Travessia Cap de Rec – L’Illa – Perafita – Pera – Cap de Rec

Essa travessia é uma que queríamos muito fazer desde antes de sair do Brasil. O André já tinha pesquisado muito sobre ela, mas quando chegamos aqui era inverno e essa travessia precisa ser feita em épocas sem neve, ou se torna impossível. Acabamos usando a primavera e o verão para outras viagens mais longas ou mais afastadas e por fim, agora no outono, no início de outubro, decidimos fazer finalmente essa travessia.

A preparação para essa trilha foi mais longa, pois originalmente estávamos seguindo uma trilha do wikiloc que infelizmente não encontrei agora para compartilhar com vocês, mas que saía de Viliella, passando pelo vale do Llosa, subindo o porto de montanha até o Refugí de L’Illa, no primeiro dia, no segundo ia até o Refugí de Perafita, passando pelo segundo porto de montanha e até o Refugí dos Estanys de La Pera (trilha que fizemos e pode ser conferida aqui), passando o terceiro porto de montanha no segundo dia e no terceiro descendo, passando pelo Cap de Rec e indo até Viliella. No total a trilha original tinha cerca de 48km em 3 dias, com todas essas subidas.

Por isso preparamos duas mochilas grandes, equipamento para dormir nos refúgios, muita comida enlatada, água, lanches, roupas extras para as noites fritas, comida do Picot e saímos. Resolvemos fazer um pouco diferente o caminho, deixando nosso carro no Refugí do Cap de Rec e de lá iniciar com a longa descida até o Vale do Llosa, que é um dos lugares mais lindos, e de lá seguir a trilha marcada no wikiloc.

Saímos de casa bem cedo, deixamos o carro no Cap de Rec, e saímos com tudo nas costas, preparados para só voltar ao carro na metade do terceiro dia. Desde o princípio acionei o app do wikiloc e comecei a gravar a trilha. Meu celular, entretanto, não tem a precisão de um GPS e fez uma marcação irreal de altitude no início, parecendo que tínhamos subido e descido um platô como uma chapada, mas depois passou a se comportar e registrar melhor.

A primeira parte envolveu uma descida bem dolorosa da qual meus joelhos ainda se lembravam 1 mês depois, até o Vale do Llosa, lá atravessamos o rio com muito frio, que água gelada! E seguimos rio acima. Em determinado momento meu sonho se realizou e vi uma marmota de vida livre gritando e correndo, infelizmente, fugindo do Picot. Chamamos ele apressados e ela conseguiu se esconder na toca. Apesar do susto foi um momento incrível ver a marmota.

Aí começou uma subida longa que nos acompanhou o resto do dia. Passamos por lugares muito lindos, sempre próximos aos rios, vimos alguns refúgios de caçadores, pequenos e apertados, mas que podem salvar vidas caso seja necessário se abrigar rapidamente. Paramos pouquíssimas vezes para comer e andamos muito. A última subida, depois de um vale cheio de vacas, foi sofrida, mas nos levou até um lago de barragem belíssimo, embora as nuvens o deixassem muito cinza e alcançamos o refugí de L’Illa, já em Andorra. Nesse primeiro dia andamos um pouco mais de 18km.

O Refugí de L’Illa é um dos poucos que possuem parte livre e parte paga. A parte paga era cara, cerca de 20,00 euros por pessoa somente para dormir. Com comida e banho já subia para 55,00 por pessoa, e a parte livre estava bem abandonada, mas nos instalamos na livre mesmo assim. Ali todos os suprimentos chegam apenas de helicóptero e as pessoas apenas após uma dura trilha. Descobrimos que um dos funcionários do Refugí era brasileiro, afinal estamos em todos os lugares, comemos, descansamos e tentamos nos acomodar na parte livre.

Acordamos a meia-noite quase congelando. A temperatura caiu bruscamente e deixou nossa noite muito desconfortável, impossível dormir, o corpo todo doía de frio. Acabei conseguindo fazer um fogo graças à um sachê de azeite deixado ali e umas madeiras velhas no antigo aquecedor de ferro, que nos salvou, mas foi uma noite dura, depois de um dia duro. Apesar do preço, recomendo que durmam na parte paga caso façam essa trilha.

Nosso segundo dia começou as 5h da manhã com muito frio, um novo fogo que nos descongelou de novo e esperamos o dia clarear um pouco. O sol só começou a sair às 7h e iniciamos nossa caminhada junto com  ele. O André, que sofreu um pouco mais que eu com a noite fria pois tinha levado menos roupas extras, sugeriu que andássemos mais e voltássemos pra casa direto. Essa ideia em assustou um pouco, porque faltavam cerca de 30km, e pelo menos mais 2 portos de montanha para atravessar a cerca de mais de 2500m cada.

Com isso em mente eu comecei o dia dando uma de sargento do batalhão e impus um ritmo de caminhada sofrido. Acabamos quase não tirando fotos, pois o tempo seria escasso para conseguirmos andar os 30km, com todas as variações de atitude em um dia só.

Esse segundo dia foi sofrido, os músculos estavam doídos da véspera e principalmente da noite fria, a mochila pesava e o pé reclamava, especialmente com a marcha forçada, mas avançamos por paisagens maravilhosas. Vimos vales, rios, cachoeiras e picos inacreditáveis no caminho todo! O Picot sempre com muito mais energia que nós deu ânimo por todo o dia. Alcançamos o Refugí de Perafita em torno das 13h e fiquei mais tranquila. Sabia que dalí o desafio maior era atravessar o último porto até o Refugí dos Estanys de la Pera e de lá seria só descida até o carro.

Minha bateria do celular acabou quando estávamos iniciando a subida para o último porto e com isso parou de registrar a trilha, os carregadores externos que eu levei não funcionaram, o que me deixou chateada, mas sem tempo para lidar com isso. Seguimos a subida e alcançamos o Refugí dos Estanys da la Pera às 15h, bem antes do esperado. O André até me chamou de exagerada pois com minha marcha forçada estávamos quase 2h adiantados, e acabamos não aproveitando muito o dia de trilha para apreciar as paisagens, mas meu medo de pegar a trilha no escuro tinha sido maior.

Nossa segunda surpresa foi encontrar o Refugí dos Estanys de la Pera maravilhoso, com uma parte livre aberta incrível, colchões bons, cobertores e uma lareira grande além de muita lenha acessível. Poderíamos ter dormido ali confortavelmente. O ideal teria sido fazer com bem mais calma esse trecho, chegar lá ao anoitecer e ter uma boa noite de sono reparador antes de continuar, mas como chegamos lá às 15h e ainda tínhamos cerca de 3h de sol, resolvemos seguir para o carro.

Esse último trecho, apesar de ser descida, foi excruciante, porque já estávamos muito cansados e a decida exigiu muito da minha sola do pé. A mochila nem era mais problema, mas os pés doíam muito e no último trechinho antes do carro senti bolhas estourarem e quase chorei, mas por fim, com certa ajuda do André, chegamos no carro, às 18h20.

Viemos direto para casa, onde um bom banho quente, um macarrão e uma noite de sono que durou das 20h30 às 12h do dia seguinte (que era sábado), nos colocou em forma de novo. Essa trilha é maravilhosa e recomendo a todos, mas recomendo que façam em 3 dias, durmam no L’Illa na parte paga e durmam no Estanys de La Pera antes de seguir viagem. Os pés agradecem. Não se esqueçam de confirmar se os refúgios estarão abertos e disponíveis antes de ir. Em certas épocas do ano eles fecham e em outras lotam. O ideal, além de conferir antes, é ir no meio da primavera ou no início do outono.

Não esqueçam roupas mais quentes para a noite e pares de meias extras para garantir pés quentes e acolchoados. A comida acho que vale a pena pagar no L’Illa para poder carregar menos peso, e levar só os lanches e para o jantar do segundo dia.

Foi uma experiência incrível, de superação, muito aprendizado e que valeu cada km, bolhas no pé e tudo!

la seu - cap de rec

Trecho de carro, entre La Seu e o Cap de Rec. 

wiki ju

Trecho que meu celular gravou, do Cap de Rec até pouco depois do Perafita. Como a rota foi circular, não fica muito difícil imaginar aí no mapa o trecho que faltou marcar de cerca de mais 22km.  

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Para mais fotos confira na Fã Page do Facebook!

Pic de Salória

Sei que durante todo o mês de outubro e agora nesse começo de novembro estivemos sem posts do André na categoria Viagens, e para explicar queria dizer que em outubro recebemos a família do André aqui e também estamos organizando toda nossa mudança da Espanha para Portugal, que começará agora dia 15/11, o que o sobrecarregou, além de outros afazeres. Por hora vou deixar vocês com esse post, sobre o Pic de Salória, que fizemos em 28/09/17 e no próximo post vou falar sobre uma travessia longa de 3 dias, que acabaram sendo 2, na qual atravessamos vários Vales e Picos!

Esse mês, portanto, teremos esses 2 posts sobre trilhas, além dos outros sobre Andorra & Val D’Aran, que foi postado pelo BPM, e repliquei aqui na terça-feira, e o outro com Dicas de Roupas.

Em dezembro estaremos nos acomodando em Portugal e duvido que sobre tempo para escrever muito, mas assim que possível voltaremos a contar nossas aventuras

Bom chega de lenga-lenga, vamos à trilha. O Pic de Salória é o mais alto da comarca de Alt Urgell, onde fica a cidade na qual moramos, La Seu D’Urgell. O Pico chega a 2789m. Mas a trilha que fizemos possui um desnível de cerca de 600m, então foi mais tranquilo do que parece!

A parte mais assustadora foi a estrada que decidimos pegar para chegar lá. Não queríamos ir de carro por dentro de Andorra, o que seria o caminho mais curto, entre La Seu e Os de Cívis, e por isso acatei uma sugestão bem duvidosa do google maps de ir por uma estrada de terra, circundando a montanha. No início passamos por umas pequenas vilas bonitinhas, mas depois que entramos na estrada de terra ela começou a ficar difícil e diversas vezes o André me questionou o porque da escolha dessa trilha em claro desuso.  Eu também me questionei, mas mantive a banca porque alguém tinha que parecer confiante, né?!

Para resumir passamos por dentro de bosques, atravessamos dois rios com o carro, o que subiu muita fumaça e assustou o Picot, e pegamos um frio que não esperávamos para final de setembro. No fim deu tudo certo, graças a habilidade do André em estradas de terra, que é grande, e dessa vez foi testada como nunca, mas após algumas derrapadas estávamos no ponto esperado. Paramos o carro e começamos nossa subida bem íngreme morro acima.

A subida não era muito longa, mas extremamente verticalizada. Chegando à crista da cadeia montanhosa andamos por sobre a trilha na parte mais emocionante, talvez uma das mais emocionantes de todas as trilhas que fizemos, pois a crista era bem estreita e os penhascos bem íngremes de ambos os lados. Tenho vídeos desse trecho da trilha na fã page do facebook, em quatro partes (1/4, 2/4, 3/4 e 4/4), ou no instagram (1/4, 2/4, 3/4 e 4/4) e vocês podem acessar e ver lá.

Achávamos que já tínhamos subido tudo, mas que nada. Foi uma boa subida já na crista até atingirmos o Pico. Tivemos que parar várias vezes para recuperar o fôlego nesse trecho, mas por fim chegamos lá! Foi uma incrível sensação de conquista!

No caminho encontramos joaninhas, grilos coloridos, aves de rapina fazendo rasantes sobre nós e uma paisagem incrível. Chegando no topo o Picot ficou encantado e passou muito tempo observando a paisagem cuidadosamente de cada um dos vales para os quais tínhamos vista! Esse cachorro é um apaixonado por paisagens e a gente fica até sem graça de ver a dedicação dele em apreciar o momento!

Depois de brincar um pouco com a ideia de que eramos o homem, a mulher e o cachorro mais altos da comarca naquele momento, iniciamos a volta. Encontramos uma trilha um pouco menos íngreme na volta, o que facilitou um pouquinho, mas continuou emocionante.

Já no carro escolhemos voltar por outro caminho, passando por Andorra, conhecemos Os de Cívis e Cívis, e passamos por uma quantidade incrível de árvores vermelhas em um dos cenários de outono mais lindos que já vi!  Não deu pra tirar boas fotos de dentro do carro, mas foi inesquecível.

Fiz a trilha marcando nosso deslocamento com o wikiloc, mas como ainda estou aprendendo a usar o app, só lembrei de gravar a rota quando já estávamos na metade da subida, mas fica a foto para vocês terem uma ideia aproximada.

Mapa ida

Mapa da ida, o trecho marcado em vermelho foi o da estrada de terra assustadora.

mapa volta

Mapa da volta, o trecho em zigzag antes de Os de Cívis é o das árvores vermelhas maravilhosas de outono!

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O que eu consegui gravar com o wikiloc da nossa trilha.

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JuReMa no BPM: Andorra & Val D’Aran

Nesse domingo, dia 05/11/17 foi publicado no BPM meu post sobre turismo, especificamente sobre o Andorra e o Val D’Arran. Muitas das trilha que comentei por cima lá, temos detalhadas aqui, lembrando que temos inúmeras fotos e videos na Fã Page do Facebook e no Instagram.

Vai lá no BPM e lê o texto, que dá muitas dicas legais! Não deixe de deixar sua curtida e um comentário! Sem falar que você também pode seguir a página no Facebook do BPM e o perfil no Insta.

E aproveita e veja aqui também algumas das citadas lá, como o Pic Negre, os Colomèrs e o Val D’Aran, Pic de Medecourbe, o Aiguestortes, entre tantas outras que você pode ver no nosso menu viagens!

“Quando me mudei para uma cidade nos Pirineus, na Catalunha, fiquei muito animada com a perspectiva de estar morando nas montanhas, uma vez que no Brasil não temos uma região de montanhas do mesmo tipo e eu amo natureza e estar ao ar livre.

Minha atividade favorita sempre foram as caminhadas, também conhecidas como trekkinghiking, em inglês, e senderismo, aqui na Espanha. No Brasil, embora muito praticada, não é tão comum, mas na Catalunha, o senderismo é uma espécie de esporte nacional. A prática, embora oficialmente não seja considerada um esporte, é muito comum, e os diferentes caminhos, ou senderos, são muito bem marcados, com placas, sinalizações em forma de setas (caminho correto) ou cruzes (caminho incorreto), em diferentes cores, uma para cada sendero, em árvores e pedras, marcando o caminho até mesmo quando tudo está coberto de neve.” Para continuar a leitura, clica aqui!

 

Dicas de Roupa

Eu decidi falar hoje de algo que entendo muito pouco, pouquíssimo, que é moda! Nunca me sinto segura para falar de algo que entendo pouco, mas não vou me fazer de blogueira de moda super entendida das trends, porque não sou. Vou fazer o que eu sei fazer, compartilhar minha experiência própria. Então já fica a dica, se você é da área de moda e acha que eu falei besteira, deixe uma contribuição construtiva nos comentário, combinado?!

Eu sempre gostei de me vestir com muito conforto, odeio usar salto, roupas muito justas e não tenho paciência para maquiagem. Também cresci com um guarda-roupa bem enxuto, composto em sua maioria de doações, aquelas roupas das primas e tias que me salvaram a infância e adolescência inteiras. Mas sempre fui fã de uma camiseta e jeans (short ou calça).

Depois comecei, até por pressão de trabalho e universidade, estágios, etc, a ter que amadurecer meu guarda-roupa. Mas a perspectiva das roupas formais sempre me assustou. Já tive terno, já usei em estágio, já usei em emprego. Pessoalmente, não gosto. Me sinto fantasiada. Tipo a “Barbie Escritório”. Mas quando tem que fazer a gente faz né.

Em outro momento me livrei do mundo mais formal e segui minha vida profissional dando aulas de idiomas, o que me permitiu manter um visual bem informal, e já tendo mais possibilidades financeiras, passei a investir em algumas roupas coloridas, já que amo cores, muitos vestidos e saias midi ou longos, para poder trabalhar mas também sobreviver no calor de Brasília, além de calças de panos leves, mais curtas, ou que ficassem bem com a barra dobrada. Enfim, roupas que pudessem ser vistas como “de trabalho” mas que eu também pudesse sentar no chão com alunos pequenos, cantar e dançar, e me manter sã no calor.

Quando fui pra São Paulo percebi que 99% do meu guarda-roupa era de verão. Muitos shorts, saias e vestidos esvoaçantes. Nada combinava com a cidade da garoa, com muita chuva, dias mais frescos e um inverno muito mais frio do que eu estava acostumada. Além disso sofri com os sapatos. Em Brasília usava muita sapatilha e tênis de tecido, estampado, coisas leves, muitas vezes com aberturas, ou seja, para um lugar onde o clima predominante é o seco e quente. Na Terra da Garoa, perdi alguns pares de sapato, ensopados de uma lama cinza-chumbo fuligem+poluição, até aprender que precisava de outro tipo de coisa.

Aí me desfiz de quase tudo e investi em um all star emborrachado, uns dois pares de Melissas e passei a usar no dia-a-dia minha galocha e as botas e casaco impermeáveis de trilha que antes eu só usava para trilha. No fim das contas, fora os dias mais quentes, que só me salvavam as Melissas, a bota de trilha virou minha melhor companheira, porque me aguentava andando o dia inteiro, pegando ônibus, indo a pé, sem sofrer, sem bolhas, sem pé molhado, sem ter que lavar o sapato da fuligem-lama-poluição no fim do dia. Virou uniforme!

Mais a alma nômade aqui não se aguenta e eis que vim parar nos Pirineus no início do inverno, com muita neve e vento frio. Apesar de dessa vez já ter me desfeito de quase todo o guarda-roupa, pra conseguir me mudar com duas malas apenas (que continham também panelas, toalhas, edredom, minha vida, etc), percebi que não tinha roupas adequadas pra esse clima. Corri para a Decathlon, em busca de uma salvação rápida e barata, pois tinha acabado de lidar com os custos todos da mudança e me virei com o que achei de menor preço.

Juntando essa história toda, minha paixão por cores, as muitas mudanças, os infinitos climas, os desapegos mais que necessários, os preços, a disponibilidade, a urgência, todos juntos, um dia entrei no elevador e ouvi do meu marido, a última pessoa que liga pra moda, um “mas você vai sair assim?”, estranhei e me olhei no espelho. Eu estava com um gorro laranja abóbora, camiseta térmica branca, casaco preto com zíper e detalhes rosa bem forte, legging cinza, meias tipo academia, daquelas que vão até o meio da canela por cima da legging rosa-choque, botas de neve com detalhes rosa forte, um cachecol azul. Tá, predominava o preto e rosa, combinação que já não é muito suave ou discreta, mas a adição de laranja, azul e até mesmo o cinza e branco, e as formas também, a legging muito justa, a meia muito longa por cima, o casaco um pouco curto, a camiseta aparecendo por baixo, bom basta dizer que podia até não estar muito feio, e estava quentinho, mas não era nada muito agradável aos olhos, que dirá fashion.

Depois desse dia parei para pensar e percebi que ao optar por roupas mais informais e esportivas, eu tinha conseguido várias peças muito confortáveis, por ótimo preço, mas que não necessariamente combinavam entre si, e que por isso, eu estava sempre me sentindo menos arrumada, como se tivesse me vestido às pressas, ou saído há pouco da academia e jogado uns casacos, cachecol e luvas por cima.

Comecei a pesquisar o que podia fazer a respeito, levando em conta minhas premissas: 1 – trabalho de casa, o que me permite me vestir informalmente, mas apresentável; 2 – faço trilhas com frequência, às vezes de dia todo, mas às vezes mais curtas, e tenho uma aula para dar antes ou depois; 3 – gosto de conforto e bom preço; 4 – queria um guarda-roupa minimalista, com menos peças, por questões ideológicas, menos consumismo, menos tralha na vida e facilidade nas mudanças.

A primeira sugestão veio do meu marido, a ideia de escolher uma a 3 cores principais e me manter nelas. Nada de ter uma peça de cada cor. Por mais que eu ame cores, essa sugestão foi uma das melhores da vida em termos de guarda-roupa até hoje e é imprescindível para um minimalista.

A segunda foi usar o pinterest e pesquisar moda por itens. Quando vemos blogs, sites e revistas de moda, o que está lá é a moda da vez, que muitas vezes não resolve o problema dos reles mortais no dia-a-dia. Mas no pinterest dá pra procurar por “botas de trilha + outfit”, por exemplo, e vão aparecer vários exemplos mais fashionable, fotos de revistas, ideias de como usar botas de trilha.

Depois de toda essa longuíssima reflexão, vamos as lições que eu aprendi, e que podem ser úteis pra outras pessoas:

1 – defina seu tipo de guarda-roupa, e quantos você precisa ter!

Ex: só posso trabalhar com roupas formais, mas amo usar jeans rasgado. Moro num local com inverno rigoroso e verão muito quente. Essas diferentes colocações vão te dar uma ideia do que é indispensável para você. Se seu guarda-roupa de trabalho e fora dele podem se misturar ou não, se você precisa de roupas para estações diferentes, ou se bastam alguns casacos, mas a base da pra manter, etc.

No meu caso eu posso usar as mesmas roupas para trabalhar, fazer trilha e minhas coisas de casa, desde que escolha bem as peças. Moro num local com 4 estações bem definidas, então preciso de 3 tipos de roupa, verão, inverno e primavera-outono.

2 – Escolha cerca de 3 cores e fique com elas! 

Essa parte é difícil, e estou numa transição porque não vou simplesmente jogar minhas coisas boas fora por conta da cor, mas o que adquirir de novo entra nesse esquema. Eu elegi o preto e o cinza como cores básicas e o azul como cor diferencial. O que me agradou nessa escolha é que tanto o cinza, mas principalmente o azul, possuem uma infinidade de tonalidades, que ficam muito bem entre-si. E mesmo que eu tenha peças que vão do azul-marinho mais escuro, ao azul-esverdeado mais claro, passando pelo turquesa, azul-céu, etc, elas combinam entre si e não preciso pensar muito a respeito.

Liberei o roxo e tons de lilás como uma cor terciária que pode aparecer com menor frequência, e alguns brancos. Amo roxo, já possuo muita coisa dessa cor, não queria desperdiçar e é uma cor que vai bem com as azuis, e aí só preciso pensar um pouquinho antes de vestir.

Ainda acho muito ruim o fato de as roupas esportivas femininas virem quase sempre com detalhes em rosa. É uma cor bonita, apesar de eu não gostar muito, mas é uma cor muito marcante e que não vai bem com todas, especialmente no tom forte, ou choque, que geralmente é usado nesse tipo de roupa. Muitas vezes tenho dificuldade em encontrar opções sem o rosa.

3 – Pare de usar roupas íntimas, meias e camisetas brancas. 

Essa acho que é uma das afirmações mais polêmicas, mas o motivo é simples, elas mancham muito mais fácil e rapidamente e exigem horas e custos extra em tira-manchas e lavagens para ficarem com aparência apresentável. Então preferi eliminar. Mantenho minhas roupas muito bem lavadas, mas não preciso ficar obcecada com manchas e nem me desgastar cuidando delas. Tenho uma bata e uma camisa de botão brancas poque são úteis no guarda-roupa minimalista e, por usar com menor frequência e não em ambiente de trilha, mancham menos.

4 – Use mais roupas masculinas. 

Essa também pode ser polêmica, mas explico. Primeiro tem essa mania das lojas, especialmente as de roupas esportivas, de colocar detalhes em rosa/laranja/amarelo berrantes em roupas femininas. Você quer um casaco preto discreto, ou um cinza, e acha, preto, cinza, azul, com todos os zíperes, elásticos e fechos em rosa/laranja/amarelo berrante. Oi??? Lojas, melhorem! Eu sou mulher e não vou deixar de ser feminina por usar uma roupa esportiva toda preta, cinza, azul ou bege, sem detalhes de nenhuma outra cor. Obrigada! E as masculinas são discretas, preto é só preto, cinza é só cinza, marrom é só marrom, ou as combinações são entre cores sóbrias e não fosforescentes.

Segundo, os bolsos são maiores, os casacos mais confortáveis, porque não são tão curtos, e se você conseguir uma loja masculina que tenha modelagens pequenas, geralmente encontra seu tamanho. Às vezes precisa de um pequeno ajuste na cintura, mas vale a pena.

Terceiro, infelizmente, muitas vezes, a roupa masculina equivalente a feminina é mais barata. A meia muitas vezes é mais grossa (do mesmo tamanho) e acomoda melhor no pé, protegendo melhor de bolhas e calos, o casaco tem mais bolsos, enfim. Experimenta e me conta depois.

5 – Dê uma atençãozinha para os detalhes! 

Muitas vezes a diferença entre uma roupa informal com cara de quem acordou atrasada e uma considerada “na moda” é um cinto, uma barra da calça ou das mangas da camiseta dobradas, uma faixa no cabelo, uma munhequeira bem colocada, a coordenação entre o formato da camiseta/alças/decote e o do top embaixo, entre outras. Para essas o Pinterest salva. Escolhe um item, mesmo que você ache que não tem nada a ver com moda, como botas de trilha, luvas de esqui e coloca lá. Vão aparecer fotos legais, com sugestões interessantes de uso.

6 – Tenha os acessórios em cor neutra!

Meias, luvas, cinto, munhequeira, faixa de cabelo, cachecol, gorro, esses itens eu hoje em dia tenho todos em preto e/ou cinza. Facilita, ninguém repara que você usa o mesmo todo dia, e combina com tudo.

Um cachecol ou outro numa das suas cores escolhidas vale também! Mas tenha o básico e se for ser minimalista à risca, só o básico.

Eu confesso que depois de fazer essas modificações, minha vida ficou mais simples, escolher roupas de manhã sem ter que pensar nas diversas atividades do dia e saber que qualquer uma vai servir para todos os casos; poder jogar na mochila quaisquer 5 camisetas e duas calças e saber que todas combinam entre-si; me sentir melhor, mais bonita e apresentável sem sofrer pra isso, são só algumas das vantagens que eu vi.

Ainda tenho algumas peças muito boas e que fogem à essas regras e uso bastante, como meu casaco impermeável vermelho, porque ele é ótimo e sou contra trocar estando bom. Vermelho e azul não ficam ruins, então vamos nessa. No dia que estragar, aí eu repenso. Essas conclusões e aprendizados vão muito além da moda, geram um pensamento em torno de sustentabilidade, meio-ambiente, e bem estar pessoal, independentemente da moda que muda toda semana. Quem sabe não te inspira também!

 

 

 

Pic de Medecourbe

Essa foi uma trilha que fizemos eu e o Picot, já que a Ju estava em Barcelona fazendo um curso. A escolha foi feita de maneira bem simples: eu queria chegar até a divisa de Andorra, França e Espanha (em uma delas, porque há duas fronteiras tríplices dos dois países). O lado leste nós já havíamos passado perto, então decidi ir até o lado oeste.

O caminho até o início passa por uma vila chamada La Massana, que me surpreendeu pela tranquilidade, apesar da maneira como Andorra costuma ser. A vila é bem bonitinha, bem menos apinhada que a capital, que fica poucos quilômetros abaixo. Passada essa vila, chega-se a um local chamado Arinsal, onde funciona uma estação de esqui no inverno. Ali existe um pequeno estacionamento para o Parque de Comapedrosa, um dos parques naturais de Andorra. Neste estacionamento é permitido deixar o carro por até 3 dias, para quem quiser caminhar por mais tempo. O parque recebe esse nome por causa do pico homônimo, o mais alto de Andorra, sendo 30 metros mais alto que o Medecourbe, mas ele não faz divisa com lugar nenhum, não atendendo aos meus estranhos critérios de escolha… A trilha toda possui fontes em intervalos regulares, então leve uma garrafa pequena, não fará muita falta levar litros e litros de água!

O começo do caminho já mostra o sufoco que vem pela frente. Em menos de 8km de subida, o desnível chega a mais de 1.400 metros. A trilha toda segue em uma inclinação brutal, salvo por poucos momentos, como o Pla de l´Estany, um grande campo plano onde se juntam diversos córregos que descem a montanha. O tempo total de subida até o Pico foi de 5 horas, considerando as pausas para descanso, que foram várias e fartas. Durante o percurso passa-se por diversas casas, e em algumas delas umas famílias pareciam passar um dia de descanso. Não sei se são propriedades particulares ou se são alugadas, mas não há nada que impeça de passar perto delas. Não há cercas ou placas proibindo. Passa-se também pelo refugio de Pla de l´Estany, que é construído de maneira idêntica a outro refugio de Andorra, o de Perafita. Deve ser alguma diretriz dos parques. Neste ponto alguns senhores guardavam equipamentos de cozinha e brincavam com um drone. Eles subiram de carro até ali, não se com permissão, pois é vedado para veículos que não sejam do próprio parque. Mas Andorra é um país de uma elite que não conhece limites, então é difícil dizer se eles usam da posição para subir ou simplesmente desrespeitam as regras. Para além desse refúgio, não há mais construções confiáveis, somente um barraco de metal, para que ninguém morra caso se perca por ali.

Do Pla de l´Estany o caminho serpenteia montanha acima, passando por uma pequena cachoeira. Neste ponto, um grupo de mais de 20 idosos franceses descansavam, e ao me verem perguntaram avidamente sobre um lago de trutas. Não sei se eles estavam muito perdidos ou só um pouco, mas sinceramente não sei do que falavam. Ainda mais acima dessa cachoeira, finalmente estão os Estanys Forcats. São 3 lagos de água verde acinzentada, muito limpa. os dois lagos inferiores são maiores e ficam no mesmo nível, ao lado de um deslizamento de pedra imenso. Ao subir por este deslizamento é possível ver o terceiro, que fica separado do lago do meio por um paredão imenso. Este terceiro lago é menor e mais turvo. Quando ele se torna visível, a trilha simplesmente desaparece, e, para chegar ao topo do Pic de Medecourbe é preciso completar o caminho com uma escalada.

Não chega a ser uma escalada profissional, mas é um trecho que eu não vejo possibilidade de subir sem utilizar as mãos. Guardei o meu walking stick e comecei a procurar entre as pedras os caminhos mais seguros. O Picot, por sorte, é um excelente alpinista, pulando corajosamente entre as fendas. Os trechos muito verticais para ele não são problema, pois ele rapidamente dá a volta na pedra e acha outro caminho. Somente uma vez na subida toda eu tive que pegá-lo pelo cangote e puxá-lo para cima na força. Conseguimos dessa maneira nos aproximar do Pico, que se encontra em uma imensa linha de picos interligadas, formando um paredão. O ponto específico é identificável por um bastão de metal preso entre algumas pedras. Ao chegar no topo, a vista subitamente se abre para a França, de frente para um imenso vale, onde estão o Étang de Medecourbe, mais próximo, e o Étang de Soulcem, mais a frente, imenso! Também é possível manter a vista para os Estany Forcats de Andorra e para os Estanys de Baiau, na Espanha. A vista para três países, cada um com seus lagos!

Paramos para descansar e apreciar a vista. O Picot ficou encantado com o lugar, olhando fixamente para o vale abaixo. Acho que já falamos isso, mas ele aprecia genuinamente as vistas, pulando em todas as muretas que bloqueiam sua visão e já chegando até ao ponto de pedir para atravessarmos a rua só para subir em uma mureta e ver o rio de Tolouse. De qualquer forma, ele só interrompeu o seu estado contemplativo para dividir uns pedaços de queijo comigo. Quando iniciei a descida, ele ficou um pouco para trás, aproveitando os últimos momentos. O caminho de volta foi complicado pelas dores de impacto nos joelhos. Mesmo com o walking stick, a inclinação era muito acentuada e por duas vezes eu caí por pisar em falso. Foram aproximadamente 2 horas e meia de caminhada sem parada para chegar de novo ao estacionamento.

Essa trilha não é, de maneira nenhuma, recomendada para as pessoas que não tenham um bom preparo físico e experiência em montanha. Foi um dos locais mais bonitos que eu visitei na região, mas a exigência de resistência e agilidade superam quase todas as outras trilhas já descritas.

La Seu - Arinsal

Mapa La Seu – Arinsal (carro)

Arinsal - Medecourbe

Arinsal até o estacionamento do parque. O Google não marca a trilha a pé, que certamente não corresponde a esse pontilhado.

Medecourbe wiki

Busquei no wikiloc algum mapa dessa trilha, mas não encontrei nenhum que tenha feito exatamente o mesmo trecho, esse, por exemplo, faz uma trilha circular, passando também pelo Pic Comapedrosa, mas ao ler o texto e compará-lo com a foto dá para se ter uma boa ideia da trilha feita. Fonte wikiloc 

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Aiguestortes

08/09/17

Um dos locais mais famosos dos Pirineus é o Parc Nacional d’Aiguestortes, localizado no Noroeste da Catalunha, entre Val d’Aran e Pallars Subirà. A região é bastante despovoada, com menos de 20 mil habitantes entre as duas comarcas. Isso ajuda tanto na preservação da natureza quanto na sensação de isolamento, já que para chegar lá é preciso passar por imensos vales com apenas algumas esparsas vilas. Claro, durante fins de semana e dias festivos os parques são muito visitados, os catalães dão o devido valor para a natureza, sendo o excursionismo uma atividade disseminada pela região. Nós resolvemos criar vergonha e ir conhecer o local, que fica a aproximadamente 1h30 de viagem de onde estamos, e onde não havíamos ido até semana passada… O parque engloba uma série de vales profundos, regiões altas de montanha e agrupamentos de lagos de degelo. Um dos agrupamentos nós já descrevemos na trilha sobre os Colomers, mas o lago mais famoso da região é o Estany Sant Maurici, ladeado por uma cadeia de montanhas onde se encontra os famosos Encantats. Fizemos nossa peregrinação ao local, aproveitando para passar um pouco desse ponto, incluindo mais lagos na nossa visita, além de uma bela cachoeira e um “refúgio” de montanha.

A estrada até lá está muito bem sinalizada e preservada, exceto pelo trecho final, mas nada que comprometa a passagem, pelo menos no período sem neve. O acesso se dá mais ao norte de Sort, por uma cidade chamada Espot, que concentra escritórios para atividades esportivas de natureza e hotéis em sua pequena área. Dali, logo se chega a uma portaria, onde fica o carro. Seguindo a pé, o caminho é bem preservado e fácil para quem tem algum preparo físico, subindo levemente por um bosque por alguns quilômetros até o tal lago. No caminho, já é possível avistar os Encantats, uma montanha gigantesca e bastante recortada.

O lago em si é bonito, mas certamente não o mais impressionante que vimos até agora. O que colabora muito para classificá-lo como o mais famoso lago de montanha da Catalunha é o ambiente no entorno, com bosques de pinheiro e montanhas altas, enquanto os outros lagos já estão muito mais altos, em regiões acima de onde crescem árvores e muito perto dos picos. Também colabora o fato de ser muito acessível, tendo pessoas idosas e crianças feito a caminhada sem nenhum problema, além de um acesso por estrada para deficientes. Isso democratiza bastante o acesso, certamente. O lago de Certascan é muito mais bonito, por exemplo, mas o seu entorno é muito estéril e o acesso é praticamente impossível para quem não tem uma boa condição física. De qualquer maneira, o Sant Maurici é um local que merece a fama que tem, sem dúvida. Um outro ponto interessante do lago é que ele foi ampliado artificialmente com uma barragem. Nestes pontos ele é igual ao Lac Major de Colomèrs, diferindo dos lagos mais “naturais” como os de Perafita e Malniu.

Continuamos a trilha contornando o lago pelo lado norte. O caminho sobe seguindo um pequeno rio, que logo forma uma bela cachoeira, também bastante acessível. Ela não é grande, e também não chega a fazer uma queda vertical, mais deslizando pela pedra do que propriamente caindo. Mas a vista dali é de tirar o fôlego, mais do que já foi tirado com a subida até ali! É possível ver trechos do lago mais abaixo, por entre a mata. O caminho continua e logo a frente passa a linha das árvores. Isso é uma coisa muito curiosa em montanhas, há uma linha bem definida acima da qual as árvores não crescem mais. A vista fica muito mais aberta, mas tanto o sol como a secura ficam impiedosos. De qualquer jeito, segue-se por esse trajeto, contornando a estrada de montanha até o refugio de caminhantes Amitges.

Este refúgio de caminhantes não é exatamente nem um refúgio e nem de caminhantes… Muitas pessoas menos preparadas fisicamente, mas que querem curtir a altitude, pagam os jipes em Espot para serem levadas até ali. O local se converteu em uma espécie de hotel rústico, com direito a carregadores de mala que, em vez de táxis, dirigem LandRovers. Veja bem, nada contra esse tipo de turismo, desde que ele respeite o ambiente. O problema, na minha opinião, é a elitização do acesso, fazendo com que os caminhantes reais não tenham um local acessível para descansar durante as trilhas de mais de um dia. Também deixa evidente o confronto entre duas visões opostas de mundo, a visão daqueles que querem desfrutar da natureza em seu estado mais real e bruto, misturando-se a ela durante dias de estoicismo, com a visão de quem acha (e está certo) de que o dinheiro pode comprar os melhores locais, com as melhores paisagens, sem esforço ou comprometimento físico e ideológico. Fica claro qual das visões está lentamente eliminando a outra…

Passando o refúgio, chegamos logo a mais dois lagos, estes já de alta montanha. aproveitamos para nós refrescar um pouco (eu e o Picot, a Ju não!) e apreciar a paisagem antes de descida de volta. Lagos bonitos, mas nada páreo aos Colomèrs, que estavam a uma curta distância de nós neste ponto, do outro lado dos picos que nos cercavam. Para quem gosta de caminhadas longas (e, principalmente, não deixou o carro no estacionamento) essas trilhas de travessia ainda são muito bem preservadas nos Pirineus, mas dá a impressão de que já houveram dias melhores para os caminhantes. O caminho de volta transcorreu muito mais rápido, pois não precisamos parar para descansar.

No geral, eu achei que o parque merece sim a fama, que seja pelo menos por tornar acessível à todas as pessoas as belezas das montanhas. Mas se alguém quiser conhecer aquele canto único, onde quase ninguém vai, a raridade, não deposite suas esperanças aqui. Em nenhum momento ficamos plenamente sós na trilha, o barulho de conversas era constante (inclusive as nossas) e os jipes passavam com frequência por nós. A quem procura um canto reservado, minha dica é abrir o google maps, procurar os lagos mais próximos dos topos das montanhas e mais distantes das estradas, e então descobrir por conta como chegar lá!

La seu - Parking Sant Maurici

La Seu – Espot – Parking Saint Maurici

trilha Sant Maurici - refugi amitges

Estany Saint Maurici – Refugì dels Amitges (Trilha disponível para download

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O Estany de Saint Maurici

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Els Encantats

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Continuamos a trilha

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Lagos acima do Refugì dels Amitges

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Estany de Malniu

05/07/17

Em Agosto nós relaxamos um pouco e acabamos não fazendo trilhas originais. Repetimos algumas pequenas, até chegamos a dromir em um refúgio aberto, mas não havia nada de muito novo para contar. Até que na última terça resolvemos fazer uma caminhada pequena, mas nova, até o Estany de Malniu, só para aquecer e nos prepararmos para um grande plano que temos, de passar 2 dias e meio em trilha. Acontece que, como de costume, passamos do Estany e seguimos caminhando um tanto a mais, e tivemos que adiar nosso grande projeto porque nossas pernas não resistiriam… De qualquer jeito, acabamos fazendo uma boa caminhada em um local inusitado!

Começamos o dia um pouco tarde, já que não tínhamos nada planejado e acabamos fazendo isso pela manhã. Fomos com o carro até o Refugi Malniu, que fica a uma distância pequena do lago homônimo. A distância entre eles é de não mais do que 2,5 km de trilha, com uma subida leve. Este trecho estava bem movimentado, sendo constante a presença de pais e mães com suas crianças, deixando claro a facilidade do caminho. Contornamos o lago pelo lado oeste e começamos a subir novamente em direção ao Prat Fondal, uma área plana um pouco acima do lago. A trilha oficialmente acabaria aí, mas nós vimos a chance de subir a encosta mais alta, que divide a Catalunha da França. Tomamos coragem e, saindo da trilha demarcada, começamos a nossa escalada.

O caminho a partir deste ponto foi lento e bastante inclinado. Nós procurávamos a cada 50 ou 100 metros alternativas viáveis para a passagem, pois às vezes nos encontrávamos de frente com paredões de pedra imensos, brejos lamacentos ou vegetação volumosa demais para passarmos. Eventualmente chegamos em um local mais plano e, para nossa surpresa, o que achamos que seria o fim da trilha era na verdade a metade da subida. Não querendo desistir já tendo subido tanto, paramos para descansar um pouco e logo continuamos o caminho. Neste ponto, fomos surpreendidos por um barulho incomum, alguma coisa grande se movendo por perto. Porém não havia som de motor. A Ju avistou antes um imenso planador passando sobre nós, e da segunda vez que ele passou eu percebi que ele vinha acompanhado. Os dois planadores rodaram sobre nossas cabeças por algum tempo e depois desapareceram… Logo alcançamos uma passagem que dava uma vista melhor, e vimos que o resto da subida seria ainda pior. Só tínhamos uma alternativa, porque o vale a nossa frente era extremamente inóspito, e então contornamos a borda mais próxima de nós, que era menos escarpada. Depois de um trecho que oscilava entre caminhada e escalada, alcançamos o topo!

Para a nossa surpresa, quando conseguimos vista do topo, o local não era uma cadeia estreita de picos, como geralmente acontece. Demos de cara com um platô gigantesco e levemente ondulado, onde trechos de um pasto duro e áreas de pedra bruta se alternavam no terreno. Eu sabia onde nós estávamos, aproximadamente, e achei que seria proveitoso andar até a ponta oposta do platô, pois ali havia um imenso vale, já na França. Neste ponto, a vista aberta do local me enganou um bocado, e eu achei que as distâncias eram muito menores do que na realidade. No meio do caminho achamos um riacho tão limpo quanto frio, e aproveitamos para encher a garrafa, que já estava quase vazia (a Ju tinha uma segunda, mas ainda assim).

Durante esta parte toda pudemos apreciar manadas de vacas e cavalos, que eu imagino que estando ali fiquem fora do alcance dos fazendeiros da região, além de bandos de cervos selvagens. Assim que o Picot percebeu estes animais, saiu correndo o mais rápido possível atrás deles. Sendo a vista aberta, achei que não teria problema deixá-lo exercer seus instintos, sabendo que ele não alcançaria nada! Depois de muita corrida, ele voltou exausto, com um olhar satisfeito! Também vimos alguns locais onde pequenas flores vermelhas se alastravam pelo chão, formando vários pequenos núcleos coloridos ao nosso redor.

Ao chegarmos na ponta norte do platô, pudemos dizer que o esforço foi recompensado. A vista do vale é surpreendente, com uma pequena cadeia de picos dividindo-o no meio. Dali conseguimos ver duas cidades francesas e os caminhos que levam delas à área selvagem de Andorra, pela Portella Blanca. Neste ponto, tivemos o diálogo mais incomum do ano, sobre um helicóptero que passava voando a mais de 1km de altura abaixo de nós, de tão alto que estávamos. Descansamos um pouco neste local, apreciando a vista e o frio que fazia ali, antes de iniciar nossa volta.

Seguimos em direção ao lado catalão mais uma vez, passando por uma vaca morte, da qual só restava o couro e os ossos. Foi um pouco mórbido, mas nos mostrou como o local realmente é inóspito. Ao chegarmos nas escarpas do lado sul, demoramos um pouco para achar um ponto adequado para a descida. Mas eventualmente encontramos um caminho que se não foi fácil, também não foi impossível. Atravessamos depois da descida uma região dominada por grande pedras, sobre as quais tivemos que pular, para o desespero do Picot que muitas vezes não dava conta de escalá-las. Mas ele sempre achava um caminho alternativo e nos alcançava. Atravessamos alguns riachos que passavam por dentro de pedras e cavavam túneis no solo, de onde nós ouvíamos mas não víamos a água. Eventualmente chegamos de novo ao Prat Fondal e, desviando de algumas vacas, voltamos até o Lago. Dali, seguimos o mesmo caminho de volta para o carro.

Apesar do cansaço ter nos impedido de fazer a maior caminhada planejada até agora, que seria neste fim de semana, nós já traçamos outros planos e pretendemos fazê-la até o fim dom mês. E também não podemos dizer que não aproveitamos a trilha que nós mesmo inventamos!

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La Seu – Refugí Malniu

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Aproximadamente a trilha que fizemos

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Estany de Malniu

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Início da subida de fato, no Prat Fondal

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Ache o planador na foto!

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Nessa foto é possível reparar que o lado esquerdo, pelo qual subimos é menos escarpado e cheio de pedras, enquanto o direito é um paredão de areia, impossível de subir

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Atrás da pedra grande é possível ver a parede lisa e inclinada

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O grande platô

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Ache a cidade no vale lá em baixo! Era sobre ela que voava o helicóptero

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A descida foi em meio a essas pedras

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Picot vigiando a fronteira

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Só couro e ossos

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Vista dos lagos lá de cima

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Descemos esse paredão aí

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Bezerro no pasto ou “boi da cara branca”

 

Nova Colaboração: Brasileiras Pelo Mundo

Queridas leitoras e leitores,

inaugurei nesse sábado uma nova etapa, me tornando colaboradora do site Brasileiras Pelo Mundo. Para quem ainda não conhece, é uma blog maravilhoso, onde várias brasileiras espalhadas por esse nosso mundão escrevem sobre suas experiências em diversos locais e compartilham com o intuito de instruir e ajudar, além de formar uma rede de colaboração e apoio. Muitas dúvidas sobre documentação, situações difíceis, idioma, e também sobre situação positivas, novos desafios, adaptação, oportunidades e muito sobre a cultura de diversos locais podem ser encontrados lá.

Você pode simplesmente ler os textos do dia, procurar por país, por autora, por tema, etc. Recomendo conhecer e acompanhar!

Para começar, lê meu texto sobre Os Desafios de Ser Vegetariana no Interior da Catalunha lá!

Brasileiras LOGO

Road trip de Julho – parte 4 – De Volta pra Casa

Veneza foi o ponto mais distante que visitamos. Esse post engloba o que foi praticamente uma viagem de volta. Eu pessoalmente sou muito fã de roteiros circulares, já que é possível aproveitar muito mais. Então nosso plano englobou a volta por outro caminho, ampliando bastante o que tivemos chance de conhecer. Vamos à viagem!

Dormimos duas noites no camping próximo de Veneza, e o dia que passamos ali reservamos inteiramente para a Sereníssima. Não andamos o dia todo na cidade, claro, ficamos um bom tempo descansando no camping e revisando mapas, além de sofrer com o calor, claro! Este camping era especialmente lotado, com divisões de parcelas (o espaço para cada grupo) muito apertadas, para maximizar a capacidade. O resultado disso foi muito barulho e banheiros muito cheios (apesar de não sujos) e sem papel disponível (sempre, sempre leve o seu!). O público do camping também não ajudou, sendo composto de muitos jovens, o que aumenta a tendência para gritaria e músicas altas, quase sempre de péssima qualidade. Se vocês desejam tranquilidade, busquem campings familiares!

Para sair do camping e chegar na cidade foi um sufoco. Veneza é um local de acesso muito difícil, ainda mais caso se queira levar um cachorro. Tentamos pegar um ônibus, mas como qualquer coisa na Itália, o processo é tão complicado que é melhor evitar (o bilhete tinha que ser comprado anteriormente, mas não havia onde comprá-lo). Resolvemos ir de carro, mesmo sabendo que seríamos roubados pelo estacionamento. E de fato fomos, pagamos 18 euros por 3h nas ilhas… Do estacionamentos seguimos a pé até a Piazalle Roma, onde começa a Veneza de fato. Tínhamos um mapa e queríamos chegar na Piazza San Marco, passando pela ponte Rialto. Mas andar pela cidade provou-se um grande desafio, mesmo com, ou por causa de, as placas que indicavam o caminho da maneira mais imprecisa possível. A cidade conta com uma quantidade absurda de becos, turistas e lojas caras, tudo junto. Muitas vezes a velocidade de caminhada não passa do equivalente de uma procissão, e encontramos muitos locais em que a mesma direção era apontada em caminhos opostos pela sinalização. Depois de algum sofrimento, chegamos na ponte Rialto, e nos arrependemos. A própria ponte possui lojas sobre ela e o que parece ser um destacamento permanente de madames revestidas de roupas de marca bloqueia a passagem. Depois de algum tempo, alcançamos a Piazza San Marco. De lá seguimos por uma rua que contorna o sul de Veneza, aberta para o mar por algum tempo. Mas logo não aguentamos o calor e nos embrenhamos novamente para dentro das vielas. A vantagem de ter passado a Piazza é que a quantidade de turistas diminuiu bruscamente, e então podemos aproveitar melhor o passeio. Também achamos uma fonte, e com isso acabamos nos molhando inteiros para nos refrescar (inclusive o Picot!). Dali, o passeio se tornou mais agradável. Seguimos até próximo do Arsenal, onde assumimos que estávamos cansados e resolvemos voltar. Acho que andamos coisa de 10km, sob calor intenso (nosso ponto fraco!).

Passando para nossas impressões da cidade, devo dizer que foi melhor do que o esperado. A quantidade de pessoas não é algo que seja possível culpá-la, claro, mas os prédios comuns não estão bem conservados, mesmo cada lugar ali custando uma fortuna, nós vimos em imobiliárias locais (a gente adora isso!). Mas de maneira geral a cidade é bastante única, com uma história muito rica. A Piazza San Marco é incrivelmente grande, o que eu não esperava, e muitíssimo bem trabalhada. Uma somatória de prédios importantes no local deve dar para os arquitetos um espetáculo a parte, mas eu como leigo só posso admirar a riqueza de detalhes e luxo, sem consideração pelos estilos. Tanto a catedral como o palácio do Duque são dignas do poder comercial que foi a cidade, definitivamente. Uma vantagem intrínseca da cidade é a ausência de carros. Isso iguala todos os turistas, democratizando o acesso e ampliando o compartilhamento dos espaços. E principalmente, a cidade não fede, como dizem as más línguas. De maneira geral, vale a visita, mas muito cuidado para a síndrome de Paris não se estender para Veneza!

Na manhã seguinte, depois de resolvermos um sumiço de passaporte que o camping mantém como refém quando você se hospeda e depois não sabe onde guardou, seguimos para oeste, na direção de casa! Passamos rapidamente por Pádua (pedido meu, por questões familiares), somente para perceber que não havia nada para se ver na cidade além da Basílica de Santo Antônio. Mas eu fiquei feliz de ter descoberto que o nome do lugar, e consequentemente o meu, vem da antiga vila de Patavium, anterior até ao domínio romano.

Seguimos para Milão, onde chegamos ainda cedo. Aqui gastamos mais tempo, primeiro rodando seu Parco Sempione e o Castello Sforzesco, depois andando até a Catedral. Como outros locais, esse eu já conhecia, mas achei que valia a pena uma segunda visita, além de levar a Ju até um ponto em que eu garantia que valia a pena! O Parque é bastante amplo e bem cuidado e o Castelo permite a visita de muitas áreas de maneira gratuita, além de ser um excelente exemplar de construção militar antiga. A cidade prova que continua sendo o destaque econômico no vale do Pó por seu tamanho, pela qualidade dos espaços públicos e pelo nível de suas construções. Na cidade, a maioria dos locais são bem preservados e cuidados, limpos e bem planejados. Eu acho uma cidade muito boa para se passar algum tempo caminhando a esmo, já que isso sempre te levará a algum lugar agradável e bonito.

De Milão fizemos o que deveria ser uma volta rápida pela cidade de Como, para que a Ju visse pelo menos uma parte de um lago na beira dos Alpes. A cidade em si foi tranquila de passar, apesar das ruas estreitas. O problema foi na volta, quando eu errei feio o caminho por ter acreditado nas placas e acabamos perdendo um tempo precioso indo para lugar nenhum… Eventualmente nos encontramos e seguimos a estrada para Aosta. Aqui neste caminho tivemos uma surpresa desagradável. Vimos uma placa que indicava um castelo próximo da estrada, inclusive o próprio castelo era visível e muito, muito bonito. Ficamos um tanto excitados com a ideia de visitá-lo mas, depois de muitas voltas em estradinhas confusas, e de pagar muitos pedágios, chegamos lá só para descobrir que hoje ele é um restaurante ultra-chique e a visitação é proibida. Minha vontade era arrancar todas as placas no caminho, para que ninguém mais fosse enganado como nós fomos… Saindo do “castelo” entramos logo no Vale de Aosta.

Depois de mais um erro de navegação nos custando um bom tempo, no qual a Ju empatou o placar de erros comigo, encontramos a pequena estrada que levava para o nosso camping. O problema é que parecia que todos os italianos resolveram subi-la ao mesmo tempo, e pegamos um transito absurdo por entre pequenas vilas de montanha. Apesar da desordem da estrada, aqui temos que admitir que a paisagem era deslumbrante, tendo até vista para montanhas com neve eterna dos alpes. As montanhas e vales dos Alpes italianos são bem diferentes do que estamos acostumados nos Pirineus, com formatos mais acentuados e rios mais caudalosos. Ou pelo menos foi o que eu senti. Pudemos aqui aproveitar uma noite de frio, além de conhecer um canto da Itália que mais parecia a Alemanha, inclusive com um dialeto que se assemelhava a línguas germânicas.

No dia seguinte, saimos cedo e tivemos nossa penúltima decepção com a Itália no pedágio de fronteira, que custava 45 euros! O rapaz que trabalhava ali, vendo minha indignação, me indicou outro caminho, por sobre os alpes. Voltamos na estrada e tivemos a última decepção quando depois de uma curva abrupta a estrada bifurcava, não dando tempo ao motorista de escolher o lado que seguir caso não soubesse disso de antemão (claro que não havia placas antes). Rodamos por mais de uma hora para fazer o retorno e desembolsamos mais 7 euros de pedágio. Por fim, acertamos a estrada e passamos pelo Col du Saint Bernard e descemos as montanhas em direção de Bourg Saint Maurice. O ponto importante aqui é que planejávamos visitar Chamonix e o Mont Blanc, mas não havia rota não pedagiada naquela direção. Resultado é que alteramos nosso caminho para não gastar todo nosso dinheiro no pedágio, mas acabamos tendo boas surpresas do “lado pobre” dos alpes.

Bourg Saint Maurice é uma cidade de montanha francesa bem parecida com as dos Pirineus. Muito simpática e simples. Aproveitamos a visita para reabastecer suprimentos. No inverno a região deve ficar tumultuada com o turismo de esqui, imagino eu, pela quantidade de lojas de turismo fechadas. Dali seguimos para Annecy, onde aproveitamos as belezas de um lago de um azul cristalino junto as montanhas e enfrentamos um trânsito bastante parado e agressivo. Seguimos direto para Lyon, onde só cruzamos a cidade de carro, gastando tempo até demais no caminho, e seguimos a estrada até Brive la Gaillarde, atravessando um imenso vazio demográfico no meio da França. Chegamos tão tarde no camping e saímos tão cedo que o atendente da recepção se recusou a cobrar nossa estadia!

Nossa última cidade visitada foi Rocamadour, um casarão sobre um penhasco, com a cidade e a igreja construída na encosta mais abaixo. O local é fortemente frequentado por católicos, como uma peregrinação, mas eles são extremamente simpáticos com turistas e suas igrejas ficam permanentemente abertas para visitação gratuita. O cenário de pedra, com uma dose imensa de verticalidade, impressiona bastante. Mesmo cansados da viagem toda, tendo dirigido por dezenas de horas em poucos dias e tendo visto muitos locais únicos, Rocamadour foi uma agradável surpresa para terminarmos bem. É um daqueles locais que as fotos não são muito aprimoradas ou tiradas de um jeito específico para ficarem boas, o lugar é exatamente aquilo que a foto mostra! Saindo dali, pegamos o caminho inteiro até a Catalunha, onde a Ju já ficou em Puigcerdà para pegar o trem para Barcelona e resolver algumas burocracias, enquanto eu vim para casa com o Picot. Ufa!

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Como prometido, farei uma relação de lugares da Itália que visitamos e outros locais mais bonitos e provavelmente mais baratos e acessíveis que são equivalentes. Isso por causa da chuva de críticas que fiz ao país, me sentindo na obrigação de dar alguma alternativa. Listei somente cidades que eu visitei.

Cinque Terre – No texto eu já disse que Paraty ou Trindade são melhores, mas uma opção européia é Cadaqués, com uma beleza natural e de construções superiores, um bom atrativo artístico com a presença forte de Dalí e ainda com crema catalana! (um crème brulée local)

Lucca – Apesar de seus muros convertidos em um parque serem especiais, esse talvez seja o único atrativo real da cidade. Carcassone também é murada, e ainda é fácil encontrar crepes de Nutella. Toledo ou Girona também são muradas e valem uma visita.

Pisa – Quer ver uma torre bem construída, com riqueza de detalhes, num local deslumbrante e que não entorta porque foi bem planejada? Vá para Lisboa e aproveite a Torre de Belém, aproveite para comer muitos doces portugueses!

Florença – Essa não tem substituição, admito.

Veneza – Apesar de bastante única, seu estilo não muda tanto assim de Amsterdã. Bruges também tem lindos canais, além de bons chocolates.

Gênova – A história de Gênova não pode ser substituída, mas no quesito agradabilidade e estilo, volto a sugerir Lisboa, outro porto importante com um destaque na época moderna. Também Londres, apesar de importante em diversos momentos, se superou na idade moderna e sua navegação, apesar de fluvial, foi de extrema importância.

Milão – Apesar de eu gostar muito dessa cidade, seu castelo não é melhor que o de Carcassone. Mantido o mesmo estilo, temos o de Perpignan também, feito de tijolinhos e com um grande pátio interno.

Vale de Aosta – Quando o assunto é montanha, eu sou um forte defensor dos Pirineus. O esquecido Val d’Aran é mais acessível (seu túnel não tem pedágio), mais tranquilo e incrivelmente bonito (vale conferir o post que fizemos!).

Acho que é isso, pessoal. Espero que vocês tenham gostado da viagem, e se precisarem de dicas, estamos sempre à disposição!

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Veneza (Itália)

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Milão (Itália)

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Milão (Itália)

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Milão (Itália)

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Annecy (França)

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Annecy (França)

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Lion (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

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Rocamadour (França)

Na fan page do blog no Facebook você pode conferir todas as fotos e vários videos sobre essa viagem completa!

Road trip de Julho – Parte 3 – Nice e Itália

20 e 21/07/2017

Saímos da região do Gorges du Verdon na direção de Nice, onde chegamos poucas horas depois. A estrada ali vai se afastando lentamente da região mais escarpada do parque e os vales se alargam conforme nos aproximamos do litoral. Essa parte da estrada só eu vi, porque saímos bem cedo e neste momento todas as passageiras dormiam profundamente! Eu faria isso também se pudesse… Chegamos em Nice no começo da manhã e rodamos um pouco a avenida junto ao mar antes de encontrar um lugar para estacionar. Passamos somente uma hora na cidade, que as meninas aproveitaram para nadar no mar e a Ju e eu utilizamos para subir em uma encosta com um mirante no topo. A vista da cidade lá de cima é bastante privilegiada, sendo possível ver toda a costa e boa parte da cidade. Também vimos o mar do alto, o que garantiu a certeza da limpidez da água, que mesmo nos trechos mais profundos ainda era possível enxergar as rochas ao fundo.

De Nice seguimos para Gênova, atravessando a fronteira. A estrada italiana era composta de pontes e túneis em sucessão, já que a região é muito acidentada, sendo o ponto de encontro dos Alpes com o mar Mediterrâneo. Com somente duas pistas e uma profusão de carros de luxo acelerando (passamos do lado de Mônaco, mas nem sequer tentamos entrar!) e caminhões obstruindo a passagem, essa estrada foi um tanto desafiadora e estressante. Mas mais estressante ainda foi chegar em Gênova e perceber que se os pedágios franceses são caros e numerosos, os da Itália os superam bastante… O primeiro pedágio nos custou coisa de 18 euros para um trecho de não mais de 3 horas.

Um grande amigo meu depois da viagem me disse que tinha adorado Gênova, e eu não duvido da experiência dele. Mas certamente tivemos outra. Paramos o carro no centro velho e pagamos outra hora de estacionamento e então fomos andar um pouco. A cidade de começo já tinha assustado pela desorganização do trânsito e pelo descuido. As fachadas todas da cidade estavam despedaçadas e a sujeira predominava. Os becos da cidade fazem com que o centro de São Paulo pareça uma maravilha. Uma crosta preta se alastrava pelas calçadas e paredes. Caminhamos novamente morro acima, por vielas malcuidadas, até chegarmos em um ponto que parecia mais bem tratado. De lá de cima, a vista da cidade não decepciona, mas a única maneira de parecer bonito é visto assim de longe mesmo. Talvez eu e meu amigo tenhamos visto partes ou momentos diferentes da cidade, imagino eu.

O plano ao sair de Gênova nos levaria até La Spezzia, onde contornaríamos a estrada e chegaríamos a Riomaggiore. Por conta dos pedágios, decidimos seguir pela estrada costeira e gratuita, aproveitando para ver outras vilas da famosa Cinque Terre. De começo já percebemos que teríamos problema ao longo de toda a viagem na Itália com as estradas, pois ou elas são pesadamente pedagiadas (preços que chegam a ser proibitivos!) ou são muitíssimo mal sinalizadas. Talvez isso seja para não destruir a tradição italiana de parar e perguntar, mas fato é que tivemos muita dificuldade para nos localizar em todos os percursos. A de Cinque Terre não foi diferente. E no caso, além de mal sinalizada, era terrivelmente conservada, com o capim em volta invadindo a pista em boa parte do percurso, isso no auge do verão e do turismo.

Descemos a encosta até a primeira cidade, onde não encontramos lugar para estacionar. A cidade estava cheia de carros de luxo, jovens vestidos na última moda e uma multidão de turistas. Não vamos reclamar muito, afinal também estávamos turistando, mas certamente seria preciso um controle mais rígido para a quantidade de pessoas para a região. Viramos o carro e seguimos viagem, dessa vez sem parar até chegarmos em Riomaggiore. Lá tivemos que esperar até o estacionamento local livrar uma vaga. Então seguimos a pé, descendo até onde a vila encontra o mar.

Eu não teria nada para reclamar caso fosse uma vila de pescadores no original, mas a cidade, mesmo recebendo hordas de turistas, não conta nem um pouco com alguma política de preservação. As casas todas estão despedaçando, um cenário que seria mais compatível com o abandono total, enquanto uma profusão de restaurantes completamente desvencilhados da cultura local se propagam. Achar um lugar para apreciar a paisagem junto ao mar é bastante difícil também, dada a movimentação. Aqui se misturam jovens mochileiros com jovens playboys, o que cada um dos grupos buscam eu não sei. Eu pensaria que o primeiro grupo procuraria autenticidade e tranquilidade, enquanto o segundo procuraria estética e luxo. Infelizmente, não encontrei nada disso ali. Riomaggiore provou pra mim o poder que a propaganda tem, atraindo tantas pessoas e fazendo-as se sentir simpáticas a um local que a meu ver não possui nenhum encanto. Melhor teria sido visitar Trindade ou Paraty, no Rio de Janeiro, que mesmo muito cheias no verão ainda preservam alguma autenticidade, além de serem mais bonitas e mais baratas!

Depois de Riomaggiore atravessamos La Spezzia, onde descobrimos que a gasolina mais barata da Itália custa 40% a mais que a média da Espanha, o que nos causou mais um aperto no coração. Dali pegamos uma estrada de montanha até nosso camping, próximo de Lucca, cidade que visitamos no dia seguinte. No camping chegamos tarde e saímos cedo, coisa que se tornaria corriqueira na viagem, portanto não vou emitir opinião sobre ele, pois seria injusto. Dali seguimos descendo uma serra que terminou por chegar em Lucca.

Lucca era uma cidade que eu já conhecia, mas que não vi nenhum problema em passar de novo. Acho que é um lugar agradável e simpático, apesar de estar desprovido da mesma fama que outros locais próximos ou de alguma beleza realmente excepcional. Paramos o carro perto da cidade murada e saímos para andar. Fizemos uma volta grande, vendo diversas catedrais em estilos diferentes e passamos pelo passeio que fica sobre as muralhas, esse último sendo o local que mais me agrada na cidade, por sua tranquilidade e pela vista privilegiada. Me chateou um pouco uma coisa que eu não lembrava em Lucca, que foi a quantidade absurda de lojas internacionais que se posicionaram no principal roteiro do centro velho. Não sei se já estavam lá quando visitei a primeira vez ou se eu que não tinha percebido, mas eu me incomodo com essa situação, que desloca os comerciantes locais e faz com que todas as cidades turísticas do mundo tenham a mesmíssima cara… Ainda assim, foi um momento agradável do dia. Seguimos de Lucca para Pisa.

Em Pisa passamos rapidamente, e sinceramente não acho que há outra maneira de passar por ali. A verdade é que a cidade de Pisa tem muito pouco a oferecer além da torre. Para quem está viajando como nós costumamos fazer, e portanto se abstém de visitar os museus e subir a tal torre, é possível completar a visita à cidade em cinco minutos. Pode-se dizer que perdemos muito não visitando esses locais, mas a verdade é que os museus eclesiásticos pelo mundo todo são bem, bem parecidos (para quem não sabe há uma imensa catedral junto à torre), e duvido muito que dentro da torre haja algo que possa valer a visita, considerando o quanto devem cobrar uma entrada em um ponto tão turístico assim. A torre, vista de fora, é até bem trabalhada, mas sua inclinação não é por motivos propositais, fossem eles de origem científica, estética ou qualquer outro (como aqui concedo algum mérito para a Torre Eiffel, que eu acho horrível, mas tinha um propósito técnico). A torre inclinou porque foi mal construída mesmo, e por algum motivo isso ficou famoso. O resultado disso é uma cidade em que se entra, tira-se uma foto e vai-se embora sem perder nada de mais.

Passada Pisa, fomos para Florença, essa sim uma cidade que merece o renome que tem. Claro, o erro foi visitá-la no verão, e por isso tivemos que nos acotovelar com grupos imensos de pessoas e máquinas fotográficas somente para poder passar no Uffizi, sem ter sequer chance de visitar por dentro. Mas Florença é uma cidade bem cuidada e preservada, de importância real na história da humanidade, com locais realmente interessantes para visitar, menos a Ponte Vecchio, que é meio sem graça e bem cheia. De qualquer jeito, essa é uma cidade que eu gostaria de ter mais tempo para explorar e conhecer em momentos mais tranquilos, mesmo sendo a segunda vez que a visitei. Acho realmente que apesar de os preços de museus aqui provavelmente serem absurdos, o que há para ver e aprender na cidade compensaria tal gasto.

Neste ponto nós nos despedimos da Clara e da Pietra, que seguiram sentido Roma de ônibus, enquanto nós fomos sentido Veneza. Seguimos por estradas vicinais, e gastamos um bom tempo cortando um caminho de montanha, através dos Apeninos, por pequenas vilas. Esse talvez tenha sido um dos meus trechos favoritos na Itália, por que pudemos ver locais que não foram feitos para turistas, com as pessoas se reunindo nos bares no final da tarde para conversar e tudo mais. Paramos para pedir informação e comprar comida e fomos recebidos com a típica cortesia grosseira italiana, uma outra vantagem desses locais que ninguém visita. Chegamos bastante tarde ao nosso camping, muito próximo de Veneza, e diferente dos campings de montanha que tínhamos frequentado até ali, pudemos sentir o calor sufocante do verão italiano…

Continuarei a descrição da viagem em um quarto post, começando com Veneza e seguindo até Rocamadour, mas por enquanto gostaria de explicar algumas coisas. Esse post deixa um pouco evidente o quanto eu fiquei insatisfeito com a Itália, e devo dizer que a Ju compartilha a minha sensação. Claro, para quem não viajou muito, ou é bastante influenciado pela propaganda, a Itália pode ser encantadora, visto os diversos filmes, livros e capas de revistas turísticas que se ambientam no local que visitamos (Sob o sol de Toscana; Comer, rezar, amar; Cartas para Julieta; Todos dizem eu te amo et cetera). Mas tanto eu como a Ju somos viajantes experientes e podemos garantir que há coisas muito melhores esperando para serem visitadas, por preços mais acessíveis e menos disputadas também. E para provar isso, no próximo post eu colocarei também uma lista de locais que nós conhecemos e que podem substituir os locais que visitamos na Itália, com a mesma qualidade ou até superior!

 

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Nice (França)

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Nice (França)

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Galleria Giuseppe Garibaldi, Gênova (Itália)

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Riomaggiore, 5 Terre (Itália)

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Riomaggiore, 5 Terre (Itália)

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Lucca (Itália)

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Lucca (Itália)

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Pisa (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)

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Florença/Firenze (Itália)