Alice no País de Gaudí

A menina acordou. Estava no avião. Seus olhos pesavam depois da noite insone. O cochilo rápido do primeiro voo só serviu para deixa-la ainda mais cansada e confusa. Perdida entre realidades. Em outros dias ela tinha sido a menina do caderninho vermelho, aquele que ganhara logo antes de ganhar também aquela outra viagem. Daquela vez se sentia como uma outra menina de capa vermelha, gorro vermelho, em missão, cumprindo obrigação e à espreita do lobo, mau ou não. Abriu a bolsa e tirou o caderninho. Dessa vez ele não era vermelho, era colorido, multicor. Na frente havia um desenho desconstruído de uma menina loira, uma pena de pássaro azul nos cabelos, um bico amarrado ao rosto. Aquele caderno não era ganhado, mas escolhido pela menina. Aquela viagem não era ganhada, era escolhida pela menina. A primeira vez que Alice vai ao País das Maravilhas é ao acaso, por assim se dizer. Mas depois não. Depois é porque quer. Porque precisa se reencontrar. Enfrentar suas guerras, e ganhar. Dessa vez a menina era Alice por escolha.

A menina sentou no sofá e ajeitou os cabelos molhados sobre o ombro esquerdo. Olhava a TV, era o penúltimo jogo da copa do mundo. Já não se importava com o resultado, não faria diferença alguma aquele placar da partida pelo terceiro lugar. Apesar de uma certa exaltação por parte dos telespectadores mais assíduos, a conversa começou. O que ela pensava? Difícil dizer assim, simplesmente em palavras. Sua mente se dividia em várias dela mesma. Uma queria acompanhar o placar, outra queria fazer amigos, uma terceira lutava contra o sono, e aquela, aquela desconfiada lá do fundo, se percebia Alice no país de Gaudí.

Perdida, maravilhada, desconcertada entre o sonho e a realidade. Que lugar era aquele, onde os próprios prédios da cidade pareciam acompanhar a dissolução de cores e formas de sua mente fértil? Incrível perceber que outros podiam compartilhar daquela loucura lúdica, disforme, surrealista, sutil e florida, de seu eu mais profundo. Se para a menina sempre foi difícil distinguir entre sonho e realidade, nessa cidade isso tornara-se impossível. Só umas duas bolhas na sola do pé, com aquela dor leve e constante, quase imperceptível, para mantê-la com os pés no chão.

Alice havia tomado conta. E ela passava pelas portas minúsculas e era também gigante, sem ao menos precisar comer ou beber nada mágico. Gol. Olhou o placar e percebeu o quão distante dalí estava. Talvez estivesse com Dalí e seus bigodes. Aquele era um pequeno mundo de bigodes, afinal de contas. A conversa continuava. Aos pouquinhos algumas palavras foram trazendo a menina à superfície e deixando Alice e Dalí no fundo de sua mente. Algumas daquelas palavras soavam mais claramente do que outras e ela ia utilizando-as para se recompor.

Saiu e voltou a sala dos bigodes quase sem perceber. A TV desligada, o jogo findo, nada importante. Era esse o jogo de ontem ou o de hoje? A Copa acabou? Parecia que sim. O placar não era importante, e nem mesmo o vencedor. As palavras que ressoavam eram a respeito da comida, da pizza, e de se essa era de queijo ou se tinha presunto. A menina não comia presunto, e, dessa vez, não era a única ali. Os dias se mesclavam, o ontem, o hoje e o amanhã. O real e o irreal. Fantasia, imaginação e realidade. Em parte porque a menina estava vivendo o sonho, em parte porque o sonho era real, e sempre porque ela era também Alice.

Os fogos de artifício eram de hoje ou de ontem? A praia tinha areia fria, mas o ar era quente. A cidade cheirava a férias. Havia uma alegria e uma leveza no ar que manteriam seus lábios com as quinas elevadas pelos próximos dias, assim como tinham feitos nos anteriores. Ela era feliz. Ponto. Era feliz sem precisar de um porquê. O mundo era seu, e ela finalmente reclamava seu pedaço com passos certeiros por rotas incertas. Percorria caminhos conhecidos pela primeira vez e se sentia em casa longe dela. Talvez estivessem certos, e ela fosse nômade e sua casa fosse onde seu coração está. Sempre eles. Sempre sua música. A noite, a praia, os rostos desconhecidos, exalando amizade e receptividade. E em sua mente as conversas, as trilhas, os mapas, os rumos, as possibilidades. Quanto mais longe ela ia, mais queria ir. Perder-se nas maravilhas daquele e de outros países. Como voltar? Não fisicamente, mas mentalmente? Talvez nem Absolem tivesse resposta dessa vez.

Acordou e foi tomar café, de pijama ainda, apesar da coletividade local. Conversaram de novo. Sempre um livro em mãos, como um farol a lhe guiar. Era raro não serem as suas mãos e seus olhos os que se ocupavam dos livros. Era tão raro, que eram os únicos, entre tecnologias e bigodes. Era seu último dia ali. A conversa fluía como nos dias anteriores. Melhor até. Cada vez melhor. Hoje ela iria a praia. Não como à noite. Entraria nas águas mediterrâneas e saborearia mais essa felicidade. Tinha a trilha sonora pronta. Saíra de casa com esse momento ensaiado. Mas a vida é sempre mais surreal do que a ficção. E apesar de saber disso, sempre se surpreendia.

Já trocada foi rumo ao mar. Mas não foi sozinha, como havia antecipado. Tinha companhia. E as ruas pareciam diminutas. Os minutos eternos. O sol ainda não brilhava. Talvez chovesse. Esse pensamento pingava em sua mente como uma torneira mal fechada, mas sem diminuir seu ânimo, apenas como um lembrete constante. Sentou-se na areia. Sentiu o sol. Já estava com calor após a caminhada. A menina olhou o mar, e perguntou-se, mais uma vez, se era verdade. Se ela era de verdade. Talvez fosse apenas um sonho da mente de alguma outra menina, pronta para dissipar-se com um acordar alheio.

O mar não estava frio e era pouco salgado. Era mar e não oceano. Era a primeira vez que ela entrava num mar não-oceânico. Apesar de ser filha do interior e da terra vermelha, a menina era também um pouco peixe, sempre pronta a testar as águas, embora fosse mesmo pássaro. Continuavam conversando. Quem era aquela pessoa? Seria um chapeleiro maluco? Seria O Chapeleiro Maluco? Ou seria o gato, que some deixando apenas a sombra do sorriso iluminado no escuro? Ouviu as gaivotas e lembrou-se que isso não era importante. Apenas que tinha uma companhia para disfrutar.

Sentou-se na areia, e apesar da brisa leve, deixou o sol secar a pele molhada. As gaivotas captavam seu olhar a cada voo, a cada mergulho. E isso não significava que a conversa não estivesse boa, muito pelo contrário, era uma das mais interessantes dos últimos tempos, a menina-pássaro apenas não podia resistir àquele espetáculo gratuito servido como um banquete, combinação perfeita de imagem, som, gosto, temperatura e tato. E lembrou-se então de ouvir a música que era um dos motivos por estar naquelas areias naquele momento.

Dividiu o fone. Era estranho ter companhia. Era reconfortante ter companhia. Era quase como se ela fosse um alien por ter companhia. Era aquilo real? A realidade é definitivamente mais estranha do que a ficção. Mais caminhadas. Era especialmente raro ter companhia para suas andanças. A menina era acostumada às reclamações que iam de indiretas a significativos nãos na cara ou até mesmo a indiferença quando o convite eram suas caminhadas ou pedaladas. Gostava de ir por ai sem hora para voltar e essa visão não é muito popular.

Subir aquele moro não era sacrifício algum, cada passo uma recompensa. A beleza do lugar maravilhava a menina a cada passo, mesmo já tendo estado ali duas vezes. A menina gostava de andar sem rumo porque o caminho é tão importante, ou mais do que o destino. Alice sabe disso. Alice se descobre Alice não quando chega o final do filme, do livro, da batalha. Mas em cada passo, em cada diálogo, em cada minuto de país das maravilhas. E cada pedacinho daquele dia era uma maravilha digna das sete.

O corpo secava e molhava, entre mar, sal, chuveiro, suor, andanças, ladeiras, piscina e sol.  E o protetor solar. Sim, para a menina era sempre muito importante lembrar do protetor solar. Ela só não sabia que em seu dia de Alice no país de Gaudí até o protetor serviria para tornar a realidade mais fantasiosa que a ficção. A menina começava a perceber que talvez e só talvez aquele fosse seu dia de protagonista. Apesar de ser muitas vezes Alice, nunca se considerou protagonista fora do papel. Era protagonista quando era Sofia. Quando se metamorfoseava em palavras. Mas fora das palavras, não era Sofia, não era Alice, era apenas a menina. Muitas vezes sem nome.

Em seu dia de protagonista, a menina Alice, que naquele momento estava longe de ser Sofia, muito mais viva na realidade fantasiosa do que no papel, serviu-se de um banquete e comeu como uma rainha, vermelha ou branca, até hoje não se sabe. E ao voltar a sala dos bigodes saia das folhas de papel como nunca, penetrando a realidade com força. A menina contemplou sua possível imagem, de bico e pena azul na cabeça, e pousou o lápis. Estava no avião e sua cabeça girava. Seria o sono? Esse seguramente a atormentava. Mas o lápis tornava-a Sofia de novo, empurrando-a para o papel. Confundindo novamente realidade e ficção. A aeromoça avisou que em breve serviriam o jantar. Ou seria o almoço? Entre fusos, falta de sono e muita irrealidade, nada mais parecia ter sentido prático.

Da sala dos bigodes a menina saiu em nova caminhada, de novo acompanhada. Mais que mania de companhia era essa agora? Onde estava a eremita? Andarilha solitária? Ao contemplar o papel, uma nova música, uma velha música, sempre com novos sentidos veio-lhe a mente. E de dentro daquele avião, entre lápis, papel, música e memória, a menina reviveu suas últimas vinte e quatro horas. Às vezes tinha certeza de que estava sendo filmada, como no Show de Truman e questionava com mais veemência a realidade e a fantasia. Talvez por ter a imaginação muito fértil, talvez por ser muito Alice ou muito Sofia, em seu mundo particular, em seu país de maravilhas, a menina tinha muita dificuldade em acreditar na realidade. Era mais fácil acreditar na fantasia.

Como convencer aquela menina, aquela Alice, aquela Sofia, aquela Clarice, aquela Adriana, que castelos e luas cheias, gaivotas e mar, fontes mágicas, prédios tortos e música sincronizada são reais? Impossível! E assim, apesar da pele ardida de sol, dos gostos ainda na boca, dos ouvidos ainda cheios de música, e com os lábios murmurando aquela música, a menina dormiu. Por horas e horas ela dormiu, até regressar a sua casa, a sua realidade. Para sempre perguntando-se se a realidade foi ficção, ou se a ficção pode ser real.

Lembrando-se da sala dos bigodes, a menina se perguntava se foi ela que entrou ali primeiro, sem sequer pedir a menor licença? Ali era todo aquele lugar e lugar nenhum. Ali, era apenas ali, ou era o mundo todo? Ali era a sala dos bigodes ou aquela cidade fantasiosa? Não se sabe, mas nos sonhos da menina naquele avião, permearam tardes há muito sonhadas. E a andarilha solitária lembrou de muitos e muitos anos trás, quando andando sozinha, entre a casa da sua avó e a da sua prima, cantarolava aquela música, na época recém lançada. Na época sem sentido, e se perguntando se algum dia cantaria algumas daquelas palavras por si. Menina Alice perdeu-se e reencontrou-se no País de Gaudí.

Albergue Espanhol

O ano era 2002. Férias de verão. Tinha voltado dos Estados Unidos em julho. Um ano com dois verões. Minha adolescência despontava em seu auge, ao mesmo tempo que começava a estudar à noite, preparação para o vestibular. A vida começava a ficar séria. A vida ia tomando seus contornos sérios não só por conta do vestibular. Na época não tinha consciência, mas hoje sei que foi nesse ano que uma cobra imensa, jiboia ou sucuri, começou sua volta ao meu redor. E que pelos próximos dez anos ela apertaria lentamente esse abraço. Tão lentamente que cada vez que achava que ela tinha chegado ao limite, vinha uma nova volta, mais apertada.

O retorno do câncer do meu pai tinha sido diagnosticado, estávamos nos preparando para uma nova fase de químios e radioterapias. Estava me preparando para o vestibular. Tinha mais do que nunca a sensação de pressa que me atormentaria pela próxima década. Precisava me livrar logo da fragilidade da dependência. Precisava ser dona do meu nariz, das minhas finanças. Precisava estar pronta para ajudar. Precisava estar no topo do mundo. Faculdade impecável, emprego perfeito. Dinheiro para sustentar minha mãe. Ajudar meus avós. Encaminhar a família. E minha liberdade não era um preço a pagar. Não queria ficar ali, presa ao pé da cama, como aquela que não podendo ajudar financeiramente, fica com a colher de sopa numa das mãos e a fralda geriátrica na outra. Tinha pânico desse futuro.

Estudava com unhas e dentes, e cabelos, fios arrancados em tique nervoso e ansiedade, unhas roídas. Dizem que a pessoa está arrancando os cabelos de desespero como uma expressão. Não no meu caso. Cheguei a ter feridas na cabeça. Foi um período de muito desequilíbrio, do qual não me orgulho. Mas nem sempre somos o que queríamos, mas o que damos conta de ser, e naquele momento eu consegui me formar no ensino médio com a segunda maior média da escola, e cabelos de menos. Terminei a faculdade com honras e feridas na cabeça. Cada um faz o que pode, como pode.

Mas eu estava no cinema, com meu irmão. Só eu e ele. Acho que foi a única vez que fomos ao cinema só os dois. Ele tinha um bebê, e estava desempregado na época. Estudava para concursos como um louco, o retorno do câncer do nosso pai pesando triplamente sobre seus ombros de irmão mais velho. Sua esposa viajou para a praia com a mãe e o filho. Depois de casado meu irmão estava sozinho em casa pela primeira vez. Não sei se foi isso, o câncer, ou tudo junto, mas pela primeira vez na vida, dado que convivíamos a pouco tempo, uns quatro anos que ficam pra outra história, ficamos muito, muito próximos. Já nos víamos sempre. Foi graças a meu irmão que começamos a conviver em família, a parte da minha família de pai, mas naqueles dias daquela viagem, eu senti pela primeira vez a parte irmão. Não família completa, não o mais velho que tentava cuidar de mim, um igual, que fazia confissões, sofria e precisava de companhia.

E fomos ao cinema por isso. Para distraí-lo da falta da mulher e filho, para nos distrair da doença, para sermos irmãos. O filme era Albergue Espanhol, no já inexistente e saudoso cinema da Academia de Tênis de Brasília, que na época era conhecido por oferecer filmes fora do circuito hollywoodiano. Amei o filme! Me senti um tanto transgressora por ver aquele filme sem minha mãe, meus pais. Uma sensação de quem começa a ver o mundo com outros olhos. A vontade de se livre e voar por aí doendo no peito. O peso das responsabilidades por vir. Eu era naquele dia uma criatura com as costas coçando, das asas que despontavam, começando a rasgar a pele, louca para voar, mas sem penas ainda. E ao mesmo tempo, o nó da cobra começava a me enrolar. Era um passarinho sem asas que seria abatido antes das penas ficarem longas o suficiente para voar.

Depois do filme tomamos um chocolate no café do cinema, conversando, e ouvi várias confidências do meu irmão, pela primeira vez. Sei que existem dias mágicos na minha vida, e aquele foi um deles. Naquele dia não me senti filha, aluna ou irmã. Me senti ser humano, igual. E sentir isso, naquela idade, foi fundamental para me dar, ao mesmo tempo, força para resistir à cobra, e sonhos, para fazer minhas asas inutilizadas continuarem a crescer, mesmo dentro daquele abraço fatal.

Durante aquele chocolate ouvi as histórias dos dois anos nos quais meu irmão morou na França, depois de terminar a faculdade. Era um tema propício pós filme, e o fazia lembrar-se de dias anteriores aqueles que lhe faziam tanta falta no momento. Para mim eram fagulhas, acendendo meu fogo baixo. Alimentando um fogo que tinha sido acendido naquele verão, ou melhor no inverno daqui e verão de lá. No meu ano com dois verões. Um fogo que eu conheci nas Black Hills, nadando no Sylvan Lake feito pela neve derretida das montanhas. Um fogo que eu conheci enquanto aprendia a fazer dream catchers com a Melissa Two Crows e via uma manada de bisões correr e tremer o chão debaixo do carro em South Dakota.

A brasa já estava ali, e aquele filme, aquelas histórias só serviam para alimentá-la. Alimenta-la platonicamente, lá no plano das ideias. Já que a realidade esmagava loucamente aquela chama, retirando-lhe o oxigênio, retirando de mim a capacidade de respirar, de voar. Eu, que já queria desde o início da adolescência morar sozinha, viajar, ser livre, conhecer o mundo, sair andando por aí, só por andar, só para ver o que existe na outra curva da vida, decidi, naquele dia, que em algum momento iria para um albergue espanhol.

O ano era 2014. Férias de verão. Tinha voltado da Espanha em julho. Um ano com dois verões. Estava no auge dos meus vinte e tantos anos, e a vida adulta começava a me mostrar que eu podia relaxar. Meus pais já não estão mais nesse plano. Meus avós, que me criaram, já não estão nesse plano. Durante dez anos, de 2002 a 2012 aquela cobra gigante apertou seu corpo contra minhas asas. Durante dez anos fui soldado, fui guerreira, fui filha, fui neta, fui irmã. Formei aqui e ali com as melhores notas. Comecei a trabalhar antes de começar a faculdade. E terminei a faculdade trabalhando. Só eu sei a dor que era fazer Relações Internacionais, estudar o mundo e não conhece-lo. Só eu sei a dor de ouvir meus amigos fazendo intercâmbios pela Europa, indo morar em outras cidades, viajando, andando. A cada palavra dita por eles minhas penas se alongavam nas costas, e a cobra apertava forte.

Não havia como ir. Fui enfermeira. Lavei, passei. Fiz comida e supermercado. Fiz companhia. Passei tardes no pé de camas, noites em cabeceiras. Chorei no travesseiro para ninguém ouvir. Sonhei com outras paragens. Em vão. Foi um período de muita submissão. Não submissão a alguém mas à vida. Foi quando aprendi que não importava o quão boa pudesse ser na escola, faculdade ou trabalho, havia outras barreiras, outros problemas. A vida não era uma equação direta, e meus sonhos de boa aluna se desfizeram contra as ondas de um mar cheio de ressaca.

Nesse período tive ao meu lado um soldado, cavaleiro daqueles de cavalo branco. Pronto para salvar uma donzela em perigo. Eu estava em perigo, e dentro do abraço da cobra fui donzela, fui a perfeita donzela, porque estava impedida de ser passarinho. Isso foi essencial para minha tormenta, e durante oito desses dez anos de abraço da cobra, ter um cavaleiro de cavalo branco foi meu porto seguro. Exatamente isso, um porto seguro na tempestade. A cobra já tinha me dado dois anos de voltas quando nos conhecemos. Eu já era um passarinho preso, e não sabia ainda. Fui então donzela.

Dez anos depois me vi só. A cobra e eu, num perto final, morremos juntas. Eu nunca vi o ônibus que nos acertou. Mas vi a luz. Juro que vi. E não era uma luz mágica na qual anjos me revelavam o sentido da vida. Era a luz de quem reabre os olhos. E quando os reabri, foi com as costas queimando nos rasgos dos cacos de vidro sobre a maca metálica do hospital, com a cabeça aberta, reabri nos os olhos de quem sofreu um acidente. Reabri os olhos de quem não mais tinha uma cobra lhe apertando e retirando o fôlego. Ali, lentamente, eu comecei a abrir minhas nunca dantes utilizadas asas.

Demorou alguns meses, veja bem, eu estava literal e metaforicamente quebrada. Mas aos pouquinhos fui me consertando. Já tinha as ferramentas, fornecidas muitos anos antes do abraço fatal, pelo meu eterno Geppetto, Magico de Oz. Ele, que me ensinou tudo, menos a brigar. Me tornei um ser corajoso e pacifico, capaz de resistir aos golpes, mas incapaz de revidá-los. Mas uma excelente reparadora de seres quebrados. Enfermeira por necessidade, sonhadora no âmago.

E minhas asas, ainda necessitando de muito apoio e ainda sobre efeitos da minha medicação homeopática, daqueles super eficientes, mas que me exigiu meses antes de fazer afeito, fui parar em Londres, em 2013. E lá, estiquei minhas asas, e sobrevoei o Lago Ness, na Escócia, e sobrevoei a London Bridge, me perdi na neve e me encontrei nos trens, nas pegadas, no frio, na solidão. Voltei em paz. Em paz com minha guerra, como diria Skank (para não fugir das citações). E sozinha me reestruturei. E ao longo de mais um ano fui experimentando minhas asas, sendo que o primeiro passo foi dar um toque de realidade estampando-as de fato, num arranjo lindo, no qual virei passarinho de vez, com o sopro da música dos meus pais eternamente sobre meu ombro direito. Assim posso sentir a mão da minha mãe sobre meus ombros, alongando minhas asas, trazendo ventos mornos musicais que as ajudem a alçar voo.

O ano era 2014. E em mais um ano com dois verões, eu, finalmente, fui para um albergue espanhol. Saí daqui para lá com a trilha sonora pronta, graças ao novo álbum dos meus queridos, exaltando as areias de Barceloneta. Poucas roupas, poucas coisas, afinal, para voar, é importante ser leve. E foi, até agora, um dos mais belos voos. Indo sozinha, não estive sozinha em momento algum. E não sei, se naquele albergue, fui eu que entrei, ou se ele já estava ali, sei que não estava de batom caqui, mas sonhei com tardes impossíveis, aquecidas pelo sol, com gosto de nectarina, sal e piscina. E minha trilha se desfez e refez, acrescentando versos que me faziam querer fugir e ao mesmo tempo nunca mais sair dali.

Dizem que a gente nunca volta a mesma pessoa de uma viagem. Estão certos. Há doze anos atrás as Black Hillls e os Sioux me ensinaram isso. Hoje o albergue espanhol confirmou. Eu não sei onde minhas asas ainda vão me levar, mas agora já às testei e sei que são capazes de longos voos. E embora eu tenha demorado para começar a usá-las, pretendo que tenham vida longa e se mantenham exercitadas. Sempre me senti nômade no coração, e, embora tenha viajado todos os anos da minha vida, praticamente, as temporadas nunca ultrapassaram um mês fora. Ainda tenho amarras de responsabilidade. Mas vou voando, para ver até onde dá para ir. E de preferência, ir além, sempre. Sempre passarinha!