Big Little Lies

Apesar do texto ir ao blog na terça, hoje é sábado. São quase 18h e eu estou atônita, olhando para a tela do meu computador depois de terminar de assistir Big Little Lies, sem saber o que pensar, o que sentir, além de que eu queria muuuuuuuuito nesse momento dar um abraço bem forte em todas as mulheres que eu conheço e dizer “Você não está sozinha! Está tudo bem!”

Eu não vou dar spoilers, e peço a gentileza que não deem, caso deixem comentários, mas recomendo fortemente que assistam! Especialmente se você for mulher. Não é um seriado leve. É forte, os temas são pesados. Mas fala muito profundamente com o âmago da realidade de ser mulher. Mesmo que seja de uma mulher linda, rica, californiana.

Esse seriado é extremamente relevante, embora possa não parecer a princípio, porque fala de algo que hoje em dia é norma: a falsa realidade, a vida aparente. Lembre-se sempre, sempre, que todas as pessoas do mundo, apesar das fotos de viagens, comidas lindas e gostosas, amorzinhos sem fim e tudo o mais que o facebook, instagram e mídias sociais representam hoje em dia, todos são humanos! E todos nós levamos uma bagagem bem pesada nas costas!

Algumas bagagens são mais violentas, outras mais amorosas, algumas mais sofridas em silêncio e outras aos berros, mas todos nós temos uma bagagem enorme. E todas as mulheres apendem desde cedo a sorrir, serem bonitas, apesar de, e justamente porquê possuem, suas bagagens.

Tratem as pessoas com amor, a gente nunca sabe o quanto o outro precisava daquele abraço, daquele elogio sincero, daquela pausa pro café, pra desabafar, pra sentir confiança em contar com o outro. E mulheres, minhas irmãs, sejam mais solidárias! A gente sabe o quanto cada uma sofre, e sabemos que por trás de cada sorriso existe muuuita bagagem! Vamos nos olhar nos olhos de forma a ir além dos sorrisos, e dar amparo à alma! É tudo que ofereço e peço!

De quebra, assista quando puder. São 7 episódios de aproximadamente 1h cada. Veja na ordem. Não veja o sétimo antes de nenhum outro. Você só respira aliviada nos últimos 10 minutos. Até lá, perceba na maldade humana o reflexo de outras maldades, e perceba que os ciclos não se rompem sem muito amor, muito apoio e muita sororidade!

Ah sim, aproveita e baixa também a trilha sonora, vale a pena!

Aproveito pra deixar aqui essa dose de amor bem nessa semana que completei meus 31 anos. Sim, eu amo ser uma mulher na casa dos 30! E sinto que ficará cada vez melhor! ❤

bll cafebll

 

Outono

Tiro o casaco impermeável, mas fico com preguiça de tirar o gorrinho da cabeça. Passei o dia todo com as botas de caminhada nos pés, embora tenha saído só um pouco pela manhã e uma voltinha com o cachorro à noite. As meias que vinha usando já me parecem finas nos pés, oferecendo pouco volume entre meus dedos e as palmilhas, que ao caminhar esfriam rapidamente, apesar das solas grossas da bota. Ao tirar as botas os pés esfriam rápido demais, apesar das meias frias. No meia da tarde fui revirar meu saco de meias e puxar para o topo as meias grossas de inverno…

Coloco a xícara de chá na mesa. É a terceira do dia. Pela manhã tomei rooibos com framboesa. Após o almoço uma infusão de hortelã e agora à noite uma de camomila. Quando sentei para ler um pouco, no fim da tarde, me enrolei na manta peruana que mora no sofá. Conseguia sentir nos braços a na parte da baixo das canelas a diferença térmica das coxas e abdômen, aquecidos pela manta e o resto não. Ainda não é tão frio, não estou de casaco em casa, não tremo de frio sem essa roupa toda, mas a manta, o cachecol e o gorro me dão aquela relaxada extra, que só um toque morno, de carinho, de massagem, de amor, nos trazem. É outono.

Não oficialmente, ainda claro! Essa mudança oficial chega essa semana, mas o outono chegou uns dias antes, pra já ir avisando à que veio. Essa noite chegaremos a 0ºC na madrugadinha. Depois ainda vai esquentar um pouco, até o fim da semana o sol abre um pouquinho, entre nuvens, e ficaremos entre 22º e 8º, mas hoje a máxima foi 18º, com chuva fina, céu cinza. Mas não é o cinza que dói, que desanima. É o cinza mais caloroso que eu conheço. Aquele clima que faz a gente ficar feliz de estar junto, aconchegado no sofá, debaixo das cobertas! É o clima perfeito pra dormir de conchinha, pra ver filme debaixo das mantas comendo pipoca recém-feita, pra abraçar o cachorro e cochilar depois do almoço, sentindo o calor que emana de cada outro ser dentro da casa.

O outono pra mim é amor! É a estação mais calorosa! É quando estar junto é mais gostoso, mas não indispensável! No verão é quente demais para ficar tão junto, tão perto. No verão, quando o suor se mistura é por pouco tempo, e existe um calor que vem de fora, que nos faz precisar de um espaço, físico, mental e emocional para não derreter, sucumbir sob o mormaço. O inverno é quando estar junto é sobrevivência. É um tempo muito estéril, de muita reflexão, de mente solitária, ativa, afiada como o gelo sob a neve. O estar junto, quando possível, não é escolha, é necessidade. A primavera é quando a gente ganha a independência, e embora estar junto ainda não seja tão desafiador quanto durante o verão, já é possível estar longe e depois do longo inverno nada melhor que sair por aí, andar, respirar o ar fresco, e tomar o sol morno, ver as flores surgirem.

O outono não, não por acaso o mundo fica amarelo, laranja e vermelho. As luzes e as cores representam esse calor, tão humano, tão animal, tão do aconchego, tão do outono. As mãos agradecem a xícara de chá quente nas mãos, as orelhas agradecem o gorro na cabeça e os pés ficam gratos pelas meias grossas. Mas ainda não é necessidade, sobrevivência, é amor, afago, aconchego! É quando tudo fica propício para o carinho e o cafuné, uma conversa um volta da fogueira, uma lareira, um chocolate-quente.

O gorro finalmente sai da cabeça e as botas dos pés, quando com uma mão vou despindo-os e com a outra bato no teclado, pois é dia das palavras saírem. o chá já acabou, e a louça ainda precisa ser lavada. Com água morna. O cabelo só vou lavar amanhã. Começou aquela época da minha predileção de banhos no meio do dia, quando ainda é quente e não preciso do secador.

Ah, meu querido outono, que bom que você chegou! A gente vai se amar muito nesse aconchego de carinhos e cores mornas, enquanto a chuva vai acalmando os ânimos lá fora, limpando as farras do verão, e preparando o mundo pra neve do inverno. Enquanto isso os livros, os chás, os chocolates, as pipocas quentinhas vão se tornando tão especiais! Ler um livro debaixo das mantas passa a ser o melhor hobby do mundo, e o banho morno devolve a sensibilidade dos dedos dos pés e das mãos, transformando esse simples hábito higiênico diário em mais um ato de auto-amor!

Agora vou para minha ducha quentinha, e o pijama vai ser completado com as meias grossas e um casaco molengo bem enrolado no corpo. Depois quem sabe, mais um chá ou um chocolate-quente antes de dormir.

Vem, outono! Vamos se amar muito! ❤

Ferrante

Mês passado eu li a Série Napolitana da Helena Ferrante, primeira obra dela que leio. São 4 volumes que me absorveram e consumiram por completo. Ainda tô tentando digerir. Às vezes me pego pensando, me inspirando. De tudo, o que mais queria dizer é, obrigada! De tudo o que mais sou é grata por poder ler tal obra.

Os quatro volumes, que inspiram ares de uma longa saga, não poderiam estar mais distantes de todas as sagas heroicas que li e reli com tanto gosto e afinco na vida, e ao mesmo tempo nunca me senti tão inspirada por uma saga. Ferrante é mulher. Primeiro e acima de tudo! Depois é escritora, de porte e renome, e de uma escrita que só posso definir como verdadeira. Nessa obra, escrita entre 2012 e 2015, Helena nos presenteia com um relato detalhado de sua vida, já de uma perspectiva da autora idosa, podendo assim falar de começo, meio e ares de fim, numa história auto-biográfica com gostinho de auto-ficção.

Depois de terminar os quatro volumes só conseguia pensar, obrigada! Obrigada por me mostrar que ser escritora é mais que ser brilhante. Que a literatura é mais do que as sagas heroicas. Obrigada por ser mulher! Obrigada por me mostrar que ser mulher é viver uma saga heroica, digna de muitos volumes.

O estilo de escrita é ao mesmo tempo delicado, feminino, visceral, sujo, cheio de confissões, revelando medos, paixões e destinos. Helena nos mostra que ela é sim, ao mesmo tempo brilhante e como qualquer uma de nós. Nos mostra que mesmo uma ativista feminista, que escreveu e debateu sobre a situação da mulher ainda nas décadas de 1960 e 1970 na Itália, pode ser vítima de relações abusivas e más escolhas amorosas.

Helena nos mostra que criar filhas e ter uma carreira foçam a mulher a decisões dificílimas, que são tomadas sempre muito sozinha, mas cujos resultados são duramente julgados pela sociedade, pelos homens. Mostra também que “bons” homens não são necessariamente “bons” pais. Que intelectualidade não é sinônimo de inteligência emocional. E que as violências psicológicas impactam tanto a vida quanto às físicas.

Mas Helena mostra também que temos essa força para seguir a vida, a pesar, e por causa de tudo isso. E que as consequências são isso, consequências. Boas ou más é um julgamento individual, dos que conosco convivem e sofrem as bençãos e desgraças dessas consequências.

Ela nos mostra que tentar agradar é falhar. De ante mão! Sempre. E que ser “bem-sucedida” é um conceito tão vazio e vago quanto um pântano cheio de neblina. Família é um conceito abstrato, que se confunde com amizade, origens e empatia. E que ao longo da saga que é a vida de cada um de nós, as mesmas personagens assumem papeis diversos, de heróis à antagonistas, cada qual por sua vez. E aqui a protagonista não é protegida. Não existem os “bons” e os “maus”, existem nós. Todos nós.

Me chocou a violência doméstica estatizada italiana. Que incluí de estupros dentro do casamento à crianças defenestradas em surtos de raiva dos pais. Incluí também violências mais delicadas, como competições entre amigas e irmãs, desde por notas escolares e carreira profissional até namorados, maridos e amantes. A falta de sororidade é proporcional ao nível de violência machista. Acaso? Duvido, e Helena também.

Me choca também o desligamento do conhecimento acadêmico e da elite intelectual com o povo, às necessidades reais da sociedade e capacidade de comunicação bastante desgastada, se é que algum dia ela existiu de fato, entre os grupos. Seja quando ela relata a própria experiência acadêmica e a relação de desaprovação de seu trabalho em comparação inversa com a apreciação do público em geral pelo seu trabalho publicado. Seja entre os militantes partidários de esquerda bem estudados e os trabalhadores sofrendo as violências diárias nas fábricas. Seja entre o discurso do “bom moço” e suas ações práticas no trato com as mulheres.

Então, o que aprendi com Helena é que a vida é uma saga onde ninguém é herói, onde alguns conseguem tudo com pouco esforço, por nascimento ou influência e outros perdem sistematicamente tudo o que conseguem com muito esforço. Mas que no final, nem isso importa. Que se queremos algo devemos fazer nós mesmos, e que família são os amigos que construímos no caminho, assim mesmo dadas proporções. E que em meio a toda essa vasta solidão, basta amarmos a nós mesmas e seguir confiante. O não já temos, então por que tanto medo de tentar o sim?

Obrigada, Helena!

 

Saúde

Há uns tempos atrás uma amiga muito querida me pediu/sugeriu escrever um post sobre saúde. No começo resisti muito, pois não sou nada da área de saúde e não posso ficar dando conselhos sobre isso por aí. Mas depois reli a sugestão dela e me veio na cabeça escrever sobre o que sempre escrevo: sobre mim! Sobre minha experiência, minha história, meu diário.

Vou contar um pouquinho do meu histórico aqui: nasci prematura, de 7 meses, pesando pouquíssimo mais de 1kg, para o desespero da minha mãe. Mas não tive nenhuma sequela. Na verdade, menos de 12h depois do meu nascimento, já não precisava de nenhum cuidado especial, nem os que normalmente crianças de 9 meses precisam. Mas não conseguia me alimentar. Fui alimentada por sonda por 45 dias, com leite materno, da minha mãe e de muitas mães de leite que eu tive!

Esse fato poderia ser irrelevante não fosse o detalhe que ele provocou na minha mãe e na minha avó: as obsessões alimentares. Ambas sofriam de anorexia, não diagnosticada, mas bastante óbvia se acompanhada de perto. Acho que quando eu nasci ainda não sofriam, ou não estavam em período de crise, mas ambas tinham problemas com depressão, ansiedade, minha mãe teve em diversas ocasiões crises de pânico, e no final da vida de ambas a anorexia se tornou evidente.

Desde sempre lembro de minha avó fazer comentários um tanto quanto maldosos sobre o peso, dela, meu, de primas, da minha mãe, e outras pessoas. Então creio que mesmo que não estivessem sofrendo com o baixo peso excessivo naquele momento, o tópico dos transtornos alimentares sempre esteve ali, rondando, sabe?! Mas o fato de eu ter nascido prematura e muito pequena teve um efeito, positivo ou negativo é discutível, e ambas me empanturraram de comida na infância: óleo de fígado de bacalhau, Biotônico Fontoura com sementes de sucupira mergulhadas, pernas de rã (que eu não gostava), rins (sempre odiei), foram uma infinidade de suplementos famosos na época que fizeram parte da minha dieta.

Resultado: aos 8 anos deixei de ser a menininha magrela que tinha sido até então e entrei numa fase mais cheinha, que demorou pra acabar, e que se de um lado me superalimentavam, de outro faziam os comentários ácidos sobre peso e aparência, e isso gerou uma pré-adolescência bastante sofrida em termos de auto-imagem corporal. Isso vem, pra mim, do lado negativo.

Do lado positivo, vem a combinação de uma mãe hippie e uma avó criada em fazenda. Sempre comemos tudo feito em casa, com muuuuuita fruta, pomar em casa, horta, muita verdura, muita planta. A sobremesa de segunda a sexta era fruta. Durante as refeições só água. Sucos como lanche da manhã ou tarde. Nada industrializado. Nos fins de semana, às vezes um refrigerante ou uma sobremesa feita de chocolate, leite condensado, essas coisas, mas eram eventualidades. Nunca me foram proibidos, mas foram desencorajados. Até porque, lá em casa, o que era visto como relíquia, tesouro, algo a ser desejado, era uma boa goiabada com queijo de fazenda, doce de fruta em calda, pudim de leite, ou ambrosia goiana (a versão da família da minha avó, o famoso “doce de ovos”, era muito melhor que qualquer ambrosia que já tenha comido fora de casa!).

Com minha mãe veio o hábito das vitaminas, abacate, castanhas do pará (ou do Brasil, como tem sido chamadas), leite de soja. Além da babosa no cabelo, cultivada em casa (o famoso aloe vera), o creme de abacate no cabelo, o chá de camomila no meu cabelo loiro da infância, o óleo de uva na pele, e essas coisas que hoje em dia estão sendo consideradas o máximo em termos de produtos de beleza orgânicos e naturais, e que na minha infância eram apenas os reflexos hippies de quem acreditava num mundo mais natural e ao mesmo tempo não tinha grana pros produtos industrializados. Aliás, minha mãe ficaria entre o irônica e furiosa com os preços cobrados hoje em dia por uma vitamina de abacate ou um xampu de aloe vera.

Mas essa mistura me fez crescer num ambiente que foi marcado por uma alimentação saudável, em sua maior parte, e por pessoas que evitavam correr para os remédios convencionais. Minhas dores de ouvido eram tratadas com compressa de farinha de mandioca, e a dor de garganta com chá de gengibre, cravo e canela que dava suadouro. A tosse do inverno com café com uma colherinha de manteiga e mil outras crendices, que sem entrar na discussão de se funcionavam ou não, se são respaldadas pela medicina atual ou não, de fato, fizeram com que eu crescesse bem, saudável, com peso e altura sempre muito elogiados pelos pediatras e sem me entupir de remédios. Aliás, remédios eram vistos como última instância, e mesmo assim, na maioria dos casos, homeopáticos.

Eu cresci então com essa visão, mas só anos depois, e bem recentemente, percebi o impacto real dela em mim. Até hoje tenho mania de tentar resolver e definir tudo pela alimentação e hábitos relativos ao sono, controle do estress, cansaço, etc.

Em outros pontos a criação não ajudou muito. Embora meu avô tenha insistido que aprender a nadar era uma questão de sobrevivência, e antes dos 2 anos eu já nadasse sozinha e sem boias, numa piscina que não dava pé, e tenha feito natação até os 18, a prática de atividade física regular não era uma coisa vista como essencial. E demorei muito pra encontrar um jeito de manter o corpo em movimento na vida adulta que eu gostasse. Sempre odiei os esportes competitivos. É uma visão bem pessoal.

Mas o resumo é que nunca fumei, muitos em minha família fumaram e eu odiava com todas as minhas forças. Bebi muito pouco, em uma breve fase que logo abandonei, e agora já completo anos sem álcool. Nunca, Jurema? Nunca, nem uma tacinha, nem às vezes. Não!

Então, para falar de saúde, primeiro tenho que deixar isso claro. Nunca usei aparelhos dentários, nunca tive cáries, nunca fiz cirurgias, nunca fumei, não bebo uma gota há anos, não uso drogas e entorpecentes de nenhum tipo, cresci com uma alimentação bem saudável, que vem se tornando cada vez mais. Não como carnes de nenhum tipo há anos também. Sempre bebi muuuuuuita água, e chás!

Com meu marido, aprendi que o chá muito quente pode fazer mal ao estômago, por danificar aos poucos a mucosa, com o líquido muito quente. Fui pesquisar e descobri que é por isso que as xícaras de chá orientais não possuem local para segurar afastado do copo. Se estiver muito quente para segurar com a mão cheia, não deve ser ingerido, e passei a adotar a técnica. Só bebo o chá quando consigo segurar a xícara com ambas as mãos por pelo menos um minuto sem sentir incômodo.

Sempre que me sinto mal, o que não é frequente, analiso bem minha situação emocional, as mudanças de vida, a alimentação, e tento trabalhar isso antes de recorrer a remédios. Aprendi com o tempo os efeitos que o clima tem em mim, não lido bem com o calor forte, especialmente o mais úmido, tenho respeitado mais minha digestão, e meu corpo, meus horários naturais de sono, de ir ao banheiro, etc.

Algumas coisas e pessoas foram e são fundamentais nos meus processos de auto-conhecimento e saúde. Um dos que mudou minha vida foi um nutricionista, de Brasília, que me ajudou na transição para o vegetarianismo, e também me ajudou muuuuuito com auto-conhecimento. Foi uma das pessoas que mudou minha vida. Outra foi uma médica homeopata em São Paulo, a única que resolveu depois de 17 anos, meu problema com cólicas menstruais. Dos 12 aos 29 sofri horrores com cólicas, com mil histórias tensas, de ter que ir da escola para o hospital, de tomar superdose de medicamentos para cólica, enfim, sofrimentos variados, e infelizmente, considerados normais, por muitas mulheres. Há 2 anos e meio não sinto mais cólicas debilitantes, minha menstruação não é mais um período temido e sofrido, e embora às vezes ainda tenha cólicas leves, aprendi como resolvê-las e aprendi a me respeitar nesse período, me recolhendo mais, e respeitando minhas necessidades de descanso e paz!

Outra coisa que mudou minha vida e minha relação com meu corpo foi o Método DeRose! Pratico desde 2014 e cada vez aprendo mais, gosto mais, descubro mais. Ainda falta muito nessa jornada, mas nem consigo enumerar aqui tudo que ele me trouxe de bom, não só em termos de saúde, mas de autoconfiança, desenvoltura, e muitas, mas muitas ferramentas, pra lidar com o dia-a-dia, com minhas emoções, com a vida em geral.

Eu não sei se consegui, com esse post, responder pra minha amiga Nay como cuido da minha saúde, mas é isso aí. E sinto que ainda tenho tanto pra mudar, tanto pra aprender! Cada mês é uma nova descoberta sobre como lidar comigo mesma e com os outros. E me sinto cada vez melhor!

Vivendo com pouco e aprendendo com muitos

(Texto de junho/17 – adiantamento por motivo de férias em julho!)

Estou aqui aproveitando uma semana de chuva, longe das minhas caminhadas, e já que estou indoors sigo com os outros projetos, muita leitura, muitos post escritos adiantados, muita escrita e pesquisa. Em julho faremos uma viagem longa, de carro, e ficaremos sem wi-fi por mais de duas semanas. Na volta contaremos aqui sobre tudo e certamente teremos muuuuuuitas fotos! E mais pra frente, até o final do ano, estamos com outros projetos que não sei classifico de ambiciosos ou despretensiosos. Contraditório? Sim! Fato é que queremos botar o pé ainda mais na estrada e viver “on the road” por um ou dois anos, quiçá mais, veremos.

Com esse plano, estou procurando tudo que posso sobre van, modificações, e todos as peculiaridades de uma vida ao ar livre. Já demos um upgrade nos equipamentos de camping, fogareiro, panelas, bolsa “geladeira”, e coisas assim. Agora estou selecionando lanternas, lampiões e ventiladores com recarga USB, e outros detalhes da vida nômade.

Nesse processo tenho me deparado com inúmeros blogger e vlogger que falam sobre suas diversas experiências, algumas nômades, outras não, mas todas certamente fogem do que hoje em dia chamamos de estilo de vida tradicional.

Por isso, enquanto não começamos nossa saga aqui, vou deixar algumas indicações das nossas pesquisas pra vocês lerem, assistirem e acompanharem também!

Um que me chamou muito a atenção foi a Jo Nemeth, australiana que atualmente vive sem dinheiro. O blog dela, o Jo Low Impact, está todo em inglês, mas é possível ter um resumo em português nesse artigo do The Greenest Post. O que eu mais gostei do blog da Jo é que ela mistura suas reflexões pessoais nos textos junto com as explicações de como tem sido essa vida sem dinheiro e de baixíssimo impacto ambiental. O estilo da escrita mostra como ela reage emocionalmente a todas as mudanças e é algo que me agrada.

Outro que super recomendo é o Livre Partida, da Mari e do Plácido. Eles estão fazendo uma viagem de volta ao mundo, em vários estilos. Já mencionei aqui o blog deles antes, recomendo seguir também nas redes sociais, FB e Insta, além do canal no Youtube. O que eu mais gosto no blog deles, além das fotos e vídeos incríveis, é que eles colocam toda a contabilidade deles lá, até o cafezinho, e com isso todos podem ter a ideia exata de com quanto dinheiro eles estão fazendo essa aventura. O lindo disso é que quem também quer se jogar na estrada pode ter uma noção muito boa de quanto vai gastar, caso siga o mesmo estilo. Outra coisa que amo nos posts e vídeos deles é a oportunidade de aprender com os erros e sucessos alheios. Eles são muito francos e honestos quando é para dizer o que não deu certo, seja equipamentos que compraram e não utilizaram, ou não gostaram, planejamento, ou qualquer outra coisa. E claro, pode confiar sempre que eles dizem que é bom e que deu certo, porque a honestidade e a alegria são sinceras!

Um outro blog que eu achei no pinterest é o Apure Guria, da Angie, uma designer com muitas cores de cabelo que faz viagens sozinha e dá dicas ótimas, além de ser muito alegre nos vídeos dela. As dicas dela são muito práticas e eu gosto muito dos vídeos dela de dicas, tipo 10 coisas para não esquecer de levar, Como arrumar uma mala internacional e outros do tipo, mas o que eu achei mais divertido é que ela também inclui os do que não levar! Então também é possível aprender com ela coisas que ela achou supérfluas, desnecessárias, etc! Gente, a vida é muito curta pra gente aprender tudo por tentativa e erro solitários né, vamos aproveitar que a comunicação global é algo ao alcance de muitos hoje em dia e fazer valer! Além disso ela também é adepta do “travel light”, um estilo que sempre buscamos aprimorar!

Existem milhares de outros sites e pessoas que acompanho, e já postei aqui em Dicas de Viagem, outros sites e páginas com dicas muito boas!

 

Verão

{*texto escrito em 01/07/17 }

Saí para passear com o cachorro. São 20h30 da noite. Ou melhor, da tarde. O sol não se põe antes das 21h30, 22h e não ficará totalmente escuro antes das 22h30 quase 23h. A saída nesse horário é para tentar evitar o calor mais forte. Andamos até o parque, e eu sinto o cheiro da areia, que outros animais domésticos usam de banheiro. Veja bem, o parque é limpo, existe uma norma passível de multa para que os dejetos sólidos animais sejam recolhidos, que na maioria das vezes é cumprido. Mas o dia está quente, e quando o Picot rasga nacos de grama com as patas traseiras eu sinto o cheiro dela, misturado a tudo isso.

Dali vamos até a beira do rio. O sol já está bem inclinado e bate exatamente na linha dos meus olhos. Apesar dos óculos de sol bem escuros, sinto aquele franzido da testa, e em momentos fico cega com o excesso de luz, até fazer uma curva e conseguir voltar a enxergar. Passamos ao largo de um pequeno pasto, e todos os cheiros são encobertos pelo que emana dali. Começo a perceber a quantidade de insetos no ar. Eles batem nas lentes dos óculos, e preciso me abanar com frequência!

Chegamos enfim a beira do rio e percebo um distinto cheiro de peixe. Não de peixe morto, de carnes. Sim o cheiro de peixe vivo, cheiro de água onde vivem peixes e patos. Água fresca, corrente. Mas é obviamente verão e o cheiro do rio está ali, pairando no ar.

Quantas vezes não caminhei nessa beira de rio no inverno e nunca percebi nenhum cheiro de suas águas? O inverno, nesse sentido, é estéril. As águas são cristalinas, geladas, mais puras, e com menos vida. O ar no inverno é claro, e vejo distante. Os dias podem ser de sol, mas ele dificilmente esquenta de fato, e é possível caminhar sob ele por horas, sem sentir cansaço, calor ou fadiga excessiva. Eu gosto da esterilidade do inverno. Me dá a sensação de estar numa fotografia, ou num filme, onde a paisagem e eu, por mais que possamos interagir, nos mantemos como em dois planos. A neve brilha sob o sol como glitter, purpurina.

Essa semana me perguntei se precisava trocar o grau dos óculos. Sinto o mundo mais borrado. Talvez precise mesmo, mas me ocorreu hoje, ao andar na beira do rio, como o ar está mais denso. A cortina de insetos parece ser o próprio verão se materializando no ar, condensando de tão cheio, viscoso, excesso de vida. Vida até demais.

O verão daqui, por dividir o ano com outras três estações, parece mais intenso. Parece requerer que seus meses sejam só seus e que ninguém se esqueça disso. No Brasil, em especial em Brasília, onde só existe seca e chuva, o verão parece eterno. Eu sei, existem as frente frias, mas elas são raras e duram pouco, e ele parece se espichar pelo ano, como um chiclete sendo puxado e afinando. A parte presa entre os dedos, a mais grossa, são os meses de verão por direito, mas o verão de fato ocupa todo aquele fio repuxado. E assim, esticado, o sol é mais alto, a luz é mais branca, e as pessoas parecem aceitar que o verão, estando sempre ali, não precisa se mostrar o tempo todo.

Aqui o sol, isso tanto no verão quanto no inverno, parece nunca estar a pino. Sempre ali, próximo da linha dos olhos, me fazendo repuxar o cenho. Mais amarelo no verão, como se disse, “olha só essa cor, eu sou o verão!” Como se fosse um verão atuando como verão numa peça de teatro. As pessoas saem de casa, as banquinhas de sorvete de multiplicam pelo passeio da cidade e eu fico me perguntando, “onde vocês estavam?”. A sensação que tenho é que aqui as pessoas migram como andorinhas.

As roupas mudam muito de uma estação para outra, e não adianta insistir, as botas de verão serão inúteis no inverno e vice-versa. Me acostumar com a necessidade de momentos tão distintos é uma novidade às vezes custosa. As calças de inverno não servem pra primavera e as de primavera não servem no verão. As pessoas subitamente estão todas de vestidos esvoaçantes, shorts coloridos, camisas de mangas curtas em tecidos translúcidos. Riem nas ruas, falam alto, e os restaurantes não fecham antes das 2h da manhã.

Quando o calor é tamanho, deixo para sair com o Picot ainda mais tarde, às 23h, meia-noite, encontro senhores e senhoras de avançada idade, sentados ao redor da fonte do passeio, se abanando com folhas do jornal do dia, ou leques, e papeando. Próximo dos bares, todos com as mesas colocadas para fora, nas calçadas, o barulho é alto, e famílias inteiras se estendem pela calçada, comendo, bebendo, existindo.

Ao cruzar uma dessas calçadas, duas irmãs, vestidas igualmente e armadas com pistola d’água me atingem no fogo cruzado. Ouço em parte, em catalão, o pai fazer meias desculpas enquanto insiste que nesse calor é melhor assim. Sorrio e passo. A água não incomoda, de fato é bem-vinda. O que me incomoda é o calor que não vai embora. É voltar para casa e perceber como dentro está mais quente ainda do que fora. É ficar parada ao lado da porta da sacada, escancarada e perceber que a leve brisa, um pouco mais fresca, que sopra lá fora não entra, como se negasse meus convites e apelos.

Vou até a geladeira e pego um picolé. Sento na sacada, no chão, de pernas cruzadas, ao lado do Picot e observo essa cidade cheia de vida. Vida até demais. É quase impossível dormir antes das 3h da manhã, com o barulho das pessoas na Taverna em baixo, que mesmo depois de fechada, ficam pela praça, terminando a conversa. Lembro que no inverno, a cidade parecia uma cidade fantasma. Como é estranho pra mim, quase alienígena, observar esse movimento entre estações. Como é curioso perceber como o ser humano se acostuma e se adapta.

Termino o picolé. Jogo palito e embalagem em seus respectivos lixos. Aqui tudo é reciclado. Decido que um banho antes de deitar vai me ajudar a dormir, apesar do calor. Lembro que na primavera os campos ficaram floridos, e que agora tudo começa a apodrecer, nesse excesso de vida. Ainda não sei como será o outono. Mas posso dizer que as 4 estações até agora foram assim, um inverno muito estéril, e muito bonito. Uma primavera de desenho animado, com campos floridos e cheia de vida e partos, milhares de animais com filhotes. Manhãs e noites frescas e dias muito quentes. E o verão é assim: um excesso! Muito tudo. Muita vida. Muitos cheiros. Muitas cores. Muito sol. Até demais!

Vamos ler, meu povo, que é bom demais! 

Eu sinceramente não consigo entender como esse post não nasceu antes. Minha única forma de explicar é que realmente não estava com a cabeça no lugar o suficiente. Mas antes tarde do que nunca, vamos lá.

Eu cresci com livros. Eles sempre foram meus melhores amigos, companheiros de todas as horas. Na minha casa o hábito da TV nunca foi forte. Eu já tinha muitos livros infantis e gibis da Turma da Mônica desde muito antes de aprender a ler. O processo de alfabetização veio de casa, antes da escola, e foi todo na base dos gibis. A primeira coisa que eu li totalmente sozinha foi uma história curta, dessas de uma página, do Dudu, num gibi da Magali. Nessa mesma época minha mãe tinha começado a ler Monteiro Lobato pra mim antes de dormir, e começamos por Reinações de Narizinho. Ela leu cerca de 1/3 do livro pra mim, e depois eu lia em voz alta pra ela. Começamos com aquele dedinho de criança, acompanhando linha por linha, ela me ajudando com as palavras grandes, as trocas de sílabas e no terço final eu já lia por conta, ela de frente pra mim.

Desde de Narizinho e dos inúmeros gibis, eu caí com gosto no mundo dos livros! Lá em casa, quando alguém reclamava de estar a toa, ou não ter o que fazer, a resposta era sempre a mesma: “Vai ler um livro!”. O mágico é que os livros nunca acabavam. Tínhamos todos estantes enormes, de muitas e muitas prateleiras em nossos quartos, cheia dos livros pessoais. Além disso, meus avós tinham uma biblioteca imponente, numa estante de prateleiras muito grossas, embutidas na parede, coroada por uma gigantesca enciclopédia britânica, encapada em couro claro, cada volume marcado por um numeral romano em tom dourado na lateral. Essa visão da enciclopédia, era para mim, a coisa mais simbólica do conhecimento máximo a ser atingido. Eu lidava com aqueles livros grandes e pesados, numa língua ainda desconhecida, com a reverência que nunca vi por livros religiosos na minha casa.

Eu tive as minhas versões de enciclopédia, enquanto crescia. Minha mãe e meu tio Guila colecionavam pra mim os fascículos das enciclopédias da Folha, e assim tive a Folha Ilustrada, que comprávamos na banca, outra em dois volumes, com história do mundo, uma edição de mapas com as guerras, e outras do tipo. Isso, meus caros, era como vivíamos na era pré-internet. O primeiro computador chegou lá em casa quando eu já tinha uns 10 anos e pra digitar era direto no MS-DOS (alguém aqui ainda sabe o que é isso?). Lembro quando instalamos o primeiro Windows, e o computador ficou colorido e “bonitinho”. Conexão com a internet veio anos depois, primeiro discada e lenta. Pesquisa na internet fui fazer só no ensino médio. E rapidamente os trabalhos se tornaram digitados. Foi uma senhora transição.

Que fique bem claro, eu sou hoje em dia uma aficionada pela internet e acabo passando a maior parte do dia no computador. Trabalho pela internet, assisto filmes e seriados, jogo, escrevo, enfim, vivo uma vida on-line bem intensa. Até mesmo os livros hoje em dia, com a vida nômade, opto por baixar versões digitais e ler no computador ou tablet. Parece uma outra vida, quando lembro das minhas enciclopédias em fascículos!

Nos últimos anos eu acabei, como a maioria das pessoas que eu conheço, me tornando mais viciada em internet. O celular, com todos os apps, e a possibilidade de estar sempre conectada, e muitas vezes a “necessidade” de estar conectada, criada pelas relações sociais de hoje em dia, sejam profissionais ou pessoais, fez com que meu ritmo de leitura caísse muito.

Quando era mais nova, lembro bem da ânsia por ler, em como eu contabilizava todos os livros que tinha lido no ano. Livros enormes, sagas, trilogias, sequências. Livros de autores de diversas partes. Eu amava fazer minhas análises dos livros, discuti-los com familiares e amigos, dividir leituras. Muitas vezes comprava as trilogias ou séries em parceria com minha prima Carol, cada uma bancava ou pedia pros pais um dos volumes, e íamos lendo, compartilhando. Li livros velhos, livros dos meus avós, foi um marco quando a biblioteca deles se abriu pra mim e consideraram que eu já tinha idade pra explorá-la como quisesse. O primeiro foi por indicação da minha mãe, Dom Casmurro. Meu primeiro livro “de adulto”. Logo desembestei, lia Gabriel Garcia Marques e Jorge Amado como se não houvesse amanhã. Me impressionei bastante com Cândida Erêndida e Capitães da Areia. Em vez de Lolita, minhas noções de sexo vieram dessa literatura crua, e as poucos fui desenvolvendo um gosto louco por ler cada vez mais.

Harry Potter, Senhor dos Anéis, O Hobbit, Silmarillion, Musashi, e um pouco mais tarde as diversas sagas do Bernard Cornwell, como as Crônicas de Arthur, e depois o Sharp, me encantaram loucamente. Sempre amei os mundos fantásticos. Mas ou mesmo tempo fui fisgada pela literatura social, e com Carandiru, do Varella, e Esmeralda, porque não dancei? fui me habituando a ler sobre outros temas, e criar uma visão crítica de mundo.

Os volumes foram tantos, que aos 18 já tinha minha mini-biblioteca, quase tão grande como a dos meus avós, mesmo considerando que muitos eram trocados. Frequentei bibliotecas diversas, e tive uma fase de ler todos os Sci-Fi do Lundum na biblioteca da escola de inglês. Austen e as irmãs Bronte vieram também, e depois Dickens me ganhou o coração! Li muitos clássicos da literatura, brasileira e mundial, alguns obrigatórios na escola, mas a maioria por gosto e curtição.

Aí veio a faculdade e a falta de tempo, e a necessidade de ler por obrigação e comecei a ler por gosto cada vez menos. De mais de 30 livros por ano, passei pra 3! Ainda assim mantive a curiosidade. Li muita literatura de consumo rápido nesse período, para compensar a densidade dos estudos. Best-sellers, livros comentados por muita gente. Depois, quando saí da faculdade, tive uns tempos difíceis, as emoções não andavam boas e foi um período de muita televisão.

Sim, a TV anestesia a mente, e o luto agradece. Antes desse período não tinha hábito de ver séries. Nem Friends, que acompanhou a adolescência, ou Gilmore Girls, eram seriados que eu via sistematicamente, só quando por acaso estavam passando quando eu ligasse a TV. Nesse período comecei a assistir acompanhando, na ordem. Até porque, com a internet, isso ficou mais fácil. Depender das TVs por assinatura, com mil repetições dos mesmo episódios e semanas entre eles era uma fase bem difícil e obscura para os apaixonados por séries.

A literatura foi voltando tímida pra minha vida. E um ponto chave, foi quando comecei a escrever. Comecei esse diário antes do blog, em arquivos esparsos no meu computador. Com o tempo fui organizando e criando coragem para colocar tudo aqui. Nessa época, descobri o gênero “auto-ficção”, termo ainda hoje pouco conhecido, e difícil de classificar. Acabei lendo coisas “classificadas” assim, e outras que não tinham a classificação, mas, na minha humilde opinião, o eram. Me debrucei sobre Munro, e li mulheres sistematicamente. Brum, Saavedra, Falção,Torres, reli Lispector, reli Meireles. Assim nasceram meus primeiros textos da menina. Depois fui abandonando o eu-lírico de terceira pessoa e comecei a escrever como se conversasse com os possíveis leitores.

Voltei pra academia, mestrado, e surgiu uma nova fase triste da literatura na minha vida. Li muito pouco. Essa coisa de estudar textos densos me afasta da leitura por gosto. Além disso, a ansiedade, e mil outros sentimentos negativos que me acometeram nessa experiência acadêmica, me fizeram viciar fortemente na internet. Ficar 2h por dia ou mais vendo bobagens, de vídeos de gatinho a receitas on-line que eu nunca iria fazer.

Ganhei o Walden pouco antes de entrar no mestrado, li os primeiros capítulos, ele acabou ficando na espera! Que triste isso! Nos últimos meses, passados 2 anos e meio dessa espera, resolvi voltar, com afinco. Entrei por um convite maravilhoso para um grupo de leitura de literatura brasileira e estou tendo o prazer de reler os nossos clássicos, além de alguns outros que não conhecia antes. Também retomei meu projeto leia mulheres e estou com algumas na lista, Ana Maria Gonçalves, Elena Ferrante, Margaret Atwood. E o Walden tá quase acabando, finalmente!

Com a volta desse hábito lindo na minha vida diminuí muito o tempo de internet. E estar vivendo numa cidade pequena, sem conexão no celular fora da wi-fi, acampando muito, passando dias na montanha e na estrada, têm sido fundamental para rever esse hábito. Agora que já estou bastante envolvida com os livros de novo, às vezes venho ao computador, conferir uma data, um fato, outros livros do mesmo autor, e não tenho mais vontade de ler todas as noticias do dia, atualizar todas as mídias sociais, ou responder todas as mensagens. Passou! Faço o que vim fazer, abaixo a tela e volto pro meu livro. E é tão bom!

Aceito sugestões de leituras nos comentários! Ando querendo voltar pros mais de 30 livros/ano! E caso queiram, posso dar umas listas com indicações também! Vamos ler, meu povo, que é bom demais!

 

X Jocs Florals

Na semana passada, aconteceu aqui em La Seu D’Urgell a 10ª edição dos Jogos Florais (ou X Jocs Florals). Os Jogos Florais acompanham o dia de Sant Jordi (dia de São Jorge), que foi comemorado no domingo mesmo, e na segunda-feira seguinte, realizaram a cerimônia de premiação dos jogos. Esse evento é um dos mais famosos da cidade, e ainda que a cidade seja pequena, atraiu muita gente. Os Jogos Florais são uma competição literária, que acontece por várias partes da Europa, em especial a Espanha e a França. Aconteciam em Occitane, quando esse era falado, e tanto na França quanto na Espanha, acontecem em catalão nas regiões onde esse é o idioma cotidiano.

Além de enaltecer a literatura local, os Jogos têm o intuito de estimular e preservar a língua catalã, tornando-se, por isso, bastante importante para seus falantes. Em La Seu, esse foi o décimo ano dos Jogos e a cidade estava ainda mais animada. A Escola de  Formação de Adultos e Idiomas Oficial de La Seu – CFA La Seu, promove os Jogos e é lá que estudamos catalão.

Em março, quando eu e o André estávamos estudando essa língua há apenas 3 meses, nossa professora, Marta, nos convidou para participar, pois nessa décima edição incluíram uma categoria para iniciantes. OS Jocs Florals contam com 5 categorias: Englantina (relatos de até 3 páginas), Flor Natural (Poesia), Grandalla (Foto seguida de um título/comentário), Rosa (iniciantes) e Viola (micro contos, contos de cerca de 10 linhas). As categorias Grandalla e Rosa foram novidade.

No início estávamos bastante reticentes com a ideia de participar, pois mesmo considerando que a categoria é para iniciantes, estávamos estudando há apenas 3 meses, e a pouco mais que isso na cidade. Alguns dos nosso colegas já estão aqui há anos, ainda que estejam no nível inicial da língua catalã, uma vez que também é possível se comunicar em castelhano. Mas nossa professora insistiu, e acabamos enviando textos.

Cerca de um mês se passou, e então veio o dia da premiação. O espaço, uma antiga igreja, hoje um centro cívico e auditório, estava muito bonito, e chegamos cedo. Encontramos alguns colegas, alguns amigos da cidade e todo o evento começou. A diretora da escola e outros professores apresentaram, o prefeito teve sua fala, e uma convidada, doutora em língua catalã também. Comentaram as edições anteriores, o significado dos Jogos para a cidade e para o idioma. Trechos de poesia e literatura catalã famosos foram lidos, enfim, tudo conforme manda o figurino de um evento desse tipo.

Por fim, começaram a chamar as premiações, e faziam da seguinte forma, apresentavam um pequeno trecho do texto, e depois falavam o título e nome do autor, em seguida convidando-o para o palco e premiando-o. Cada categoria premiou 3 textos, menos a Englantina, que contemplou 4 ganhadores. OS prêmios de acesso e o primeiro prêmio. Aplaudíamos a cada nome revelado e estávamos bastante tranquilos.

Até a categoria Rosa começar. Revelaram o último prêmio acesso (equivalente ao 3º lugar), aplaudimos uma colega da outra classe. E aí, eis que reconheci na tela, desde a primeira palavra, o texto do André. Antes mesmo do nome ser revelado, eu já estava aplaudindo. Segundo prêmio acesso (2º lugar) na categoria Rosa. Fiquei emocionada e orgulhosa. Me imaginei da platéia tirando fotos dele! E antes mesmo que eu pudesse pensar nessas tais fotos ou em alcançar o celular, mudaram a tela, e li as primeiras frases do meu texto lá. Assim, na frente de todo mundo.

Pode parecer bem besta, pra quem tem um blog, ter vergonha de ver seu texto à mostra daquele jeito, mas confesso que mesmo depois de 3 anos de blog, cada publicar que eu clico vem com um frio na barriga! E ver aquela exposição pessoalmente foi um senhor desafio! Daqui eu sei que algumas pessoas me leem, mas eu não tô vendo vocês fazendo isso!

Fui receber meu prêmio, 1º lugar da categoria Rosa. Tiramos as devidas fotos oficiais. E voltei a me sentar com o coração disparado! Assistimos às demais premiações e ao final , chamaram todos os que inscreveram textos, em todas as categorias, para receber um pequeno vaso de flor (afinal, Jocs Florals, né) e tirar uma foto coletiva. Nesse ponto tive mais uma surpresa, pois logo na primeira categoria, Englantina (de relatos mais longos), me chamaram como participante. Eita! Descobri que meu texto concorreu também na outra categoria (a séria! hahahaha). De novo um disparada de batimentos, mas logo o palco encheu de gente, e eu fiquei “escondida” e mais tranquila, na multidão. Via o rosto do André lá do outro lado do palco e só pensava: “em que a gente se meteu?!”

Para encerar ouvimos a apresentação do coral local, do qual nossa professora faz parte, e foi muito bonito, e compartilhamos uns petiscos com os presentes. Voltamos pra casa incrédulos, e fomos revirar nossos prêmios, muito bons. Alguns livros, livreto do evento com os textos, o prêmio do André: duas entradas para um show de comédia, e o meu: um jantar para dois no restaurante do hotel chique local.

Ainda estamos processando. Mas a melhor parte foi ver nossa professora feliz. Me identifiquei. Agora quero poder compartilhar esse momento com meus alunos e ex(eternos)alunos. Se arrisquem! Mesmo em outro idioma! Faz um bem danado! A gente cresce, evolui, aprende! E a questão não é ganhar, mas o tempo que a gente dedicou, traduzindo, procurando palavras, corrigindo com a professora, percebendo que fizemos traduções literais e surreais de expressões em português, buscando entender como poderíamos fazer essas mesmas manobras no outro idioma.

Além da experiência de se sentir parte da comunidade local, conhecer uma tradição da cidade e fazer parte dela. Viver fora é também abraçar essas coisas, por menores ou maiores que sejam. E descobrir nos detalhes, nossas paixões.

Vou copiar os textos em catalão mesmo aqui, usem o tradutor ou mandem mensagens em caso de dúvidas!

Ambos são ficções. O do André ao estilo dele, com humor, sarcasmo e ironia. O meu, bem, como reminiscências “da menina”, histórias de Alice, de Clarice, histórias de mulher, de detalhes da vida cotidiana, de diário, de blog!

 

La cua i el drac 

André Pereira Paduan

Beowulf esperava el seu torn per ser atès, tiquet de tanda en mà. Els números avançaven, un per un, en una lentitud més aterridora que quasevol dels monstres amb què mai s’havia enfrontat. El futur en el qual de cop i volta havia despertat era molt diferent del seu temps primerenc, a la mateixa terra, mil·lennis abans. Tot eren regles, ordres i papers, molts papers. Va haver de canviar el seu mantell de pell per un abric sintètic, degut a la pressió dels defensors dels drets animals. Va haver de deixar la seva espasa i el seu escut perquè no tenia una llicència d’ús. I va haver de fer-se la documentacció perquè presentar-se com el rei de Gautas ja no era suficient o adequat. Trobava a faltar enfrontar-se a dracs i beure cervesa amb els seus soldats. Però, sobretot, sobretot, trobava a faltar no haver de fer cua.

 

El blog de la dona de ells molt bons ulls

Juliana de Almeida Reis Marra

Es van casar fa molt poc temps. El festeig havia estat molt curt. Es van conèixer en un viatge. Aviat van estar junts. S’estimaven molt. Ell era molt tranquil, no bevia, no fumava, no sortia. A l’inici, tots dos eren feliços amb poc, una pel·lícula, crispetes de blat de moro, un gos en un coixí, una xocolata compartida. Tots dos passaven molt de temps a l’ordinador. Treballaven amb l’internet. Llargues hores junts, però separats. Només el so ràpid de les tecles, d’ambdós costats. Feien passejades, viatges curts, campaments. Plaers petits i barats de la vida. Un gelat. Un posta del sol. Parlaven molt, i els temes de conversa fluien molt bé, i tot semblava tan correcte i tan simple, que no semblava real.

Un dia, a la recerca de noves lectures a Internet, ell es va trobar amb un blog fantàstic! Era el diari d’una dona aventurera. La forma descrivia el seu dia a dia el va fer somiar! A poc a poc la dona es va mostrar molt forta, independent, valenta, audaç, interessant, plena d’opinions polítiques, històries, viatges. Que increïble seria veure la seva vida! Semblava tan simple, però tan impressionant! El meravellós que seria viure la vida d’aquesta dona!

Ell va començar a somiar amb les aventures increïbles del blog i es va anar distanciant de la seva dona. Va començar a buscar a la seva pròpria vida aquestes petits coses emocionant, tot era tan bonic, però simple. On eren aquestes increïbles emocions que llegia al blog?

Un dia, sense poder-se aguantar més, va dir a la seva dona que necessitava parlar. No li havia dit res encara, però estava inquiet i necessitava saber l’autor misteriós, que amb simples paraules havia guanyat el seu cor. Ell mai l’havia vist, però l’admirava molt. Encara estimava la seva dona, però les llargues hores a l’ordinador no podien competir amb les meravelles que es descrivien al blog.

Ell va advertir-la que volia tenir una conversa seriosa, ella li va demanar uns minuts per acabar un text, feina que la va ocupar durant hores. Es va posar dreta darrere d’ella, i va llegir de dalt a baix el que estava escrivint.

En acabar, una mica espantat, ella li va preguntar a què es referia, de què volia parlar. Només li va prendre la mà i se’n van anar a menjar un gelat. Per el camí li va dir el molt que l’estimava i que mai havia conegut a ningú que veiés la vida amb tan bons ulls!

 

Consciência

Muito já falei aqui sobre o distanciamento que minha forma de viver gera com as pessoas em geral. São muitos itens, o vegetarianismo, o fato de não beber, o amor pela natureza, pelas viagens, a forma de encarar o mundo e as relações humanas. Tudo isso pode parecer muito interessante para uma breve descrição de bio em um blog ou perfil de rede social, mas na hora da convivência intensa, são outros 500.

Dei a sorte de encontrar pra dividir o dia-a-dia alguém que entende quase todas as minhas loucuras e aceita as que não entende e vice-versa, eu com as dele. Mas não é tão simples. Conheço vegetarianos que amam beber, balada e aí temos alguns pontos de ligação e outros não. Conheço pessoas que não bebem e não são de balada, mas que são a favor de uma vida mais estável, com empregos fixos, horários de lazer restritos, e consumos mais altos. Conheço pessoas que gostam de viajar, mas que gostam de outro tipo de viagem, mais urbana, mais confortável, mais turística. Conheço pessoas que amam a natureza, mas que também assistem muita TV e estão sempre prontas para comentar a novela ou a última fofoca, seja política ou ficcional (algo muito difícil de distinguir atualmente, especialmente no Brasil).

E veja bem, em nenhum momento eu estou criticando nenhuma dessas características. Nem exaltando nenhuma delas. Apenas comentando como sou, como vivo e como cada vez mais, os pontos em comum, ficam difíceis, raros, na convivência mais próxima. Para um encontrinho rápido, para rever amigos antigos, ou pessoas que estão longe, é ótimo. Sempre tenho do que falar e gosto de ouvir. Mas para a convivência é mais complicado. Muito disso eu já comentei no post Sonhos e aprendizado no qual cito também alguns filmes e livros, que comentam essa distância.

E atualmente tenho me sentido muito paralisada, nessa distância. Com muita dificuldade de seguir escrevendo meu mestrado, de seguir correndo atrás da burocracia, enfim, as coisas parecem muito difíceis, e não é por falta de esforço pessoal, é porque com o tempo vou percebendo os mecanismos, e como o mundo é feito, em cada coisa, para que nos encaixemos nele e não o contrário. Fechando oportunidades, com cara de quem abre portas, dando prêmios de superação, pra quem abaixou a cabeça e acatou o sistema, em vez de se superar de fato. E tantas outras coisas que são na verdade perceber que no mundo, tudo é como a salsicha, você não comeria (compraria, viveria, etc) caso soubesse como é feita. E conforme vou descobrindo, ganhando consciência, também vou me sentindo mais apática, mais desanimada, desestimulada.

Estou aqui nesse dilema, sofrendo as dores do mundo, de forma até clichê, e ao mesmo tempo me sentindo bem idiota pela incapacidade de reação. E aí, para distrair, eis que me deparo com esse vídeo Notes from de Underground, e me senti menos estranha ao mundo. O livro, Notas de Subsolo, do Dostoiévski, ganhei há muitos anos do meu irmão, fã de carteirinha do autor russo, e gostei muito da leitura. Mas nos últimos meses descobri o Wisecrack e as análises literárias em thug style dele, que me fazem rir muito, e ao ver que ele tinha analisado Notas de Subsolo, resolvi checar e me surpreendi em perceber como estão alinhadas com essa minha paralisia. Estou sofrendo dessa falta de saber como agir e se agir ou não derivada de perceber demais os problemas do mundo.

Então agora vem as decisões difíceis de fato: ignorar um pouco dos problemas do mundo, e “comer a salsicha” assim mesmo? Ou seja, terminar minhas atividades, mesmo sabendo que não são mais meu sonho e que ele ficou manchado? Desistir e seguir outros caminhos, mesmo sabendo que eventualmente posso descobrir como essas novas salsichas são feitas? Ou descobrir uma nova fonte de energia, para concluir os desafios apesar das desilusões? E como encontrar essa energia, esse ânimo?

Tendo a optar pelas últimas e espero conseguir. Perceber minha apatia foi o começo. E agradeço ao Dostoiévski mais uma vez.

Gypsy Heart

Meu coração é nômade e esse assunto não é novidade já existem alguns posts com a temática. Mas eis que agora me vejo novamente numa casa nova, numa cidade nova e dessa vez num país novo. Então resolvi escrever de forma um pouco mais pragmática contando sobre minhas mudanças e meu gypsy heart!

A caneca na minha mão é a mesma: NYU Sister! Ganhei do meu primo-irmão e essa já é minha quarta casa com ela! O chá varia o sabor. A vista muda bastante e até mesmo a família. Aliás, essa varia mais do que eu teria imaginado na minha vida.

Aos 15 anos fui para Rapid City, South Dakota, num intercâmbio de verão. Fiz muitas caminhadas nas montanhas e percebi que não conseguiria viver sem isso. Sem as viagens, sem conhecer lugares novos, sem estar sozinha por mais tempo do que as outras pessoas consideram normal. Foi circulando o Sylvan Lake, e conversando com uma queridíssima amiga de infância que percebi que o que eu mais queria com aquela idade era sair de casa. Não porque ela fosse ruim ou porque eu tivesse problemas com a família, muito pelo contrário, cresci numa casa cheia de amor, incentivo e liberdade, e mesmo com a parte da família mais complicada, a paterna, ouso dizer que dos 15 aos 19 foi o período de maior e melhor convivência!

A vida me segurou junto a família por alguns anos mais, os últimos que eu passaria com eles, e por isso agradeço não ter saído antes. Aos meus 18 nos mudamos da casa onde cresci, com o melhor quintal do mundo e todas as minhas memórias mais queridas, felizes, o lugar que me fez quem eu sou! Não consigo passar 1 dia sem lembrar e falar daquela casa mágica! Daquele casarão que meus avós transformaram em muito mais do que um lar, era o verdadeiro porto seguro da família, o paraíso dos netos, a terra da brincadeira, a melhor escola, o melhor clube, o melhor pomar, a melhor horta. Era nossa colônia de férias, o reforço escolar, era nossa vida! E que privilégio ter tido essa vida naquela casa! Nenhum castelo de conto de fadas faz jus! Lá era melhor!

Fomos para outra casa, ainda os quatro integrantes da família então, eu, minha mãe e meus avós maternos. Essa segunda casa, onde vivi cerca de 4 anos e meio, foi meu purgatório. Nunca gostei muito dela, tinha uma sala grande e escura, janelas grandes demais para abrir e fechar com facilidade nos quartos, a terra do quintal tinha muito plástico e restos de construção misturados, mas fizemos nossa vida da melhor forma lá. E foi morando lá que fiz minha faculdade, foi o lugar onde menos dormi. Foram anos de hospital, foi onde perdemos meus avós. Mas foi também onde meus cachorros, os meus mesmo, não da família, vieram, e foram meu alento. Desse lugar não guardo muito amor. Mas sei que foi útil e compreendo o papel daquela casa e desses anos na minha vida. Trabalhei muito, estudei muito, e tive um banheiro só pra mim pela primeira vez, um luxo muito útil nessa fase de dificuldades e horários loucos.

De lá nos mudamos para a que ficou na minha memória oficialmente como a casa da minha mãe! Como ela morou muitos anos com os pais, e quase toda a nossa vida juntas, essa foi a casa dela. Como já era adulta e já trabalhava, lá pude contribuir, e vivíamos como roomies. Foi quando pude decidir mais sobre a casa, embora não fosse ainda minha casa. É um lugar lindo e até hoje é minha casa na cidade onde nasci. Existe um carinho eterno por esse lugar, pois foi onde me tornei mulher de fato. Onde assumi oficialmente a responsabilidade pela minha vida, e muitas vezes pela dela também, onde recebi meu diploma, onde paguei contas pela primeira vez.

Além disso era uma casa de tamanho perfeito, bem menor do que as anteriores. Isso é um ponto muito curioso. Minhas casas tendem a diminuir. E não só por necessidade, mas por gosto. É o gypsy heart falando. É minha vocação pela viagem, por estar leve. O peso das coisas, as raízes, foram coisas que fui deixando aos poucos pra trás. Morei nessa casa por 3 anos e meio. Saí de lá de forma muito confusa, em meio a morte da minha mãe, e demorei muitos meses para conseguir me despedir do lugar.

Morei depois disso por 1,5 ano com meu padrinho, e recebi muito amor e carinho de todos naquela casa. Tive um quarto cuidadosamente arrumado para mim, e muita liberdade e apoio. Ficou como minha casa oficial. Mesmo depois de já ter saído de lá faz 4 anos, continua sendo meu endereço pra assuntos oficiais, pois como me mudo com frequência, sei que se a correspondência mais essencial chegar lá, serei encontrada! Cresci emocionalmente muito lá. Foi rápido e na marra.

Fui então finalmente morar sozinha. 11 anos depois daquela volta no Sylvan Lake, quando já tinha decidido isso como minha meta pessoal. Montei minha casa de bonecas, num dos menores lugares que já morei. Só não foi o menor, porque morei por 40 dias em Londres num menor ainda! Mas meu cantinho pequenino foi meu lugar de reconstrução. Foi onde mais tive coisas e posses minhas, apesar do tamanho, era tudo meu ali. Ali me recuperei, corpo, alma, mente, tudo! Mudei minha alimentação, li como nunca, trabalhei como nunca, dancei como nunca, pois de fato não tinha ninguém olhando. Lá aprendi o prazer de estar sozinha. De chorar em voz alta, berrar, de rir só, de ouvir a música que quisesse, de usar a roupa que quisesse ou nenhuma. De ficar horas calada contemplando a janela. Lá me achei como nunca. Se houve um lugar que fui JuReMa, da forma mais plena, foram naqueles 20m2.

De lá fui pra outra cidade, juntei as escovas de dente. Morei em dois apês em SP. Um por um mês e outro que foi mais que minha casa. Foi nossa casa. Bonita, arrumada, bem localizada, acolhedora. Lar dos amigos. Ali poderia ter morado o resto da minha vida.Morei 2 anos.  Bom, talvez não tanto, pois a cidade grande foi me engolindo, os gritos advindos da balada, o barulho do trânsito, o ritmo frenético da metrópole foram acordando no meu coração a necessidade de seguir andando.

Vocês já viram o filme Chocolate? Se não, vejam! Hoje! Eu sou assim, se o vento bate torto, eu tenho que segui-lo. Durante muito tempo achei que uma hora uma pessoa finalmente me faria sossegar. Quebrar minhas amarras com o passado e sossegar. Mas foi o contrário. Encontrei outra alma nômade, perdida por aí enquanto andávamos, nos procurando e procurando seja lá o que for que tanto procuramos nessas andanças.

Me casei, de papel passado, para poder viajar mais, ir mais longe. Não foi pra sossegar. Em vez de comprar uma casa e fazer uma lista de presentes, vendemos tudo o que tínhamos! Casamos para partir! E cá estou, em uma nova casa. E sabe do mais incrível. Ela já tem data marcada pra não seguir sendo nossa. Os planos ainda estão disformes, ainda existem burocracias e necessidades, mas não creio que será meu lar por mais de 1,5 ano. E assim posso dizer que em 13 anos, desde os meus 18, vivi em 8 casas, fiz mudanças grandes, mudanças pequenas, às vezes fui com a roupa do corpo e mais uma mochila, às vezes paguei caminhões e levei tudo. Uma coisa se consolidou com força e certezas inigualáveis, minha casa é onde meu coração está.

Não sou do tipo de gente que coleciona coisas ou conquistas, sou do tipo que coleciona memórias e lugares no mapa! Sou agoniada por natureza, nasci antes da hora, de 7 meses, e sinto que estou sempre assim, uns meses adiantada, uma vida atrasada! Quero poder seguir andando e ver o que esse mundão tem pra me mostrar. Quero conhecer os lugares pela inclinação do sol e as estações pelo cheiro do ar. Já não tenho problema nenhum em ter poucas coisas e quanto menos tenho, mais acho que possuo em excesso. Agora estou sonhando com uma vida ainda mais nômade. Quero poder não dormir duas noites no mesmo lugar. E assim sigo. Inquieta para os que olham de fora, mas cada vez mais segura de mim! A certeza de que essa sou eu, e que me comporto assim mesmo. E que não busco nada para substituir, apenas para ampliar.

Já achei que estivesse buscando aquilo que faltava. Hoje sei que não me falta nada, nunca faltou. Só faltava essa certeza. Sempre tive e sempre terei tudo o que preciso dentro de mim. Mas preciso continuar seguindo. Essa sensação de que o mundo todo é minha casa e de que me sinto bem e a vontade onde quer que eu vá é a melhor. Quando lugar nenhum é a sua casa, mas todos os lugares são, essa sim é minha grande conquista! Saber disso é o que me traz paz.

Há claro o período de adaptação, conhecer os eletrodomésticos novos, aprender os novos horários, descobrir os melhores mercados, e aí, quando estiver bem conhecido, rotineiro e seguro, aí a gente pega a vida e sacode, joga tudo no ar e vamos descobrir onde tudo caiu, junto e misturado, como as novas runas que indicam um novo caminho. Aprendi que essa incerteza não é triste e nem solitária, a incerteza é minha maior certeza!

Não se assuste mundo, por favor. Algumas almas são nômades. Algumas pessoas precisam ir e vir para conseguir continuar vivas. Deixar pra trás não significa não gostar, apenas o impulso de seguir que é mais forte. Sempre achei que essa minha necessidade me faria muito solitária, mas hoje, além de ter encontrado outro nômade, descobri que só coleciono amigos, trabalhos, pessoas, locais, como quem coleciona jogos americanos novos a cada primavera. Algumas coisas não mudam, outras mudam todos os dias. O sabor do chá na caneca muda sempre, essa caneca já está comigo há 4 casas! E talvez não esteja na próxima, ou talvez esteja, mas o hábito do chá certamente estará. Minha certeza hoje não está nas coisas, em nenhuma delas, está em mim!

Quem é Juliana? A menina da caneca roxa? Dos óculos vermelhos? Não ou sim. Mas a Juliana é certamente aquela que ama chá, a vegetariana, a brasileira, a que ama livros, a que faz Yôga, a que fala demais e alto demais, a que chora pela família que já se foi 1X por mês, a que gosta de viajar. E para ser assim, para ser eu mesma, posso e devo ser em qualquer lugar!

Quantas casas contabilizarei até o fim dessa década de vida que só começou? Pretendo bater meus recordes! ❤