Sobre querer abraçar o mundo com as pernas (mais uma vez)

Bebo água. Hoje não está tão frio, apesar de estar de calça, a camiseta é de mangas curtas e os pés no chinelo dispensaram as meias. Onde estão meus muitos shorts? Em Brasília nunca fiquei em casa estudando, lendo, trabalhando, cozinhando, de calças. Sempre short. Até no inverno. Inverno de frio leve à noite. Inverno de short e suéter. Setembro. Setembro nunca fez frio. É a época da seca desesperadora. Do calor seco que me fazia dançar a dança da chuva. De noites insones, banhos na madrugada, fins de semana no lago.

Lavei roupa, mas não consegui pendurar direito, pois as meias que estão no varal a três dias ainda não secaram. Choveu muito e fez muito frio nos últimos dias. Fiquei em casa, entre a T.V., o computador, o videogame, os amigos, os livros, os estudos, e as canecas de chá. Setembro frio e úmido. Semana da Pátria. Folga inesperada. Novidades sem fim. Em outubro lamentarei a falta da Semana do Saco Cheio. Cada cidade, suas folgas.

Na tela do notebook dois documentos do word superpostos, cinco pdfs, chrome com 6 abas abertas: email, facebook, email usp, plataforma online de materiais das disciplinas, google maps, decolar.com. A falta dos amigos, de saber notícias da cidade não me deixa deletar o facebook, nem deixar de abri-lo o tempo todo. A falta de tempo para estudar não me deixa ir vê-los. Três viagens sendo planejadas. Será que vai dar tempo de fazer todas? Será que vão caber no orçamento? Será que a bolsa vai sair?

Um dia pensei que os adultos tinham todas as respostas. Um dia pensei que mesmo que os adultos não as tivessem eu as teria. Passei os primeiros anos da minha vida adulta trabalhando e estudando como uma louca. Chorava de sono. Chorava pelas perdas. Nunca pelas incertezas. Eu sempre soube que ‘daria certo’. A vida vira de cabeça pra baixo. Quando tudo parecia que finalmente estava ‘dando certo’, cai na toca do coelho. Não quis mais. Não quero ser desses adultos que sabem tudo e ‘deram certo’. Não quero que minha vida seja sinônimo do meu trabalho ou mesmo da profissão.

Persigo já faz uns três anos o caminho dos loucos. Das Alices que caem em tocas de coelho. Das metamorfoses ambulantes. Dos Dom Quixotes que enfrentam moinhos urbanos. Das amantes de chocolate que se mudam quando bate o vento certo. E que ficam quando aparece o pirata certo. Que fazem suas próprias cores, seus próprios sabores, redefinem seus destinos. Eu definitivamente prefiro ser essa metamorfose ambulante. E além de não ter as mesmas opiniões formadas sobre tudo, abri mão das certezas e das respostas também. Quero ser feliz. Sou feliz.

Do meu jeito. Às vezes me sinto incrivelmente independente e competente. Aquela que lava, arruma, cozinha, estuda, faz dieta, escreve, disserta, opina, orienta, corrige, prepara aulas, faz traduções, lê cinco livros ao mesmo tempo, se depila, escolhe uma roupa bonita, pega o metrô, o ônibus, anda a pé, pratica a atividade física. Aquela que migra da legging pra camisa social, pra lingerie de renda, pro moletom da universidade com a fluidez de uma dessas supermulheres de anúncios fantasiosos. Sonho feminista.

Em outras sou ainda aquela adolescente, aquela criança, que só queria jogar jogos, dormir na casa da vó com os primos, na casa das amigas com o grupo infalível, andar de bicicleta, tomar um sorvete, comer qualquer coisa, dormir 12h por dia, trocar o dia pela noite, perder tempo, pedir uma pizza, dormir com a blusa do dia e sem as calças, deixar a louça na pia, esquecer que a louça e a pia existem. Perder as horas. Esquecer o relógio. Não abrir o email. Não desejar parabéns a ninguém. Nem falar muito com os outros. Aquela adolescente que ainda cultiva o seu lado egoísta sem culpa. Que faz porque é bom. Que se prioriza. Seus desejos. Sonho niilista.

Em outras horas bate o wonderlust. A vontade de fazer todas as mil viagens que já planejei. A vontade de não ter horários nem obrigações. Vender tudo, arrombar a poupança e sair por aí. Veja bem, muitas pessoas conseguem trabalhar loucamente, juntar dinheiro e passar um fim de semana da praia, outro na cachoeira, ir ver a família num feriado, e quem sabe até numas férias mais longas, de quinze ou vinte dias, fazer uma viagem internacional. Eu já fiz e faço todas essas. Mas não é dessas que eu sinto falta. Sinto também. Mas quando bate esse bichinho, o que queria era a loucura. Era ser Walden no mato, ser Supertramp a caminho do Alasca.

Aquelas viagens de quem se resumiu a uma mochila, ou uma kombi, e que não tem dia para acabar. As viagens de quem aboliu o sonho consumista. De quem não quer ter. Quer viver. Uma grande aventura. Aquelas viagens que vão tentar me deixar mais perto da carta de Hogwarts que não veio, quando eu caminhar pelo interior do Reino Unido a pé. Que vão me deixar mais perto Macondo quando eu atravessar a Colômbia no melhor estilo Diários de Motocicleta. Aquela viagem que vai revelar as profecias Incas e os segredos espiritualizados de quem ronda Bolívia e Peru até Machu Picchu. A transiberiana. Berlim-Bagdá. A transamazônica. O roteiro dos Hobbits da Nova Zelândia. O mundo como meu país das maravilhas. Sonho Alice.

E quando bebo mais um gole de água, no meu belo copinho florido. E levanto a cabeça para ver os livros me esperando enquanto continuo os estudos. Quando checo as abas do chrome e me lembro que tenho que começar a selecionar os programas de doutorado que gostaria de aplicar, pois ano que vem será importante já ficar de olho nas datas. E olho os amigos e a família no facebook e me lembro que ainda não planejei o natal desse ano. Quando olho o namorado deitado no sofá em frente, concentrado entre ligações de consultas, livros de estudo e jogos de computador. Percebo que sou mesmo é uma Menina Maluquinha, que quer abraçar o mundo com as pernas. E ser cada dia um pouco desses sonhos. Cada minuto do dia uma dessas mulheres.

E sabe qual a melhor parte? Cada dia encontro mais Maluquinhos por aí. Sofredores desses sonhos de incompletude, de metamorfoses ambulantes. Outros adultos que guardaram suas crianças e adolescentes com tanto carinho que nunca se despedirão delas, e assim seguirão com essa nossa esquizofrenia de ser tantos em um só. De alimentar esses sonhos todos. E enquanto isso sigo assim, estudando depois da faxina, escrevendo antes de jogar videogame, comendo chocolate hoje e vitamina de chia e linhaça amanhã, economizando enquanto espero a bolsa, e planejando a próxima grande viagem. Vivendo essa vida. Essa vida dos novos adultos que não encontraram as respostas certas. Ou talvez ainda não tenham encontrado a pergunta, mas sim algumas respostas. Vamos assim então, de mochila nas costas, livros debaixo do braço, toalha no ombro, em busca da pergunta do nosso 42.  Abraçar o mundo com as pernas.

Eu

Então, essa é a minha última semana nessa casa. Na madrugada da sexta para o sábado que vem, pego a estrada rumo a uma nova etapa, uma nova aventura. A caneca de chá está aqui ao meu lado. Faz um calor desesperador. Janela aberta. Ventiladores de teto ligados. Eles estavam na minha To Do List de 2014, check and done! Colocados no teto! Esse ano cumpri com absolutamente todas as minhas metas pré-estabelecidas e fui além. Estou extremamente satisfeita comigo mesma e com a minha vida.

Bate uma alegria, uma ansiedade, uma vontade de chegar logo na nova fase. Dessa vez, entretanto, não sinto o gosto amargo das despedidas. Primeiro porque dessa vez, pela primeira vez na minha vida, ninguém se foi, seja de uma forma ou de outra. Quem está indo sou eu. E isso faz toda a diferença. Quem fica, quando os outros vão, fica só, fica no mesmo lugar, que precisa ser reinventado para cobrir o vazio. Dessa vez vou rumo ao cheio. E a muitos vazios também. Espero poder preenche-los. Levar comigo minha música, meu cheiro, meus passarinhos, minhas estórias.

Vou porque quero, não porque preciso. Vou porque construí o caminho, a ponte está feita e agora é só cruza-la. Há uma alegria infinita nesse processo. Sei que não existe, na verdade, um chegar lá. Que apenas cruzo para continuar na estrada. E que ela seja longa! E cheia de novidades sempre! Essa ida tem tudo de começo. Estou acostuma a mudanças que são finais. Essa agora é um início. Às vezes penso que é apenas um capítulo novo. Mas na verdade farejo ares de outro volume. Como se algumas mudanças fossem, per si, drásticas demais para estarem contidas naquele mesmo velho livro.

Outro fator que me leva a essa ideia é a natureza dessa mudança. Nada tem gosto de inevitabilidade, tudo tem gosto de escolha própria. Nesse sentido, posso afirmar, que estou me dando o maior luxo da minha vida até hoje. Afinal, é um enorme privilégio poder fazer essas escolhas, ter as condições de realiza-las, e ainda por cima, saber que é tudo por mim, de mim, para mim. Presente de natal, ano novo, de vida. De vida nova. Sempre coloquei as obrigações e as necessidades em primeiro lugar. E elas sempre me exigiram muito. Essa história de livres escolhas baseadas em desejos, sonhos e realizações é uma tremenda novidade.

Não pense, contudo, que essa guinada aconteceu no natal. A primeira mudança, física inclusive, quando vim morar no meu pequeno aposento do alto dessa torre de onde vos escrevo, foi voluntária. Não foi fim, foi o início de um começo, ou o começo de um início. O início do meu começo. Completo agora um ano de meio de dedicação exclusiva à Juliana, à JuReMa, à Ju, à Juju, à tia Juju, à Marra, a todas essas que moram em mim. E, finalmente comecei a alcançar bons resultados, advindos dessa dedicação de corpo, mente e alma, ao meu corpo, minha mente e minha alma. Me sinto lustrada e polida.

Sei que já disse um pouco de tudo isso aqui, e receio cair na repetição e nas mesmices daqueles que se aventuram na linguagem das palavras escritas. Mas preciso tentar eternizar a sensação de plenitude desse momento. O fruto da dedicação voltada ao interior, ao meu Eu. Porque se tem uma coisa que eu aprendi, com toda certeza, até hoje, é que a vida é dinâmica, e está sempre pronta para me jogar de um lado para o outro, sempre! E estou segura de que outras infinitas mudanças virão, e que algumas delas serão inícios, outras finais, e que em algumas poderei tomar decisões efetivas, em outras terei que acompanhar a maré para não afogar.

O que preciso ter como um tesouro, como um sentimento encapsulado e guardado num berloque junto ao peito, é essa sensação de plenitude e satisfação que hoje possuo, sozinha. A certeza de que, assim como hoje eu construí um lar só meu, depois de todas as marés às quais já sobrevivi, posso reconstruí-lo a qualquer tempo, em qualquer lugar. Hoje sei que sou capaz disso. E que sou capaz disso não só hoje, pois esse aprendizado é para a eternidade. Uma vez alcançado, pode até enferrujar com o tempo, se não for lubrificado, mas sempre poderá ser reativado. E pretendo mantê-lo bem oleado.

Que a caneca de chá se mantenha sempre minha fiel companheira. E, independentemente do que o futuro trará, as palavras sempre serão meu consolo, minha vida, minha alma, se fragmentando ao vento, e sendo reconstituída em cada esquina, em cada prato de comida, em cada viagem, em cada livro lido, em cada mensagem trocada com os amigos e familiares, em cada olhar daqueles que me veem, me leem. Nunca estarei sozinha, pois aprendi a me fazer presente na solidão, e a preenche-la, a preencher-me na vida dos outros, a preencher os outros na vida minha.

Sejam as selfies, as fotos, a superexposição do facebook, as mensagens em horários indevidos, os grupos silenciados do whatsapp, as ligações demoradas do Skype, os passeios no parque, as conversas de corredor, os almocinhos, as saídas, as piscinas, as pedaladas na rua, as trilhas no mato, eu sempre me faço presente, sozinha ou acompanhada. Seja Juliana, Ju, Jujuba, JuReMa, tia Juju, tia Juba, Marra, seja quem eu for para os outros, eu me reinvento e estou lá para eles. E eles se tornam presentes para mim!

Por isso, olho a caneca de chá, e digo a ela que se prepare para horas de plástico bolha, pois vamos em mais uma aventura! E, com toda certeza, terei muitas e muitas palavras nas quais me dissolver ao longo dessa nova estrada. Sejam os tijolos amarelos ou vermelhos, passe um coelho apressado em meu caminho e eu decida segui-lo por algum tempo, seja a viagem surreal como o desejo de um gênio da lâmpada, a menina será sempre Alice, pronta para desbravar o País das Maravilhas, e tornar seus medos, amigos. A menina será sempre Sofia, tornando-se palavras enquanto vira realidade. Que venha 2015, e o resto da vida!

Panetone e outras histórias

O panetone era chique, coberto de glacê e gotas de chocolate preto e branco. Massa amanteigada, padaria francesa. As palavras ecoavam na cabeça: “Leva para casa e come com sua família”, e enquanto isso eu ia tirando ele da caixa no trabalho mesmo, cortando e oferecendo aos colegas. Afinal, aquela era, também, minha família, pelo menos nos últimos três anos.

Existem várias formas de alguém passar por esse sentimento. O de estar só. Não digo o da solidão. Nunca fui solitária. É o estar só cotidianamente mesmo. Algumas pessoas já nasceram em famílias pequenas e atribuladas por tarefas, o que sempre as tornou sós. Eu vim de uma família enorme. E ao mesmo tempo fui filha única. Tenho dois irmãos e nunca dividi casa com eles. Ao mesmo tempo, dividia meu castelo encantado cerca de três dos sete dias da semana com outros onze primos reais. A família grande nunca deixou espaço para o estar sozinha dessa forma.

Passei inúmeras manhãs de sol e tardes de chuva só em casa, conversando com passarinhos nas árvores, esperando piratas atracarem no mini píer do fim do jardim, lendo incontáveis livros, jogando jogos de dois mesmo sendo só uma. Mas nunca estava só, não no sentido prático. Sempre tinha comida e gente cozinhando, e alguém para fazer um barulho, por uma música, ver uma TV ao fundo. Um cachorro para latir, vários passarinhos para acompanhar o som do vento.

Um dia isso muda. Às vezes, simplesmente porque as pessoas saem de casa e moram sozinhas. Às vezes porque perdem os pais. Às vezes porque fazem uma viagem, um curso no exterior, um intercâmbio, mudam de cidade, ou qualquer outro motivo que às separe da rotina na qual cresceram. Eu vivenciei todos esses motivos. Aprendi com alguma dificuldade, visto que vim daquele background de doze primos em casa todos os fins de semana, a fazer comida para um. A doar todos os presentes de páscoa, dia dos professores e Natal, quando são comida. Compartilha-los com a família do dia a dia, que são os colegas de trabalho.

Isso também gera a sensação de dominação total do espaço. Hoje, meus vinte e nove metros quadrados não se comparam ao castelo de três andares, piscina e quintal tamanho semi fazenda, indo até a beira do lago no qual cresci. Mas eles são todos meus. Cada milímetro quadrado de espaço é decidido exclusivamente por mim. Decorado, limpo ou sujo, cheio ou vazio, bonito ou feio, meu, e só meu. E quando vim apoderar-me desses poucos metros, tão meus, pude fazer algo até então inédito, que era ser ditadora do meu reino de uma pessoa só. E por isso, curti cada segundo das decisões tomadas à um. Decorei, arrumei e perfumei ao meu gosto, e só meu.

Por que isso, Jurema? Não pergunto o porquê desse cuidado com seus metros, mas o porquê de contar. Bem, respondo-lhe, Jurema, porque ouço de todos os que aqui vem que sou muito organizada. Até a faxineira já me disse mais de uma vez que gosta muito de vir limpar minha kit uma vez na semana, pois ela é a mais organizada do prédio. Agradeço os elogios, aos quais fico um pouco cética, e também um pouco constrangida. Em especial porque não faço questão e nem esforço para que seja assim. É simplesmente o fato de poder cuidar do que é meu, e tornar meus dias mais floridos, mais apassarinhados, mais coloridos e iluminados.

Quando vim dominar meu império de menos de trinta metros quadrados, vim muito fragilizada, muito dolorida. Precisava provar para mim mesma, e consequentemente para o mundo, que era capaz de ser só. E nesse impulso não quis criar para mim um centro de refugiados de uma pessoa só, quis e criei um lar. Hoje sei, e tenho uma confiança enorme em mim mesma, que sou capaz de ter um lar, completo, bonito, arrumado, cheiroso, com comida, roupa lavada, só para mim. E essa certeza, essa confiança me cobriram de toda a proteção que a Jurema fragilizada precisava. Hoje sei que posso rodar o mundo, a pé ou de avião, sozinha ou acompanhada, que, meu lar, eu levo comigo.

Não são pelos vinte e nove metros decorados. É pela certeza de que minha alma vive num lugar florido, colorido, apassarinhado e feliz. Seja lá onde isso for. E que eu não estou solitária nunca, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Às vezes gosto muito de ficar sozinha. Nem conseguiria me abrir em palavras aqui, caso não tivesse esse tempo e esse espaço, onde só existimos eu, meus dedos frenéticos, o teclado do computador e minha caneca de chá. Sim, claro, o chá é o combustível imprescindível para as minhas manhãs de desabafos coletivos, onde despejo sentimentos convertidos em palavras ao vento.

E enquanto ia lendo um pouco do último livro que ganhei, pernas pro ar naquela sala dos professores, à espera de uma grande amiga para um almocinho de sábado, ia assistindo ao panetone de glacê e gotas de chocolate preto e branco ir sendo consumido, pedaço a pedaço por todos aqueles que de alguma forma são, foram, ou ainda serão minha família do dia a dia. Aquele foi meu último dia, pelo menos dessa fase, naquela sala, naquela família. E me dividi em forma de panetone. O mundo é definitivamente redondo e gira.

Em 2012 passei por talvez o pior ano da minha vida. Perdi minha voz de mel para outra dimensão, quebrei a cabeça, literalmente, e reordenei por motivos externos minha vida, pelo menos umas três vezes. Mudei de emprego, quando estava profundamente desiludida com minha capacidade de ser internacionalista. Mudei para a casa dos meus tios, como uma refugiada de sentimentos, que vai para onde a acolhem, saindo de onde já não há mais amor. Perdi o prazo de um edital, tive que adiar o sonho de um mestrado, com um mês de tylenol de seis em seis horas na cabeça quebrada. Vi pela última vez, no último dia desse ano cruel, aquele que foi meu príncipe no cavalo branco, por mais de oito anos.

Fosse eu outra, fosse o roteiro da minha vida menos incrível, fosse o mundo menos humanamente bondoso comigo, e 2013 eu seria uma pessoa extremamente depressiva e descrente da vida. Quiçá viva. Mas eu adormeci num avião e 2013 amanheceu na neve. Se algum dia eu já ganhei um presente que posso dizer que definitivamente me salvou a vida, foi aquele curso e aquela viagem. Por eles, e por tudo o mais, agradeço aos meus quatro cavaleiros reais, minha cavalaria muito mais eficiente que o exército de águias do Hobbit, muito mais invencível que qualquer herói de qualquer filme de realidade fantástica. Meus Reis sabem compor uma vida irreal como ninguém.

E no frio eu me encontrei, e de volta ao calor eu resolvi conquistar meu espaço não mais de refugiada dos sentimentos, mas de dona, plena, rainha deles. E fiz meu reino no alto de uma minúscula torre, onde a felicidade se faz presente todos os dias, só para mim. E fiz amigos novos, e encontrei os velhos várias vezes, e saí, e vi o mundo, viajei, tanto, que em 2014 tive que renovar. Fui obrigada a trocar de bicicleta, de bota de trilha, de mochila de viagem e de casaco impermeável. Mês após mês refiz meu kit de aventuras, porque os antigos já não aguentavam o meu novo ritmo.

E nesse processo eu aprendi a viver da minha própria renovação. Aprendi a conquistar o mundo com um passo depois do outro. Aprendi a compartilhar minhas aventuras com desconhecidos de passagem, e com velhos amigos, fosse através de uma foto, uma rede social, uma conversa de bar, uma saída, uma festa, uma viagem, uma trilha, um banho de piscina. E em 2014 colhi frutos inesperados. Se em 2013, eu semeei todo esse amor em mim mesma, em 2014, dei frutos. Doces e muito melhores do que eu jamais podia esperar. Meu presente de Natal eu venho ganhando dia após dia ao longo desse ano.

Amizades lindas e eternas, pessoas em quem confio profundamente, amigos para toda hora. Aprendizados incríveis, saltos na carreira, títulos novos adquiridos, certificados e diplomas. Muitas ferramentas novas. Muitos livros novos, muitos mundos novos. Países novos, carimbos novos no passaporte. Até a carteira de motorista tive que renovar. E lá se vai a comprovação de que já tenho dez anos de motorista. Com alguns quilos a menos, fui obrigada a renovar o guarda-roupa também. Com a certeza de qual carreira quero perseguir, essa renovação foi bem-vinda, e pude me desfazer de algumas fantasias que sei que não vou precisar usar. Não vou precisar me travestir de alguém que não sou, e conseguirei assim mesmo seguir com minha vida. Outras fantasias, ditas mais convencionais, eu adicionei ao guarda-roupa, feita a mão, diretamente do meu imaginário para a realidade, prima-irmã do blog, onde Sofio-me e Alice me torno.

O mestrado chegou, e um novo amor também. 2015 ainda não chegou, mas já se anunciou em ventos tão bons. Minha casa é onde está meu coração, já dizia Skank, já citei eu mesma tantas vezes aqui. E voo nas asas que criei para mim mesma, que tão lentamente abri, que tão simbolicamente desenhei. O panetone acabou antes que saísse pro almocinho. Minha família de dia a dia tecia comentários eventuais sobre a massa, a manteiga ou o açúcar. Saí sem me despedir. A despedida oficial foi na quinta-feira, alguns dias antes. Não quero o sabor amargo das lágrimas tristes, quero a visão limpa e clara das lagrimas felizes. E o doce do panetone em suas bocas. De 2014 tenho uma coisa a dizer: MUITO OBRIGADA!

Jamais Vu

Eu sempre senti saudades do que nunca vivi. Renato Russo acertou na mosca mais uma vez. Já comentei isso aqui mais de uma vez. Sempre fui nostálgica. Uma distraída super atenta. Daquelas que perde um pedaço grande da conversa, só porque um passarinho bonito passou voando, meus olhos se perderam nos do meu interlocutor, e as palavras passaram como vento. E sem mais nem menos, essas mesmas palavras voltam sozinhas à minha mente durante um banho, ou na hora de dormir, e de repente eu sinto o amor da conversa que perdi, e ligo, ou mando mensagens para expressar o que não pude no momento certo, porque ele passou enquanto eu me perdia nele mesmo.

Ao fitar por horas o lago, de cima da minha árvore, durante toda a adolescência senti uma saudade imensa dos piratas que nunca atracaram no porto do meu jardim. Na infância, senti falta absurda das sereias que não viviam na minha piscina. De livre e espontânea vontade, passei horas infantis dentro do pequeno armário-adega, empoeirado, embaixo da escada dos meus avós, saboreando os medos que não tive do escuro. E dormi dentro das enormes gavetas abertas do closet da minha avó, vestida em suas camisolas de cetim, com seus enormes, hoje tão pequenos, sapatos de salto bege nos meus pés, sonhando com os bailes de gala que nunca presenciei. Passei madrugadas cantando de pijamas velhos e descalça, com minha mãe, fazendo penteados elaborados nos meus cachinhos dourados de criança, de festas de arromba que eram só nossas, e que nunca frequentei.

Hoje em dia minha saudade real do passado, tão cheio de fantasia, se mistura de forma inexorável com minha fértil imaginação, sempre tão alimentada por meus contos de fadas, e tecem na minha vida nada menos que um belo romance de realidade fantástica, aventura e fantasia. E aos fatos que vivi e aos que imaginei se somam aqueles outros que nunca existiram e até hoje não sei se estão no meu futuro ou se são memórias de vidas passadas travestidas de roupas modernas. Entre ficção histórica e realidade fantástica, torno-me Sofia no meu melhor estilo: o do impossível teimando em torna-se realidade sob meus olhos.

A primeira vez que tive certeza da minha nostalgia de futuro foi em 2002. Aquela foi a primeira vez que o conceito de Jamais Vu me acertou em cheio, me tirou do chão. Ali comecei a ser Sofia, enquanto era Alice no País das Black Hills. Acho que dei umas cinco ou seis voltas na trilha ao redor do Sylvan Lake, neve derretida dos picos ao redor. Uma bacia, um caldo de cultivo, onde borbulhavam meus sentimentos, minhas emoções. Ali, eu saí de mim, ali eu comecei a conhecer de forma mais sólida do que apenas na imaginação infantil todas as Juremas que habitam em mim. Ali tive certeza de estar em casa, estando mais longe do que nunca antes.

A familiaridade com a qual eu percorria as ruas de Rapid City. A intimidade criada com os Abrahamsons, conhecendo gente que me conhecia e nem sabíamos. Livros, músicas, jogos de xadrez e artesanato. Pinheiros e trilhas na floresta. Ali achei outros que compartilhavam a parte do imaginário coletivo na qual eu me inseria. Cada bom dia do esquilo na calçada pela manhã, cada pio do tordo e do corvo, do alto da entrada da escola ao nascer do sol, seguidos do barulho nos arbustos que antecedia o bom dia dos Abrahamsons vindos do outro lado, cada leitura sentada nos corredores antes da aula, eram momentos do mais autêntico Jamais Vu. Nunca tinha estado ali. Não conhecia aquelas pessoas. E ali me senti em casa.

A comprovação do meu Jamais Vu veio na despedida. Já no aeroporto depois de um arrebatador momento de Por Enquanto no ônibus, agora vinham os abraços antes do voo. E já passada do portão de embarque, eis que escuto um “Juliana” cheio de sotaque, volto e recebo da Lois a frase de que eu não chorasse, pois obviamente nos veríamos de novo.

Até hoje não os revi. Mas isso não me incomoda mais. Aprendi que existem momentos, cidades, florestas, lugares, passeios, atividades, paisagens e pessoas que são os Jamais Vus da minha vida. Nunca as tinha visto, e com elas me senti em casa. Talvez porque eu tenha um coração nômade, e minha casa esteja onde ele está. Talvez por minha imaginação fértil e ativa, que sempre construiu tantos cenários deliciosos e impossíveis para meu futuro, talvez por lembranças de vidas passadas.

Tem gente que acha que isso é fruto de toda e qualquer viagem. Que só por estar em um ambiente diferente e excitante, tudo se torna mais gostoso. Amo viajar, e sim, novos ambientes tendem a deixar tudo mais excitante e gostoso. Mas não é isso. Já fui a vários lugares e já conheci muita gente. E alguns foram muito legais. Outros nem tanto. Mas muito poucos são Jamais Vu. Já sofri de Jamais Vu na familiaridade do meu quintal, porque uma joaninha em especial me parecia uma velha amiga. E já me senti totalmente deslocada em locais que frequentei por anos.

E quando cheguei na Escócia em 2013, saí às 22h30 da estação de trem, sem nunca ter estado lá, em pleno frio de janeiro, e andei como quem chega em casa, reto até uma porta de madeira meio torta e mal encaixada no portal, com, literalmente, um caldeirão esculpido em cima e o nome do hostel, e sem ter errado nem uma curva do caminho, ali dormi, sem armário, sem pijamas apropriados, sem a tal segurança alegada. E ali acordei, e sem guia, sem mapa, sem ninguém, mas com muita simpatia, sorrisos e acolhidas fantásticas, rumei ao castelo, onde andei e passeei, como quem entra em sua própria penseira e vive sua própria realidade, entre lugares tão desconhecidos, em casa. Jamais Vu.

Alguns lugares e algumas pessoas te fazem se sentir tão em casa, que nesses momentos me pego com imensas e infinitas saudades do futuro. Futuro que nem sei se acontecerá. Futuro que são vários, como aqueles livros de aventura infanto-juvenis com diversos fins possíveis de acordo com a página que você decida seguir. Em momentos de Jamais Vu, vejo na minha frente as possibilidades dessa forma: para continuar na cidade onde está vá para a página 53 e compre um apartamento. Para conhecer o mundo pule para a página 74 e entre num avião. Para voltar a estudar siga na página 95 e veja em qual universidade você se encontra agora. Para descobrir a origem do sorriso no seu rosto vá até a página 103 e continue a leitura de lá. Jamais Vu.

Cada ano que passa, aprendo a conviver com os Jamais Vus da minha vida. Não sei se são lembranças de vidas passadas. Não sei se são frutos da minha imaginação. Não sei se são os momentos Ruby Sparks da minha vida, e se o que escrevo vai tornando-se realidade, ou se Sofio-me cada vez mais e viro personagem real, trazendo comigo as irrealidades e familiaridades da minha fantasia. Jamais Vu. Minha vida nunca foi uma Matrix. E embora já tenha tido meus Dejá Vus, eles são poucos. Não creio que tenha vivido muitos momentos iguais uns aos outros. Mas me é recorrente a sensação de total familiaridade, segurança inexplicável, conforto e intimidade com o desconhecido. Jamais Vu.

Entenda, não é todo desconhecido que me provoca Jamais Vus. Pelo contrário. Jamais Vus são raros. O desconhecido não me provoca desconforto mesmo quando não é Jamais Vu. Gosto daquela adrenalina maravilhosa de me ver entrando numa trilha desconhecida. Saboreio não saber onde ela vai dar. Adoro descobrir novos caminhos e abrir trilhas onde elas aparentemente não existiam. Tenho metas e sou caxias, às vezes até demais, com meus compromissos. Mas fujo da rotina. Adoro não saber como será cada semestre meu, com novos horários de aulas, novos alunos. Essa rotatividade entre metas impossíveis me dá o folego que preciso para tentar alcança-las. Jamais Vu. Eu gosto do gosto do desconhecido.

Mas existe uma diferença entre o gosto do desconhecido e o cheiro do chão da floresta de pinheiros, da turfa. Vinda de um cerrado savana, onde a terra vermelha tem um cheiro árido e próprio, descer do trem numa Edimburgo gelada e reconhecer o lugar pelo cheiro, isso é a cereja do bolo do Jamais Vu. É confiar que existem alguns desconhecidos que são tão familiares que eu já sei que vou amá-los, mesmo antes de conhecê-los.

Cada dia que passa me sinto mais maravilhada, abobada, feliz e confortável com meus raros e deliciosos Jamais Vus. E nessas andanças pelos desconhecidos irreconhecíveis, e pelos desconhecidos familiares estou certa e que minha casa é onde meu coração está. E que às vezes o encontro nos lugares mais improváveis. Alice que sou, vou procurando pelo meu próprio coração entre estradas de tijolos amarelos, e seguindo coelhos em tocas desconhecidas, e descobrindo no País das Maravilhas minha casa no melhor estilo Jamais Vu. E assim, fica fácil viver e conviver com o desconhecido. Já que ele é mais familiar que o conhecido. Jamais Vu.

Alice em Oz: Sofia

Hoje sou Sofia. A certeza de que tornei-me personagem bate à porta. Posso não ser uma personagem famosa, posso não ser uma personagem publicada. Mas tenho certeza de que Deus está bancando o escritor, como diria Clarice. Vejam bem, como já devem saber, sou uma adepta da literatura, e sempre li muito. E esses seres estranhos que dividem essa dita realidade com muitas outras, que vem principalmente de livros, mas também de gibis, jogos, músicas, e todos os demais lugares imaginários por onde passei enquanto crescia, e por onde passo sempre que posso, tendem a perceber a própria vida de uma forma um tanto quanto literária. Isso inclui uma dose de drama, uma dose de fantasia, uma dose de nostalgia, uma pitada de coragem e outra de sofrimento, um tempero de brilhantismo e outro de tédio. E nos faz conviver com personagens, tornando-nos a nós mesmos em um certo tipo de personagem.

Eis que eu sempre tive uma birra incrível com dramas e romances que consideravam o destino tão fatídico, tão categórico, que se impunha sobre as vontades das personagens. Também sempre fui crítica da ação padrão dos heróis, de sempre cair no plano maligno, estupidamente, em nome de ações de coragem, valentia e amor. A forma como o destino aprisionava as personagens de Austin ou das irmãs Bronte sempre me deixou indignada. E mesmo sabendo que a própria Austin abdicou do casamento e seguiu como escritora, contra os padrões da época, somente para não recair nas armadilhas do destino, suas personagens geralmente não tiveram o mesmo tratamento. Eu sempre falei aos quatro ventos que se estivesse vivendo em tempos antigos, eu seria a mais terrível das filhas, pois não usaria os espartilhos nem me casaria por arranjo. E muito menos deixaria de dizer o que penso.

Então, por mais que minha vida sempre tenha sido cabalística, e cheia de referências comparativas com minhas personagens preferidas, nunca me vi, realmente, como uma personagem. Mesmo tendo lido O Mundo de Sofia no ano que completaria quinze anos, sentada no alto da minha árvore no jardim, com meu labrador branco, Tobi, de fiel guarda aos meus pés. Mesmo tendo viajado com a escola para os Estados Unidos aos quinze, e lido Harry Potter e o Cálice de Fogo enquanto estava nos dormitórios da National American University e pedia ao Reed Abrahamson para me ensinar a ler os nomes das personagens, incluindo o da Hermione corretamente. Mesmo nessa viagem tendo vivido a experiência do ônibus quase virar na estrada e observar os cervos fugindo dos ursos e lobos, e de sermos salvos pelos índios Sioux, e ter voltado dessa viagem amiga de uma família de estudiosos que costumava fazer trilhas nas montanhas nos fins de semana, e que nos alertou sobre as dificuldades de convivências com os índios da região, e de ter ganhado lá um medalhão protetor de lobo e um coração de cristal, mesmo assim, nunca tinha me visto realmente como uma personagem.

Afinal, eu não cresci num armário, embora tenha brincado muito em uma adega que ficava embaixo da escada. Eu não achei Nárnia no fundo do armário, embora já tenha dormido entre roupas e casacos da minha avó no closet dela só porque chovia e ela nos trancava lá com medo dos temporais. Eu não cresci num castelo, só numa casa com sótão e porão, e portões de toras de madeira com dobradiças aparentes e jardim interno de samambaias onde meu avô controlava a chuva. Eu não aprendi a falar com os animais, embora minha mãe conversasse com os passarinhos e eles respondessem. Eu não cresci órfã, embora tenha vivido sem meu pai até os onze anos, conhecido ele em circunstâncias incrivelmente vitais no desenrolar do meu roteiro de vida.

Hoje, entretanto, sou Sofia. Hoje sou uma professora órfã, que vive num pequeno cômodo no oitavo andar, minha própria torre, entre muitos e muitos pássaros, reais e decorativos. Hoje eu vejo fios soltos sendo reincorporados na trama do meu tecido. Vejo esse tecido e percebo nele as marcas dos cortes bem cerzidos, tão visíveis quanto a cicatriz que hoje carrego na testa, ou seja, só para aqueles que estão perto o suficiente para ver. Sim, hoje em dia eu tenho uma cicatriz na testa. Só não é no centro, mas na têmpora esquerda.

Mas muito mais relevante é como eu percebo hoje as questões relativas a destino, escolhas e o quão eu posso decidir e o quanto Deus banca o escritor. Sempre acreditei no livre-arbítrio e continuo acreditando.  Ao mesmo tempo creio em destino. E não acho que seja contraditório. Temos que fazer por onde, e podemos decidir quais estradas pegar. Ao mesmo tempo existem coisas que aparecerão na nossa vida ou sumirão dela com tanta explicação quando o gato de Cheshire de Alice. Doroty chega a Oz num tornado, levada como uma pena, como diria John Mayer, e volta batendo os calcanhares de seus sapatinhos vermelhos três vezes. Lá ela procura algumas estradas. Sabemos qual ela tomou, mas e os tijolos vermelhos? Para onde vão? E o que teria acontecido caso suas escolhas fossem outras? Teria ela tido o mesmo resultado? E Alice? E se ela não tivesse seguido o coelho? E a Alice de Tim Burton, que duvida tanto de sua própria identidade? E se ela não tivesse lutado contra o jaguadarte?

Essa semana completo meus vinte e oito verões. Há dez verões atrás eu tinha minha vida tão resolvida. Era tão dona do meu nariz. Tinha tantas certezas. E aí meu tornado chegou. Caí em Oz, segui os tijolos amarelos, tive que pôr em prática todos os conhecimentos do meu querido Mágico para conseguir driblar as tragédias da vida, vencer as bruxas verdes, e com muito disfarce continuar livre e viva para segui o coelho, e cair no País das Maravilhas. Lá questionei minha verdadeira identidade várias vezes, e mais uma vez enfrentei minhas batalhas. Eu não preciso mais bater os calcanhares ou aporrinhar Absolem por uma resposta, pois já sei que voltar para casa não significa mais nada. Minha casa é onde estou. Seja lá onde isso for. E como for. Eu sou minha casa. Eu sou Alice, e já passei por Oz, pelo País das Maravilhas e por muitas outras terras fantásticas.

Hoje sou Sofia, e estou aprendendo que às vezes a vida traz novas lições quando menos espero. Hoje sou um pouquinho personagem de Austin ou Bronte, pois estou tendo o gostinho do que significa ter que esperar respostas do destino, acontecimentos da vida, para descobrir quais caminhos se abrirão e quais fecharão. Se é que algum se abrirá ou fechará. Continuo fazendo o que sei fazer de melhor, como diria Skank (vocês não acharam que escapariam, né?) eu abro a porta, eu grito, eu berro, eu enfrento, eu vou de charrete ou caminhão, eu vou a pé, mas eu vou! Para onde? Para onde a vida me levar! Qual a cor dos tijolos eu não sei. Também não sei onde eles vão dar. Mas hoje, eu Sofia, já não tenho as certezas dos dezoito. Eu recebo as incertezas dos vinte e oito de braços abertos. Sabendo que preciso continuar tomando decisões, e lutando minhas batalhas. Mas só. O que brotará no meu caminho, a vida dirá.

Hoje sou Sofia sem precisar ser personagem real ou imaginária. Hoje sou Sofia não porque eu mesma me transformo lentamente em palavras. Hoje sou Sofia porque aceitei que Deus banca o escritor. E enquanto esse Show de Truman continua, a única coisa que aprendi a controlar foi a trilha sonora! Boa musica a todos! Que os passarinhos tragam boas novas! Que a ansiedade por resultados, sejam o das eleições, o das provas, o das minhas ações, seja amenizada pela certeza de que sou Sofia, personagem, vivendo uma história, às vezes cômica, às vezes triste, às vezes romântica, e sempre de muita aventura. Ainda não sei para onde, mas sei que eu vou, e a felicidade não será clandestina!

Os Beijos de Balthazar

Em um desses dias de Cena lá estava eu JuReMa, sendo Alice, sendo Sofia, correndo entre realidade e ficção. E me vi num píer. O lugar me pareceu muito propício para reflexões pessoais, uma vez que venho de uma cidade surreal onde a seca e a vida lacustre convivem em harmonia, e onde as crianças frequentam píeres e sabem muito utiliza-los para suas brincadeiras, ou, conforme os anos passam, para suas reflexões. Sempre tive dois favoritos para reflexão, que mudaram anos depois devido a viabilidade de frequentá-los. Um é o píer do meio, são três, que ficam no acesso da ciclovia atrás da QL 12 do Lago Sul. O outro é o já inexistente mini-píer que ficava na casa onde eu cresci. Dali acreditava que veria os piratas chegando, os monstros marinhos do lago, os pássaros mais fantásticos, trazendo notícias de mundos paralelos. E foi ali que li muitos dos livros que me possibilitaram esperar por piratas, pássaros mágicos e mundos paralelos. Ali também aprendi a tabuada e anos depois refleti, ri e chorei todas as minhas dúvidas e angustias da adolescência.

Quem nos dera que refletir, rir e chorar fossem privilégios da adolescência. Quanto mais a vida passa, mas percebo que é moto contínuo essa atividade de se perder e reencontrar-se. Pelo menos me sinto no lucro por saber que já me reencontrei várias vezes, apesar de ser uma perdida. O dia que me levou até aquele píer foi um dia extremamente produtivo. Fruto de muita reflexão e de uma semana de crises existenciais. Mas ouvi belas palavras durante essa semana de crise, que me diziam que a crise é muito bem vinda, pois serve para nos tirar da nossa zona de conforto. Estar em crise significa que estamos prontos para dar novos passos, viver novas aventuras, sair do lugar, e pensar em como sair é, muitas vezes, trabalhoso e doloroso, mas não há demérito nisso, muito pelo contrário. Há o mérito de querer se encontrar novamente, em novos ambientes, em nova pele. Ou, às vezes, em pele antiga, redescoberta como papel de parede descascado.

Velhos gostos que retornam como velhos amigos. Sabe aquele velho amigo que você gosta muito, mas nem sabe como nem porque perdeu contato, e quando reencontra fica meio culpado, por saber que não deu atenção? Aí existem duas opções, ficar no sorriso amarelo e perder a oportunidade, ou abraça-lo de coração e se permitir o reencontro, apesar da leve culpa de abandono. E quando isso ocorre, geralmente somos abençoados com a percepção de que o afastamento não foi culpa de ninguém, e que bom mesmo é se reencontrar e ser feliz.

As pessoas tendem a se culpar muito, por tudo e qualquer coisa, e com a culpa vem o medo, o medo do julgamento, o medo da rejeição, o medo da vergonha, o medo de dar errado, o medo do ridículo. E o medo paralisa. Porque arriscar? Porque tentar se reinventar? Porque correr trás dos sonhos? Quando a vida já está aqui, e é tão exigente. Trabalhamos, sustentamos, corremos, e muitas vezes ainda cuidamos do corpo, da saúde e da família. Já não basta? Não é muito já? Sim, é! É muito e dá muito trabalho e, se bem feito, nos ocupa vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Mas eu queria mais…

Desde a adolescência eu quis mais. Mais o que, JuReMa? Quer salvar a humanidade? Acha mesmo que vai mudar o mundo? Cresci ouvindo essas críticas. E as palavras dos nossos pais (tios, avôs) nos marcam a ferro, como já dizia Balthazar. Na verdade, pensava dentro de mim, sim! Sim, quero! Quero salvar a humanidade e mudar o mundo! Não faço ideia de como, mas se puder, quero. Quero pelo menos tentar. Quero entender que há mais entre o céu e a terra do que acordar, trabalhar, ter filhos, comprar uma casa e morrer. E não digo isso como uma crítica a quem assim o faz. Mas eu, apesar de querer tudo isso, sempre quis algo a mais. Como um tempero. Ver e conhecer, e entender. Como dizia a Mafalda para Susanita, “Isso não é vida, é fluxograma!”, e eu quero viver e não só cumprir o fluxograma! Ou como dizia Oscar Wilde, eu não quero só existir, quero viver. Ou sendo Menina Maluquinha, sempre quis abraçar o mundo com as pernas.

Acabei tendo que carrega-lo nos ombros, como um titã, e devo dizer que é bem menos confortável. Durante alguns anos senti muita falta da panela na cabeça. E o peso do mundo sobre os ombros me roubou a coragem de muda-lo, como já dizia Renato Russo. E com a coragem roubada, fiz muito de tentar me encaixar no fluxograma, já que com o mundo nas costas perdi o ritmo das matérias e saí da grade, perdendo a preferência na hora de requisitá-las. E nessa acabei vivendo, aos vinte e poucos, fases dos cinquenta e muitos, e aos vinte e muitos tento recuperar fases dos vinte e poucos ao mesmo tempo que me preparo para as matérias dos trinta, que estão logo ali depois da curva.

E nessa de me reencaixar ao fluxograma por necessidade me peguei entrando em sua inexorável zona de conforto. Um belo dia, saí mundo afora, com saudades de mim mesma, de ser menina, de ser maluquinha, de abraçar o mundo com as pernas. E de lá a Mafalda em mim voltou aos chutes e pontapés à vida de fluxograma, gerando as crises existenciais. Percebi que o mundo já não está mais sobre meus ombros. E que, talvez, com um pouco de prática, aulas de yoga, e retorno da flexibilidade, possa voltar a abraça-lo com as pernas.

E assim, Mafalda que sou, comecei voltando à pratica do yoga, depois às leituras, e lentamente, a coragem de mudar o mundo está voltando. Mas o meu problema, é que tenho um lado São Tomé, ou até pior do que ele. São Tomé pelo menos acredita quando vê, eu não acredito nem vendo. É o efeito Titã, que me deixou cheia de poeira das últimas guerras, como já dizia Skank. E nessa de não acreditar nem vendo, vou aos poucos cumprindo com as obrigações, mas às vezes me falta fé para voltar a ser maluquinha.

E lá estava eu JuReMa, no píer, acompanhada de Balthazar, que acreditava somente em sua maldição, até que foi curado pelos beijos de um estranho. E quando acho que não sou Sofia, sou JuReMa, saio da peça, saio do píer, e encontro amigos, conhecidos, família. E eis que num momento surrealmente Sofia ela vira para mim e diz “Quer dizer que você não acredita que é organizada e capaz? Tá pior que os beijos de Balthazar, hein!” me abraça e vamos embora. E vim assim, pensando nos beijos de Balthazar. Sim, era, de novo, tudo o que eu precisava ouvir. Aquela frase foi o meu beijo de Balthazar. Não dá para desacreditar sem tentar. Que venha então a panela na cabeça, porque essa JuReMa, Sofia, Alice, resolveu dar ouvidos à Mafalda e ser Maluquinha.

Que o mundo, descido de meus ombros, se transforme em bola de circo, pois além de abraça-lo com as pernas, vou caminhar sobre ele, como um malabar! Como já fazia, aos oito anos de idade, e depois aos dezoito de novo. Já que os vinte e oito estão a poucos meses de distância, me parece apropriado ressucitar a circense e andar sobre o mundo. E trazer da infância Mafalda e o Menino Maluquinho, para acompanharem Alice e Sofia da adolescência, e assim, sairemos todos da zona de conforto, do fluxograma, para o mundo.

Borboletas e o Tempo

A menina era Alice nessa noite. Tinha sido levada mais uma vez por Absolem para uma terra de elefantes velhos, e seus cemitérios. E aqueles grandes notáveis a tinham feito pensar muito. Pensar sobre a vida, sobre as marcas do tempo, sobre as imperfeições do mundo. Mas hoje a menina não estava conseguindo se concentrar nos diários que as viagens com Absolem requeriam. A menina, apesar de muito Alice nessa noite, era também Jurema. Jurema estava cada dia menos dissociável das demais meninas, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e tantas outras.

A menina estava em outra toca. Havia a toca de Absolem, mas havia outras, em outras paragens, e a menina, Alice que era, vivia se perdendo naqueles túneis fantásticos da vida surreal que vivia, tão real. Sua mente divagava sobre uma queda não muito distante. Naquela outra noite Alice havia caído num túnel sonoro e acordado num belo jardim. Riu da coincidência e lembrando-se que, sendo Alice, era muito curioso e conveniente acordar num belo jardim, mesmo que daquela vez não fosse Absolem que a tivesse transportado.

Esse jardim era belo, simples. Um pequeno lago na parte baixa. Num primeiro olhar parecia ser um lugar com poucos detalhes. Minimalista até, embora enorme. Aos poucos, conforme a luz do sol ia aquecendo seu corpo, despertando suas pernas, acordando sua mente, a menina Alice começou a achar os tesouros daquele jardim. Primeiro foram as corujas, duas pequenas amigas arregaladas e pintadinhas, que a olhavam da grama, vigiando seus próprios buracos. Mais tarde a menina foi sendo guiada, e descobriu as galinhas e galos, e perus. Descobriu os coelhos, de várias cores. As laranjas no pé. A lama, a grama e o sol.

E sua mente foi ainda para outro momento. Outro dia, outro sol. Num momento ainda mais surreal, embora o surrealismo estivesse competindo duramente com a realidade na sua vida de Alice. Entre telhados surreais de fato, conversando sobre o mundo, a menina lhe disse “Sabe, o problema é que tenho medo de borboletas!”, ao que ele lhe olhou chocado, como costumava acontecer e disse “Como? Elabore, por favor!”. Elaborar? Bom, isso era um pouco menos usual que o choque. A menina pensou muito, as palavras lhe escapavam, momentos de pouco domínio sobre essas danadinhas que lhe enganavam, torcendo a língua antes de lhe escaparem por entre os dentes. No papel, elas ficam presas, eternas nessa transferência entre mundos. Na boca, elas se perdem no ar, e voam longe. Mais perigosas do que borboletas.

“Tenho medo de borboletas. Simples assim. Sei que não é racional. Simplesmente fico aterrorizada na presença de borboletas. Admito que são muito bonitas, e delicadas. Mas prefiro que fiquem lá, longe de mim.” E ele lhe respondeu: “Mas borboletas não apresentam perigo nenhum! Não vão te machucar, não vão te fazer nenhum mal. Porque isso?”. A menina respirou fundo. Era tão difícil explicar. “Não é um medo normal. Como algumas pessoas tem medo de feras. Eu enfrento o que for. Bestas feras, monstros mitológicos, ratos e baratas, cobras e onças. Mas borboletas não!”. Ele tentava entender. Não era uma insistência baseada na irritação. Parecia querer que a menina pensasse mais sobre aquilo. “Entendo ter medo de leões, ou tubarões. Tenho pânico de tubarões. Mas de borboletas”. “Acho que é isso.”, Ela respondeu. “Não é medo. É pânico. Irracional. São aqueles bichinhos nojentos. Às vezes até fascinantes, pelas cores. Mas perigosos, venenosos. Queimam, machucam. São pequenos e fascinantes, mas fazem mal. E vivem para comer, até que se transformam. Criam asas, e saem por ai, se espalhando.”

A menina já estava arrepiada. Ele lhe olhava como se visse algo curioso. Continuou: “Mas é isso, se transformam. Não há nada mais incrível que a transformação. E depois que ela acontece, já não apresentam risco nenhum. Voam por ai, sim. Mas apenas para polinizar. Espalhar cor, alegria, vida, boa sorte. Nada mais. Não há o que temer.” A menina pensava. Ele tinha razão, é claro. Mas como explicar o pânico? O pânico é irracional. Não há explicação. Só a paralisação do medo. A inutilidade. A inação. A falta. O vazio.

A menina Alice estava no jardim. Observava a grama, a lama e o sol. Ele lhe disse: “Olha! Uma borboleta!”, e olhou sua reação. A menina já havia visto a borboleta de esguelha. Seu olhar captado pelo leve movimento. As vibrações daquelas pequenas e levíssimas asas. Ficou imóvel. Ele prosseguiu: “Parece ser uma daquelas borboletas curiosíssimas, que tem um número na asa. É o número 8, não?”, o tom era entusiasmado, mas ela sentia a leve tensão no ar. E, apesar de imóvel, continuava olhando a borboleta. Era muito pequena, muito mesmo. Não havia qualquer razão para teme-la. Mas, de novo, não era uma questão racional essa.

Ele, com um leve sorriso no rosto, continuou falando: “São raras essas? Não sei. Mas nunca vi uma antes? Você já? É mesmo uma daquelas com o número? Você consegue ver o número? Não dá para ter certeza sem ver, dá?” E o olhar da menina acompanhava o bater daquelas asas. Ela tinha quase certeza de que era a borboleta do número nas asas. Mas de fato, não dava para ter absoluta certeza sem ver.  A borboleta pousou numa folha há cerca de um metro, talvez até menos da menina. Sua respiração era controlada, e os movimentos precisos. Sem tirar os olhos da borboleta, ela ajoelhou.

Ele perguntou de novo: “E aí? Viu o número? É mesmo uma daquelas?” e ela respondeu: “Parece que sim, mas não dá para ver o número daqui. Mesmo de óculos, precisaria chegar mais perto para ter certeza.” Ele riu baixinho: “ Tá com medo?”, e a menina Alice, controlando a ironia, o pânico, que já não sentia na forma de pânico, talvez um leve desconforto, respondeu: “Bom, eu não fugi ainda né! Talvez não consiga chegar tão perto assim agora, mas to aqui, paradinha.”. Ele ajoelhou também e disse: “É um bom começo. E olha só, ela pousou. Talvez assim te dê um tempo para ver melhor. Talvez até para ver de mais perto, e ter certeza se é ou não aquela borboleta rara”, levantou e saiu.

Na noite de hoje, entre elefantes, a menina não se lembrava mais quem tinha voado primeiro, ela ou a borboleta. Mas sabia que não tinha fugido. E talvez, com o tempo, aprendesse a ver as imperfeições, as marcas, os números nas asas, as rugas dos elefantes. Talvez.

Alice no País de Gaudí

A menina acordou. Estava no avião. Seus olhos pesavam depois da noite insone. O cochilo rápido do primeiro voo só serviu para deixa-la ainda mais cansada e confusa. Perdida entre realidades. Em outros dias ela tinha sido a menina do caderninho vermelho, aquele que ganhara logo antes de ganhar também aquela outra viagem. Daquela vez se sentia como uma outra menina de capa vermelha, gorro vermelho, em missão, cumprindo obrigação e à espreita do lobo, mau ou não. Abriu a bolsa e tirou o caderninho. Dessa vez ele não era vermelho, era colorido, multicor. Na frente havia um desenho desconstruído de uma menina loira, uma pena de pássaro azul nos cabelos, um bico amarrado ao rosto. Aquele caderno não era ganhado, mas escolhido pela menina. Aquela viagem não era ganhada, era escolhida pela menina. A primeira vez que Alice vai ao País das Maravilhas é ao acaso, por assim se dizer. Mas depois não. Depois é porque quer. Porque precisa se reencontrar. Enfrentar suas guerras, e ganhar. Dessa vez a menina era Alice por escolha.

A menina sentou no sofá e ajeitou os cabelos molhados sobre o ombro esquerdo. Olhava a TV, era o penúltimo jogo da copa do mundo. Já não se importava com o resultado, não faria diferença alguma aquele placar da partida pelo terceiro lugar. Apesar de uma certa exaltação por parte dos telespectadores mais assíduos, a conversa começou. O que ela pensava? Difícil dizer assim, simplesmente em palavras. Sua mente se dividia em várias dela mesma. Uma queria acompanhar o placar, outra queria fazer amigos, uma terceira lutava contra o sono, e aquela, aquela desconfiada lá do fundo, se percebia Alice no país de Gaudí.

Perdida, maravilhada, desconcertada entre o sonho e a realidade. Que lugar era aquele, onde os próprios prédios da cidade pareciam acompanhar a dissolução de cores e formas de sua mente fértil? Incrível perceber que outros podiam compartilhar daquela loucura lúdica, disforme, surrealista, sutil e florida, de seu eu mais profundo. Se para a menina sempre foi difícil distinguir entre sonho e realidade, nessa cidade isso tornara-se impossível. Só umas duas bolhas na sola do pé, com aquela dor leve e constante, quase imperceptível, para mantê-la com os pés no chão.

Alice havia tomado conta. E ela passava pelas portas minúsculas e era também gigante, sem ao menos precisar comer ou beber nada mágico. Gol. Olhou o placar e percebeu o quão distante dalí estava. Talvez estivesse com Dalí e seus bigodes. Aquele era um pequeno mundo de bigodes, afinal de contas. A conversa continuava. Aos pouquinhos algumas palavras foram trazendo a menina à superfície e deixando Alice e Dalí no fundo de sua mente. Algumas daquelas palavras soavam mais claramente do que outras e ela ia utilizando-as para se recompor.

Saiu e voltou a sala dos bigodes quase sem perceber. A TV desligada, o jogo findo, nada importante. Era esse o jogo de ontem ou o de hoje? A Copa acabou? Parecia que sim. O placar não era importante, e nem mesmo o vencedor. As palavras que ressoavam eram a respeito da comida, da pizza, e de se essa era de queijo ou se tinha presunto. A menina não comia presunto, e, dessa vez, não era a única ali. Os dias se mesclavam, o ontem, o hoje e o amanhã. O real e o irreal. Fantasia, imaginação e realidade. Em parte porque a menina estava vivendo o sonho, em parte porque o sonho era real, e sempre porque ela era também Alice.

Os fogos de artifício eram de hoje ou de ontem? A praia tinha areia fria, mas o ar era quente. A cidade cheirava a férias. Havia uma alegria e uma leveza no ar que manteriam seus lábios com as quinas elevadas pelos próximos dias, assim como tinham feitos nos anteriores. Ela era feliz. Ponto. Era feliz sem precisar de um porquê. O mundo era seu, e ela finalmente reclamava seu pedaço com passos certeiros por rotas incertas. Percorria caminhos conhecidos pela primeira vez e se sentia em casa longe dela. Talvez estivessem certos, e ela fosse nômade e sua casa fosse onde seu coração está. Sempre eles. Sempre sua música. A noite, a praia, os rostos desconhecidos, exalando amizade e receptividade. E em sua mente as conversas, as trilhas, os mapas, os rumos, as possibilidades. Quanto mais longe ela ia, mais queria ir. Perder-se nas maravilhas daquele e de outros países. Como voltar? Não fisicamente, mas mentalmente? Talvez nem Absolem tivesse resposta dessa vez.

Acordou e foi tomar café, de pijama ainda, apesar da coletividade local. Conversaram de novo. Sempre um livro em mãos, como um farol a lhe guiar. Era raro não serem as suas mãos e seus olhos os que se ocupavam dos livros. Era tão raro, que eram os únicos, entre tecnologias e bigodes. Era seu último dia ali. A conversa fluía como nos dias anteriores. Melhor até. Cada vez melhor. Hoje ela iria a praia. Não como à noite. Entraria nas águas mediterrâneas e saborearia mais essa felicidade. Tinha a trilha sonora pronta. Saíra de casa com esse momento ensaiado. Mas a vida é sempre mais surreal do que a ficção. E apesar de saber disso, sempre se surpreendia.

Já trocada foi rumo ao mar. Mas não foi sozinha, como havia antecipado. Tinha companhia. E as ruas pareciam diminutas. Os minutos eternos. O sol ainda não brilhava. Talvez chovesse. Esse pensamento pingava em sua mente como uma torneira mal fechada, mas sem diminuir seu ânimo, apenas como um lembrete constante. Sentou-se na areia. Sentiu o sol. Já estava com calor após a caminhada. A menina olhou o mar, e perguntou-se, mais uma vez, se era verdade. Se ela era de verdade. Talvez fosse apenas um sonho da mente de alguma outra menina, pronta para dissipar-se com um acordar alheio.

O mar não estava frio e era pouco salgado. Era mar e não oceano. Era a primeira vez que ela entrava num mar não-oceânico. Apesar de ser filha do interior e da terra vermelha, a menina era também um pouco peixe, sempre pronta a testar as águas, embora fosse mesmo pássaro. Continuavam conversando. Quem era aquela pessoa? Seria um chapeleiro maluco? Seria O Chapeleiro Maluco? Ou seria o gato, que some deixando apenas a sombra do sorriso iluminado no escuro? Ouviu as gaivotas e lembrou-se que isso não era importante. Apenas que tinha uma companhia para disfrutar.

Sentou-se na areia, e apesar da brisa leve, deixou o sol secar a pele molhada. As gaivotas captavam seu olhar a cada voo, a cada mergulho. E isso não significava que a conversa não estivesse boa, muito pelo contrário, era uma das mais interessantes dos últimos tempos, a menina-pássaro apenas não podia resistir àquele espetáculo gratuito servido como um banquete, combinação perfeita de imagem, som, gosto, temperatura e tato. E lembrou-se então de ouvir a música que era um dos motivos por estar naquelas areias naquele momento.

Dividiu o fone. Era estranho ter companhia. Era reconfortante ter companhia. Era quase como se ela fosse um alien por ter companhia. Era aquilo real? A realidade é definitivamente mais estranha do que a ficção. Mais caminhadas. Era especialmente raro ter companhia para suas andanças. A menina era acostumada às reclamações que iam de indiretas a significativos nãos na cara ou até mesmo a indiferença quando o convite eram suas caminhadas ou pedaladas. Gostava de ir por ai sem hora para voltar e essa visão não é muito popular.

Subir aquele moro não era sacrifício algum, cada passo uma recompensa. A beleza do lugar maravilhava a menina a cada passo, mesmo já tendo estado ali duas vezes. A menina gostava de andar sem rumo porque o caminho é tão importante, ou mais do que o destino. Alice sabe disso. Alice se descobre Alice não quando chega o final do filme, do livro, da batalha. Mas em cada passo, em cada diálogo, em cada minuto de país das maravilhas. E cada pedacinho daquele dia era uma maravilha digna das sete.

O corpo secava e molhava, entre mar, sal, chuveiro, suor, andanças, ladeiras, piscina e sol.  E o protetor solar. Sim, para a menina era sempre muito importante lembrar do protetor solar. Ela só não sabia que em seu dia de Alice no país de Gaudí até o protetor serviria para tornar a realidade mais fantasiosa que a ficção. A menina começava a perceber que talvez e só talvez aquele fosse seu dia de protagonista. Apesar de ser muitas vezes Alice, nunca se considerou protagonista fora do papel. Era protagonista quando era Sofia. Quando se metamorfoseava em palavras. Mas fora das palavras, não era Sofia, não era Alice, era apenas a menina. Muitas vezes sem nome.

Em seu dia de protagonista, a menina Alice, que naquele momento estava longe de ser Sofia, muito mais viva na realidade fantasiosa do que no papel, serviu-se de um banquete e comeu como uma rainha, vermelha ou branca, até hoje não se sabe. E ao voltar a sala dos bigodes saia das folhas de papel como nunca, penetrando a realidade com força. A menina contemplou sua possível imagem, de bico e pena azul na cabeça, e pousou o lápis. Estava no avião e sua cabeça girava. Seria o sono? Esse seguramente a atormentava. Mas o lápis tornava-a Sofia de novo, empurrando-a para o papel. Confundindo novamente realidade e ficção. A aeromoça avisou que em breve serviriam o jantar. Ou seria o almoço? Entre fusos, falta de sono e muita irrealidade, nada mais parecia ter sentido prático.

Da sala dos bigodes a menina saiu em nova caminhada, de novo acompanhada. Mais que mania de companhia era essa agora? Onde estava a eremita? Andarilha solitária? Ao contemplar o papel, uma nova música, uma velha música, sempre com novos sentidos veio-lhe a mente. E de dentro daquele avião, entre lápis, papel, música e memória, a menina reviveu suas últimas vinte e quatro horas. Às vezes tinha certeza de que estava sendo filmada, como no Show de Truman e questionava com mais veemência a realidade e a fantasia. Talvez por ter a imaginação muito fértil, talvez por ser muito Alice ou muito Sofia, em seu mundo particular, em seu país de maravilhas, a menina tinha muita dificuldade em acreditar na realidade. Era mais fácil acreditar na fantasia.

Como convencer aquela menina, aquela Alice, aquela Sofia, aquela Clarice, aquela Adriana, que castelos e luas cheias, gaivotas e mar, fontes mágicas, prédios tortos e música sincronizada são reais? Impossível! E assim, apesar da pele ardida de sol, dos gostos ainda na boca, dos ouvidos ainda cheios de música, e com os lábios murmurando aquela música, a menina dormiu. Por horas e horas ela dormiu, até regressar a sua casa, a sua realidade. Para sempre perguntando-se se a realidade foi ficção, ou se a ficção pode ser real.

Lembrando-se da sala dos bigodes, a menina se perguntava se foi ela que entrou ali primeiro, sem sequer pedir a menor licença? Ali era todo aquele lugar e lugar nenhum. Ali, era apenas ali, ou era o mundo todo? Ali era a sala dos bigodes ou aquela cidade fantasiosa? Não se sabe, mas nos sonhos da menina naquele avião, permearam tardes há muito sonhadas. E a andarilha solitária lembrou de muitos e muitos anos trás, quando andando sozinha, entre a casa da sua avó e a da sua prima, cantarolava aquela música, na época recém lançada. Na época sem sentido, e se perguntando se algum dia cantaria algumas daquelas palavras por si. Menina Alice perdeu-se e reencontrou-se no País de Gaudí.

Eu me Chamo JuReMa

Hoje a menina se arrumou para sair de casa, despretensiosa. Já eu estava um pouco IMG_0732ansiosa. O fim de semana foi de paz para as duas, pra mim e para a menina. Descansamos depois de muitos dias de trabalho, e a menina largou seus livros por uma dose rara de TV e jogos. Já eu me entretive com a paisagem e com a família, irmão e sobrinhos. Meu caderninho ficou guardado na bolsa, junto com os livros da menina. Esse fim de semana a menina não estava muito Alice e nem eu muito reminiscente.

E foi assim, de espirito leve, que entrei naquela fila. Admiro muitas coisas e pessoas diversas, mas existe em mim uma fã, uma tiete, que não necessariamente possui a admiração solene que tenho pelas belas obras, mas uma que só quer sentir a emoção fulgaz das coisas pequenas que me falam à alma. E para distrair a minha leve ansiedade, deixei a menina brincar pelos corredores do shopping, e ela fez o que faz de melhor, sentou-se no chão, ali no meio daquela gente toda, tirou um de seus livros da minha bolsa e pôs-se a ler, para dar uma fugidinha daquele lugar tão artificial. Talvez não houvesse tempo hábil entre uma passada da fila e a próxima para nos jogarmos na toca do coelho, mas para um crônica rápida sempre há tempo. E assim, a menina optou por ser menos Alice e mais Adriana naquele momento.

E foi assim, que Sofia despertou em mim. Foi na página setenta e cinco, que eu li o título, “A Mocinha”. E a menina me olhou toda animada, se reconhecendo nas páginas. E empurrei Sofia para dentro sob o argumento de que aquelas páginas não eram dela, e eu ainda estava no meio do shopping movimentado, imersa em realidade, por mais que a menina solta já estivesse sentada no chão, de “perninhas de índio”, como uma criança perdida na sua vida adulta.

E foi ao ler as páginas da mocinha que a menina me disse que se a mocinha podia ser, ela também podia. Olha como a mocinha é como você, a menina me disse. E isso eu não podia contestar. O problema foi a Sofia. Como alguém já experiente em sair das páginas de um livro e migrar para a realidade, ela se inflou toda com o reconhecimento da menina, que se adrianava nas palavras da mocinha. Respirei fundo para acalmar aquela mulherada que se apoderava da situação, e retomar o controle da realidade, já que eu era a única que dominava a realidade ali.

Foi quando olhei para frente, guardando o livro da menina, a história da mocinha já finda, e peguei o meu livro para fazer o que tinha ido fazer ali, tietar. Mas eis que nesse momento, Sofia já tinha saído das páginas, e se apoderou de mim com a força da Alice. E vi na minha frente um outro ser que também é vários. Vi Pedro, vi Antônio, vi Gabriel, e vi também o Chapeleiro Maluco. Já estava muito longe, toca adentrada sem perceber, e discorria sobre as maravilhas desse país imaginário tão real. Num borrão digno da ficção, até agora não sei se estou cheia de reminiscência sobre o meu passado, meu presente ou meu futuro. Não sei se a menina, então Alice, feliz com o encontro com o Chapeleiro se deixou levar pelas maravilhas. Não sei se Sofia saiu das páginas para a vida real e me empurrou para preencher seu vazio dentro do livro.

Talvez tenha virado palavras, para que elas pudessem ganhar vida. A sensação é a de ressaca. Ressaca forte como a do mar. Que me balança e enche de náuseas. E nesse balanço percebo que meu mar e feito de palavras, polvilhadas de poesia. E que minhas reminiscências se misturaram de forma inseparável com as aventuras da menina. E que somos uma. Sempre fomos uma. Hoje, Eu me Chamo Menina. Eu me Chamo Alice. Eu me Chamo Adriana. Eu me Chamo Sofia. Eu me Chamo JuReMa.

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A menina, velha mulher

A menina já não era tão menina assim. Alguns dias se sentia muito velha, outros, nova demais. Na verdade, ela era, como todas as outras, dona de um coração de menina, daqueles que acordam felizes, só porque faz sol. Era também dona de um corpo de mulher, daqueles que as fazem se descabelar na hora de escolher uma roupa e chamam uma atenção que às vezes é bem-vinda, e em outras odiada. Era também dona de um espírito e alma de velha. Daqueles capazes de passar horas procurando um pelo em ovo, só para achar, eventualmente, não um pelo, mas uma pluma, coladinha na frágil casca, e se lembrar que não importa quem veio primeiro, o ovo o galinha, importa, que a galinha também era fêmea, mesmo que o ovo nem sempre o seja, e isso a faz considerar a galinha primeiro, primeira.

Era aquela hora. Uma hora desconhecida pelos seres do gênero masculino. Uma hora tão feminina, que faltam palavras para descrevê-la, embora sobre sentimento. Assim como às mulheres, às vezes lhes faltam palavras, mas sempre sobram sentimentos. Nessa hora o carro é quente, o ônibus é cheio, o trânsito é barulhento. O calor daqueles meios de transporte contrasta com a leve brisa que a noite vem trazendo, e a menina arrepia, apesar de suar de calor. Naquela hora o estômago ronca de fome, mas a boca azeda, e o enjoo faz a vontade de comer ir embora.

A menina olha para o céu. Ele ainda é azul. Não azul claro, como no amanhecer, mas um azul hortênsia, como a flor, claro, porém profundo. O mundo, entretanto, já é tomado de sombras, as silhuetas das árvores já são formas pretas contrastando com o ainda azul do céu. E há um brilho que beira o rosa e é também dourado, de um sol que já não se vê. E bonito, e triste. A menina olha para o céu, vê um quarto de lua minguante, prateada, começando a se apoderar de seu céu noturno, seu céu feminino. A lua já brilha, embora ainda não seja exatamente noite. E eis que de repente, não mais do que de repente, lá está ela, uma pequena estrela a fazer companhia a sua lua, como mãe e filha, duas mulheres no céu. A menina suspira, sem saber porque sofre. E, ao mesmo tempo já sabe, é a hora da estrela.

O sinal abriu e a menina mulher tem que dirigir, fluir na correnteza do trânsito e chegar em casa. Chegar em casa para quê? O que a espera depois da hora da estrela? Dizem que o crepúsculo é a hora do predador, pois as presas não veem bem quando ainda não é noite, mas também não é mais dia. Para a menina isso não ajudava em nada, pois as mulheres são tanto presa quanto predadoras. Depende do dia, do sol, da lua. Mas a hora da estrela, era a hora em que a menina, a mulher e a velha se encontravam. O coração puro da menina via naquele contraste de cores, no brilho da lua, a magia do mundo. E imaginava todos os contos de fadas, onde os amores são possíveis, mesmo quando impossíveis. E a mulher suspirava, e se cansava ao saber que teria que se decidir presa ou predadora, com o cair da noite. Já a velha ria um riso amargo, e se lembrava de todas as dores do mundo, pois com a noite cessam os afazeres e afloram as emoções. E a hora da estrela é a hora da melancolia.

Nessa hora as meninas, não apenas essa, mas todas, têm, a cada dia, de decidir se porão a mesa para o jantar da família ou se correrão, fugirão para o ar puro das montanhas mais altas e distantes, ou para o ventos das praias mais ermas e solitárias. Todas? Sim, todas. Sejam elas meninas, mulheres ou velhas, nessa hora, a cada dia, existe uma decisão sendo tomada. Em cada coração, cada corpo, cada espírito. E durante muitos e muitos anos a menina, que não era tão menina, e nem tão velha, já tinha posto muitas e muitas mesas. Não ovos, mas mesas. Mas em sua lógica os ovos vinham em segundo. Ou talvez em terceiro, e as mesas em segundo. E servido muitos jantares. Não, a menina não tinha marido ou filhos esperando aquele jantar, mas já teve, algum dia, mãe, pai, avô, avó, família.

Só que a menina já tinha fugido também. Justamente por não ter marido e filhos, pode fugir sem que ninguém desse por sua falta. E foi até o alto de montanhas, e desceu até a onde a maré marca a areia. Respirou o vento do mar e o ar das folhas das árvores. E descobriu, que mesmo lá, na distância, mesmo lá, existem maridos, filhos, família, ovos. E que eles jantam. E quando não há ninguém? Na selva urbana, em seu caixote de concreto, a menina janta. Sim, pois apesar dos calafrios do dia quente que decai em noite fresca, e apesar da fome do corpo e do enjoo da alma, ela janta. Mesmo sozinha, ela janta. E corre, e nada, e contempla o mundo da janela. E a vida continua. Seja pelo ovo, ou pela galinha.

E nessas horas, nas horas da estrela, a menina queria ter uma máquina. Sim, uma máquina que superasse o tempo e o espaço, e resolvesse as mazelas do mundo, driblasse a desgraça. Nessas horas ela gostaria de caminhar sobre as flores amarelas do ipê. Ela gostaria de achar, ou talvez só de procurar, um amor. Nessas horas ela, menina, mulher ou velha, se sente princesa. E então ela se lembra, do seu remédio, do seu antídoto. Da sua música e dos seus livros. Sim, ela é menina, mas também são meninas as Clarices e as Cecílias, as Adrianas e as Alices. E todas elas entendem as angústias do ovo, da máquina, do amor, do mundo, da hora da estrela. E a menina cultiva, como quem procura um amor, sua felicidade clandestina. Aquela, que vem na hora da estrela, quando ela está sozinha. E ela agradece à Elis por sua reza e à Cassia por sua malandragem, que a permitem ser menina, mulher e velha. E ela se lembra de que a vida é querida, mesmo quando a felicidade é clandestina.

E a velha ri, a mulher chora e a menina ama muito a vida querida, pois nela existem também os Toms, Tims, Chicos, Vinícius, Samueis, Fernandos, Manoeis, Joãos, todos os Johns, Chets, Miles, que sabem que é preciso ter cuidado na hora da estrela. E fazem graça, pois sabem que as mulheres são vinte duas em uma. São garotas de Ipanema, nacionais, ou funny valentines. São como joaninhas no jardim. São como a galinha, que bota o ovo. E também bota a mesa do jantar.  E apesar de tentar, eles nunca às compreenderão. E elas contemplarão o mundo como velhas que riem com amargura de tudo o que já foi, como uma onda no mar. E serão mulheres de corpos metamórficos, como mutantes, angustiadas, presas e predadoras. E serão meninas de coração puro, que procuram um amor. Mas nunca entenderão que a hora da estrela, quando a lua aparece no céu, é delas. Só delas. E que nessas horas, apesar de tudo, a vida é querida.

Em alguns dias as Alices mudam de tamanho, seguem coelhos, fogem de seus mundos, atravessam barreiras, viajam no vento, em furacões. Encontram e são encontradas. Dançam, rezam, passam. E a menina vive, sua vida querida, sabendo que sempre se angustiará na hora da estrela. E que não adianta fugir. Que nenhuma máquina resolverá seus problemas.  Nem mesmo o do ovo e da galinha. Que nenhum homem ou mulher arrumará seu mundo, consertando-o depois de todos os pequenos e grandes estragos dos anos. Mas que ela mesma pode ser sua própria arrumadora. Afinal, mesmo quando a mulher está em metamorfose, e enquanto a velha contempla o mundo, entre rezas e malandragens, a menina tem um coração puro. E que sua alma não é pequena. E ela tem essa mania de explicação. Um amor pelas palavras. E enquanto ela procura por um amor, na verdade, ela encontra palavras. E enquanto ela procura pelas palavras certas, encontra muito amor, de vários tipos, certos ou errados. Longos ou breves. Que sejam, então, eternos, enquanto durem. Mesmo que durem só uma hora, a hora da estrela.