Panetone e outras histórias

O panetone era chique, coberto de glacê e gotas de chocolate preto e branco. Massa amanteigada, padaria francesa. As palavras ecoavam na cabeça: “Leva para casa e come com sua família”, e enquanto isso eu ia tirando ele da caixa no trabalho mesmo, cortando e oferecendo aos colegas. Afinal, aquela era, também, minha família, pelo menos nos últimos três anos.

Existem várias formas de alguém passar por esse sentimento. O de estar só. Não digo o da solidão. Nunca fui solitária. É o estar só cotidianamente mesmo. Algumas pessoas já nasceram em famílias pequenas e atribuladas por tarefas, o que sempre as tornou sós. Eu vim de uma família enorme. E ao mesmo tempo fui filha única. Tenho dois irmãos e nunca dividi casa com eles. Ao mesmo tempo, dividia meu castelo encantado cerca de três dos sete dias da semana com outros onze primos reais. A família grande nunca deixou espaço para o estar sozinha dessa forma.

Passei inúmeras manhãs de sol e tardes de chuva só em casa, conversando com passarinhos nas árvores, esperando piratas atracarem no mini píer do fim do jardim, lendo incontáveis livros, jogando jogos de dois mesmo sendo só uma. Mas nunca estava só, não no sentido prático. Sempre tinha comida e gente cozinhando, e alguém para fazer um barulho, por uma música, ver uma TV ao fundo. Um cachorro para latir, vários passarinhos para acompanhar o som do vento.

Um dia isso muda. Às vezes, simplesmente porque as pessoas saem de casa e moram sozinhas. Às vezes porque perdem os pais. Às vezes porque fazem uma viagem, um curso no exterior, um intercâmbio, mudam de cidade, ou qualquer outro motivo que às separe da rotina na qual cresceram. Eu vivenciei todos esses motivos. Aprendi com alguma dificuldade, visto que vim daquele background de doze primos em casa todos os fins de semana, a fazer comida para um. A doar todos os presentes de páscoa, dia dos professores e Natal, quando são comida. Compartilha-los com a família do dia a dia, que são os colegas de trabalho.

Isso também gera a sensação de dominação total do espaço. Hoje, meus vinte e nove metros quadrados não se comparam ao castelo de três andares, piscina e quintal tamanho semi fazenda, indo até a beira do lago no qual cresci. Mas eles são todos meus. Cada milímetro quadrado de espaço é decidido exclusivamente por mim. Decorado, limpo ou sujo, cheio ou vazio, bonito ou feio, meu, e só meu. E quando vim apoderar-me desses poucos metros, tão meus, pude fazer algo até então inédito, que era ser ditadora do meu reino de uma pessoa só. E por isso, curti cada segundo das decisões tomadas à um. Decorei, arrumei e perfumei ao meu gosto, e só meu.

Por que isso, Jurema? Não pergunto o porquê desse cuidado com seus metros, mas o porquê de contar. Bem, respondo-lhe, Jurema, porque ouço de todos os que aqui vem que sou muito organizada. Até a faxineira já me disse mais de uma vez que gosta muito de vir limpar minha kit uma vez na semana, pois ela é a mais organizada do prédio. Agradeço os elogios, aos quais fico um pouco cética, e também um pouco constrangida. Em especial porque não faço questão e nem esforço para que seja assim. É simplesmente o fato de poder cuidar do que é meu, e tornar meus dias mais floridos, mais apassarinhados, mais coloridos e iluminados.

Quando vim dominar meu império de menos de trinta metros quadrados, vim muito fragilizada, muito dolorida. Precisava provar para mim mesma, e consequentemente para o mundo, que era capaz de ser só. E nesse impulso não quis criar para mim um centro de refugiados de uma pessoa só, quis e criei um lar. Hoje sei, e tenho uma confiança enorme em mim mesma, que sou capaz de ter um lar, completo, bonito, arrumado, cheiroso, com comida, roupa lavada, só para mim. E essa certeza, essa confiança me cobriram de toda a proteção que a Jurema fragilizada precisava. Hoje sei que posso rodar o mundo, a pé ou de avião, sozinha ou acompanhada, que, meu lar, eu levo comigo.

Não são pelos vinte e nove metros decorados. É pela certeza de que minha alma vive num lugar florido, colorido, apassarinhado e feliz. Seja lá onde isso for. E que eu não estou solitária nunca, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Às vezes gosto muito de ficar sozinha. Nem conseguiria me abrir em palavras aqui, caso não tivesse esse tempo e esse espaço, onde só existimos eu, meus dedos frenéticos, o teclado do computador e minha caneca de chá. Sim, claro, o chá é o combustível imprescindível para as minhas manhãs de desabafos coletivos, onde despejo sentimentos convertidos em palavras ao vento.

E enquanto ia lendo um pouco do último livro que ganhei, pernas pro ar naquela sala dos professores, à espera de uma grande amiga para um almocinho de sábado, ia assistindo ao panetone de glacê e gotas de chocolate preto e branco ir sendo consumido, pedaço a pedaço por todos aqueles que de alguma forma são, foram, ou ainda serão minha família do dia a dia. Aquele foi meu último dia, pelo menos dessa fase, naquela sala, naquela família. E me dividi em forma de panetone. O mundo é definitivamente redondo e gira.

Em 2012 passei por talvez o pior ano da minha vida. Perdi minha voz de mel para outra dimensão, quebrei a cabeça, literalmente, e reordenei por motivos externos minha vida, pelo menos umas três vezes. Mudei de emprego, quando estava profundamente desiludida com minha capacidade de ser internacionalista. Mudei para a casa dos meus tios, como uma refugiada de sentimentos, que vai para onde a acolhem, saindo de onde já não há mais amor. Perdi o prazo de um edital, tive que adiar o sonho de um mestrado, com um mês de tylenol de seis em seis horas na cabeça quebrada. Vi pela última vez, no último dia desse ano cruel, aquele que foi meu príncipe no cavalo branco, por mais de oito anos.

Fosse eu outra, fosse o roteiro da minha vida menos incrível, fosse o mundo menos humanamente bondoso comigo, e 2013 eu seria uma pessoa extremamente depressiva e descrente da vida. Quiçá viva. Mas eu adormeci num avião e 2013 amanheceu na neve. Se algum dia eu já ganhei um presente que posso dizer que definitivamente me salvou a vida, foi aquele curso e aquela viagem. Por eles, e por tudo o mais, agradeço aos meus quatro cavaleiros reais, minha cavalaria muito mais eficiente que o exército de águias do Hobbit, muito mais invencível que qualquer herói de qualquer filme de realidade fantástica. Meus Reis sabem compor uma vida irreal como ninguém.

E no frio eu me encontrei, e de volta ao calor eu resolvi conquistar meu espaço não mais de refugiada dos sentimentos, mas de dona, plena, rainha deles. E fiz meu reino no alto de uma minúscula torre, onde a felicidade se faz presente todos os dias, só para mim. E fiz amigos novos, e encontrei os velhos várias vezes, e saí, e vi o mundo, viajei, tanto, que em 2014 tive que renovar. Fui obrigada a trocar de bicicleta, de bota de trilha, de mochila de viagem e de casaco impermeável. Mês após mês refiz meu kit de aventuras, porque os antigos já não aguentavam o meu novo ritmo.

E nesse processo eu aprendi a viver da minha própria renovação. Aprendi a conquistar o mundo com um passo depois do outro. Aprendi a compartilhar minhas aventuras com desconhecidos de passagem, e com velhos amigos, fosse através de uma foto, uma rede social, uma conversa de bar, uma saída, uma festa, uma viagem, uma trilha, um banho de piscina. E em 2014 colhi frutos inesperados. Se em 2013, eu semeei todo esse amor em mim mesma, em 2014, dei frutos. Doces e muito melhores do que eu jamais podia esperar. Meu presente de Natal eu venho ganhando dia após dia ao longo desse ano.

Amizades lindas e eternas, pessoas em quem confio profundamente, amigos para toda hora. Aprendizados incríveis, saltos na carreira, títulos novos adquiridos, certificados e diplomas. Muitas ferramentas novas. Muitos livros novos, muitos mundos novos. Países novos, carimbos novos no passaporte. Até a carteira de motorista tive que renovar. E lá se vai a comprovação de que já tenho dez anos de motorista. Com alguns quilos a menos, fui obrigada a renovar o guarda-roupa também. Com a certeza de qual carreira quero perseguir, essa renovação foi bem-vinda, e pude me desfazer de algumas fantasias que sei que não vou precisar usar. Não vou precisar me travestir de alguém que não sou, e conseguirei assim mesmo seguir com minha vida. Outras fantasias, ditas mais convencionais, eu adicionei ao guarda-roupa, feita a mão, diretamente do meu imaginário para a realidade, prima-irmã do blog, onde Sofio-me e Alice me torno.

O mestrado chegou, e um novo amor também. 2015 ainda não chegou, mas já se anunciou em ventos tão bons. Minha casa é onde está meu coração, já dizia Skank, já citei eu mesma tantas vezes aqui. E voo nas asas que criei para mim mesma, que tão lentamente abri, que tão simbolicamente desenhei. O panetone acabou antes que saísse pro almocinho. Minha família de dia a dia tecia comentários eventuais sobre a massa, a manteiga ou o açúcar. Saí sem me despedir. A despedida oficial foi na quinta-feira, alguns dias antes. Não quero o sabor amargo das lágrimas tristes, quero a visão limpa e clara das lagrimas felizes. E o doce do panetone em suas bocas. De 2014 tenho uma coisa a dizer: MUITO OBRIGADA!

Sofia

O ano era 2014, o dia era o exato primeiro de Janeiro. A menina se sentia como um pássaro na gaiola, dentro de casa desde o ano anterior. Eram quatro da tarde. A menina olhou para sua mesa. Havia um livro, novo. Ela havia comprado a livro a algumas semanas, mas não abriu. Mas aquele era um ano novo, que pedia novos começos. Ela pegou o livro e saiu rápido de casa, com a roupa do corpo, e dirigiu sem rumo, porém com pressa. Como o coelho, que nem sempre sabe para onde vai, mas está sempre atrasado. Ela desceu na frente do portão do parque. Visualizou em flashes rápidos primeiro os tijolos do calçamento e logo depois a terra, passando sob seus pés ágeis. Parou de súbito e viu a pequena lagoa, sentou-se no banco. À seu lado apenas o livro novo: Vida Querida. Riu de sua própria escolha. Sim, a vida deveria ser querida. E nada como um novo ano para começar a amar aquela sua vida de novo. Ela sabia que nada era por acaso. Embora às vezes não acreditasse em tudo, pois tudo parecia demais para ela.

Respirou fundo e se acalmou. A pressa passou. Sentiu o vento no rosto, ouviu sua música nas folhas das árvores sobre sua cabeça. Ouviu os patos no laguinho. Voltou ao presente. E se perguntou, porque precisava tanto das árvores, do lago e dos pássaros para se sentir bem, se sentir livre. E então, numa inspiração, a menina foi do futuro para o presente, e numa expiração do presente para o passado. E logo ela não estava com sua vida querida no parque, mas sim com uma outra vida, que também era sua e muito mais querida, ela estava no jardim de seu castelo. Claro, ela cresceu num enorme jardim. Como não se acalmar em meio às árvores? Ela respirou e lembrou.

A pequena Alice corria pela grama, ouvindo o incrível e cotidiano dueto de sua mãe com os pássaros no jardim. Estavam afastadas do castelo, quase na beira do lago. Não aquela pequena lagoa do parque, mas o grande lago da cidade, que também era margeado por seu antigo e querido jardim. Ela olhou uma árvore e decidiu tentar subir nos seus galhos. Mas naquele momento, a menina era uma Alice muito pequena, e ela olhava a árvore como quem olha uma montanha, e não subia de fato, mas se via subindo como em um sonho. Absolem estava lá também, inebriado pelo dueto mulher-pássaros, e notou os esforços precários de Alice. E fez o que é seu papel de Absolem, se virou para Alice e lhe perguntou porque ela não subia na árvore. Ela disse que estava tentando, e ele retrucou perguntando o que a impedia. Desafiada, Alice subiu. E não digo subiu somente naqueles galhos que namorava alguns minutos antes, mas subiu até o topo da copa, até os galhos mais finos, e se sentiu como quem conquista o Monte Evereste.

Depois daquele dia a vida da pequena Alice nunca mais foi a mesma, pois naquele dia ela fez uma amizade muito especial, como nenhuma outra que ela teve até então, naquele dia, a menina ficou amiga de uma árvore. E todos os dias, depois da escola e dos deveres, a menina corria pela grama, descalça, e escalava seu novíssimo e muito próprio castelo, que era aquela árvore. Com o passar dos dias, os pássaros já não mais se assustavam, e continuavam onde estavam, entre as folhas, conforme Alice se aninhava com eles, e assim suas tardes eram embaladas pelo suave balanço dos galhos ao vento. A menina tinha um companheiro, seu irmão canino, muito amado pela mãe de voz de mel, um belíssimo labrador branco amarelado, que era companheiro infalível dela e da mãe. Todas as vezes que a menina saia em direção a sua árvore ele ia atrás, e por quanto tempo ela ficasse aninhada em sua copa, ele estaria deitado em sua sombra, aguardando a hora de retornar ao castelo. Um verdadeiro e fiel escudeiro.

No castelo havia seis pés de manga, de três tipos diferentes. Desde que a menina se dava por gente, apenas cinco presenteavam seus habitantes com mangas. O sexto era sua árvore. Um dia, Alice estava entre os galhos e viu as mangas se formando. Não achou nada de estranho, e por isso não comentou com ninguém. Algum tempo depois ela adentrou o castelo com uma manga na mão e outra entre os lábio, já pela metade. A rainha estava presente e pediu a neta que lhe desse a manga da mão. Sentaram-se na cozinha e lancharam aquelas mangas ao sol da tarde. Na segunda mordida a rainha olhou fixamente para Alice e perguntou: “Essa manga é da sua árvore?”, já sabendo a resposta. A menina respondeu que sim, sem entender, mas via nos olhos da avó um sorriso raro. A rainha então esclareceu que aquela era uma manga-espada, a mais doce, mais tenra e sem fiapos, de todas as mangas que ela havia plantado ali muitos e muitos anos antes. E concluiu: “Só que nunca havia comido uma manga daquela árvore antes, ela nunca deu.” E sorriu. A menina entendeu, e agradeceu. Não à avó, mas à vida, querida.

Com o passar dos anos aquela amizade entre menina e árvore só crescia. E logo tornou-se seu local de leitura preferido. Escondia-se entre as folhas e lia livros inteiros, encarapitada em meio aos galhos. Sempre com seu fiel escudeiro aos pés. Não seus pés, mas aos pés da árvore. E sua saga literária começou. E a menina, já não tão menina, olhava a Vida Querida nas mãos, no parque, em 2014, e pensava, será que sou eu que reparo demais? Vejo coincidências onde não existem? Ou minha vida é assim mesmo? Isso porque a menina leu Harry Potter quando tinha onze anos, e, literalmente, cresceu com aqueles personagens, ano a ano. Claro, por questões de praticidade a autora demorou mais de sete anos para escrever os sete livros e a menina já contava vinte e um verões quando seus amigos literários chegaram aos dezessete, mas foram contemporâneos no melhor uso da palavra. E quando lia um livro triste, chovia, e quando lia um alegre, fazia sol, e quando lia uma poesia os pássaros cantavam.

Aos quinze ela ganhou da amiga O Mundo de Sofia. E sim, a menina ganhou o mundo. Pegou aquele livro grosso e correu para sua árvore, acompanhada de seu escudeiro. Abriu as páginas e leu no primeiro capítulo que Sofia era uma menina que recebia pelo correio lições de filosofia, que ela lia entre as folhas de uma sebe no jardim, acompanhada de seu labrador branco, e que suas lições começaram a chegar no ano em que completaria quinze anos. A menina, que já tinha lido Alice entre os galhos da árvore, fechou o livro. Lançou um olhar cheio de suspeitas para seu fiel escudeiro, e dia após dia, tornou-se também Sofia. O autor entrou rapidamente para sua lista de favoritíssimos, e a menina continuou a ver o que parecia serem os vários mundos dentro do mundo. E nunca soube se ela se deixava levar pela imaginação mais do que o normal, se lia demais, ou se sua mente é que expandia com cada um daqueles livros e suas coincidências.

Um velho. A menina teve sua visão da lagoa no parque, em 2014, subitamente bloqueada por um velho, que saiu abruptamente da trilha e parou em sua frente. Só então reparou que havia um garoto sentado na outra extremidade do banco. O velho queria desejar um ano bom, que os jovens fizessem o bem! A menina agradeceu educadamente, ainda um pouco assustada pelo acontecimento súbito. O garoto então disse: “Essas coisas aleatórias acontecem muito com você, né!”, não era uma pergunta, era uma afirmação. A menina não conhecia aquele garoto. Ela assentiu, conversou um pouco e depois foi embora do parque, pois o anoitecer já rondava. E ao ir embora pensou, sim vida querida, esse ano, pelo visto será cheio, e as coisas aleatórias estão cada vez mais óbvias e visíveis.

E embora o ano ainda esteja em seu primeiro trimestre, Alice já esbarrou no coelho, com pressa, e até mesmo sem pressa, em outros recantos, ou miolos, da cidade. E cada nova música que a menina ouve no início ou fim de cada dia, a cada canto de pássaro, a cada página lida de cada livro novo, cada vez mais a menina vê as palavras do seu script pessoal no ar da vida, querida. E as realidades se misturam. E só agora, mais de dez anos depois, Alice percebe que sim, a Sofia saiu das páginas de um livro, e virou vida. E assim, enquanto a menina, agora Sofia, sai do livro para a vida, a vida torna-se livro, nas mãos da Alice Sofia.