. O mesmo papel de caderno cortado em tamanho pequeno, a mesma letra batida à máquina, o mesmo coração alongado no fecho. Os poemas variavam de acordo com a garota que o recebeu.

Foram todos escritos a quatro mãos. De um garoto e sua irmã. Entre aquelas três amigas que incluíam a menina, o amigo e a irmã, nada de amor. Uma brincadeira. Um dia dos namorados passado entre solteiros, um mimo entre amigos. Uma gentileza. Sim, gentileza gera gentileza. Pequenos gestos. Gestos de amizade. Gestos de amor? Sim. Aquele não era o único. A vida da menina estava polvilhada de muito amor. Muitos amigos queridos. Muitos familiares amados. Entre homens e mulheres, de todas as idades, com diferentes tipos de relação, em diferentes ambientes, havia entre todos, muito amor. Havia muito amor da vida da menina. Como dizer que não havia amor ali. Sim, havia muito amor.

A menina sempre foi muito cética em relação ao amor. Esse amor, tradicionalmente chamado de amor homem-mulher. Como chamar esse amor hoje em dia? Como explicar os diferentes tipos de amor? Explicar para quê? A menina viveu um relacionamento bonito, e que lhe ensinou muito. E que acabou. E o tempo passou. E nesse período em que a menina é solteira, ela amou muito, e tem sido mais amada ainda. Como lidar com esse sentimento? Amor sempre foi algo inusitado para a menina.

Bilhete na bolsa, ela tranca o carro, guarda a chave, e vai em direção às escadas da escola. Anda pelos corredores, em direção a sua sala. No caminho uma fila de crianças de cerca de quatro ou cinco anos. Estão saindo de outras atividades, balé, judô. Alguns na fila são seus alunos. Mas a aula com a menina é no outro dia. Ainda assim, uma menininha de tchutchu rosa sai da fila, corre a abraça as pernas da menina, local que alcança, enquanto fala “Oi, teacher”! A pequena criatura rosa ganha da menina um beijo nos cabelos. E enquanto ela equilibra seus livros, materiais, bolsa, chave do carro, garrafa de água, para que tudo não despenque, eis que recebe outro aperto na região da barriga dessa vez, alguns passos à frente no corredor. A mudança de altura do abraço indica a variação de idade da criança em questão. Dessa vez é uma que terá aula naquele dia. Veio correndo, ajuda a menina, nesse momento professora, a abrir a porta da sala. Está animada e com um sorriso nos lábios. Puxa um papel meio amassado de dentro do quimono suado e entrega à menina com entusiasmo, “fiz esse desenho pra você, teacher”!

A menina recolhe o papel com mais um beijo entre cabelos suados, e põe todo seu material sobre a mesa. Só então desamassa o papel, e se depara com um sonoro “I love you”, com direito a coração no lugar do love, seguido de um ticher, com erro de grafia. Um sorriso de canto de boca, daqueles ligeiramente tortos brota no rosto da menina. Emoção pelo carinho gratuito, graça no erro cometido, e acima de tudo amor. O papel volta ao seu amassado já cativo, e a menina o coloca na bolsa. E segue com sua vida. Seu dia de trabalho. Agora, polvilhado de mais amor. Amor amigo, amor infantil, amor que nem sempre é amor. Gentileza.

A menina não gosta de dirigir no lusco-fusco do anoitecer. Mas aguarda pacientemente na porta da escola. Já são seis, logo eles estarão no carro. Ouve uma música para aquietar a mente. Abre os olhos com uma leve batida na janela. Destranca o carro por dentro e entram aqueles dois seres humanos tão seus. O menino mal se acomodou no banco, e a menina já está ganhando um beijo na bochecha daquela outra menina linda, de cabelos negros e olhos de ressaca, olhos de Capitu. Ao se desvencilhar do beijo a menina anuncia “vamos fazer um yakissoba de jantar”?! É uma pergunta e uma afirmação. Seu sobrinho abre um sorriso genuíno, “Vamos”!

A menina sai do banho, coloca o pijama. Olha pela janela. Não está em casa. Está na casa de sua cunhada, sua irmã. Está cuidando dos sobrinhos aqueles dias. Os pais viajaram em diferentes errandas. Ela olha as luzes da quadra e posiciona o travesseiro de forma que durma melhor. Ainda não deitou. Está se ambientando num quarto que não é seu. Ouve uma leve batida na porta seguida de um “tia…”. E encara aqueles olhos de Capitu, que seguram uma escova de cabelo entre as mãos. De pijama e cabelos molhados a menina senta de costas para a menina. Sem palavras. Só gestos e carinho, e ela desembaraça os cabelos negros, grossos e lindos daquela pequena. Depois leva-a até sua cama e com beijo na testa diz “Durma com os anjos, sonhe comigo e não caia da cama”! Ganha um sorriso de volta, e no escuro, enquanto espera o sono vir, a menina recebe as lágrimas nos olhos. Aquelas foram as palavras que ouviu todos os dias por vinte e cinco anos antes de dormir, vindas na voz de mel de sua mãe. Não às ouvia a pouco mais de dois anos. O futuro daquelas palavras reencontrava existência agora. Seriam repetidas pela menina para outras pequenas meninas. Gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Mais amor, por favor.

Outro dia de trabalho. A menina abre o armário, para colocar sua bolsa e pegar as provas que aplicará naquela tarde. Um chocolate a olha de volta. Pela marca e alto teor de cacau a menina já sabe quem o depositou ali. Uma amiga de trabalho. Gentileza gera gentileza. Amor. Saboreou o doce daquele amor de cacau, assim como sentiu o amor em cada fio de cabelo negro e no beijo de boa noite. O amor tinha gosto de shoyo naquele sorriso de seu jovem cozinheiro. O amor era brega e sutil naquele adesivo de coração alongado no papel de caderno. O amor era inocente e gratuito naqueles abraços nas pernas e barriga pelos corredores da escola. O amor era perfeito nos erros de grafia. O amor polvilhava a vida da menina. Todos os dias, em todas as coisas. O amor é tão mais do que se canta em verso e prosa.

Agora e menina sabia, que aqueles anos órfã, aqueles anos solteira, aqueles anos sozinha de várias formas, eram, dia a dia, cheios, muito cheios de amor. É o amor dos outros. É o amor do sol que nasce a cada dia. É o amor de cada xícara de chá que ela preparava com muito amor, para tomar enquanto divagava olhando a lua pela janela antes de dormir. É o amor que vinha em cada gota de chá que ela tomava, e em cada palavra que brotava de seus dedos. O chá entrava e as palavras saiam, noite a fora. Noite a dentro. Amanhã é dia dos namorados. Amanhã é dia de jogo de futebol. Amanhã muitas pessoas celebrarão o amor à sua maneira. E muitas outras chorarão ou tornar-se-ão amargas pela falta dele.

Não falta amor no mundo! Não falta amor na vida! Gentileza gera gentileza. Amor. Mais amor, por favor. Por si! Pelos outros. Pelo amor que há no mundo. E assim, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e todas as outras olharam para a menina de dentro para fora. E a menina se viu tão bem acompanhada. Por todos os seus livros, todos os seus chás, todos os seus amores. E agradeceu! E a cada vez que ela agradecia, o amor crescia, fruía, fluía. Que o amor seja a dois, a três, a todos, a um só. Que o amor seja verde e amarelo, ou rosa, ou vermelho, ou azul. Mas que seja verdadeiro. Puro. E que, antes de mais nada, seja amor. E assim, a menina, já em sua cama, findo mais um dia de trabalho, fechou o computador. Aquietou os dedos e as palavras que nasciam dele, e desejou a si e ao mundo, mais amor.