Bananas no centro de mesa e flores na parede

Os últimos meses têm sido impossíveis de tempo. Nem ler as mil mensagens do WhatsApp, nem fazer as unhas, nem mesmo escrever e me compartilhar em palavrinhas de alma, apenas aquela bolinha vermelha acusadora com um número de mais de três dígitos me encarando na tela do celular. Às vezes consigo aguar minha flor de maio. E pelo menos uma vez por mês meu momento preferido acontece: o sábado de manhã sozinha em casa! O café da manhã tomado de pijama, tarde, já para lá do meio da manhã, com música tocando. E eu posso olhar minha própria sala, e reparar no prato azul com o cacho de bananas amadurecendo em cima, tomar um gole de chá, e observar as flores de metal retorcido de Ouro Preto, enfeitando diagonalmente minha parede. A assinatura perfeita do meu conto de fadas. A flor que enfeita a primeira letra do meu Era Uma Vez.

Mesmo sabendo que ter levantado tarde me custou uma manhã sem estudar e que isso se tornará uma noite longa de estudos para compensar. Mesmo incluindo na minha manhã de paz a arrumação da baguncinha de ontem, da louça do jantar das visitas, mesmo sabendo que almoçarei tarde por tomar café tarde, vale a pena. É minha manhã de alma. Eu estou amando muito dividir casa. É muito gostoso chegar do trabalho cansada e poder conversar sobre as bobagens do dia, a melhor parte é não comer sozinha. Alguém que te espera para jantar, e muitas vezes quando você chega a comida já está pronta e quentinha. Compartilhar um ombro vendo um filme antes de dormir, ou um jogo de tabuleiro depois do jantar quando sobra uma horinha a mais, ou, mais verdadeiramente, quando ignoro os compromissos de estudo e me dou, nos dou, essa horinha de jogo ou filme, simplesmente porque não vale a pena perder essa convivência e minha cabeça pede pausa.

Mas mesmo com minhas meditações, e com as pequenas pausas do dia-a-dia, eu sou daquelas pessoas estranhas que precisa de um período que seja sozinha. Arrumar meus próprios pensamentos, ouvir minha música sem ninguém falar nada durante o processo, simplesmente olhar pela janela, ou deitar no sofá e pensar. E, quem sabe num dia de sorte, depois dessa introspecção ainda ter tempo de pegar o computador e cuspir toda essa reflexão em palavras, pedações de alma postos para fora.

Acho que hoje mesmo não vou conseguir escrever tudo o que gostaria. Já estou relativamente atrasada. Já troquei os estudos e sei que a noite será longa. Já passei a manhã de pijama, e por mais acolhedoras que as bananas e as flores na parede sejam, meus minutos de paz estão contados e a vida urge lá fora. Ruge, e pede pressa, enquanto eu só peço calma. Viver em outra cidade, e trabalhar e fazer um mestrado ao mesmo tempo, além de ter levado um relacionamento sério para outro nível de convivência, morando junto, tem castigado minha vida social. Me sinto sempre em dívida, com todos, comigo mesma. Não consigo estudar nem de longe tudo o que precisava, e vamos e convenhamos, essa é a prioridade número um, também não consigo dedicar-me quase nada ao trabalho, e na prática ele é o que mais consome meu tempo. Apesar das pausas forçadas, consigo dar menos de um quinto da atenção mínima ideal ao relacionamento. A casa nem se fala. Mercado e limpeza acontecem quando possível, às vezes de quinze em quinze dias. Às vezes nem falo…

Os amigos me consideram desaparecida. Ainda assim os dias que separo para vê-los me custam noites insones de estudos depois. E nesse malabarismo circense de tempo, me aparecem aqui e ali uma manhã de sábado abençoada. E quando respiro fundo, sentada na mesa da sala, dou o último gole do chá, sinto o cheiro adstringente das bananas ainda meio verdes, e olho as flores na parede, lembro que estou vivendo meu conto de fadas. Porque os contos de fadas reais são assim, maravilhosos, incríveis, cheios de oportunidades perfeitas, e exigem das suas personagens muito esforço, e não dão trégua nem tempo. Nos contos de fadas reais, não existe felizes para sempre, mas podem existir bananas no centro da mesa, um bolinho de mandioca com coco, feito ontem, esperando o lanche da tarde com chá, a louça do jantar com amigos lavada pingando na cozinha, uma música gostosa tocando, e flores na parede. E uma manhã gostosa de sábado entre o sem tempo de hoje e a pressa do amanhã.

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