Panetone e outras histórias

O panetone era chique, coberto de glacê e gotas de chocolate preto e branco. Massa amanteigada, padaria francesa. As palavras ecoavam na cabeça: “Leva para casa e come com sua família”, e enquanto isso eu ia tirando ele da caixa no trabalho mesmo, cortando e oferecendo aos colegas. Afinal, aquela era, também, minha família, pelo menos nos últimos três anos.

Existem várias formas de alguém passar por esse sentimento. O de estar só. Não digo o da solidão. Nunca fui solitária. É o estar só cotidianamente mesmo. Algumas pessoas já nasceram em famílias pequenas e atribuladas por tarefas, o que sempre as tornou sós. Eu vim de uma família enorme. E ao mesmo tempo fui filha única. Tenho dois irmãos e nunca dividi casa com eles. Ao mesmo tempo, dividia meu castelo encantado cerca de três dos sete dias da semana com outros onze primos reais. A família grande nunca deixou espaço para o estar sozinha dessa forma.

Passei inúmeras manhãs de sol e tardes de chuva só em casa, conversando com passarinhos nas árvores, esperando piratas atracarem no mini píer do fim do jardim, lendo incontáveis livros, jogando jogos de dois mesmo sendo só uma. Mas nunca estava só, não no sentido prático. Sempre tinha comida e gente cozinhando, e alguém para fazer um barulho, por uma música, ver uma TV ao fundo. Um cachorro para latir, vários passarinhos para acompanhar o som do vento.

Um dia isso muda. Às vezes, simplesmente porque as pessoas saem de casa e moram sozinhas. Às vezes porque perdem os pais. Às vezes porque fazem uma viagem, um curso no exterior, um intercâmbio, mudam de cidade, ou qualquer outro motivo que às separe da rotina na qual cresceram. Eu vivenciei todos esses motivos. Aprendi com alguma dificuldade, visto que vim daquele background de doze primos em casa todos os fins de semana, a fazer comida para um. A doar todos os presentes de páscoa, dia dos professores e Natal, quando são comida. Compartilha-los com a família do dia a dia, que são os colegas de trabalho.

Isso também gera a sensação de dominação total do espaço. Hoje, meus vinte e nove metros quadrados não se comparam ao castelo de três andares, piscina e quintal tamanho semi fazenda, indo até a beira do lago no qual cresci. Mas eles são todos meus. Cada milímetro quadrado de espaço é decidido exclusivamente por mim. Decorado, limpo ou sujo, cheio ou vazio, bonito ou feio, meu, e só meu. E quando vim apoderar-me desses poucos metros, tão meus, pude fazer algo até então inédito, que era ser ditadora do meu reino de uma pessoa só. E por isso, curti cada segundo das decisões tomadas à um. Decorei, arrumei e perfumei ao meu gosto, e só meu.

Por que isso, Jurema? Não pergunto o porquê desse cuidado com seus metros, mas o porquê de contar. Bem, respondo-lhe, Jurema, porque ouço de todos os que aqui vem que sou muito organizada. Até a faxineira já me disse mais de uma vez que gosta muito de vir limpar minha kit uma vez na semana, pois ela é a mais organizada do prédio. Agradeço os elogios, aos quais fico um pouco cética, e também um pouco constrangida. Em especial porque não faço questão e nem esforço para que seja assim. É simplesmente o fato de poder cuidar do que é meu, e tornar meus dias mais floridos, mais apassarinhados, mais coloridos e iluminados.

Quando vim dominar meu império de menos de trinta metros quadrados, vim muito fragilizada, muito dolorida. Precisava provar para mim mesma, e consequentemente para o mundo, que era capaz de ser só. E nesse impulso não quis criar para mim um centro de refugiados de uma pessoa só, quis e criei um lar. Hoje sei, e tenho uma confiança enorme em mim mesma, que sou capaz de ter um lar, completo, bonito, arrumado, cheiroso, com comida, roupa lavada, só para mim. E essa certeza, essa confiança me cobriram de toda a proteção que a Jurema fragilizada precisava. Hoje sei que posso rodar o mundo, a pé ou de avião, sozinha ou acompanhada, que, meu lar, eu levo comigo.

Não são pelos vinte e nove metros decorados. É pela certeza de que minha alma vive num lugar florido, colorido, apassarinhado e feliz. Seja lá onde isso for. E que eu não estou solitária nunca, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Às vezes gosto muito de ficar sozinha. Nem conseguiria me abrir em palavras aqui, caso não tivesse esse tempo e esse espaço, onde só existimos eu, meus dedos frenéticos, o teclado do computador e minha caneca de chá. Sim, claro, o chá é o combustível imprescindível para as minhas manhãs de desabafos coletivos, onde despejo sentimentos convertidos em palavras ao vento.

E enquanto ia lendo um pouco do último livro que ganhei, pernas pro ar naquela sala dos professores, à espera de uma grande amiga para um almocinho de sábado, ia assistindo ao panetone de glacê e gotas de chocolate preto e branco ir sendo consumido, pedaço a pedaço por todos aqueles que de alguma forma são, foram, ou ainda serão minha família do dia a dia. Aquele foi meu último dia, pelo menos dessa fase, naquela sala, naquela família. E me dividi em forma de panetone. O mundo é definitivamente redondo e gira.

Em 2012 passei por talvez o pior ano da minha vida. Perdi minha voz de mel para outra dimensão, quebrei a cabeça, literalmente, e reordenei por motivos externos minha vida, pelo menos umas três vezes. Mudei de emprego, quando estava profundamente desiludida com minha capacidade de ser internacionalista. Mudei para a casa dos meus tios, como uma refugiada de sentimentos, que vai para onde a acolhem, saindo de onde já não há mais amor. Perdi o prazo de um edital, tive que adiar o sonho de um mestrado, com um mês de tylenol de seis em seis horas na cabeça quebrada. Vi pela última vez, no último dia desse ano cruel, aquele que foi meu príncipe no cavalo branco, por mais de oito anos.

Fosse eu outra, fosse o roteiro da minha vida menos incrível, fosse o mundo menos humanamente bondoso comigo, e 2013 eu seria uma pessoa extremamente depressiva e descrente da vida. Quiçá viva. Mas eu adormeci num avião e 2013 amanheceu na neve. Se algum dia eu já ganhei um presente que posso dizer que definitivamente me salvou a vida, foi aquele curso e aquela viagem. Por eles, e por tudo o mais, agradeço aos meus quatro cavaleiros reais, minha cavalaria muito mais eficiente que o exército de águias do Hobbit, muito mais invencível que qualquer herói de qualquer filme de realidade fantástica. Meus Reis sabem compor uma vida irreal como ninguém.

E no frio eu me encontrei, e de volta ao calor eu resolvi conquistar meu espaço não mais de refugiada dos sentimentos, mas de dona, plena, rainha deles. E fiz meu reino no alto de uma minúscula torre, onde a felicidade se faz presente todos os dias, só para mim. E fiz amigos novos, e encontrei os velhos várias vezes, e saí, e vi o mundo, viajei, tanto, que em 2014 tive que renovar. Fui obrigada a trocar de bicicleta, de bota de trilha, de mochila de viagem e de casaco impermeável. Mês após mês refiz meu kit de aventuras, porque os antigos já não aguentavam o meu novo ritmo.

E nesse processo eu aprendi a viver da minha própria renovação. Aprendi a conquistar o mundo com um passo depois do outro. Aprendi a compartilhar minhas aventuras com desconhecidos de passagem, e com velhos amigos, fosse através de uma foto, uma rede social, uma conversa de bar, uma saída, uma festa, uma viagem, uma trilha, um banho de piscina. E em 2014 colhi frutos inesperados. Se em 2013, eu semeei todo esse amor em mim mesma, em 2014, dei frutos. Doces e muito melhores do que eu jamais podia esperar. Meu presente de Natal eu venho ganhando dia após dia ao longo desse ano.

Amizades lindas e eternas, pessoas em quem confio profundamente, amigos para toda hora. Aprendizados incríveis, saltos na carreira, títulos novos adquiridos, certificados e diplomas. Muitas ferramentas novas. Muitos livros novos, muitos mundos novos. Países novos, carimbos novos no passaporte. Até a carteira de motorista tive que renovar. E lá se vai a comprovação de que já tenho dez anos de motorista. Com alguns quilos a menos, fui obrigada a renovar o guarda-roupa também. Com a certeza de qual carreira quero perseguir, essa renovação foi bem-vinda, e pude me desfazer de algumas fantasias que sei que não vou precisar usar. Não vou precisar me travestir de alguém que não sou, e conseguirei assim mesmo seguir com minha vida. Outras fantasias, ditas mais convencionais, eu adicionei ao guarda-roupa, feita a mão, diretamente do meu imaginário para a realidade, prima-irmã do blog, onde Sofio-me e Alice me torno.

O mestrado chegou, e um novo amor também. 2015 ainda não chegou, mas já se anunciou em ventos tão bons. Minha casa é onde está meu coração, já dizia Skank, já citei eu mesma tantas vezes aqui. E voo nas asas que criei para mim mesma, que tão lentamente abri, que tão simbolicamente desenhei. O panetone acabou antes que saísse pro almocinho. Minha família de dia a dia tecia comentários eventuais sobre a massa, a manteiga ou o açúcar. Saí sem me despedir. A despedida oficial foi na quinta-feira, alguns dias antes. Não quero o sabor amargo das lágrimas tristes, quero a visão limpa e clara das lagrimas felizes. E o doce do panetone em suas bocas. De 2014 tenho uma coisa a dizer: MUITO OBRIGADA!

A nostalgia do fim de ano: O Natal da Saudade

Hoje estou extremamente nostálgica. Estaria preocupada não fosse o já marcado almoço de Natal de família para amanhã, que me garante que suprirei boa parte dessa nostalgia, já que em festas de família, não há nada mais padrão do que ver fotos antigas, comparar o evento com os de anos anteriores e rever membros da família que não víamos a meses. Gosto de tudo isso, de todo o clichê envolvido, da poesia que existe na poeira levantada desses momentos. Mas além disso tudo existe uma outra nostalgia, um outro nível de nostalgia que me ataca nessa época.

Sempre fui uma pessoa muito nostálgica desde a infância, e contemplativa. Tenho essa tendência a observar momentos e depois revivê-los em minha mente, saboreando-os, perfumando-os, esmerilando-os. Contando a estória da história, e muitas vezes modificando-a um tantinho para guardar uma memória romanceada, com direito a filtros de cor e luz e trilha sonora, e que fique bem claro, minha mente já fazia isso muitos e muitos anos antes do Instagram.

Todo ano, quando começam a aparecer as luzes de Natal é como se se abrisse um portal. Como se os mundos se conectassem, e um pouco do meu mundo mágico pessoal, da literatura e da música, onde habitam todos os meus amigos e paragens mais queridos, migrasse um pouco para essa terra média, e especialmente durante o nascer e pôr do sol, eu estivesse com um pé na realidade e outro na fantasia. Isso faz com que eu tenha muita saudade de coisas que nunca vivi. São os momentos que sinto como se estivesse estudado em Hogwarts e estivesse saudosa do Baile de Inverno. Ou como se alguém tivesse deixado a porta do guarda-roupa aberta e os ventos nevosos de Nárnia estivessem invadindo meu verão chuvoso brasiliense.

E ao mesmo tempo sinto falta das histórias contadas pela vó na frente da lareira. Sinto uma falta que dói dos meus avós e sinto de verdade o cheiro dos ramos de cipreste molhados de chuva que podávamos do jardim e usávamos pra decorar a melhor árvore de Natal de todo o mundo, que era de mentira e de verdade ao mesmo tempo, trazendo o cheiro do Natal para dentro da sala sem matar árvore nenhuma. Obviamente uma invenção do super-homem, melhor avô do mundo.

Fico nostálgica e escuto Nat King Cole em minha mente, relembrando os artesanatos decorativos que fazia com a vovó, escolhendo cuidadosamente no quintal pinhas, e ramos de algodão, e pedras, para tingir de dourado e folhas secas que seriam pintadas de verde e vermelho e se mesclariam nas gamelas de barro e madeira, cheias de frutas da estação e castanhas. Sinto falta da excitação que tomava conta de todos, a ansiedade de ver toda a família reunida. E sim, era muito mais do que válida a expressão “se arrumar toda pra ficar na sala”! E como adorávamos!

Cada pedaço de papel guardado e todas aquelas tardes fabricando meus próprios cartões de Natal antes de enviá-los aos amigos. Já era uma coisa meio antiquada, mas eu amava comprar selos, e grudar envelopes, ter que anotar os endereços com CEP dos amigos, ou passar horas consultando o livro dos Correios para poder fazer surpresa. Além dos cartões eu tinha a função de empacotadora oficial da família. Comprávamos os rolos de papel natalino, um bom durex novo, fitas, muitas fitas. E assim se passavam manhãs de férias nas quais eu praticava a habilidade de fazer belos laços. Sempre tinha alguma lembrancinha esquecida, que era improvisada de última hora, um embrulho a ser feito dentro do carro antes de chegar na festa.

E assistir à minha avó arrumando a casa, tomando parte naquele processo de enfeitar e tornar festivo cada momento. E também quando eu a via se arrumar. Sempre achei um momento tão íntimo e tão maravilhoso. Minha musa, minha diva. Quando ela sentava na mureta do box, de frente para sua parede de espelho do banheiro, de roupão e bobs no cabelo, depois de tudo pronto e banho tomado. E eu sentava no chão pra assistir aquela transformação maravilhosa, e via cada cacho cair do bobs, cada pincelada de maquiagem, cada expressão facial estranha para aplicar bem um batom. Combinação cor da pele embaixo do vestido, e uma ajudinha da neta proativa pra fechar um zíper, um botão nas costas ou um fecho de sapato. E sempre, o gran finale, quando ela, já toda pronta, ficava com apenas o colar na mão e me pedia para ver se o vovô já estava pronto e chamá-lo. Ele vinha cheiroso do banho, de camisa, sempre em tons de azul e frequentemente listrada. Ela só abria a mão, sem uma palavra, e ele colocava o colar nela. E só então descíamos as escadas para receber a família e viver mais um Natal.

E mesmo enquanto eu vivia todos aqueles momentos, como se minha vida fosse um filme, sentia nostalgia, saudades do que nunca vivi. Ou do que estava vivendo. E me perdia fitando o pisca-pisca das luzes da árvore por horas. De um jeito bom, meditativo. Sinto falta hoje em dia de morar numa casa imensa, e de poder fugir do mundo, e me sentar naquela sala de pé direito desproporcionalmente alto, com todas as luzes apagadas, numa almofada no chão, tarde da noite, e ficar acompanhando as luzes em sua dança, em frente à árvore. Até que muito tempo depois minha mãe chegava em silencio, sentava ao meu lado, passava o braço ao meu redor, e depois de minutos em silêncio me perguntava se estava tudo bem. Ela sabia que eu precisava de momentos fora dessa realidade, entendia, apoiava, respeitava. E meditávamos juntas um pouquinho, abraçadas, naquela dança de luzes, no escuro, com aqueles cheiros e sons tão familiares. Até que ela me chamava pra ir dormir. Sem se preocupar com horário pois eu já estaria de férias da escola naquela altura do ano. Eram momentos de cumplicidade. De sentimentos profundos que sempre tive e nunca entendi. Momentos em que reconhecíamos a existência deles sem questioná-los.

Sempre fui nostálgica. Hoje sou saudosa. Não tinha motivos aparentes pra nostalgia antes. Tenho muitos pra saudade hoje.

Meu corpo aquieta e minha mente acorda

Conforme dezembro segue e 2013 se esvai meu corpo aquieta e minha mente acorda. Às vezes é como se eu estivesse sonhando por muito tempo e começasse a acordar, mas a verdade é que parece muito mais que estou sonhando um sonho muito real. Acho que finalmente cai na toca do coelho de vez, e no mundo é o País das Maravilhas. E lembrem-se, não só de flores é feito o País das Maravilhas, Alice sempre passa por poucas e boas, e não por acaso tem de vestir armadura, empunhar espada e enfrentar em luta corporal (seus? os?) medos.

Existem coisas que sempre habitaram minha mente, meu corpo, minha essência. Não sei se são memórias, se trago-as de outras vidas, se eram sementes que levaram esses vinte e sete anos germinando. Mas fato é que tenho visto-as brotar. Literalmente, as coisas tem brotado na minha vida. Assim, elas aparecem, e ao vê-las fico pensativa entre o dejá vu, falha na Matrix, sonho acordada, Mundo Mágico de Oz ou País das Maravilhas. Fato é que tenho vivido os dias tão cotidianamente, nada de especial aconteceu, e, ainda assim, volto a me sentir com meus quinze anos quando o Jostein Gaarder me fez sentir pela primeira vez a pulga que sobe o pelo do coelho e se dá conta de que é uma pulga e seu mundo é um coelho, que está saindo de dentro da cartola do mágico, e assim, na companhia de Sophia, volto a me maravilhar com o brilho dos raios de sol na poeira que flutua no ar.

Sempre tive esses momentos surreais, hiper-reais de me maravilhar com mundo só porque ele é. Mas eram momentos breves, brisas que tocam o rosto e passam. E cada vez mais essas brisas estão se juntando, e esse ano me senti no olho de um furacão, uma pena levada nas correntes térmicas, mas ao contrário do que vinha me acontecendo nos últimos anos, esse não foi um furacão de me fazer perder o chão, pelo contrário, ele é apenas a soma das brisas de contemplação maravilhada, que me fez voar, a princípio no que parecia ser sem direção, mas que agora percebo que minha intuição estava certa, e não era sem direção. Esse novo furacão veio para me trazer o chão.

Mudei de computador, de carro, de casa. Mudei a cor do cabelo, mudei minha alimentação. Percebi quantas prioridades estavam invertidas, tenho trabalhado nelas. Ainda não mudei tudo o que quero, preciso e posso. Voltei a confiar em mim mesma. Sempre fui excessivamente segura, até de mais, o que já me gerou problemas dos mais variados, de desilusões a soco na cara. Mas vacilei, senti o peso do mundo nos ombros, a poeira que se esvaiu da minha última guerra. Agora me lembrei, não é nos ombros que se carrega o mundo quando se é feliz, é com as pernas que a gente o abraça. O que pode parecer meio maluquinho para a maioria das pessoas, mas, convenhamos, é muito mais confortável e feliz.

Hoje coleciono receitas saudáveis, faço minhas compras, dirijo meu carro e se quiser até tomo meu pileque, o que não é comum, mas é decisão minha. Não me sinto uma criança chorando baixo pelos cantos, e também não estou mais com aquela pressa de morder o calcanhar do tempo pra ele correr. Aprendi a seguir as ondas, já que tudo que era há um segundo agora já não é mais, e a viver no presente. Apesar de ainda estar na casa dos vinte anos já sou uma pessoa muito cheia de passados, e vivi os últimos anos correndo atrás de um futuro planejado, escolha única, salvação de vida, e, enquanto isso, não vi o presente passar.

Em 2013 eu achei o presente de novo. Já quis mudar o mundo, salvá-lo de si mesmo, perdi as forças. Reencontrei-as para cuidar de mim. Hoje eu me mudo, e me encontro, no dia de hoje, a cada dia. Às vezes divago um pouco, às vezes um muito, mas volto. Fiz muitos amigos novos. Não sei se serão eternos ou passageiros, mas fato é que serão eternos enquanto durem. E serei eternamente grata a passagem de cada pessoa em minha vida. Em 2013 eu senti muita gratidão. Por estar viva, por conquistar às várias coisas que conquistei, por manter muitas das que me são queridas, por aprofundar laços bonitos, por verem se soltar nós que já estavam velhos e desgastados. Em 2013 eu renasci porque aprendi a viver de novo. Voltei a rir sozinha, e dançar e cantar quando estou sozinha em casa, o que agora é sempre que estou em casa, e me sinto como na adolescência de novo. Só que em vez de brigadeiro eu recuperei as sopinhas da vovó.

Em 2013 eu comecei a perder meu medo de escrever. Estranho isso né?! Eu sou tão tagarela que minha mãe dizia, com razão, que dois cotovelos não me bastavam. Mas sempre tive uma vontade enorme de escrever e um medo da duração dessas palavras. Da irreversibilidade da escrita. É como talhar a pedra. Parece tão definitivo. Perdi o medo do definitivo. Nada é definitivo! E se for também, porque não? Será presente em minha vida enquanto for bom. De novo, que seja eterno enquanto dure. O que? O amor? A vida? Não, e sim! Tudo! Que tudo seja eterno enquanto dure. A família, às casas onde moro, morei, morarei, os livros, as pessoas, as comidas, os hobbies, as atividades físicas, a vida.

Tenho metas, muitas. Tenho sonhos até demais, os metafóricos e aqueles enquanto durmo. Tenho planos concretos, e aqueles mais sonhadores. Amo Brasília concreta abstrata, e também amo a vontade de seguir o vento e conhecer o mundo. Parei de excluir e resolvi incluir. Em 2013 aprendi a fazer uma lista de tudo que alcancei e dispenso com gosto a tal lista de metas para o ano que vem. Ano que vem virá, e com ele outros ventos, outros gostos, outras paragens. Feliz 2013, feliz ano velho, feliz ano novo, feliz.

Quando eu me casasse: O Dia das mães atrasado

(Texto original do segundo semestre de 2013, que de atrasado passou a ter uma oportunidade perfeita, ao renascer no blog hoje!)

Feliz Dia das Mães!

Não sei se é meu cérebro que está atrasado, ou meu relógio biológico que nunca se adapta bem ao calendário padrão, mas esse texto é um texto de dia das mães beeeeeem atrasado.

Creio que se eu tivesse colocado essas emoções para fora na época do Dia das Mães teria sucumbido em emoção. Nunca é tarde para continuar com minhas reminiscências, entretanto, e aprendi a respeitar minha necessidade de escrevê-las quando, bem, quando é preciso. É algo mais forte do que simplesmente uma vontade, mas não se chega a ser uma necessidade. Consideraria algo como uma ferramenta, um diário público, uma forma de externar e, assim, entender melhor minhas emoções e pensamentos. Na falta de uma penseira, daquelas do Harry Potter, me viro assim.

Tem uma música chamada Mother, da banda Travis, que sempre me emocionou muito. É simples, bonitinha, e diz aquilo que eu gostaria de dizer para minha mãe no momento em que não fosse mais conviver com ela o tempo todo. Achava, por motivos não sei se infantis, lúdicos, ilusórios, ou naturais, que esse momento seria meu casamento. Quando saísse de casa, e deixássemos de morar juntas. Meu plano era traduzir a letra e fazer um cartão homenagem.

Claro, que a vida não funciona como a gente pensa, planeja, sonha, espera, ou sei lá o que. Não que isso fosse um sonho, era só algo em que pensava quando ouvia a música. Sair de casa ao casar também não era meu plano, nem meu sonho. Sempre quis morar sozinha, um sonho que começou por volta dos doze anos de idade, e que ao quinze, depois de passar um tempo nos Estados Unidos, morando nos dorms da NAU, Rapid City, SD, se tornou uma plano, uma meta.

A vida faz curvas, a gente segue a estrada, vê o que está do outro lado da curva às vezes, às vezes não. Tudo muda, e quem consegue se adapta. Até agora eu consegui. Não saí de casa por conta de casamento e não deixei de conviver com minha mãe no dia-a-dia por causa da saída. A vida simplesmente acontece, e, da mesma forma que chorei muito antes de formar porque sabia que meu pai e meu avô não estariam na minha formatura, hoje sei que minha mãe não estará lá quando me casar, nem quando tiver filhos (se é que isso vai acontecer um dia, já não duvido de nada, mas também já não acredito nessa tal ordem natural das coisas).

Entretanto, gostaria de ter traduzido essa letra pra ela. Sempre fui muito apaixonada por letras. Sempre presto atenção às palavras, coisa que muita gente não faz. Pra mim é a união perfeita de duas paixões, a escrita e a música. Sou, assim, uma colecionadora de letras. Não vou traduzir aqui, a tradução era pra ela. Mas compartilho com vocês a letra. Quem sabe algum outro filho não poderá aproveitar a ideia, e fazer uma homenagem a sua mãe algum dia.

O curioso é que ao ouvir a música e ler a letra novamente, percebo agora a mensagem de uma forma completamente diferente. Continua sendo uma despedida, mas agora para mim é, obviamente, uma despedida definitiva. Se eu tivesse conseguido, teria feito essa despedida antes. Essa é pra você mãe!

 

 

Mother are you mad at me
Mother are you scared
That someday you will turn around
And look to find your blue-eyed boy’s not there

But mother don’t you worry
Mother don’t you fret
Cos we’ve been through so much pain and joy and suffering
For me to forget
The times we had together
Times that were so full
But time’s gone by before my eyes
And I realise
Time was often cruel
So mother don’t you worry
Mother don’t you cry
Cos there’ll come a day
When I will take the reins
From your fair hands and wave bye bye
Bye bye

Os personagens reais: Colecionadoras de Histórias

(texto de 2013, vai bem com o fim de semana do dia das mãe e é também um dos definidores da estrutura atual do blog)

Os pensamentos de hoje são difusos, e espero que não me levem a mal.

Já contei para vocês como a rotina noturna minha e da minha mãe se baseava em ela colocar uma música, e discutíamos e analisávamos, aproveitávamos e nos emocionávamos. E depois eu lia um livro em voz alta para ela. Sim, esse era nosso cotidiano.

Percebi que isso acontecia desde sempre. O primeiro livro que li foi Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato. O primeiro livro, porque as primeiras leituras foram Turma da Mônica, Mauricio de Sousa. Mas tudo aconteceu as mesmo tempo, não existiu cronologia nas minhas leituras, apenas um grande momento. Minha mãe estava lendo esse livro, Reinações de Narizinho, em voz alta para mim, eu tinha seis anos, e no meio do livro eu comecei a ler. E ela simplesmente deixou. Continuava a deitar comigo a noite, segurava o livro, só que em vez de ler pra mim, eu lia pra ela. E assim fiz durante muitos anos, desde que comecei a ler, lia para ela.

E aprendi a ler interpretando, ela fazia sonoplastia, repetíamos “os atos” preferidos. Li contos, estórias, histórias, li trechos de livros de estudos, li poesia, li besteira, li gibi, li revista, tudo que gostava, que queria compartilhar eu lia para ela. E ela tinha uma paciência infinita para isso, só para minhas leituras e para a música, mas tinha. E assim eu cresci íntima dos meus personagens. Sempre me fizeram companhia e ganhavam vida dupla, pois além de lê-los eu os encarnava, encenava, ria, chorava.

Mas esse é meu lado, tem o lado dela. Ela fazia a mesma coisa comigo, só que com a música. Bia Reis era uma colecionadora de estórias e histórias. Uma das melhores. Ela buscava, ouvia, tirava, escavava, ganhava de presente as estórias. E transformava em trabalho bonito, espalhava pelo mundo, levava aos quatro ventos. Só que entre a busca e os quatro ventos tinha eu. A incógnita mor, que cresceu atrás das coxias, vendo shows de viés, dormindo nos camarins, esperando, admirando, aborrecida às vezes, maravilhada às vezes.

Quando ouvíamos novas músicas ela me contava as estórias e histórias que não estavam gravadas. A estória da estória, a história da estória, e divagávamos, curtíamos, aproveitávamos e saboreávamos aqueles fatos. Cresci achando tudo tão normal.

Aqui estou cerca de um ano e meio sem minhas estórias. É a parte que mais sinto falta. Essa semana ouvi uma entrevista na Nacional, um músico falando de outro, nem sabia que eles se conheciam, mas conheço o trabalho dos dois. Nenhum deles me conhece. Nenhum deles faz ideia do quanto sei sobre eles e sobre tantos outros. E pela primeira vez percebi algo óbvio. Os personagens da Dona Bia são reais. Alguns já se foram, mas a maioria está aí. Só que conheci as estórias e histórias deles, se compondo ao longo dos anos, em tantos detalhes, de forma anônima, que sempre os percebi como personagens tão (ir)reais quantos os dos meus livros. Me fizeram companhia mais do que imaginam, sem ter ideia de que eu existo.

Esse pensamento é tão estranho e engraçado. Nunca estranhei saber tantas coisas, sempre foram estórias próximas e ao mesmo tempo distantes, como um livro querido, daqueles que a gente sente falta quando acaba.

A gente brincava que ela ia escrever um livro o “Memórias do Memória”. Eu pedia pra ela escrever, ela dizia que eu é que escreveria, quando ela se aposentasse. Faltaram 20 dias… a aposentadoria nunca chegou, nossas histórias cessaram. Meus livros estão no coração e na estante. Meus personagens, tão amigos, comigo para sempre. E os dela estão por ai. Alguns são amigos de amigos, fico sabendo de outros pedaços das estórias, por tios, primos, amigos e amigas. São pessoas que continuam próximas da minha vida, e que continuam sem ter a menor ideia de que eu existo ou de que já os tive tão próximos como personagens de livros.

Eu queria muito que ela tivesse escrito o tal livro. Poderia ter gravado, anotado e guardado relatos. Mas não o fiz. Era só o meu dia a dia. Foi só o meu dia a dia por vinte e cinco anos. Um quarto de século e pelo menos vinte anos de histórias e estórias. Não, racionalizar emoções já é difícil, imagine perceber cada detalhe em cada dia. Os dias bons e os ruins, os com a paciência curta e os com muita paciência. Não, eu não lembro das estórias, não guardei isso. Só a emoção. A percepção da vida de um forma diferente, criativa, íntima.

Tenho certeza de que nesses momentos de trocas de estórias, a minha amizade com minha mãe surgiu e cresceu. Nessas horas não éramos mãe e filha, não falávamos se estava na hora de escovar os dentes ou se eu tinha feito o dever, se a saúde dela estava boa. Esses eram os outros momentos, quando éramos mãe e filha. Durante as histórias éramos só Bia e Juliana, colecionando histórias.

Tudo novo, tudo heranças: o meu primeiro domingo sossegado

xícaras de anjo(Texto de 14/07/2013)

Acordo eu hoje, quatorze de julho de 2013, em meu apartamento. Sim, meu e só meu. Esse é meu primeiro domingo sossegado aqui. Me mudei tem uma semana, e hoje acordei sem pressa, sem prazos, sem horários, pela primeira vez desde a mudança.

Depois de passar uma semana carregando, desencaixotando, comprando, buscando e arrumando, posso dizer que finalmente está habitável. Ainda há muito a se fazer, mas a estrutura está pronta. Pois bem, eis que me levanto e decido curtir. Ainda de pijama, ligo uma música, e por querer esse clima calmo de aconchego, quis ouvir o que é mais eu mesma, Skank. Escolhi pela banda e deixei no randômico.

Abri a geladeira, peguei uma maçã, e coloquei um pouco de leite de soja pra esquentar, enquanto a cafeteira ficava pronta pra passar o café. Coloquei a mesa, peguei a geleia de laranja e esquentei um pão sírio do congelador na frigideira. Tudo muito cotidiano, muito familiar. Me sentei a mesa, e comecei a comer a maçã a dentadas enquanto o café esfriava só o suficiente para tomar, e a manteiga derretia no pão quente. E olhei a minha volta.

Tudo novo, e tudo tão familiar. Sem perceber, me joguei numa armadilha tão bem tramada que, só escrevendo para sair dela agora. Percebi que embora tudo seja novo, casa nova, louças novas, comida recém-comprada. Tudo soava como sempre na minha vida. Como meu âmago. Tudo herança.

A geleia eu comprei três dias atrás para um evento do trabalho, mas lendo o rotulo me lembrei que geleia de laranja, uma que gosto muito, era a preferida da minha mãe. E o pão sírio requentado, foi comprado pra minha festa de open house na sexta, mas esquentar pão na frigideira pra comer com geleia era a cara dela.

E o café, ah o café! Máquina nova, presente lindo dos meus tios, e as xícaras compradas por ela em Paris em 2010. Uma rosa e uma azul, tudo em dois. Não para um casal, como seria de se imaginar, mas para nós duas, mãe e filha. E me vi numa mesa nova, de dois lugares, com dois jogos americanos postos, e as duas xicaras parisienses me olhando, com suas asas de anjo. Sim, são xicaras com asas, asas de anjo.

E de repente vi que ela está em mim! De um tanto, mas de um tanto que não dei conta e desabei. Sim, é tudo novo, tudo escolhido por mim, mas poderia ser em qualquer das casas em que vivi minha vida toda, tudo tão familiar, os sons, os cheiros, os gostos. Foi escolhido por mim, mas poderia ter sido por ela.

E dói! Ao mesmo tempo o vazio se preenche e se faz mais presente do que nunca! Me vi nela e a vi em mim. Sei que não estou sozinha. Em um ano e meio nunca me senti tão próxima dela quanto nesse café da manhã, e ainda assim estou absolutamente sozinha.

E assim começo essa nova fase da minha vida, uma fase gostosa e saudosa, onde tudo é novo e tudo é herança.

Cutucando a colmeia: o reinício da música

(texto escrito a cerca de um ano – Abril de 2013, logo depois do aniversário de Brasília)

Eu voltei a ouvir a rádio Nacional F.M. 96.1!

Esse texto é uma tentativa, depois de escrever a primeira linha já enxergo o computador meio borrado, não sei se vou conseguir terminar…

Eu cresci envolta em música, sempre todos os minutos da minha vida! Tive mãe, pai, avós, todos muito musicais, cada um à sua forma, compondo uma bela harmonia no conjunto da obra.

Apesar de nunca ter parado de ouvir música, confesso que fiquei um ano sem ouvir a Nacional, tentei várias vezes, pra mudar de estação menos de cinco minutos depois em meio a muito choro. A primeira vez que ouvi a voz dela no rádio meu impulso irracional foi correr pro estúdio da rádio, pra ver se ela estava perdida por lá. Samba também dói! Mas foi ouvindo samba de novo que percebi que samba dói! Pra mim e pra todo mundo! E foi assim, com samba, que eu resolvi cutucar a colmeia!

Sim, eu sei que o ditado é cutucar o vespeiro, mas de um vespeiro só sai dor. Da colmeia, entretanto, se você aguentar algumas picadas, pode saborear umas gotinhas de mel! Estava muito fraca para as picadas antes, mas agora começo a escrever a minha bitter-sweet symphony, e o amargo da dor se mistura com o doce da música e de todas as lembranças que me abraçam quando a escuto. Abraços de fantasma, só o espectro do que já foi, mas doces!

Charlie Haden & Pat Metheny, Beyond the Missouri Sky, o único disco do meu pai para minha mãe, com dedicatória. E como ela ouvia esse disco! Charlie Haden & Keith Jarrett, Jasmine, foi também o único disco que ela trouxe da viagem a Paris! O único! O baixo que ela tanto amava e que me ensinou a amar!

Tínhamos tantas brincadeiras que envolviam a música e a rádio! Para mim eram só brincadeiras, mas como aprendi! Ela fazia meu Memória Musical de anos em anos! Anotava tudo! A primeira vez que ela fez eu devia ter um seis anos e só consegui pedir uma música, Hit the Road Jack, Ray Charles! Amava o disco, tínhamos o vinil, e na capa tinha um coelhinho, que eu achava que indicava, portanto, ser apropriado para crianças! Pedia para ouvir o disco do coelhinho toda hora!

Ouvíamos rádio e ela me perguntava voltando do Canarinho pra casa, “Isso é Jazz ou Blues?”, “Isso é Samba ou Choro?”. Não eram fáceis, ela ria alto quando eu errava e eu ficava com medo de decepcioná-la! Mas ela ria alto quando eu acertava também, e cantava! E a chance de ouvir ela cantar era suficiente pra me fazer superar o medo de errar, era minha grande recompensa! Ela cantava poucas vezes pra maravilha que era ouvir!

Ela ouvia Pink Floyd quando queria gritar e chorar, eu aprendi a ir dormir sendo “ninada” por essas músicas. Anos e anos depois, aprendi a acordar com samba todo domingo de manhã, um samba triste que escondia as lágrimas dela, derramadas pela perda do meu avô! E ela cantava, e chorava, e ria, e choramingava.

Meu avô! My very own superman! Tom Jobim e George Gershiwn! Tamborilados na ponta do dedo enquanto ele lia o jornal, ou anos mais tarde, jogava uma paciência no computador, nas manhãs de domingo. A música que eu ouvia enquanto nadava na piscina e ele lia o jornal me vigiando. E a vovó nos trazia um suco de manga do pé, e esperávamos o resto da família chegar pro singelo almoço de mais de trinta pessoas só da família mais próxima, todo domingo! Minha infância teve cheiro de manga e jabuticaba do pé, cloro da piscina, e som de Tom Jobim e Gershwin! E dos sons da vovó, de Armstrong, e Autum Leaves! A primeira música que gravei do computador, baixado para ela, a pedidos, Autum Leaves. Eu ouvia esses sons enquanto pregava e despregava botões de um retalho toda manhã nas férias para aprender a pregar botões.

E as outras brincadeiras que minha mãe e eu fazíamos. Bloquinhos de três músicas! Bem ao estilo radialista! Ela pegava uma música que eu gostava, estava ouvindo muito na época, e me mostrava as referências originais, e ouvíamos juntas pra ver se ficavam boas juntas, se ficassem, viravam um bloquinho! Meu bloquinho preferido sempre foi Águas de Março (Tom Jobim), Reza (Elis Regina) e Sambatron (Skank). Escutem as três nessa ordem, vai fazer sentido!

E outros, vários outros! Quantos Chicos, quantas brincadeiras, quantas referências e piadinhas internas. Quantas vezes não falamos que era culpa do Ahmed (vide DVD Cidades, Chico Buarque), ou quantas vezes ela não me convenceu de que Domingo no Parque foi feito pra mim, e Beatriz pra ela! Um verão inteiro na Bahia ouvindo “to te esperando na janela, ai, ai” e tirando fotos minhas posando nas janelas, e outros, tantos outros momentos!

Tem muito mais a ser dito a respeito da minha memória musical, mas por hoje não consigo mais! Dói! Dói, mas é doce!

Diários do Cena Dias 10 e 11: O Brasil, a Infância e o Fim

Ontem eu ouvi uma peça toda em brasileiro! Ouvi os sons da floresta, me encantei com meu próprio país e lembrei que ele também é das Maravilhas!
Recusa

Hoje eu chorei! Hoje chorei muito. Começou com uma lagrima pequena, ja conhecida, que brota no canto do olho quando falam em dor e descrevem aqueles que a conhecem. Sequei com a ponta dos dedos em movimento que ja é reflexo. Segui pelo mundo Magico do Cena, so que aos pouco ele foi se transformando e sem ter batido os calcanhares três vezes eu estava de novo em casa, so que numa casa que nao existe mais, e nao tinham nem 11 anos ainda. Aos pouco vi com meus olhos, porém revi detrás deles meus primos dormindo juntos, o André fazendo panqueca em cima do banco e grudando massa no teto. Eu, Dani e Carol dentro das roupas da vovó. Lembrei do Canarinho, da ida a Disney, de banho de banheira com amigas e biscoitos e cheddar em spray! Lembrei também de toda a solidão apesar dos amigos irmãos, das brigas na escola, de como aprendi levando um soco que eu era daquelas que nasceram pra dar a cara a tapa.
Lembrei dos meus oito amigos-irmão, dos balões de água na madrugada, dos passeios re bicicleta, das noites sem fim, das gotinhas sexys causadas pelo protetor solar. Lembrei dos meus avós nos ensinado a dançar valsa. Dos excessos de doce nas madrugadas. Da piscina. Dos milhares de jogos. Dos acampamentos no quintal. Da lona das barraca ensaboada enquanto nos jogávamos deslizando no morrinho do jardim.
Dos lanches do vovô! Do Nescau de liquidificador. Dos cachorros quentes na casa da Isa, dos cafés da manha na Flávia. Das mil despedidas do Fábio.
Me lembrei de mim mesma e de um tempo antes da dor! E ao mesmo tempo de como ja havia dor, reclusão, como ja era eu mesma, antes dos 11 anos!
Como estaremos daqui a dez anos? Ja se passaram mais de 10, e essas mesma pessoas foram as que me ajudaram a esvaziar minha casa depois da morte da minha mãe. Alguns moram longe, outros perto. O coração da gente aprende a se expandir, a cobrir o mundo pra que ninguém escape mesmo a distancia!
Dores novas e dores velhas, amizades novas e amizade velhas, primos, amores, irmãos! Hoje eu chorei, por mim e por outros, pelo real e pelo fantástico! E volto pra casa com um sorriso no rosto, lagrimas nos olhos e o coração aquecido! Obrigada Cena Contemporânea! Obrigada Guilherme Reis!!!
Matéria Prima
 

Diários do Cena Dia 9: O Som do Vento

Hoje é dia de muita música! E hoje foi ate agora um dia de muita magia. Oz e o País das maravilhas juntos nao são suficientes pra explicar a atmosfera de magia a qual o Jambinai me transportou! 
Hoje eu vi uma banda de rock! E o que há de tão magico nisso, me perguntam vocês. A principio, nada! Mas hoje eu vi instrumentos que desconhecia, e ouvi o som do vento, tocado, manejado por mãos de fada. Hoje eu vi seres encantados capazes de tocar cinco instrumentos musicais de uma vez só. Hoje eu vi uma força surgir nas mãos de velocidades inumanas e ser refletido nos rostos de duas doces fadas, que ao produzir aquele som fascinavam! Como sereias das profundezas seus sons prendiam, encantavam e pareciam capazes de matar alguém com nada mais que hashis da a velocidade, habilidade e intensidade daqueles pares de mãos!
Hoje eu conheci um doce rapaz de olhos puxados que toca além de tudo, com os calcanhares!
Vocês se lembram de outros sul coreanos que me fizeram entender e acreditar nos filmes de seres voadores? Pois bem, hoje eu presenciei algo tão incrível quanto, a capacidade deles me fazerem voar. Foi sem perceber, quando me dei conta ja tinha sido transportada de uma dimensão para outra e para outra de novo! Sem pausa, transitando entre mundos, entre sons, entre culturas, entre civilizações, entre milhares de anos, me perdendo em mim mesma!
Agora tem mais! Estou na praça de Absolem e a magica continua!
Ainda temos dois dias passeando pelas estadas coloridas, ou melhor ainda, sobrevoando-as, confundindo os tijolos amarelos com os vermelhos, sendo levada pelo vento, em seu som!

Jambinai

Diários do Cena Dias 7 e 8: Oz

Hoje eu tava mais em Oz do que com a Alice. Hoje eu vi o Leao, o Homem de Ferro e o Espantalho. Coincidentemente estou com meus sapatinhos vermelhos hoje, mas nao, me nao vou bater os calcanhares três vezes! Isso só no domingo! O Homem de Lata, o Leao e o Espantalho eram um só homem e três personagens, que se subdividiam em muitos outros. Mocçambicano, mas poderia ser brasileiro, ja que é tantas coisas ao mesmo tempo. Hoje eu presenciei aquele que procura e encontra, que ja encontrou e ainda esta a procurar, sua coragem, seu coração, sua fibra, sua origem, seu âmago.
Esse semana é de muita música e dança.
Agora fui teletransportada por Absolem par o museu e de volta ao País das Maravilhas do Cena! Ouvi instrumentos que desconhecia a existência, e musicas que me fizeram sonhar. Amanha entrarei ainda mais desse belo mundo Sul Coreano, na companhia da lebre e demais seres fantásticos.

Ontem eu visitei a corte da Rainha vermelha. Um mundo feminino, irrequieto, belo, angustiado, emotivo, profundo e perfunctório! Fui dormir com a gostosa lembrança de como foi ler Lispector pela primeira vez e como me senti. Ontem lembrei! De cada microsensação revivida, inesperadamente em francês. Mas afinal, dizem que faz parte as cortes falar em línguas diversas.

Seguirei entre a estrada de tijolos amarelos, vermelhos e o país das maravilhas. Me restam poucos dias de viagem antes de bater os calcanhares três vezes.