Já mordi e já fui mordida

Os fones no ouvido me desconectavam da realidade, talvez por isso, ao levantar a cabeça e ver que algumas pessoas em olhavam no metro tenha percebido que o barulho de surpresa que minha garganta produziu involuntariamente fosse um pouco mais alto do que apenas um suspiro amigável. Retirando apenas o fone direito pude ouvir a voz metálica anunciando a parada na estação República. Só desceria na próxima, e o livro já tinha acabado. Fiquei com ele ali aberto nas mãos, saboreando aquele final de leitura, reli a contracapa e as abas. Não gosto de ler as contracapas e as abas antes de ler o livro. Acho que denunciam muito. Mesmo quando não contém spoilers diretos, prefiro não saber nem a sinopse. Ler e tirar minhas próprias conclusões, não me deixa influenciar pelas opiniões e comentários reproduzidos de forma muitas vezes mecânica nas abas e contracapas. É algo muito parecido com o que sinto quando vou a museus, exposições, quando vejo peças de teatro, assisto filmes ou leio livros. Não quero ler nada. Não quero saber a opinião alheia, não quero informações prévias. Vou, vejo, sinto. E coleto todas as informações possíveis. Depois de remoer meus próprios sentimentos e emoções, aí sim, leio e me informo sobre tudo aquilo. Só assim consigo ter certeza do que senti por conta própria, do que é senso comum, e quais minhas críticas. Tudo isso, de preferência, com os fones nos ouvidos, afinal, o que seria de mim sem trilha sonora.

A capa me impactou desde a primeira vez que vi. Flores, algo tão feminino, carnívoras, algo tão subversivo ao reino vegetal, especialmente para uma vegetariana convicta como eu. Flores fálicas, coloridas, tão mulheres. Frágeis não por serem como flores, mas flores por serem também frágeis. Coloridas, fálicas, subversivas, delicadas e autossuficientes. Solitárias, mesmo num canteiro coletivo. Mesmo acompanhadas. Mesmo no metrô cheio. Desci na minha estação, e andei os dez minutos que me separavam das escadas rolantes do metrô até a portaria do prédio pensando sobre as revelações e curiosidades incitadas pelo meu som de surpresa ao fim do livro. O que havia afinal de tão surpreendente ali? A surpresa final, a gota d’água naquela caixinha de surpresas maravilhosas e terríveis foi ter visto a lista de nomes, ao final. Sem qualquer explicação. Vários nomes listados. Para leigos ou desinformados, poderia ser qualquer coisa, uma lista de agradecimentos, uma lista de referências, pessoas que sumiram na ditadura argentina, ou teria sido na brasileira? Não, aquelas pessoas não sumiram. Elas se encontraram. Cada qual carrega seu saco de pedras e dores da vida, mas até hoje a vida foi bondosa com aqueles nomes, que cresceram ou se consolidaram na vida democrática. Naquela lista achei meus amigos.

Amigos saudosos, que ficaram para trás na minha mudança para a selva de pedra. Para as entranhas do metrô. Amigos novos e antigos. Muitos ali só conheço de nome, de ouvir falar, de cumprimentar com um ou dois beijinhos em festas dos amigos em comum. E não é a própria autora um desses? Uma amiga de amigos em comum. Alguém com quem me encontrei poucas vezes na vida? Sim, é. Mais é mais. Ela é uma mulher que morde. Uma Alice por opção, que se joga atrás de coelhos em tocas obscuras. Talvez isso não seja uma opção, no final do dia. Talvez algumas mulheres simplesmente sejam do tipo não caseiro, e quando veem, já foram. Eu sei que em algum momento ela já foi, pois ela veio dessa exata selva de pedra onde me encontro agora, e foi se estabelecer nos planaltos concretamente abstratos onde eu nasci. Nos conhecemos sob o céu mais precioso da humanidade, e fui ter certeza de que compartilhamos essa alma de Alice, de mulher que morde, nas profundezas do metrô. Ela se fazendo na minha terra e eu na dela.

Até hoje me pergunto como vim parar aqui. Eu vim. Eu fui. E quando vi, já estava lá. Algumas pessoas pensam demais e fazem de menos. Mas talvez não seja bem assim, talvez essas mais caseiras sejam as que pensam normal. E as que pensam demais, são essas loucas que quando veem já foram, que leem livros nos metros, mudam de cidades, escrevem, pensam, pensam tanto que o pensamento vaza e, em alguns casos, vira livro. No caso dela, virou. Estou certa de que ela ainda está se perguntando se é isso mesmo. Autora publicada? Eu? Sim, Bia queria! É. Sei, porque se fosse comigo estaria me perguntando isso com uma cara muito duvidosa. Sim, Bia. Ela compartilha comigo, além da alma de Alice e dos pensamentos que transbordam pelas pontas dos dedos, a ligação com esse nome mágico. Nunca tive amigas Bias. Conheci muito poucas Bias ao longo da vida. O que é muito curioso, tendo em vista se tratar de um nome razoavelmente comum por aí. Beatriz com Z. Além dessa autora, esse nome me remete diretamente apenas à música do Chico Buarque, à minha mãe. Querida Bia Reis. Outra que mordia, e muito. Mordia a vida em bocadas pequenas, que eram as que cabiam em sua boca, e ainda assim, para seus poucos quilos, eram bocadas maiores do que ela conseguia mastigar.

A Bia não sabe, mas no último fim de semana eu estive pensando na Bia mãe com curiosidades e intenções bem diversas das saudades de sempre. Com a manifestação anticorrupção, vieram também aqueles que pedem a volta da ditadura militar. Espero com todas as forças do meu ser que esses sejam de fato minoria, e que isso não volte a acontecer. Eu, assim como a Bia, cresci na democracia, somos filhas dos anos oitenta, infâncias estabelecidas de fato nos noventa, acostumadas a fazer as próprias escolhas e a dar a cara a tapa sem medo. Mulheres que desde pequenas vieram ao mundo para deixar suas opiniões claras. Mulheres que não sabem esconder seus sentimentos sem, no mínimo, uma úlcera. Do tipo que precisa de liberdade de expressão. Do tipo que transborda pelos dedos em palavras.

Morando perto da Paulista, meu último domingo foi acompanhado do som de helicópteros e de vozes muito agressivas. Vi gente sendo agredido na rua. E, nesse momento, minha preocupação não é partidária. Minha preocupação é com a generalização da violência, com o controle e a deturpação das palavras. Minha indignação vem dos amigos que não podem sair de mãos dadas e se beijar, ou mesmo levar namorad@ ou peguete em casa, pois não serão aceitos pela família ou pela sociedade. Meu medo é da violência crescer tanto, que eu já não possa transbordar pelos dedos um dia. E meu domingo foi consumido por essa inquietude, na qual tudo o que eu mais gostaria, seria sentar com minha Bia, minha mãe querida, e lhe perguntar, como você conseguiu? Quantas úlceras isso não te causou? E obrigada por ter conseguido!

Ainda me refazendo desses sentimentos, na semana que se seguiu sem maiores incidentes, eis que me chega pelo correio o livro da Bia. Como uma transbodadora de palavras por excelência, apoiar a publicação de seu livro foi um ato natural. Um gesto de boa fé, que seria dado a muitos, a outros, mas que a ela foi dado com a confiança de que seria uma excelente recompensa. Li em dois dias. Quinta e sexta. Nesses dois dias também tive aulas no mestrado pela manhã, trabalho à tarde, yoga à noite num dos dias e alunos particulares no outro. Além de estar gripada. O tempo real que tive para ler foram alguns minutos de metrô. E assim me dediquei, esperando que ler o livro de uma paulista no metro linha amarela, fosse de certa maneira, uma homenagem. E eis que lá estavam todas aquelas mulheres dialogando com meus medos, minhas incertezas, minhas inseguranças. E nesse caso específico, não estou falando só de Alices, Sofias, Claras, Lauras, Elenas, Bias ou Juremas. Não estou falando só da angústia do mundo, daquelas que fazia Clarice Lispector escrever sobre a compra do ovo, ou que fazia minha mãe contar os passos para superar a depressão. Não, elas dialogavam com meus medos políticos, com questões familiares, com questões psicológicas e societais. A Bia, autora, não sabe ainda, vai saber quando ler isso, mas a outra Bia, a mãe, teve crise de pânico e depressão, e um dos mecanismos foi contar passos. Eu devia ter mais ou menos uns oito ou nove anos, e lembro perfeitamente dela contando os passos. No meio da tarde, eram no mínimo cem passos no jardim em círculos, só pro tempo passar.

E foi assim, atravessando a Augusta e lendo sobre a 405 sul, que já chegando em casa, eu achei meu nome na lista. E entrei em casa com um sorriso no rosto. Feliz, tão feliz, de ter conhecido melhor aquela amiga de amigos, que já me proporcionou alguns momentos únicos, e que compartilha essa alma de Alice comigo. Parabéns pelo livro, e obrigada pela companhia que me fez através dele nessa selva de pedra, Bia! Suas Mulheres que Mordem vieram na hora certa!

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