Remédio na ferida

A menina já tinha passado por muitas tempestades, e essas não eram em copos d’água. Fazia anos que ela tinha parado de murmurar ou reclamar. Sabia que essa vida não era um ensaio nem um treinamento, era a coisa séria, e a ela cabia agir conforme cada situação. Fugir ou desistir estavam fora de cogitação, ela tinha de ser forte por si mesma e pelos outros. Foi forte especialmente por sua mãe. Tinha muito medo de que sua mãe algum dia percebesse o quão frágil ela mesma poderia ser, e sucumbisse. Contudo estava extremamente cansada, gostaria que a mãe também percebesse que não era a única sofredora ali, e que força não é sinônimo de apatia. Só porque a menina continuava com todas as obrigações da melhor forma possível não significava que não fosse difícil pra ela, que não sofresse. Apenas aprendeu a guardar as lágrimas para o próprio travesseiro, a amanhecer resignada a viver cada dia por ela mesma e pelos outros. Já não sabia por quantos anos viveria assim. Viveu cerca de oito anos, os primeiros de sua vida adulta, assim, em meio a tempestade. Nadando em plena ressaca, tomando um caldo atrás do outro, antes de recuperar o folego, mas seguia nadando. Agradecia todos os dias aos ensinamentos do avô, que proclamara que saber nadar era uma questão de sobrevivência, e lhe tirou as boias de plástico antes mesmo do primeiro ano de vida.

Continuava nadando, tão determinada que mal sentia as próprias câimbras. Havia se tornado um tanto quanto insensível às dores consideradas menores e por isso muito dura e exigente. Sabia que se não fosse assim não daria conta, sabia que era injusto com aqueles a sua volta, mas se relaxasse sucumbiria. E assim seguia nadando, em meio a ondas tão altas que jamais teria se imaginado capaz de tanto. Fato é que nunca havia questionado as próprias capacidades. Simplesmente enfrentava cada desafio, sem pensar no tamanho ou duração dele. Os problemas nunca foram vistos pela menina como matéria de profunda reflexão, e sim de solução. O máximo de reflexão que se permitia era para buscar a solução. O resto era reflexo. E assim ela seguia a vida, vivendo muito mais por reação do que por ação. Metódica, cheia de planos e metas, se comprometia com algo e fazia, sem descansar, sem dormir direito, sem comer direito, enquanto aquela meta não estivesse cumprida e pudesse fazer um tique em sua lista e passar para a próxima. Sempre disfarçando o cansaço e a dor, nunca querendo que os outros soubessem o quanto o mundo lhe pesava nos ombros, especialmente a mãe. Como a mãe lhe preocupava. Não podia sonhar que a menina já tinha chegado ao ponto de chorar de sono, em silêncio, só a água lhe lavando o rosto, por conta de cinco minutos a mais acordada para terminar uma tarefa.

Ai um dia, em meio ao maremoto, sua mãe se foi. Assim, como um sopro de vida, como a pena de um pássaro, como um assovio que acaba. No início, a menina lutou. Viu a enfermidade da mãe como apenas mais um maremoto. Já estava tão acostumada, seu corpo já se enrijecia com as notícias médicas. Já tinha aprendido a ler os médicos nesse ponto de sua vida. Não estudou nada na área de saúde, mas acompanhou todos os seus entes queridos, inclusive o namorado da época, que passou por graves enfermidades ao longo desses oito anos. Entrava e saía de hospitais com mais naturalidade que seus funcionários. Já conhecia as rotinas, já sabia o que tinha que falar para alcançar cada resultado. Veja bem, a menina era leitora ávida. Lia livros e lia a vida. Gostava, desde a tenra infância, de se afastar dos parquinhos, subir num árvore, e assistir aos colegas. Guardava na memória aqueles padrões de interações. Como as pessoas se comportavam e como esperavam que ela se comportasse. Quando agradava era conscientemente, quando desagradava também. Às vezes se sentia culpada, às vezes não, tudo dependia de o quão queridas eram as pessoas desapontadas. Não podia desapontar o avô. Ele tinha sido seu céu e seu chão a vida toda. Ele a ensinara a nadar. E agora estava ali, nadando em meio a tempestade que tinha começado com sua enfermidade e que parecia não acabar nunca mais.

Já perdera o avô, o que significava que já havia perdido tudo. E perdera também o pai e a avó. Tudo isso sem parar de nadar, ajudando, estudando, trabalhando, coordenando, três mudanças de casa, a venda do apartamento do pai, as contas, nadando, sempre nadando naquele mar de ressaca. E eis que agora perdera a mãe também. Porque continuar a ser forte então? Não era por ela que havia escondido o choro, segurado as lagrimas, trabalhado, estudado, nadado sem folego, depois de cada caldo? E agora, sabia que se parasse de nadar imediatamente sucumbiria. Como uma maratonista que já havia superado todos os seus limites tantas vezes que já perdera a conta, ela sabia que podia diminuir o ritmo, mas que não podia parar, ou seu corpo não aguentaria. E assim o fez, reduziu a marcha, mas seguiu, sem rumo, à deriva. Achou uma tábua. Não era justo, digno e nem válido fazer o que fez ao achar aquela tábua de salvação, mas já estava fraca demais para fazer diferente. E assim, a menina transformou um desgastado namoro à distância em tábua de salvação.

Deitou sobre a tábua, e deixou o sol secar seus cabelos, e deixou seus pulmões reaprenderem a respirar. Se viu quebrada. Doente, estilhaçada, como uma madeira que é jogada no mar, e bate contra as pedras repetidas vezes. Já não tinha mais uma forma distinguível. O sol ajudava, mas também doía. Tudo doía e lhe faltavam forças pra seguir. Em cima da tábua ela ficou à deriva. Sabia que quanto mais tempo ali ficasse, mais estaria se condenando, mas não conseguia voltar para as águas ainda revoltas que à aguardavam. A tempestade parara, mas o céu ainda era negro. Mesmo em cima de sua condenada tábua, levou caldos, se molhou toda e parecia que nunca secaria novamente. E seguiu à deriva por meses, só enfraquecendo, enquanto o mundo achava que aquilo era a calmaria e que ela estava se reestabelecendo. Reforçava a opinião errônea. Não queria que a percebessem quebrada. Tinha horror a pena alheia. E não queria ser motivo de preocupação. Sabia que todos os olhos dos entes queridos estavam sobre ela, e fingia não ver a própria preocupação refletida em cada um deles. Todos tão parecidos com os olhos de seu avô. Não queria que o avô, mesmo de lá do céu, visse seu estado, inerte. Inerte, na concepção partilhada da menina e do avô, era pior do que morto. Não se podia deixar ficar inerte, tinha que lutar, nadar, sobreviver. Mas fingia estar fazendo tudo isso. Sabia que não, mas estava tão cansada. E mais, muito mais do que cansada, estava desesperançosa. Já não tinha por quem fazer, e não se sentia importante o suficiente para fazer para si mesma.

E aí, quando começou a se mexer novamente em cima da tábua, levantou a cabeça e olhou para os lados procurando o horizonte, botou as mãos na água e ensaiou uma remada, nesse momento a tábua sentiu, talvez tenha percebido que ela estava começando a tomar iniciativa de novo. E a tábua naufragou.  Rápida como um raio, assim que a menina esticou os músculos, a tábua afundou, para nunca mais ser vista nem sentida sob os pés. Obviamente, a menina levou um caldo, mais um. Jogada inesperadamente na água, seu primeiro impulso foi o pânico. Teve medo de que a tempestade continuasse. Mas logo após os primeiros momentos nadando, ela se lembrou que era exímia nadadora, e que estava perdendo um tempo tremendo em cima daquela tábua. E voltou a nadar. Teve que escolher rapidamente uma direção, meio às cegas, antes que se cansasse mais, mas escolheu, e decidiu que certa ou errada, era melhor nadar do que continuar ali. E nadou. Por meses a menina nadou, sempre incerta do rumo, mas sabendo que naquele momento a força era mais importante que a direção. Retomou o controle se seu corpo inerte, e seguiu.

Um dia, ainda nadando, a menina percebeu que o céu não estava mais escuro, e que ela não estava tomando caldos. Estava apenas nadando ao sol, como qualquer outra pessoa. Não era tão fácil como aquela inércia, mas era infinitamente mais alegre. Começou a perceber que já não estava tão longe da costa e perdida, pois havia outras pessoas nadando, remando, navegando. Algumas com mais dificuldade, outras com menos. Via os machucados dos outros, as bagagem que arrastavam enquanto nadavam, e se viu parte do mundo. Cada qual com seu jeito de nadar, com seu histórico de caldos. E quando menos esperava, estava entre amigos, antigos e novos. “Por que aquelas pessoas novas viravam amigos?”, ela se perguntava. Não fazia sentido para si. Por que alguém ia querer se aproximar de uma naufraga esfarrapada? Entretanto algumas pessoas declaravam, assim, inusitadamente, que estavam espantadas com a sua boa natação, e acompanhavam, alguns por mais tempo, outros por menos, dizendo que vê-la nadar os estimulava a seguir nadando também.

A princípio a menina teve certeza de que estavam sendo hilários, e que, obviamente, aqueles elogios advinham da mais pura pena. Aos poucos se permitiu conversar com algumas dessas pessoas e viu que elas se sentiam muito mais fragilizadas, independentemente do tamanho de seus próprios machucados ou caldos. E com muita parcimônia a princípio, e com mais veracidade e liberdade depois, a menina começou a compartilhar sua história. Tinha muito receio de atrair pena. Não suportava isso, mas aos poucos passou a considerar genuína aquela interação com outros nadadores. Talvez até agora seja uma enorme ingenuidade de sua parte crer que não haja a tal pena, mas se há, aprenderam a disfarçar suficientemente bem.

E com mais cuidado e parcimônia, conforme a história do seu naufrágio ia reaparecendo, emergindo das profundezas de suas lágrimas, mais pessoas se aproximavam. A menina achou a terra. Ou seria uma ilha? Não houve tempo ainda para ela decidir se no dia que sair de lá será a nado ou não, mas nadar já não lhe assusta. Poucas coisas a assustam. Fez sua cabana de naufraga sobrevivente, aprendeu a fazer fogo, e descobriu que outras pessoas gostam de frequentar sua ilha. O 1uão curioso e inesperado isso é, a menina ainda não conseguiu medir. Muitas vezes, antes de dormir, ela olha as estrelas e estremece, sem saber se está sonhando ou se realmente chegou em algum lugar depois da tormenta.

O que lhe parece o mais impossível são esses seres curiosos, que parecem ter sentimentos positivos à seu respeito. Entre passarinhos e passarinhas, borboletas e seres humanos. São tão curiosos esses seres, eles emanam carinho. E cada gota de carinho que respinga na menina é como o remédio na ferida. Arde, dói, assusta. Ela sabe que fará bem, mas que medo sente. Não foge, porque aprendeu a nadar quase ao mesmo tempo em que aprendeu a andar. E sabe, que se sua ilha for de mentira, se nada passar de ilusão, ela pode seguir nadando. Se os antigos machucados já estarão cicatrizados ou não, e quantos novos haverá são perguntas com as quais ela aprendeu a não se preocupar. Algum machucados nunca cicatrizarão. Algumas cicatrizes serão eternas. O remédio que arde é o que cura, dizia seu avô. E a própria água do mar, salgada, arde na ferida, e cura. Ela nadará, hoje e sempre. Sob sol e sob tempestade, em mar calmo ou na ressaca. Ela nadará.

Sofia

O ano era 2014, o dia era o exato primeiro de Janeiro. A menina se sentia como um pássaro na gaiola, dentro de casa desde o ano anterior. Eram quatro da tarde. A menina olhou para sua mesa. Havia um livro, novo. Ela havia comprado a livro a algumas semanas, mas não abriu. Mas aquele era um ano novo, que pedia novos começos. Ela pegou o livro e saiu rápido de casa, com a roupa do corpo, e dirigiu sem rumo, porém com pressa. Como o coelho, que nem sempre sabe para onde vai, mas está sempre atrasado. Ela desceu na frente do portão do parque. Visualizou em flashes rápidos primeiro os tijolos do calçamento e logo depois a terra, passando sob seus pés ágeis. Parou de súbito e viu a pequena lagoa, sentou-se no banco. À seu lado apenas o livro novo: Vida Querida. Riu de sua própria escolha. Sim, a vida deveria ser querida. E nada como um novo ano para começar a amar aquela sua vida de novo. Ela sabia que nada era por acaso. Embora às vezes não acreditasse em tudo, pois tudo parecia demais para ela.

Respirou fundo e se acalmou. A pressa passou. Sentiu o vento no rosto, ouviu sua música nas folhas das árvores sobre sua cabeça. Ouviu os patos no laguinho. Voltou ao presente. E se perguntou, porque precisava tanto das árvores, do lago e dos pássaros para se sentir bem, se sentir livre. E então, numa inspiração, a menina foi do futuro para o presente, e numa expiração do presente para o passado. E logo ela não estava com sua vida querida no parque, mas sim com uma outra vida, que também era sua e muito mais querida, ela estava no jardim de seu castelo. Claro, ela cresceu num enorme jardim. Como não se acalmar em meio às árvores? Ela respirou e lembrou.

A pequena Alice corria pela grama, ouvindo o incrível e cotidiano dueto de sua mãe com os pássaros no jardim. Estavam afastadas do castelo, quase na beira do lago. Não aquela pequena lagoa do parque, mas o grande lago da cidade, que também era margeado por seu antigo e querido jardim. Ela olhou uma árvore e decidiu tentar subir nos seus galhos. Mas naquele momento, a menina era uma Alice muito pequena, e ela olhava a árvore como quem olha uma montanha, e não subia de fato, mas se via subindo como em um sonho. Absolem estava lá também, inebriado pelo dueto mulher-pássaros, e notou os esforços precários de Alice. E fez o que é seu papel de Absolem, se virou para Alice e lhe perguntou porque ela não subia na árvore. Ela disse que estava tentando, e ele retrucou perguntando o que a impedia. Desafiada, Alice subiu. E não digo subiu somente naqueles galhos que namorava alguns minutos antes, mas subiu até o topo da copa, até os galhos mais finos, e se sentiu como quem conquista o Monte Evereste.

Depois daquele dia a vida da pequena Alice nunca mais foi a mesma, pois naquele dia ela fez uma amizade muito especial, como nenhuma outra que ela teve até então, naquele dia, a menina ficou amiga de uma árvore. E todos os dias, depois da escola e dos deveres, a menina corria pela grama, descalça, e escalava seu novíssimo e muito próprio castelo, que era aquela árvore. Com o passar dos dias, os pássaros já não mais se assustavam, e continuavam onde estavam, entre as folhas, conforme Alice se aninhava com eles, e assim suas tardes eram embaladas pelo suave balanço dos galhos ao vento. A menina tinha um companheiro, seu irmão canino, muito amado pela mãe de voz de mel, um belíssimo labrador branco amarelado, que era companheiro infalível dela e da mãe. Todas as vezes que a menina saia em direção a sua árvore ele ia atrás, e por quanto tempo ela ficasse aninhada em sua copa, ele estaria deitado em sua sombra, aguardando a hora de retornar ao castelo. Um verdadeiro e fiel escudeiro.

No castelo havia seis pés de manga, de três tipos diferentes. Desde que a menina se dava por gente, apenas cinco presenteavam seus habitantes com mangas. O sexto era sua árvore. Um dia, Alice estava entre os galhos e viu as mangas se formando. Não achou nada de estranho, e por isso não comentou com ninguém. Algum tempo depois ela adentrou o castelo com uma manga na mão e outra entre os lábio, já pela metade. A rainha estava presente e pediu a neta que lhe desse a manga da mão. Sentaram-se na cozinha e lancharam aquelas mangas ao sol da tarde. Na segunda mordida a rainha olhou fixamente para Alice e perguntou: “Essa manga é da sua árvore?”, já sabendo a resposta. A menina respondeu que sim, sem entender, mas via nos olhos da avó um sorriso raro. A rainha então esclareceu que aquela era uma manga-espada, a mais doce, mais tenra e sem fiapos, de todas as mangas que ela havia plantado ali muitos e muitos anos antes. E concluiu: “Só que nunca havia comido uma manga daquela árvore antes, ela nunca deu.” E sorriu. A menina entendeu, e agradeceu. Não à avó, mas à vida, querida.

Com o passar dos anos aquela amizade entre menina e árvore só crescia. E logo tornou-se seu local de leitura preferido. Escondia-se entre as folhas e lia livros inteiros, encarapitada em meio aos galhos. Sempre com seu fiel escudeiro aos pés. Não seus pés, mas aos pés da árvore. E sua saga literária começou. E a menina, já não tão menina, olhava a Vida Querida nas mãos, no parque, em 2014, e pensava, será que sou eu que reparo demais? Vejo coincidências onde não existem? Ou minha vida é assim mesmo? Isso porque a menina leu Harry Potter quando tinha onze anos, e, literalmente, cresceu com aqueles personagens, ano a ano. Claro, por questões de praticidade a autora demorou mais de sete anos para escrever os sete livros e a menina já contava vinte e um verões quando seus amigos literários chegaram aos dezessete, mas foram contemporâneos no melhor uso da palavra. E quando lia um livro triste, chovia, e quando lia um alegre, fazia sol, e quando lia uma poesia os pássaros cantavam.

Aos quinze ela ganhou da amiga O Mundo de Sofia. E sim, a menina ganhou o mundo. Pegou aquele livro grosso e correu para sua árvore, acompanhada de seu escudeiro. Abriu as páginas e leu no primeiro capítulo que Sofia era uma menina que recebia pelo correio lições de filosofia, que ela lia entre as folhas de uma sebe no jardim, acompanhada de seu labrador branco, e que suas lições começaram a chegar no ano em que completaria quinze anos. A menina, que já tinha lido Alice entre os galhos da árvore, fechou o livro. Lançou um olhar cheio de suspeitas para seu fiel escudeiro, e dia após dia, tornou-se também Sofia. O autor entrou rapidamente para sua lista de favoritíssimos, e a menina continuou a ver o que parecia serem os vários mundos dentro do mundo. E nunca soube se ela se deixava levar pela imaginação mais do que o normal, se lia demais, ou se sua mente é que expandia com cada um daqueles livros e suas coincidências.

Um velho. A menina teve sua visão da lagoa no parque, em 2014, subitamente bloqueada por um velho, que saiu abruptamente da trilha e parou em sua frente. Só então reparou que havia um garoto sentado na outra extremidade do banco. O velho queria desejar um ano bom, que os jovens fizessem o bem! A menina agradeceu educadamente, ainda um pouco assustada pelo acontecimento súbito. O garoto então disse: “Essas coisas aleatórias acontecem muito com você, né!”, não era uma pergunta, era uma afirmação. A menina não conhecia aquele garoto. Ela assentiu, conversou um pouco e depois foi embora do parque, pois o anoitecer já rondava. E ao ir embora pensou, sim vida querida, esse ano, pelo visto será cheio, e as coisas aleatórias estão cada vez mais óbvias e visíveis.

E embora o ano ainda esteja em seu primeiro trimestre, Alice já esbarrou no coelho, com pressa, e até mesmo sem pressa, em outros recantos, ou miolos, da cidade. E cada nova música que a menina ouve no início ou fim de cada dia, a cada canto de pássaro, a cada página lida de cada livro novo, cada vez mais a menina vê as palavras do seu script pessoal no ar da vida, querida. E as realidades se misturam. E só agora, mais de dez anos depois, Alice percebe que sim, a Sofia saiu das páginas de um livro, e virou vida. E assim, enquanto a menina, agora Sofia, sai do livro para a vida, a vida torna-se livro, nas mãos da Alice Sofia.

Alice

A menina se imaginava velha. Às vezes se sentia velha, às vezes só imaginava como seria quando fosse. Se imaginava contando para os netos sua ida ao País das Maravilhas. A menina era também Alice.

Ela cresceu num jardim. Grande, enorme para sua pouca idade, e, mesmo para os adultos, era desproporcional para a cidade onde vivia. Naquele jardim a menina plantou e colheu os mais doces frutos, as mais cheirosas ervas e os mais frescos vegetais. Naquele jardim, ela sonhou, chorou, leu, dormiu, caiu, correu e descobriu vários universos, debaixo de cada pedra, de cada casca de árvore, de cada folha. Ficou amiga de muitos animais e foi até convidada para o casamento das formigas, feito com as flores brancas das jabuticabeiras, uma vez.

Nesse jardim a menina aprendeu que existiam portas para estes outros universos, e às vezes se perdia entre eles. Um dia estava com os tatus-bolas, passeando debaixo das pedras, sendo senhora da chuva, entre samambaias e seixos rolados. Em outros, se perdia entre as folhas das árvores, comendo amoras ou chupando mangas. Algumas vezes levava algum convidado para passear em seu reino, e estes variavam entre amigos reais e imaginários, famílias de barbies ou personagens de livros, que a acompanhavam nas aventuras do dia.

Talvez por isso a menina não tenha estranhado no dia em que resolveu seguir o coelho toca a dentro. Não estava mais em seu jardim. Ele já não existia havia alguns anos. Ela estava perdida, como uma pena sendo levada pelo vento, só que esse vento era uma tempestade. E depois de anos se agarrando às velas de seu navio, controlando o curso de sua vida com punhos de aço, a menina foi. Simplesmente, foi. Levada sem controle pelo vento, e se viu diante da toca do coelho. Pulou. Pulou como uma Alice que sabe onde vai. Foi surpreendida por ser reconhecida no País das Maravilhas, e não pelo quão fantástico ele era. Ela conhecia a fantasia. E agora a fantasia conhecia Alice.

A menina parou. Levantou os olhos. Levantou-os do que? Estava lendo? Escrevendo? Dormindo? Sonhando? Em que momento a realidade e a fantasia tinham se mesclado? Tinham se mesclado? Ou sempre foram a mesma coisa? Aquela sensação de portas para os diversos universos se apoderava da menina fortemente, mais uma vez. Estaria ela em seu jardim? Ou na praça, no museu? O dia era noite e a noite era dia. Sua vida pulsava novamente. Ela abriu os olhos e se viu dez anos antes e dez anos depois. Tinha sobrevivido a sua guerra.

E como uma veterana, olhava o mundo novamente e se perguntava como podiam viver tão prosaicamente todos aqueles civis. E ao mesmo tempo era, ela mesma, a mais lúdica das criaturas. Será que ainda estava no País das Maravilhas? Será que simplesmente não tinha acordado? Seria aquele mais um truque? Não, ela só tinha achado o caminho de volta. E de repente, o vestido azul da Alice era parte de seu guarda-roupas real, e ao acordar, a menina percebia, dia após dia, que os sapatinhos vermelhos da Dorothy continuavam em seus pés. Ela era Alice. E o seu mundo era também o País das Maravilhas.

Como aqueles personagens se encaixavam nos dois mundos ainda era para ela um grande mistério, mas agora ela começa a conviver com Absolem ao mesmo tempo que ia ao trabalho, afinal, a menina era mulher. E se podia atender uma ligação de Absolem enquanto estava no trânsito, então talvez, somente talvez, a menina finalmente entendesse porque o coelho tinha tanta pressa. Estava correndo de algo? Ou em direção a algo? E porque havia permitido que Alice o seguisse, e caísse no País das Maravilhas? Teriam sido ordens da Rainha de Copas? Ou da Rainha Branca? Ou do Chapeleiro? Teriam sido ordens? Foi o coelho que levou Alice ao País das Maravilhas? Ou foi Alice que seguiu, inadvertidamente, o coelho?

Ou teria sido seu furacão, aquele que a transportava como uma pena, perdida, que a teria levado ao Mundo Mágico de Oz? Estava em Oz, então? Era o Mágico uma farsa? E a menina sorriu. Sim era! Tudo era uma farsa, uma grande mentira. Ela era a Mágica de Oz. E com que habilidade tinha feito com que todos acreditassem que era poderosa e poderia manter as trevas distantes, mesmo nos piores dias. Enquanto o reino se vangloriava e todos se divertiam nos jardins, Alice se lembrava de como havia matado seus monstros e vencido todas aquelas batalhas, apenas usando sua capacidade de fazer os outros acreditarem que ela era a Mágica. Quantas vezes a menina não se desesperou? Em quantas não desacreditou de tudo e todos.

Mas como deixar o reino sofrendo? Como deixar o reino ver que ela sofria? Alice não sofre. Alice é o Mágico de Oz. E sob uma cortina de fumaça, ela bateu os calcanhares mais uma vez, e acordou em casa. Onde as pessoas não acreditam em coelhos e tocas, embora corram atrasadas todos os dias. A menina sorria ou ver os atrasados, e trocava sorrisos misteriosos com o gato cada vez que vislumbrava as portas entre os universos espalhadas pelo mundo. Não mais em seu jardim, onde a menina sorria, chorava, brincava e descobria a vida. Agora, seu jardim era o mundo. E no mundo ela sorria, chorava, brincava e descobria a vida.

Seria tão absurdo assim, que os universos todos fossem só um mundo? Só o mundo? A menina olhava a vida como quem lê um livro. Ela lia a vida. A menina era Alice. E ela não estava preparada para aceitar que o mundo não é o País das Maravilhas. Mas finalmente, ela estava preparada para exercer suas habilidades de Mágico de Oz, e transformar o mundo em um País das Maravilhas. Em meio a espantalhos e leões, chapeleiros e lebres, regada a chá, ela costurava cada uma de suas emoções, como quem costura o Peter Pan de volta à sua sombra. E com esses remendos, ela remendava sua própria alma.

Agora a menina não precisava mais de um furacão para ser transportada para Oz. E nem de cair em abismos. Ela aprendeu a ver as portas, ela aprendeu a voar. E com suas novas asas ela poderia subir aos céus, e aterrissar em Oz, ou poderia descer suavemente a toca do coelho, e seguir pelo País das Maravilhas. Alice não tinha asas. Mas a menina tinha. A menina era Alice de asas.

Biscoitos, óculos e vestidos

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A menina enxergava o mundo com novos olhos. O que teria lhe acontecido dessa vez? Uma nova revolução interna? A percepção da vida como ela é? Novas pessoas? Novas paisagens? Novas atividades? Não, óculos. Era o primeiro dia da menina usando óculos. E ela não usava óculos antes? Veja bem, havia alguns anos já que a menina sentia sobre seus ombros um peso maior que o de seus anos. Ao estudar e trabalhar ao mesmo tempo, desde os dezoito anos, sem falar nos cuidados dispendidos com a IMG_0064família, aos vinte e um já precisava de óculos de leitura. A diferença era que antes ninguém nunca tinha visto a menina com suas lentes sobressalentes. Apesar de ler muito, e todos os dias, esses momentos eram reservados para sua solidão, luz artificial, madrugada afora.

E agora? A menina suspirou e lembrou-se mais uma vez da médica carimbando a receita e falando: “Não é desse tão famoso e infame óculos de leitura que você precisa, você tem astigmatismo. E o que você tem sentido e confundido com cansaço é só meio grauzinho em cada olho. Nem precisa fazer esses óculos, mas vou te dar a receita. Se quiser testar, faz.” E ao suspirar ela pensava: “Como assim fazer se eu quiser? A gente não vai ao médico para receber uma instrução?” Colocou a receita na carteira e procurou não pensar mais naquilo.

Sentiu o cheiro dos biscoitos. Estariam prontos? Deixou um pouquinho o computador e foi espetá-los com um garfo, ato que a menina sempre achou tão violento, embora soubesse se tratar de método eficiente para checar o ponto de bolos e biscoitos. Ainda moles. Teria errado o ponto? Era a primeira vez que a menina fazia aquela receita e estava um tanto quanto insegura. O bom é que não havia ninguém para provar os biscoitos além dela mesma. Isso tirava qualquer expectativa ou possibilidade de decepção. Por outro lado, não havia ninguém com quem compartilhar os biscoitos. A menina ponderou essas duas situações e chegou à conclusão de que ela mesma era sua mais rígida crítica. Resolveria sua auto avaliação quanto aos biscoitos uma vez que estivessem prontos.

O celular vibrou. Ela viu na tela os desenhos que antecediam o texto da mensagem e reconheceu um grupo de amigas. Parou de escrever um pouco. Sim, já disse que a menina era muito Sofia nesse dia? Estava em tempo real se transformando em palavras. A contradição desse fato é que a Sofia vai de palavras à real. Mas antes de ser Sofia, a menina era Alice. E no mundo de Alice nada é aquilo que parece e tudo é o que não deveria ser. Logo a Sofia da Alice era real e virava palavras. E a mensagem? Pequenas bobagens do dia a dia. Um comentário sobre um filme mencionado na véspera.

O som captou os ouvidos da menina. Estava ouvindo uma banda já conhecida, porém tinha baixado algumas outras músicas. Nada novo, muito pelo contrário, mas qualquer som além do mais habitual se fazia perceptível como uma nova realidade para a menina. Era uma sensação muito parecida com a de ver o mundo com novas lentes. Novas lentes, ela sorriu e testou o peso de suas novas lentes apoiadas no nariz e atrás das orelhas. Via o mundo através de novas lentes. E ainda assim ele parecia exatamente o mesmo. A versão em HD do mesmo canal. High definition, o foco melhorado. A Alice na menina lhe soprou nos ouvidos, ou melhor, de dentro dos ouvidos: “Para vermos o mundo de outra forma, ou para vermos outros mundos não precisamos ver através de lentes e sim através do espelho”.

Isso era uma verdade incontestável. Era através do espelho, olhos em seus próprios olhos, olhos nos olhos de Alice, nos olhos de Sofia, que a menina via o mundo de outra forma. Seus verdadeiros óculos eram os olhos da Alice, que a faziam ver em seu mundo cotidiano o País das Maravilhas, Oz, e as páginas de sua própria história, só esperando para serem codificadas em palavras.

O cheiro dos biscoitos invadiu novamente suas narinas. Mais forte dessa vez. Teriam queimado? Como era difícil às vezes soltar os dedos que batiam no teclado com leveza, porém colados às teclas. Outra música nova. Isso a ajudou a tirar os olhos da tela, e, um a um, desgrudar os dedos das teclas e usá-los para segurar o garfo e a luva de cozinha. Lá ia Alice, espetar seus biscoitos. Ficou se perguntando o que Absolem diria daquele ato. Espetar biscoitos. O que os biscoitos diriam se pudessem? Ela já não se espantava com essa possibilidade. Talvez não compartilhasse os biscoitos com alguém, mas ao invés, na melhor forma Alice de ser, compartilhasse suas ideias com os biscoitos.

A caminho, entre o forno e a cadeira do computador, vislumbrou os vestidos sobre a cama. Três vestidos bonitos, femininos, cheios de estampas. Em mais um momento surreal havia experimentado aqueles vestidos por sobre suas roupas, no meio da rua, mais cedo. Uma amiga estava vendendo-os. Pensando bem, o meio da rua era o meio da rua, mas também não era. Já que a menina Alice vivia em seu perfeito ambiente, uma terra onde nada é o que parece e tudo é o que não deveria ser. A menina vivia numa terra onde o céu era o mar. E onde o meio da rua era um lugar reservado, e os lugares reservados eram públicos.

Pensou novamente nos vestidos sobre a cama. Precisava prová-los novamente, de forma adequada, e responder a amiga se os compraria ou não. Estava em casa há horas já. Porque não tinha feito isso ainda? Tudo bem, havia os afazeres domésticos, cozinhar, lavar, arrumar, guardar, que lhe tiravam parte do pouco tempo livre. Mas era mais do que isso, vinha dessa inércia externa, que correspondia exatamente a crescente inquietude interna. Quando essa lhe subia à garganta, a menina olhava ao redor, via sua pequena casa tão perfeitinha. E mais uma vez constatava que do lado de fora da boca só havia solidão. Se alongava então, estalava o pescoço, e ligava o computador. Seus olhos miravam a tela como quem vê, ou revê, seu verdadeiro amigo. E os dedos batiam as teclas com leveza, porém tão rápidos que era necessário reler o que foi dito várias vezes depois.

Ajeitou mais uma vez os óculos que lhe pesavam sobre as orelhas, sentiu mais uma vez o cheiro dos biscoitos, e nas idas e vindas entre forno e tela, olhou longamente para os vestidos sobre a cama. Sempre a lembrando que haviam tarefas infinitas. Que sempre haveria algo novo a ser feito. Uma outra viagem, uma nova experiência. Outras pessoas, outros cheiros, outras paragens. Isso era reconfortante, embora não o suficiente para expulsar aquele pensamento inquietante a respeito da vida. Era isso então? Como os ovos de Clarice? Trabalhar, preparar, corrigir, arrumar, cozinhar, lavar, guardar. Adicionar novos acessórios que só serviam para lhe assegurar que os anos passavam, e que a lembrariam disso em todos os momentos.

Os biscoitos! Que esforço tremendo para soltar os dedos das teclas e espetar biscoitos. Por outro lado, enquanto não grudava os dedos nas teclas nada mais acontecia. Novas músicas, novas roupas, novos acessórios, novas receitas. Novas pessoas, novas paragens. A vida era assim, e isso não era o bastante. Mas talvez, só talvez, os dedos nas teclas fossem. Sua verdadeira janela para a alma. Um processo digno de Sofia e Alice. Para aqueles que pareciam querer atravessar o espelho, ver o mundo por novas lentes já era o suficiente para encher a alma. Talvez e só talvez o que a menina precisasse não era encher ainda mais sua alma, e sim dividi-la. Dividi-la em várias pequenas palavras, e soltá-las ao vento. Abrindo dessa forma uma janela para sua própria alma. Talvez a encontrassem através daquele espelho que levaria somente a ela mesma.

Os biscoitos estavam prontos. Com cara boa. Talvez estivessem gostosos. O peso dos óculos continuava ali, como o peso das perdas da vida. Nada que a impedisse de continuar, apenas, um lembrete constante de que os anos passam, de que a vida passa, e que entre biscoitos e vestidos, talvez haja algo mais, e talvez não. Talvez seja só a vida. A menina releu suas últimas e linhas e pensou, que talvez, se a vida for isso, não seja nada ruim. Biscoitos, vestidos, acessórios que contam o tempo, e dedos que contam histórias, que falam mais do que sua boca. Toda vez que suas palavras ditas ao vento ricocheteiam na solidão, seus dedos encontram na vastidão das palavras o consolo de muitos olhos anônimos. Que olharão, talvez, através de suas palavras, e verão, talvez, sua alma.

Unha Quebrada

O banheiro tinha cheiro do seu sabonete preferido: lavanda. Todos os cheiros eram só seus naquele lugar. Os sons também. Isso era tão reconfortante. A menina pensou em todas as vezes em que sonhou em ter um lugar só seu, só seus cheiros, só suas cores, só seus sons, só seus gostos. O banheiro era um pouco pequeno em demasia, verdade. O apartamento todo era pequeno, mas isso a fazia ainda mais feliz, era seu recanto, sem muito espaço para outros disputarem. Cantarolava, às vezes com murmúrios, às vezes com palavras, Sweet Child of Mine, Guns&Roses. Enfiou os dedos por entre os cabelos molhados, com as mãos cheias de xampu e os olhos fechados. Sentiu aquela gastura: uma unha quebrada!  Sentiu o momento exato que um fio de cabelo entrou na rachadura do dedo médio da mão direita. Em ato reflexo, puxou essa mão rápido de entre os cabelos e olhou. Só viu bolhas feitas pelo xampu, e um mínimo traço branco na extremidade da unha, perpendicular à base. Odiava aquelas rachaduras verticais. Demoravam mais para sair e era necessário lixar a unha toda. Gostava muito de cuidar das próprias unhas, e, embora achasse pouco pratico ter unhas longas, gostava das suas ligeiramente compridas, lhe remetiam à garras e isso gerava um certo orgulho, embora não conseguisse explicar porque isso pudesse ser motivo de orgulho.

Voltou com as mãos por entre os fios de cabelo, lutando com o movimento mecânico, decorado pelo corpo, mantendo apenas o dedo médio acima dos fios. Não, não doía. Unha quebrada não é machucado, mas cada vez que levantada por um fio, de cabelo, ou roupa, que fique bem claro, a gastura não era nada convidativa. Olhou em volta, já com os cabelos enxutos, e viu os potes de cosméticos no chão. Gostava de seus cosméticos. Tinha cultivado o gosto ao final da adolescência, e somente na vida adulta passou a comprar e gostar de cuidar bem das unhas e cabelos. Gostava dos seus cheiros, só seus. Gostava das suas cores, só suas. E sentia o peso, a dicotomia, a dubiedade, entre o quanto gostava de ser mulherzinha, como diziam por ai, de ter unhas e cabelos bem feitos, e ao mesmo tempo de como achava irritante que para alcançar esse resultado demorasse tanto tempo e investimento em produtos.

Não entenda a menina mal, ela amava profundamente e por vontade própria a sensação do próprio corpo depilado, das garras feitas, dos cabelos limpos, arrumados. Se sentia muito mais higienizada, e genuinamente feliz quando assim estava. Mas achava de um ponto de vista ideológico um contrassenso o tempo e valor que mulheres investiam nisso, inclusive ela mesma, e como a sociedade esperava isso como natural. Não, não é. Pra ficar bonita assim leva tempo. Achava injusto e machista que homens e mulheres esperassem que as mulheres ficassem assim sempre e pronto. Pois bem, que inventassem então formas acessíveis e automáticas. Seria ótimo, como num jogo de bonecas, clicar e mudar a cor das unhas ou dos cabelos.

Deixou a divagação sociológica de lado, espremeu os cabelos encharcados com as duas mãos e desligou o chuveiro. Viu os potes no chão e pensou em seu avô. Que vergonha! Uma menina que como ela sabia usar muito bem uma furadeira, e suas coisas espalhadas pelo chão por falta de arrumar os apoios, pendurados irregularmente pela ventosa no azulejo. Fez uma nota mental para comprar buchas e parafusos e arrumar aquela situação. Abriu a cortina de plástico e se secou na toalha. Teria transtorno obsessivo-compulsivo? Se perguntava isso toda vez que fazia sua rotina de higiene pessoal. Rotina é pouco para definir. A menina sempre se secava com o mesmo lado da toalha, fazia as coisas na mesma ordem, passava hidratante no corpo todo antes de se vestir. Tudo sempre na mesma ordem. Com a toalha nos cabelos pegou o rodo. Não gostava de ter que puxar a água do banheiro pro ralo depois de cada banho, por falta de um box de vidro, mas amava sua cortina de bolinhas coloridas. Amava suas cores, suas formas, seu espaço. A unha! Ah, como se secar e não sentir a gastura de novo, da unha levantada dessa vez por um fio de toalha. Ao puxar a água com o rodo o fez em pouco movimentos precisos, tudo mantendo o dedo médio levantado. Colocaria um box ali depois.

Saiu do banheiro, sentiu a diferença de temperatura e humidade entre o ar em que estava e do quarto. Adorava essa sensação antes de se vestir. Colocou o pijama evitando os movimentos automáticos e mecânicos do corpo para não levantar a unha quebrada, mantendo o dedo médio levantado. Deixou a toalha enrolada nos cabelos mais um pouco, absorvendo a humidade e pensou nas coisas que uma unha quebrada significava para uma mulher. Uma quebrada é um sinal de desleixo, na visão mais machista da coisa. É também um sinal puro e simples de que se precisa tomar uma atitude a respeito. Uma unha quebrada não dói, mas às vezes fere o orgulho. O orgulho das unhas longas, garras. O orgulho da mulher perfeita de unhas impecáveis. O orgulho da menina só, que se vira como qualquer pessoa, e faz tudo sozinha. Será que não consegue fazer nada, nem tomar um banho, sem quebrar uma unha? Sabe, racionalmente que isso não faz sentido algum, mas deixa os pensamentos passarem por sua mente sem descriminação. Todos os que vierem.

Pensa que uma unha quebrada é como todos os outros pequenos problemas que enfrentamos no dia-a-dia. Não dói, não é grave, mas basta passar a mão pelos cabelos, ou pela roupa, fazer os gestos mais comuns e automáticos para se lembrar de que ela está ali, esperando para ser resolvida. E que se você não a lixar logo, em breve a rachadura irá aumentar. E só. Esse é o único destino de uma unha quebrada, piorar. Porque, então, às vezes as deixamos lá, sem cortar, sem lixar? Porque esquecemos, ou talvez porque temos orgulho das unhas longas e não queremos uma diferente no meio, ou seja, por comodismo, por orgulho besta, por preconceito. Por todos os injustificados motivos que fazem com que evitemos os pequenos problemas do dia-a-dia. Será que os homens conhecem tão bem a sensação da unha quebrada? Talvez sim, talvez não. Talvez conheçam o metafórico mais do que o da unha, propriamente dita.

A menina se lembrou de que ainda estava com os cabelos molhados enrolados na toalha depois de mais de trinta minutos de divagação. Levantou-se. Pegou o estojo com os instrumentos de manicure. Lixou a unha.

A Menina que não sabia chorar

A menina rodou o copo de cerveja na mão, segurando-o pela borda para não esquentar ainda mais o conteúdo. O copo ainda estava três quartos cheios, era o primeiro mas ela não aguentava mais. A verdade é que não queria beber naquele dia, naquela hora, mas estava mantendo a postura social. O mesmo não era verdade pra maquiagem, apesar do batom vermelho dar mais trabalho, e de ela passar a língua nos dentes constantemente para evitar os famosos borrões, gostava de estar maquiada. Se maquiava para si mesma, a qualquer hora e lugar e qualquer desculpa pra um batom vermelho era uma desculpa boa.

O menino não tinha bebido muito também, estava no segundo ou terceiro copo no máximo. A conversa fluía, cheia de amenidades e sem seriedades. Conversavam para se conhecer, conversavam pro tempo passar, conversavam por gentileza. Não que não estivesse bom, que não estivessem gostando da companhia um do outro, mas era uma coisa assim, parte da vida, do momento.

Ele virou e perguntou de repente o que ela tinha achado da peça. Tinham ido ao teatro, não juntos, não, não estavam juntos, mas tinham se encontrado, naquela vida social, e descoberto que tinham visto a mesma peça no festival, e de repente a pergunta. Ela suspirou, rodou o copo com a ponta dos dedos, pendurado nos dedos, viu um fio de água escorrer do copo suado, e pensou em como escolheria as palavras. Não que conversar sobre aquilo fosse difícil, não era, mas as pessoas se ofendem por tão pouco. Lhe cansava às vezes essa possibilidade. Não que fosse criticar, tinha gostado do espetáculo, mas é aquela velha história, gosto é igual bunda, cada um tem o seu.

Levantou os olhos do copo, aprumou o corpo e disse: “O texto é muito bom.”, assim, concisamente. Ele levantou os olhos e questionou: “Mas você não achou muito escuro? A leitura muito cansativa?”. Pronto, ele não tinha gostado e já estava ofendido. Que preguiça! Suspirou e retomou as palavras, girando-as na boca para testá-las antes de deixa-las sair: “Sim, é escuro, é entendo que possa ficar cansativo. Outras pessoas já me falaram isso. Talvez por conhecer o contexto, os estereótipos trabalhados não tenha me cansado”, pausou, deu um gole, viu os argumentos se formando por detrás dos olhos dele, pronto para rebater. Não, ela não queria discutir, não estava no humor de ter uma conversa técnica. Resolveu arrematar antes que ele tivesse chance: “Mas gostei muito do texto mesmo, é um poema, né?! Talvez por ter sido encenado em outro idioma muitas pessoas tenham se perdido, eu, como entendo bem, me deixei levar, cheguei a fechar os olhos e esquecer o escuro e me perder nas palavras. Você reparou que em alguns momentos o mesmo verbo é usado com três significados diferentes na mesma frase? Sim, eu sei que isso é bobeira e que um espetáculo é muito mais que o texto, mas sou muito ligada nas palavras e gostei por isso. Entendo opiniões contrárias. Vejo a razão nelas também!”. Pronto, enquanto falava ela assistiu aos argumentos dele se rearranjarem várias vezes por detrás dos olhos. No fim ele suspirou, deu de ombros e disse: “O poema é muito bonito mesmo, já tinha lido antes”.

Rodou o copo nos dedos aliviada, acabou a argumentação, estavam todos certos, cada um com sua bunda, com sua opinião. Odiava discutir gosto. Cada um acha o que quer. O silêncio se estendeu por menos de um minuto e ele voltou a atacar de forma inesperada: “Você tem opiniões muito fortes! Trabalha com teatro?”. Ela suspirou, e pensou: isso de novo?! Não, não trabalhava, mas cresceu em uma família que sempre exaltou e trabalhou com arte, teatro, música, jornalismo. Um ambiente onde foi cuidadosamente ensinada a ter opiniões fortes, onde isso era prezado e alimentado. Achou que tinha sido suave, mas falhara ruidosamente mais uma vez. Olhou pra cima e resumiu: “Não, mas por causa da família cresci na coxia. Assisti a espetáculos de toda forma desde cedo e fiz muitas oficinas, além de aulas de teatro e circo”. “Então você é artista!”, arremata ele. “Não, não sou.”, responde com um sorrisinho condescendente. Estava cansada de dizer que não era artista. Seria se quisesse. Por razões nas quais não costumava pensar muito não era. Escapou da especulação: “Não tenho talento, só conheço um pouco.”. “Aposto que tem talento sim!”. Ai, ele ia insistir!

Suspirou, bebeu mais um pouco. A cerveja já estava oficialmente quente e era ruim, de uma marca que não gostava. Mas não queria falar nada, todo mundo bebia daquela cerveja, não queria levantar outra argumentação acerca de seus gostos e opiniões. Continuou a beber em silêncio. Não tinha o que dizer. Tinha, mil coisas, para o mundo todo ouvir, mas estava desestimulada, desacreditada e tomada de uma preguiça que não combinava com sua personalidade. Nunca tinha sido preguiçosa, muito pelo contrário, mas vinha se escondendo na procrastinação no último ano. Disfarçava a procrastinação com o luto recente.

Perdera sua mãe a cerca de um ano e meio. O motivo parecia convincente para todos menos para ela. Ela sabia que era capaz de muito mais do que andava fazendo, mas já que o mundo se contentava com aquilo ela estava experimentando ser mediana por uns tempos. Cumprir com todas as obrigações tende a ser muito para as pessoas em geral. Até demais. Ela tinha apendido que isso era o de menos. Foi criada para surpreender, para ser a primeira da turma, para pensar mais rápido que todos, viver a vida como um jogo de xadrez, sempre prevendo até dez movimentos consecutivos para se planejar, preparar e estar pronta para cada investida da vida e das outras pessoas. Estava cansada, precisava de um pouco daquilo que é perfunctório! Amava essa palavra: perfunctório. Brincava com ela na cabeça. Lembrava do avô. Sorriu com a lembrança e o garoto achou que o sorriso era algo pra ele, ou algo a ver com aquela conversa com aquele momento e não com algo a milhas de distância no tempo, nas realidades paralelas.

Havia perdido o avô também. No mesmo ano do pai, cerca de seis ou sete anos atrás. Nossa, sete anos já, ela pensou. Como ela tinha vivido nesse meio tempo, tinha feito o que? Se lembrou. Tinha entrado na faculdade, começado a trabalhar seis meses antes disso, formou no tempo previsto, estagiou, teve cinco tipos de empregos diferentes, fez cursos de extensão, línguas, cuidou da mãe e da vó, pagou contas, fez compras, dirigiu mais de trezentos mil quilômetros entre idas e vindas dentro da sua cidade natal como acusava o odômetro do primeiro carro que teve quando o vendeu. Sorriu de novo com os pensamentos velozes e dessa vez o rapaz não se aguentou: “Então, tenho certeza que você tem talentos! Já apresentou alguma peça?”. “Não, só na escola!”, “Nadinha? Não acredito!”. Ela viu que não ia escapar. Resolveu dar um pouco de corda. “Já apresentei pelo circo, fazia malabares e aprendi a cuspir fogo na adolescência!”.

Pronto, estava dada toda a corda do mundo, era só contar que sabia cuspir fogo que as pessoas se empolgavam, queriam saber detalhes, falavam horrores. Sabia também que era um assunto seguro. Podia falar sobre isso, aumentar, diminuir, impressionar. A conversa fluía em campo seguro, longe de seus sentimentos. Assim ela podia apenas falar com a boca, enquanto a cabeça divagava, e ainda parecer interessada, atenta. Não é que ela não estivesse gostando da conversa, sei que é difícil de acreditar quando dito assim, mas é como o cérebro dela se comportava a anos. Mexer com os sentimentos era perigoso, levava a mente a cantos escuros, escusos. Não, era sempre bom manter as conversas alguns níveis acima da superfície. As profundidades eram muito trabalhosas e perigosas.

Percebeu que o menino ainda falava sobre suas habilidades circenses. Se perguntou se ainda as teria. Não as testava a alguns anos. Suspirou, já tinha deixado o assunto se arrastar muito. “Mas é isso, nada de mais”. “Como nada de mais?” ele retrucou, fez alguns elogios e perguntou sobre poesia. Ela respondeu, comentou seus autores e poemas preferidos. Se manteve sucinta e evitou detalhes. Tinha cada vez mais preguiça daquela conversa e ao mesmo tempo se não estivesse conversando com ele estaria fazendo o que? Não fazia parte do seu plano de procrastinar metas e viver perfunctoriamente por um período manter conversas aleatórias com estranhos? Sim, era isso que as pessoas faziam, isso se chamava fazer um social, conhecer gente. Resolveu dar mais uma chance pra essa habilidade social pouco explorada e mordeu a língua antes que o cortasse. Em vez disso deu mais corda, se perguntando onde aquilo ia parar e porque estava contando tudo aquilo. Aos seus ouvidos soava como se estivesse se vangloriando dos tais possíveis talentos. Teve um pouco de vergonha, se sentiu meio mentirosa. Ao mesmo tempo ponderou que não estava mentindo, era tudo verdade. Só não estava acostumada a contar esses detalhes para pessoas aleatórias.

Detalhes? Suspirou de novo! Aquilo não chegava perto de ser um detalhe. Aquilo era conversa fiada. Só não parecia. Deixou fluir, continuaram falando de música, livros, arte cultura.  Mesmo sem se esforçar reparou que conseguia chamar certa atenção. O rapaz acompanhava muito bem a conversa. Conhecia bastante. Conhecia coisas que ela não conhecia, indicava, e quando valia a pena, ela tomava notas mentais dos nomes de autores ou títulos mencionados por ele.

Pensou em como aquelas notas mentais era esforço nenhum perto dos estudos que estava acostumada a fazer. Ainda estaria acostumada? Sentiu um leve pânico na boca do estomago, o mesmo que sentia desde o fim da graduação. Ainda daria conta de estudar daquele jeito, naquele ritmo? Na época parecia fácil. Cada vez mais percebia que tinha sido um esforço considerável. Na época os problemas de família ainda estavam acontecendo, estava no olho do furacão. Não tinha nem chance de pensar se daria conta ou não, se era muito ou pouco, podia apenas seguir fazendo. Cumprindo com as obrigações como o avô ensinara e como tinha prometido a ele que faria pelo resto da vida na véspera de sua morte. Parece besteira, coisa de livro, mas lembrava daquilo sempre.

Tinha aprendido o significado das palavras procrastinar e perfunctório com o avô. Amava aquelas palavras. Odiava aquela ação e aquele adjetivo. Tinha aprendido com ele também a nunca procrastinar e a banir o perfunctório da vida. Tinha aprendido a ser eficiente, pragmática, competente, independentemente de como se sentisse. Era sua obrigação.

Olhou pra frente, gente, o menino continuava ali. Ou ela estava ficando mesmo boa em separar o que se passava internamente da realidade externa, ou ele era muito paciente e persistente. Quem sabe as duas, ou três coisas. Ele reavivou a conversa: “Mas me diz, você sabe imitar pessoas? Você faz leituras muito bem.” ,sim ela pensou, sei. E sei respirar, pelo nariz, pela boca e até a barriga. Consigo fazer vários tipos de dicção e aprendi a mover os lábios e os músculos do rosto para causar diferentes vozes e trejeitos de expressão, cuidadosamente treinados em anos de leitura em voz alta para a mãe. Uma radialista de dicção perfeita, obcecada pela forma como as pessoas falavam. A menina tinha aprendido a assistir filmes e imitar a forma como os lábio, queixo, maçãs do rosto se mexiam. Brincava de dizer a mesma frase no espelho, como se fossem várias. Tinha um trecho de uma música em que o cantor dizia “Lábios de mola”, ela ria, falando “lábios de mola” como se os lábios fossem molas. Achava aquilo fantástico na letra. Via como proposital. Amava letras de músicas. Gostava de brincar com a sonoridade das palavras, de degustá-las e testá-las.

Na infância fazia tanto isso que repetia tudo que dizia em voz alta, em voz baixa, para testar as palavras que tinha dito e o impacto delas. Se tornou um tique. A mãe criticou e reprimiu o tique por anos. Amigos e namorado também. Aprendeu a ser mais delicada, fingiu não ter mais o tique. Às vezes escapava. Era curioso como podia gostar tanto de palavras. Era uma leitora ávida e uma péssima escritora. Suas piores notas na vida escolar inteira eram em português. Sofreu horrores para escrever sua monografia de graduação. Escrevia errado, nunca decorava onde os pronomes deveriam ir. Esquecia regras, odiava regras. Lia gramaticas, fazia exercícios e continuava medíocre. Lia e ouvia todos dizendo que quem lê muito escreve bem. Balela! Odiava aquele ditado. Sempre tinha lido muito. Lia tanto que usava óculos de leitura desde dos vinte e um anos. Hipermetropia por vista cansada era o diagnóstico. Tinha provas médicas do quanto lia. Caixas de livros, mais livros do que cabia em sua estantes. Isso sem falar dos que lia emprestados, das bibliotecas, dos livros eletrônicos no Kindle que não ocupavam espaço, dos downloads, legais e ilegais. Blogs, revistas, panfletos. Lia a pasta de dente enquanto escovava os dentes e a caixa de cereal durante o café da manhã. Lia todos os manuais, as letras pequenas dos contratos, as abas dos livros e os prefácios. E não escrevia. Não conseguia nem manter um diário íntimo. Cresceu sendo cruelmente corrigida em voz alta e em público pela mãe e pela vó. Adorava se expressar, era cheia de ideias, mas tinha preguiça e medo de ser julgada por elas. Pelas ideias, pela mãe, pela vó.

“Eu disse que era talentosa! Você acabou de interpretar essa última poesia que disse!”, era o rapaz. Ele ainda estava lá, e aparentemente seu cérebro estava pregando peças. Poesia! Estava ela a recitar poesia sem perceber? Olho o copo na mão. Já não havia suor no copo. Temperatura ambiente por completo e só tinha bebido a metade. Desistiu, esvaziou o conteúdo na grama, dando um passo pra trás para não espirar cerveja quente nas botas e foi jogar o copo fora. Aproveitou para desanuviar a cabeça de todos aqueles pensamentos no ar frio da noite. Por que não tinham inventado uma penseira do Dumbledor ainda? Sabe, do Harry Potter, aquela bacia de pedra onde o velho diretor da escola tira seus pensamentos como fios de prata da cabeça e os joga na bacia para observá-los mais claramente. Suspirou! Sonho de consumo inatingível.

Se sentiu envergonhada por não estar dando a atenção devida ao rapaz e à conversa. Seu cérebro andava muito inquieto. Voltou para o ponto onde estavam em pé, na diagonal do palco, conseguiam ver o show, mas era calmo o suficiente para conversar. Sim, tinha um show acontecendo. Era parte do festival. A garota estava muito empolgada nos últimos dias por causa do festival. Acontecia todo ano e ela sempre reservava as noite para aquelas duas semanas de imersão em arte, muito teatro, muita música. Já era tarde, cerca de uma da manhã, geralmente estaria dormindo uma hora dessas, ou lendo na cama, e estava lá, de pé, interagindo com o mundo. Só o festival para deixa-la assim. Os amigos não tinham ido. Sempre diziam que iam, a cada ano elogiavam o festival como o melhor evento do ano, e nunca iam. Suspirou.

Olhou pro rapaz, e se mostrou disposta a conversar. De verdade, pela primeira vez naquela noite. Parece que ele viu a disposição por trás dos seus olhos. Disparou: “Você consegue chorar?”, ela olhou pro céu, mirou a lua, a abaixou o rosto. Os olhos instantaneamente vermelhos, mareados. Ele recuou, não sabia se era a resposta a seu desafio ou algo mais. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Ela viu remorso passando por seus olhos, mas era tarde demais. Ela chorava. O choro seco, sem lágrimas, das pessoas que conhecem o sofrimento. As lágrimas desciam lentamente por dentro de sua garganta, a faziam engasgar, perder a fala, inchavam suas maçãs do rosto querendo sair, o rosto esquentava e ficava vermelho. Ela abriu a boca pra falar e teve que engolir as lágrimas, sentir seu salgado e seu amargor.

Sorriu, um sorriso cheio de ironia e desafiou: “Você sabe sorrir?”. Ele ficou sem graça, abaixou os olhos. De súbito levantou-os de novo, e ela viu a resolução nos olhos dele, havia decidido encarar aquilo como uma interpretação. Não ia se sentir envergonhado nem sem graça. Insistiu. “Mas você nem está chorando lágrimas de verdade. E fácil chorar assim?”. Ela se dividia entre o cansaço, a preguiça, a ironia, e a indignação. “É fácil chorar assim? Sim, chorar é fácil! Não sei por que ainda testam atores, pessoas, por sua capacidade de chorar. Difícil é não chorar!”. Ele enviesou o olhar, percebeu que havia muita emoção ali, e que ela ao mesmo tempo aceitava o desafio. Já que ia chorar, ia mostrar tudo que sabia, fosse atuação ou sentimento. Sustentou o olhar. Ela continuou com a voz embargada, trêmula, o semblante pesado, e o rosto quente. Quente e seco. As lágrimas eram internas. “Difícil é não chorar toda segunda-feira, quando estaciono o carro na escola onde trabalho, colada no local onde minha mãe trabalhou por mais de vinte anos, difícil e ligar o rádio e não chorar. Difícil e ser coordenadora do evento do dia das mãe na escola, fazendo hora extra pra ajudar os pequenos a fazer artesanato e cartões pras mãe e não chorar. Difícil é olhar os números na placa do meu carro toda vez que entro e saio dele e não lembrar que eles correspondem ao dia e mês da morte dela.”. A voz continuava embargada e havia um tom de raiva e um de desespero. Ele continuou sustentando o olhar.

“Difícil é olhar os livros e discos nas minhas estantes e não chorar. Difícil é usar as interjeições de palavrões do meu avô no transito e não chorar. E repetir uma receita da minha avó, ou fazer um bordado, pregar um botão, e não chorar. Difícil é ver um desses espetáculos ou ler um livro novo e não poder contar pra ela”. Os olhos estavam tão marejados que ele se perguntou quando a primeira lágrima cairia, mas o rosto continuava seco e quente. “Difícil é sorrir, ser amável, doce!”, ela continuava cheia de ironia. “Difícil é parecer feliz. É convencer às outras pessoas e à si mesma de que está tudo bem, de que a vida é bela”. Ele sentiu o peso das palavras e começou a vacilar o olhar.

“Difícil é não saber se você algum dia vai sorrir de verdade, vai gargalhar sem sentir que a alegria é como um álcool sobre a ferida, ajuda a cicatrizar, mas torna insuportavelmente consciente o tamanho do rasgo.” Ela passou as unhas nos braços, mostrando o arrepio equivalente à angústia do remédio na ferida. Ele olhava as próprias mãos e não sabia mais o que fazer. Teve certeza de que não sabia onde tinha se metido, e ela viu o arrependimento sincero em seus olhos. Vacilou. Sentiu a ironia escorrer pelos pés. Sentiu um cansaço maior que seus anos, teve preguiça e se lembrou por que não queria conversar com ninguém, por que estava se dedicando à procrastinação e a variedades de coisas perfunctórias.

Ele viu que ela desarmou, e arrematou como só um tenista no match point: “Mas você ainda não respondeu minha pergunta! Você consegue chorar?”. Ela suspirou: “Não! Não consigo!”, levantou, virou as costas e enxugou a primeira lágrima que escorria pela bochecha quente e esfriava rápido no vento frio da noite enquanto ia embora. E se lembrou que lágrimas não podem ser enxugadas ou não param de derramar. Ergueu a cabeça e deixou o vento fazer seu trabalho mais uma vez, enquanto emergia o tique de infância, repetindo em voz baixa e sentindo o salgado e o amargo na língua: “Não, não sei chorar!”.

O fundo do poço

A menina está plenamente fora do poço. Será? Talvecropped-bird-tattoo-original.jpgz. Ou talvez ela tenha aprendido que a realidade sempre tem um fundinho de poço. E isto é, então, a realidade? Existe uma só? Digamos que a menina achou a realidade dela. Que tem um pouco de País das Maravilhas, um quê de Oz, um fundinho de poço e um pedacinho de mar no céu.

É preciso explicar melhor as origens da menina. Vocês já conhecem fragmentos, reminiscências, resquícios da história dela, mas existe mais a ser dito. Sempre há mais a ser dito. E por isso mesmo às vezes é preciso que as palavras silenciem. Esse é um momento delas aflorarem. Alguns silêncios viram palavras, e algumas meninas viram Sofias. Algumas Sofias saem das páginas e algumas meninas viram palavras. E essa é a história de como a menina virou palavra. De como ela descobriu que era, também, Sofia.

A menina foi criada da exata forma, que reis em exílio ou desprestígio são criados. Ela só percebeu isso por meio da literatura na adolescência. Mas eu diria que a menina foi mais do que criada, ela foi treinada. E cada familiar participava da educação à sua maneira, com destaque especial para seu avô. Desde de aprender a memorizar dados básicos na primeira infância, passando por sobrevivência básica, e um pouco mais do que básica, por volta dos quinze anos a menina sabia cozinhar, cuidar de uma casa enorme sozinha, se necessário, lavar, passar, arrumar, botar uma bela mesa, receber, e passar café.

Ela também já sabia dançar valsa, embora se ouvisse samba e jazz cotidianamente naquele castelo. Ela sabia costurar, e bordar. Ela sabia nadar, e pescar. Ela subia em árvores como quem cresceu no mato, furava parede e pregava os próprios quadros. Já entendia o básico de mecânica, eletricidade, e dinâmica dos fluidos. Embora ela só fosse aprender os nomes oficiais nas aulas de química e física nos anos subsequentes da escola. PH ela aprendeu ao cuidar da piscina da casa, e junto com os cálculos de PH vieram os de volume.

Ela lia todos os dias, cuidava dos cachorros, cuidava do jantar e dos machucados do avô. Aprendeu a dar injeção intramuscular, e a recitar poesia. Aprendeu a plantar rosas, e a fazer enxertos de mudas, a conservar sementes e a salvar passarinhos de asa quebrada. A menina aprendeu a desenhar e a pintar, e até ganhou um muro só seu, onde podia pintar figuras três a cinco vezes maiores que ela mesma.

Aos quinze fez uma festa a fantasia, e pode passear por seu castelo em roupas apropriadas, saia longa e corpete de veludo, embora aos olhos da realidade fosse apenas uma brincadeira de criança. Ela e o avô construíram uma estrutura própria para o evento, com cobertura de lona, para pista de dança e sacos pardos de areia com velas dentro iluminando os caminhos pelos jardins, rodeando a piscina e levando a sua tenda. Todos participaram.

E, como em todo bom conto de fadas, a menina estava a poucos meses de completar seus dezoito verões de vida, quando no mesmo momento descobriram que ambos, seu avô e seu pai estavam acometidos de câncer. E ela, que estudava como missão de vida, se viu dividindo seu tempo de estudo e preparação com horas sentada ao lado de um leito de hospital. E sem abandonar nunca seu treinamento a menina recebeu seus dezoito anos, um carro simples, a senha de um cartão, e passou a cuidar de seu castelo, que foi desfeito, desmantelado, e ela passou por um período de cinco mudanças em cerca de oito anos. Mas esses são detalhes de outros contos.

Na véspera de seus dezoito verões completos, ela já visualizava o dragão que começava a esquentar sua vida e derreter seus tesouros. Ela só não sabia ainda que riria de boca cheia do ditado matar um leão por dia, porque ela estava só começando um período em que aprendeu a matar um dragão por dia. E foi nessa véspera que ela conheceu o cavaleiro. E como ela viria a precisar desse cavaleiro. Afinal, quando se enfrenta um dragão por dia, que companhia melhor do que a de um cavaleiro treinado e apaixonado.

Mas a história de hoje ainda não é a do cavaleiro. A história de hoje é a de como a menina viveu Alice e tornou-se Sofia sem ver. E para isso precisamos pular cerca de oito anos e meio a nove no tempo, para quando ela abriu os olhos. E se descobriu no fundo do poço. Um dia, a menina abriu os olhos e não viu nada. Absolutamente nada. Ela, que sempre viu luz, que sempre foi a própria luz, iluminando seu castelo, e cumprindo seu papel de neta-vela, que traz luz a velhice dos avós queridos. Ela, que trouxe luz à mãe, quando a mãe lhe deu a luz. Ela estava apagada.

Não havia dragão. O último dos dragões daquele período de batalhas estava morto. Estavam mortos também seus avós, seu pai e sua mãe. Como eu disse, foram longos anos, e muitos dragões, muitos castelos, casas, cabanas, destruídas. E o cavaleiro, vocês me perguntam. Um dia ele se foi também. Como a menina já sabia que um dia ele iria. Mas esses detalhes são do outro conto, lembra?! Ela estava sozinha. Não sozinha na realidade. Afinal ainda havia seus tios reais e reais, reis que viviam a realidade. E, por eles e graças a eles, ela viveu a realidade, embora não houvesse nada de real naqueles dias.

E até hoje ela não sabe dizer por quantos dias dormiu. Como se tivesse mordido uma maçã envenenada, ela acordou sem beijo de amor. E tateou no escuro. Seus pingos de luz secos. E descobriu que estava no fundo de um poço. Um poço seco. Mas como a realidade era real, ela acordou todos os dias, lavou o rosto todos os dias, comeu quase todos os dias, e trabalhou todos os dias. E sempre que ela ficava sozinha tateava seu poço. E dia após dia, mês após mês ela se familiarizou com aquele poço. E começou a chama-lo de casa.

E vagando no escuro, ela redescobriu um dia a música. E só então percebeu que além de cega no escuro, estava surda até então. A música era sua mãe. E as duas tinha ido embora, juntas. Cerca de um ano depois, um pouco menos, a música voltou. E seu beijo de amor verdadeiro foi dado em cada nota, carregada pelos passarinhos, vindas de outro mundo, dos lábios de sua mãe, até o fundo do poço. E a música era doce, doce como a voz da antiga rainha-princesa. E a música não era só doce, era um doce, que a menina comeu e cresceu, dentro do poço. E dele se nutriu para encontrar forças para tentar escalar o poço de volta. Só que o poço era muito fundo e muito escuro, e suas paredes eram cortantes. Ela caia de novo a cada tentativa.

E aos pouquinhos, ela foi se lembrando de todo o seu treinamento, e um dia ela voltou a chorar. E sua lágrima não era só lágrima, mas era também um pingo de luz. E bebendo de seus próprios pingos de luz a menina diminuiu. Ficou pequena, e descobriu que sua porta não estava no topo do poço, porque ela descobriu que aquele não era um poço, era a toca de um coelho. E no fundinho da toca tinha uma porta. E seus tios reais viram seus pingos de luz brotando, e, como em todos os contos de fadas, quando ela abriu os olhos, passando por aquela porta, viu o Big Ben, e foi até Londres.

E a menina, que se vocês repararam, já era Alice naquele momento, andou, a pegou aviões, e trens, barcos e bicicletas, e percorreu um caminho antigo. Tão antigo quanto seus pingos de luz. E juntando pingo com pingo a luz voltou, e ela visitou seus antigos castelos, castelos de verdade, que eram muito menos reais que seu castelo de infância, e atravessou o lago do monstro, embora ela soubesse que monstro eram outros. Aquele era redenção. E ela seguiu os pingos de luz, que a cada novo pingo, viravam pingos dourados, e voltou. E de algum modo ela se descobriu no coração do País das Maravilhas, que é para onde a toca do coelho leva.

E alguns meses depois ela entendeu, que aquele enorme cogumelo, disfarçado de museu, no coração do país das maravilhas, ou do país que só precisa de mais alguns pingos de luz, para se descobrir maravilhoso, encolhia e aumentava as pessoas. Que apareciam gingantes em sua encosta, ao som da música do mundo. E Alice, já totalmente Alice, seguia Absolem, e transitava pelo País das Maravilhas como uma nativa. Seus pingos de luz a haviam guiado e ela já não sentia o fundinho de poço. A menina estava num local e num tempo tão mágico, entre aqueles que são Sofia o tempo todo, e vivem de transformar as palavras em realidade. E foi assim, ao lado do cogumelo-museu, no ano de dois mil e treze, no coração do País das Maravilhas, antes da chuva, e num cine monstruoso, que Alice se viu fora da toca.

Entenda, ela estava no coração do País das Maravilhas, um lugar onde cogumelos são museus, mãos em oração são templos, e o mar é o céu. E foi assim que as palavras de Alice fizeram sentido, afinal, naquele lugar só seu, nada é o que parece, e tudo é o que não deveria ser. E só quem consegue inverter toda a lógica, entende que aquele é um lugar mágico, e transita por ele como quem o habita de fato. E foi só quando ela inverteu toda a lógica que ela entendeu que vinha caminhando de cabeça para baixo toca à fora. Ou seria aquele mundo que seria ao contrário, ou contrário a suas ideias passadas? E a menina, então Alice, inverteu sua lógica própria, e aceitou que a música que chega ao seus ouvidos é um doce que a faz crescer e que seus pingos são de luz, e a diminuem. E todas as suas metas e prioridades foram invertidas. Todo seu treinamento foi questionado, e só então, fez sentido.

Ela precisaria de muitos outros meses para descobrir que Sofia nasceu ali. Seus pinguinhos dourados faziam o caminho contrário dos mágicos, e transformavam a realidade em palavras. Foi naquele período que a menina se tornou Sofia, Alice, e foi assim, no doce de música e na luz dos pingos de ouro que ela descobriu que o fundo do poço era só a porta de entrada pro País das Maravilhas. E a cada dia que passa Sofia se solidifica em palavras, enquanto Alice coleciona pingos de luz dourada, que caem de seu próprio rosto, a cada palavra que Sofia imprime, tornando a fantasia real, e a realidade fantástica.