Cinza

Tirei os fones do ouvido, enrolei-os meticulosamente, como todas as outras vezes, enlaçando a volta final, para que não embolem, mesmo sabendo que todas as vezes quando os pego de novo, estão embaraçados, como todos os fios de fones do mundo. Fechei o caderno depois de anotar o conteúdo dado no dia. Tomei o último gole do chá, já meio frio, na caneca. Fechei o estojo. Empilhei tudo para guardar, a caneca na mão, e depois de deixar os livros, cadernos e estojo no quarto, de guardar o fone na gaveta, coloquei a caneca na pia. Voltei para o computador, único item que foi deixado sobre a mesa, e olhei pela janela. Cinza. O dia está nublado. Talvez chova mais tarde.

Levantei e busquei os fones na gaveta de volta. Hoje preciso de música para trabalhar. Hoje preciso de cor interna para lidar com o cinza do mundo. Não é o dia nublado que me incomoda, pelo contrário, amo dias chuvosos. Sou daquelas que gosta da chuva, das xícaras de chá, dos livros e das cobertas. Amo o frio. E todo esse cenário que me leva a introspecção. Mas hoje o cinza com o qual luto não é o do céu. É o da alma.

Plim. Mensagem. Uma grande amiga. Pequenos pontos de cor e luz no meu dia. Um carinho que ganho enquanto ele passa do quarto para cozinha e me afaga, sem querer atrapalhar o trabalho. Mais um ponto de cor e luz. Entretanto o cinza persiste. Antes de tirar os fones a primeira vez, estava em aula. Conversava com um amiga e aluna. Existe um cansaço pairando no ar. Cinza. Me sinto cansada. Mentira. A energia está aqui. O que falta é motivação. Cinza. Fazer por que? Fazer pra que? Fazer com que objetivo? Tudo está cinza.

Pena que o chá já acabou. Podia tomar mais uma caneca agora. A Tiê no fone me traz um pouco de cor. E as palavras derramam dos dedos em busca de luz. E o cinza continua em frente aos olhos. Fazia tempo que não sentia essa desmotivação toda. E aí, mesmo sem chá, começam as reflexões. Que tanto de cinza é esse na alma? Já sofri saudades profundas. Elas nunca me abandonam de todo, mas estão bem no momento. E ainda assim eu queria colo. Colo, cafuné, de mãe. Daqueles que espantam o cinza da alma.

Quanto mais velha fico, mais percebo o valor da motivação. O brilho dos objetivos claros. E nesse momento sofro duplamente com essa crise metodológica, no trabalho e na vida. Na alma. Qual é o objetivo que vai me tirar de todo esse cinza? Vim para fazer o mestrado e amo muito tudo o que ele me proporciona, especialmente as pessoas e as discussões. Mas será que vou ser uma professora universitária? Será que esse é o objetivo real? Será que terei um emprego no qual me sinta feliz? Que espante o cinza?

Trabalho voluntário, representação discente, estágio. Trabalhar com refugiados, pessoas que precisam muito. Ouvir algum agradecimento. Um elogio de algum professor. De um amigo. De um aluno. Uma boa companhia. Um momento de luz. Pontos de cor. E ainda assim o cinza está lá. Já tive momentos muito piores e consegui ver as cores com mais clareza que agora. Em parte, acho que esse cinza está aí justamente porque nesse momento não tenho prazos curtos, metas imediatas, motivações cotidianas, tudo é de médio a longo prazo, e nesse intervalo o cinza se espalha, na dúvida, na incerteza.

Outro ponto é o cinza que está no mundo. Quanta incerteza estamos vivendo. Quanto impacto sobre sonhos ideológicos. A política não está favorecendo, como disse Clarice no último álbum. Cercados de ódio, vendo crescer posições intolerantes. Cinza. Cinza na alma. Notícias de violências absurdas perpetuadas diariamente. E muitos concordando. De outro lado o circo, quanta informação inútil e incerta circulando. Quanta briga por coisa pouca, quanta falta de posicionamento em coisas grandes.

E não digo em relação a política interna só. Mulheres estão sendo estupradas como moeda de pagamento por serviços de “segurança” de soldados em zonas de conflito. Crianças estão tendo que pagar sua água com sexo oral. Não, isso não é sexo, é violência. E ela está aí. Uma parte de mim pensa: mas sempre esteve e antes só não sabíamos, não era denunciado, então agora estamos na verdade melhorando, pois pelo menos a denúncia está acontecendo. E aí penso, sim, mas se a informação está chegando, o que estamos fazendo de concreto?

Cinza. Sempre tive problemas em ficar só no conceitual. Minha alma queima e quero sair por aí, fazendo justiça com as próprias mãos. Até me lembrar que serei uma das primeiras a morrer se assim fizer. Aí tudo fica cinza de novo. E tenho vontade de ir para o meio do mato. Plantar minhas batatas e por lá ficar. Bem longe de tudo e todos. E deixar que se virem. E então vem o cinza, o cinza de estar sendo egoísta e não fazer nada para mudar a estrutura. E aí vem o cinza que surge do desespero de tentar fazer algo e não conseguir. Frustração.

O cinza tem muitos matizes: a indiferença, o ódio, a frustração, o egoísmo, o medo, e principalmente, a incerteza. O dia está cinza, mas minha alma está cinza pois não sei o que fazer. Hoje não sei qual dos caminhos poderia colori-la mais. Às vezes opto por me doar, e ajudo todos que consigo. Às vezes fico egoísta, e invisto em mim mesma, quem sabe não mudamos pelo exemplo? Às vezes fico otimista, e acho que nos reinventaremos no fim do arco-íris, com todas as cores. Às vezes acho que sei o que estou fazendo.

E em outros dias, só quero as cobertas, o chá e que o tempo passe para transformar minhas incertezas em fatos e acontecimentos, para diminuir a angustia de viver. E quando acho que nada mais tem solução no mundo, que estamos condenados e que nada que eu faça pode mudar nada, aí, bem aí, eu coloco os fones e ouço música. A chaleira ferve e eu faço um chá. A máquina para e eu penduro a roupa com cheiro de lavada. O alarme soa, e eu arrumo a mochila e cumpro com as missões do dia. E a vida volta. Entre obrigações, alegrias, pequenos sucessos. E assim vamos, até a próxima onda cinza. Até que a dúvida volte.

Certeza eu não tenho de nada. Só de que não adianta se entregar ao cinza. Tá difícil sim, pra alguns mais do que pra outros. As angustias e frustrações são muitas. Mas as alegrias e conquistas também. Enquanto isso vou cumprindo com as obrigações e alimentando os sonhos. Mudando o ângulo, ficando de ponta cabeça toda noite para ver a vida de outro lado, e achar soluções na minha imensidão azul, que afasta o cinza e as incertezas temporariamente. Entre tantas dúvidas, sei que resta viver. Tiro o fone mais uma vez, olho pela janela e há um sutil amarelado do sol acima das nuvens. Ele tá lá. Sempre. O dia continua cinza, mas sei onde procurar luz.E sei que tenho que aprender a conviver com o cinza.

2 thoughts on “Cinza

  1. Boa tarde, Juliana (ou Juju, como te conheci na sua infância)! Ontem li alguns dos seus textos e fiquei muito envolvida, não só pela forma como você escreve (que combina comigo), mas pelo que você compartilha na escrita (que também combina comigo). Te agradeço. Abriu portas aqui dentro de lembrar dessa família da Vó Santinha, que já foi bem graaande e vai ficando cada vez mais pequenininha.
    E portas de olhar aqui dentro, o parar e conhecer o seu olhar, também abriram.
    Depois de ler o “Cinza”, me deu vontade de compartilhar com você esse vídeo aqui:

    Um abraço fraterno,
    Tereza (sua prima beeem distante). 🙂

    • Oi, Tereza! Seja bem-vinda, ao blog e às minhas memórias! É um prazer enorme receber um recado desses saber que essas emoções foram trocadas! Um beijo no coração!

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