Phoebe

Eu sempre odiei esportes! Que frase forte, né?! Tão categórica. Tá, na verdade eu não odiava, tive um breve período de ódio, mas logo virou uma certa indiferença e mais tarde uma fuga deliberada. Mas deixa eu contar a história direito, porque estou pondo os carros na frente dos bois (será que essa minha “expressão de vó” ainda faz sentido?).

Quando eu era pequena, bem pequena, desde que consigo andar sozinha, eu ando. Eu odiava ficar em carrinhos de bebê, e tenho até uma história (previamente comentada aqui nos posts do blog) sobre quando luxei o calcanhar com dois anos recém completos e destruí o gesso em uma semana. O médico não quis por salto porque eu era muito pequena e cairia sem saber andar com o gesso e que deviam me deixar no carrinho de bebê, e eu fugia o tempo todo, obviamente, só andava e o plano do médico foi por água abaixo, enfim, esse meu pé esquerdo nunca foi meu melhor, talvez por isso.

Minha mãe tinha o hábito de fazer longas caminhadas e desde essa época eu andava com ela. Às vezes de bicicleta, outras a pé, às vezes levando o cachorro, às vezes sozinhas. Quando fiquei mais velha, às vezes voltava da escola a pé, e muitas, mas muitas vezes mesmo, economizei o dinheiro do ônibus e gastei minhas pernas mesmo. Inclusive eu sempre tinha um dinheirinho sobrando para fazer minhas vontades e minha mãe se perguntava de onde eu tirava “tanto” dinheiro, e um dos motivos era esse, vários ônibus economizados, e alguns almoços também. Eu fui dessas adolescentes que pulava café da manhã e às vezes até o almoço (infelizmente depois me enchia de besteiras à tarde).

Mas o que isso tem com os esportes, bem, vamos falar da definição de esportes daqui a pouco. Enquanto isso eu devia mencionar que sou a pessoa mais descoordenada que eu mesma conheço. Nem bater palmas no ritmo eu consigo. Não, isso não é charme. Não é para falar, “ah, que isso”! É apenas verdade. E hoje em dia eu fiz as pazes com essa ideia. Embora seres inanimados como a cadeira e o guarda-chuva insistam em me atacar, volta e meia, e eu acabe a semana cheia de hematomas que nem eu mesma sei de onde vieram. Essa semana mesmo o guarda-chuva me atacou e me tirou uma pelinha do dedo, só porque abri ele na chuva.

Essa falta de coordenação tão evidente sempre me fez ir relativamente mal em esportes, especialmente os em time. A pressão só me faz ficar ainda mais descoordenada. Meus melhores momentos são aqueles quando não tem ninguém olhando, e justamente por isso fica difícil argumentar que eu até consigo ser um pouco mais coordenada do que parece. Correr para mim sempre foi o pior. Sinônimo de tortura, de vexame, de humilhação. Eu fico vermelha, sem ar, perco o folego, às pernas vacilam, os joelhos falham, eu caio, tropeço no meu próprio pé, esbarro um joelho na panturrilha da perna oposta e me derrubo, é uma cena circense do tipo trágica. Ou melhor, é a Phoebe correndo no parque!

E isso, com toda certeza, não em fez a pessoa mais competente em esportes. E eu sempre soube disso. Eu preferia não estar no time do que ver o time sofrer as consequências pela minha presença. Além disso eu sempre odiei competição. Eu não gosto de necessariamente ganhar, embora o reconhecimento seja geralmente prazeroso (até certo ponto, também não gosto de chamar muita atenção por esse motivo). Por outro lado, eu amo jogos! Jogos de tabuleiro, brincadeiras de criança, eu me divirto muito com essa interação prazerosa e relaxada da atmosfera dos jogos, onde o mais importante e brincar. É muito frequente, quando eu jogo algo em que um, ou um time, ganhe, que, se meu adversário for muito competitivo, eu deixe ele ganhar. Só para acabar mais rápido, ou só para o outro ficar feliz, afinal de contas para mim ganhar nunca foi tão importante. Outro motivo é que eu adoro testar estratégias novas, explorar dimensões novas do jogo, mesmo que algumas pareçam suicidas a princípio, e muitas vezes eu acabe perdendo com elas mesmo, mas gosto de testar, de descobrir o porquê delas não darem certo, eu gosto de aprender, de conhecer e de entender, muito mais do que de ganhar.

Então eu me voltei para esportes solitários, e por toda minha vida escolar fiz natação. Eu amo nadar. Nunca perco uma oportunidade de me jogar na água, especialmente quando estou viajando e posso nadar em lugares novos. Já nadei do Lago Paranoá em Brasília, até o Sylvan Lake, em South Dakota. Já nadei no rio São Francisco, na nascente, em Capitólio- São Roque de Minas e nele já largo, em Petrolina, depois da represa de Paulo Afonso. Já nadei em muito mar, da praia do Porto da Barra em Salvador, à Barceloneta, em Barcelona. Só não me joguei no Loch Ness porque era janeiro e aí realmente seria uma estratégia suicida, e na vida não dá para testar os limites da mesma maneira que no jogo.

Outra paixão são as longas caminhadas! Eu amo sair por aí, com ou sem rumo, amo fazer as coisas a pé, me sinto tão independente do mundo, é tão bom, tão libertador, simplesmente sair de casa e andar e pronto, sem pensar em trânsito, nem vaga, nem garagem, nem preço. Muitas vezes saio sem carteira, às vezes nem levo o celular. Vou com a roupa do corpo, um headphone no ouvido. Me basto! Essa sensação vale tanto. Gosto tanto dela. Amo também andar em meio a natureza, em parques, serras, montanhas, trilhas, cachoeiras. O ideal é combinar a caminhada com a natação e ter a oportunidade de nadar em algum ponto da caminhada mais longa!

Mais recentemente na vida, eu descobri as técnicas corporais que compõe a parte prática da filosofia do Yôga. E amo praticá-las! Sinto falta de não fazer todos os dias. Me sinto leve, livre e dona do meu corpo. Me lembro um pouco da época que fiz circo, duas vezes uma na infância, quando aprendi a andar de perna de pau, e a fazer mil tipos de cambalhotas. A proximidade com o chão era maior. E outra na adolescência, quando de novo fiz circo, mais dessa vez a proximidade era com o ar, entre malabares, e a lira voando no alto, e o fogo cuspido distante. Hoje, praticando essas técnicas do Yôga, vario entre a proximidade com o chão e com o ar, de uma forma tão desafiadora e gostosa.

Depois de tudo isso eu descobri, eu não odeio esportes. Eu odeio competição, comparação e necessidade de me enquadrar em moldes pré-estabelecidos. Não acho que eles sejam errados, pelo contrário, os esportes precisam de regras, e o circo tem muito mais regras do que vocês imaginam, e o Yôga também. Na verdade, essas coisas ficam muito mais perigosas sem regras, e é preciso saber fazê-las, aprender a fazê-las primeiro e com calma. Mas eu não acabo com a moral do meu time se eu for descoordenada. No máximo me engasgo numa cambalhota na piscina, ou caio de uma posição. Ninguém se machuca, geralmente nem eu. Não assim. E o mais importante, eu me supero. Eu descubro novos limites e cada vez que isso acontece, eu “ganho”! Sem precisar me comparar com o outro, sem precisar ser melhor, sem ninguém precisar perder. Todos que fazem ganham. Seja ganhar um corpo mais saudável, novos amigos e colegas, ou uma vista bonita numa caminhada, o encontro com animais, o sentimento de frescor ao se jogar na água. São tantas as delícias!

E aprendi a ter um enorme prazer nas coisas que eu faço. Amo andar, amo nadar, amo praticar. Tudo assim, do meu jeito, do jeito Phoebe. Um pouco fora dos moldes. Às vezes as pessoas até ficam um pouco desconfortáveis, eu sei. Eu falo coisas sem noção às vezes, interrompo com minhas reminiscências fora de hora, falo demais numa hora e de menos em outras. Me atropelo e me perco no raciocínio, “pago altos micos” por aí. Mas juro, sou feliz! E aprendi a amar, em vez de odiar. Então sigo assim, no meu jeito Phoebe de ser. Sei que sou estranha, e isso sempre me gerou poucos amigos de verdade, embora as pessoas em geral me achem uma companhia agradável. Os meus amigos, e o namorado, sabem que eu não sou uma estranha qualquer, sou a estranha deles, e todo mundo se diverte (e às vezes se exaspera) com minha descoordenação feliz e animada. E aí? Vamos dar uma corridinha no parque? Sem medo de ser feliz, ok?!

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